2 de fevereiro de 2018

Tipos de pessoa e de fotografa no Instagram



Tenho alguma dificuldade em perceber como funciona o Instagram. Já há uns tempos que tenho o meu (@guilhermercd), mas só comecei a usar mais a partir do momento que desenvolveram a funcionalidade de fazer zoom nas fotos. Não vale a pena especificar o tipo de fotos para as quais isso dá jeito. Não tenho grande jeito para o Instagram, já que 90% das minhas fotos são da minha cadela e os outros 10% são selfies embriagado. Sempre que virem duas selfies seguidas no meu Instagram, é sinal que estou com os copos. Se forem dez é porque vou ter uma daquelas ressacas de dois dias que atormentam o pessoal depois dos trinta. Para melhorar o meu Instagram, fui analisar alguns tipos de pessoa e de fotografia que andam pelo Instagram. Segue uma descrição seguida da minha tentativa de imitar e assim ser famoso no Instagram.

Mamas e rabos
Não sei se é por o Instagram ter um algoritmo que sabe exactamente os meus gostos, mas quando vou à pesquisa, 90% do que me aparece são raparigas seminuas. Uma espécie de galeria soft porn que orgulhará muitos pais. Talvez seja baseado nos gostos dos meus amigos que são todos uns porcos, é possível que sim. Mamas é e será sempre o argumento mais forte à utilização de qualquer rede social e da Internet no geral. Não houvesse mamas, e o ser humano não tinha inventado a tecnologia. Pedra ganha à tesoura que por sua vez ganha ao papel. Papel ganha à pedra, mas mamas ganha a todos.

Abdominais
Não pensemos que são só as mulheres que gostam de mostrar o corpo para ter likes e seguidores. Também há bastantes homens a mostrar o belo do abdominal, seja na praia ou no WC, porque a foto a seguir ao treino com um batido de proteína vale mais do que 500 kcal perdidas na passadeira. Tenho por lema de vida: se a tua fotografia de perfil de uma rede social é de tronco nu, é porque és um palerma.


Animais
Cães e gatos são os únicos que disputam o pódio da Internet com as mamas. A própria da minha cadela tem um Instagram (@diariodeumabitch), mas não é daqueles criados por donos malucos que não têm mais nada que fazer na vida. O da minha é uma paródia a essas, com uma cadela que diz asneiradas porque veio do gueto. O objectivo é um dia ela ser influencer canina digital para ter ração à borla. Veio do canil, tem de começar a render que isto ninguém dá nada a ninguém.

Pessoas distraídas
O Instagram está cheio de paparazzis que tiram fotografias a pessoas distraídas a olhar para o horizonte. São essas mesmas pessoas que depois publicam essas fotografias no próprio Instagram, pelo que calculo que esses paparazzis sejam como os fotógrafos de casamento ou do Zoomarine que tiram a fotos e vão impingi-las e quem compra é sempre por ter vergonha de se não o fizer estar a dar ar de pelintra.

Lentes de contacto perdidas
A famosa foto de blogger de moda/fashion diva/influencer brand digital/palerma que tira a fotografia como se estivesse à procura das lentes de contacto no chão. Percebo, já que na maioria dos casos esconde um bocado a cara e ajuda a manter a ilusão de que é bonita na vida real. Por norma, é uma armadilha e não são assim tão giras, tal como aquelas todas que vemos de rabo de cavalo, óculos escuros e a conduzir um SMART, MINI ou Fiat 500. Enganam sempre. A única razão aceitável para ter uma fotografia a olhar para o chão é à noite, com os copos, à procura da chave de casa que caiu do bolso, só com um olho aberto que é para conseguir fechar, e um amigo nosso acende a lanterna do telemóvel para ajudar e tira uma fotografia sem querer.

Comida
Para uma criança subnutrida africana o Instagram é uma espécie de casa de strip em que não deixam tocar nem comer. Esta moda começou apenas em ocasiões especiais: um bom restaurante, um bom cozinhado feito em casa, etc. Agora, é por tudo e por nada e até um rissol de carne da estação de serviço de Aveiras merece uma fotografia no Instagram. Menos, minha gente. Calculo que o Instagram dos chineses esteja carregado de fotografias de gafanhotos, larvas e aranhas. Isso para além de ter ainda muito mais fotografias de cães, claro.


Fotógrafos "profissionais"
Antigamente, qualquer macaco com uma máquina DSLR achava que já era fotografo profissional, agora qualquer um com um smartphone e meia dúzia de filtros acha que uma foto do pôr-do-sol em Belém com a hashtag #sunset é digna do prémio da National Geographic Photo.

Fotos do verão em pleno inverno
O aquecimento global está a trocar as estações e deve ser essa a razão pela qual o meu feed de Instagram está cheio de gente na praia em pleno Inverno. Gente que guarda fotos propositadamente para isso só para parecer que tem férias o ano inteiro e esquecer que está no escritório sem janelas, a acordar antes do sol nascer e a chegar a casa já de noite.

Influenciadores a promover merdas
Exemplo: rapariga voluptuosa cujas fotografias se cingem a mostrar o decote, com mais de 300 mil seguidores, publica fotografia - a mostrar o decote até porque ter coerência na linha editorial é importante para fidelizar seguidores - com um creme na mão, totalmente casual, a dizer que adora aquele creme. Boa jogada das marcas, até porque desses 300 mil seguidores, 299 mil não são gajos rebarbados que fazem zoom nas mamas da rapariga nem nada. É mesmo o público que vai comprar o creme para a celulite. Há marcas que são burras que nem calhaus.

Bebés
Claro que o Instagram tinha de ser uma espécie de ementa de pedófilos. Grávidas e bebés por todo o lado. Publicar uma fotografia do bebé com um emoji a tapar a cara já é bem parvo, mas ter pessoas a comentar essa mesma foto com «É tão lindo!» é de perder a fé na humanidade. Os pais têm sempre problemas em mostrar a cara do filho porque na maioria dos casos parece ratazanas acabadas de sair do banho. No entanto, quando é para o bebé ganhar cremes e concorrer a passatempos, aí até metem fotografias deles nus. Tudo bem que podem ser raptados por um pedófilo, mas a possibilidade de ganhar um pacote de fraldas compensa o risco.

