21 de maio de 2018

Globos de Ouro 2018 - O pior da Passadeira Encarnada



Como tem vindo a ser hábito, no dia seguinte à gala dos Globos de Ouro acontece o evento mais importante do ano: o meu comentário às roupas da passadeira vermelha ou, melhor, encarnada. É aquela noite em que solto a blogger de moda que há dentro de mim e comento outfits e looks. É sempre giro, porque posso andar o ano todo a fazer piadas com assuntos sérios, mas é com este texto que tenho mais mensagens de ódio e ameaças de processos em tribunal. Pelos vistos, fazer humor com pessoas privilegiadas que arriscam tudo na hora se se vestir, mas depois têm um ego de uma andorinha e ficam ofendidas com piadas de um gajo que não percebe nada de moda, é que é ofensivo. Vamos lá começar o alambique de veneno.


As fotografias são cortesia da fotógrafa Inês Costa Monteiro, da revista de lifestyle NiT, e podem seguir o trabalho dela no Instagram e no Behance.

O Manuel Marques é um actor camaleónico, mas nada disto seria possível sem a qualidade da caracterização do Alxeredo. 

Aquela pose obrigatória para quem tem uma racha no vestido. Gosto do look taxista vintage, com os dedos todos cheios de cachuchos, mas parece-me haver ali uma nódoa negra no braço. Noite bem passada ou violência doméstica? Alguém que chame o Hernâni Carvalho para investigar.

Aqui está ele. Nunca falha, onde há crime ele aparece logo a promover o seu livro. Claro que não podia faltar a este evento onde a classe é assassinada com requintes de malvadez e o estilo é sodomizado à bruta.

Calma, Cláudia. Isto não são os Globos de Ouro dos Estados Unidos da América. Estamos em overdressing. Ir assim vestida para os Globos de Ouro tugas é como ir de fato para uma entrevista de emprego de um call center.
  
Pow pow pow. Tenho algum receio de criticar as roupas das pessoas que não são brancas, pois da última vez acusaram-me de racismo. Por isso e só para chatear, vou reutilizar a piada do ano passado: o preto, afinal, não dá bem com tudo.

Vencedora do prémio revelação. Filha do Rui Bandeira, tem melhor voz que o pai, mas o pai tem melhor cabelo do que ela. Tem 16 anos, mas está vestida à septuagenária. Estas influencers do Instagram andam a perder qualidades. 

Loiro com dourado e com pele pálida. Alguém que faça uma correcção de cor e aumente o contraste desta senhora que não tarda está com a opacidade a 50%.

O look do Ricardo Carriço é patrocinado pelo cancro de pele. Aquela cor é solário a mais. 

Achei bonito a Lucinda ter feito uma extreme makeover a um sem-abrigo e ter-lhe dado a oportunidade de vir comer uns croquetes.

Ou é perna à mostra ou é side boob. Os dois ao mesmo tempo só no Urban ou num encontro do Tinder. Gosto do detalhe de levar na mão o estojo de primeiros socorros, não vá alguém ter baixo açúcar e classe no sangue. Os Globos de Ouro são patrocinados pela Opticalia e por aquele cirurgião que mete mamas.

Não sei quem é, mas deve ser ilusionista e está aqui a apresentar o seu grande truque de magia: conseguir uma mulher muito mais gira do que ele. Isso ou é rico, também pode ser isso. Buh, machismo! 

Feia. Horrível. Nojenta.
(este comentário foi-me ditado pela minha namorada) 

Existem as outras e depois existe a Lili. Com os seus 305 anos continua impecável e está prestes a tornar-se na primeira estátua de cera viva. Ali, com o pezinho à mostra como quem ainda nem passou dos 80 anos, saia reciclada do cortinado lá de casa que comprou em plena primeira guerra mundial. Mandara-me 40 fotos da Lili e em todas tem a mesma expressão. 

Calma, Conceição Lino. Isto não é a ante-estreia dos Avengers, nem é para fazer cosplay. És uma alface do Lidl? A cair na própria ratoeira que montou, sofrendo bullying do estilista que lhe disse que o vestido era bonito e o pior é que toda a gente vê e ninguém faz nada. 

Era um gin tónico, por favor.

Decotes pronunciados sem mamas é como cego usar óculos graduados. 

Ir ao Chapitô roubar cortinados é feio. 

A Bumba na Fofinha está em todo o lado. PS: não é a Bumba, achei que era óbvio, mas pelos vistos há quem pense que sim.
E começa o freak show. Convosco, o sítio do Picapau Amarelo. Acho corajoso da parte da bruxa da pequena sereia deixar o preto e o roxo e arriscar no amarelo.   

Quando a tua prioridade é comprar colares e jóias e não arranjar o dente que te falta na cremalheira. Quando nos perguntamos "Mas esta gente não escolhe a própria roupa? São sempre os estilistas a vesti-los?" temos aqui a razão. Quando eles se tentam vestir sozinhos dá merda. A da direita vem vestida de ecoponto azul, mas para onde as pessoas deitam comida estragada na mesma. O da esquerda vem vestido com o look que gosto de chamar "Gosto de bullying".  
  
Quando pensavas que ias ao casamento do Toy com after party na discoteca Kaxaça. 

Tenho flores nos sapatos, mas olha eu aqui a ser bué macho e a segurar na minha gaja ao colo.

Depois dos dourados do ano passado, este ano o Luís Represas veio mais discreto.  
  
E pronto, depois da passadeira vermelha seguiu-se a gala que teve como ponto alto o mamanço da boca de César Mourão ao José Fidalgo (porque entre homens não é assédio) e o prémio de mérito e excelência ao José Cid, mais do que merecido. Para o ano há mais.

Ler mais...

25 de abril de 2018

Se a revolução fosse em 2018?



Se a Revolução de Abril fosse hoje:

22h55 – É transmitida a canção “A ditadura parte-me o pescoço”, de Agir, como primeira senha combinada pelos revolucionários.

00h20 – É dada a senha definitiva “Olha a revolução!” de Mc Kevinho.

00h30 – É criado um evento de Facebook a convocar toda a gente para a revolução, mas ninguém diz que vai.

