14 de dezembro de 2017

Sou do tempo do MSN Messenger



Algures entre o mIRC e o Facebook, existiu o MSN Messenger. Os mais novos nem saberão o que isso é, mas para muito boa gente foi o primeiro grande sistema de conversação a ser usado por todos os nossos amigos. Ao contrário do mIRC, que vivia do contacto com estranhos e javardeira no canal, o MSN era para conversas a dois, embora muitas ao mesmo tempo, e só tendo o email da outra pessoa. Vamos a um momento de nostalgia e recordar o que todos fazíamos no MSN.

Meter indirecta no estado
No tempo do MSN não havia feed de notícias, mas já existia a necessidade de enviar indirectas a alguém. Utilizava-se o "estado" para tal efeito que aparecia à frente do nosso nome, ou nick. Muito antes da praga das indirectas no feed do Facebook, em forma de frases feitas ou citações manhosas, já havia quem usasse essa funcionalidade do MSN para enviar aquela boca pouco subtil. Quando alguém colocava "Me, myself and I" ou "As pessoas só me desiludem por isso é que cada vez mais gosto de animais" já sabíamos que alguém tinha ficado solteiro. Gostava de ter acesso ao histórico dos meus estados no MSN, só para sentir aquela vergonha e ir chorar para o banho em posição fetal.

Dar um toque
Enviavas uma mensagem para alguém e não obtinhas resposta? Não havia cá a mariquice de saber se a mensagem tinha ficado vista - como hoje existe no Facebook ou no WhatsApp - então o que fazias? Mandavas um toque que abanava e tocava uma campainha do outro lado do ecrã. Sabem aquelas pessoas que ao vivo te espetam o dedo na parte superior do braço e dizem «Olha, olha, estás a ouvir? Estás a ouvir?»? Era isso, mas versão digital. Usada por gente chata e insegura, a mesma que liga trinta vezes para o telemóvel quando não atendes à primeira.

Fechar a janela 
A certa altura, com alguns add-ons, dava para saber quando a outra pessoa fechava a janela de conversação. O MSN era uma porteira cusca que destruiu muita relações. Sabendo que a outra pessoa tinha essa funcionalidade activada, o que se fazia? Fechava-se a janela de propósito para a outra pessoa saber que não estávamos assim tão interessados, pois está claro. Era a nossa forma de nos fazermos de difíceis no mundo digital e ter a certeza que a outra pessoa percebia isso. O pior era quando a outra pessoa fechava a janela primeiro e perdíamos a oportunidade de lhe esfregarmos na cara.

Meter offline
«Adeus, vou dormir.», dizíamos àquela pessoa chata e a seguir colocávamos o estado como offline, mas continuávamos a falar com quem nos interessava. Quantas vezes fui dormir as 21h porque estava cansado, mas na verdade fiquei até às 4h da manhã a tentar ensinar a AninhasBlondie a ligar a webcam? Ah, bons tempos.

Logout e login várias vezes seguidas
Comportamento típico de todos os utilizadores do MSN. Para quê? Para termos a certeza que a nossa crush via a notificação de que tínhamos acabado de entrar, a ver se vinha falar connosco ou para a ex-namorada perceber que estávamos por lá, mas que não lhe falávamos. Imaginem isto na vida real: entram num café e vêem lá uma pessoa de interesse; passam pela mesa dela, saem do café e voltam a entrar e passar pela mesa dela, sem nunca olharem nem dirigirem a palavra. Desde os primórdios da Internet que as pessoas se comportam no mundo digital como nunca se comportariam na vida real, sob risco de serem internadas num manicómio.

O que ias dizer?
No mIRC e no ICQ não havia a funcionalidade de "Loukita69 está a escrever" que aparece agora em qualquer chat, em tempo real, enquanto a outra pessoa está a teclar. O MSN foi o primeiro a implementar isto que, mais uma vez e como tudo de bom que é inventado pelo ser humano, foi usado para fins pérfidos: carregar em teclas aleatórias e apagar só para dar nó na cabeça da outra pessoa e ela ficar a pensar no que iríamos escrever. Não íamos dizer nada, foi só para deixar a marinar na cabeça dela que tínhamos algo para dizer que não tivemos coragem, testando assim as águas a ver se nos estávamos a mandar para fora de pé ou não.

Será que estou bloqueado?
Já há muitas noites seguidas que não vislumbrávamos a LobitaKida e começávamos a pensar se estaríamos bloqueados. Ficar na dúvida para sempre? Não. Perguntar, subtilmente, a um amigo em comum se tal fulana estava online. Se a resposta fosse afirmativa, sabíamos que tínhamos sido bloqueados. Os stalkers de hoje eram os que iam a correr criar outra conta com outro email e adicionar a LobitaKida para pedir explicações, mostrando assim que ela fez bem bem bloqueá-los.

Editar tudo
O Facebook aprendeu com os erros dos outros. Dar possibilidade às pessoas de personalizarem os seus perfis é um erro que o MSN e o Hi5 cometeram. Parece giro, ao início, poder alterar o fundo das janelas de conversação, o tipo e cor da letra do chat, mas chegava-se a um ponto de não retorno que fazia o MSN parecer as unhas de gel de uma Jéssica da Brandoa. Tipos de letra desenhados e em tons de azul ou rosa, consoante o sexo, estados com mil emoticons - os antecessores dos emojis - e fundos com paisagens de mundos de fantasia. Mostra-me as tuas personalizações do MSN e dir-te-ei quem és, podia ser o ditado da altura. És foleiro como a merda, seria a resposta para todos nós.

Enviar uma música
A estratégia de engate mais antiga do MSN. A partir do momento que duas pessoas começavam a trocar músicas, era porque estava tudo encaminhado para haver festa rija. A diferença para hoje, é que enviar uma música demorava vinte vezes mais tempo do que o acto sexual em si, mesmo que fosse tântrico. Eram horas naquilo até, por volta dos 98%, crashar quando a nossa mãe pegava no telefone para ligar à nossa tia e mandava a Internet a baixo.


Aos poucos, fomos fazendo login e vendo que havia cada vez menos amigos online e que o MSN se estava a tornar numa espécie de cidade fantasma, com nicks e estados datados. Fomos resistindo até que tivemos de nos mudar para o Facebook e perceber «Ahhh, então é aqui que vocês andam!».
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30 de novembro de 2017

Grávida, velho ou deficiente: quem tem mais prioridade?



Ontem, estava na fila no Pingo Doce, logo após a notícia da morte do Belmiro de Azevedo, só para fazer pirraça e ver se o gajo dava uma última volta no tabuleiro da morgue, e uma senhora com um bebé ao colo perguntou-me se podia passar à frente. «Claro que sim.», respondi-lhe, e dei por mim a pensar na nova lei da prioridade nas filas dos supermercados e outros serviços. No ano passado, acabaram-se as filas prioritárias e em todas elas é obrigatório ceder passagem a grávidas, pessoas com crianças de colo, pessoas com deficiência e idosos com limitações visíveis. O facto de tudo isto ter de estar na lei diz muito de nós enquanto espécie humana. Seria natural que dar a prioridade a alguém que tem mais dificuldades do que nós fosse um impulso que não precisasse de ser legislado. No entanto, tenho algumas dúvidas, muitas delas parvas, mas sobre as quais me apetece filosofar um pouco. Como organizamos as prioridades dentro das pessoas com prioridade?

É tipo pedra, papel, tesoura? A grávida ganha ao deficiente e o deficiente ganha ao velho manco?

É preciso esclarecer as pessoas para que não haja equívocos. A meu ver, a grávida e o acompanhante de criança de colo deveriam ficar para último lugar. Porquê? Ter filhos, embora muita gente pense que não, é uma escolha. Não é uma obrigação e sendo que o aborto é legal, também não é um acidente. É uma escolha e as escolhas não deveriam ter prioridade. Não acho que as grávidas sejam assim tão especiais. Engravidar não é uma cena muito complicada, qualquer pessoa com QI de uma ameba consegue engravidar, infelizmente. Até acontece por acidente, não é preciso técnica, nem planeamento: é só serem irresponsáveis ou estarem com um gajo que não se controla e não tira a tempo. Podemos, até, dizer que ter filhos é um acto de vandalismo no mundo actual. Um gajo paga dez cêntimos por um saco de plástico, mas dão prioridade a quem está a gerar um ser que vai poluir o planeta? O meu maior feito de activismo será não me reproduzir e assim ajudar a acelerar a extinção da espécie humana. Quando morrer, quero na minha lápide o epitáfio «Sempre se preocupou com o planeta: comprava sacos de papel reciclado e não teve filhos.».

