11 de março de 2019

Quem quer ser empregada do meu filho?



Ontem foi um bom dia. Dois novos programas de televisão que prometem encontrar o amor. De um lado, na SIC, um grupo de pindéricas que querem namorar com um agricultor ou, em termos mais práticos, querem aparecer na televisão. Do outro lado, na TVI, um programa em que mães tentam desencalhar filhos para, finalmente, conseguirem meter o quarto no Airbnb. O dos agricultores tem paisagens bonitas, com planícies repletas de animais e vacas, e também das de quatro patas que dão leite. Piada fácil e machista, mas estava aqui tão à mão que tive de a fazer. Por isso, vou focar-me mais do da TVI que me parece ter o maior potencial humorístico. Primeiro, vamos aos gajos que querem encontrar a sua cara metade:
  • Um gajo que é barman, mas não quer gajas que gostem de sair à noite e cujo cabelo foi inspirado na capa da revista 100% Jovem de Maio de 1997. 
  • Um agrobeto da Golegã que gosta de ir com o jipe para o meio do mato porque é muito radical.
  • Um com a mania que é garanhão que foi comprar o casaco à Bershka a pensar que era cool e que diz que tem o hobbie da fotografia porque comprou uma máquina DSLR, mas que aposto que usa sempre no automático e usa flash à noite para fotografar paisagens.
  • Um que diz praticar bodyboard a nível nacional, imagino que seja fazer bodyboard em praias portuguesas, não sei.
  • Um com a mania que tem a mania e que trata as mulheres por princesas, o que faz sentido pois parece ter a mentalidade de um macho latino do tempo de D. Sancho I.
Portanto, os gajos são um misto de choninhas com bimbos rejeitados pela Casa dos Segredos; já as candidatas são um misto de badalhocas da margem sul com divorciadas encalhadas que ainda têm um Nokia dos antigos e não conseguem instalar o Tinder.

Sou um gajo prático e que gosta de simplificar e, a meu ver, se chamas princesa a uma gaja que acabaste de conhecer tens logo o visto azul de certificado de otário. No caso delas, se tens unhas de gel com brilhantes e dizes que gostas muito de dançar funk e kizomba e piscas o olho a morder o lábio a um gajo que acabou de te chamar princesa, tens logo também o selo de qualidade da ganadaria de Alcochete. Atenção que não tenho nada contra mulheres sexualmente libertas, acho que deviam ser todas, a questão é que estás num programa para "casar" e não para "acasalar", embora as duas coisas estejam intrinsecamente ligadas. A maioria está lá porque quer aparecer na televisão para depois ir fazer presenças em discotecas. Muitas das pretendentes foram ao Love on Top e a outros reality shows de dating e continuam à procura do "amor". No fundo, ninguém lhes pega e todos sabemos o porquê.

Uma das coisas que criou mais polémica foram as perguntas feitas às candidatas, especialmente por parte das mães dos ranhosos: a pergunta mais recorrente de algumas mãe para as candidatas era sempre: "Sabe cozinhar? O meu filho é de muito alimento." Ele que cozinhe, caralho. Que peça um uber eats ou o raio que o foda. Que meta uma pizza congelada na puta do microondas ou que coma pão de forma sem nada. Só mães a criarem panhonhas que querem uma mulher que seja mãe deles. Se querem uma empregada, sai mais barato contratar uma a tempo inteiro a 7€ à hora que casar sai mais caro e dá mais trabalho.

Estas mães não querem uma nora, querem uma Bimby.

Parece que estavam a fazer uma entrevista para a governanta lá de casa. Sinto que deviam ter feito outras perguntas mais importantes:
  • Sabe fazer o IRS e levar o carro à inspecção sozinha?
  • Não sabe cozinhar, mas sabe fazer os 3 pratos na cama? É que o meu filho é um lambão que mamou até aos 10.
  • Sabe fazer bons felácios? Sabe como é, um homem conquista-se pela boca.
Isto, sim, seria uma mãe preocupada com o bem-estar e a felicidade do filho. Se aceitas que a tua mãe te escolha a namorada, mereces uma estaladão no focinho. A mãezinha leva-te o pequeno almoço à caminha e dá-te à boquinha, é? Também precisas dela na noite de núpcias para te arregaçar a pilinha e apontar ao pipi da mulher? Cambada de coninhas, pah. Estou irritado, embora, por um lado, isto faça com que depois os gajos normais como eu pareçam os mais prendados do mundo só porque sei cozinhar e lavar a loiça.

Se isto fosse um programa em que há honestidade dos participantes, podia ser uma boa experiência social: perceber por que é que num mundo cada vez mais ligado há cada vez mais solidão; por que é que as relações amorosas são cada vez mais descartáveis; mas não: quem participa, salvo raras excepções, quer é fama e entrar no mundo dos profissionais dos reality shows porque não sabem fazer mais nada na vida. Falta sinceridade no programa. Faltou ver uma mãe a dizer sobre algumas candidatas "Ó filho, é gira, sim, mas é um bocado puta, não?". Aliás, foi curioso ver que uma das potenciais sogras gostou muito de uma senhora que tem a bonita profissão de ser filmada a sugar pichotas (se isto não é das melhores descrições para o que é ser actriz pornográfica, então não sei). Nada contra, o corpo é dela e se não sabe cozinhar, ao menos que saiba fazer o resto, mas duvido que a sogra continue a gostar dela quando descobrir que ela tem um filme chamado "Anita estuda para ser puta". Bem, ao menos estudou, certo, não é daquelas putas autodidatas que nem leva a coisa a sério nem faz formações para melhorar; ainda assim, duvido que a sogra goste de uma nora que não faz as lides domésticas, mas que leva com espanadores por dinheiro.

Acho que esta receita de programas de televisão tem muito potencial e sugiro outras opções dentro do mesmo formato:
  • Quem quer mamar da boca do meu filho licenciado em sociologia e que trabalha num call center?
  • Quem quer ter um perfil de Facebook em conjunto com o meu filho?
  • Mais? Podem deixar outras sugestões nos comentários.
Bem, não tenho mais nada a dizer sobre isto. Aguardo os próximos episódios porque o meu guilty pleasure é ver lixo televisivo e depois contar-vos como foi. De nada, não precisam de agradecer este sacrifício que faço por vós. Quer dizer, se querem agradecer, podem comprar bilhetes para ao meu novo espectáculo a solo, cujas datas e bilhetes podem ver neste link.


