24 de abril de 2017

Foi para isto que se fez o 25 de Abril?



Tenho um jogo com taxistas que é o seguinte: ver quanto tempo demoram a dizer «O que faz falta a Portugal é um Salazar.». Em primeiro lugar, destacado, está um taxista que não devia ter mais de 40 anos e que após eu perguntar se o trabalho corria bem, responde-me «Tem dias. Só bandidos. O que faz falta a Portugal é um Salazar.». Estavam decorridos cerca de oitenta segundos de viagem. Foi capote. Tive pena de não ter confetes. Quis abraçá-lo e dar-lhe uma taça de campeão, mas contive-me não fosse ele pensar que eu era um desses maricas que andam por aí só porque Portugal agora é um paraíso de bandidagem que assalta rabos alheios.

Sempre achei estranho que pessoas que não coexistiram com Salazar sintam saudades dele.

Seria o mesmo que eu dizer que Portugal precisa é de uma Tutankhamon, só porque li umas coisas que dizem que ele até fez umas coisas bem-feitas ignorando tudo o resto. No entanto, talvez faça mais sentido alguém gostar de Salazar sem ter vivido no seu tempo e que apenas conta com as memórias relatadas por quem fazia parte da pequeníssima minoria que vivia bem nesses tempos. Haverá sempre saudosistas dos tempos da ditadura porque há muita gente para quem a liberdade de pensamento e de expressão é secundária porque não são muito atreitos a pensar e, muito menos, a contestar as regras. Porque estávamos melhor? O que leva pessoas a pensar isso da mesma forma que uma namorada que foi agredida pelo namorado decide esquecer e voltar para ele uma e outra vez?

1- Não havia serviço nacional de saúde, que só foi implementado em 1979, e era um dos fatores de haver em Portugal uma taxa de mortalidade infantil maior do que 50‰. Já sei que estão a pensar que há pelo menos 50% de pessoas que vocês conhecem que nem sequer deviam ter nascido. Talvez faça mesmo falta um Salazar.

2- Havia guerra colonial em que milhares de jovens portugueses eram enviados para o campo de batalha, sem saberem bem porquê, a defender os resquícios de um império que havia sido o maior do mundo a tentar negar a liberdade a povos escravizados e invadidos. Já sei que estão a pensar que ao menos nessa altura os homens iam para a guerra e eram menos maricas, com a exceção daquelas tatuagens das sereias e corações a dizer “Amor de Mãe”. Talvez faça mesmo falta um Salazar.

3- Não havia voto livre e, quando havia, as eleições eram falsificadas e Salazar ganhava na mesma, chegando a mandar matar, com sucesso, um dos principais rostos da oposição: Humberto Delgado. Já sei que estão a pensar que o voto agora é livre e que o pessoal fica na praia ou o desperdiça a votar nos mesmos de sempre sem que nada mude. E também que não se perdia nada se alguém fizesse desaparecer o Passos Coelho. Talvez faça mesmo falta um Salazar.

4- No tempo de Salazar havia presos políticos que se opunham ao regime, mas nos dias de hoje há políticos presos. Já sei que estão a pensar que só prenderam uma minoria dos corruptos e que com Salazar se calhar tinham levado um balázio entre os olhos, não por serem corruptos, mas por serem opositores, ou nem tinham chegado a sê-lo porque não havia tantos partidos e, por conseguinte, muitos postos de trabalho para a corrupção. Verdade, se calhar Salazar faz mesmo falta a Portugal.

5- Nunca havia greve dos funcionários públicos porque ninguém ousava lutar por melhores condições de trabalho. Nos tempos que correm, há greves a toda a hora na função pública e especialmente nos transportes porque as pessoas têm a mania que podem reivindicar pelos seus direitos mesmo que isso incomode outras pessoas. Começo a pensar que um Salazar até tinha coisas boas.

6- Havia a Mocidade Portuguesa onde crianças eram obrigadas a fazer parte de uma instituição militarizada onde eram formatadas e lhes cortavam qualquer interrogação sobre a autoridade e o poder vigente. Hoje, vemos criançada com boné do SWAG e calças a mostrar o rego, que ainda nem tem pelos, e a ouvir Agir no telemóvel sem auscultadores. Volta, Salazar, estás perdoado.

7- Havia mais discriminação. Havia mais pobreza. Havia menos respeito, dizem, só que não. Havia era mais medo e temor à autoridade. Não responder a um professor ou a um polícia que abusa da autoridade não é respeito. É medo. É ser-se choninhas.

Há quem se esconda atrás da segurança, dizendo que era um país muito mais pacato e seguro. O Afeganistão também era mais seguro quando era governado pelos talibãs a não ser que alguém saísse da linha: nesse caso havia perninhas e bracinhos cortados e cabeças enviadas à família como condolências. Para mim, a liberdade vale mais do que a segurança.

A beleza da liberdade é que podem existir pessoas que defendem um ditador que reprimiu um povo e o manteve na pobreza.

Liberdade é essas pessoas poderem pensar dessa forma e exprimir os seus ideais racistas, homofóbicos e misóginos. A grande dádiva da liberdade é a permissão à estupidez e a convicção de que esta deve estar a céu aberto e nunca num aterro onde não se vê, mas cheira mal na mesma. Nenhuma revolução é perfeita e completamente altruísta. A revolução é feita por um grupo de pessoas e num grupo de pessoas há sempre as que querem o poder para si e lucrar com a situação. A revolução é como uma piada sobre uma tragédia: pode ofender alguém, mas liberta outras e a piada só existe porque a tragédia aconteceu, da mesma forma que uma revolução, boa ou menos boa, só ocorreu porque havia opressão e ditadura. Quem acha que o 25 de Abril foi um erro e que o Salazar é que devia mandar nisto, lembrem-se que só houve 25 de Abril porque tinha havido um Salazar a comandar e oprimir um povo durante 36 anos. Se Salazar fosse assim tão bom, como muitos advogam, o 25 de Abril nunca teria acontecido porque não seria preciso. Por isso, dizer que o Salazar era o maior e que o 25 de Abril foi um erro é um paradoxo. Para além de ser estupidez, claro, e é graças ao 25 de Abril que essas pessoas podem ser estúpidas à vontade e que nós nos podemos rir delas sem medo de levar um calduço da PIDE.
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29 de março de 2017

Aeroporto Cristiano Ronaldo



O Aeroporto Internacional da Madeira mudou o nome para Aeroporto Cristiano Ronaldo. «E então?», perguntam vocês. Respondo «Exacto, e então?». Parece que há uma polémica e muita gente não concorda com a mudança do nome. Há, até, uma petição a correr para impedir a mudança do nome. A meu ver, são pseudo-intelectuais que consideram o futebol um desporto menor do que o golfe, bilhar e o berlinde. Também não sou fanático por futebol, mas sei reconhecer a importância que tem, para o bem e para o mal. Quer queiram, quer não, o Ronaldo é o português mais conhecido de sempre em todo o mundo e, quer gostem ou não, ajudou a meter Portugal no mapa. Sim, dá uns chutos numa bola, ok. No entanto, esses chutos emocionam mais pessoas do que muitas instalações da Joana Vasconcelos. Sim, cada finta apela ao nosso cérebro macacoide e não ao nosso apurado sentido artístico cognitivamente evoluído, tudo bem, ainda assim, aprecio mais um livre marcado pelo Ronaldo do que uma ida ao Museu Berardo ver quadros em branco na companhia de hipsters.

O que tem o futebol a ver com a aviação? Nada. É uma homenagem. O que é certo é que muito turista vai à Madeira porque passou a conhecê-la através do Ronaldo. Vai atrair mais turismo pelo aeroporto ser CR7? Não sei, é possível, nem que seja porque será notícia lá fora. O que sei é que iria lá menos gente se se chamasse Aeroporto Alberto João Jardim. Depois, se pensarmos bem, baptizar um aeroporto com o nome Cristiano Ronaldo nem é assim tão descabido. Vejamos: primeiro, o Cristiano tem um avião, ok? Pronto. Não é um drone ou um avião telecomandado montado às peças em fascículos da Planeta Agostini. É um jacto privado que custou uns 20 milhões de euros. Logo aí, Ronaldo já está a ganhar a muita gente. Depois, ele está mais do que habituado a manusear aviões: seja a Irina ou a Nereida. Sim, começou por baixo, com a Merche, a tirar o brevet numa espécie de avioneta que para passar na inspecção só pagando pela porta do cavalo. Todos temos de começar por algum lado e é mais do que sabido que o Ronaldo veio de baixo e não nasceu em berço de ouro. Terceiro, e último, os livres do Ronaldo chamam-se Tomahawk que são mísseis que, tal como os aviões, voam. Fora o facto de ele ter uma grande capacidade de impulsão. 