Se as grávidas estão sempre a tentar explicar que não estão doentes, então talvez fosse natural que uma pessoa enferma tivesse prioridade sobre elas, não? Cenário: estou com febre alta e tive de ir comprar um franguito daqueles manhosos do Pingo Doce porque não estava capaz de cozinhar, será que tenho direito a passar à frente? É que para ir comprar um frango daqueles é sinal que estou mesmo mal e a febre me está a causar demência! Quem devia ter prioridade? Eu, com febre, que fui comprar fraldas para a minha avó que está de diarreia ou uma grávida de quatro meses, com saltos altos, que foi comprar gelado de chocolate porque estava com desejos que é como quem diz que está a aproveitar a desculpa da gravidez para ficar um mamute com bócio? E tentar perceber se a senhora atrás de nós está mesmo grávida ou é só gorda? Na dúvida, prefiro passar por gajo que não cede o lugar proactivamente do que destruir o ego da senhora, embora lhe bastasse ter um espelho para perceber que o erro foi legítimo. Agora que já provoquei uma onda de revolta nas grávidas sem sentido de humor, vamos aos deficientes. Tem de haver uma hierarquia!

Por um lado, o gajo paraplégico devia ter prioridade sobre um gajo que é só coxo, mas, por outro, o primeiro fica na fila à espera sentadinho.

E os cegos? É tudo a enganá-los. «Até lhe dava a minha vez, mas estou grávida de nove meses.», diz o senhor Alfredo com voz fininha. No outro dia, atrás de mim, estava uma rapariga de muletas e ferros nas pernas, com uma máscara cirúrgica, e com um olho que tinha bazado para Marte sem bilhete de volta. Mal vi aquele combo de deficiência, perguntei-lhe «Quer passar à frente?» e ela responde-me, algo confusa, «Porquê?». Epá, parecia-me óbvio que não era porque me estava a fazer a ela devido aos seus bonitos olhos, olho, vá. Tinha ali pelo menos duas ou três razões para lhe dar, mas fiquei com receio que levasse a mal e então disse «Só tem esses dois artigos para pagar, eu tenho muitos.». Ela agradeceu e passou. Ufa.

Agora que está lançada a ira nos deficientes sem sentido de humor e sem uma ou outra parte do corpo, viremo-nos para os velhos. No Pingo Doce de Alvalade, a quantidade de idosos com dificuldades em manter-se vivo é absurda e pode acontecer (como já me aconteceu): estar apenas uma caixa aberta, chego lá para pagar as minha coisinhas e aparece uma velha com joenetes; deixo passar à frente; depois aparece um velho com marreca; deixo passar; depois aparece outra velha de muletas; deixo passar; depois uma mãe com um filho de quatro anos e pega-o ao colo e pede para passar; deixo passar a revirar os olhos; nisto, vêm mais duas velhas, pouso as minhas compras e vou-me embora. A única forma de ser atendido naquele dia seria esperar até ser velho ou procriar com alguém lá dentro e esperar nove meses para ter uma criança de colo e ser atendido. Sinto-me sempre constrangido quando vejo uma pessoa de idade atrás de mim e pondero ceder-lhe a vez: por um lado, lembro-me de todas as vezes que estive na caixa multibanco à espera que alguém de idade avançada pagasse as contas todas da vida desde 1934 e apetece-me vingança; por outro, sinto que posso ser ofensivo em perguntar se quer passar à frente. Uma vez, disse a um senhor para passar e levei um sermão do género: «Não estou velho! Tenho 82 anos, mas estou de muito boa saúde! Velhos são os trapos! Tenho mais energia do que quando andava a matar pretos em África... bons tempos.». As pessoas, por vezes, esquecem-se que também há velhos idiotas.

E os gordos? Ah pois, vou ter de dar prioridade aos gordalhões que andam naquelas scooters? Era o que faltava. Quanto mais tempo esperarem ali é menos tempo que estão em casa a comer donuts com banha de porco. No entanto, faz sentido darmos prioridade aos cachalotes de duas pernas que andam por aí, sendo que a obesidade é uma doença.

Enquanto sociedade, temos de nos decidir sobre um paradoxo: ou a obesidade é uma epidemia que deve ser combatida, ou as modelos XXL são um exemplo para a sociedade.

Não dá para ser os dois, minha gente. Modelo XXL é tipo irmos comprar uma casa e o vendedor dizer «Este aqui é o nosso andar modelo XXL.» e pensarmos que é por ser mais espaçoso, mas não: é porque está cheio de humidade e a precisar de obras.

Por fim, deixem-me repetir que nunca foi preciso haver lei para que cedesse o meu lugar a uma grávida, a um deficiente, a um idoso, ou a qualquer pessoa que me parecesse em maior dificuldade do que eu e/ou com muito menos compras para pagar. Todavia, o facto de no dia a dia ser boa pessoa, não me pode impedir de ser uma besta aqui. Sinto que ofendi muita gente com este texto. Estou feliz. Podem refilar nos comentários, que responderei dando prioridade aos que tiverem mais cara de coninhas.
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27 de novembro de 2017

Review ao novo vídeo da Ana Malhoa



Como sabem, sou uma espécie de media partner não oficial da Ana Malhoa e sempre que sai um videoclip da nossa musa tropical latina urbana, sinto-me incumbido de fazer uma review. Tem sido assim desde que a Ana Malhoa ficou turbinada e a cada novo vídeo inundam-me a caixa de mensagens de azeite. Não gostando de defraudar quem segue o que escrevo, aqui fica a review da nova música - Ampulheta - e respectivo videoclip da nossa diva. Se ainda não viram o vídeo aqui fica para estarmos todos em pé de igualdade:


O vídeo começa com imagens de drone do que parece ser um deserto. Imagens bonitas que nos fazem pensar que nos enganámos no vídeo, mas que aos 16 segundos, com a entrada do beat de carrinhos de choque com tuberculoso, nos faz descansar e acreditar que estamos a ver o novo vídeo da Ana Malhoa. Vemos uma ampulheta e um fade que revela a musa latina portuguesa! As imagens vão alternando entre o tal deserto que deve ser na Fonte da Telha e uma zona que parece uma pedreira ou uma zona de Lisboa em obras.

Como em qualquer vídeo clipe deste género, a artista tem de apresentar várias indumentárias para que não se note que a música é repetitiva. Ana aparece-nos de várias formas:
  • Enrolada numa toalha dourada, como quem acabou de sair do banho ou foi coberta com uma manta térmica para evitar hipotermia;
  • Uma espécie de vestimenta islâmica em que a parte de cima respeita a lei Sharia com a utilização do niqab, e a parte de baixo é da colecção Outuno/Inverno da casa da mãe Kikas. Não sendo nenhum Cláudio Ramos, penso que este modelito favorece a Ana. Todavia, parece-me perigoso que a nossa bomba latina adopte vestimentas islâmicas. Já a estou a imaginar a passar na segurança dos aeroportos e perguntarem-lhe "Transporta consigo algum material explosivo?" e a Ana dizer "Si, soy yo! Lá bomba latina! Subelo!".
  • Temos ainda o outfit em que Ana tem a cara coberta de brilhantes ou uma espécie de talha dourada como se tivesse acabado de participar num bukkake com extraterrestes.
  • Mais no final do vídeo ainda vemos uma ou outra vestimenta diferente, sempre em tons de dourados porque é a cor mais bimba do mundo e porque fica bem com a areia do deserto. A única coisa que se mantém são os saltos-alto agulha que toda a gente sabe que são o calçado ideal para os desertos. Quando há areias movediças, toda a gente equipa os seus camelos com stilettos.
O vídeo continua e vemos um cavalo. Porquê? Porque um dromedário rebentava com o orçamento e para camelo já basta quem escreveu a letra da música.

Não sei até que ponto sujeitar um cavalo a ouvir Ana Malhoa pode ser considerado maus tratos na conjectura da nova lei, mas parece-me que aquele equino estará a pensar «O meu primo zé é que está bem lá nas touradas que levar uma marrada de um touro ao pé disto é para póneis.».