Bilhetes à venda na FNAC, Worten, teatros, Ticketline e BOL. É ir e partilhar. Obrigado e uma boa semana.

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24 de outubro de 2018

Casados à Primeira Vista: roleta russa



Como opinador profissional do que se passa no mundo faz parte do meu trabalho ver coisas das quais não me orgulho. Uma delas é o Casados à Primeira Vista, novo programa da SIC, cuja versão em estrangeiro já conhecia porque tenho uma mulher em casa que monopoliza o controlo remoto da televisão. Para quem é muito intelectual e se gaba de não ver televisão o programa consiste em casar duas pessoas que apenas se conhecem no altar, depois de passarem numa bateria de testes "científicos" que calcula a sua compatibilidade enquanto casal. É uma evolução face ao Love on Top e Casa dos Segredos que eram uma espécie de "Mamanço da boca à primeira vista". Tal como o Big Brother e esses seus derivados, acho que pode ser um bom estudo sociológico, mas, tal como esses, temo que seja "mais do mesmo" e que se centre apenas nos dramas semi fabricados em prol das audiências e onde os concorrentes apenas querem viagem de lua de mel de borla, presenças em discotecas e descontos na Prozis.

Ao contrário do que seria de esperar, pelo que se viu no primeiro episódio, os participantes não são pessoas muito feias e anti-sociais e aparentam estar dentro da normalidade sem qualquer tipo de défice cognitivo:

  • Temos um casal de um beto surfista que tem uma forma de falar algures entre o atraso mental e o AVC. A maioria das mulheres achará o rapaz bastante atraente, pelo que se depreende que para ter de concorrer a este programa deve ter uma personalidade de merda. Ele está "supê contente", mas a noiva não parece que o vá aguentar muito tempo.
  • Outro dos casais já passou da casa dos cinquenta e ambos deram como qualidade indispensável num parceiro o facto de ter boa higiene. É assim, chega-se a uma certa idade em que os padrões baixam ao ponto em que nos chega estar lavado para considerarmos meter à boca. Prevejo que seja o único casal que vá durar porque ir para um lar sozinho é uma chatice.
  • Outro dos casais é uma sósia da Ana Bacalhau dos Deolinda, mas com ar mais do Cacém. O noivo que lhe calhau parece ser daqueles gajos que se esforça demasiado para ter piada nos jantares de aniversário e que só é convidado para não termos de criar um grupo de WhatsApp à parte.
  • O outro casal, só mostrado de relance, são duas pessoas fisicamente normais, mas em que a noiva diz que não o acha atraente. Há muita gente que é solteira e que assim fica eternamente, não por não haver ninguém feito à sua medida, mas porque apontam demasiado para cima.
Anda uma mãe a educar os filhos e a dizer-lhes "Não aceites doces nem abras a porta a estranhos" para depois os verem casar com alguém que não conhecem.

Tenho algumas dúvidas relativamente à discriminação que o formato do programa pode suscitar. Desde logo, um cego pode participar num casamento à primeira vista? Parece-me que não. Penso que também discrimina os ciganos, pois para eles este programa chama-se apenas "Casamento". Também sinto que se perde uma oportunidade incrível de fazer um programa de apanhados épico. Exemplos:

  • Noivo vira-se e vê a noiva pela primeira vez e percebe que vai casar com uma anã perneta de 150kg.
  • Noivo militante do PNR percebe que a noiva que lhe calhou é negra.
  • Noiva descobre que o noivo é desempregado e não tem dinheiro.
  • Casar dois primos direitos para procriarem e continuarem a gerar participantes para os restantes reality shows.
Tenho muitas ideias que, infelizmente, ninguém aproveita. Por exemplo, sinto que este conceito podia ser aplicado a outras áreas: eu precisava era de um "Mecânico à primeira vista" onde, depois de uma bateria de testes, me apresentavam um mecânico compatível com os meus níveis de exigência que são altos pois passam por ter um mecânico que não me aldrabe. Sou demasiado exigente, bem sei.

Para finalizar, deixo um padrão que encontrei que vos fará pensar que não passa tudo de uma conspiração para as televisões controlarem todos os nossos sentidos. Reparem no que acontece aos domingos à noite na TV:
Casados à primeira vista - visão
The Voice - audição
Pesadelo na Cozinha - paladar

Se pensarmos que os programas de comentários sobre futebol estão cheios de falta de tacto, isto começa a cheirar a esturro. Sou um génio, eu sei.
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17 de outubro de 2018

Quem estaciona em segunda fila merece morrer



Se um monge budista conduzisse em Portugal, esquecia logo aquela mania do voto do silêncio e da calma perante as adversidades da vida e passava-se como qualquer um de nós. Pessoas que não sabem fazer rotundas, que mudam de via sem pisca para cima de nós, que ultrapassam nas curvas sem visibilidade, e tantas outras características do condutor autóctone do nosso país. Já consigo não me enervar muito com esses filhos de primos direitos que andam na estrada, mas há algo que me deixa à beira do homicídio: os estacionamentos em segunda fila. Antes de destilar ódio, vou aqui distinguir os três tipos:

  1. Um condutor que não tem lugar para estacionar perto e só vai demorar trinta segundos a fazer o que tem a fazer. Neste caso, é legítimo e não tenho problemas com isso.
  2. O gajo que vai ao café, estaciona em segunda fila porque não lhe apeteceu perder cinco minutos a estacionar, mas está sempre atento e se alguém quiser tirar o carro ele salta do lugar, automaticamente, e não nos faz esperar. Não faço isto, mas não condeno.
  3. Aquele que se está a cagar. Ora bem, se o carro tem quatro piscas, é para usar, pensa ele; para mudar de via, nunca sinaliza a manobra, mas para estacionar à grande, usa logo os quatro piscas de uma vez como se conferisse ao carro o super-poder da imunidade diplomática. Estaciona em segunda fila e, além de atravancar o trânsito naquela rua, vai ao supermercado ou às Finanças e demora meia hora, sem qualquer problema.
Este terceiro tipo, minha gente, merecia morrer. No mínimo, merecia levar com um ferro em brasa nos nós dos dedos enquanto era obrigado a ouvir Maria Leal em loop durante dois anos.