E pronto, espero que tenham recuperado do choque da primeira foto. Este texto foi só mesmo para promover o meu Instagram. Sinto que tenho de diversificar para as marcas me darem cremes que agora estou a chegar aos 34 e vou começar a precisar de disfarçar as rugas. Podem seguir-me em @guilhermercd e, já agora, podem seguir o da minha cadela (@diariodeumabitch) que é bem mais interessante, até porque ela tem 8 mamas para mostrar. Podem partilhar este texto à vontade que o meu rabo de esquilo precisa de atormentar mais pessoas.
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24 de janeiro de 2018

Da Buraca para Alvalade: um choque cultural



Há uns tempos mudei-me da Buraca, onde vivi desde que nasci, para Alvalade. Tem sido um grande choque cultural e esperei algum tempo até fazer este texto para que lhe fizesse justiça. Desde já, engane-se quem pensar que esta mudança se deve ao facto de agora estar bem na vida. Mentira, a minha namorada tinha comprado casa na altura da crise e pagamos menos ao banco do que se pagaria por um quarto sem janelas em Alvalade. Isto é só para dizer que preciso que continuem a comprar os meus livros e bilhetes para os meus espectáculos para ver se um dia deixo de andar num Clio de 2002.

Voltando à mudança da Buraca para Alvalade, quase ao estilo do Cabaret para o Convento. Desde logo, a banda sonora de Alvalade é completamente diferente e deixei de saber quais as kizombas que estão a bater neste momento. Na Buraca, de cinco em cinco minutos, havia um carro a passar, de janelas abertas, com um excelente sistema de som com subwoofer mais caro do que o próprio carro, a dar música a toda a rua qual discoteca ao domicílio. Em Alvalade, não há nada disso. Os próprios carros são diferentes; não me lembro da última vez que vi um Saxo cup artilhado com um gajo de boné a conduzir encostado ao volante e uma gaja à pendura, com unhas de gel pontiagudas e adornadas com piercings, brilhantes e desenhos a condizer com os decalques do capô da viatura.

Na Buraca, é comum os mitras pedirem-te dinheiro na rua. Não é bem pedir, vá, é sugerir para teu bem que dar uns trocos faz bem à saúde. Em Alvalade, também se pedem trocos, mas são os malucos do Júlio de Matos. História verídica: estava no café e vem um casal de tantans da cabeça pedir dinheiro para comer; dei-lhes dois euros e eles, sem hesitar, vão directos comprar tabaco à máquina que estava mesmo ao meu lado. Zero vergonha. Na Buraca, os assaltantes eram mais honestos e estavam sempre preocupados com a pontualidade porque todos os assaltos começavam com um «Tens horas? Esse relógio é fixe… deixa ver melhor». Claro que em Alvalade também há muitos mitras! O que mais se vê é pessoal com a bolsa à cintura, vestidos com Lacoste e com aquele andar da pausa meio a mancar, mas não são bem mitras, são velhos. Começo a ter a teoria de que um mitra reformado é um velho de Alvalade: em vez de andarem com o telemóvel a dar música aos altos berros sem auscultadores, andam com a telefonia a ouvir a bola; também usam as calças descaídas devido à fralda; têm problemas de memória, não por causa da ganza, mas por causa do Alzheimer; conduzem sem qualquer respeito pelo código da estrada e ainda no outro dia vi um senhor numa rotunda em sentido contrário, tal como via na Buraca tantas vezes os mitras do tuning a fazer.

Outra semelhança entre os mitras e os velhos é que ambos te passam à frente na fila do supermercado.

Por falar em mitras, sempre achei estranho que o pessoal que vende droga na rua se vista à vendedor de droga na rua. Parece-me de traficante pouco inteligente. Conhecia um gajo que transportava quilos de droga no carro e que achava que a melhor forma de passar despercebido e a polícia não desconfiar era ter um Fiat Punto amarelo, ir sempre com boné, brilhantes nas orelhas, sobrancelha com cortes e filtro atrás da orelha. Claro que foi preso. Burro. Pá, veste um pólo e um sapato de vela para disfarçar, meu pequenino mitra. Se bem que se és parado pela polícia num Punto amarelo e estás vestido à beto, a polícia é capaz de desconfiar:

- Então… senhor… Sandro… tem alguma coisa que o comprometa? 
- Não, não senhor bófia.
- Hum… e ia onde com tanta pressa?
- Senhor bófia, ia só ali a casa do meu irmão Martim, ya? Que estou atrasado para a a aula de equitação.

Os nomes que se ouvem na rua são outra grande diferença entre as duas zonas: na Buraca ouves o pessoal a gritar «Jailson! Wellington! Cristiano!»; em Alvalade ouves «Bernardo, venha cá à mãe.» ou «Carlota, não faz xixi aí.». Sim, este último era um rapaz a falar com a sua cadela buldogue francês, raça predominante nesta zona. Pitbull? Nem um, até a Zaya se sente desajustada em Alvalade, fora do seu elemento que é o gueto. E alcunhas? Nas zonas finas ninguém tem alcunhas de jeito. Na Buraca conhecia um migalhas, um xinadas e um mata-bófias, já em Alvalade o máximo que ouvi foi um «Xico» e uma «Tatá». É triste esta falta de criatividade. 

Viver na Buraca causou-me traumas que ficam para sempre. Sou uma espécie de retornado de guerra com stress pós-traumático. Por exemplo, no outro dia ouvi gritos de desespero de uma senhora, vindos da praceta, e pensei «Já estão a assaltar uma velha!». Levantei-me, em sobressalto, fui à janela, meio escondido para evitar represálias e balas perdidas, vejo a senhora aos berros... com um gato «Vá já para casa!». Ri-me e pensei «Ya, esqueci-me que agora moro em Alvalade.». Algo parecido aconteceu-me na rua, à noite, em que oiço um assobio, «Fiu fiu», que em linguagem da Buraca quer dizer «Espera aí que eu gostava de te assaltar!». Ignorei e oiço «Oh, olha! Espera aí! Oh Oh!» e pensei, «Pronto, já vai haver merda.». Percebendo que se chegava mais perto, cerrei os punhos e quando o sinto nas minhas costas viro-me, de repente, e vejo que era um rapaz, baixinho, bem vestido de echarpe lilás que me diz «Peço desculpa por incomodar, mas por acaso podia emprestar-me um isqueiro, por favor?». São traumas que me vão ficar para sempre.

Quando vejo alguém a fazer jogging, ainda imagino que acabou de haver um assalto. Um gajo sai da Buraca, mas a Buraca não sai de um gajo.