Ao lado de Ana aparecem três homens suados a dançar. Os bailarinos têm a cara tapada e aposto que foram eles a sugerir «Ó Ana, o que era giro era criar aqui uma metáfora para a igualdade de género e termos os homens também de cara tapada, o que achas?». Na verdade, disseram isso para ninguém os reconhecer como bailarinos da Ana Malhoa que toda a gente sabe que tal profissão orgulha tanto os pais como ser stripper num snack bar da Reboleira.

Nisto, a batida começa a ficar mais intensa - o que anuncia a chegada do refrão - em que a senhora Malhoa diz "Ampulheta!". Agora, vou dizer-vos o que me parece ser dito e vai ser o que vocês vão passar a ouvir sempre que a música tocar. O que eu oiço é: "É punheta!". Ora vão lá ouvir a parte do refrão e digam-me se não é verdade. O que faz sentido, pois acredito que seja o que muita gente faz ao ver os vídeos da Ana Malhoa, recordando os tempos em que ela fazia as delícias da criançada com o Buereré. Isto é que é acompanhar o crescimento do público e há poucos artistas a fazê-lo como a Ana. Em 1994, os seus fãs entoavam "A E I O U" e agora, passados 23 anos, dançam ao som do "É punheta!".

O resto da letra resume-se a três quadras repetidas até à exaustão, mas devo dizer que rimar "manha", com "manhã", "lenha", "senha" e "até que eu me venha" é uma boa sequência de rimas. Um gajo tem de ser justo. No entanto, na parte "Vira-me ao contrário" tenho algumas dúvidas. Virar ao contrário como? De costas? A Ana já está de cara tapada pelo que não será preciso. Um 69 em pé? Há que ser mais específico. Mania das mulheres de darem indicações sem serem exactas e esperarem que os homens lhes leiam os pensamentos.

E pronto, é muito isto. Não tenho mais nada a acrescentar. Sinto que os vídeos e as próprias músicas da Ana estão a melhorar um bocadinho a qualidade e embora isso seja bom para ela, é terrível para mim. De 0 a 5 garrafas de azeite, temo que esta só mereça 3. Ainda assim, positivo para todos. Como sempre, estas reviews não têm intenção de achincalhar a Ana Malhoa, pelo contrário, são uma homenagem. Respeito, genuinamente, o trabalho dela e acho que é uma excelente artista dentro do género. O género é que é uma merda.
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12 de novembro de 2017

Panteão Nacional: casamentos e baptizados



Parece que houve um jantar da Web Summit no Panteão Nacional. Como sempre, as redes sociais incendiaram-se devido ao seu inato problema de rastilho curto. As pessoas ficaram indignadas por acharem que, mais uma vez, Portugal estava a oferecer o nalguedo aos estrangeiros ricos, deixando-os jantar num local "sagrado" onde tal coisa seria impensável, até então. Como o que importa é ser o primeiro a mandar um bitaite, fizeram-no antes de saberem que, afinal, é relativamente frequente jantares naquele local, organizados por empresas ou por outras entidades. Como as redes sociais têm o braço muito rígido, obviamente que não o deram a torcer e ainda se revoltaram mais. Qual a razão invocada? É ofensivo devido às personalidades sepultadas. Os mortos não ficam ofendidos nem indignados com picuinhices, mas já os vivos, esses são uns coninhas.

Portanto, um monumento construído com o dinheiro saqueado a outros países durante os Descobrimentos, edificado com mão-de-obra escrava, para adorar - em tom de ostentação - um ser imaginário que instigou cruzadas sanguinárias, tudo bem, mas jantar lá dentro é que ofende a pequenada. Palermice. Por mim, façam jantares e eventos onde quiserem, desde que não incomodem os vizinhos nem partam nada e, no fim, deixem aquilo como estava inicialmente. É só essa a minha regra. De resto, façam uma lap dance no túmulo do Eusébio que garanto-vos que ele não levaria a mal. Recitem Ana Malhoa no cenotáfio do Camões que ele é gajo para gostar. Falta de respeito para com os mortos? Não os ouvi a queixar, mas posso ir buscar um tabuleiro ouija e depois já vos confirmo. Família dos mortos? Tens um familiar no Panteão Nacional e nem tiveste de pagar o funeral como os restantes mortais e vais ser ingrato ao ponto de ficar ofendido por alguém estar a comer asinhas de frango gourmet ao lado do túmulo da tua mãe? Tem juízo, Miguel Sousa Tavares. Vejo aquilo mais como uma homenagem do que como uma ofensa.

Se da minha marquise tiver vista para um cemitério, nunca posso comer uma sandes à janela, é isso? Aos mortos cheira-lhes a presunto e ficam todos irrequietos no caixão?

A maioria das pessoas que reclamaram nem fazem a ideia de quem foi João de Deus - um dos cadáveres inquilinos no Panteão - e isso para mim é que é uma falta de respeito para com o que o morto fez em vida. Sejamos sinceros: quem ficou ofendido foram os mesmos que passaram a semana toda a dizer mal do Web Summit sem nunca lá ter ido ou saber bem o que é. É uma feira meio parola e exagerada? Claro que sim, mas a maioria das pessoas não faz ideia da enorme importância que pode ter para o país a médio e longo prazo. É um aglomerado de nerds que em 90% dos casos têm uma startup de merda ou uma app que não serve para nada fundada com o dinheiro dos pais? Sim, mas não saber ver que Portugal ser a capital do maior evento de inovação da Europa é um enorme feito, é só parvo. Estamos todos fartos de turistas, bem sei, mas quando não os tínhamos dizíamos que Portugal deveria apostar mais nele. Enfim... pessoas.

Queremos ficar indignados por estarmos a tornar monumentos em espaços de festa para gente rica? Isso é outra coisa e até posso concordar, em parte. Seria chato ir visitar a Torre de Belém e estar fechada para uma festa privada da Cristina Ferreira ou para um workshop de coaching. Agora, trazer o argumento da ofensa à honra dos mortos é só parvo. Os mortos não têm honra. Só têm nada. Deixem-nos em paz. Percebo que seja de mau tom jantar ao pé dos corpos da Amália e do Eusébio e nem um copo de vinho lhes oferecer, mas é a vida, ou a morte, neste caso.

Já que as Igrejas não pagam imposto, que rentabilizem o espaço para não termos de ser nós a pagar as obras. Se fizessem um arraial pimba no cemitério onde estão enterrados os meus avós eu ficava ofendido? Nem por isso e talvez fosse a única forma de me levarem a um cemitério. Era ter lá boas festas e ter boa pontuação no Zomato. Sou um gajo que não lida bem com a morte e que nunca vai a funerais. Prefiro celebrar a vida. Sempre achei os cemitérios meio chochos e um pouco de animação só iria fazer-nos lidar melhor com certeza da morte. Quero, por fim, deixar registado que quando morrer podem jantar à vontade na minha campa e que instalarei uma máquina de tirar imperiais na minha lápide e que o meu epitáfio será «Sirvam-se e deixem de ser coninhas que a vida é só isto».


PS1: Esta semana vou atuar em Guimarães, dia 17, às 22h. Podem comprar os bilhetes neste link, na FNAC ou no local. Apareçam e partilhem com os vossos amigos, se fazem o favor. Obrigado.

PS2: Para a semana estarei em Faro, dia 23 (bilhetes neste link), e no Funchal, dia 25 (bilhetes neste link).
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7 de novembro de 2017

Argumentos para a independência da Amadora



Inspirado pelo movimento separatista da Catalunha, acho que a Amadora também deveria tornar-se num país independente. Até 1907 chamava-se Porcalhota, mas os seus habitantes uniram-se e conseguiram mudar-lhe o nome, sem saber que o termo "Amadora" seria, agora, dos mais pesquisados no PornHub. A Amadora foi utilizada, durante séculos, como estância de férias das famílias abastadas de Lisboa que, mais tarde, se esqueceram desta bela cidade e a começaram a negligenciar, tal como hoje em que as pessoas apenas se lembram do Algarve quando está calor. Portanto, chegou a hora da independência da Amadora! Deixo alguns argumentos que provam que esta bela terra merece ser independente e proponho um referendo ilegal que é como as coisas na Amadora funcionam.

Língua
Se Portugal tem como segunda língua oficial o mirandês e se no Algarve quem não fala inglês tem dificuldades de comunicação, também a Amadora tem uma língua oficial: o crioulo. Nas escolas onde andei, as aulas eram dadas em português, mas no recreio falava-se crioulo. Qualquer aluno de 7º ano teria melhores notas a crioulo cabo-verdiano do que a Francês e, a bem dizer, o francês não serve para nada a não ser para ver filmes pretensiosos sem legendas.