Como já escrevi, tenho medo de andar de avião, e, por isso, o nome do aeroporto onde vou levantar ou aterrar, dentro de uma caixa de metal com asas, conduzida por um taxista bem vestido, é-me um pouco indiferente. Tenho mais coisas em que pensar. Quero lembrar-vos que o aeroporto do Porto se chama "Aeroporto Sá Carneiro". Isto sim, é um nome parvo para um aeroporto. Um gajo que morreu num desastre de avião dá o nome a um aeroporto? Acho ofensivo. Já não basta eu panicar só porque sim, ainda me fazem lembrar que o senhor que dá nome ao aeroporto faleceu devido a um avião.

Haver um aeroporto chamado Sá Carneiro é o mesmo que haver um autódromo chamado Angélico.

Já para não falar em hospitais com nomes de santos. O Hospital de Santa Maria devia ser uma marquesa na igreja onde o padre faz umas rezas. Se vou ao hospital não é para ser salvo por santos a não ser que o médico que me vai operar os joanetes tenha "dos santos" como apelido. Faz tanto sentido como haver um Hospital José Carlos Pereira em homenagem ao eterno estudante de medicina cujos cuidados de saúde são conhecidos por todos. Já agora, deixo algumas sugestões para homenagear outros atletas e celebridades portuguesas e que, a meu ver, fariam todo o sentido:
  • Loja do Cidadão Nelson Évora - Onde tem de se andar a saltar de balcão em balcáo até encontrarmos alguém que nos saiba ajudar.
  • Associação Patrícia Mamona - ONG que ajuda doentes com cancro da mama.
  • Túnel Ricardo Salgado - Um túnel sem saída que, no fundo, é apenas um buraco horizontal.
  • Universidade Miguel Relvas - Privada e por correspondência.

Por mim, a Madeira até se podia chamar ilha Cristiano Ronaldo e todas as ruas serem Rua Cristiano Ronaldo I, II e por aí fora. «Isso é porque não és da Madeira!!!» espumam alguns de vós. Tudo bem, mas também mudaram Buraca para Águas Livres e não me viram a refilar. Para mim continuará a ser sempre Buraca, da mesma forma que as pessoas vão continuar a dizer aeroporto da Madeira ou do Funchal e ninguém se vai chatear com isso daqui a uns anos. Daqui a uns dias, vá, quando houver outra polémica mais suculenta. 

Há quem diga que a mudança de nome não faz sentido porque Ronaldo ainda está vivo e pode, no futuro, cometer erros e ter comportamentos maliciosos que ficarão, assim, associados ao aeroporto. Epá, muda-se o nome depois e faz-se outra festa! A ponte 25 de Abril também se chamava ponte Salazar e não é por aí que não continua a ser uma ponte que cumpre o seu nobre objectivo de unir margens. Por mim, até se tinha mantido como Ponte Salazar porque acho que a história não deve ser apagada a ver se não nos esquecemos o que o senhor fez e a ironia de ter o seu nome numa ponte em vez de num muro ou, por exemplo, na prisão de Caxias.

Percebo o argumento, mas prefiro homenagear em vida até porque não se tem a certeza se o sinal de wi-fi é bom no além.

Querem que as nossas obras tenham nomes de cientistas ou artistas famosos? Então comecem a ver mais teatro e a dar mais valor à ciência em vez de ver futebol. Simples. Os jogadores ganham obscenidades porque há público e dinheiro para isso. Têm a projecção que lhes dão e, por isso, é merecida. No dia em os jornais mais vendidos e os sites mais visitados em Portugal não sejam os de futebol, a gente conversa. Até lá, as nossas bandeiras vão ser jogadores de futebol que "só" sabem dar uns toques na bola. Antes isso do que o Aeroporto Fanny ou a Praça do Toiros do Zé Maria. Por isso, aceitem que o Ronaldo vai baptizar muitas obras em Portugal e percebam que quem é contra é gente que nunca vai ver o seu nome em nada a não ser na fatura com NIF do Pingo Doce.
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22 de março de 2017

A vida de um português segundo Dijsselbloem



Desde sempre disse que o problema de Portugal é a cerveja ser barata, haver calor e mulheres bonitas e que se não fosse isso já tinha havido uma revolução à séria com umas quantas cabeças de banqueiros e políticos rachadas ao meio. Por isso, as declarações do Djaló holandês, Dijsselbloem, são palermas e o facto de gastarmos tudo em álcool e mulheres devia ser salutado pois é apenas por isso que aguentamos as medidas de austeridade sem refilar muito. Aliás, dizem que o negócio da prostituição e do álcool têm sempre mais procura em momentos de crise e de austeridade, por isso, não me parece que as meninas e o vinho sejam, ao mesmo tempo, causa e efeito. O senhor deve ter vindo cá e os locais que encontrou para lhe mostrar o país foram os senhores da fotografia. É normal que tenha ficado com essa ideia de nós e pense que o dia normal do português comum seja assim:

12:00h - Acorda, com ressaca. Fuma um cigarro ainda na cama. Levanta-se e bebe um café e um bagaço.
12:40h - Liga o computador e vê que vídeos novos há na sua subscrição premium do PornHub.
13:00h - Almoço na tasca com os amigos, duas garrafas de tinto para cada um, duas aguardentes no fim para desmoer.
15:00h - Dorme uma sesta valente.
17:00h - Agarra o telemóvel e encomenda duas pizzas e a Lorena do Portal Privado.
20:00h - Jantar na tasca com os amigo, bitoque e dez imperiais.
01:00h - Vão à Casa da Mãe Kikas consumir um gin, uma lapdance e uma hora de sexo desprotegido.
05:00h - Vai dormir cedo que amanhã ainda só é quarta-feira.

É certo que há muita gente assim e que são os que mais se queixam. É certo que temos políticos amigos da borga como o Santa Lopes que até tirou as prostitutas das estradas de Monsanto, alegadamente, tirou-as de lá para casa dele. Voltando à cronologia do dia, reparem que o português, para além de consumir produto interno e de estimular a economia ainda é versado em novas tecnologias para melhorar o seu conforto e produtividade. No entanto, a reacção a estas declarações vieram mostrar que a sociedade portuguesa ainda objectifica a mulher. Porquê? Quando ele falou em gastar dinheiro com mulheres toda a gente pensou que a única forma de se investir em mulheres é pagando a prostitutas.

Fiquei pasmado, já que o meu primeiro pensamento foi no dinheiro que gasto em prendas de Natal e de aniversários com a minha namorada.

Aliás, lembrei-me que o ainda lhe estou a dever prenda de Natal e que isso me pode sair mais caro no futuro, por isso, gastar dinheiro nas nossas mulheres é o melhor investimento para a nossa felicidade que pode haver.

O que é certo é que pedimos ajuda financeira depois de ter gasto tudo o que se tinha na carteira em carros, plasmas e numa amante brasileira. O problema é que não foi o português comum, classe média nem baixa, a gastar o que tinha nesses luxos. Foram os governantes e banqueiros que gerem isto que gastaram o que não era deles com as colegas das suas mães. Num país com um dito popular «Quero é putas e vinho verde!», não podemos propriamente levar a mal o que o Djalóflingaspissas disse. Até porque acredito piamente que o dinheiro que nos tem sido roubado tenha sido, em grande parte, usado para garrafas de vinho de milhares de euros e para pagar a companhia de jovens voluptuosas.

O álcool e as mulheres sempre foram a melhor fonte de inspiração dos nossos poetas e já os nossos descobridores gastavam tudo em rum e em sereias. "Dá-me mais vinho porque a vida é nada!", dizia Pessoa, e "Beijo na boca todas as prostitutas" escrevia o seu heterónimo Álvaro de Campos. Agora finjam que o Djalósafoda mentiu.
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21 de dezembro de 2016

CDS, os especialistas em não fazer sexo



A Juventude Popular quer que se ensine a abstinência sexual nas aulas de educação sexual e quais as suas vantagens face aos outros métodos contraceptivos. Querem, portanto, promover a falta de sexo, algo em que me parece serem especialistas, isto se exceptuarmos, claro, situações de prestação de serviços, vulgo prostituição. Se, por um lado, é um facto que a abstinência é a única forma 100% fiável de não engravidar nem contrair doenças, também é óbvio que só é opção para quem tem cara de gnu atropelado e não consegue arranjar quem lhe dê uma festinha nas miudezas, quanto mais o resto. É uma proposta de quem não tem muito que fazer e, por isso, é normal que tenha vindo de uma associação de jovens que, na falta de pessoas que queiram brincar com eles aos médicos e enfermeiras, gostam de brincar aos politicozinhos de carreira para nunca terem de trabalhar na vida. Eu percebo, a maioria dos jotas são jovens que tiveram de ir para a política para um dia serem alguém na vida. Foram humildes o suficiente para saber que sozinhos, sem cunhas, contactos e favores, nunca chegariam a lado nenhum. Respeito essa humildade de pessoas que sabem ver e admitir que são abaixo da média.