Engane-se quem acha que Alvalade só tem vantagens. Trocava bem os parquímetros da minha rua por um ocasional roubo do auto-rádio com direito a vidros partidos. Já paguei mais à EMEL do que ao Kalu Xinadas que assaltava na minha zona e, bandido por bandido, prefiro ajudar o Kalu que tem oito filhos para alimentar do que chulos. Por isso, deixo sempre o carro no bairro social mais acima da minha rua que, ironicamente, é a única zona na qual não instalaram parquímetros porque lá dão-lhes outro nome: aquelas máquinas estranhas que dão moedas. Sim, já me roubaram um tampão da roda e um limpa para-brisas, mas compensa. Outra coisa que Alvalade tem pior é o problema da droga: não se arranja. Na Buraca, bastava ires ao 6 de Maio, paravas o carro e pedias o que querias numa espécie de Ganza McDrive aberto 24 horas. Em Alvalade, o máximo que te orientam é um Calcitrin.

Outra coisa diferente é a vizinhança. Na Buraca, os meus vizinhos faziam transacções estranhas a meio da noite. Lembro-me de, pelas duas da manhã, ver um vizinho a vir à rua e dar um pacote suspeito a um gajo, recebendo um envelope em troca. Percebo, às duas da manhã queres fazer um bolo, não há nada aberto para comparar farinha, tens de recorrer a um amigo. Duzentos gramas por dez mil euros? É justo, é mais ao menos o preço que praticam as estações de serviço. Em Alvalade, a vizinhança é pior: os meus vizinhos fazem maratonas de karaoke até as 4 da manhã a cantar Britney Spears, mas essa história já vos contei.

Tem sido uma adaptação complicada de fazer. Continuo a ir à Buraca muitas vezes e da última vez que jantei em casa dos meus pais ouvi tiros na rua. Ah, que saudades. Senti-me nostálgico e lembrei-me daquela vez que em Alvalade ouvi uns barulhos semelhantes, mas fiquei desiludido ao perceber que era fogo de artifício.

PS: Para matar saudades, vou dar o último espectáculo de stand-up comedy desta minha primeira tour no cine-teatro D. João V na Damaia, dia 16 de Fevereiro. Bilhetes à venda nos locais habituais e neste link.
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18 de janeiro de 2018

Os problemas de quem é pontual



Tenho um grande defeito: sou pontual. O que à partida pode parecer uma qualidade, é algo que afecta a minha vida de forma negativa. Vivemos num mundo em que as pessoas dizem valorizar o seu tempo, em que se consome comida e entretenimento fast-food, mas em que o tempo dos outros que ficam à espera é desvalorizado. Portugal sempre teve fama de ser um país atrasado e talvez a falta de pontualidade da maioria das pessoas tenha alguma influência nisso. Não tenho nada contra atrasados, até tenho amigos que são. Por exemplo, a cronologia de um jantar marcado para as 20h é mais ou menos esta:

19:30h - Saio de casa, apesar de só demorar 10 minutos a chegar.
19:40h - Chego ao local e fico a fazer tempo.
20:00h - Vou para o restaurante e ninguém chegou.
20:15h - Olho para o telemóvel várias vezes.
20:30h - Vou ver a conversa de WhatsApp para ter a certeza se não me enganei nas horas; não me enganei.
21:00h - Chega o primeiro atrasado e diz «Eish, já estás a comer as entradas, nem esperas nem nada!».

É sempre a mesma rotina e eu não aprendo. Já sei que vou ser o primeiro a chegar e ficar à espera e tento convencer-me a juntar-me ao lado negro da força e ignorar as horas e chegar meia hora atrasado, mas nunca consigo. Ser pontual é mais forte do que eu.

Minto, uma vez consegui e fiz de propósito para chegar meia hora atrasado só para mostrar o que custa esperar pelos outros, mas acabei, na mesma, por estar vinte minutos à seca.

Com o telemóvel, é certo que este problema é atenuado, já que posso fingir que estou a ver algo interessante quando na verdade ando às voltas no painel das definições a fazer tempo, tal como toda a gente faz no computador do trabalho quando faltam dez minutos para sair. Não me cabem nos dedos das mãos as vezes que simulei uma chamada telefónica, só para me esquivar a conversas de circunstância com outras pessoas pontuais, mas com as quais não tenho grande afinidade. Muitas vezes, como chegar atrasado, para mim, não é uma opção, acabo por chegar sempre demasiado cedo em algumas ocasiões e fico no carro, à espera, enquanto vou ligando e desligando o motor para ter a certeza que não fica sem bateria por estar a ouvir rádio para passar o tempo. Como seres pontuais, começamos a desenvolver estratégias para conseguirmos sobreviver neste mundo, ou país, de gente atrasada. Todos nós, pontuais, quando temos de marcar um jantar, temos a mesma técnica para lidar com os nossos amigos, atrasados crónicos, incapazes de chegar a horas: marcamos o jantar para às 21h, mas dizemos-lhes que é às 20h. Chegam pelas 21:30h. Para a próxima dizemos que é um lanche e na vez seguinte que é pequeno-almoço, só para garantir que os piores chegam a tempo de jantar.

Os homens pontuais que tenham uma namorada atrasada crónica, são os que mais sofrem com o facto de terem essa condição invulgar. Aliás, como pessoa pontual em Portugal, sinto que devia ter algum tipo de ajuda por parte da Raríssimas. Esses homens sofrem porque têm de esperar que ela experimente todas as roupas do armário enquanto vêem o tempo a passar; sofrem porque vão chegar atrasados e deixar os outros esperar, coisa que mais odeiam; sofrem, por fim, porque depois de esperarem duas horas por ela, ela vai à sala e diz «Então? Vamos? Estou à tua espera.». É nesta altura que um gajo compreende os elevados números da violência doméstica.

Há vários estudos feitos para tentar compreender os atrasados crónicos e há várias teorias:
- Estão-se a cagar para os outros;
- O cérebro dessas pessoas processa o tempo de forma diferente;
- São optimistas por natureza e acreditam que, por exemplo, não vai estar trânsito.

Talvez não tenham culpa e seja só uma incapacidade mental de perceber que o tempo é relativo e que para quem se atrasa meia hora o tempo passa rápido, mas para quem está à espera é uma eternidade.

Engane-se quem pense que ser pontual apenas me traz problemas em contexto pessoal e social. É, também, um grave problema a nível profissional. Já o era quando tinha um trabalho de gente séria e ia a entrevistas ou reuniões com potenciais clientes. Raramente alguma começava a horas e nunca podia refilar com os doutores e engenheiros. Já estive numa entrevista de emprego onde esperei mais de meia hora e o entrevistador, a meio, diz que a pontualidade é algo que valorizam muito naquela empresa. Achei irónico e apanágio de todas as pessoas que chegam atrasadas que é o facto de afirmarem, à boca cheia, que detestam fazer esperar os outros. Mentira, estão-se a cagar. Se realmente não gostam de nos fazer esperar e o fazem, ainda é pior. Agora, acontece com entrevistas na televisão, por exemplo. «Esteja cá pelas 9h, por favor», desde logo, sinto-me violado pois não saí do mundo empresarial para me estar agora a levantar às 8h da manhã, mas com muito sacrifício lá chego à hora marcada e oiço «Agora é esperar aí um bocado.», bocado esse que é sempre uma ou duas horas. Neste novo mundo onde me movimento, o chamado mundo do espectáculo, sinto que estou numa timezone diferente e a pontualidade ainda me traz mais problemas.