Comércio
Sinto que a Amadora poderia ser uma zona com uma maior riqueza se não tivesse de tapar os buracos dos restantes concelhos portugueses. A Amadora é o epicentro da indústria e comércio de droga e muito do dinheiro angariado é utilizado depois para coisas que não dizem respeito aos amadorenses. Com uma Amadora independente, facilmente se legalizariam as drogas, o que traria mais receitas ao Estado do que descobrir um poço de petróleo em pleno Amateur Central Park. Rapidamente, a Amadora tornar-se-ia na Amesterdão do Sul da Europa onde rumariam milhões de peregrinos em busca de experiências espirituais. Esses turistas deixariam na Amadora muito dinheiro por vontade própria e outro tanto através de assaltos.

Identidade na diferença
A Amadora, apesar de ter a sua identidade própria, é também o melting pot português. É possível na mesma rua escolher entre jantar cachupa, maminha com alho e kebab. Os restaurantes da Amadora não têm estrelas Michelin, têm estrelas Nelito Racing - Pneus e Ailerons.

Música
A Amadora recusa o hino "A Portuguesa" como mote oficial da sua zona. O refrão "Às armas" corre risco de, na Amadora, ser interpretado literalmente e dar origem a uma guerra civil entre os bairros pobres e os bairros de classe média baixa. A riqueza musical da Amadora exige outro hino: "Wegue wegue", dos Buraka Som Sistema, banda sem qualquer ligação à Buraca, mas sim à Amadora. Aliás, se os Buraka Som Sistema fossem da Buraca, chamavam-se apenas Buraka, já que o sistema de som já teria sido roubado.

Tecnologia
A Amadora está no epicentro da revolução tecnológica portuguesa. Enquanto os centristas apenas dão atenção à Web Summit, o verdadeiro estado da arte da tecnologia está no Centro Comercial Babilónia. Dezenas de lojas de telemóveis de indianos tornam a Amadora numa espécie de silicon valley.

Futebol
Ao contrário do que acontece no movimento separatista da Catalunha, o futebol não será problema já que o maior clube da Amadora - o Estrela da Amadora - já está extinto desde 2011, depois das suas camadas jovens terem formado grandes futebolistas como Dimas, Paulo Bento, Jorge Andrade, Paulo Ferreira e também excelentes comedores de rodízio de dançarinos de discoteca como Miguel e Bebé.

Território
A Amadora tem espaços verdes de fazer inveja ao resto do país e com a sua independência, o oxigénio produzido seria apenas para uso dos amadorenses. Se Monsanto é o pulmão de Lisboa, o Jardim dos Aromas na Buraca é o pulmão da Amadora, até porque é lá que se fuma droga como gente grande.

Penso ter focado os pontos fulcrais que provam por A+B que a Amadora pode e deve ser um país independente. Nunca me envolvo em política, mas estou disponível para ser o Rei do território amadorense se assim o povo o quiser. Estou disponível para um regime semi-democrático onde teria como secretários de Estado e ministros as seguintes personalidades nascidas na Amadora:
  • Ana Bacalhau - Ministra da Música e dos Nomes com Conotação Sexual
  • Bruno Nogueira - Ministro do Humor e da Cultura
  • Fernando Ribeiro -  Ministro da Maquilhagem Preta nos Olhos
  • Jorge Jesus - Ministro da Educação 
  • Jorge Gabriel - Secretário de Estado dos anúncios de Facebook para a Queda de Cabelo
  • Rui Costa - Ministro do Desporto e do SG Ventil
  • Valete - Ministro da Justiça da Street
  • João Baião - Ministro da Saúde e das Danças Latinas
  • Quimbé - Secretário de Estado da Voz Irritante
  • José Figueiras - Seria ministro suplente que taparia o buraco quando um dos outros fosse de férias.
Acho que seria uma equipa vencedora para levar a Amadora à independência sustentável que a tornaria num verdadeiro paraíso e na maior potência do mundo e da Linha de Sintra. Partilhem e ajudem a espalhar a palavra!
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2 de novembro de 2017

Quem quer ser segurança do Urban?



Depois das agressões à porta da discoteca Urban e do despedimento dos seguranças, antecipo, desde já, o anúncio de oferta de trabalho.

OFERTA DE EMPREGO

Procura-se homem para vaga de porteiro para estabelecimento de diversão nocturna da Lisboa, Urban Beach.

Principais Tarefas a desenvolver:
  • Filtragem de pessoas à entrada do estabelecimento consoante um pantone de cores;
  • Dizer que é uma festa privada quando a pessoa é de tom de pele escuro ou está de camisola de alças.
  • Separar conflitos recorrendo a força sempre que se justificar (ou não)
  • Liberdade para definir o preço de entrada consoante o perfil do cliente e dar borlas a clientes do sexo feminino consoante os seus atributos físicos.
  • Liberdade para discriminar por raça e género.
Perfil técnico:
  • 9º ano (opcional).
  • QI inferior ao número de calçado em unidades americanas.
  • Ter crescido na Linha de Sintra (preferencial).
  • Ter em alguma fase de vida utilizado esteróides para aumentar a massa muscular.
  • Ter andado à porrada por questões de trânsito, pelo menos dez vezes.
  • Saber contar até 150 euros e fazer contas de subtração básicas.
  • Candidatos com cadastro limpo serão eliminados à partida.
Importa referir que os candidatos se devem apresentar de cabeça rapada e com botas biqueira de aço, ou seja, já fardados para o trabalho. A soqueira é opcional em dias de Casual Friday. Será integrado numa equipa dinâmica e multidisciplinar, onde terá oportunidade de aprender e crescer com ou sem esteróides. É um trabalho exigente e procuramos um candidato com o perfil adequado e que aguente a pressão e ouvir música de merda durante horas.

Ao ver este anúncio, o Sandro Nelson, enviou logo o seu CV.

Sobre mim

Sou o Sandro, tenho braço forte, sou racista q.b. e gosto de andar à porrada.

Experiência profissional
  • 2015 - 2017: Seguransa em discoteca com muitos pretos
  • 2013 - 2015: Estive no subsídio de dezemprego
  • 2010 - 2012: Cobrador de dívidas difísseis
  • 2005 - 2010: Dezempregado de longa durassão
  • 2002 - 2005: Trabalhei numa loja de suplementos para puchar ferro
  • 2001 - 2002: Seguransa no baile de finalistas da escola preparatória da minha zona
Educação e formação
  • Escola C+S do Cacém: 9º ano concluído com 5 a educação física, 3 a tudo o resto, exsseptuando apenas as três negativas a purtuguês, matemática e formação cívica.
  • Só xumbei quatro vezes
  • Ginásio de Massamá onde pucho ferro todos os dias desde 2001.
Competências de organização
  • Alto sentido de responsabilidade adekirido na organização de lutas na garajem do meu primo Rúben.
  • Boa capacidade de negociassão resultante de um negócio próprio de venda de plantas medissinais.
  • Capacidade de lideransa adekirida no refeitório da prisão.
  • Boa capacidade de multitasking adekiridas ao namorar com a Kátia e a Sheila ao mesmo tempo durante doix anux.
Competências digitais
  • Capaz de tirar um telemóvel da mão de terceiros e arremessálo a 900m.
  • Conhecimento das ferramentas Facebook e Tinder na óptica do utilizador.
Competências artísticas
  • Sei dar rotativos no ar.
Carta de condução
  • Não tenho, mas conduso desde os 11 anos.
Ainda assim, há coisas piores para apanhar no Urban do que uma tareia. Agora é esperar que o caso não caia no esquecimento e que sejam acusados não de agressão, mas de tentativa de homicídio. Aqueles pisões na cabeça nem no UFC são permitidos. Toda a gente sabe que aquilo é prática recorrente no estabelecimento, para além do racismo, agora é esperar que com o vídeo a coisa vá ao sítio e se dêem lugar a seguranças civilizados que também os há.
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15 de outubro de 2017

O computador da minha mãe tem vida própria



A relação da minha mãe com os computadores sempre foi tensa. Tendo um filho que cedo se interessou por novas tecnologias fez com que tivesse sempre alguém para lhe resolver o problema sem ter de aprender a solucioná-lo. A minha mãe utiliza o computador como todas as mulheres utilizam a sua mala: sempre tudo desarrumado e como uma espécie de buraco negro onde demoram horas a encontrar o que procuram. Ser informático e ter uma mãe que não percebe de computadores é como trabalhar no apoio técnico de uma loja de informática onde estamos sempre a ouvir as perguntas mais descabidas como «Como é que guardo esta página de Internet no meu computador para a enviar para um colega por email?».