Estes missing links da evolução humana, estão, no fundo, a dizer-nos que o tempo deles é mais valioso do que o nosso; que esperarmos dez minutos, a buzinar e a chamar nomes a Deus, é melhor do que ele ter de andar cinco à procura de lugar e outros cinco a percorrer o caminho a pé até à porta do Minipreço. Se pensarmos bem, o acto de estacionar em segunda fila não é mais do que borrifarmo-nos para quem tem de esperar e é um exemplo perfeito do que é viver em sociedade: estamos pouco importados com os outros se o inconveniente deles for uma vantagem para nós, mesmo que mínima, mas ficamos arreliados se a outra pessoa não faz um pequeno esforço por nós. Pior ainda porque o estacionamento em segunda fila não prejudica só o dono do carro que estamos a bloquear, mas, muitas vezes, centenas de pessoas que apanham trânsito porque um neandertal está a provocar o caos no trânsito com o seu carro que, em 90% dos casos, é um Mercedes ou BMWs. Vou contar-vos algumas situações:

  • Carro trancado por estacionamento em segunda fila. Olho à volta, ninguém. Buzino uma vez. Nada. Buzino novamente e, mais uma vez, nem sinal de pessoas a aproximarem-se. Era perto de uma escola e calculei que fosse alguém a ir buscar os filhos e estava certo. Passados cinco minutos, que nesta situação parecem trinta, aparece uma senhora com o seu petiz, apressada e logo de longe a pedir desculpa. Olha para mim e diz "Ahhh, gosto muito do seu blogue!". Desarmou-me, claro. Não consigo refilar com alguém que me elogia.
  • Uma da manhã, centro de Lisboa, carro trancado por outro. Buzino. Nada. Buzino uma e outra vez e nada. Vem um senhor ao longe, cantor famoso da nossa praça que não vou referir o nome, a refilar comigo por estar a buzinar. Digo-lhe que tenho o carro bloqueado por outro e ele diz, com voz enrolada e a cambalear, que "toda a gente sabe que o carros estacionados ali são do bar em frente". Perguntei-lhe se estava nos livros de história ou se tinham feito uma reportagem para o jornal da noite para toda a gente saber esse facto, mas ele não percebeu o sarcasmo. Continuou a refilar a dizer que eu estava a incomodar os vizinhos, agarrei no telemóvel e disse-lhe que se não queria que buzinasse iria chamar o reboque. Entretanto, a dona do carro entretanto chegou, pediu imensa desculpa, e ficámos assim.
  • Carro trancado por outro com um bilhete a dizer "Toque no 1º direito". Qual primeiro direito? Havia pelo menos cinco prédios que podiam ser o certo nas imediações. Toco num e nada. Acerto à segunda e uma voz diz que vai já tirar o carro. Chega e nem um pedido de desculpas nem nada, com uma lata gigante, quase que me ignora. Refilo e digo que é um bocado falta de respeito e ela responde-me indignada "Mas eu deixei um bilhete, não deixei?". Digo-lhe que há lugares a menos de cem metros e que o tempo que ela poupou gastou-o agora a descer para tirar o carro o que prova que além de não ter respeito pelas pessoas é má a matemática.
  • Carro bloqueado, buzino e sai um gajo de um café, com dois metros e tatuagens tribais a cobrir os braços do ginásio. Não pede desculpa e desato a chamar-lhe nomes... mas apenas na minha cabeça porque não sou burro como ele.

Dizem que o stress é a doença do século XXI e se o querem resolver, passa por evitar estas situações que nos fazem perder anos de vida em raiva reprimida que um dia terá de extravasar para algum lado. As formigas obreiras da EMEL, em vez de serem tão picuinhas com os estacionamentos bem feitos cujo talão já expirou há dez minutos, podiam investir antes a tratar da saúde a quem está em segunda fila. Rebocar, não era multar só, era levar-lhes o carro para ver se aprendiam. Isso, sim, era preocupar com a mobilidade das cidades e não só caçar multas.

No início, falei em três tipos de estacionamento em segunda fila, mas há mais um: o expoente máximo do burro que é o gajo que estaciona em segunda fila a bloquear carros que estão nos lugares para deficientes. Ora aqui está um tipo de ser humano que está logo apresentado com esta atitude. Por obra do acaso, pode ser que já tenha acontecido um energúmeno destes bloquear outro que estava estacionado no lugar dos deficientes sem ser deficiente, criando assim uma espécie de equilíbrio no universo. Seja como for, não sejam este tipo de pessoa. O vosso tempo não é mais precioso do que o meu.

PS: Vou fazer stand-up em Portimão, Évora e Beja. Reservas neste link.

Também vou estar em Vila do Rei, podem ver mais informações neste link.
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15 de outubro de 2018

Não há ideias estúpidas? Claro que há.



Sempre ouvi dizer que num braintstorm não há ideias estúpidas, mas depois vemos alguns colegas a dar sugestões que só nos fazem revirar os olhos. Isso ou quando dizem que uma ideia que demos não faz sentido, mas depois elogiam outra muito pior só porque foi dita por aquela colega com quem querem fazer funaná pelado. Esse é apenas um dos temas do segundo episódio do Falta de Chá, que podem ver no vídeo em baixo, que conta com a participação especial do grande António Raminhos. Além desse sketch vão poder ver e ouvir a nova boy band feita de padres que gostam demasiado de crianças; versão do Narcos à portuguesa e muito mais. Espero que gostem.




Digam nos comentários qual foi o vosso sketch favorito:

1. Mendigo
2. Bichas heterossexuais
3. Brainstorm
4. Padres Band
5. Bué Definição
6. Dates do Tinder
7. Narcos

Por falar em "mais do mesmo", já sabem, se gostaram, façam o favor de partilhar com os vossos amigos que é mesmo muito importante para nós! Mas só se gostarem, não queremos cá partilhas por pena, ok? Obrigado.
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30 de julho de 2018

Arrumar a casa com a namorada ao fim de semana



Percebi que estou velho e castrado quando este sábado, ao acordar, a minha namorada diz "E se este fim de semana não sairmos e ficarmos a arrumar a casa?" e eu não só digo que sim, como recebo a ideia com bastante entusiasmo. Quando vamos ficando mais velhos, a perspectiva de ter uma casa arrumada deixa-nos contentes e a ideia de acordar a um sábado ou domingo cedo e sem ressaca parece-nos fascinante e faz-nos sentir vivos.


Então, foi com grande euforia interna que lhe gabei a iniciativa pois o nosso pequeno T2 já se assemelhava a uma arrecadação de um T0 cujos proprietários são uma família de furões.