Primeiro, um partido que se assume como representante da democracia cristã nunca pode ter grandes ideias no tocante a questões sexuais, ou a muitas outras.

Trazer religião para a política é como trazer Champomy para uma orgia.

No entanto, percebo-os: a abstinência tem funcionado tão bem com os padres que eles querem trazer o mesmo modelo para o programa de educação sexual. Depois, no 2º período, ensinam como abafar escândalos e no 3º tentam meter o bedelho nas aulas de ciências para que se ensine o criacionismo como alternativa válida à teoria de Darwin. Estou a exagerar, bem sei, mas de um partido contra a liberdade de escolher interromper uma gravidez, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e a favor das touradas, já espero tudo.

Voltando à abstinência, não é preciso ser grande conhecedor da mente humana para saber que não é natural, nem viável, que se diga a adolescentes para não cederem às tentações de Belzebu e, em vez disso, assobiarem para o lado, por mais que a erecção lhe esteja a doer. Isto, sabendo que sexualidade reprimida é a maior causa de guerras no mundo e de comentários palermas no Facebook, é até perigoso que se ensine às crianças que não fazer sexo é uma opção. Mais do que perigoso é hipócrita e só vai funcionar para recalcar e reforçar o tabu do sexo que a direita cristã tanto gosta de manter. Dizer a alguém que tem a opção de fazer sexo com preservativo e que lhe vai saber a pato na mesma, mas que tem a opção, igualmente válida, de não praticar o coito, é o mesmo que perguntar a alguém se prefere mousse caseira ou instantânea. Sim, há sempre alguém que prefere a instantânea, mas isso é porque nunca provou uma caseirada portuguesa de lamber os dedos (isto foi uma referência pornográfica vintage que só alguns entenderão). No máximo, isto pode servir para que pessoal pense «Sim senhor, nem vou andar prevenido com preservativos porque vou optar pela abstinência!» e, depois, numa noitada e com as hormonas marotas aos pinotes, lá vai disto ó Evaristo, sem latex.

Sendo que o líder da JP é contra o casamento homossexual, calculo que os gays tenham de ficar virgens para sempre, especialmente no rabo que é onde a virgindade, para Deus, é mais importante. Ele não gosta que se desperdicem ejaculações e não há maior desbarato do que o de ejacular em terreno que, apesar de ter estrume, não é fértil. Aliás, ninguém me tira da cabeça que a ejaculação precoce é Deus a fazer cócegas na cabeça do pimpolho para que os homens não consigam interromper o coito e desperdiçar o néctar divino nos lençóis. Um partido político que teve um líder homossexual (alegadamente, como se fosse um crime) e que, por questões ideológicas do partido, se opunha ao casamento e adopção por parte de pessoas do mesmo sexo, diz tudo sobre as amarras dogmáticas que a política, e a Igreja neste caso, têm até sobre as pessoas que com elas são discriminadas. Têm o efeito do marido abusador que consegue fazer com que a mulher sinta culpa e a ainda diga «Sim, ele deu-me uma bordoada no baixo ventre, mas eu também deixei queimar o arroz, por isso...».

***

Tive acesso ao programa proposto pela juventude do CDS, com algumas perguntas e exercícios para ver se a criançada assimilou a matéria:

Conteúdos teóricos:
  1. Enquanto estás a fazer sexo há alguém a evoluir de nível no League of Legends e no World of Warcraft. Fica a dica.
  2. A cabecinha conta?
  3. Masturbação e cegueira: estudo independente na Internet comprova a causa-efeito.
  4. Jesus fazia sexo com Maria Madalena e olha no que deu.
  5. És Agro-Beto? Faz antes com uma ovelha.

Questão 1:
A Constança teve dez namorados com quem era sexualmente activa. Sendo que praticavam o coito, em média, seis vezes por semana, e sabendo que as suas dez relações perfizeram um total de doze meses, quão promíscua é a Constança?
a) É muito promíscua;
b) É muitíssimo promíscua;
c) É uma puta;
d) Quem é a Constança e qual é o número dela?
e) Todas as anteriores.

Questão 2:
O Bernardo praticou sexo desprotegido com a Constança. Depois, o Bernardo praticou sexo anal, também desprotegido, com o Martim que, por sua vez, teve dois segundos de penetração sem preservativo com a Matilde enquanto a Benedita ficou a ver e manteve a virgindade. Qual é a probabilidade da Benedita ter contraído HIV?
a) 0% porque pratica abstinência;
b) 50% porque fez contacto visual com um homossexual;
c) 100% porque se despediu do Martim com dois beijinhos;
d) 0% porque tomou um retroviral e rezou dois Avé Marias.

Questão 3:
A Pureza não consegue arranjar um namorado porque já rodou a escola toda e ficou com má fama. O que deve ela fazer?
a) Enclausurar-se num convento
b) Pedir transferência para a escola pública porque lá é normal
c) Abrir um negócio da prostituição para lá irmos todos
d) Todas as anteriores

Exercício Prático 1:
Ver pornografia uma hora por dia e, a cada ameaça de erecção, enfiar uma malagueta no ânus e cantar o hino.

Exercício Prático 2:
Em grupos de dois, cada um de sexo diferente, devem despir-se e jogar ao jogo do sério ligados a uma máquina que dá choques de alta voltagem. Perde quem tiver uma erecção ou humidade vaginal.

Exercício Prático 3:
Visitar um bairro social com famílias numerosas para começar a associar o sexo a gente pobre e a quizomba.

***

Moral da história: a molecada vai fazer sexo e vai, por isso ensinem-lhe como fazê-lo de forma segura e abstenham-se de tentar enfiar, de fininho, valores religiosos na educação. A política já tem hipocrisia suficiente e não precisa de ajuda nesse campo.
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13 de novembro de 2016

Donald Trump: melhor presidente de sempre



Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos da América. Presidente do “maior” país do mundo. Presidente do país que tem as chaves da liberdade e a varinha de condão com que espalha democracia pelo mundo à força da bomba e da destabilização seguida de um «amanhem-se, p’raí.» Não fiquei admirado, na minha cabeça sempre achei que ele tinha uma alta probabilidade de ser eleito mesmo com o que diziam as sondagens. Primeiro, porque muita gente tinha vergonha de admitir que ia votar Trump, segundo porque era o único que tinha eleitores ferrenhos que não ficariam em casa. O que me choca não é o Trump ter sido eleito presidente. Acredito que ele não seja assim tão execrável como fez transparecer durante a campanha. Ele não é assim tão racista, xenófobo e sexista. Acreditem que não é. Trump sempre foi mais liberal durante todo o seu percurso. Sempre foi pró-aborto, sempre acreditou num serviço de saúde universal, e sempre foi ateu. Não que ser ateu, por si só, seja sinal de inteligência ou integridade: Mussolini também o era e foi o que se viu. Mas isto mostra bem que ele disse o que disse em campanha apenas e só para ganhar votos. Por isso, o que me assusta não é ele ser presidente, mas sim o facto de ter ganho com os votos daqueles que pensam que ele é uma besta.

É pior um racista autêntico que diz o que pensa, ou um tolerante que se faz passar por racista para ter votos e chegar ao poder?

Vou ser honesto: o meu lado humorista está contente com a vitória de Trump. Como disse George Carlin «O mundo é um freak show e quem vive nos Estados Unidos da América tem bilhete na fila da frente.» Com a vitória de Trump, todos nós sentimos que temos um camarote presidencial para assistir à tragédia com a mesma curiosidade perversa que nos faz abrandar para vermos o acidente na via do lado. Se Trump não arranjar uma guerra nuclear vamos ficar desiludidos, da mesma forma que na estrada temos pena de não vislumbrarmos corpos decepados ao longe para, depois, termos uma boa história para contar à mesa de jantar com a família.