01h00 – Na tentativa de criar engagement na revolução, vários influencers digitais são pagos para colocarem stories no Instagram. Usam a hashtag #Revolussão

02h00 – O engagement na revolução continua fraco e por isso o nome do evento é alterado para Revolution of the 90’s e as partilhas e inscrições começam a surgir em grande número.

03h00 – Uber e Cabify lançam cupão de desconto REV20 que dá 20% de desconto a quem quiser deslocar-se para a revolução com os seus serviços.

03h10 – A Prozis chega-se à frente para patrocinar a revolução com oferta de batidos de recuperação pós revolução.

03h30 – As pessoas saem de casa atrasadas porque estavam a escolher o melhor look para a revolução.

04h00 – Os comunicados das forças revolucionárias são passados por áudio em grupos de WhatsApp, juntamente com o negão do mangalhão.

07h30 – As pessoas começam a chegar ao local da revolução, com duas horas de atraso devido ao trânsito.

08h00 – O local da revolução teve de ser alterado porque o Quartel da GNR acabou de ser transformado num hotel de charme.

08h45 – Revolucionários do Porto refilam porque a revolução está a ser feita em Lisboa.

10h00 – As Capazes protestam a falta de diversidade na revolução.

12h30 – O revolucionário com mais influência nas redes tenta discursar para a multidão, mas o som do megafone é abafado pelo barulho dos motores dos tuk-tuks.

13h00 – A revolução está cheia de crianças porque alguns Youtubers viram que estava trending no Twitter e decidiram fazer um vídeo para terem visualizações.

14h00 – Apesar de ter sido pedida uma revolução pacífica, a população veio armada com paus de selfie.

15h30 – É dado o cognome de revolução da selfie e o filtro oficial é o Nashville. As pessoas apressam-se a tirar selfies para quando lhes perguntarem onde estavam no 25 de Abril terem provas, caso contrário é como se não estivessem lá estado.

16h00 – As hashtags mais utilizadas são #RevolutionPorn #MeMyselfAndTheRevolution #SimplesmenteEuNaRevolução

17h30 – Aparece o Primeiro Ministro, tenta discursar, mas ninguém sabe quem ele é e toda a gente aproveita para fazer uma pausa na revolução e lanchar um hambúrguer gourmet.

19h30 – A revolução recomeça em forma de flashmob ao som de Despacito. Há quem dance o eskema porque pensa que está em 2001, altura em que o eskema também não era fixe.

20h00 – Começam os jogos de futebol da jornada, volta tudo para casa e fica tudo na mesma.

E é isto. Viva a liberdade, especialmente para dizer palermices.
Ler mais...

4 de abril de 2018

10 tipos de pessoa na viagem de finalistas



Por esta altura, milhares de estudantes do secundário abandonam o ninho para irem para o estrangeiro beber fora do alcance dos pais. Apesar das diferenças: alunos de colégios ricos vão para uma estância de ski ou para o México e alunos de escolas públicas do bairro vão para Lloret Del Mar (como foi o meu caso) ou para a Praia da Rocha; o tipo de pessoas que se vê por lá são os mesmos porque, no fundo, com ou sem dinheiro, somos todos iguais.

O que nunca apanhou uma bebedeira
Melhor aluno da turma, certinho e que não falta a uma aula. Os pais foram despedir-se não só até ao autocarro, mas até à estação de serviço de Aveiras enquanto a mãe chorava como se estivesse a mandar o seu filho para combater as milícias armadas da Síria. Os outros já bebem e fumam no autocarro, mas ele vai a fazer os trabalhos de férias de Páscoa que a professora de matemática passou. Enquanto os outros se embebedam todos os dias, ele vai bebendo coca-colas nas discotecas e pagando mais por águas do que os amigos por cerveja e vodkas. É gozado por todos, mas diz que não precisa de álcool para se divertir até que na última noite, decide experimentar. Bebe até ficar em coma, vomita para cima de pessoas, dança em cima da coluna e baixa as calças no meio da pista de dança. Grita em plenos pulmões que é a melhor noite da vida dele, mas no dia seguinte não se lembra de nada. Felizmente, os amigos filmaram tudo para ele perceber que pode divertir-se sem álcool, mas que com álcool se diverte, francamente, mais.

O gajo da agência
O gajo mais velho e cool que só tem este trabalho para comer gajas do secundário. Ganha pouco, por isso tem um negócio paralelo de venda de droga aos estudantes.

O garanhão
Diz já ter rodado meia escola de Loures, apesar de estudar na Amadora. Vai para a viagem de finalistas de dez dias munido de dez embalagens de doze preservativos. Desaparece a meio da noite e aparece no dia seguinte de manhã com histórias de ménages com duas espanholas e um anão maneta que usava o coto de forma sexual. A verdade é que foi dormir à praia sozinho só para conseguir inventar a história e vem da viagem com os pacotes de preservativos intactos e virgem na mesma, mas com SIDA porque dormiu em cima de uma seringa na areia.

A coleccionadora
A coleccionadora é o garanhão no feminino, mas como é mulher e devido à falta de critério dos homens, basta-lhe querer e não se assemelhar a uma avestruz atropelada. Depois de meia dúzia de Pisang Ambon com sumo de laranja, entra em god mode e faz uma espécie de rampage killing spree pela discoteca, beijando tudo o que mexe, chafurdando e mamando da boca de todos os gajos como se fosse um antílope que acabou de encontrar uma poça de água no deserto. Acaba na casa de banho com dois gajos e volta para o hotel com o gajo da agência, numa espécie de triatlo da putaria. O único gajo que não varre é o choninhas que é apaixonado por ela desde o 9º ano. Enquanto os outros trazem ímanes para o frigorífico como souvenirs, ela traz como lembranças um feto de pai incógnito, herpes e hepatite C.

O casal
Cedo se apercebem que namorar é bom, mas não numa viagem de finalistas. Sim, a viagem de 18 horas de autocarro foi mais confortável porque iam de mão dada e dormindo com a cabeça no colo um do outro, mas chegando lá percebem que levaram areia para a praia. São os únicos que fazem sexo na primeira noite, é certo, mas acabam por discutir porque o rapaz foi beber um shot do umbigo de uma das bailarinas ou porque ela simulou sexo oral com o barman para ter uma pulseira com bar aberto.