Somos ambos, igualmente, desarrumados, dirá a minha namorada. Concordo, mas o problema é que cá em casa existem muito mais coisas que são dela do que minhas, o que se traduz em muito mais coisas desarrumadas da parte dela. Ou seja, em termos relativos desarrumamos igual, mas em termos absolutos a bagunça com o nome dela é incomparavelmente maior à minha. Ela dirá que não e tentará censurar esta parte do texto, mas serei rijo e comprarei esta guerra em prol da verdade e do humor. Por exemplo: ela tem cerca de 54 vezes mais roupa do que eu - isto fazendo contas por baixo - e usa uma ou duas mudas por dia; eu, trabalhando em casa, ando com a mesma t-shirt três dias seguidos; até escolher o outfit do dia, ela experimenta quatro ou cinco que depois de serem rejeitados não voltam para o sítio onde estavam arrumados; eu, muitas vezes, levo a camisola do pijama por baixo de um casaco para ir passear a cadela ou ir ao café; na casa de banho eu possuo uma escova de dentes e uma lâmina de barbear enquanto ela possui tudo o resto que existe nas três gavetas e dois armários. Só o facto de ela ter malas, muitas como qualquer mulher, faz com que se isto de desarrumar se tornasse modalidade olímpica, fosse uma espécie de Usain Bolt contra um gordo amputado e sem próteses numa corrida de 100 metros.

A casa nem sempre está muito desarrumada; há tarefas definidas: eu faço o comer e lavo a loiça todos os dias, a minha namorada trata da roupa quando eu me queixo que já estou a fazer reciclagem de boxers e meias. O pó ninguém limpa que ele sossegado não chateia ninguém e mais vale deixá-lo quieto a alcatifar as prateleiras do que passar lá um pano e irritá-lo, fazendo com que esvoace e se aloje nas nossas cavidades. Aspirar também é disparate visto que temos uma cadela. Portanto, arrumar prende-se com não ter roupa nem lixo espalhado pela casa, algo que é difícil porque a minha namorada tem alma de coleccionadora, mas como é indecisa quanto ao ramo do coleccionismo ao qual se dedicar, decide guardar tudo. Se formos à casa de banho podemos pensar que ela colecciona embalagens vazias de condicionador de cabelo, recipientes para lentes de contacto ou giletes cheias de ferrugem, mas não: custa-lhe mandar coisas fora. Mandar roupa fora? Isso é uma espécie de pecado capital que nunca lhe passaria pela cabeça. E se a roupa volta a estar na moda? E se os gostos dela mudam? É melhor guardar tudo.


Ela tem dois portáteis, um que funciona e o outro que não liga o ecrã, mas que ela se recusa a mandar fora porque pode precisar um dia, sendo que esse dia está para chegar há mais de quatro anos.

Lá nos preparámos para a epopeia que se avizinhava durante este fim de semana em que o Verão decidiu chegar só para nos fazer pirraça. Arrumar a casa é uma ciência e é preciso planear; temos de traçar uma estratégia que nos permita o menor esforço possível e usando vários algoritmos - que aprendi no curso de engenharia - lá determinei o caminho de custo mínimo e calculei que era melhor arrumar a cozinha primeiro. Arrumei tudo enquanto ela tratou do nosso quarto. Seguiu-se a casa de banho da qual foram extraídos dois sacos cheios de embalagens vazias de cremes e maquilhagem e afins. Nesta operação de limpeza a fundo à qual chamei "Solução Final", abro uma caixa e encontro um molho de cabelo que parecia vindo de um campo de concentração Nazi. Assustei-me ao perceber que podia estar a viver com uma serial killer que mata mulheres, ou homens de cabelo comprido, e lhes guarda as madeixas como troféu, mas não, afinal eram extensões que ela tinha usado uma vez. Como se não bastasse o cabelo natural dela a entupir o ralo do poliban.

O tempo passa depressa quando nos estamos a divertir, demos por nós e já eram quase horas de jantar. Decidimos que já chegava por hoje já que amanhã era domingo e depois ficávamos sem nada para fazer. Acordámos cedo, um pequeno almoço dos campeões com ovos mexidos e bacon para haver energia para o dia inteiro, algo que foi um erro porque sujou muita loiça, a juntar à do jantar que fiz no dia anterior, e lá tive de recomeçar tudo na cozinha e percebi que, afinal, deveria ter ficado para o fim. Tratámos da sala e do resto da casa, e quando estávamos quase a terminar, a minha namorada começou a quebrar, tal como os grandes atletas quebram no último quilómetro da maratona. Ela não faz exercício desde as aulas a que não faltava em Educação Física do 12º ano e eu deixei de fazer desporto há uns três anos, pelo que também não estava melhor, mas não quis dar parte fraca e puxo por ela e digo "Vá, só mais um bocadinho, está quase." numa espécie de personal trainer de empregadas domésticas. Aliás, se os vizinhos estivessem a ouvir a conversa, talvez pensassem que estávamos a fazer sexo em vez de limpezas:

  • "Se começámos é para acabar!"
  • "Anda lá que eu dou-te uma mãozinha."
  • "Tens de esfregar melhor!"
  • "Deixaste isto aqui tudo sujo."
  • "Ainda há espaço para arrumar isto aí dentro?"
Lá conseguimos terminar quase tudo, fora a roupa que falta passar, a roupa que ainda falta lavar e estender depois da outra secar. Entretanto, a cozinha tem mais loiça para lavar e a cadela já urinou no hall de entrada e roeu as fronhas novas da almofada. Moral da história: vamos contratar uma empregada.
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8 de junho de 2018

Tu que percebes de computadores...



Já escrevi algumas vezes sobre o glamour da vida de um informático, sobre a vida de um estudante de engenharia e sobre aquela mítica frase que todos ouvimos, dita por um amigo, pela mãe ou por uma tia: "Olha, meu puto, tu que percebes de computadores..." que antecede o pedido para irmos lá a casa arranjar-lhes o computador de borla.

Partem do princípio que alguém que tirou o curso de informática está automaticamente habilitado para perceber um dos maiores mistérios do mundo que é o facto das impressoras terem vontade própria; acham que um gajo que sempre mexeu em PCs tem de saber tudo sobre Macs; acham que temos sempre os DVDs originais do Windows e do Office, que resolvemos todos os problemas de software e que somos uma espécie de Dr. House que sabe logo diagnosticar se o problema vem da motherboard ou do ecrã. Não sabemos.

