5 de dezembro de 2018

Novos provérbios sem linguagem ofensiva para os animais




A PETA, conhecida organização para a defesa dos animais, sugere que se acabe com a linguagem anti-animal que está enraizada na nossa sociedade. Sugere que ditados como "Agarrar o touro pelos cornos", passe a ser "Agarrar a flor pelos espinhos.”; entre outros, diz que o provérbio "Matar dois pássaros com uma pedra" passe a ser "Alimentar dois pássaros com um scone.". Podia ser a gozar, não fosse o pessoal da PETA meio avariado dos cornos. É a linguagem politicamente correcta a chegar ao mundo animal. Era só uma questão de tempo. Decidi, por isso, analisar alguns provérbios e frases conhecidas que envolvem animais, para tentar dar algumas alternativas e perceber se fazem sentido ou não.

A curiosidade matou o gato – Este provérbio, além de insinuar que ser curioso é uma coisa má, e assim nos tentar formatar a não questionar as coisas e a perder aquela curiosidade ingénua que temos em crianças, ainda nos diz que os gatos morrem devido a ela. Sugiro que passe a ser "A curiosidade alimentou o gato porque ele foi meter a pata num buraco e estava lá um rato. O rato, por sua vez, também foi curioso a pensar "O que será isto" e afinal era a pata de um gato que o esventrou, deixando dois ratitos órfãos de pai, mas que como como tinham uma mãe rata muito forte e independente conseguiram sobreviver e ir para a faculdade." Talvez seja um ditado que custe a entrar no ouvido, falta-lhe rimas.

A cavalo dado não se olha o dente – O cavalo não deve nunca ser dado porque um cavalo não é um presente. Primeiro, quem é que dá cavalos?  Só famílias e betos. Ofereçam um cheque FNAC que um cavalo é uma responsabilidade muito grande.

Grão a grão enche a galinha o papo – Estão a encher o papo à galinha para quê? Para acabar em fricassé? É indecente e se a galinha soubesse faria greve de fome. Um mundo perfeito era onde este ditado seria "Grão a grão fica satisfeita a galinha porque sabe que não a estão a engordar para ser comida.". Este rima e tudo, mais ou menos.

Gato escaldado de água fria tem medo – O gato não é burro e sabe bem distinguir a água fria da água quente e isso prova-se porque um gato que foi escaldado continua a beber água da taça. De qualquer forma, a maioria dos gatos não gosta de tomar banho e este provérbio é estúpido.

Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar – Quem é que quer ter pássaros na mão? Os gajos cagam em qualquer lado. Sugiro que se altere para "Mais vale dois pássaros na gaiola do que a irem contra um vidro feitos burros."

Quem tem medo compra um cão – Quem tem medo adopta um cão, assim é que devia ser. De qualquer forma, este provérbio deveria ser proibido já que os cães não têm a obrigação de nos proteger e este provérbio, além disso, é racista. Porque toda a gente sabe que quem tem medo não quer um chihuahua.

Quem não tem cão caça com gato – Ridículo. Vão caçar ratos? Quem é o nojento que come ratos? E quem quiser caçar gatos? Vai caçar gatos com gatos? Não faz sentido. Devia ser "Quem não tem cão e quer caçar é porque não está a investir o que devia para atingir os seus objectivos" ou "Quem não tem cão caça com gato especialmente se viver num apartamento."

Vozes de burro não chegam ao céu – Porquê? O que é que os burros fizeram de mal? O burro é um animal inteligente e que vive com este preconceito desde sempre como está patente noutro ditado que é "Burro velho não aprende línguas". Não aprende porquê? Porque se calhar não há investimento na educação dos burros. Há universidades seniores para os burros para que possam aprender línguas? Porquê? Só os ingleses é que se podem reformar e ir viver para Albufeira? 

Cão que ladra não morde – Cão que ladra não morde a não ser que esteja a dizer "Não" e as pessoas insistirem. Não é não, seja em que língua for e, por isso, o cão tem todo o direito de se defender se não respeitarem a sua vontade.

Se tiverem mais sugestões, podem deixar nos comentários para que todos possamos utilizar uma linguagem justa e que não perpetue a violência contra os animais, porque toda a gente sabe que se começarmos a dizer "Agarrar as flores pelos espinhos" em vez de "Agarrar o touro pelos cornos" a tourada acaba e em vez de forcados vamos ter floristas a rabejar ramos de rosas.
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28 de novembro de 2018

Artigo 13: A Internet vai acabar?



Está tudo em alvoroço com o famoso Artigo 13º que servirá para regular a Internet, tendo como objectivo proteger os direitos de autor na União Europeia e proteger a criatividade. Há quem diga que a Internet como a conhecemos hoje irá acabar, mas também dizem muito isso porque sabem que o alarmismo gera views e clicks. Primeiro, diz-se "Artigo Treze" ou "Artigo Décimo Terceiro"? Esta merda é que me está a fazer confusão pois há que saber dizer as coisas para as podermos criticar. 

Já quem diz "Artigo TreUze" devia ser banido da Internet para sempre.

Devemos estar preocupados? Médio. Devemos estar atentos? Sim. Sempre que alguém tenta meter ordem na Internet é quando a Internet se remodela e avança. Se nunca ninguém conseguiu parar os sites de torrents ilegais, ninguém vai impedir que se partilhem memes só porque o preto do marsapo grande reivindicou os direitos da imagem. Se os gigantes da Internet quiserem muito que ela continue "livre", ela continuará livre e não vão ser leis que o irão impedir. Isso ou as pessoas aprendem todas a usar proxys e VPNs.

Preocupa-me mais as plataformas removerem conteúdo e bloquearem utilizadores porque alguém achou alguma coisa ofensiva, do que este tipo de leis que, provavelmente, não terão grandes efeitos na prática. Toda a gente que está preocupada com a liberdade sempre ficou calada quando a Internet não foi livre para humoristas que foram e são bloqueados e censurados.

No entanto, se a Internet como a conhecemos estiver prestes a terminar, aqui ficam algumas mudanças significativas na vida das pessoas e na sociedade no geral:
  • Enviar dic pics e nudes terá de ser através dos correios. Aconselho utilizarem uma polaroid para não terem de revelar as fotografias das vossas miudezas numa loja, pois ainda podem aparecer naquelas fotos da montra, muita foleiras, ao lado de uma senhora com permanente ou da foto do casamento do Sandro e da Fabiana.
  • Vais deixar de passar vergonha quando abres um vídeo que te enviaram no WhatsApp, aparentemente seguro, e metes o som no máximo e começa uma mulher a gemer bem alto e toda a gente no trabalho olha para ti como se estivesses a fazer uma pausa para ver porno.
  • Vais deixar de ter aquele problema de abrir a galeria de imagens do telemóvel e estar cheia de fotos de gajas nuas e vídeos pornográficos que aquele teu amigo envia todos os dias para o grupo que criou e ao qual deu o nome de "Javardeira".
  • Os catálogos da La Redoute voltarão a ter utilidade.
  • Como o YouTube vai acabar, as televisões ficam sem poder usar conteúdo da Internet, sejam vídeos ou imagens, para ilustrar notícias, sem perguntarem aos autores se autorizam e sem nunca darem créditos, limitando-se a colocar "Imagens YouTube".
  • As pessoas que usam sempre aqueles comentários do "Mete mais tabaco nisso" ou uma imagem do Carlos Cruz a dizer "Troca-me isso por miúdos" serão bloqueadas por falta de originalidade.
  • Músicas do Tony serão bloqueadas do YouTube porque, finalmente, o plágio pode deixar de ser uma Carreira.
Como vêem, nem tudo é mau. Ninguém sabe muito bem as consequências da implementação do Artigo 13º, mas parece-me que a montanha irá parir um rato como aconteceu com o bug do ano 2000; de qualquer forma, não nos iludamos: ninguém está preocupado com a liberdade da Internet nem em proteger os criadores de conteúdo. Ambos os lados da trincheira estão apenas preocupados com o bolso e com os lucros para as suas empresas, sejam labels de música, seja o próprio YouTube e outras redes sociais.