O investigador
O gajo que leva tudo preparado de casa. A primeira pesquisa que fez no Google foi "Melhores gajas de Benidorm" e gostou do que viu. Sabe o preço de todas as bebidas nas discotecas, os horários de abertura e fecho, e quais as zonas onde se pode comprar droga. O melhor investigador é o repetente que já conhece as ruas da cidade pelo nome porque é a terceira viagem de finalistas a que vai.

O decorador de interiores
É um gajo que tem alma de designer de interiores, mas que tem medo que julguem a sua exuberante heterossexualidade, acentuada por um buço que recusa desfazer, e, como tal, em vez de rearranjar os interiores do quarto de hotel com delicadeza, resolve fazer remodelações à Rambo: a televisão não combina com o papel de parede, então é atirá-la para a piscina; o colchão não é de gel viscoelástico, então é abrir ao meio e enchê-lo de placas de haxixe que se adaptam à forma do corpo; as portas do quarto são para mandar abaixo e as paredes para esburacar e fazer um T2 com o quarto do lado que fica mais arejado. Acaba por fazer com que toda a turma seja expulsa e volte mais cedo para Portugal sem receber reembolso.

O imortal
Tem pulseiras de todas as discotecas da cidade e colecciona t-shirts de todos os pubcrawls. Está sempre bêbedo numa espécie de energia perpétua e quando parece estar, finalmente, a quebrar, bebe um shot de tequilla e renasce para a festa, qual fénix que se baba e cambaleia. Gaba-se de não ter ressacas e todos os dias de manhã conta a toda a gente quantas e quais as bebidas que bebeu, num relatório detalhado.

O não vi nada
O gajo que pagou o mesmo que os outros, mas que não usufruiu de nenhuma das viagens e extras porque dormia até o sol se pôr. Ir a Andorra esquiar? Não deu, muito cansado. Ir comer frango assado com as mãos no jantar medieval? Não deu, muita azia e sono. Ir ao PortAventura? Estava de intoxicação alimentar.

O acrobata
Há sempre um gajo com alma de artista circense cuja única positiva foi educação física e que tirou zero a geometria descritiva e, por isso, tem boa capacidade atlética, mas pouca noção das distâncias. Já com os copos, decide saltar da varanda para a piscina para impressionar as miúdas. Consegue impressionar toda a gente porque um cadáver escarrapachado com a mioleira de fora à beira da piscina mete muita impressão.

E é isto. Uma boa viagem de finalistas se for caso disso e tenham juízo, seus mamutezinhos alcoólicos.
Ler mais...

3 de abril de 2018

Curso de exorcismo do Vaticano



Ora bem, isto parece uma notícia do Inimigo Público, mas é verdade. O Vaticano vai abrir um curso de exorcismo para fazer face ao aumento de casos de possessão demoníaca; só em Itália, há 500 mil casos por ano de pessoas que dizem estar possuídas pelo Capeta em pessoa.

Belzebu anda a possuir mais gente à força do que o violador de Telheiras.

Nem vou estar aqui a constatar o óbvio que é o facto de isto ser ridículo e um passo atrás numa Igreja Católica que parecia começar a evoluir com o Papa Francisco. Tampouco insinuarei que dizer a pessoas com problemas mentais que estão possuídas pelo demo e que um exorcismo é que faz bem e mata o bicho, em vez de procurarem ajuda médica, deveria constituir crime. O mais curioso é que o curso é pago - custa 300€ por pessoa; estranho a Igreja Católica - abastadíssima - não oferecer este curso aos seus sacerdotes para que haja o máximo número de exorcistas capazes de expulsar o demónio do corpo dos filhos de Deus e diminuir o mal na terra. Logo aqui, cheiraria a esturro, não fossem as Igrejas um grande negócio que precisa de muitos client... crentes.

O curso foi criado pela Associação Internacional de Exorcistas (AIE) - apoiada pelo Vaticano - e vai ter a duração de cinco dias. Estranho que nesse curto período de tempo se fique habilitado a lidar com tamanha força do mal como o Diabo! Pensava queria seria, no mínimo, necessária uma licenciatura Bolonha com mestrado integrado; imaginem que para tirar qualquer outra coisa de dentro do vosso corpo, que não o demónio, só era preciso um workshop tirado à pressa: «Tenha calma que eu tiro-lhe o apêndice! Tenho o certificado de cirurgião que tirei numa na semana que estive de férias na praia da Rocha.».

O curso foca-se em duas vertentes:
  • Exorcismo: tem de ser feito por um sacerdote que dá ordens ao demónio para que abandone o corpo da vítima;
  • Oração de libertação: pode ser feita por qualquer pessoa, já que é um pedido de graça feito aos anjos, santos ou à Virgem Maria para que interceda junto de Deus e ajude o possuído.
Mesmo com esta explicação no site, fiquei com algumas dúvidas e resolvi ligar para a AIE; atenderam-me em italiano, disse-lhes "Marco Bellini" e "Fiat Cinquecento" e lá nos entendemos ao ponto de chamarem alguém que falasse inglês. Disse que estava interessado no curso, perguntaram-me se era padre ou sacerdote e respondi negativamente; informaram-me que, sendo leigo, teria de enviar uma carta de intenções e uma recomendação do bispo da minha zona.

Agradeci, dizendo que falaria com o bispo e que a minha intenção era expulsar o Diabo do corpo da minha namorada, pois ressonava de tal forma que só podia estar possuída. Perguntei se só mesmo com exorcismo ou se a oração de libertação era suficiente.