Para nós e quando o computador é dos outros, 90% dos problemas resolve-se desligando e voltando a ligar e os outros 10% resolvem-se formatando ou comprando um novo.

Apesar de já não ser informático de profissão, a fama de que percebo de computadores persegue-me e continuo a receber alguns pedidos de ajuda e sinto-me uma espécie de call center sem fins lucrativos. Continuo, também, a receber propostas no LinkedIn porque os recrutadores no mundo da informática são piores do que as testemunhas de Jeová.

Se olharmos para o futuro e para a forma como tudo tende a depender cada vez mais da informática e do software, a tendência destes pedidos será a de piorar. Por exemplo, com a chegada dos carros autónomos, os informáticos vão passar a ser os novos mecânicos, recebendo pedidos de amigos para irmos lá a casa arranjar-lhes o carro que está lento ou que não está a emparelhar bem com o Instagram causando problemas aquando da selfie ao volante. Se pensarmos bem, os informáticos daquelas lojas de arranjo e os mecânicos são parecidos: ambos falam em termos que o comum dos mortais não percebe e para quem não sabe muito do assunto fica sempre no ar aquela sensação de que se acabou de ser roubado.

Com o progresso e o aparecimento dos robôs sexuais, vamos receber pedidos ao género "Meu puto, tu que percebes de computadores, podes vir cá a casa arranjar a minha namorada que está um bocado lenta e anda com mau feitio?". Lá temos de ir a casa do nosso amigo, enfiar um cabo de diagnóstico na namorada dele - que está toda pegajosa - e, afinal, não funciona porque ele se esqueceu de meter o anti-vírus na backdoor. Piada nerd.

Com a Internet das Coisas a tornar-se ubíqua, vamos receber pedidos de ajuda parvos dos mesmos amigos em pânico que nos fazem aquelas perguntas básicas que com uma simples pesquisa no Google ficariam respondidas:

- Meu puto, preciso da tua ajuda! O meu frigorífico inteligente está avariado e não sei quantos ovos tenho no frigorífico!
- Já experimentaste abrir o frigorífico e voltar a fechar?
- Já, mas continua a não aparecer nada no touch screen.
- Sim, mas era abrir, contar os ovos, fechar o frigorífico e deixares de me chatear os cornos às duas da manhã.
- Já fiz! Tenho meia-dúzia! És um génio, meu puto!

É e será sempre a nossa sina. Estou certo de que os médicos também recebem pedidos dos amigos hipocondríacos, mas, no futuro, os médicos vão ser substituídos por inteligência artificial e lá nos vai calhar a nós, informáticos, perceber porque é que a máquina de toque rectal não está a funcionar correctamente. Estamos cá para vos ajudar, mas, em nome de todos que "percebem de computadores", deixo um apelo: pesquisem primeiro no Google antes de nos virem chatear. Obrigado.
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24 de maio de 2018

Marial Leal - Review à nova música e vídeo



Penso que a Luciana Abreu pode ter acabado de perder o primeiro lugar no pódio para a pior música de sempre. Já tinha dito várias vezes que nunca mais falaria da Maria Leal, por já ter escrito tudo o que havia a escrever sobre ela, mas acabei por ceder à pressão de toda a gente que me enviou o vídeo para fazer uma review. Dizem que a melhor terapia para ultrapassar um trauma é falarmos sobre ele e talvez isto me faça bem, porque há coisas que vemos e ouvimos e que não nos deixam dormir descansados se não as deitarmos cá para fora. Por isso, aqui segue o vídeo que podem ver e ouvir à vossa própria responsabilidade. Não o vejam mais do que uma vez e façam pausas de dez em dez segundos, caso contrário podem ter danos cerebrais irreversíveis. Em baixo, a review profissional a que vos tenho habituado.


O vídeo começa com a batida e uma voz a falar em Castelhano porque há que seguir a tendência e em estrangeiro parece sempre menos foleiro. Somos brindados com umas pernas oleadas com azeite rançoso e, de repente, aparece uma mão a segurar um copo. Várias coisas assinalar aqui: mãos de bruxa; aliança na mão esquerda que dá a entender que há uma pessoa ainda com mais mau gosto do que a Maria Leal; uma unha com decalques estilo carro chunning; um copo com rodelas de laranja que devem ter sido cortadas com essas unhacas. Somos presenteados com mais umas imagens da Maria, com uma voz a dizer "Este é o beat para toda a gente, este é o beat do verão".


Não sei se é para toda a gente, talvez seja melhor ser só para os surdos.

Percebemos, aos 14 segundos, que a Maria tem uma tatuagem a dizer Marial Leal, já a pensar na altura em que terá Alzheimer, para não se esquecer de quem é. Também servirá para a identificar em caso de morte, porque assim ninguém terá de olhar para o corpo e cara e bastará ver aquela tatuagem, poupando quem tiver de reconhecer o cadáver.

Nisto, começa a tortura auditiva, com a Maria Leal a gritar "Todo el mundo, cantando". Os mais fracos teriam desistido nesta parte, mas eu bolcei na própria boca, engoli e continuei. E pronto, aparece a tolinha a pedir que a Argentina, México e o Paraguai cantem com ela "Vai, vai vai". Penso que ela não precisa de nos mandar ir a lado nenhum: nós vamos sozinhos para longe. Quero chamar à atenção para o que se segue:

Vai, vai vai,
Vai que o Verão chegou-ou-ou
Vai que o calor começou
go go go

Em termos líricos isto é da mais fina poesia que Portugal já fabricou-ou-ou. Eis que vemos um plano da Maria Leal em estúdio, a gravar a voz, e devo dizer que usar um microfone daqueles para a voz da Maria Leal é como usar uma câmara fotográfica topo de gama para fotografar... a Maria Leal. Continua a letra e ela diz "Vai que está fenomenal". Penso que a palavra fenomenal nunca tinha sido usada numa música, por isso é de gabar a capacidade de adjectivação da senhora Maria, que na verdade é do senhor Sérgio Ventura que foi quem escreveu a letra. Não vamos estar aqui só a fazer bullying à Maria quando há outros que também merecem crédito. "Fenomenal" é acompanhado de um auto-tune e de um eco de uma subtileza equivalente a gordo a comer pipocas no cinema. Se repararem bem, ela deita a língua de fora ao dizer esta palavra, numa espécie de camaleão com espasmos que acabou de sair do dentista e ainda tem a boca dormente.