Existe uma panóplia de frases que os atrasados utilizam e que são todas mentira:
  1. Estou mesmo a chegar.
  2. Saí mesmo agora de casa.
  3. É só lavar os dentes e sair de casa.
  4. Estou à procura das minhas lentes.
  5. Apanhei uma operação STOP.
  6. Já me levantei, sim.
Tudo mentira. Se metermos essas frases no Google translate de Atrasadês -> Pontualês, o resultado é o seguinte:
  1. Ainda nem saí de casa.
  2. Estou na sanita a jogar Angry Birds, apesar de já ter feito tudo ainda vai demorar porque quero mesmo acabar este nível. Depois ainda vou tomar banho e comer qualquer coisa.
  3. Estou a aquecer o almoço, ainda. A começar a fazer, vá, mas é coisa rápida... é cabrito no forno.
  4. Comecei agora a ver o último episódio de Narcos.
  5. Fui só tomar café e encontrei lá pessoal e fiquei na conversa meia hora.
  6. Foda-se! Adormeci, ainda bem que me acordaste, vou-me atrasar duas horas, pelo menos.

O pior de tudo é quando combino algo para as 17h, por exemplo, e a pessoa atrasada me envia mensagem às 17:15h a dizer «Estou atrasado.».

No shit, Sherlock. Ainda bem que avisas senão estava aqui numa dúvida existencial. Um gajo refila, mas acaba por aceitar que estas pessoas nunca vão mudar. Aceitamo-los como elas são até ao dia em que nós, pontuais, chegamos dez minutos atrasados porque o carro efectivamente avariou e tivemos de reanimar alguém na rua que colapsou e os nossos amigos atrasados dizem «Ahhh, vês... afinal tu também te atrasas!». Era uma chapada à padrasto nas ventas.

PS: Para todos os pontuais, o meu (último) espectáculo, dia 16 de Fevereiro, na Damaia, começa as 22h, mas atrasa sempre dez minutos para esperar pelos outros. Bilhetes aqui neste link.
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9 de janeiro de 2018

Vale a pena reatar uma relação passada?



Bom ano e que 2018 vos traga muito funaná pelado e amor à bruta pela frente, trás e outros ângulos. Vamos, sem demoras, começar a primeira consulta do ano do "Doutor G explica como se faz". 


Caríssimo Dr. G, terminei há uns meses uma relação de 5 anos porque me interessei por outra pessoa que entretanto me deu com os pés. Mas agora surgiu uma nova pessoa interessada mas que eu sei que não é flor que se cheire sendo que também não o quero para casar, digamos que podíamos passar bons momentos mas eu sei que não tenho perfil para este tipo de relações porque penso demais e tenho medo de sair pior do que estou agora! O que me diz a isto?    
Anónima, 21, Coimbra

Doutor G: Cara Anónima, se há coisa que o Doutor G detesta no seu consultório são pessoas que enviam as dúvidas, expõem as várias hipóteses e dão as respostas. Parece aquele pessoal na escola que metia a mão no ar durante a aula para repetir o que a professora tinha acabado de dizer em forma de pergunta, para ter aprovação da professora e ter boa nota na participação. Essas pessoas, mereciam levar com um martelo na ponta dos dedos. Se sabes que o que se está a fazer a ti não é flor que se cheire e sabes que não consegues ter uma relação baseada apenas no sexo e te vais apegar a ele e acabar por sofrer, qual é a dúvida? Para que é que eu estou aqui a falar, tu vais fazer o que queres na mesma, não é? Vais tentar mudá-lo, levar com um par de chifres e depois queixares-te que os homens são todos uns porcos e farinha do mesmo saco, certo? Então, olha, boa sorte.


Caro Dr. G, durante quase 6 anos namorei com uma rapariga que faz parte de um grupo de amigos comum, daqueles mesmo chegados, tipo férias juntos e tudo. A coisa é que há mais de um ano ela terminou tudo comigo por causa de outro sujeito. Foi um ano ​muito positivo ​tendo mesmo acabado por evoluir imenso a nível pessoal e profissional​, e espectacular ​para a fanfarra entre amigos, já que chafurdei em mais pipi alheio do que um porco na lama​ ​em época de monção​, mas a verdade é que não há pipi como aquele, e não falo anatomicamente! Nos últimos meses fomos sair duas ​ou três vezes​​ juntos, ​e​ ​acabámos ​​por passar a noite a falar e nas piadolas, seguido de longas conversas emocionais ​"​do que foi e podia ter sido​"​, sendo que da última vez​ antecedeu em dias o fim da relação que ela mantinha.​ Depois disso temos estado juntos algumas vezes mas nunca aconteceu nada, até porque eu não quero​, mas a verdade é que estou desesperado para que aconteça. Eu ainda gosto da "piquena", mas percebo que ela agora esteja confusa e não faça ideia do que quer, tendo isto vindo da boca dela! O que é que eu faço? Dou-lhe espaço? Vou com tudo e rezo para que dê certo? Se me puder dar uma​ indicação de para onde me virar,​ eu agradecia!
S, 25, Lisboa

Doutor G: Caro S, devias apanhar um par de chapadas à padrasto na moleirinha a ver se acordas para a vida. Vamos por partes:

  1. O ano que estiveste sem ela foi muito positivo a todos os níveis;
  2. Ela acabou um namoro de 6 anos para estar com outro e agora que o outro acabou com ela (sim, estou a assumir isso) está confusa e na dúvida se ainda gosta de ti;
  3. Não aconteceu nada por "não queres, mas estás desesperado que aconteça"? Valha-nos a coerência;
Analisando estes três pontos, chegamos à conclusão que tu és a segunda e a opção segura dela que agora não quer estar sozinha. O mais provável é ela depois fazer-te o mesmo quando se fartar e se lembrar porque é que terminou contigo da primeira vez. Tu vais ficar na merda, novamente. Ainda se ela dissesse que foi um erro e estivesse segura que é de ti que gosta, agora ainda está com dúvidas? Se voltarem, 99% de certeza que vai dar merda, mas tens 1% de hipótese de correr tudo bem e serem felizes para sempre. Como engenheiro do amor, só me sujeito a baixas probabilidades quando a alternativa é a morte. Nunca se deve voltar a um sítio onde já se foi feliz, especialmente se esse sítio é um pipi. Podes mandar estampar numa t-shirt.