A vitória de Trump mostrou que qualquer pessoa, mesmo fora da esfera da elite política, pode ser presidente do país mais poderoso do mundo. Qualquer pessoa, desde que seja rica e diga o que o eleitorado burro quer ouvir. Não obstante a clara burrice e desinformação de uma grande parte do eleitorado Trump, será que são mesmo todos umas bestas ignorantes e intolerantes à diferença? Creio que não. Creio que no meio daquela mixórdia pouco heterógena de red necks filhos de primos direitos e sem dentes, haja pessoas tolerantes que só estão à procura de uma coisa: mudança. Isso e nunca terem pensado que o seu voto de protesto ia dar merda. A vitória de Trump é uma pedrada no charco podre da democracia. Só que, muito provavelmente, é uma pedrada feita com uma bola de estrume calcificada e, também ela, apodrecida. 

No entanto, vamos lá acalmar as patarecas! Quem teve oito anos de Bush vai aguentar bem pelo menos quatro de Trump. Acho que isto vai ser bom para o mundo, nem que seja só para a pequena parte que restar depois de uma guerra nuclear. Às vezes, é preciso destruir barracas para se conseguir construir as fundações de cimento do bairro social. Trump é um fantoche. Os cordelinhos dos políticos são controlados pela oligarquia corporativa. Pelos milhões e milhões que entram nos bolsos das campanhas e que as fazem pender para um lado ou para o outro. Trump pode ser um outsider à política, mas não o é a essa realidade. Sabe como isto funciona e vai andar na linha. Talvez isso seja o pior disto tudo: a mudança prometida, boa ou má, não vai ser cumprida e vai ser mais do mesmo e, pior, é que o resto do mundo vai ficar contente com isso. 

Há muito que acho que a democracia é um sistema perverso, especialmente num país onde a educação é escassa. Onde há 42% da população a acreditar que Adão e Eva é uma história verdadeira, que os fósseis dos dinossauros foram colocados pelo Diabo para testar a fé dos crentes, e que dizem que a terra só tem 10 mil anos, a democracia tem de dar merda. São 136 milhões de gente com défice cognitivo que não acredita na ciência! Foda-se.

E ainda nos queixamos de ter de ouvir aquela tia velha nos jantares de Natal a dizer que os três pastorinhos viram mesmo Nossa Senhora no cimo de uma árvore.

Num país com este tipo de gente burra e inculta, a democracia não é mais do que uma ditadura das massas ignorantes. Era preciso um ditador com bom-senso. Infelizmente, Trump, apesar de ter perfil de ditador, parece-me desprovido de qualquer senso, bom ou mau. Os americanos são uma manada de gnus que sempre elegeu hienas políticas para governar. Desta vez, fartaram-se e quiseram a mudança votando num leão capitalista. Esqueceram-se que os leões também gostam de gnus aux champignons. Num país onde os meios rurais foram esquecidos e o ensino é podre, é normal que se criem focos de ódio, racismo e xenofobia. Quando os políticos que por lá passaram não lhes deram atenção porque sabiam que não precisavam deles para ganhar, é normal que se tenha semeado a raiva e a crença de que a mudança, seja boa ou má, é melhor do que a continuidade.

Imaginem como se deve estar a sentir a Hillary! Perder para o Trump é como perder ao Trivial Pursuit com a Cátia Palhinha. Os democratas, quando descobriram aquela gravação em que o Trump dizia que agarrava as mulheres pelo pipi, pensaram que tinham ganho. Nunca se preocuparam em mostrar o valor da sua candidata, mas apenas em tentar desvalorizar o adversário. Foi aí que perderam as eleições. Aí e na arrogância sobranceira da Hillary, com a qual acharam que iam conquistar o voto dos mais desfavorecidos. Escolheram uma candidata elitista que não é mais do que um produto do sistema conspurcado e achavam que iam ganhar porque tinham o voto popular. Os democratas fizeram mais barulho pelo Trump ser um gajo carroceiro em privado do que por ser um racista xenófobo em público. Pensaram que um «grab them by the pussy» lhes iria agarrar os votos das mais de 40% de mulheres que diziam votar nele. Já ouvi tanta conversa pior de gajos ordinários e gabarolas que o sururu que se fez por isso, quando ele tinha dito tantas coisas piores, fez-me pensar que até era giro o Trump ganhar só para os bastiões da moralidade e do politicamente correcto ficarem a roer as unhas e as falangetas. 

Se calhar, Trump tem aquilo que é preciso para ser o melhor presidente da américa. Não estou a ironizar! Tem a expectativa mais em baixo do que o segundo mandato de Bush e tem o ego de um sociopata e autoestima de uma jiboia anã. Isso pode ser bom. O facto de ele ter necessidade de aprovação e de que todos gostem dele, pode fazer com que seja o melhor presidente. Pode fazer com que queira conciliar-se com todos e que se preocupe com o que o povo pensa dele. Não acho que ele se vá preocupar com as pessoas e as suas necessidades, mas acho que talvez se vá preocupar com o que elas pensam dele e isso pode ser suficiente para tomar algumas boas medidas. Isso aliado ao facto de por muitos negócios que tenha levado à falência, perceber mais de gestão do que qualquer político de carreira.

À primeira vista, dar a coroa de presidente ao Trump faz-me tanto sentido como o condomínio do prédio ter elegido a minha namorada como administradora. Ela foi eleita numa reunião onde não esteve presente, mas o eleitorado, preocupado com o bem-estar do prédio, juntou-se e pensou «Quem é que vamos eleger administrador? Ah, já sei. Aquela gaja que nunca vem às reuniões, só para a lixar.», sem perceberem que só se estavam a prejudicar a eles mesmos. Quando as pessoas votam assim no condomínio, não lhes podemos esperar mais inteligência na boca das urnas. Não me interpretem mal, a minha namorada tem muitas qualidades, mas tê-la como administradora do condomínio é como ter a Maria Leal como reitora da Escola de Música do Conservatório Nacional.

Por fim, e, talvez, entrando em incoerência com o resto do texto, durante a Web Summit fiz umas entrevistas em que perguntei a várias pessoas, de várias nacionalidades, o que tinham a dizer e se queriam deixar umas palavras ao Donald, sem qualquer censura. Ninguém quis. Nem dois casais muçulmanos do Irão «Temos de respeitar.», disseram-me. Nas redes sociais todos se insurgem, mas ao vivo, somos todos coninhas. Temos de respeitar? Não, não temos. Isto não foi uma eleição entre esquerda e direita e entre ideologias políticas, mais ou menos conservadoras. Isto foi uma eleição em que ganharam aqueles que acreditam que há pessoas inferiores. Uma vitória daquilo que está previsto na lei ser crime: racismo e qualquer outro tipo de discriminação. A opinião de 50% da população americana não precisa de ser respeitada, da mesma forma que eu não respeito alguém que na rua entoe cânticos racistas e xenófobos. Foi o desrespeito que deu a vitória ao Trump e será o respeito que o vai manter lá. 

Respeitinho é bonito e eu gosto, e cá vamos andando como Deus quer.

Apesar de tudo, até acho que devemos estar caladinhos. Um país que deu vinte anos de poder a Cavaco Silva, que elegeu Salazar como o maior português de sempre, e que se revoltou contra a vinda de refugiados sírios para Portugal, não tem nada para ensinar aos outros.

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26 de junho de 2016

Brexit: o Reino Unido já não quer brincar connosco



Imaginem que tinham um amigo rico de longa data e sempre que iam jantar fora não queria que levassem os vossos amigos pobres que se esqueciam sempre da carteira. Isto era o que ele dizia porque, no fundo, ele não gostava era de ser visto com pessoas de estratos sociais mais baixos, especialmente se fossem refugiados. Num rasgo de sobranceria, esse vosso amigo envia-vos uma mensagem a dizer «Olha, a culpa não é tua, mas esta relação não está a funcionar. Vamos deixar de ser amigos, mas quando eu precisar de ti ligo-te e se por acaso passar pela Buraca e me tentarem assaltar posso dizer que ainda somos amigos?». Resumidamente, e para um leigo na política como eu, foi isto que aconteceu no Brexit. Nós, os países pobres, fomos deixados pelo Reino Unido que já se esqueceu que é o país que é porque andou a colonizar meio mundo à força do mosquete e da cruz afiada no lombo.


É aquele novo rico que se esqueceu das origens e agora diz que odeia pobres e cortou relações com todos os amigos do bairro que o ajudaram a chegar onde chegou.