Aos cinquenta segundos, vemos imagens do estúdio em que a Maria e o Jaimão estão concentradíssimos na produção da música. Há até uma parte em que eles fazem um gesto de "Exactamente, é mesmo isto". Penso que estes sete segundos que vemos foi exactamente o tempo total investido na criação da música e letra e, mesmo assim, não há desculpa. Finaliza o refrão com "Vem curtir com a Maria Leal". É assim, Maria, se for curtir numa de beber uns copos e dançar, numa festa da aldeia, sim senhora, tudo bem, sou gajo para me divertir e curtir um bocado; se é curtir numa de te mamar da boca, mesmo com os dentes arranjados, não vai dar, lamento.


A Maria Leal é das poucas artistas que precisa de auto-tune e Photoshop ao mesmo tempo.

"Estou na adrenalina (?), o meu corpo quer dançar". O teu corpo pode querer, mas nós preferimos-te quietinha e caladinha num canto. Já te vimos a dançar em várias situações e ninguém gosta de ver ataques epilépticos ou alguém a tentar andar com um taser nas cuecas. Prossegue com "Manda vir o segurança que não estou a aguentar". Não consigo descodificar estes versos, mas vou dar várias opções: ela gosta de pinar com seguranças e está que nem se aguenta (talvez devido do taser nas cuecas); não está a aguentar tanta adrenalina e precisa que o segurança a ajude a ir lá fora apanhar ar; alguém está a assediar a Maria e ela precisa que o segurança afaste o rapaz cego que se está a roçar nela.

Não consigo decidir se gosto mais das imagens da Maria à beira da piscina ou dentro dela. Por um lado, nas primeiras, gabo-lhe a coragem de não ter vergonha de mostrar os pneus, já que eu na praia sou daqueles que joga às cartas deitado de barriga para baixo, todo desconfortável, só para não estar sentado e parecer que tenho uma bolsa marsupial com um hipopótamo bebé a dormir lá dentro; por outro lado, é em pé, dentro da piscina, que a Maria solta todo a sua ginga, dançando de tal forma que parece estar numa aula de aeróbica para pessoas especiais. A música continua com "O MC meteu aquele som que trouxe o sol e o calor". Que som é esse? Existe a dança da chuva e o MC do sol e do calor e nunca ninguém me disse nada? Aposto que esse som é a música da Marial Leal que até afasta as nuvens para longe.

Por esta altura os meus ouvidos já pedem um descanso, mas prossigo estoicamente e oiço "Vamos logo ao que é bom, latino mostra o teu sabor", com um auto-tune que parece um rouxinol a ser sodomizado por um elefante. Por volta dos 1:58 minutos a Maria aponta para o monitor no estúdio numa de quem está a dar dicas ao produtor, porque toda a gente sabe que ela não sabe cantar, mas que em música é uma expert. Nisto, Maria começa a dançar no estúdio, com o seu movimento patenteado que se chama "A suricata bêbeda", seguido do "Dança do ventre obstipado".

Por esta altura, o beat muda, mas continua igual, e a Maria entra na última parte da música "Já corres na pista". Não percebo se estamos a falar de uma discoteca ou de uma pista de atletismo, mas pode ser tudo uma bonita metáfora, dizendo que dançar é como correr: quem o faz por gosto não cansa. Enquanto ela canta "O teu charme é demais, vem latino moreno, mostra os teus moves sensuais", aproxima-se um gajo que, inteligentemente, decidiu não dar a cara para o vídeo. A abordagem dele na sedução é tirar-lhe a flor que ela tem na orelha e ela manda-o à piscina, algo que não condiz com a letra, pois assim se percebe que nem os moves eram sensuais, nem ela estava interessada. No fundo, a Maria é uma cock-teaser que provoca e depois dá tampa. Segue com um  "Estou a vibrar e tu vais ficar a conhecer melhor o que eu tenho para dar".


Vibrar não era mau, mas melhor era estares em modo silêncio ou de avião para não termos de te ouvir.

O último minuto e meio é a repetição do refrão até sair sangue pelos ouvidos e termina com um piscar de olho que me irá atormentar nas próximas noites.

E pronto, é isto. Sinto-me sujo e vou ali tomar banho enquanto choro enrolado em posição fetal. Este texto está na linha ténue entre o humor e o bullying, admito, mas acho que quem faz músicas destas tem um bocadinho de culpa e até agradece que se fale neles. Peço desculpa por vos ter obrigado a ver, mas podem fazer como eu e partilhar o texto para dividirmos o sofrimento por todos. Obrigado.
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21 de maio de 2018

Globos de Ouro 2018 - O pior da Passadeira Encarnada



Como tem vindo a ser hábito, no dia seguinte à gala dos Globos de Ouro acontece o evento mais importante do ano: o meu comentário às roupas da passadeira vermelha ou, melhor, encarnada. É aquela noite em que solto a blogger de moda que há dentro de mim e comento outfits e looks. É sempre giro, porque posso andar o ano todo a fazer piadas com assuntos sérios, mas é com este texto que tenho mais mensagens de ódio e ameaças de processos em tribunal. Pelos vistos, fazer humor com pessoas privilegiadas que arriscam tudo na hora se se vestir, mas depois têm um ego de uma andorinha e ficam ofendidas com piadas de um gajo que não percebe nada de moda, é que é ofensivo. Vamos lá começar o alambique de veneno.


As fotografias são cortesia da fotógrafa Inês Costa Monteiro, da revista de lifestyle NiT, e podem seguir o trabalho dela no Instagram e no Behance.

O Manuel Marques é um actor camaleónico, mas nada disto seria possível sem a qualidade da caracterização do Alxeredo. 

Aquela pose obrigatória para quem tem uma racha no vestido. Gosto do look taxista vintage, com os dedos todos cheios de cachuchos, mas parece-me haver ali uma nódoa negra no braço. Noite bem passada ou violência doméstica? Alguém que chame o Hernâni Carvalho para investigar.

Aqui está ele. Nunca falha, onde há crime ele aparece logo a promover o seu livro. Claro que não podia faltar a este evento onde a classe é assassinada com requintes de malvadez e o estilo é sodomizado à bruta.

Calma, Cláudia. Isto não são os Globos de Ouro dos Estados Unidos da América. Estamos em overdressing. Ir assim vestida para os Globos de Ouro tugas é como ir de fato para uma entrevista de emprego de um call center.
  
Pow pow pow. Tenho algum receio de criticar as roupas das pessoas que não são brancas, pois da última vez acusaram-me de racismo. Por isso e só para chatear, vou reutilizar a piada do ano passado: o preto, afinal, não dá bem com tudo.