Caro Doutor G, tenho um grupo de amigos com os quais andei durante o verão, em que um deles mostrou um certo interesse. Depois de poucos beijos e do rapaz fritar a pipoca, decidimos que não ia à frente, já que o jovem afirmou que como éramos do mesmo grupo qualquer tipo de envolvimento só poderia ser uma relação séria, coisa que para a qual ele não estava preparado no momento. Mas a coisa continuou e acabámos num quarto de hotel numa tentativa do "vai ou racha". Ora, nem foi nem rachou, quanto muito tremeram-lhe as pernas e fugiu. Isto tudo sempre dizendo que não era certo, acabando a minha saga pseudo violação com a frase "se calhar ainda me vou arrepender". Devo calar o meu orgulho e volto a insistir correndo o risco de ser presa, ou devo interpretar isto como um não definitivo?
Anónima, 20, Lisboa 

Doutor G: Cara Anónima, analisando o caso e recorrendo a toda a minha sapiência e experiência ao longo destes anos como consultor sexual e amoroso, deixo aqui um creampie chart que mostra as razões que podem ter levado o jovem a ter essa atitude de suricata amedrontada:
Posto isto e somando as probabilidades de ele ser virgem e/ou sofrer de ejaculação precoce, há 53% de probabilidade de ele não te satisfazer na cama, devido à sua inexperiência e notória falta de vontade de fazer sexo. Vale a pena insistir, sabendo disso? Quão desesperada estás? Se alguém me dissesse a frase "se calhar ainda me vou arrepender" antes de fazer sexo comigo, para mim estava tudo acabado a não ser que fosse "arrepender porque deves ser tão bom na cama que me vou apaixonar e querer mais". O que para além de ser um elogio, mostrava que a pessoa é perspicaz e constata facilmente o óbvio. Fora esse contexto, essa frase deve ser tomada como ofensa e se avançares e o violares, enfia-lhe um dildo no rabo só para lhe dar razão. Ou não, há 1% de probabilidade de ele gostar.


Caro Doutor G, a minha dúvida é simples e rápida: num cenário paralelo, onde o Dr. G fosse solteiro, fazia a Ana Malhoa? Já agora, qual o seu vídeo clip preferido dessa artista? 
Uma fã (da Ana Malhoa, claro)

Doutor G: Cara fã da Ana Malhoa, para mim, fazer a Ana Malhoa seria como fazer o palhaço Batatinha. Não se deve estragar a infância. Dito isto, tenho por norma não ir para a cama com mulheres com mais músculos do que eu. A juntar a isso, eu vi as fotografias da Ana para a Playboy e tenho algum receio de não conseguir ter uma performance satisfatória por estar distraído com os mamilos estrábicos que só fariam sentido na Rita Pereira. Por fim, o video favorito é a Turbinada até porque é o que tem lubrificante feito à base de azeite.


Caro Doutor G, tenho 20 anos e acabei à algum tempo um relacionamento com pouco mais de 2 anos. Ele acabou porque eu mostrava algum desinteresse na relação, inclusive no que tocava a agasalhar o croquete. Ainda que na altura ele tenha dito que ainda me amava e não tenhamos ficado de costas voltadas, parece estar a seguir a sua vida. Contudo, eu continuo interessada nele, mais do que nunca – talvez porque tenha levado com os pés – e arrependo-me de só ter acordado agora. Mesmo afastada dele, não consigo esquecê-lo, e quando o vejo próximo de outra rapariga desce sobre mim um espirito de lutadora de MMA.  O que é que eu faço? 

Anónima, 20, Lisboa

Doutor G: Cara Anónima, o que fazes agora? Agora chuchas no dedo. Quem só dá valor quando perde ou porque há concorrência, não merece chuchar noutras coisas. Fim. Drop te mic.


Está feito. Bom ano e até à próstata. Se têm dúvidas, enviem para porfalarnoutracoisa@gmail.com, ou caso sejam de Leiria, podem ir assistir ao meu espectáculo dia 13 de Janeiro e fazer a pergunta ao vivo ao Doutor G em carne e osso. Últimos 40 bilhetes à venda neste link.


Partilhem e façam amor à bruta, porque de guerras o mundo já está cheio.

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8 de janeiro de 2018

Comprar roupa: o drama de um homem branco e hetero



Sinto que há uma temática importante que a nossa sociedade recusa debater: o facto de, ano após ano, ser cada vez mais complicado, como homem branco heterossexual, comprar roupa nas lojas mais conhecidas. Sinto que nos dias de hoje, abordar este tema é como dançar sapateado num campo minado cheio de engenhos que podem explodir a qualquer momento, lançando pregos com as  palavras "homofóbico" e "racista" escritas, mas como tenho a consciência tranquila posso dar-me a esse luxo.

Começo por dizer que a imagem do post serve apenas para ilustrar. Bem sei que os gays não se vestem assim no seu quotidiano e que a parada gay é uma forma metafórica e hiperbolizada de festejar a liberdade sexual e acho muito bem. No entanto, dizer que não existe tal coisa como roupa gay é mentira. Deixando o politicamente correcto de lado, é notória a diferença que os vários grupos de pessoa marcam na forma de se vestir e, sendo certo que ser gay não é uma moda e que existem gays em todas as tribos urbanas, são sempre os que têm mais estilo, cuidado e arriscam mais.


Vês um grupo de mitras com bonés, fatos de treino e com brilhantes nas orelhas e de repente vês que um deles usa uma écharpe em vez de um cachecol para tapar a cara durante um assalto? É o gay.

Vês um grupo de góticos, todos vestidos de preto e olhos pintados com lápis e no meio destaca-se um que tem os atacadores das Doc Martens amarelos e usa uma lâmina Vênus para se cortar? É o gay. Não têm medo de arriscar e de ser diferentes. Não tenho problemas com a forma como os outros se vestem, o meu único "problema" é que a maioria das lojas está a dar preferência a esse tipo de roupa que arrisca e um gajo como eu fica sem grandes alternativas. No outro dia, entrei na ZARA e dei por mim à procura da secção de homem. Dei duas voltas e não encontrei. Abordei um dos empregados:

- Olhe, a secção de homem é onde?
- Ah... é esta toda. Esta loja é toda de homem...
- Ah... ok.