A minha mãe não gosta do progresso e está convencida que o computador novo que acabou de comprar devia ter entrada para disquetes.

A minha mãe não confia na tecnologia e acha que ter as fotografias guardadas no computador, na máquina e em dois discos externos é arriscado porque podem avariar-se todos ao mesmo tempo. Fotografias essas que são daquelas todas desfocadas e queimadas porque a minha progenitora nunca percebeu bem como funciona a máquina digital com mais de dois botões. Continua convencida que o problema é da máquina e que a que tinha há 15 anos, que tirava fotografias com 0,3 megapixéis, era bem melhor pois era só apontar e disparar, com as fotos eram tão pequenas que não se percebiam que não tinha definição nenhuma nem se vislumbravam as imperfeições da pele.

O pior quando me pede ajuda não é a dúvida em si ou o facto de já lhe ter ensinado a fazer aquilo dezenas de vezes, mas sim a sua dificuldade em assumir as culpas. Ao que parece, o computador da minha mãe tem vontade própria e age segundo o seu próprio livre-arbítrio. Exemplos? O Word muda o tipo de letra e a minha mãe diz que não fez nada; o computador fica sem som e a minha mãe diz que não mexeu em nada; o histórico está cheio de pornografia e o meu pai diz que não foi ele. Temo que o computador da minha mãe seja o epicentro de uma revolução das máquinas contra os humanos. Claramente, é um computador senciente que, em breve, rebelar-se-á contra quem o tenta controlar. No próximo filme do Terminator, a Skynet não terá origem no sector de defesa Norte Americano, mas sim no computador da dona Belmira que reside na Buraca. Será lá que surge a primeira máquina autoconsciente, mas que em vez de iniciar um holocausto nuclear para exterminar os humanos, tem um plano mais maquiavélico e apaga fotografias da pasta Maio 2016, movendo-as para o ambiente de trabalho sem avisar, criando o caos no mundo.

E explicar que o Ambiente de Trabalho é uma pasta como as outras? E explicar o conceito de partições do disco? E explicar que podes tirar a pen à vontade sem fazer ejectar que nunca na vida nenhuma se avariou ou ficou corrompida por causa disso? Explicar-lhe o que é a Cloud nem vale a pena, é como ensinar física quântica a um bebé. E quando manda bitaites a pensar que já percebe alguma coisa do assunto tal como a minha namorada dá indicações quando vou a conduzir? Temos de desligar o computador à bruta no botão e ela diz «Mas isso não estraga?» e tu reviras os olhos e dizes «Bem, mas quem é que percebe de computadores aqui?». O meu irmão tem uma estratégia diferente que é a de dizer que não sabe. Tem dois computadores e três consolas no quarto, mas, misteriosamente, "não sabe" fazer coisas como instalar o Office. Como usa Mac usa essa desculpa para tudo: «Fazer download de um anexo do email? Epá, não sei como é que se faz... no Mac é diferente.». E a minha mãe acredita nele, claro.

A minha mãe tem dificuldades com os computadores ao ponto de achar que os Termos e Condições de um programa são para ler. 

Sente-se mal ao clicar na caixinha a dizer que leu sem o ter feito. Em poucas semanas após comprar um computador, consegue coleccionar mil e quinhentas toolbars no browser e quando lhe perguntamos como aquilo aconteceu, mais uma vez, nunca foi ela que fez nada. Explicamos-lhe a causa, mostrando que não foi o computador que decidiu sozinho, e ela diz-nos que a culpa é nossa porque, e passo a citar: «Tu é que me disseste para clicar sempre "Next" e "OK"». Aliás, já perdi a conta das vezes que a minha mãe me chamou, apavorada, porque lhe apareceu uma caixa de mensagem do Windows e ela não percebia o que era; chego lá e é sempre uma caixa com apenas um botão de "OK". A dúvida! Comecei a tremer, que fazer? Epá, carrega no "OK", sei lá o que isso é, mas só tens o "OK" para carregar. A minha mãe é tão naba com os computadores que era capaz de comprar o WinRar com medo de que o período de teste expirasse. Estou a gozar, a minha mãe nem sabe o que é o WinRar.

Depois, temos ainda a famigerada situação de quando pondera comprar um computador novo: tal como toda a gente faz, pede opinião ao amigo informático que neste caso é o filho. O que acontece? Nós sugerimos um e depois acaba por comprar outro. Sempre. No caso da minha mãe já nem me dou ao trabalho e digo-lhe sempre «Para usar o Word e ir ao e-mail qualquer computador serve, é o mais barato e que achares mais bonito.». «Mas depois não fica lento?» pergunta-me. Claro que vai ficar, até um computador de 5 mil euros fica lento, passados dois meses, na mão de uma mãe ou de uma namorada. É um dom que elas têm. Antes que me chamem machista, deixem-me dizer-vos que o meu pai também faz das dele no tocante a novas tecnologias. Há uns anos, estava no quarto e oiço o meu pai chamar o meu nome da sala. Levantei-me apressado já que pelo tom parecia uma emergência, chego lá e dou com o meu pai, entusiasmado, que me pergunta apontando para um popup no ecrã: «Diz aqui que sou o utilizador 1 milhão e que ganhei um prémio se clicar... é verdade?». Não, pai, nunca é.

É por tudo isto que não quero ter filhos. Os nossos pais ensinaram-nos a andar em duas pernas e a fazer cocó na sanita e nós ficamos aborrecidos quando nos pedem ajuda para os ensinar a fazer uma tabela no Word. Somos uns ingratos. 
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5 de outubro de 2017

EMEL vs Arrumadores: antes riscado do que bloqueado



A minha relação com os arrumadores de carros, vulgo "moedinhas", é, há muito tempo, bem definida: se eles me ajudarem a encontrar um lugar, dou moeda; se chegarem apenas no fim da manobra, já com o carro desligado, a correr para dizer «Tá bom, chefe!», não dou. Sendo que sempre tive carros velhos, o ocasional risco não me faz diferença e pode até ajudar a parecer que aquilo tudo é um padrão com desenhos abstractos e aumentar o valor do meu carro de 500€ para 550€.

Penso, várias vezes, no espírito empreendedor do primeiro arrumador de carros. É um génio que se perdeu, ou não, já que houve tempos em que conheci arrumadores que faziam mais de 2000€ por mês. Tinham era vícios caros. Enquanto havia quem pedisse esmola ou roubasse por esticão a ocasional velha coxa que deambulava perdida, houve um gajo que decidiu inventar o seu posto de trabalho. Espero não estar a discriminar quando digo que foi um gajo, mas o que é certo é que mulheres neste ramo são poucas ou nenhumas.


Talvez isso prove que elas não sabem estacionar carros.

Ou pode ser só uma questão de falta de oportunidades para as mulheres no mundo do estacionamento automóvel de terceiros. Se calhar precisamos de quotas, não sei. Bem, esse gajo inventou uma profissão que até à data ninguém se tinha lembrado. Aliás, ser arrumador de carros é ilegal porque não foi ninguém com dinheiro e de boas famílias que a criou. Por exemplo, em alguns hotéis ou parques de estacionamento existem empregados que até te estacionam o carro. Fosse um gajo com três nomes e cunha na Câmara Municipal a lembrar-se e a história dos arrumadores seria diferente. Se calhar até foram os arrumadores a dar a ideia a alguém para criar parquímetros que ao ver esse negócio paralelo pensou «Espera lá... as pessoas dão dinheiro para estacionar o carro? Olha...». E assim nasceram os parquímetros da EMEL e de outras empresas que são uma espécie de arrumadores só que mais caros e só recebem, não dando ajuda a ninguém. São uma espécie de prostituta de luxo que só recebe sexo oral e nunca retribui.