Preferia que não houvesse regulamentação legislada, muito menos feita por pessoas que ainda usam o Internet Explorer e que nem sabem muito bem como funciona a world wide web (Se quiserem saber mais sobre o assunto, aqui fica uma explicação mais detalhada). Acho que a lei do fair use que temos agora e o bom senso são suficientes para regulamentar algo que queremos livre. O fair use diz que se pode utilizar material protegido por direitos de autor, desde que para fins educativos, informativos, paródias, entre outros. Vejo textos meus reproduzidos na íntegra em vários blogues e sites e só fico arreliado quando não têm fonte e insinuam que o texto é do dono desse site. Vou lá refilar, metem a fonte e ficamos todos amigos e nem me preocupo com o dinheiro que fizeram em publicidade à pala da minha criatividade. Se fosse muito dinheiro ficava, vá.
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7 de novembro de 2018

Pedir autorização a um bebé para mudar a fralda




Uma cronista de um site que são Capazes de conhecer, surfou a onda do tsunami provocado pelas declarações daquele senhor nos Prós e Contras - que sugeria que obrigar uma criança a dar um beijo aos avós era violência - e diz-nos várias coisas: primeiro, que só se deve mudar a fralda a um bebé com o seu consentimento; segundo, que se deve respeitar se uma criança não quiser comer mais sopa; terceiro, que se uma criança diz que não tem frio e não quer vestir o casaco, não devemos forçar. Insinua que desrespeitar o "não" das crianças está ligado a casos de abuso sexual em adultos, entre outros problemas da sociedade.

Sei que já passou algum tempo, mas vou começar com as polémicas declarações do senhor dos Prós e Contras sobre os beijinhos aos avós. E obrigar a criança a beijar o padre? Disso ninguém fala e parece-me que tem tido piores resultados. Percebo o que ele quis dizer e, embora nunca me tenha sentido violentado quando o meu avô me agarrava na bochecha com força e a minha avó com Alzheimer me metralhava a cara de beijos com buço e baba, várias vezes ao dia, porque se tinha esquecido que já me tinha visto, agora olho para isso de forma diferente.

Se mo fizessem hoje, seria uma violência obrigarem-me a beijar qualquer uma das minhas avós, pois beijar cadáveres decompostos é capaz de ser agressão física e psicológica.

Quanto aos meus avôs, um morreu antes de eu nascer e, por isso, tive a sorte de nunca ser obrigado a beijá-lo; o outro está acamado há anos e já não consegue estender o braço para me apertar as bochechas. Chupa, avô!... pela palhinha que é a única forma de conseguir beber líquidos.


Este caso fez-me abrir os olhos. Vamos crescendo e percebendo que os nossos pais nos obrigavam a ser bem-educados contra a nossa vontade. Felizmente, em adultos podemos não dizer bom dia aos vizinhos que ninguém nos obriga a fazer isso. Sempre que alguém no prédio me cumprimenta, grito logo "Bom dia só se for para si! Não mandas em mim!" e subo as escadas a correr enquanto canto a música da Sailor Moon.

Voltando à crónica que fala sobre a necessidade de pedir autorização a um bebé para lhe limpar o cocó, deixo-vos algumas passagens:

«Por exemplo, na altura de mudar a fralda de um bebé. Embora o bebé ainda não tenha a capacidade de responder verbalmente, podemos olhá-lo nos olhos e suavemente perguntar “posso mudar a tua fralda?” e fazer uma breve pausa, observando a linguagem não-verbal do bebé, para depois prosseguir para a mudança da fralda. Ou não.»

Iria mais longe: deve perguntar-se "Posso mudar a sua fralda?" para ensinar ao bebé que tratar por você é muito mais educado. Parece a gozar, esta merda. Observar a linguagem não-verbal? Só se for a do bebé a chorar todo assado porque andam todos à espera que ele responda e não lhe mudam a fralda há dois meses! Mas andamos a comer merda, ou quê? Não dizem que quem cala consente? Então, não vale a pena perguntar que o bebé nunca vai responder. Por este andar, a primeira palavra do bebé não vai ser "mãe" nem "pai", mas sim "atrasado mental" ou "Muda-me a fralda se faz favor que tenho o cu em carne viva, seu progenitor de merda!".

«(…) às vezes pode ser necessário ficar assim a conversar mais um pouco antes de proceder à mudança da fralda.»

Sim, conversar durante um ano e tal até ele conseguir falar e dizer que "Claro que podes, caralho, que pergunta estúpida é essa?". Vamos, por momentos, admitir que este processo proposto é o ideal. Vamos, agora, imaginar que o bebé dá o consentimento através de linguagem não-verbal, bolçando e palrando o que parece ser uma música do Toy, e a mãe lhe troca a fralda. E se o bebé estava a dizer que não dava permissão, mas trocou-se todo na linguagem não-verbal porque é um bebé e está a aprender? Pode dar-se o caso de sentir a sua vontade desrespeitada e gatinhar até à CM TV onde acusará os pais de maus tratos. Quando se fazem propostas destas tem de ser pensar em tudo e, por para evitar estes mal-entendidos, sugiro ter sempre presente um representante do Governo Civil e documentar em vídeo com contrato assinado no fim, pelos pais e pelo bebé.

Andamos a criar uma geração de pessoas mimadas há muitos anos, mas parece-me que estamos a chegar a um ponto em que quase parece que esta gente diz estas coisas a gozar só para ter atenção. Sendo que, pensando melhor, não obrigar uma criança a comer sopa e vegetais, nem a vestir o casaco antes de sair à rua, pode ser bom porque fará aumentar a taxa de mortalidade infantil devido a desnutrição e hipotermia.

Nesse caso, sou forçado a concordar, pois só sobreviverão os mais fortes e inteligentes e limpamos a sociedade desta gente que acha que o mundo tem de ser um lugar estéril e inócuo onde todos os seus sentimentos são protegidos.