Percebi pelas sobrancelhas arranjadas do empregado e pela forma como andava, dando a parecer que era patinador, tal era a ligeireza com que deslizava ao locomover-se, que poderia interpretar a minha pergunta como ofensiva, mas não foi essa a minha intenção. Era uma pergunta legítima de um heterossexual que não tem grande noção de estilo. Vi casacos vermelhos compridos com botões dourados, vi camisolas pelo joelho e com transparências nas mangas e assumi que estivesse na secção de mulher ou no guarda-roupa do Diogo Piçarra e do Anselmo Ralph. Um erro legítimo, parece-me. Por vezes, a roupa até parece discreta, mas tem escondido um pequeno apontamento exuberante: letras nas costas com brilhantes, um forro com flores rosas, ou uma cintura demasiado estreita e descaída. O meu baixo ventre não foi feito para usar calças de cintura descaída. Ali, um homem que não use skinny jeans, camisolas daquelas que parecem um vestido, e cores berrantes com lantejoulas e golas de palhaço Batatinha, sente-se discriminado. Às vezes, só quero uma t-shirt preta, sem nada, só preta. Não quero letras roxas com estrelinhas, não quero brilhantes, não quero que seja com uma gola em V até ao umbigo, nem justinha no pneu. Sempre fui desproporcional da cintura para baixo (wink wink) com muito mais massa muscular nas pernas do que no resto do corpo. Daí, mesmo que não fosse por uma questão de gosto, é-me impossível usar skynny jeans porque se o fizer vou-me assemelhar a uma experiência falhada em laboratório entre um flamingo e um cavalo.

Sou do tempo em que havia uma clara diferença entre a roupa de homem e a roupa de mulher e em que as zonas correspondentes nas lojas eram facilmente destrinçáveis à vista desarmada. Hoje, tal não acontece. É preciso ser uma espécie de detective para perceber se estamos na secção de roupa de homem. À primeira vista, não parece, mas temos de procurar pela presença de saias ou vestidos para ter a certeza e, mesmo assim, não é garantido. Longe vão os tempos em que as cores vivas eram para as mulheres e em que os homens estavam cingidos a uma paleta de cores escuras e mortas. Não tenho problema com isso: tenho uma t-shirt laranja e outra amarela, por exemplo, sou um gajo que não nega o progresso, mas, tal como é complicado encontrar roupa quando se é um homem baixo ou gordo, começa a ser difícil sendo heterossexual e branco. Claro que sobram as lojas com roupa de tio de Cascais, com calças caqui e camisa branca com pólo azul, mas antes vestir-me como um pavão colorido do que como um gajo que gosta de touradas.

«Oh Guilherme, começaste por referir que era o homem branco heterossexual e só te vejo a escrever sobre a parte heterossexual, afinal o que é que a cor da pele tem a ver com o assunto?». Boa pergunta. Por norma, e reparem que estou sempre a generalizar sabendo que existem excepções, os negros têm uma forma diferente de vestir dos brancos. Apesar de sermos todos impactados pela mesma sociedade e moda, temos influências diferentes em várias fases da vida e o próprio facto de durante muitos anos as discrepâncias financeiras terem sido maiores entre raças, faz com que isso tudo se reflicta na forma como nos vestimos. Lembro-me de ver os meus colegas de escola com bonés dos Chicago Bulls e de querer um também, para ficar com estilo. Os meus pais compraram-me e mal o experimentei e me vi ao espelho, percebi que o único estilo que tinha era o de palerma. Vemos isso no hip-hop, cultura que influencia muitos negros: vestir merdas à parva e ficar com estilo sem saber como. Um negro safa um casaco vermelho com uma camisa amarela e uns sapatos de pele de crocodilo azul. Fica a mandar pausa. Um branco que opte pela mesma indumentária vai parecer um chulo daltónico. Acho que tem a ver com a confiança: talvez um negro arrisque mais na roupa porque tem maiores problemas com que se preocupar do que a forma como as outras pessoas olham para a maneira como se veste. Se calhar, enquanto eu estava preocupado se o casaco ficava bem com a camisa antes de ir para uma entrevista de emprego, um negro estava mais apreensivo que o entrevistador o pudesse achar demasiado escuro para a sua empresa.


Talvez seja por isso, por terem mais com que se preocupar, que arriscam roupa com mais confiança. Isso ou porque o preto dá bem com tudo, não sei.

Se pensarmos bem, isto da roupa das lojas estar cada vez menos branca e heterossexual é bom sinal. É sinal que, por um lado, temos grupos de pessoas que começam a ter mais poder de compra levando as marcas a pensar neles quando desenham as roupas e, por outro, que a sociedade está mais aberta e que outros grupos de pessoas se podem expressar através da roupa sem problemas de serem julgados. No fundo, este texto que à primeira vista pode parecer preconceituoso, é uma celebração do progresso social que temos tido. Tem bué camadas e eu sou um génio, é a conclusão que podemos, obviamente, tirar disto tudo. O problema, se é que é um problema, é que toda a nova questão da neutralidade e da fluidez de género - que diz que o masculino e feminino não são mais do que concepções culturais - assusta-me. Assusta-me porque se isso for a norma aceite pela sociedade, deixará de haver uma secção de roupa de mulher e de homem e tornar-se-á, analisando o padrão dos últimos anos, ainda mais, tudo numa grande amálgama indistinguível e onde irão dominar as pessoas que, por norma, mais gastam dinheiro em roupa: as mulheres e os gays. E pronto, lá vou eu andar com as mesmas calças de 2004 e com as mesmas tshirts que usava no secundário, todas rafadas e russas.

Dito isto, não tenho qualquer problema com a forma como as outras pessoas se vestem. Interfere zero na minha vida. Já sei que me estou a repetir, mas é importante não confundir: não tenho nada contra o Roberto querer usar botas de cano alto leopardo rosas, com um pavão a fazer de boina e com uma lanterna no rabo porque o seu animal preferido é um pirilampo. Posso gozar com isso e fazer piada como faço com o mitra de bolsa ao pescoço a pensar que é um são bernardo do gueto. A crítica nunca é baseada na orientação sexual ou raça, mas sim no ridículo que para mim possa ser vestir-se de uma ou de outra forma, tal como acho ridículo usar fato e gravata para dar uma imagem profissional e honesta quando os maiores ladrões que conhecemos são políticos e banqueiros engravatados. Só peço é uma coisa: é que as lojas comecem a ter para além da secção de homem e de mulher, uma secção de "Homem antiquado que não gosta de arriscar na vestimenta". Não é pedir muito. Vejam lá isso.
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3 de janeiro de 2018

Frases feitas e clichés que fazem comichão



Há uma série de frases que não passam de lugares comuns e clichés que se pensarmos bem nelas, irritam um bocadinho. Algumas são uma espécie de ditados, outras apenas expressões que não fazem sentido e que deveríamos deixar de dizer.