Houve um silêncio estranho e a chamada caiu. Fiquei, por isso, com muitas dúvidas sobre o curso: como será a estrutura? Será só teórico? Terá exercícios práticos? Um gajo precisa de fazer exame final para ficar habilitado a exorcizar ou passam todos só porque pagaram? Dá direito a certificado para colocar no CV? Imagino que o programa seja algo do género:
  • Esquizofrenia, possessão ou birra do sono.
  • Lançamento do terço à cabeça do demo.
  • Taser, spray pimenta ou água benta? As melhores formas de imobilizar o Capeta.
  • Holy Water Break - Networking
  • Espírito bom é o contrário de espírito mau?
  • Contorcionismo ou possessão? Saiba as diferenças.
No final do curso, todos os alunos têm de expulsar o demónio do corpo de uma criança só com o auxílio de uma cruz, da bíblia e da pila. Esta última é opcional. Agora que penso nisso, isto dos exorcismos é uma excelente forma dos padres calarem as crianças: "se contas alguma coisa aos teus pais o Diabo vem e apodera-se do teu corpo" e se a criança não obedecer, dizem aos pais que é o Diabo que a está a obrigar a dizer mentiras. E, lembrei-me agora, se o curso tiver sido criado por um padre que está possuído pelo Diabo e que está a criar uma armadilha em que os alunos, em vez de aprenderem a praticar o exorcismo, estão, na verdade, a aprender de forma dissimulada uma espécie de ritual que vai dar mais poder ao espírito maligno que se apodera do corpo dos possuídos? Pois, nisso ninguém pensou. O Diabo é gajo para ser astucioso a esse ponto, o patife. E se a pessoa que estiver possuída for de uma religião diferente como é que isto funciona? Tem de se chamar um exorcista dessa religião ou estes podem expulsar qualquer diabo? E se em vez de um espírito maligno for um espírito bom e a pessoa não quiser porque é adoradora de Satanás? Há exorcistas ao contrário? E se a vítima for surda será que o Diabo que a possui ouve as ordens e as rezas do sacerdote ou assim não funcionam e acabei de descobrir as vítimas ideais para o Capeta? Tantas perguntas e tão poucas respostas.

INTERLÚDIO CONINHAS GONNA CONATE
(alguns comentários ao último texto que fiz sobre a Páscoa)

Aquece-me a alma metafórica ver que seguem atentamente os ensinamentos de bondade de Cristo. Felizmente, a maioria dos católicos tem sentido de humor e sabe que a sua religião tem incoerências passíveis de serem parodiadas e eles próprios riem com elas. Creiam em Deus se isso vos completa e vos faz melhores pessoas. Creiam em Deus como uma entidade qualquer que está para além da nossa consciência e compreensão humana. Tudo bem, respeito, invejo e não tenho nada contra desde que não tragam a religião para assuntos onde não é chamada, mas acreditar em possessões demoníacas e exorcismos é só sinal de pouca inteligência ou doença mental, ironicamente. Não é por ser mentira, porque até pode ser verdade da mesma forma que pode ser verdade eu estar a escrever este texto possuído pelo espírito da Cleópatra; é só por não haver nenhuma base científica que o sustente e, como diria Tim Minchin, se temos uma mente demasiado aberta, o cérebro corre o risco de cair.
Ler mais...

28 de março de 2018

9 tipos de pessoa no supermercado



O meu passatempo favorito é observar pessoas. Quando se tem este hobbie, ir às compras pode tornar-se menos entediante e numa fonte de inspiração para o que escrevo (como o foi a mítica ida ao IKEA com a minha namorada) e tenho identificado alguns dos tipos mais caricatos de pessoa que encontro quando vou ao supermercado. Aqui ficam.

Os laricas
Dois amigos, na casa dos vinte, com um cesto na mão que contém apenas Pringles e Donuts. Estão com a larica da ganza. De olhos raiados de sangue como quem foi à natação e se esqueceu dos óculos em casa, discutem sobre quais os melhores sabores de batata frita e sobre que tipo de sumo devem levar. Nas pausas, vão teorizando se numa luta o macaco Adriano ganhava ao João Baião ou se nem o conseguia apanhar com ele sempre aos saltos. Vão percorrendo os corredores, onde, para eles, tudo é compra por impulso. Se calhar, vai apetecer uma merenda mista... é melhor levar. Se calhar, depois, vai ser preciso um frango assado com chantilly só para matar o bicho... é melhor levar. Chegam à caixa e o empregado pergunta se querem número de contribuinte na factura e eles respondem «Não é preciso, levamos na mão.». Em seguida, vão directos à loja do lado comprar mortalhas e jogar em dez raspadinhas antes de seguirem viagem, a conduzir a dez à hora.

O estudante
Este é fácil: é igual ao de cima se estiver com a moca, caso contrário tem apenas um cesto com toda a comida que vai precisar essa semana: um pacote de esparguete, uma lata de atum, seis ovos e uma lata de salsichas. Tudo marca branca. Ah, e um vinho cujo valor máximo é um euro e meio.

A mãe do capeta
Ouvem-se gritos e urros, parecendo um javali a jogar à cabra cega num quarto cheio de pioneses no chão, mas é só uma mãe que está a passar por mais uma vergonha em público devido ao seu rebento ranhoso. Ele guincha, esperneia, rebola no chão e anda em aranha invertida como se estivesse possuído por Satanás. A mãe está de mãos atadas: se não lhe ligar, toda a gente a olha de lado por não fazer nada; se lhe pega num braço e lhe dá um safanão até lhe saltarem os dentes de leite, toda a gente a julga pensando que não é com violência que se educam os saguins cagões. É o que dá ter levado o puto só para ter prioridade na fila para pagar.

O macho inseguro
Um homem, de barba rija, passeia junto à zona dos chocolates e bolachas. Pega numa caixa, olha para ambos os lados e, ao ver que não é observado, verifica o número de calorias. Tem medo que duvidem da sua heterossexualidade se o virem preocupado com os nutrientes e calorias de um qualquer alimento. Muito rapidamente, passa no corredor dos produtos orgânicos e biológicos, mete daquelas bolachas que parecem pipocas e que não sabem a nada para dentro do cesto e, se alguém o vir a fazer isso, diz num sussurro audível «Acho que foram estas que ela pediu para eu levar...». 

A velha
Desloca-se com a velocidade de uma preguiça manca, com um carrinho que vai utilizando para esbarrar nas pessoas para as avisar da sua passagem. Carrinho esse que fica sempre parado no meio de um corredor, a criar uma espécie de barricada entre a velha e a fruta, que ela faz questão de apalpar toda, uma a uma, especialmente as bananas, antes de escolher a melhor e mais madura. Encontra sempre uma amiga com quem fica a conversar e a seguinte frase surge sempre: «Hoje vou fazer só uma sopinha para o jantar», ao que a outra responde «Vou fazer pudim flan que o meu filho vai lá jantar... e a minha nora também vai com ele, claro, tem de ser.». A velha, lenta mas enxuta, ao chegar à caixa começa a padecer de todo o tipo de dores e problemas na junta da cabeça e articulações, gemendo ao de leve para que a deixem passar à frente.