Brexit parece nome de um concorrente do Imodium, algo para parar a diarreia antes que ela nos pare a nós, já que o mundo vive um grande período de diarreia mental de alguns líderes e de uma prisão de ventre passiva de quem os elege. O problema não é os britânicos terem votado para sair da União Europeia. O problema são as razões que os levaram a fazer pender o seu voto para a saída: o que começou como uma campanha política baseada na economia e no poder de decisão condicionado do Reino Unido por estar ligado à UE, dizendo que mais de 350 milhões de libras eram enviadas todas as semanas para Bruxelas quando podiam estar a ser investidas no serviço nacional de saúde, cedo passou a uma campanha de nacionalismo bacoco. Esse discurso xenófobo e racista, tão na moda, mas que nem com o sotaque posh britânico consegue parecer inteligente. Esta coisa no nacionalismo e de se valorizarem mais as linhas imaginárias a que chamamos fronteiras e a aleatoriedade e o acaso geográfico do local onde nascemos, em vez de se valorizarem os laços de ADN de uma espécie que coabita no mesmo planeta, é talvez a maior razão das desigualdades no mundo. Por isso é que de cada vez que oiço o hino sinto uma dicotomia de sentimentos: por um lado sinto orgulho e arrepia-me ver tantas vozes numa só; por outro, sinto que são resquícios de uma altura em que andámos a saquear o mundo e espetar bandeiras no quintal dos vizinhos.

Não percebo muito de política nem de economia. Não sei bem porque é que as moedas desvalorizam ou porque é que os mercados mandam nisto tudo à base da especulação. É estranho sermos uma espécie que decidiu dar valor a um pedaço de papel e fazer com que ele oscile consoante notícias e coisas que ninguém entende muito bem. Qual o impacto que o Brexit vai ter no resto da Europa? Eu sei lá! Se estão aqui à espera de serem esclarecidos sobre este tipo de assuntos vieram ao local errado. O que sei é há muitos emigrantes no Reino Unido, que tiveram de sair dos seus países de origem por questões económicas e que foram para lá trabalhar, pagar impostos, e contribuir para a sociedade porque não o conseguiam fazer na sua terra natal, e que, agora, não sabem bem o que o futuro lhes reserva porque um punhado de gente mal informada decidiu reclamar para si um pedaço de terra que não devia ser de ninguém. Como sou rancoroso acho que podemos tomar algumas medidas para nos vingarmos dos britânicos:
  • Aumentar o preço da imperial para 10€ na Rua da Oura em Albufeira.
  • Dar e independência à Madeira e deixar que o Alberto João Jardim seja o presidente.
  • Piratear as televisões britânicas e passar em loop infinito o vídeo do Ricardo a defender o penálti sem luvas e a marcar golo.
  • Não praticar o amor com inglesas bêbedas.
  • Só contratar empregados portugueses que não falem inglês para os bares e restaurantes do Algarve.
Ah pois é, meus amigos, isto não pode ser só para um lado. Querem os portugueses fora do Reino Unido? Então nós vamos reclamar o Algarve para nós e, se for preciso, jogamos baixo! Vêm para cá vomitar-nos as ruas, fazer basqueiro, e matar e ocultar o cadáver dos próprios filhos? Isso é tarefa nossa! Temos muitos e bons bêbedos e pais negligentes capazes de fazer o mesmo e com mais qualidade!

O que interessa a saída de um país da União Europeia? Quem é que tem tempo para pensar nisso quando há saídas muito mais importantes? A saída do Pedro Jorge do Masterchef ou a saída de uma qualquer Cátia com "K" do Love on Top, são sempre mais comentadas nas redes sociais.


As pessoas querem Reality Shows e não estão interessadas em Reality Checks.

O mundo que outrora ameaçou ser cada vez mais global, está agora a tentar fechar-se sobre ele próprio, alimentado pelo medo da diferença cujo comburente é a ignorância. Nem todos os xenófobos são más pessoas, alguns são só burros e desinformados. Quando vemos que o país mais poderoso do mundo pode eleger um palerma, Trump, que tem um discurso de uma criança mimada de quatro anos que nunca saiu do seu colégio privado para ir dar uma volta ao mundo real, acho que podemos começar a deitar a toalha ao chão e desistir da espécie humana. Já demos o que tínhamos a dar! Foi giro, construímos casas e carros, inventámos coisas que parecem magia como a Internet e a Bimby, mas já chega.

Toda a gente adora a democracia até o resultado ser aquilo com o que não concordamos, mas quando vemos as pesquisas feitas no Google, no Reino Unido, após os resultados do referendo, ficamos com aquela sensação que a democracia não é mais do que a ditadura dos ignorantes:
Ou seja, depois de votarem num referendo, foram investigar o que era a União Europeia, quais os países que a constituem e quais as consequências da saída. Isto apazigua-me a alma porque afinal não são só os portugueses que têm amnésia selectiva na altura de votar. #SomosTodosBurros! Dizem que a ignorância é uma bênção e eu concordo, excepto para quem tem de aturar e conviver com ignorantes. Estamos à mercê dos desinformados. Estamos à mercê dos burros. E, a julgar pelo quadro seguinte o homem do leme da humanidade é um velho preconceituoso que destila ódio e escarra para o chão enquanto diz que a juventude está perdida.


Isto é o mesmo que termos um amigo vegetariano que condiciona a nossa escolha de restaurante para o nosso aniversário. «Há alguma coisa para mim, lá?» pergunta-nos ele como que a fazer pressão para modificarmos a nossa escolha. Cedemos e acabamos por ir para um restaurante que ninguém gosta muito só para agradar o herbívoro e, depois, ele acaba por se cortar à última da hora. Rais parta os velhos racistas a decidir um futuro do qual não vão fazer parte. Isto devia ser como na Multiopticas e o peso do voto tinha um desconto igual à idade.

As pessoas tomam decisões importantes como quem está no Tinder e apenas vê a ponta do iceberg, os títulos das notícias, o decote. Acho que todas as eleições e referendos podiam começar a ser feitos numa aplicação do género:


Para a maioria das pessoas uma fotografia e um título é suficiente para formarem a sua opinião. Ninguém quer clicar e ver os detalhes. Ninguém se quer dar ao trabalho de procurar informação. Se está na televisão é porque é verdade e quem aparece na TV nunca nos iria mentir. Ah, afinal parece que a promessa das 350 milhões de libras para o SNS foi engano e não era bem isso que eles queriam dizer, admitiu Farange numa entrevista.


Who cares? Haters gonna hate, coninhas gonna conate e politicians gonna aldrabate.

O mundo vai ajustar-se e vamos perceber que não precisamos de um falso amigo que fazia parte do nosso grupo só por favor. Havemos de fazer outras amizades, se calhar nunca mais vamos ter o nome da guest para entrar nas discotecas, mas se calhar ficamos melhor na tasca a beber minis.
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1 de junho de 2016

Carta por pontos para política, ter filhos, aceder à Internet, etc.



Entrou em vigor a nova carta de condução por pontos. Muita gente anda indignada e acha que vai começar agora uma caça à multa, mas, para essas pessoas, tenho uma coisa a dizer: conduzam como deve ser e deixem de ser palermas! Não tenho nada contra, vamos ver como corre este novo sistema e se servir para caçar a carta a muito boa gente que não sabe o que é ser-se civilizado, acho muito bem. Menos acidentes, menos trânsitos, e menos pessoal armado em chico-esperto. Se me calhar a mim vou refilar que é injusto e tal, mas até lá acho uma excelente medida. No entanto, acho que se devia aplicar este tipo de sistema por pontos a outras áreas da nossa sociedade.

Carta por pontos para se ter filhos
Devia haver uma carta de paternidade por pontos. Passo e explicar: todos começamos com 12 pontos e só podemos ter filhos enquanto tivermos saldo positivo. Situações que perdemos pontos:
  • Participar num reality show: -2 pontos
  • Dizer "fizestes" ou escrever "fizes-te": -3 pontos
  • Ter comprado um livro do Gustavo Santos sem ser para oferecer no gozo a alguém: -4 pontos
  • Ir a manifestações por causa dos cortes nos colégios privados: -12 pontos
  • Abandonar um cão: -12 pontos
  • Abandonar um gato: -10 pontos (sim, os gatos valem menos para mim. Lidem com isso.)
  • Ficar ofendido com piadas: -5 pontos
Quem chegar a zero é castrado para que não se reproduza e presenteie o mundo com mais um ser vivo que não vai ter educação em casa.