Vencedora do prémio revelação. Filha do Rui Bandeira, tem melhor voz que o pai, mas o pai tem melhor cabelo do que ela. Tem 16 anos, mas está vestida à septuagenária. Estas influencers do Instagram andam a perder qualidades. 

Loiro com dourado e com pele pálida. Alguém que faça uma correcção de cor e aumente o contraste desta senhora que não tarda está com a opacidade a 50%.

O look do Ricardo Carriço é patrocinado pelo cancro de pele. Aquela cor é solário a mais. 

Achei bonito a Lucinda ter feito uma extreme makeover a um sem-abrigo e ter-lhe dado a oportunidade de vir comer uns croquetes.

Ou é perna à mostra ou é side boob. Os dois ao mesmo tempo só no Urban ou num encontro do Tinder. Gosto do detalhe de levar na mão o estojo de primeiros socorros, não vá alguém ter baixo açúcar e classe no sangue. Os Globos de Ouro são patrocinados pela Opticalia e por aquele cirurgião que mete mamas.

Não sei quem é, mas deve ser ilusionista e está aqui a apresentar o seu grande truque de magia: conseguir uma mulher muito mais gira do que ele. Isso ou é rico, também pode ser isso. Buh, machismo! 

Feia. Horrível. Nojenta.
(este comentário foi-me ditado pela minha namorada) 

Existem as outras e depois existe a Lili. Com os seus 305 anos continua impecável e está prestes a tornar-se na primeira estátua de cera viva. Ali, com o pezinho à mostra como quem ainda nem passou dos 80 anos, saia reciclada do cortinado lá de casa que comprou em plena primeira guerra mundial. Mandara-me 40 fotos da Lili e em todas tem a mesma expressão. 

Calma, Conceição Lino. Isto não é a ante-estreia dos Avengers, nem é para fazer cosplay. És uma alface do Lidl? A cair na própria ratoeira que montou, sofrendo bullying do estilista que lhe disse que o vestido era bonito e o pior é que toda a gente vê e ninguém faz nada. 

Era um gin tónico, por favor.

Decotes pronunciados sem mamas é como cego usar óculos graduados. 

Ir ao Chapitô roubar cortinados é feio. 

A Bumba na Fofinha está em todo o lado. PS: não é a Bumba, achei que era óbvio, mas pelos vistos há quem pense que sim.
E começa o freak show. Convosco, o sítio do Picapau Amarelo. Acho corajoso da parte da bruxa da pequena sereia deixar o preto e o roxo e arriscar no amarelo.   

Quando a tua prioridade é comprar colares e jóias e não arranjar o dente que te falta na cremalheira. Quando nos perguntamos "Mas esta gente não escolhe a própria roupa? São sempre os estilistas a vesti-los?" temos aqui a razão. Quando eles se tentam vestir sozinhos dá merda. A da direita vem vestida de ecoponto azul, mas para onde as pessoas deitam comida estragada na mesma. O da esquerda vem vestido com o look que gosto de chamar "Gosto de bullying".  
  
Quando pensavas que ias ao casamento do Toy com after party na discoteca Kaxaça. 

Tenho flores nos sapatos, mas olha eu aqui a ser bué macho e a segurar na minha gaja ao colo.

Depois dos dourados do ano passado, este ano o Luís Represas veio mais discreto.  
  
E pronto, depois da passadeira vermelha seguiu-se a gala que teve como ponto alto o mamanço da boca de César Mourão ao José Fidalgo (porque entre homens não é assédio) e o prémio de mérito e excelência ao José Cid, mais do que merecido. Para o ano há mais.

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25 de abril de 2018

Se a revolução fosse em 2018?



Se a Revolução de Abril fosse hoje:

22h55 – É transmitida a canção “A ditadura parte-me o pescoço”, de Agir, como primeira senha combinada pelos revolucionários.

00h20 – É dada a senha definitiva “Olha a revolução!” de Mc Kevinho.

00h30 – É criado um evento de Facebook a convocar toda a gente para a revolução, mas ninguém diz que vai.

01h00 – Na tentativa de criar engagement na revolução, vários influencers digitais são pagos para colocarem stories no Instagram. Usam a hashtag #Revolussão

02h00 – O engagement na revolução continua fraco e por isso o nome do evento é alterado para Revolution of the 90’s e as partilhas e inscrições começam a surgir em grande número.

03h00 – Uber e Cabify lançam cupão de desconto REV20 que dá 20% de desconto a quem quiser deslocar-se para a revolução com os seus serviços.

03h10 – A Prozis chega-se à frente para patrocinar a revolução com oferta de batidos de recuperação pós revolução.

03h30 – As pessoas saem de casa atrasadas porque estavam a escolher o melhor look para a revolução.

04h00 – Os comunicados das forças revolucionárias são passados por áudio em grupos de WhatsApp, juntamente com o negão do mangalhão.

07h30 – As pessoas começam a chegar ao local da revolução, com duas horas de atraso devido ao trânsito.

08h00 – O local da revolução teve de ser alterado porque o Quartel da GNR acabou de ser transformado num hotel de charme.

08h45 – Revolucionários do Porto refilam porque a revolução está a ser feita em Lisboa.

10h00 – As Capazes protestam a falta de diversidade na revolução.

12h30 – O revolucionário com mais influência nas redes tenta discursar para a multidão, mas o som do megafone é abafado pelo barulho dos motores dos tuk-tuks.

13h00 – A revolução está cheia de crianças porque alguns Youtubers viram que estava trending no Twitter e decidiram fazer um vídeo para terem visualizações.

14h00 – Apesar de ter sido pedida uma revolução pacífica, a população veio armada com paus de selfie.

15h30 – É dado o cognome de revolução da selfie e o filtro oficial é o Nashville. As pessoas apressam-se a tirar selfies para quando lhes perguntarem onde estavam no 25 de Abril terem provas, caso contrário é como se não estivessem lá estado.

16h00 – As hashtags mais utilizadas são #RevolutionPorn #MeMyselfAndTheRevolution #SimplesmenteEuNaRevolução

17h30 – Aparece o Primeiro Ministro, tenta discursar, mas ninguém sabe quem ele é e toda a gente aproveita para fazer uma pausa na revolução e lanchar um hambúrguer gourmet.

19h30 – A revolução recomeça em forma de flashmob ao som de Despacito. Há quem dance o eskema porque pensa que está em 2001, altura em que o eskema também não era fixe.