Não digo que ensinar o conceito de "consentimento" às crianças não seja importante, claro que é, mas isto parece-me, no mínimo, risível. Então e o consentimento dos pais? Isto é um paradoxo do consentimento e se o "não" de uma criança deve ser respeitado, o dos pais também. Imaginem o seguinte:

- Coma a sopa toda, Bernardo.
- Não.
- Tudo bem, peço desculpa por insistir.
- Quer dizer que posso deixar este resto e meter os dedos na tomada?
- Não.

E ficam ali, para sempre, porque "não" é "não" e tem de ser respeitado. Outra:

- Martim, tem de se levantar e ir para a escola.
- Não.
- Pronto, não insisto mais que o não é não.

E o Martim cresce para ficar um adulto burro que nunca conseguirá educar um filho e, por isso, incapaz de lhe ensinar tudo sobre o "consentimento".

Esta gente foi buscar a filosofia da Teoria da Humanitude que é aplicada a adultos dependentes, especialmente a idosos em cuidados continuados ou lares de terceira idade, e que fala sobre isso mesmo de observar linguagem não-verbal e não forçar cuidados de higiene se a pessoa não quiser. A diferença é que uns são bebés e os outros são velhos. Há quem os confunda porque ambos se babam e usam fraldas, mas são coisas diferentes. Mesmo assim, se um velho estiver meio demente e sempre a espernear e a dizer que não, algum dia vão ter de mudar-lhe a fralda contra a sua vontade. E um bebé é uma espécie de adulto com demência, que não diz coisa com coisa e passa o dia a gritar e a chatear as pessoas. Duram é mais, por norma.

Não sou psicólogo nem quero ter filhos, mas estou em crer que o papel dos pais é preparar as crias para a vida e, infelizmente, a vida é feita de contrariedades. Não respeitarem o nosso "não" faz parte da vida e nem tudo, ou muito pouco, será como nós queremos.

Enviar para o mundo real crianças mimadas, flores de estufa e que sempre viram as suas vontades satisfeitas, devia ser considerado negligência parental.

Os contos de fada já fazem esse trabalho e aquelas vezes que os nossos pais nos disseram que éramos lindos e inteligentes e que podíamos ser o que quiséssemos quando crescêssemos já nos trouxeram demasiados dissabores quando a vida se tornou num constante puxar do tapete. Não vamos estar aqui ainda a arranjar mais formas de criar gente coninhas, está bem?
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24 de outubro de 2018

Casados à Primeira Vista: roleta russa



Como opinador profissional do que se passa no mundo faz parte do meu trabalho ver coisas das quais não me orgulho. Uma delas é o Casados à Primeira Vista, novo programa da SIC, cuja versão em estrangeiro já conhecia porque tenho uma mulher em casa que monopoliza o controlo remoto da televisão. Para quem é muito intelectual e se gaba de não ver televisão o programa consiste em casar duas pessoas que apenas se conhecem no altar, depois de passarem numa bateria de testes "científicos" que calcula a sua compatibilidade enquanto casal. É uma evolução face ao Love on Top e Casa dos Segredos que eram uma espécie de "Mamanço da boca à primeira vista". Tal como o Big Brother e esses seus derivados, acho que pode ser um bom estudo sociológico, mas, tal como esses, temo que seja "mais do mesmo" e que se centre apenas nos dramas semi fabricados em prol das audiências e onde os concorrentes apenas querem viagem de lua de mel de borla, presenças em discotecas e descontos na Prozis.

Ao contrário do que seria de esperar, pelo que se viu no primeiro episódio, os participantes não são pessoas muito feias e anti-sociais e aparentam estar dentro da normalidade sem qualquer tipo de défice cognitivo:

  • Temos um casal de um beto surfista que tem uma forma de falar algures entre o atraso mental e o AVC. A maioria das mulheres achará o rapaz bastante atraente, pelo que se depreende que para ter de concorrer a este programa deve ter uma personalidade de merda. Ele está "supê contente", mas a noiva não parece que o vá aguentar muito tempo.
  • Outro dos casais já passou da casa dos cinquenta e ambos deram como qualidade indispensável num parceiro o facto de ter boa higiene. É assim, chega-se a uma certa idade em que os padrões baixam ao ponto em que nos chega estar lavado para considerarmos meter à boca. Prevejo que seja o único casal que vá durar porque ir para um lar sozinho é uma chatice.
  • Outro dos casais é uma sósia da Ana Bacalhau dos Deolinda, mas com ar mais do Cacém. O noivo que lhe calhau parece ser daqueles gajos que se esforça demasiado para ter piada nos jantares de aniversário e que só é convidado para não termos de criar um grupo de WhatsApp à parte.
  • O outro casal, só mostrado de relance, são duas pessoas fisicamente normais, mas em que a noiva diz que não o acha atraente. Há muita gente que é solteira e que assim fica eternamente, não por não haver ninguém feito à sua medida, mas porque apontam demasiado para cima.
Anda uma mãe a educar os filhos e a dizer-lhes "Não aceites doces nem abras a porta a estranhos" para depois os verem casar com alguém que não conhecem.

Tenho algumas dúvidas relativamente à discriminação que o formato do programa pode suscitar. Desde logo, um cego pode participar num casamento à primeira vista? Parece-me que não. Penso que também discrimina os ciganos, pois para eles este programa chama-se apenas "Casamento". Também sinto que se perde uma oportunidade incrível de fazer um programa de apanhados épico. Exemplos:

  • Noivo vira-se e vê a noiva pela primeira vez e percebe que vai casar com uma anã perneta de 150kg.
  • Noivo militante do PNR percebe que a noiva que lhe calhou é negra.
  • Noiva descobre que o noivo é desempregado e não tem dinheiro.
  • Casar dois primos direitos para procriarem e continuarem a gerar participantes para os restantes reality shows.
Tenho muitas ideias que, infelizmente, ninguém aproveita. Por exemplo, sinto que este conceito podia ser aplicado a outras áreas: eu precisava era de um "Mecânico à primeira vista" onde, depois de uma bateria de testes, me apresentavam um mecânico compatível com os meus níveis de exigência que são altos pois passam por ter um mecânico que não me aldrabe. Sou demasiado exigente, bem sei.