Carta por pontos para ter acesso à Internet
A Internet está a tornar-se num local desagradável e acho que é preciso fazer uma limpeza. A liberdade de expressão é muito linda, mas não fazia mal a ninguém haver uma espécie de licença para aceder à Internet. Como gosto que as pessoas tenham todas as mesmas oportunidades, em vez de tirar a licença, atribuiria a toda a gente 12 pontos desde início. Situações que levam a perda de pontos:
  • Convidar amigos para jogar Candy Crush: -2 pontos
  • Escrever comentários em maiúsculas: -3 pontos
  • Selfie com duckface e legenda "Simplesmente eu": -3 pontos
  • Partilhar citações foleiras da página Cifras: -5 pontos
  • Casal com perfil conjunto de Facebook: -5 pontos cada um
  • Fazer ameaças de morte: -12 pontos
  • Ter like na página do PNR: -12 pontos
Ao chegar a zero, ia lá a MEO ou a NOS a casa desligar o serviço e partir o router com a cabeça do cliente.

Passe por pontos
Andar nos transportes públicos apenas devia ser possível para quem se sabe comportar em sociedade. Como tal, só deviam ser vendidos bilhetes e passes a quem cumpra as regras. O primeiro passe teria 12 pontos e eis as formas de os perder:

  • Cheiro a sovaco mal lavado pela manhã: -2 pontos
  • Falar alto ao telemóvel: -3 pontos
  • Cortar as unhas no transporte público: -4 pontos
  • Não ceder lugar a uma grávida idosa e deficiente: -5 pontos
  • Telemóvel com música alta: -5 pontos
  • Telemóvel com kizomba alta: -12 pontos
Chegando ao zero, as pessoas tinham de ir de carro. Se também tiverem a carta apreendida, vão a pé que é para deixarem de ser otários.


Carta por pontos para exercer política
Os políticos andam a brincar com isto, a conduzir o país sem respeitar os traços contínuos das promessas e sem fazer pisca a avisar para onde nos estão a levar. Como tal, deveria haver também uma carta por pontos para se exercer política. Mais uma vez, todos começariam com 12 pontos e estas são as situações a ter em conta:
  • Ter sido comentador na televisão: -3 pontos
  • Ter andado numa jota: -4 pontos
  • Promessa em campanha que não foi cumprida: -5 pontos
  • Usar religião em contexto político: -8 pontos
  • Ter um diploma com falsas equivalências: -10 pontos
  • Ser amigo do Cavaco: -12 pontos
Chegando a zero ficariam banidos de qualquer cargo público, político e de administrador em empresas privadas.


Carta de eleitor por pontos
A culpa é tanto dos políticos como em quem vota neles. Portugal está cheio de copilotos que não sabem dar indicações nem distinguir a esquerda da direita e, por isso, sugiro que o cartão de eleitor passe a funcionar também por pontos. A partir dos 18 anos, receberíamos o cartão com 12 pontos e aqui ficam as formas de os perder:
  • Ter ficado sem carta de Internet: -3 pontos
  • Ter ficado sem carta de ter filhos: -3 pontos
  • Ter ficado sem carta de condução: -2 pontos
  • Ter ficado sem passe: -2 pontos
  • Participar num reality show: -2 pontos
  • Ter votado Cavaco mais de uma vez: -12 pontos
  • Ter votado sempre PS ou PSD: -12 pontos
  • Dizer que Portugal precisa é de um Salazar: -12 pontos
Quem chegasse a zero, adivinharam, deixava de poder votar e tinha uma sobretaxa de IRS só para pagar mais do que os outros pelo estado do país.

Quando for eu a mandar nisto tudo tratamos disto e de outras sugestões que possam ter porque eu sou um ditador com bom-senso que ouve o povo.
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25 de abril de 2016

Portugal precisa de um Salazar



Já passaram 42 anos desde a revolução dos cravos e apesar de Salazar ter morrido quatro anos antes, é impossível dissociarmos o fim do Estado Novo da morte desse que foi o seu grande obreiro. Todos os anos 25 de Abril é o dia em que muitos se juntam para em coro dizer «O que faz falta a este país é um Salazar.», mesmo alguns jovens que nunca coexistiram com o seu ídolo, criando assim um paradoxo ao demonstrar que o nosso sistema de educação poderá estar pior. Tal afirmação pode parecer digna de um doente com a síndrome de Estocolmo que se apaixona pelo seu captor e se esquece das constantes violações e castrações, mas aqui ficam as reais vantagens que teríamos com "o maior português de sempre" de volta ao poder.

Greves
Com Salazar nunca teríamos o problema constante das greves do metro e de outros trabalhadores da função pública. Ninguém ousaria fazer greve em busca de condições de trabalho melhores sem temer as consequências. Não é como agora que tanta gente sem vontade de trabalhar acha que pode paralisar os transportes públicos e prejudicar quem quer ser alguém na vida! Esses gatunos que reivindicam melhores condições de vida tinham os dias contados com Salazar, até porque todos sabemos que no tempo da outra senhora, a principal razão para ausência de greves era o facto de todos os trabalhadores viverem muito bem e sem quaisquer razões de queixa.

Fado, Fátima e Futebol
Com Salazar no poder nunca teríamos visto a constante perda dos principais valores da sociedade portuguesa. Infelizmente, o lema de outrora «Fado, Fátima e Futebol» é hoje «Kizomba, Teresa Guilherme e arbitragem». Perdeu-se o amor à pátria e isso vê-se no facto do fado ter sido considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade: no tempo de Salazar o fado seria apenas de Portugal e nunca um património do resto do mundo. Muitas eram as virtudes do professor, mas a de manter para os portugueses o que era deles talvez fosse das suas melhores. Sem Salazar nunca teríamos tido Eusébio porque nos dias de hoje ele teria jogado pela seleção de Moçambique, a não ser que se naturalizasse brasileiro e depois daí se naturalizasse português. No tempo de Salazar tínhamos o pantera negra, hoje temos o pantera vesgo, Éder.

Kizomba
Aliás, a quebra do império português trouxe com ela vários problemas para Portugal. Entre os quais, a pandemia da kizomba, algo que nunca teria florescido em Portugal se ainda figurasse Salazar como chefe de estado. Ele era conhecido pelo seu excelente gosto musical e pela intolerância a letras de mau tom e de cariz político. Artistas que cantassem «Agora não me toca», num claro desafio à autoridade vigente, seriam imediatamente convidados a uma carreira no Tarrafal e Portugal seria um local com menos poluição sonora.

Angola
Já que falamos nas ex-colónias, é de ressalvar que os grandes problemas que vemos a acontecer em Angola seriam impossíveis com a mão de ferro do Professor Doutor António Oliveira Salazar. Com a face do Estado Novo a comandar os destinos de Angola nunca teríamos activistas presos como o Luaty Beirão. Estariam mortos. Se fossem presos, ao menos faziam-nos o favor de não tornar isso em notícia de abertura de telejornal como se a "libertinagem" de expressão fosse algo importante. Uma greve de fome no estado novo nunca seria notícia, já que era o que a maioria dos portugueses se via forçado a fazer ao jantar. Por falar em liberdade de expressão, apesar de muitos apelidarem como censura o fantástico trabalho de filtragem de qualidade que Salazar fazia, é óbvio que essa triagem só faria bem a Portugal. Era uma triagem honesta e feita de forma directa, e não como a real censura que agora se vê que passa por fazer pressão a jornalistas e cronistas para que não comentem assuntos incómodos, como Angola, curiosamente.

Crise
A melhor qualidade do professor sempre foram as Finanças e é mais do que óbvio que com Salazar no poder, Portugal nunca teria o défice descontrolado nem teria necessitado de pedir ajuda externa. Salazar ia fazer com que o povo se unisse e se voluntariasse a passar fome e a não ter sapatos para que Portugal pudesse avançar! Com António nunca haveria crise, nem que fosse porque utilizar essa palavra seria proibido e seria mais do que normal a maioria viver com pouco para alguns se banquetearem e passarem a vida em orgias abafadas pela moral e os bons costumes. A crise é apenas uma visão deturpada e uma dificuldade de olhar em perspetiva: há sempre alguém pior do que nós e é por isso que dizer-se que estamos em crise é ofensivo. Salazar sabia como falar ao povo para que este se conformasse na sua mediocridade. Deus haveria de os recompensar.