«Gostos não se discutem»
Dito por pessoas que têm um gosto de merda e sabem disso, mas não querem admitir. Claro que os gostos se discutem. Se me vierem dizer que Maria Leal tem a mesma qualidade que Jorge Palma, claro que vou discutir esse gosto e a seguir chamar as autoridades para que internem essa pessoa que, claramente, não está na posse de todas as suas faculdades mentais. É como dizer que «A qualidade é relativa». Não é. A qualidade do público é que e relativa e a maioria das pessoas é da loja dos trezentos.

«Eu, sinceramente, acho que...»
Ainda bem que avisas que vais dar a tua opinião sincera. Posso assumir, então, que de todas as vezes que não explicitaste que estavas a ser sincero é porque estavas a ser aldrabão? A juntar a esta, normalmente dizem «Eu, pessoalmente, acho que na minha opinião...», o que é estranho. Pensei que falasses com a opinião de outra pessoa e que falasses colectivamente.

«Temos de dar 110%»
Lamento, mas é matematicamente impossível. É impossível dar mais do que 100%. Peço desculpa, mas não fui eu que inventei as leis da física. «Oh Guilherme, não sejas assim, isto é uma metáfora hiperbolizada para mostrar que devemos esforçar-nos.». Claro, então porquê dar 110% apenas? Já que vivemos num mundo de fantasia sem lei, parece-me xonice apenas sonhar com 10% a mais do matematicamente possível. Porque não começar a dizer «Temos de dar infinitos por cento.»? Se é para ser matematicamente incorrecto a bem da mensagem, que se sonhe alto.

«Tens de ter calma»
Muito obrigado por esse precioso conselho. Estava eu aqui com um ataque de pânico, a pensar que posso morrer a qualquer momento, mas ainda bem que apareceu alguém sensato como tu a dar uma sugestão dessas, tão fora da caixa! És um génio! Já pensaste ir para terapeuta ou para negociador de reféns? «Ah, vai agora matar a velha e a criança! Não diga disparates. Você está nervoso, tem de ter calma.»

«Tudo acontece por uma razão»
Certo. Se eu te der um chapadão à padrasto depois de usares esta frase, é facto que aconteceu por uma razão que foi a de teres dito esta frase estúpida. Claro que tudo acontece por uma razão, embora sejam os factores que levaram a que tal acontecimento ocorresse e não uma razão futura, estilo destino, que é o que as pessoas querem dizer quando usam este cliché. As pessoas têm dificuldades em perceber que o mundo é injusto e que há coisas que acontecem por obra do acaso, sem qualquer razão nem plano futuro. Esta frase é a versão «Foi vontade de Deus» das pessoas que dizem que não são religiosas, mas sim espirituais e acreditam em Reiki e Astrologia e nessas cenas sem qualquer fundamento científico. No entanto, dou a mão à palmatória e realmente acreditam nessas coisas por uma razão: que é serem burras.

«São muitos anos a virar frangos»
Nunca cozinhaste um frango no espeto, aposto. Se as Finanças sabem que andas a virar frangos há anos, ainda aparecem para saber porque não declaras essa actividade profissional. Ninguém passa anos a virar frangos apenas para consumo próprio. Nem sabes estrelar um ovo, quanto mais assar um frango no espeto em condições. Quando alguém me diz esta frase, só me apetece responder com outro cliché palerma e dizer «Virar frangos há anos? Olha, ao menos tens emprego.»

«É o que é / Vale o que vale»
Se fosse o que não é ou valesse o que não vale é que era de estranhar. O silêncio deixa as pessoas desconfortáveis e por isso sentimos a necessidade de dizer coisas que apenas são desperdício de oxigénio. Dizer «É o que é» é o mesmo que comentar no Facebook a dizer «Nem vale a pena comentar...». É parvo. Não ter nada para dizer, em muitas situações é sinal de inteligência e não devemos ter vergonha de nos remeter ao silêncio.

«A idade é apenas um número»
Sim, mas é também uma medida de tempo que é bastante eficaz a prever, em média, quantos anos te restam de vida. Se a idade fosse um número, os jogadores de futebol não se reformavam tão cedo. E sim, ter um espírito jovem é importante, mas seres um senhor de 50 anos a deixar comentários "sensuais" a raparigas de 16 no Instagram não faz de ti jovem cool: serás sempre visto como um velho creepy. Na mesma temática existe a expressão «Velhos são os trapos», também ela parva. As pessoas e seres vivos é que podem ser velhos:e se eu deixar um trapo no armário, daqui a 10 anos ele vai estar mais ou menos na mesma, tirando um ou outro buraco de um traça, enquanto que se deixar uma senhora de 90 anos, ela vai estar morta e decomposta.

«O amor não escolhe idades»
Claro que não, Carlos Cruz. Mostrem-me uma jovem de 24 anos, rica, a casar com um velho decrépito de 92 com uma reforma de 300€ e eu vou acreditar que o amor não escolhe idades.

«O frio é psicológico»
Lamento, mas não é. O frio é um conceito subjectivo, sim, mas baseado na nossa percepção relativamente a medidas científicas de transferência de energia e de agitação entre moléculas. Se o frio fosse psicológico, as marcas que vendem luvas e gorros estavam todas na falência. Se estão menos dois graus e estás de t-shirt, não é o poder da mente que vai fazer com que fique calor. Podes suportar o frio, mas no dia a seguir estás doente, porque o frio não é psicológico e quem diz isso é sempre quem trouxe casaco com forro e cachecol.

«Vamos concordar que discordamos»
Quando alguém usa esta frase é sinal que já ganhámos a discussão e a outra pessoa quer pedir um empate técnico para fugir à conversa. Não, lamento, mas não vamos concordar que a tua posição de que o Hitler até foi um gajo que fez umas coisas boas é válida. Não é, temos pena. «São opiniões», dizem outros. Sim, são opiniões, mas a tua é uma opinião de merda. És burro, ignorante e desinformado e não vou concordar em discordar contigo. Vou antes aceitar que és um merdas e dizer-to na cara até me cansar e perceber que não vais mudar porque, lá está, és um merdas. Depois disso vou desistir da discussão, mas não porque respeito a tua opinião, só mesmo porque percebi que não vale a pena.