Para finalizar, deixo um padrão que encontrei que vos fará pensar que não passa tudo de uma conspiração para as televisões controlarem todos os nossos sentidos. Reparem no que acontece aos domingos à noite na TV:
Casados à primeira vista - visão
The Voice - audição
Pesadelo na Cozinha - paladar

Se pensarmos que os programas de comentários sobre futebol estão cheios de falta de tacto, isto começa a cheirar a esturro. Sou um génio, eu sei.
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17 de outubro de 2018

Quem estaciona em segunda fila merece morrer



Se um monge budista conduzisse em Portugal, esquecia logo aquela mania do voto do silêncio e da calma perante as adversidades da vida e passava-se como qualquer um de nós. Pessoas que não sabem fazer rotundas, que mudam de via sem pisca para cima de nós, que ultrapassam nas curvas sem visibilidade, e tantas outras características do condutor autóctone do nosso país. Já consigo não me enervar muito com esses filhos de primos direitos que andam na estrada, mas há algo que me deixa à beira do homicídio: os estacionamentos em segunda fila. Antes de destilar ódio, vou aqui distinguir os três tipos:

  1. Um condutor que não tem lugar para estacionar perto e só vai demorar trinta segundos a fazer o que tem a fazer. Neste caso, é legítimo e não tenho problemas com isso.
  2. O gajo que vai ao café, estaciona em segunda fila porque não lhe apeteceu perder cinco minutos a estacionar, mas está sempre atento e se alguém quiser tirar o carro ele salta do lugar, automaticamente, e não nos faz esperar. Não faço isto, mas não condeno.
  3. Aquele que se está a cagar. Ora bem, se o carro tem quatro piscas, é para usar, pensa ele; para mudar de via, nunca sinaliza a manobra, mas para estacionar à grande, usa logo os quatro piscas de uma vez como se conferisse ao carro o super-poder da imunidade diplomática. Estaciona em segunda fila e, além de atravancar o trânsito naquela rua, vai ao supermercado ou às Finanças e demora meia hora, sem qualquer problema.
Este terceiro tipo, minha gente, merecia morrer. No mínimo, merecia levar com um ferro em brasa nos nós dos dedos enquanto era obrigado a ouvir Maria Leal em loop durante dois anos.

Estes missing links da evolução humana, estão, no fundo, a dizer-nos que o tempo deles é mais valioso do que o nosso; que esperarmos dez minutos, a buzinar e a chamar nomes a Deus, é melhor do que ele ter de andar cinco à procura de lugar e outros cinco a percorrer o caminho a pé até à porta do Minipreço. Se pensarmos bem, o acto de estacionar em segunda fila não é mais do que borrifarmo-nos para quem tem de esperar e é um exemplo perfeito do que é viver em sociedade: estamos pouco importados com os outros se o inconveniente deles for uma vantagem para nós, mesmo que mínima, mas ficamos arreliados se a outra pessoa não faz um pequeno esforço por nós. Pior ainda porque o estacionamento em segunda fila não prejudica só o dono do carro que estamos a bloquear, mas, muitas vezes, centenas de pessoas que apanham trânsito porque um neandertal está a provocar o caos no trânsito com o seu carro que, em 90% dos casos, é um Mercedes ou BMWs. Vou contar-vos algumas situações:

  • Carro trancado por estacionamento em segunda fila. Olho à volta, ninguém. Buzino uma vez. Nada. Buzino novamente e, mais uma vez, nem sinal de pessoas a aproximarem-se. Era perto de uma escola e calculei que fosse alguém a ir buscar os filhos e estava certo. Passados cinco minutos, que nesta situação parecem trinta, aparece uma senhora com o seu petiz, apressada e logo de longe a pedir desculpa. Olha para mim e diz "Ahhh, gosto muito do seu blogue!". Desarmou-me, claro. Não consigo refilar com alguém que me elogia.
  • Uma da manhã, centro de Lisboa, carro trancado por outro. Buzino. Nada. Buzino uma e outra vez e nada. Vem um senhor ao longe, cantor famoso da nossa praça que não vou referir o nome, a refilar comigo por estar a buzinar. Digo-lhe que tenho o carro bloqueado por outro e ele diz, com voz enrolada e a cambalear, que "toda a gente sabe que o carros estacionados ali são do bar em frente". Perguntei-lhe se estava nos livros de história ou se tinham feito uma reportagem para o jornal da noite para toda a gente saber esse facto, mas ele não percebeu o sarcasmo. Continuou a refilar a dizer que eu estava a incomodar os vizinhos, agarrei no telemóvel e disse-lhe que se não queria que buzinasse iria chamar o reboque. Entretanto, a dona do carro entretanto chegou, pediu imensa desculpa, e ficámos assim.
  • Carro trancado por outro com um bilhete a dizer "Toque no 1º direito". Qual primeiro direito? Havia pelo menos cinco prédios que podiam ser o certo nas imediações. Toco num e nada. Acerto à segunda e uma voz diz que vai já tirar o carro. Chega e nem um pedido de desculpas nem nada, com uma lata gigante, quase que me ignora. Refilo e digo que é um bocado falta de respeito e ela responde-me indignada "Mas eu deixei um bilhete, não deixei?". Digo-lhe que há lugares a menos de cem metros e que o tempo que ela poupou gastou-o agora a descer para tirar o carro o que prova que além de não ter respeito pelas pessoas é má a matemática.
  • Carro bloqueado, buzino e sai um gajo de um café, com dois metros e tatuagens tribais a cobrir os braços do ginásio. Não pede desculpa e desato a chamar-lhe nomes... mas apenas na minha cabeça porque não sou burro como ele.

Dizem que o stress é a doença do século XXI e se o querem resolver, passa por evitar estas situações que nos fazem perder anos de vida em raiva reprimida que um dia terá de extravasar para algum lado. As formigas obreiras da EMEL, em vez de serem tão picuinhas com os estacionamentos bem feitos cujo talão já expirou há dez minutos, podiam investir antes a tratar da saúde a quem está em segunda fila. Rebocar, não era multar só, era levar-lhes o carro para ver se aprendiam. Isso, sim, era preocupar com a mobilidade das cidades e não só caçar multas.

No início, falei em três tipos de estacionamento em segunda fila, mas há mais um: o expoente máximo do burro que é o gajo que estaciona em segunda fila a bloquear carros que estão nos lugares para deficientes. Ora aqui está um tipo de ser humano que está logo apresentado com esta atitude. Por obra do acaso, pode ser que já tenha acontecido um energúmeno destes bloquear outro que estava estacionado no lugar dos deficientes sem ser deficiente, criando assim uma espécie de equilíbrio no universo. Seja como for, não sejam este tipo de pessoa. O vosso tempo não é mais precioso do que o meu.

PS: Vou fazer stand-up em Portimão, Évora e Beja. Reservas neste link.

Também vou estar em Vila do Rei, podem ver mais informações neste link.
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10 de outubro de 2018

As frases mais idiotas de Bolsonaro



Não sou um gajo muito conhecedor de política internacional, mas o caso do Bolsanaro extravasa a política e resvala para o humor porque as desgraças dos outros têm sempre alguma piada para nós, deste lado do Atlântico. Por isso, vou analisar algumas das frases mais polémicas do, aparentemente, futuro presidente do Brasil.

"O erro da ditadura foi torturar e não matar". Até aqui tudo bem, se eu fosse ditador também matava pessoas, nomeadamente violadores, mas o poder sobe-nos à cabeça e sei que depois ia alargando o critério e começava a matar quem trata os filhos por você e quem não mete piscas nas rotundas. No fim, sobrava eu e meia dúzia de pessoas e, apesar de ser um mundo quase perfeito, haveria poucas gajas boas para apreciar.

"Não empregaria homens e mulheres com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente". Discordo. Acho que existem poucas mulheres competentes, tal como existem poucos homens competentes. A grande maioria das pessoas é incompetente e passa o dia nas redes sociais a fingir que trabalha, enquanto fazem tempo até o chefe ir embora só para saírem cinco minutos depois e ficarem bem vistos.