O descontos
Aquele tipo de pessoa que apenas se movimenta na zona das promoções. Para poupar, acaba por levar trinta produtos que não estavam na lista só porque estavam a 50% de desconto e podem dar jeito. Escolhe sempre os vinhos pelo preço antes da promoção e, quando chega à caixa, saca de uma caderneta de cupões e arranja sempre merda porque diz haver um artigo que ele afirma ter visto cinco cêntimos mais barato na prateleira. Obriga a patinadora a ir lá verificar, fazendo com que toda a gente, na fila, bufe e olhe uns para os outros em sinal de desaprovação. A patinadora chega e, afinal, o preço estava certo e ele errado. Como quem não quer engolir o orgulho diz «Se calhar o produto estava no sítio errado, mas pronto, sendo assim já não quero que está muito caro». Diz que não quer sacos e enfia tudo para dentro de uma bolsa marsupial, apressado, porque ainda tem de ir a mais três supermercados comprar outros produtos que viu estarem em promoção no catálogo.

O não-preciso-de-cesto
Um homem que vai com ideia de comprar apenas dois ou três artigos. Não leva cesto e começa por colocar um pacote de esparguete debaixo do braço; um garrafão de água na outra mão e apercebe-se de que é melhor levar dois pacotes de leite. A eles junta-se meia dúzia de ovos, seis iogurtes, pão, caixa de cereais, uma grade de cervejas e dois pacotes de pastilhas. Podia ter ido buscar um cesto, a qualquer momento, mas, agora, já é tarde. Deixa cair um artigo, baixa-se para o apanhar e caem outros três, recolhe-os e tenta equilibrar tudo no que mais parece ser um casting para o Cirque du Soleil. Este é o mesmo tipo de pessoa que, quando faz compras para o mês inteiro, tem como missão fazer apenas uma viagem do carro até casa. Não interessa se é no terceiro andar, sem elevador, o que interessa é que cabem dez sacos em cada mão, com os dedos quase decepados pelo plástico que os pressiona devido ao peso. Quando consegue, regozija-se na sua própria vitória, mas pensa «Será que não tinha ficado menos cansado se fosse lá duas vezes?».

O fim do mundo
De vez em quando, vemos passar alguém que nos faz pensar se o mundo estará para acabar e ninguém nos avisou. Dois carrinhos cheios, um apenas com latas de atum e o outro com batatas fritas e fruta enlatada. Ou aquele senhor está a construir um bunker para sobreviver ao Apocalipse ou vai fazer o maior paté de atum para figurar no Guinness. Avança com os seus carrinhos e vai ao encontro de outro que também é seu: cheio de garrafas de refrigerante de dois litros e pacotes de gomas. É aqui que percebemos que, afinal, ele está a preparar-se para algo pior do que o fim do mundo: um aniversário de crianças.

O "a minha mulher está doente"
Um gajo meio zombie que se arrasta pelos corredores em busca de produtos que não faz ideia onde estão porque é a primeira vez que vai às compras. Tira senha na zona do talho, espera meia hora e, quando chega à sua vez, pergunta ao senhor se tem tampões. Deve ter sido enganado ao ver tanto sangue. Vêmo-lo passar dez vezes por cada corredor, numa espécie de prova de orientação dos escuteiros cegos, sempre com uma lista na mão e o telemóvel na outra que utiliza para ir ligando à mulher a perguntar «Como é que eu sei se o arroz é integral ou não?», «Detergente para a roupa também dá para a loiça ou são diferentes?» e «Onde é que eu peso a fruta?». Demora duas horas para comprar meia dúzia de produtos e fica a valorizar um bocadinho mais a mulher.

E é isto. Devo confessar que já fui, algumas vezes, o larica, estudante, macho inseguro e o não-preciso-de-cesto. Um dia, se tudo correr bem, serei a velha. O velho, vá.
Ler mais...

16 de março de 2018

Moda Lisboa 2018 - Gente com mau gosto



Já passaram alguns dias, mas nunca é tarde para achincalhar pessoas com roupa ridícula e, por isso, comentar alguns dos "melhores" outfits do Moda Lisboa 2018. Não tem tanta piada como comentar os Globos de Ouro porque aí são celebridades e quem gosta de aparecer não se pode queixar, mas como quem vai ao Moda Lisboa vestido de pintassilgo também deve gostar de aparecer, vou dar-lhes a honra de figurarem neste bonito artigo em que, mais uma vez, solto o Cláudio Ramos que há dentro de mim e me armo em blogger de moda, mas em bom.

As fotografias são cortesia da fotógrafa Inês Costa Monteiro, da revista de lifestyle NiT, e podem seguir o trabalho dela no Instagram e no Behance.

Infelizmente, não tenho foto do outfit completo, mas ainda assim chega para perceber que tem daquelas argolas para a sua caturra de estimação andar sempre com ela. Aposto que a caturra tem cores menos berrantes do que o casaco que parece feito de esponja dos enchumaços dos ombros. Sei que esta senhora não vai levar a mal a minha crítica porque tem um coração pintado no cabelo e, por isso, tem obrigação de só demonstrar amor para com todos.

Vais sair à noite, chegas a casa toda bêbeda e tiras o vestido e metes o pijama por cima. Acordas com uma ressaca tremenda, atrasada para o evento, metes uns óculos para disfarçar as olheiras e só tens tempo de vestir por cima o casaco do teu irmão que tem 10 anos. 

Percebo que se vista assim se o objectivo for afastar parceiros com epilepsia e, assim, seleccionar os melhores genes para a sua descendência. Também percebo se estivermos na presença de uma bonita homenagem ao palhaço Batatinha. Se não for nenhum desses casos, lamento. As pessoas têm de perceber que este tipo de casacos só o Goucha é que os consegue usar com dignidade.