Ajuntamentos
Portugal precisa de um Salazar para repor a ordem na via pública. É inadmissível a desordem que se vê no Bairro Alto, no Cais do Sodré e em todas a zonas de diversão noturna. Não admira que cada vez mais se aprovem leis que fazem com que se vá destruindo esse cancro da vida urbana que é o barulho e a sujidade nessas zonas que estão acordadas até de manhã e com elas mantêm de olhos abertos os moradores sérios e que têm de se levantar cedo ao Domingo para ir à missa. Festas e jantares de grupo seriam todos corridos a gás lacrimogéneo.

Amizade com a Alemanha
Com Salazar no poder Portugal nunca se teria subjugado aos caprichos da Alemanha de Merkl. No tempo da 2ª Guerra Mundial, todos sabemos da mestria de António que conseguiu manter-se neutro apesar da sua admiração por Hitler. Salazar soube ficar à parte de um conflito e ainda receber várias toneladas de ouro nazi para os cofres cheios de Portugal. Isto enquanto fez por perseguir e não valorizar quem contornou a lei com o objectivo, reprovável e egoísta, de salvar milhares de vidas, como foi o caso de Aristides de Sousa Mendes. Era nestes pequenos detalhes que se via a diplomacia salazarista bem como demonstrava ao povo que cumprir a lei era mais importante do que tudo o resto, algo que se perdeu nos tempos de hoje em que qualquer pirralho acha que pode desafiar a autoridade.

Mocidade portuguesa
Por falar em pirralhos, já olharam bem à vossa volta? Já viram o estado da nossa juventude? Trocaram os uniformes militares e o respeito, pelos chapéus SWAG e a música importada. Com Salazar, as crianças estavam bem entregues ao cuidado da mocidade portuguesa e as escolas tinham obrigatoriamente que incluir a educação baseada nos valores morais do catolicismo. As crianças deviam saber cantar o hino e não os hits da Cidade FM. É por essa mesma razão que numa geração se passou de «Quis saber quem sou, o que faço aqui» para «Ela é linda, ela é special.»

Abstenção
Um dos grandes problemas da democracia é a abstenção e o desinteresse do povo nas escolhas que podem moldar o destino do país. Com Salazar era menos um problema a assolar Portugal já que as eleições de nada serviam. Era menos uma preocupação na mente dos portugueses e menos uma desculpa para justificar os males da nação. Era como termos um pai que sabe o que é melhor para nós e nos convence de que não temos capacidade para fazer escolhas inteligentes.

Revolução
Salazar seria, sobretudo, positivo para Portugal porque nos daria esperança num futuro melhor para todos. Salazar dava-nos o desejo de mudar! Portugal é um país que precisa de almejar uma revolução! Precisa que lhe pisem os calos e lhe digam para estar calado, para que tenha forças para sair do marasmo e sair à rua de cravo e ferradura na mão. Os portugueses andam adormecidos e sem forças para se revolucionarem outra vez e Salazar faz falta por isso. Com um Salazar, todos, ou quase, teríamos o desejo latente de sermos Salgueiro Maia e nos revolucionarmos. Teríamos Amália na voz e José Afonso no ouvido. Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, o verniz iria estalar e nos iríamos revoltar. Nos dias que correm, sem um ditador como Salazar, a esperança está em que isto não piore e se assim for já nos conformamos. Ninguém quer ser revolucionário porque isso não dá likes no Facebook nem seguidores no Instagram. Ninguém censura músicas porque as músicas que se ouvem na rádio são inócuas nas suas letras. Com Salazar no poder teríamos mais jovens a querer ser Zeca Afonso e menos Justin Bieber. 

Por tudo isto, será que se perderam os valores e o respeito, ou apenas se perdeu o patriotismo bacoco e a idolateração às figuras do estado e da religião? A resposta é óbvia, mas seja como for, deixou de conseguir-se alimentar a ignorância de um povo burro e roto com «Fado, Fátima e Futebol» e passou a dar-se-lhe de comer «Pimba, Teresa Guilherme e Arbitragem». A diferença é que agora podemos escolher o que queremos comer e podemos refilar se a comida vier estragada.
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3 de março de 2016

Se o Trump fosse português



Gosto de acompanhar as eleições norte americanas não pelo interesse que tenho nas políticas deles, mas porque é do melhor entretenimento que tem dado na televisão. Estava a ver o discurso do Trump depois dos resultados das últimas eleições primárias, de madrugada como qualquer bom programa de humor, e dei por mim a pensar se seria possível haver um Trump, com aqueles argumentos, a liderar sondagens em Portugal. Vamos apenas fazer o exercício de imaginarmos que temos um candidato a presidente ou primeiro-ministro de Portugal a dar a seguinte conferência de imprensa:

Temos de tornar Portugal grande outra vez! Grande como foi na era dos Descobrimentos nem que seja preciso voltar a ter escravos e invadir Marrocos! Isto não pode continuar assim a sermos conquistados pela China! Só vejo lojas dos chineses em todo o lado e ainda por cima as merdas que lá se compram só funcionam uma vez! Temos de banir as lojas chinesas e expulsá-los do país! Temos de trazer o dinheiro dos portugueses de volta para Portugal e para isso, prometo construir um muro entre Elvas e Badajoz! É indecente que tantos portugueses continuem a ir comprar caramelos lá fora, quando temos tantos caramelos bons por cá! Vou, por isso, construir um muro de 500 metros de altura e ao longo de toda a fronteira! Calma que vai ter uma porta bonita mas só para entrarem turistas! Sair ninguém sai! Para quê ir fazer viagens de finalistas a Lloret del Mar quando temos Albufeira que tem tantas ou mais badalhocas? Outra medida que prometo fazer é expulsar todos os muçulmanos daqui para fora! Todos! Aliás, toda a gente que viver no raio de dois quilómetros de uma mesquita vai ser investigado. E os pretos? Esses preguiçosos? Cambada de violadores e traficantes e ainda pior do que isso é o facto de terem trazido para cá a kizomba.

Acham que uma pessoa com este discurso, mesmo que milionária e estrela de TV, liderava as sondagens em Portugal? Acho que não. Dizemos, eu incluído, tantas vezes mal do nosso país, mas aqui tenho de tirar o chapéu à inteligência dos portugueses que nunca se deixariam levar por um discurso surreal destes. Portugal, em termos de inteligência política, dá 10 a 0 aos Estados Unidos. E vindo de um país que elegeu Passos Coelho, Cavacos, Costas e afins, isso é dizer muito sobre os "amaricanos".

«Ele diz o que pensa.», é um dos principais argumentos de quem o apoia.

Como se dizer o que se pensa quando só se pensa em merda fosse uma qualidade.

Saber que se é burro e não se tem inteligência e opiniões válidas em determinados assuntos, e ter o bom senso de não se dizer o que se pensa e ficar calado, isso sim, é uma virtude. O mais curioso é que ele não diz o que pensa. Diz o que o faz ter votos. Ele sempre foi a favor do aborto e, de repente, mal chega ao partido Republicano, passa a achar que aborto afinal é pecado. Isto entre outros assuntos em que ele era mais liberal e passou a ser mais conservador só para angariar votos à direita e à direita da direita. O Ku Klux Klan disse que apoiava o Trump e acho que não é preciso dizer mais nada.

Como é que é possível o país que manda no mundo ter uma população, em média, tão ignorante? Ignorante ao ponto de votarem num gajo que diz baboseiras como estas? Ignorante ao ponto de haver 42% da população que acredita que a história de Adão e Eva é literalmente verdadeira, que o mundo tem menos de dez mil anos e que os dinossauros, por isso, coexistiram com os humanos ou que os seus fósseis foram deixados por Deus para testar a fé das pessoas? Ignorantes ao ponto de não deixarem os filhos irem à escola caso se ensine lá a teoria da evolução de Darwin? Quem faz isso acaba por criar um paradoxo mostrando que realmente muita gente não evoluiu e estagnou nos chimpanzés. Algo me diz que essas crianças serão a próxima geração da trumpa. Não são duas ou três pessoas! São 42% de um universo de mais de 320 milhões! As pessoas burras, ignorantes e desinformadas dos Estados Unidos fazem treze vezes a população de Portugal! E é esta gente que elege os governantes que têm mais poder no mundo!

Enfim, nada de estranhar num país que não consegue desligar a religião da política. Num país em que o ex-presidente Bush dizia que rezava pelas tropas no Iraque e em que os discursos acabam invariavelmente com um «God Bless America», mesmo que o candidato seja ateu, como dizem ser o caso de Obama. Deus dá votos de ignorância. Pelo menos este Deus americano, levado ao extremo como os extremistas islâmicos de quem eles tanto têm medo. O fanatismo católico nos EUA é, provavelmente, mais perigoso para o mundo do que o Estado Islâmico.