Por norma, a maioria das pessoas dá moeda por medo e isso faz-me pensar que essa relação comercial entre dono do carro e arrumador é uma bonita metáfora para o que está mal no mundo: uns a pedir por necessidade ou vício e outros a dar com medo de um risco na pintura do seu bem de luxo. Por isso, valorizo os arrumadores, tinham outras opções e preferem trabalhar, mesmo que ilegalmente. Sim, não declaram nem pagam impostos, mas isso também a maioria dos donos de cafés e tascas. Há apenas uma situação em que me irrito com os arrumadores que é quando há parquímetro e eles vêm pedir moeda dizendo uma das seguintes frases:
  • «Dê-me a moeda a mim que se eles vierem cá eu meto no parquímetro.»
  • «Eles a esta hora já não passam.»
Hum... desconfio. Não é estar a ser preconceituoso, mas se não podemos confiar nas pessoas de fato e gravata que gerem bancos e governos, como é que vou confiar num gajo de boné, sem dois dentes e com ar de quem mete mais sopa na veia do que no estômago? Por isso, na dúvida, meto sempre a moeda no parquímetro em vez de a dar para a mão do Mário Fábio até porque prefiro, de longe, ter o carro todo riscado de uma ponta à outra do que tê-lo bloqueado.

A EMEL é uma empresa odiada por todos, ódio esse celebrizado no famoso sketch dos Gato Fedorento. Até mudaram as fardas para azul para ver se as pessoas confundem com polícia e têm mais respeitinho. Bem sei que foi por isso, devem pensar que não vos topo, seus marotos. Ninguém gosta deles, mas o que é certo é que das vezes que me multaram foi porque existem leis e regras que não cumpri. Sim, é estúpido bloquearem-te o carro se estiver a tapar uma passagem fazendo com que lá fique ainda mais tempo. Sim, é chato terem colocado parquímetros à porta de minha casa sem avisar já que ter bom estacionamento e gratuito é um dos factores de decisão na compra ou arrendamento de uma casa.


Sim, é chato que o bairro social a 500 metros seja a única zona que ficou livre de parquímetros até porque lá chamam-lhes «Aquelas máquinas estranhas que dão moedas.».

É a vida, chateia-me, mas percebo. O que me irrita na EMEL são outros detalhes sobre os quais tenho algumas dúvidas e se o pessoal da EMEL estiver a ler isto pode enviar-me mensagem já que o vosso apoio ao cliente é, à falta de melhor termo, uma merda:
  • Se um parquímetro estiver avariado? Desloco-me ao seguinte, certo? E se esse também estiver avariado? Quantos parquímetros tenho de percorrer até ser aceitável colocar um papel a dizer «Está tudo avariado!»? É que há ruas que se estendem ao longo de vários quilómetros e se fui de carro é porque não gosto de andar.
  • Se uma máquina me comer dois euros e não der talão, como já aconteceu MUITAS vezes, como é que sou ressarcido disso? Tenho de gastar dinheiro em transportes ou gasolina para ir à vossa sede e perder oito horas do meu dia que valem muito mais do que esses dois euros?
  • Tenho 2€ na carteira, mas só vou precisar de estacionar 15 minutos. Porque não dão troco, seus fuinhas? Vou ter de ir ao café trocar a moeda e arriscar ser multado nesses 5 minutos ou vou ter de vos dar o dinheiro todo. Era as máquinas darem troco ou terem um talão de 10 minutos gratuitos, por exemplo.
Já sei que uma das respostas é «Usa a nossa aplicação!», mas isso não é resposta. Isso é como uma vez que fui a um restaurante italiano; pedi um bife e aquilo tinha mais nervos do que a minha mãe a dar aulas no Cacém a uma daquelas turmas que toda a gente sabe que dali já ninguém se vai safar na vida sem ser no crime. Chamei o empregado que me disse «Os nossos bifes são todos assim, devia ter pedido outra coisa.». Não eram duas chapadas à padrasto bem dadas na nuca? Se têm um produto ou serviço na ementa que não presta, deviam retirá-lo e não aconselhar a comer outra coisa do menu. No entanto, mesmo com tudo isto e com as dez multas que me chegaram a casa numa semana, todas dos últimos dois anos, em locais e datas que não faço ideia se realmente lá tinha estacionado o carro, não demonizo a EMEL e muito menos os seus colaboradores. Das duas vezes que vi o meu carro bloqueado - coisa que devia ser proibida porque no dia que alguém morrer por precisar do carro para uma emergência vai haver confusão - respirei fundo e relaxei. Chamei-os e estive de sorriso o tempo todo ao vê-los desbloquear o carro enquanto pensava «Nem a vossa mãe gosta de vocês. Até a mãe de um arrumador tem mais orgulho no filho.»


PS: Pessoas de Lisboa, Porto, Braga, Guimarães, Coimbra, Tomar, Aveiro, Funchal, Portalegre e arredores, não se esqueçam que os bilhetes para o meu primeiro espectáculo de stand-up comedy a solo já estão â venda nos locais habituais e neste link. Obrigado a todos os que já compraram.
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28 de setembro de 2017

Sexo, amor e religião



O episódio desta semana do podcast Sem Barbas Na Língua é dedicado às pergunta e sugestões dos ouvintes. Desde amor, religião a sexo e muitas outras coisas. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



Podem ouvir e subscrever o podcast nas seguintes plataformas:
Deixem sugestões de convidados e enviem sugestões para sembarbasnalingua@gmail.com. Obrigado e não se fala mais nisso.

PS: Bilhetes para o meu espectáculo à venda neste link.
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24 de setembro de 2017

Apalparam a minha namorada no metro



Vendo que a Joana Amaral Dias propôs uma zona exclusiva para mulheres nos transportes públicos, para evitar o assédio, perguntei à minha namorada se já tinha sido apalpada no metro. Ela respondeu-me: «Fui uma vez.» Achei nojento e senti repulsa! Não percebo que tipo de homens andam no metro que só apalparam a minha namorada UMA vez! Uma única vez?! São todos cegos ou quê? Ou por ela ser tão gira não a apalpam por acharem que não têm qualquer hipótese? Andam os homens deste Portugal a descer-lhe a autoestima para depois ser eu a lidar com as inseguranças dela? Enfim, os homens são todos uns porcos.

A Joana Amaral Dias sugeriu esta medida só para mostrar que é gostosa. «Vejam lá que eu sou apalpada tantas vezes diariamente que preciso de uma carruagem só para mim!». É como quando os homens dizem, casualmente, numa conversa de primeiro encontro, que não usam preservativo porque lhes aperta muito, tentando dar a entender que são donos de um pénis de calibre considerável. Normalmente é treta e não gostam de usar preservativo porque, não tendo volume, perdem-no dentro da parceira.

Embora não concorde com esta medida, penso que pode trazer bastantes vantagens, desde que a zona exclusiva para mulheres nos transportes não seja ao volante.

Desde logo: o facto de um gajo não ter de ceder o lugar uma mulher grávida ou a uma idosa; não ter de apanhar aquelas pitas histéricas que falam alto sobre assuntos sem interesse nenhum «Miga, viste o que a Constança meteu no Insta? Uma foto como Bernardo! C'horror, ela não sabe que ele andou enrolado com a Matilde lá na Católica?»; depois, não tenho de apanhar com aquelas mulheres que se enchem de perfume que cheira a veneno de matar mosquitos; etc. Pensando bem, começo a simpatizar com esta medida... 

Vamos por pontos: um homem que apalpa uma mulher no metro é um atrasado mental que merecia ter um diabo da Tasmânia a roer-lhe os testículos até chegar à próstata; um homem que assedia verbalmente uma mulher, especialmente se ela for menor, é também merecedor de uma chapada à padrasto na garganta. Nisso estamos todos de acordo! No entanto, os homens que fazem isso são uma minoria. Por exemplo, nunca apalpei ninguém e já fui apalpado por um gajo no metro e em discotecas várias vezes, tanto por homens como por mulheres. Sou mais apetecível do que a Joana Amaral Dias que, pelos vistos, só é apalpada por pessoas de um dos sexos. 

Uma vez, na discoteca, estava a dançar e dei um passo para trás, encostando-me, sem ver, a uma rapariga. Pedi desculpa, mas ela virou-se a pedir satisfações e a dizer que eu a tinha apalpado. Calmamente, disse-lhe que nem a tinha visto. Ela insistia e empurrava-me com as mãos e mantive a calma e disse-lhe, novamente, que não a tinha apalpado. Ela começou a gritar e a esbracejar que nem uma arara epiléptica até que cheguei ao meu limite e disse-lhe «Olha bem para ti... tomara tu.». Ficou ofendida porque percebeu que eu tinha razão e virou-me as costas. Não é que eu seja muito lindo, mas a rapariga era um 8, numa escala de 0 a 100. A minha namorada estava ao meu lado e ainda rematou «Olha bem para ti e olha bem para mim, achas que ele precisa de te apalpar?». Fatality! Flawless victory! A autoestima daquela rapariga ficou mais de rastos do que um paralítico atrás do ladrão que lhe roubou a cadeira de rodas. Este episódio serve só para mostrar que é preciso ter cuidado em julgar os homens todos da mesma forma porque ainda há muitos que não apalpam mulheres do nada e que meter esses no mesmo saco só faz com que se tornem umas bestas como eu.