Maria José Valério, versão rastafari. Resta saber se aquele verde é pintado ou se é uma bonita homenagem à mãe natureza e não lavou as rastas, deixando que delas brotasse um bonito musgo. Agora, é deixar assim até ao Natal e aproveitar para fazer o presépio.


Deve ser arte, ou assim, não sei. Para quebrar barreiras e mentalidades, possivelmente. Ou, talvez, sejam só três gajos sem noção do ridículo. Nunca saberemos. O senhor do meio tem a palavra blowjob escrita na saia (?) o que me leva a crer que as posições escolhidas para a foto não foram ao acaso.


Esta senhora vai para a Antárctida, da cintura para cima, e para o Equador, da cintura para baixo. Seria um bom momento para recordar um taxista me disse uma vez: «Sabe porque é que as gajas andam de saia e não têm frio? Porque a patareca está sempre quente.». Os taxistas a ensinarem-nos com a sua bonita classe. Ele não usou o termo patareca, obviamente, foi muito mais gráfico e ordinário, mas eu sou um gentleman.


Pronto, pronto. Chegámos aos malucos. A escolha de usar o cabelo para a frente foi inteligente que assim ninguém vê a cara por trás deste outfit ridículo. Uma fusão de mitra da Margem Sul, com o típico fato de treino com meia branca, mas com o twist de usar o roupão da avó. 


Pela pose, ou está para marcar um livre à Cristiano Ronaldo ou tem as calças tão apertadas que se juntar as pernas explode-lhe a sacola dos girinos. Tem as pernas mais finas do que os meus braços e o rosa deve ser para se assemelhar ainda mais a um flamingo. Deve morar sozinho e por isso não tem meias lavadas. Pelo cabelo descolorado, deve ser YouTuber ou bué cool e fashion. Tem um iPhone, claro que tem um iPhone.


O mundo está do avesso: os homens usam calças justas e as mulheres usam destas: largas e subidas a fazer lembrar uma mãe dos anos 80. A bolsa à cintura é mais um toque nostálgico, mas nem nos anos 90 era giro usar bolsa à cintura, não é agora que vai ser. Realço a máquina fotográfica analógica e aposto o meu testículo direito que não tem rolo e é só para o estilo.


Vou partir do princípio que este senhor é daltónico. O preto dá bem com tudo, mas calma lá. Aquele colete com aquela camisola? Tenham juízo. E o cabelo vermelho? Toda a gente sabe que o vermelho e o laranja não se conjugam. Gosto do olhar tímido com as mãos nos bolsos para contrastar com a escolha arrojada das cores, mas que resultou num ar de quem tem cadáveres no sótão.


Look pescador formal. Gabo a pose de quem tem confiança nas suas escolhas. Se repararem bem, conseguem ver que ele tem uma trela ao pescoço e um alfinete de dama na orelha esquerda. Se repararem ainda melhor, percebem que está vestido de forma ridícula só para ser diferente.


Esta fez as bainhas em casa ou inspirou-se nos mitras da Buraca que usam uma meia por cima das calças para realçar aquele andar pausado de quem pisou peças de lego. A boina mostra que é artista e se olharem com muita atenção, percebem que pisou cocó com o pé esquerdo.


Este look faz-me lembrar quando vou a casa da minha mãe buscar roupa para fazer sketches. Agarro num dos óculos dela, penteio o cabelo de forma ridícula e voilá, estou pronto para fazer comédia. Tem aquela calça da moda de quem andou a tentar roubar costeletas de novilho a um leão que remata com um casaco padrão saco-do-lixo e um lencinho ao pescoço, numa bonita homenagem ao Tim dos Xutos e Pontapés, que calculo que foi o que este rapaz levou a vida toda se já ia assim vestido para a escola.

Está feito. Aquando dos Globos de Ouro, fui acusado - por parte de uma ou outra celebridade - de racismo, homofobia e machismo pela minha paródia a alguma das roupas. Sempre celebridades que não foram visadas, por isso vou partir do princípio que foi inveja. As visadas, muitas comentaram com imenso fair-play e não levaram a mal, mostrando que as há inteligentes. Por isso, se alguém tiver reparos desse género, lembrem-se que é a roupa que está em causa e desamparem-me a loja. Um bem haja e, mais uma vez, obrigado à Inês Costa Monteiro por ceder as fotografias e me ajudar sempre com estas palhaçadas.
Ler mais...

14 de março de 2018

Fui a um bar de hipsters e gente estranha



Fui sair à noite numa das novas zonas alternativas de Lisboa, o Intendente, outrora local de toxicodependência a céu aberto e agora zona in, mas ainda com muita droga. Pelas ruas vi pessoas que não percebi se eram artistas ou sobreviventes da epidemia da heroína que assolou aquela zona no passado recente. Uma ou duas cervejas e dei por mim num bar em que parecia estar numa realidade paralela: daqueles típicos bares que são uma casa, onde se sobe umas escadas de madeira como quem vai visitar a avó; composto por várias salas e espaços e, até aqui, nada de estranho. O que me chamou à atenção foi a fauna local. Parecia estar num filme antigo do Woody Allen, mas com menos orçamento para o guarda-roupa. Gente alternativa, hipsters, artistas e outros sinónimos que se usam para apelidar "gente estranha". Ali, o bigode está na moda, mais nos homens, mas também em algumas mulheres. Parecia uma after party da selecção de Portugal dos anos 80! Havia muitas boinas e daqueles barretes que parecem meias na cabeça; havia óculos de massa; havia camisas de flanela e blazers de bombazine. Nas mulheres destacava-se aquele penteado meio rapado ou de franja cortada com a mesma perícia que eu cortava o cabelo às Barbies da minha prima só para a irritar, fazendo com que se assemelhem a um caniche que foi tosquiado pelo Andrea Bocelli. Homens e mulheres, todos com aquele ar de quem passa duas horas em frente ao espelho a esforçar-se para ter aquele look de "estou-me a cagar para as modas porque sou bué único e singular", ficando iguais a todos os outros que pensaram o mesmo e foram a esse bar. 

Todos tinham aquele ar de quem diz "Agora estou aí com um projecto", sabem? 

Aliás, ouvi esta conversa:

- Ganda Mário, o que é que tens feito?
- Estou aí com um projecto, agora.
- Olha, também eu. De quê?
- Ainda não posso falar muito, mas digamos que vai revolucionar o paradigma.