Ganhe ou não, Trump veio mostrar ao mundo que a democracia envolta em promiscuidade com as grandes corporações que financiam as campanhas, em conjunto com os media completamente parciais, é um modelo de sociedade perverso.

Uma sociedade com liberdade condicionada, mas prisão à ignorância perpétua.

Gostava que o Trump ganhasse para que todos víssemos o perigo do fascismo mascarado de democracia. Gostava ainda mais que ele ganhasse e se virasse para o povo americano e dissesse «Mas vocês são parvos? Como é que me elegeram? Eu só disse porcaria a testar os vossos limites! Acham mesmo que eu vou expulsar pessoas? Só se for as otárias que votaram em mim. Acham mesmo que vou fazer muros? Só se for para impedir que voltem para cá. E que Deus abençoe os outros países porque a América precisa é da extrema-unção.»
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24 de janeiro de 2016

Portugal é vítima de violência doméstica



Olá, o meu nome é Portugal e sou vítima de violência doméstica. «Olá Portugal!», responderiam os restantes elementos da reunião dos masoquista anónimos. Pois é, não fosse o facto de nos vermos livres do Cavaco, estas eleições seriam mais um dia triste da cronologia política portuguesa. Ganhou, mais uma vez, mais do mesmo. Foi uma substituição daquelas que se fazem no futebol quando o jogo está quase a acabar: uma troca por troca, só para ganhar tempo e adormecer o adversário, ou, neste caso, o povo. Foi trocar o Thomas pelo Fernando Aguiar, ambos cepos e contratações falhadas, mas o segundo expressa-se melhor nas conferências de impressa.


Ontem, Portugal elegeu um Presidente fã de Salazar, adepto de touradas, e contra o aborto. Portugal torna-se, assim, no primeiro país a inventar a máquina do tempo.

Não é que Marcelo não seja capaz de nos representar lá fora e de receber chefes de estado de outros países e de conseguir fazer sala e ter boas conversas. Tenho a certeza que sim. Aliás, conversar e falar será o seu maior atributo politico e, quando assim é, já sabemos que o resto fica descurado. O presidente não faz muito, é um facto. Passeia, manda o seu ocasional bitaite, deixa passar leis e pode mandar tudo abaixo e convocar eleições. Dizem que o Presidente da República deve ser uma espécie de árbitro, algo que olhando para o historial da arbitragem portuguesa, parece-me a pior analogia de sempre. Tal como os árbitros, o Presidente também é subornável e tendencioso, mesmo quando se afirma independente só para angariar votos à esquerda. É como eu dizer à frente dos meus amigos que eu é que mando lá em casa mas depois a minha namorada pôr-me a dormir no sofá e sem sexo durante dois dias.

Marcelo comentador era um bom comentador. Divertido, culto, e de ideias e ideais menos presos à sua afiliação partidária. Era um gajo fixe porque não influenciava nada e, sobretudo, porque não éramos nós que lhe pagávamos o ordenado na TVI. Como Presidente, é mais do mesmo, "só" isso. É melhor do que Cavaco? Óbvio. Qualquer um dos candidatos seria e, talvez, seja esse o grande problema: tínhamos um presidente tão rafeiro que qualquer arraçado nos parece de pedigree elevado. E não estou a comparar cães com políticos, porque isso seria ofensivo para todos os canídeos, especialmente os rafeiros. Marcelo tem o "pedigree" do resto dos políticos que nos têm governado. Vem das mesmas escolas e colégios, dos mesmos partidos, do mesmo círculo de amigos, interesses e favores. É mais do mesmo. É síndrome de Estocolmo.

- O meu marido bate-me e humilha-me. - queixa-se a dona Amélia.
- Então porque não o deixa e arranja outro?
- Oh, tenho medo.
- De quê?
- Da incerteza.
- Então mas este ao menos já sabe que não lhe faz bem.
- Pois, mas outro ainda pode ser pior. É que este bate-me todos os dias, mas no dia dos namorados até me faz um cafuné depois de me partir uma cadeira na nuca.
- Mais vale só que mal acompanhada.
- E depois lá na terra sou a solteirona sapatona? Nem pensar!
- Então não se queixe, dona Amélia. Apanhe aí nas trombas como uma senhora e cale-se.

E, com isto, quero também dizer que não confio por aí além em algum dos outros candidatos, nem tinha um preferido. Só gostava é que Portugal tivesse tido a coragem de fazer as malas e abandonar o marido abusador, mesmo sem ter a certeza se teria de dormir debaixo da ponte durante uns tempos. Mas, não foram tudo más notícias! Tino teve um resultado interessante e acredito que candidatos como ele são precisos, nem que seja para servirem de voto de protesto. E não estou a ser condescendente com ele, acho que de todos se calhar é dos poucos que realmente se iria importar com as pessoas. Ia fazer boa figura nas visitas oficiais? Provavelmente não.


Mas, com o Tino, as mensagens de Natal iam ser um excelente momento de humor que tanta falta faz na TV portuguesa.

«Ó Guilherme, não te podes queixar! Isto é democracia!», dizem alguns que acreditam em unicórnios com pénis forrados de diamantes e rubis e que ejaculam arco-íris. A esses, deixo apenas um exercício para fazerem: ponham lado a lado a percentagem de votos e o tempo de antena nos media de cada candidato e vejam se não encontram um padrão. Pois. Coiso. A falsa democracia começa, para além de termos um sistema de ensino moribundo, no facto de se ter de ter mais de 35 anos para se ser candidato à Presidência da República, e de se ter de ser português. Se calhar, o mal é esse. A selecção portuguesa teve os seus melhores resultados sob o comando de um estrangeiro e, pelos vistos, nós com prata da casa não saímos da cepa torta. Mandem vir o Obama, nem que seja só para chatear o PNR.

Marcelo tinha a papinha toda feita. Anos a fazer campanha deram-lhe uma vitória confortável sem precisar de se esforçar muito. Até se deu ao luxo de ser independente! Haha, esta piada ainda é melhor que aquela da Marisa Matias. Marcelo, o candidato, apresentou zero ideias e esquivou-se a todas as perguntas complicadas. A sua campanha resumiu-se ao que seria de esperar que o Tino fizesse: andar a passear, a comer petiscos, a dar beijinhos e abraços às velhinhas e crianças. De repente, Marcelo virou do povo. De repente, Marcelo deixou de ser o devorador de livros, professor, doutorado, amigo de banqueiros, para ser do povo. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. É certo que não podemos controlar nem somos responsáveis pelas escolhas errados dos nossos amigos, mas tenho para mim que uma pessoa inteligente percebe que algo se passa de errado. Exemplo:

- Então, Pedro, compraste um Porsche? - pergunto eu a um amigo de longa data.
- Sim, estava na dúvida entre esse e o Ferrari. - responde ele todo pimpão.
- Sim senhor, anda-te a correr bem a vida. - comento.
- Sim, fui promovido a supervisor lá no call center.

E eu, se fosse atrasado mental, não desconfiava que era porque o Pedro é traficante de droga e/ou anda a fazer felácios por 50€. Ou por 5€, mas trabalha horas extra. Depois a PJ apanhava o Pedro e eu era chamado como testemunha e dizia que nunca tinha visto nada suspeito. Enfim, Marcelo pode não ser má pessoa, o grande problema é que para se ser presidente ou primeiro-ministro é preciso estar embrenhado no mundo da política. Ter feito parte das jotas e ter crescido lá dentro. E, quem segue esse caminho, é impossível chegar ao topo sem dever favores a muita gente e sem ter dado graxa a tantas outras.


E, no fundo, é a isso que se resume a grande maioria da nossa classe política: uma cambada de graxistas que devem favores a outros graxistas.

É uma pescadinha de rabo na boca, mas quem está na cauda desta centopeia humana somos nós, onde apenas nos dão a comer o pão que o intestino deles amassou.

Numa carta que Marcelo escreveu a Salazar, quando tinha 12 anos, despedia-se do seu ídolo com «o seu humilde servo». Sim, as crianças de 12 anos idolatram as pessoas erradas, mas, pelos vistos, mais de 50% dos adultos que votaram, também. «Era a única opção! O menos mau entre todos os candidatos!», dizem alguns. Se isso for mesmo verdade, acho que ainda é pior sinal para Portugal e todos nós.
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