"Fui com os meus três filhos, o outro foi também, foram quatro. Eu tenho o quinto também, o quinto eu dei uma fraquejada. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher". O que mais me assusta é este senhor ter procriado cinco vezes porque sejam homens ou mulheres vão, certamente, sair atrasados mentais como o pai. Quanto a dar uma fraquejada e sair uma mulher, toda a gente sabe que é verdade e que, no fim do sexo, quando há quebra de tensão é porque o bebé sai com pipi.

"Jamais ia estrupar [violar] você [a deputada Maria do Rosário] porque você não merece". Bom, acho que também não podemos demonizar tudo o que o Bolsonaro diz. No fundo, ele está a dizer que a Maria do Rosário não merece ser violada e isso parece-me uma coisa que toda a gente com bom senso achará ou haverá quem pense que ela merece ser violada? Nem estava a usar minissaia nem nada.

"Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Eu a pensar que expressão "borra-gaitas" era a coisa mais ofensiva que se podia dizer sobre homossexuais, mas afinal o Bolsonaro prefere um filho morto do que gay. Mal ele sabe que maquilham os cadáveres para o funeral. Depois, parece-me que lhe escapou a boca para a verdade quando se refere a um bigodudo, mostrando que é pelos homens de bigode que ele sente maior atracção. Logo vi que o Bolsonaro seria o passivo.

"Não vou combater nem discriminar mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater". Vai bater-lhes uma? Tipo "Olha eu aqui a tocar-te uma sarapitola num instante que ficas já satisfeito e paras com essas mariquices de beijo na rua"? É uma estratégia estranha para combater a homossexualidade, mas não vou rejeitar que possa funcionar.

"Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada. Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil (...) matando uns 30 mil. (...) Se vão morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente". Bem, felizmente que o Bolsonaro estava enganado e parece que através do voto será possível mudar o Brasil para pior. Por isso, talvez reste mesmo a violência para combater a violência porque com manifestações e hashtags a coisa parece não ter dado resultado. Serviram mais para tirar selfies para o Instagram do que para tirar votos ao Bolsonaro.

"Se o filho começa a ficar assim meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele". Ora bem, já vi pessoal cujos pais descobriram que eles fumavam e levaram porrada e não mudaram o comportamento. Bem sei que a nicotina é viciante, mas duvido que se porrada não serve para tirar cigarros da boca, sirva para tirar pilas. Diria que quem gosta de pilas gosta mais de pilas do que quem fuma gosta de cigarros. Pelo menos, eu viveria mais facilmente sem tabaco do que sem pipi.

"Eu não corro esse risco (de um dos meus filhos se apaixonar por uma negra). Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu". Acredito que ele não corra esse "risco" porque de, certeza, que os filhos dele são tão racistas quanto o pai. 

"Ninguém gosta de homossexual, a gente suporta". Falso. Os homossexuais gostam bastante de homossexuais e o resto das pessoas suporta os homossexuais como suporta os heterossexuais, porque na verdade a vida é isso mesmo: suportarmo-nos uns aos outros.

"Os grupos fundamentalistas homossexuais querem que os heterossexuais gerem crianças para eles transformarem em gays e lésbicas para satisfazê-los sexualmente no futuro." Faz sentido, da mesma forma que eu gostava que todos os casais gerassem apenas filhas que se transformassem em mulheres safadas e tetudas, mas, infelizmente, não me parece que por muita pressão e campanhas que faça, com mensagens subliminares, a coisa funcione a meu favor. A natureza é que manda em ambos os casos.

"90% desses meninos adotados (por casal gay) vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa com toda certeza desse casal". Como o Bolsonaro usou percentagens nesta frase, toda a gente sabe que é um facto verdadeiro, mas tenho algumas dúvidas sobre como funciona este tipo de prostituição dentro da família. As crianças só recebem mesada se fizerem a cama, lavarem a loiça e sentarem no colo dos pais? E se um casal de homens adoptar uma menina, como é? Garotos de programa? Anda um pai a pagar os estudos dos filhos e ainda vai ter de pagar para fazer sexo com eles? Realmente, as crianças adoptadas são umas ingratas.

"Fui num quilombo [onde atualmente vivem descendentes de escravos] e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Nem para procriador eles servem mais". Sete arrobas são mais ou menos 100 kg e não me parece que seja um peso impeditivo para procriar. Às vezes, quando vejo um casal de gordos de 200 kg penso que ele terá de ter um pénis bastante avantajado para conseguir chegar ao objectivo, mas com 100 kg não me parece proibitivo. Talvez o Bolsonaro lhes tenha pedido para lhe fazerem um filho no rabo e como depois deu negativo no teste de gravidez tenha ficado com essa ideia errada. Já agora, usar a unidade de pesagem "arroba" tem aqui um duplo sentido: por um lado, como era a medida usada para pesar gado, Bolsonaro está, (in)directamente, a chamar animais aos negros; por outro lado, faz algum sentido que ele use esta unidade antiga porque ele tem uma mentalidade que só faz sentido no séc. XV.

Sim, são mesmo frases dele e não de um taxista português. A grande diferença é essa: um taxista que pense desta forma, no máximo decide se vais do aeroporto de Lisboa até ao Chiado passando por Santarém; o Bolsonaro vai ter poder para decidir mais coisas sobre a vida das pessoas. Isto é muito simples: o Bolsonaro é um atrasado mental e quem vota nele porque concorda com estas frases é um atrasado mental ainda maior e um ser humano de merda. Quem vota nele porque acha que é o menos mau dos candidatos, parece-me que é só burro e desinformado.


***ALERTA***

A 2ª temporada do Falta de Chá está disponível neste link. Se gostam de sketches de comédia, façam o favor de ver, dar o vosso feedback e, caso seja positivo, partilhem com os vossos amigos. Obrigado!

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3 de outubro de 2018

Trabalhar no atendimento ao público não deve ser fácil



As grandes mentiras do mundo são "Deus existe", "O tamanho não importa", "É só a pontinha." e "O cliente tem sempre razão". Não tem. Os clientes são pessoas e, como tal, a maioria é atrasada mental. Se juntarmos a isso o facto de os clientes pensarem que estão num patamar superior aos empregados de uma loja ou serviço, temos uma espécie de atraso mental ao quadrado.

Como escrevi há quatro anos, sim, há muita gente a atender ao público que tem a simpatia e a educação de uma banana madura, mas nem consigo imaginar o que será ter de lidar com clientes, igualmente antipáticos, o dia todo. Faz-me confusão pessoas que não dizem bom dia, se faz favor e obrigado. Para mim, são a santíssima trindade da boa educação e quem não tem essas palavras no vocabulário não pode ser boa pessoa, mas nem é disso que vou escrever: vou falar dos chico-espertos. Sim, tal como existe o empregado chico-esperto, eternizado num sketch dos Gato Fedorento, também existe o cliente chico-esperto que somos todos nós, pelo menos uma vez na vida. Apesar de ser cada vez mais raro, já que está tudo a tornar-se gourmet, fashion, trendy, do bairro, orgânico, biológico e gluten free, ainda é possível encontrar o fenómeno raro que abre um buraco no contínuo espaço-tempo que é quando, numa tasca, o empregado e o cliente são, ambos, chico-espertos. É vê-los ali, a degladiarem-se com comentários parvos a ver quem tem mais graça. É um avistamento bonito, mas quase tão raro como a aurora boreal no Feijó.