Claro que vai, Mário. Claro que vais fazer uma disrupção no mercado com a tua nova cerveja artesanal que deixas a carbonatar dentro de uma garrafa de litro e meio acondicionada no rabo. Sim, é premium e exclusiva porque só lá cabem duas de cada vez. O Mário tinha um copo de vinho numa mão e uma cigarrilha na outra, claro. O outro amigo, que também tinha um projecto, provavelmente uma plantação de rúcula biológica, estava a enrolar um cigarro, tinha óculos redondos e vestia-se como se tivesse acabado de ir a um concerto do Zeca Afonso.

Ao ver toda esta gente, eu e os meus amigos criámos o jogo: Poeta, músico ou sem-abrigo? É mais complicado do que parece, garanto-vos. Casaco roto, boina e bigode? É poeta. Bigode, cabelo grande e uma camisa apertada até ao último botão? Teclista numa banda que faz música experimental. Roupa velha, meio encardida, dois números acima ou abaixo do tamanho ideal, com cabelo despenteado e a cheirar mal? Pode ser sem-abrigo ou qualquer um dos outros, nem contemplando os que deviam ser actores que estão em cena num teatro qualquer vazio com a sua peça surrealista. Havia um que tinha a roupa toda suja de tinta e que tanto podia ser sem-abrigo ou pintor, fosse de casas ou de telas artísticas numa garagem algures em Marvila. No meio de toda a aquela gente, os alternativos éramos nós. Nós e uma rapariga com ar de seca, com um vestido preto e justo, casaco cor-de-rosa e maquilhada, irrepreensivelmente, que ia olhando para o telemóvel como quem começava a perceber que tinha sido enganada e que, afinal, já não iam ao Urban.

Não interpretem a minha descrição como pejorativa, o bar era giro e gostei do ambiente até porque que os hipsters têm uma vantagem: quando bebem não ficam agressivos. Ficam a contemplar o universo e o sentido da vida, a ter conversa intelectuais ou no seu canto sossegados. Vi um gajo tão bêbedo, encostado a uma parede, com o copo na mão, baixando e levantando a cabeça em loop.

Fazia lembrar aquelas personagens de alguns jogos de computador com as quais temos de falar para desbloquear alguma coisa ou para entrar numa side quest.

Era daqueles tão hipster que nem se considera hipster porque os hipsters já são demasiado mainstream. Tenho pena de não ter uma foto para vos ilustrar, embora se uma imagem valesse mais de mil palavras, ninguém fazia legendas para os filmes, mas receio que a minha capacidade descritiva não faça justiça à realidade. Pensem em alguém acabado de sair de uma aula de palhaço no Chapitô a ser convidado para sair à noite e dizer «Vamos, mas tenho de ir a casa trocar de roupa.» e dizerem-lhe «Não é preciso, vamos ali a um bar no Intendente.». Imaginem o Stevie Wonder a entrar na Primark, tendo apenas dois minutos para escolher umas calças, camisola e casaco. Era muito isto. Vi um rapaz com um penacho na cabeça, tipo palmeira bonsai, com uma fita vermelha na testa e com as calças rasgadas de quem acabou de tentar roubar uma costeleta de novilho a um leão. A meio de uma conversa, diz:

- Acho que o abstraccionismo de Kandinsky é sobrevalorizado.

Ya, claro que é, Roberto que aluga um quarto na Mouraria e que passa as tardes a trabalhar/beber cervejas no hub criativo. Claro que o Kandinsky é sobrevalorizado. Aposto que os rabiscos que fazes numa folha de papel enquanto estás ao telefone a pedir uma pizza vegan são muito mais artísticos.

Outra característica deste bar é que os tempos de espera para pedir uma bebida ainda eram maiores do que o normal. Os artistas frequentadores deste estabelecimento nunca pedem uma cerveja directamente, pois, armados em connoisseurs, têm sempre de perguntar primeiro "Quais é que tem?"; "E vinho? Ao copo? Tem a carta?". Depois, perguntam por cocktails que ouviram uma vez alguém pedir num filme do Ingmar Bergman e, no fim, acabam por beber uma Super Bock ou Sagres, em copo de plástico, como o comum dos mortais. Estava tão absorvido por aquele mundo novo que nem me lembro da música que passava, sinceramente. Talvez fosse apenas silêncio e estática, segunda faixa do primeiro álbum de uma banda dinamarquesa que nunca ninguém ouviu falar e que é uma experiência auditiva com raízes no surrealismo abstracto. É possível que fosse algo desse género porque neste tipo de ambientes, tudo é arte e uma experiência. Até te podes masturbar num canto, a olhar fixamente as mulheres, que tens sempre a desculpa de que não é assédio nem atentado ao pudor, mas sim uma interpretação viva da instalação artística do russo Punhetovsky.
Ler mais...

1 de março de 2018

Como resolver a crise na Síria



Parece que na Síria está, novamente, em alvoroço. Como tinham deixado de aparecer vídeos no nosso feed de Facebook, pensámos que já estava tudo a dançar à volta de uma fogueira e a comer cupcakes, não foi? Parece que não e só na última semana, 500 mortos, entre os quais 120 crianças. Sinto que não há grande vontade da comunidade e das grandes potências internacionais para acabar com este conflito e que partilhar vídeos chocantes não é suficiente. Por isso, achei que faria sentido dar algumas dicas práticas na esperança que cheguem aos altos cargos da ONU e se resolva a crise de uma vez por todas.

Enviar gurus motivacionais
Depois de ver um vídeo em que uma criança chorava e se lamentava por estarem num abrigo subterrâneo, sem água nem comida, e sem poderem ir lá fora buscar uma almofada para dormir mais confortáveis, dado o risco elevado de levarem com uma bomba, pensei numa solução brilhante: enviar gurus motivacionais e especialistas em coaching para as ajudarem com as seguintes frases:
  • «Estão fora da vossa zona de conforto e isso é bom!»
  • «Pedras no vosso caminho? Apanhem todas porque nunca sabem quando é que vão ter de se defender de metralhadoras.»
  • «Vocês preocupam-se demasiado com o futuro sem usufruir do presente. Há coisas que não podemos controlar, especialmente as balas perdidas.»
  • «Vivam cada dia como se fosse o último porque um dia vão acertar e esse dia será, provavelmente, ainda hoje.»