20h00 – Começam os jogos de futebol da jornada, volta tudo para casa e fica tudo na mesma.

E é isto. Viva a liberdade, especialmente para dizer palermices.
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4 de abril de 2018

10 tipos de pessoa na viagem de finalistas



Por esta altura, milhares de estudantes do secundário abandonam o ninho para irem para o estrangeiro beber fora do alcance dos pais. Apesar das diferenças: alunos de colégios ricos vão para uma estância de ski ou para o México e alunos de escolas públicas do bairro vão para Lloret Del Mar (como foi o meu caso) ou para a Praia da Rocha; o tipo de pessoas que se vê por lá são os mesmos porque, no fundo, com ou sem dinheiro, somos todos iguais.

O que nunca apanhou uma bebedeira
Melhor aluno da turma, certinho e que não falta a uma aula. Os pais foram despedir-se não só até ao autocarro, mas até à estação de serviço de Aveiras enquanto a mãe chorava como se estivesse a mandar o seu filho para combater as milícias armadas da Síria. Os outros já bebem e fumam no autocarro, mas ele vai a fazer os trabalhos de férias de Páscoa que a professora de matemática passou. Enquanto os outros se embebedam todos os dias, ele vai bebendo coca-colas nas discotecas e pagando mais por águas do que os amigos por cerveja e vodkas. É gozado por todos, mas diz que não precisa de álcool para se divertir até que na última noite, decide experimentar. Bebe até ficar em coma, vomita para cima de pessoas, dança em cima da coluna e baixa as calças no meio da pista de dança. Grita em plenos pulmões que é a melhor noite da vida dele, mas no dia seguinte não se lembra de nada. Felizmente, os amigos filmaram tudo para ele perceber que pode divertir-se sem álcool, mas que com álcool se diverte, francamente, mais.

O gajo da agência
O gajo mais velho e cool que só tem este trabalho para comer gajas do secundário. Ganha pouco, por isso tem um negócio paralelo de venda de droga aos estudantes.

O garanhão
Diz já ter rodado meia escola de Loures, apesar de estudar na Amadora. Vai para a viagem de finalistas de dez dias munido de dez embalagens de doze preservativos. Desaparece a meio da noite e aparece no dia seguinte de manhã com histórias de ménages com duas espanholas e um anão maneta que usava o coto de forma sexual. A verdade é que foi dormir à praia sozinho só para conseguir inventar a história e vem da viagem com os pacotes de preservativos intactos e virgem na mesma, mas com SIDA porque dormiu em cima de uma seringa na areia.

A coleccionadora
A coleccionadora é o garanhão no feminino, mas como é mulher e devido à falta de critério dos homens, basta-lhe querer e não se assemelhar a uma avestruz atropelada. Depois de meia dúzia de Pisang Ambon com sumo de laranja, entra em god mode e faz uma espécie de rampage killing spree pela discoteca, beijando tudo o que mexe, chafurdando e mamando da boca de todos os gajos como se fosse um antílope que acabou de encontrar uma poça de água no deserto. Acaba na casa de banho com dois gajos e volta para o hotel com o gajo da agência, numa espécie de triatlo da putaria. O único gajo que não varre é o choninhas que é apaixonado por ela desde o 9º ano. Enquanto os outros trazem ímanes para o frigorífico como souvenirs, ela traz como lembranças um feto de pai incógnito, herpes e hepatite C.

O casal
Cedo se apercebem que namorar é bom, mas não numa viagem de finalistas. Sim, a viagem de 18 horas de autocarro foi mais confortável porque iam de mão dada e dormindo com a cabeça no colo um do outro, mas chegando lá percebem que levaram areia para a praia. São os únicos que fazem sexo na primeira noite, é certo, mas acabam por discutir porque o rapaz foi beber um shot do umbigo de uma das bailarinas ou porque ela simulou sexo oral com o barman para ter uma pulseira com bar aberto.

O investigador
O gajo que leva tudo preparado de casa. A primeira pesquisa que fez no Google foi "Melhores gajas de Benidorm" e gostou do que viu. Sabe o preço de todas as bebidas nas discotecas, os horários de abertura e fecho, e quais as zonas onde se pode comprar droga. O melhor investigador é o repetente que já conhece as ruas da cidade pelo nome porque é a terceira viagem de finalistas a que vai.

O decorador de interiores
É um gajo que tem alma de designer de interiores, mas que tem medo que julguem a sua exuberante heterossexualidade, acentuada por um buço que recusa desfazer, e, como tal, em vez de rearranjar os interiores do quarto de hotel com delicadeza, resolve fazer remodelações à Rambo: a televisão não combina com o papel de parede, então é atirá-la para a piscina; o colchão não é de gel viscoelástico, então é abrir ao meio e enchê-lo de placas de haxixe que se adaptam à forma do corpo; as portas do quarto são para mandar abaixo e as paredes para esburacar e fazer um T2 com o quarto do lado que fica mais arejado. Acaba por fazer com que toda a turma seja expulsa e volte mais cedo para Portugal sem receber reembolso.

O imortal
Tem pulseiras de todas as discotecas da cidade e colecciona t-shirts de todos os pubcrawls. Está sempre bêbedo numa espécie de energia perpétua e quando parece estar, finalmente, a quebrar, bebe um shot de tequilla e renasce para a festa, qual fénix que se baba e cambaleia. Gaba-se de não ter ressacas e todos os dias de manhã conta a toda a gente quantas e quais as bebidas que bebeu, num relatório detalhado.

O não vi nada
O gajo que pagou o mesmo que os outros, mas que não usufruiu de nenhuma das viagens e extras porque dormia até o sol se pôr. Ir a Andorra esquiar? Não deu, muito cansado. Ir comer frango assado com as mãos no jantar medieval? Não deu, muita azia e sono. Ir ao PortAventura? Estava de intoxicação alimentar.

O acrobata
Há sempre um gajo com alma de artista circense cuja única positiva foi educação física e que tirou zero a geometria descritiva e, por isso, tem boa capacidade atlética, mas pouca noção das distâncias. Já com os copos, decide saltar da varanda para a piscina para impressionar as miúdas. Consegue impressionar toda a gente porque um cadáver escarrapachado com a mioleira de fora à beira da piscina mete muita impressão.

E é isto. Uma boa viagem de finalistas se for caso disso e tenham juízo, seus mamutezinhos alcoólicos.
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