Vejamos alguns casos de chico-espertismo por parte de clientes:

Estava na fila do supermercado e o cliente da frente, ao ver que um produto não estava a passar no leitor de código de barras, arregaça as mangas e diz "Se não passa é porque deve ser de borla, ah ah ah.". A empregada riu-se e disse "Pois, se calhar é". Pela lentidão dela devia ser o primeiro dia ali e, talvez por isso, tenha achado piada ao comentário perspicaz do humorista de fila de supermercado. Daqui a um mês, quando tiver ouvido a mesma graçola quinhentas vezes, talvez revire os olhos e olhe para um colega em tom de cumplicidade como quem diz "Outro otário com a mania que é engraçado". Quando algum artigo não tem preço, também existe 90% de probabilidade de o cliente dizer "Se calhar é grátis!" como se fosse um génio da comédia de improviso lembrando-se de algo que nunca ninguém disse. São as mesmas pessoas que comentam no Facebook com "Mete mais tabaco" e "Troca-me isso por miúdos" sempre que vêem uma piada com pedofilia. Já vi com estes olhos que a terra há de comer o seguinte diálogo:

- Pode inserir o cartão - diz a rapariga da caixa.
- Posso inserir? eh eh eh - responde o cliente com uma piscadela de olho malandra.
- O cartão... - diz a rapariga com ar de poucos amigos.
- Ah, é pena, podia ser outra coisa.
- Podia se o senhor não fosse feio. Quer contribuinte na factura?

Fatality! Guardo com carinho nas minhas memórias a cara do palerma quando olha para mim, estupefacto e à espera de solidariedade masculina, e digo "Foi justo". Enfim, andaram a mudar a formação dos caixas de supermercado para dizer "inserir" em vez de "enfiar" e mesmo assim não surtiu efeito.

Outra chico-espertice: "Isto está muito caro.", frase que em 99% dos casos é dita por gordos que se queixam do preço das bolachas de chocolate com pepitas de chocolate e cobertura de chocolate e/ou por clientes que ganham mais do que o empregado que os está a atender. Sim, as coisas estão caras e toca a todos, mas se tens um iPhone XS não te podes queixar do preço do bife do lombo a uma pessoa que ganha pouco mais do que o ordenado mínimo e ainda por cima tem de te aturar.

Se nos supermercados e lojas o cliente chico-esperto é uma espécie bastante presente, é nos bares e discotecas que estão em maior abundância. Pensam que são os únicos a chegar ao pé do empregado, pedir uma caipirinha e dizer "Mas pode carregar na cachaça eh eh eh" ou pedir um qualquer licor e dizer "Bem servido, se faz favor". Se o empregado não acede ao pedido, o cliente chico-esperto atira sempre um "Vá, que o chefe não está a ver" e, muitas vezes, leva com a resposta "Ai está, está que sou eu" e fica um silêncio estranho. É por causa desta gente que tantos bares usam medidor e lixam todas as outras pessoas que sabem o momento certo para pedinchar. Só os empregados de bares e restaurantes é que sofrem com isto já que ninguém diz ao quase-extinto senhor da bomba "Essa gasolina bem servida, se faz favor!". Outra pergunta parva que muitos clientes fazem é aquando da anotação do pedido: "Isto é bom?", perguntam, como se o empregado fosse mesmo dizer que não é bom e assumir que o restaurante onde trabalha tem coisas no menu que não prestam.


É como perguntar se a mousse é caseira: toda a gente sabe que é sempre caseira, na medida em que o pacote de mousse instantânea foi preparado em casa.

"Não faz uma atenção?" Uso esta muitas vezes, mas apenas e só porque - raramente - funciona. Não o faço no Pingo Doce, claro, a pedir uma atenção quando vou comprar um pacote de preservativos, lixívia, papel de celofane e uma courgette, só para o empregado ficar baralhado. No entanto, em algumas lojas de roupa já saquei aquele desconto maroto de 5% só porque decidi armar-me em esperto, mas percebo que seja chato um empregado estar sempre a ouvir isto como se fosse ele o dono da loja e os preços fossem escolhidos aleatoriamente consoante o sorriso bonito do cliente. Nos bares, faz sentido, bebes cinco imperiais tens todo o direito de arriscar a oferta da meia dúzia e se o empregado for dos bons, no mínimo, oferece-te tremoços.

Por tudo isto, muito obrigado a toda a gente que atende ao publico por nos aturarem, mas tentem não ser antipáticos depois de levarem com estes chico-espertos porque quem vem a seguir não tem culpa.
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17 de setembro de 2018

Pesadelo recorrente: ainda não acabei o curso



Tenho dois pesadelos recorrentes. O primeiro é que matei alguém, escondi o corpo e vivo em constante pânico de ser preso. O segundo, muito mais aterrador, é quando sonho que ainda me faltam cadeiras para acabar o curso.

O cenário é sempre o mesmo: vou à secretaria pedir o diploma e dizem-me que, afinal, ainda me faltam cadeiras para terminar o curso. Neste momento, instala-se o pânico e penso "O quê? Eu já nem sei estudar, há cadeiras que fiz sem saber como e só tenho a explicação da providência divina e agora ainda tenho mais para fazer?". O sonho torna-se num pesadelo e o desespero faz-me ponderar o suicídio já que nunca é uma cadeira simples de encher chouriços! É sempre um dos cadeirões com projectos complicados ou daquelas que passei apenas porque os planetas estavam todos alinhados e o professor tinha recebido um felácio e estava de bom humor. No meu caso, que tirei engenharia informática, costuma ser a cadeira de Sistemas e Sinais ou de Redes de Computadores que, ironicamente, me foram ensinadas por professores que só teriam felácios a troco de compensação monetária, o que pode explicar a grande concentração de prostituição à volta do Instituto Superior Técnico.

Há quem recorde com saudade os tempos de faculdade e há quem tenha estudado no IST. 

São dois grupos cuja única intersecção são os nerds da primeira fila que iam à segunda data de exame fazer melhoria porque só tinham tido 19. Já escrevi várias vezes sobre a minha experiência nessa bonita instituição e, por isso, não me vou alongar muito e quem quiser ler ou reler ficam aqui estes links - A vida de um estudante de engenharia; Ser engenheiro informático tem glamour; O que realmente aprendi na universidade - mas resumindo: aprendi muito e teve bons momentos, mas o mesmo dirão os soldados que estiveram no Iraque.