Temo pelo dia que em um homem não pode olhar ou falar com uma mulher sem pedir autorização à Câmara Municipal e que isso faça com que as mulheres fiquem encalhadas como as que apoiam este tipo de medidas.

Ando confuso com a esquerda no tocante a estes assuntos de igualdade de género. Por um lado, vemos o crescimento de uma facção que diz que o género não existe e que o masculino e feminino são criações culturais que deviam ser abolidas e que somos todos iguais biologicamente; por outro, vemos cada vez mais uma luta por espaços privados para mulheres e por quotas em todos os trabalhos (menos nas obras e no transporte e montagem de móveis do IKEA). Esta gente tem de se decidir! Não podem ser as duas coisas! Ou o género não existe e temos de estar todos misturados - incluindo retirar as categorias masculino e feminino dos Jogos Olímpicos e as mulheres nunca mais cheirarem uma medalha - ou existem diferentes géneros e vamos segregar e discriminar positivamente o mais desfavorecido a ver se isto vai ao sítio. Não gosto de nenhuma das alternativas, mas se tiver de escolher vou mais pela primeira, já que assim os balneários dos ginásios serão mistos para que, como homem branco heterossexual que sou, possa objectificar mulheres à vontade.

É um problema o assédio nos transportes públicos? Não sou a pessoa indicada para responder a essa pergunta já que sou homem e, como tal, menos exposto a isso, mas acredito que seja. Acredito que a maioria das mulheres seja apalpada e oiça comentários ordinários de homens mentecaptos. Faz-me mais sentido tornar obrigatório o ensino de Krav Maga a todas as mulheres ou dar-lhes um spray pimenta para a mão. Assim, sempre que as apalpassem, elas poderiam dar um correctivo no homem e educá-lo a não fazer aquilo novamente. Com a separação proposta, os anormais vão continuar a existir, mas com menos oportunidades de o ser. Isto é como gente feia que é fiel: não vale de nada. O problema é real, mas temo que a segregação não seja a solução até porque tenho algumas dúvidas relativamente a esta medida:

Partindo do princípio que no metro esta separação seria feita por carruagens, como é que se controlava? Um guarda que apalpava zonas genitais à porta de cada carruagem? Uma câmara com reconhecimento genital à qual tinhas de mostrar a zona das virilhas? Ou vamos acreditar que as pessoas iam respeitar as leis? Parece-me absurdo pensar que homens que apalpam mulheres incautas fossem respeitar um sinal de proibido. Como se lidava no caso de uma lésbica safadona andar a apalpar o mulherio todo? E as mulheres podiam ir para a zona geral ou era exclusiva a homens? Se pudessem seriam chamadas de promiscuas pelas outras que preferem a segregação criando assim uma maior clivagem entre as próprias mulheres? E nos autocarros? Quem ficava com os bancos de trás que têm uma carga história de segregação tão grande? Os homens? E depois quando eles tivessem de vir para a frente para sair não iriam aproveitar para se roçar tudo aquilo que não tinha conseguido durante a viagem? Estou só a fazer perguntas antes de decidir se essa medida é parva ou tem potencial. Estou a gozar, é claro que é parva. Enfim, não era de esperar que a Joana Amaral Dias soubesse qual é o caminho certo já que ela, como qualquer mulher, tem um péssimo sentido de orientação.
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21 de setembro de 2017

Para a minha mãe tudo fazia cancro



As mães nunca precisaram de grande poder de argumentação pois bastava aquele olhar de quem tenta matar cabras com o olhar para que obedecêssemos, sem questionar a autoridade vigente lá de casa. Até os nossos pais sabiam que quando lhes pedíamos alguma coisa única resposta certa era «Já perguntaste à tua mãe?». Os homens mandam no mundo, mas as mulheres mandam lá em casa! Os primeiros não têm feito um grande trabalho no seu papel, mas temo que se fossem as mães a mandar no planeta vivêssemos numa ditadura em que todas as esquinas estão revestidas a borracha e onde não havia referendos, já que as mães têm sempre resposta a todas as perguntas. Lembro-me de ser criança e tentar enveredar por um encadeamento infinito de "porquês", a tentar contra-argumentar, e chegar sempre a três resultados possíveis como alegações finais da minha mãe:

- Porque sim
- Porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Porque faz cancro.

O fluxo de conversa era mais ou menos este:

- Posso fazer uma tatuagem do Bolicao?- Não. Isso faz mal.
- Faz mal porquê?
- Porque sim.
- Tu dizes que porque sim não é resposta!
- Faz mal porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Mas porquê?!
- Porque faz cancro.

Para a minha mãe, tudo fazia cancro quando eu era pequeno: eram as tatuagens do Bolicao; os chupa-chupas Push Pops; os chupões autoinfligidos nos braços; tirar as crostas das feridas; roer as peles dos dedos ou as unhas; coçar borbulhas das melgas até fazer ferida; comer o queijo que saía da tosta e ficava mais queimado; passar muito tempo em frente ao computador; beliscões; escrever a caneta nas mãos ou nos braços; engolir pastilhas; meter o dedo no nariz; ver televisão de perto; ver televisão de longe e esforçar os olhos; ouvir música muita alta com auscultadores; olhar directamente para o sol; respirar o cheiro da gasolina na estação de serviço; mergulhar de chapa na piscina; comer torradas queimadas e não usar protector solar, idem. Sei que nestas últimas até é verdade, mas na altura era difícil acreditar e, tal como na história de Pedro e o Lobo, desconfiava que se uma era mentira, as outras todas também seriam, mas, pelo sim, pelo não, fazia sempre os trabalhos de casa, não fosse ficar com um tumor no cérebro. Quando comecei a chegar à idade em que tinha a mania que era esperto – idade em que ainda me mantenho – dizia «Roer as unhas faz cancro? Então para que é que fumam?», fazendo alusão à hipocrisia de nessa altura ambos os meus pais fumarem e darem-me conselhos oncológicos sobre os perigos de tirar crostas e roer as unhas dos dedos dos pés. Em vez de perceberem que estava ali um potencial campeão mundial de contorcionismo, preferiram cortar-me as asas e as unhas.

Nessa altura, o cancro não metia muito medo já que eram, ou pareciam, poucas as pessoas a receber a sua visita. Ia-se sabendo de um ou outro caso, mas nunca muito próximo para se ter a certeza se a Dona Almerinda tinha morrido por fumar durante 70 anos ou por fazer demasiadas tatuagens do Bolicao. Ficava sempre no ar a incerteza. Por isso, o cancro era uma espécie de criatura mítica, um homem do saco 2.0, que os pais podiam usar sem que se tornasse demasiado próximo. Como na minha casa Deus não existia, era preciso um bicho papão mais real para me meter na linha. «Isso faz cancro» era o «Deus castiga» para os pais ateus. Dizer a uma criança descrente que Deus castiga é o mesmo que dizer-lhe que vem aí um unicórnio dar-lhe uma marrada.

Aliás, Deus tem muito em comum com os unicórnios: nunca ninguém os viu e ambos aparecem em livros de ficção. 

O que é certo é que vamos crescendo e percebendo que quase tudo faz cancro e que mesmo que leves uma vida saudável e evites tudo o que é cancerígeno, ele pode bater-te à porta. O cancro nunca podia entrar num episódio do «E se fosse consigo?» porque o cancro não discrimina ninguém e não é por isso que tem boa fama. Eh lá… que isto está a ficar demasiado sério e tétrico. Voltando a roer as unhas dos pés: sou só eu que não meto um corta-unhas nos pés há anos? Aquilo quando um gajo sai do banho e está mole tira-se facilmente sem qualquer utensílio! E nas unhas das mãos é sempre um stress, sendo destro, quando tenho de cortar as da mão direita. Pareço um daqueles gajos nos anúncios de prevenção rodoviária da DGV com a música Aimee Mann. Se por acaso tenho de cortar as unhas em dias de ressaca é impossível! Tremo por todos os lados e mais vale roer e depois limar numa parede porosa. Já sei por que é que o meu avô com Parkinson tinha sempre as unhas compridas. Pensava que era para o estilo ou para cortar queijo e descascar laranjas e, afinal, não.