«Vive um dia de cada vez»
Certo, porque uma vez tentaste viver dois dias de cada vez, como que a subir escadas dois degraus ao mesmo tempo e não conseguiste, foi? Viste o Clube dos Poetas Mortos no Canal Hollywood e descobriste o Carpe Diem e achas que mudou a tua vida e que és um guru motivacional? Não és, amanhã vais estar a fazer as mesmas merdas e a desperdiçar o teu tempo como toda a gente. É como a bonita citação que muita gente usa «Vive cada dia da tua vida como se fosse o último, um dia vais acertar». Parece-me um conselho de quem gosta de viver a vida sem qualquer tipo de responsabilidade. Se hoje fosse o meu último dia, provavelmente iria estoirar o guito todo, dar nas droga todas e ir às putas sem preservativo, isto tudo só da parte da manhã! Depois, passava a tarde toda deprimido e acabava o dia a chorar em posição fetal e a dizer que sou demasiado novo para morrer. É assim que devia viver os meus dias todos? Parece-me um terrível conselho vindo de quem na ultima semana do mês anda a pedir dinheiro emprestado aos amigos para conseguir pagar as contas vive como se todos os meses tivessem 21 dias.

«As desculpas não se pedem, evitam-se»
Ok, então retiro as desculpas que acabei de pedir. A merda está feita, resta ser crescido e assumir as culpas, pedindo desculpa, se me vens com essa merda que as desculpas não se pedem, então vamos começar a discutir outra vez. Isto é o mesmo que dizer a uma equipa de paramédicos que chegou tarde a um cenário de enfarte já com a vítima em paragem cardíaca «Olhe, as reanimações não se fazem, evitam-se.»

«Tenho um mau pressentimento»
Devem ser gases. Até ver, não és especial ao ponto de ter um sexto sentido premonitório que te transforma numa Maria Helena desta vida. Esse mau pressentimento é só o teu pessimismo a falar ou o teu cérebro a calcular probabilidades e detectar padrões. «Vais atirar-te do terraço para a piscina? Epá, tenho um mau pressentimento.». Não é um pressentimento, é só bom senso. Não és especial, não tens pressentimentos. Aquela vez que ficaste mal disposto a meio da noite e depois descobriste que foi porque a tua namorada estava na cama com o Wilson não foram cornos telepáticos, foi só coincidência até porque devia ser recorrente e em qualquer noite que sentisses isso ela estaria a enfeitar-te a testa. O mesmo se aplica para a expressão «Isto e o meu sexto-sentido feminino.». Tretas. Não existe. O que existe é a capacidade inata às mulheres de fazer filmes e novelas na própria cabeça e por uma questão de probabilidade, às vezes acertam. A minha mãe já teve tantos pressentimentos de sexto sentido feminino e intuição de mãe, que me tinha acontecido alguma coisa, que é normal que um dia acerte.

«Ainda dizem que estamos em crise»
Diz alguém quando vê o centro de comercial cheio ou os restaurantes com fila para entrar. Calma contigo, Salazar da Amadora. Ter dinheiro para jantar fora ou fazer compras não é coisa de rico e achares que é só pode ser sinal que és um privilegiado que não sabe o que custa a vida. Há muita gente que gasta o dinheiro em merda e tem as prioridades trocadas? Claro que sim, mas não é por ir jantar ao chinês do Colombo uma vez por mês que a pessoa não se pode queixar que está da crise. Se calhar foi jantar fora porque não pagou as contas e cortaram-lhe a luz, água e gás.

«O que interessa é participar»
Ah ok, és dessas pessoas que celebra a mediocridade e que ainda hoje, passados dez anos, diz a toda a gente que ficou em segundo lugar num concurso em que só havia duas pessoas participar, não é? Deve ser por isso que tanta gente joga no Euromilhões: «Saiu-te algum prémio?», «Nunca me sai nada, mas o que interessa é participar.». Tenham juízo, o que interessa é ganhar, a não ser que seja uma orgia, aí sim, interessa é participar.

«Quando a esmola é grande o pobre desconfia»
Não desconfia. O pobre fica contente se a esmola for grande. Experimentem deixar uma nota de 20€ a um mendigo a ver se ele desconfia ou se a mete logo no bolso. As desculpas que as pessoas arranjam para não ajudar os outros. «Eu até gostava de ajudar mais crianças em África, mas se faço donativos superiores e a 100€ por mês eles desconfiam e é uma chatice que também não quero trazer-lhes mais preocupações.»

«Arrepende-te do que fizeste e não do que não fizeste»
Um dos lugares comuns mais estúpidos de sempre porque não fazer algo pressupõe ter-se feito algo. Por exemplo: vou arrepender-me de não ter dançado todo nu na rua da Oura no verão de 2002? Ou vou arrepender-me de não ter ficado vestido e sóbrio na rua da Oura no verão de 2002? Percebem o conflito? Ninguém diz «Se há coisa que me arrependo na vida foi de não ter cortado um pé. Era tão melhor ter cortado e ficar arrependido disso que ao menos assim sabia.»

«Fica bem, um abraço.»
Dito por alguém que te está a dar um aperto de mão. Portanto, alguém se está a despedir de ti, com um aperto de mão, com a perfeita oportunidade de te dar um abraço, mas prefere enviar-te o abraço imaginário. Se não tens assim tanta confiança ou gosto pela pessoa para lhe dar um abraço a sério, escusas de fingir no fim de um aperto de mão frio que até tens simpatia pela pessoa. É a mesma coisa que depois de um encontro do Tinder que não deu em nada, a rapariga despedir-se com dois beijinhos e dizer «Vá, fica bem, um felácio.»

«Na minha modesta opinião»
Sabes que afirmar a própria modéstia é um paradoxo, certo? É como dizeres que a tua melhor qualidade é seres humilde. Quem é humilde não diz que é humilde porque dizê-lo é falta de humildade. Se não tens confiança na tua própria opinião e achas que deve vir com aviso de modéstia, então tenho um conselho para ti: agarrares nessa opinião e enfiares no teu modesto rabo. Por falar em conselhos: «Se os conselhos fossem bons vendiam-se, não se davam.», alguém imediatamente antes de te dar um conselho que tu nem pediste.

E pronto, estamos conversados por hoje. Até amanhã, se Deus quiser. À partida, deve querer que o gajo ameaça, mas não cumpre.

***

PS: Pessoal de Leiria, dia 13 de Janeiro, vou estar no Teatro José Lúcio da Silva para um bonito espectáculo de stand-up comedy e outras cenas. Podem comprar bilhetes neste link. Obrigado.
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