Voltando ao pesadelo recorrente. Quando acordo, empapado em suor e virado ao contrário na cama de tanto espernear, ainda fico, durante uns minutos, naquele limbo entre o sonho e a realidade em o meu cérebro debate consigo mesmo, tentando acordar a parte responsável pela lógica que está desligada durante o sono REM, que é quando sonhamos. O meu cérebro tem este diálogo quando acordo desde pesadelo:

- E agora? Como é que vou acabar o curso?
- Ó burro, já acabaste o curso há oito anos!
- Não acabei, não, falta-me uma cadeira que o senhor disse.
- Foi um sonho!
- Será? Parecia mesmo real.
- Foi, já nem trabalhas em informática.
- Não?
- Não, agora escreves merdas na Internet e fazes stand-up, mesmo que não tivesses acabado o curso, se tudo correr bem já não precisas dele.

Ufa. Apercebo-me que foi tudo um sonho e há uma sensação de alívio e paz que só deve ser comparada à de vermos a nossa amante a dar à luz um filho que dizia ser nosso, mas que vai-se a ver e nasceu com traços de índio Cherokee.

Falei com um especialista de interpretação de sonhos e ele disse-me que este pesadelo recorrente significa que não gostei do curso. Pedi o meu dinheiro de volta e dei-lhe uma chapada na moleirinha por estar a constatar o óbvio. No entanto, gostei muito do meu 12º ano e também costumo sonhar que ainda não o acabei e nunca é agradável: apercebo-me tarde, quase que como se me esquecesse que ainda o tinha para fazer e quando dou por ela já faltei a muitas aulas e testes e já não o consigo acabar. Andei na secundária D. João V na Damaia, o que também pode explicar muita coisa. Talvez quando tiver 70 anos, estes pesadelos se tornem em sonhos nostálgicos porque a morte está mais perto. Ficou profundo, agora. Chupa Chagas Freitas.

Ao contrário do que seria de esperar, a recorrência deste pesadelo tem vindo a aumentar, e diria que o meu inconsciente decide fazer-me uma trollagem, pelo menos uma vez por mês. Talvez seja porque no último ano todas as semanas tenho de ir ao IST gravar o podcast Sem Barbas Na Língua; dizem que não devemos voltar a um sítio onde fomos felizes e por isso não há problema. Não me interpretem mal, gostei de lá estudar, mas só porque já não estudo lá, percebem? Até sinto alguma falta de aprender coisas novas a fundo e até me meteria num curso novo se tivesse tempo para isso, mas a perspectiva de ter de tirar novamente engenharia informática causa-me arrepios que descem pela espinha.

Como é óbvio, sendo uma pessoa minimamente inteligente, não acredito que podemos ver o futuro nos sonhos, caso contrário já teria feito uma orgia com as modelos da Victoria's Secret e a minha namorada nem tinha ficado chateada, mas a verdade é que no dia que fui à secretária pedir o meu certificado de habilitações, uns três anos depois de ter entregado a minha tese de mestrado (no primeiro trabalho que tive não me pediram provas de ter acabado o curso porque eu transmito muita idoneidade), o rapaz que lá estava deu uma olhadela para os meus dados no computador e disse-me "Ainda lhe faltam créditos para terminar, certo?". Devo ter ficado pálido e belisquei-me para ter a certeza de que não estava a sonhar. Seguiu-se esta conversa:

- Hum... acho que não, até tenho a mais.
- Aqui diz que faltam dez créditos.
- Pois, mas tem de estar mal. - digo, ponderando já o homicídio em massa ou o suborno. - Não há aí um processo de equivalências por causa da confusão de Bolonha?
- Ahhhh, está aqui sim, até tem créditos a mais, é verdade.

Há erros que não se cometem. Uma coisa é trocar o pénis por uma vagina a um paciente que só precisava de tirar uma verruga do ânus, outra é dizer a um aluno - especialmente se ele for do IST - que, ao contrário do que pensava, ainda não acabou o curso.

Isto é cutucar um ninho de vespas com a pila. Os gajos de Columbine mataram 13 pessoas por menos!

Passou, foi giro, rimo-nos, e até lhe sugeri que começasse a pregar esse susto a todos os alunos. É preciso um gajo divertir-se no trabalho, especialmente se esse trabalho for no mesmo local que causa pesadelos a tanta gente. Por isso, já sabem, se vos acontecer, podem estar a sonhar ou pode ser uma partida que eu iniciei. Podem agarrar-se a isso até perceberem que, afinal, ainda vos falta mesmo meio crédito para terminar o curso.
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10 de setembro de 2018

Serena Williams: mau perder ou sexismo?



Estão todos a par da polémica com a Serena Williams? Resumindo: recebeu um aviso por ter recebido instruções do seu treinador na bancada (algo que é ilegal no ténis), depois levou um ponto de penalização por partir uma raqueta no chão e, finalmente, recebeu um jogo de penalização por ter chamado ladrão ao árbitro, entre outras coisas. Ela afirmou que foi por ser mulher e que se fosse um homem não seria tão penalizada. Sexismo ou mau perder?

Será que o árbitro foi mais rigoroso por ela ser mulher? É possível, não digo que não. É possível que um mecanismo inconsciente no cérebro daquele homem branco o tenha levado a ser mais rígido por estar a ser insultado em voz alta por uma mulher negra. Ainda por cima, uma mulher que tem caparro suficiente para lhe acertar o passo, fazendo com que possa ter agido por se sentir inferiorizado. No entanto, talvez tenha sido só porque a Serena infringiu as regras e ele, como árbitro, aplicou a lei como lhe compete. O seu treinador admitiu o erro e o abuso verbal é evidente, exigindo um pedido de desculpas e chamando o árbitro de ladrão.

Se é sexismo, não conseguimos provar, mas o que sei é que se fosse um jogador masculino a gritar e insultar daquela forma uma árbitra feminina, era logo acusado de sexismo e discriminação.

A Serena é uma das melhores atletas de sempre e parte do que a faz ter sucesso é a sua vontade e paixão pelo jogo o que implica extravasar em alguns momentos. Não é o primeiro caso, já havia ameaçado de morte um juiz de linha, dizem, no mesmo torneio e perdido um jogo de maneira semelhante. Ela diz que sempre que vai ao US Open acontece o mesmo, e sendo que joga em casa, se acontece sempre o mesmo, talvez o problema seja dela. Talvez a Serena precise de ser mais serena. Trocadilho muito forte. Não a  condeno pois não sei o que é ser atleta de alta competição e ter de lidar com situações de stress com os olhos postos em nós, por isso desculpo-lhe a atitude até porque podia estar com o período ou com tensão pré-menstrual ou na fase de ovulação. As mulheres têm desculpas hormonais para todas as fases do mês.

As desculpas da Serena são as mesmas que os putos dão na escola primária e cujo argumento se resume a "Mas o Joãozinho já fez igual e não levou reguada". As regras existem para todos e se houve quem passasse incólume noutras situações, isso não é desculpa para fazermos igual. Quando recebi uma multa de excesso de velocidade, também liguei para a polícia e disse "Mas toda a gente anda a mais de 120km/h na autoestrada e nem todos são multados, por isso penso que não mereço a multa. É por eu ter um Clio cinzento? Racista!". A chamada, estranhamente, caiu.