Mudar a geografia da Terra
O grande problema da Síria é que está lá longe. Nem com o mundo cada vez mais aldeia global são tratados como vizinhos e toda a gente sabe que a o nível de indignação e de tragédia depende da proximidade e do pantone do tom de pele. Exemplo: rebenta uma bombinha chinesa no nosso prédio ou um maluco anda com uma faca na mão para cortar queijos na nossa rua e gritamos "terrorismo"; rebenta uma bomba que mata dezenas de crianças inocentes do outro lado do mundo e afinal parece que é um "conflito militar". É natural, porque quando é ao pé de casa, lembra-nos que podíamos ter sido nós, já quando é lá longe, um gajo nem pensa muito nisso. Por isso, proponho que o mundo volte a ser uma Pangeia, onde todos os continentes estão ligados por terra e mais aconchegados. É agarrar em meia dúzia de barcos rebocadores e trazer a Síria ali para junto os Estados Unidos que a coisa resolve-se, isto se não construírem um muro.

Enviar negociadores a sério
A ONU perdeu tempo a negociar um cessar fogo de 30 dias. O facto de se negociarem paragens na guerra, é sinal que a guerra não é assim tão importante. Nem num jogo online um gajo faz pausa, por mais que a nossa mãe nos chame para jantar! Por isso, só imagino que uma guerra destas seja menos importante do que uma ronda de Call of Duty, o que leva a crer que podia ser evitada e só existe devido a interesses externos. No entanto, já que o pessoal das bombas está aberto a negociar, sugiro que enviem os senhores que vendem flores e óculos escuros nas ruas. Ninguém negoceia melhor do que eles e convence as pessoas a comprar coisas que nunca querem, achando que fizeram um bom negócio quando eles ficam sempre ganhar. Facilmente, lhes vendiam armas que só iriam funcionar durante um dia, tal como aquelas bugigangas com luzinhas que lhes compramos quando estamos com os copos. Ainda lhes venderiam chapéus e tiaras de princesa e guerra perderia toda a credibilidade.

Holograma de Deus
Já escrevi, anteriormente, que a melhor forma de acabar com este tipo de conflitos que têm por base a religião era criar um holograma realista de Deus. Seja que Deus for, era recriá-lo digitalmente e projectar nas nuvens ou em cima de uma bananeira. Perdoem-me a incorrecção caso não haja bananeiras na Síria, mas o meu conhecimento sobre a flora local é diminuto. Deus apareceria a dizer que não aprovava aquela guerra e que quem quisesse ir para o céu tinha de agarrar na própria arma e estourar os miolos a si mesmo. Quem não o fizesse, ficava provado que estava na guerra por questões políticas e económicas e deixava de poder usar a carta de Deus para manipular o povo. Isso e talvez a população deixasse de acreditar que Deus está a olhar por elas, mesmo quando vêem os irmãos serem mortos à sua frente e isso ajudasse a que não se resignassem e ficassem à espera de uma ajuda que nunca virá, seja divina ou de países com interesses financeiros em manter uma guerra perpétua.

Matar toda a gente
Esta solução é um bocado radical, mas do ponto de vista prático talvez fosse a única 100% fiável. A morte só é chata se ficar cá alguém para chorar, caso contrário não faz mossa a ninguém. Por isso, o que tinha de se fazer era matar toda a gente daquela região, familiares e amigos incluídos, para que ninguém que ficasse órfão ou perdesse entes queridos ficasse vivo e a sofrer com a perda. Bastava ir ao Linkedin de todas as crianças sírias e matar todas as conexões até dois ou três graus acima na hierarquia. Assim, o conflito acabava rápido e o mundo sempre era mais honesto em admitir que, no fundo, se está a borrifar para as mortes de pessoas na Síria. Como bónus, ficava-se com um terreno livre para depois fazer campos de golf ou, juntando esta ideia à da Pangeia, trazia-se a Síria para perto da Linha de Sintra e aumentavam-se os subúrbios de Lisboa para quem não tem renda para pagar casa no centro. Em termos de paisagem, a Síria destruída não iria destoar muito do Cacém, Massamá ou da Buraca.

Ensiná-los a falar inglês perfeito
Acho que isto podia mudar muita coisa. Ver e ouvir crianças a sofrer em árabe nunca tem o mesmo impacto. Primeiro, porque é uma língua que se associa logo a terrorismo, depois porque um gajo nunca sabe se não foi o tradutor que se enganou e as crianças não estão ali só a queixar-se de não ter a nova casa da Barbie ou um fidget spinner novo. Garanto-vos que se os vídeos que andam a circular fossem com uma menina síria sem o hijab e a falar um inglês perfeito, a repercussão seria muito maior e toda a gente pensava «Opá, afinal eles são humanos como nós, se calhar é melhor ajudar.» 

Enviar a Super Nanny
Tendo em conta o passado recente, penso que a Super Nanny na Síria podia ajudar a que toda a gente se revoltasse, chocada com tamanha violação dos direitos básicos das crianças. Uma coisa é levar com bombas, ver os pais e os irmãos desfeitos no que parece um móvel do IKEA sem instruções de montagem, outra coisa é serem mandados para o banquinho das pausas e depois serem gozados na escola. Com uma Super Nanny, o mundo unir-se-ia para defender os interesses das crianças! Como consequência, a guerra terminaria num instante ou, pelo menos, deixaria de ser transmitida na televisão e já não nos estragava a hora de jantar porque não há nada pior no mundo que estar a comer magret de pato com redução de vinho do Porto e estar uma criança na TV a dizer que não tem nada para comer, fazendo-nos sentir mal. Pior do que isso só se o pato estiver demasiado bem passado.

São só ideias, lembrem-se que não há ideias estúpidas num brainstorming. Sintam-se à vontade de adicionar valor e novas ideias nos comentários.

PS: Quem ficar ofendido com este texto por não perceber ironia ou por ser burro no geral, em vez de perderem tempo a comentar, podem fazer algo mais útil e ajudar neste link.
Ler mais...