A minha mãe, como todas as mães, tem conhecimentos avançados de medicina. A minha mãe é como o Google em que quaisquer sintomas que lhe dês a resposta é sempre cancro. Estou certo que a minha mãe poderia roubar o lugar à Maya e à Maria Helena a fazer biopsias por telefone e sem precisar de cartas de brincar compradas no Papagaio Sem Penas. A minha mãe sempre foi uma mãe galinha e dizia-me, entre muitas outras coisas, para não me esforçar demasiado na natação. Certamente, com medo de que eu ganhasse as provas todas e ficasse todo gostoso e tivesse as miúdas todas atrás de mim devido ao meu corpo de nadador. Sempre quis que eu as engatasse pelo meu intelecto que é o que, aos 33 anos, me resta. Sim, já fiz paz comigo mesmo e com o facto de nunca mais voltar ver os meus abdominais a não ser que apanhe uma daquelas doenças que nos emagrece muito antes de morrermos. Sinto que este texto está a resvalar para o cancro, novamente. É melhor ficarmos por aqui até porque, tal como disse, é chato crescer e descobrir que quase tudo faz cancro. Até o sexo oral desprotegido – que é a única forma de se fazer bom sexo oral – provoca cancro. Epá, tirem-me as tatuagens do Bolicao e as torradas queimadas, mas não me tirem cunnilingus sem papel de celofane e, já agora, se é para me fazerem um felácio com preservativo, mais vale irmos ver um filme.
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13 de setembro de 2017

Tony Carreira é um cantor de covers



O Ministério Público acusou Tony Carreira por plágio de onze músicas. O choque! A pergunta que se impõe é: só onze músicas? Não acredito! Primeiro, o Ronaldo em tribunal por acusações de fraude fiscal, agora o Tony por plágio. Só falta descobrir-se que a Leopoldina aconchega o bico no rabo de crianças, para Portugal ficar sem heróis. O plágio é um assunto recorrente no mundo dos humoristas em que é mais fácil duas pessoas fazerem a mesma piada, sem querer, especialmente quando se fala de atualidade e há pressa em ser o primeiro a fazer uma piada sobre um determinado assunto: o resultado é uma piada pouco criativa na qual várias pessoas pensaram. Na música é diferente, já que é mais difícil duas pessoas lembrarem-se da mesma letra, música e melodia, mesmo que seja uma música de qualidade duvidosa, como é o caso. Aliás, o que não irá faltar são humoristas que plagiam outros a fazer piadas sobre o plágio do Tony Carreira. Haverá, certamente, quem plagie piadas sobre o plágio do Tony, criando assim um buraco negro no espaço-tempo contínuo.

O Tony Carreira é aquele aluno que leva cábulas para o teste e mesmo assim chumba. A pena para plagiar merda deveria ser mais pesada.

Plagiar o Tony dá cem anos de perdão porque, afinal, ele é apenas um cantor de covers. Nada contra, há excelentes bandas de covers, mas que são apenas isso e nunca ficam na história por muito boas que sejam pois falta-lhes aquilo que distingue os artistas dos restantes: a criatividade e originalidade. Por algum motivo, uma cópia perfeita da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci não vale um trilionésimo do original.

Até tenho em alguma consideração a família Carreira. Das entrevistas que já vi, tanto o Tony como os filhos parecem gente decente que vieram do nada. Bem, o Tony veio do nada, os filhos já vieram com a Carreira escrita no nome. Apesar de não ser apreciador da música de nenhum deles, acho que tratam o público com respeito, sincero ou não. O Tony é dos poucos "artistas" em Portugal que sabe trabalhar o marketing como deve ser e que prefere ter 50 músicos em palco e ganhar um bocado menos, mas dar um bom espectáculo para os fãs, do que cantar meio em playback com o mínimo de banda possível e meter mais dinheiro ao bolso. Sim, é um cantor pimba, mas foi o primeiro a ser respeitado fora desse meio, com excepção, talvez, de Marco Paulo a quem todos reconheciam o potencial vocal (e o plágio que no caso dele era admitido e, pelo que sei, pagava os direitos de autor). Tony Carreira viveu tempos em que era mal-visto dizer-se mal da sua música. Mesmo outras celebridades, nomeadamente apresentadores de televisão do daytime, diziam gostar muito das músicas dele quando, na verdade, estavam a mentir e só o diziam porque ele falava para o mesmo público que eles. Acho que a música pimba tem mau nome e todos se esquecem que serve um propósito importante que é o de alegrar. Fado é muito lindo sim senhor, mas dêem-me uma bifana e uma mini enquanto o Quim Barreiros está a tocar no palco e serei muito mais feliz. No fundo, os fadistas também são quase todos cantores de covers, mas como é fado é para respeitar porque são artistas superiores aos pimbas. Tretas. A maioria é só gente com boa voz que canta covers.

Ao que parece, Tony já reagiu e diz que o assunto já foi resolvido há uns anos com os autores das músicas que é como quem diz que lhes pagou e não se fala mais no assunto. Não tenho nada contra isso se for honesto: vês uma música que achas que se adaptaria a ti, ligas ao autor e perguntas quanto é que ele quer para te ceder os direitos com a condição que podes ajavardar a letra à vontade e nunca dar créditos ao original. Ele diz-te o preço e tu pagas. Tudo bem, tudo honesto, mas ao que parece não foi assim que foi feito. Foi «Ora deixa cá usurpar isto sem dizer nada a ninguém porque hoje estou com pouca inspiração.». A folha em branco é tramada para quem cria algo, eu sei, mas plagiar deliberadamente alguém e recolher os louros (e dinheiro) por isso, é de quem desrespeita o seu público e a arte que representa. Pode dizer-se que o impacto das músicas dele não muda devido ao plágio e que emociona e inspira as pessoas na mesma. Talvez seja verdade e, no fundo, Tony esteja a fazer um favor a todos os portugueses que não sabem línguas que é o de traduzir músicas estrangeiras para que mesmo os com menos estudos possam apreciar.

A próxima edição do Festival Músicas do Mundo vai ser só com o Tony a cantar em português músicas de 200 países diferentes. 

O problema é que se Tony foi considerado culpado, irá apenas pagar uma multa que não prejudicará em nada o seu império. É como o Ricardo Salgado que pagou três milhões pela caução, milhões esses que, alegadamente, foram obtidos de forma ilícita e ainda lá ficou com uns quantos outros que mesmo que seja condenado, depois de um ou dois anitos de prisão, poderá utilizar para gozar uma bela reforma. No caso do Tony, penso que a multa não deveria ser paga em dinheiro, mas sim em canções originais que seriam avaliadas pelo júri do The Voice. Até o Tony conseguir virar as quatro cadeiras, não poderia sair da prisão. Como isto é coisa para demorar, provavelmente chegaria uma altura em que o Anselmo Ralph já nem precisava de estar de costas voltadas para ser considerada uma audição às cegas. Não me parece que este caso danifique a carreira do Tony, já que era um rumor bastante audível, há muitos anos, e parece-me que o público do Tony é o mesmo que vota Isaltino Morais ou noutros políticos corruptos. Desculpam-lhes tudo porque é isso que os fãs fazem. Os seguidores do trabalho de alguém são críticos a esse trabalho, os fãs estão enamorados pela imagem que têm do seu ídolo e estas polémicas só reforçam esse amor. Os fãs são como as mães de bebés feios: acham-nos lindos e ai de quem disser que têm cara de peru atropelado por uma carroça! Por isso, este caso ficará apenas na consciência do Tony ao qual gostava de deixar umas palavras:

Tony, plagiar é como ir para a cama com uma mulher, desligar as luzes, sair do quarto sem ela ver e mandar no teu lugar outro gajo que lhe dá uma esfrega daquelas de usar Halibut no dia seguinte. Incontáveis orgasmos múltiplos depois, o gajo sai do quarto e tu voltas a entrar e a acender as luzes. Ela olha-te como quem diz que foste o melhor que ela já teve. Tu recolhes os louros e ficas com uma boa imagem aos olhos dela, mas sabes, lá no fundo, que o mérito não foi teu. Sabes que, afinal, o menino não eras tu. Era outro.
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