Este árbitro já perdoou situações iguais, várias vezes, a tenistas masculinos? Só se for esse o caso é que poderíamos estar a falar de algum tipo de discriminação e, mesmo assim, todos temos dias em que estamos mais flexíveis relativamente ao comportamento dos outros e isso pode não ter nada a ver com a genitália que apresentam entre as pernas. Partir do pressuposto que é por ela ser mulher é uma vitimização que só prejudica o feminismo. Para haver igualdade temos de nos responsabilizar e assumir os erros. No meio de tudo disto, a vitória da sua adversária, também mulher e negra e com o bónus de ser asiática, ficou ofuscada.

Os gritos de muitas pseudo feministas têm este condão: o de prejudicar as vitórias das outras mulheres que lutam e não se queixam tanto.

Claro que este caso acende a chama dos pequenos Hitlers que habitam nos alter-egos digitais das pessoas. Basta percorrer os comentários de algumas das notícias para percebermos que o racismo e machismo ainda está na moda, especialmente em pessoas com fotos mal tiradas devido à pouca luz que têm na sua caverna. Contudo, sejamos honestos e admitamos que todos os desportos são um bocadinho machistas, até porque os homens são melhores do que as mulheres em em todos os desportos (já vou ser acusado de sexismo por pessoas que ficam com dói-dói com os factos), o que atrai mais espectadores para os desportos masculinos, criando uma discrepância de vários factores, inclusivamente no respeito com que se olha para os atletas. Isto só vai mudar se forem criados desportos ajustados à biologia das mulheres, como por exemplo um triatlo em que depois de correrem têm de arrumar a casa e preparar uma sandes. Ou uma corrida de estafetas em que em vez de passarem um testemunho têm de passar uma cusquice que ouviram no café.

O único sexismo que vejo neste caso é o facto de lhe estarmos a dar atenção. Se tivesse sido um homem a refilar com um árbitro, a notícia passava despercebida, mas vemos uma mulher a levantar a voz e, como não estamos habituados a não ser das nossas mães e namoradas, achamos estranho e decidimos criticar. Se calhar somos todos sexistas, a começar pela Serena que puxa dessa carta para desculpar o seu mau perder.
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4 de setembro de 2018

Madalena Menezes, a nova sensação da Internet



Para quem não conhece, a dona Madalena ficou recentemente "viral", curiosamente em ambiente hospitalar, com um vídeo que publicou no seu Facebook quando, supostamente, foi acompanhar o seu irmão doente, que afinal tinha tido um acidente na mão, que afinal não estava com ela, mas já lá vamos. O vídeo foi visto e partilhado por milhares de pessoas, bem como alguns dos seus vídeos anteriores, onde se percebe, claramente, que a dona Madalena é uma pessoa especial. Uma pessoa que canta e que dança, muito expressiva e que parece, à falta de melhor palavra e num tom não pejorativo, uma tolinha. A Madalena Menezes é a filha da mítica dona Helena que estava de roda de uma fogueira tão linda, glaças a Deuze. Tenho a certeza, ora vejam.

Ao contrário do que se pensa, a linha entre a piada e o bullying não é ténue já que pode existir bullying com muita piada.

Não tenho qualquer problema em fazer piadas com a dona Madalena, mas é um bocado fácil, tal como o é com a Maria Leal, com a diferença que esta expôs o seu trabalho e "talento" na televisão nacional e, por isso, tem de aguentar. No caso da Madalena, parece-me que nem tinha bem noção de como funcionam as redes sociais. A maluquice da senhora não incomoda ninguém, pelo contrário até nos faz rir, embora não seja COM ela, mas com o riso e a viralidade, veio o comburente da redes sociais: o ódio. As ofensas a constatar o facto óbvio de ela parecer meio tolinha foram o lugar comum dos comentários às partilhas do vídeo.

Uma rápida pesquisa pelo seu perfil de Facebook e percebemos que é daquelas senhoras que tem a mesma foto de perfil com cinquenta versões diferentes com molduras e filtros foleiros para todas as ocasiões festivas ou só porque é segunda-feira. Comenta com verborreia de emoji e animações de gatinhos com corações. No fundo, a dona Madalena é um bocado todas as nossas mães. Sabemos que a senhora é tolinha porque se isto fosse uma personagem ao estilo Borat, feita por uma humorista, seria do mais genial que já havia sido feito até hoje e uma, como dizem os YouTubers, mega trollagem ao público português. Infelizmente, não me parece o caso e acho que estamos só na presença de alguém que, para seu bem, não devia ter acesso a um smartphone.

Toda esta viralidade e ofensas em catadupa a uma senhora que não fez mal a ninguém é um fenómeno novo sobre o qual ainda não temos medidas para evitar, seja em jovens sem idade para perceber as consequências, seja em pessoas mais infoexcluídas que nem sabem bem o que estão a fazer com o telemóvel. Acho, sinceramente, que deveria existir um workshop de utilização de redes sociais para pessoas burras tecnologicamente. Se eu mandasse, até haveria licença para usar a Internet, na verdade, mas podíamos começar por um workshop gratuito e disponível para quem quisesse, no qual lhes seria ensinado, em poucas horas, o básico das redes sociais. Esta gente não sabe que se partilhar um vídeo ele não fica restrito ao seu círculo de amigos e facilmente pode extravasar da rede com a funcionalidade de partilha; esta gente não sabe que o vídeo pode ser retirado e colocado noutras redes, como no YouTube e que ficará lá para todo o sempre; esta gente não sabe, muitas vezes, que um comentário pode ser público para todos; esta gente não sabe que o anonimato da Internet é apenas aparente.

Como sociedade, temos uma atracção pela desgraça, uma curiosidade mórbida que partilhamos enquanto espécie: abrandamos para ver se vislumbramos feridos graves no acidente da outra faixa da autoestrada, por exemplo, e acredito ser o mesmo mecanismo psicológico que levou à viralidade da Maria Leal e desta senhora. Dar Internet a esta gente é como dar uma dar uma pistola a um bebé: podem aleijar-se sem terem culpa. Uma coisa são os putos estúpidos que se expõem para ter engagement, esses merecem um bocadinho o bullying, outra coisa é a Madalena que me parece que nem sabe o que isso é. Por muito maluca que ela seja, por muito desequilibro mental que possa ou não ter, mais malucos são os que lhe inundaram as caixas de comentários e lhe pediram amizade para lhe enviar mensagens com ofensas e dizer que devia ser internada e que envergonhava Lousada. Quem se deu a esse trabalho é que envergonha toda a espécie humana.


Este ódio todo pela maluquinha acontece porque as pessoas percebem que ela é mais feliz do que todos nós.

Na sua ingenuidade, ignorância ou distúrbio mental, está sempre a sorrir e não se importa com o ridículo e com o que os outros pensam. Esta liberdade faz dela um alvo a abater por toda a gente frustrada por esse mundo real e digital. Não estou a falar de quem se riu ou fez vídeos a imitar, como os do Herman e outros, ou de piadas ou do que quer que seja no ramo da paródia inofensiva, mas que pode ofender sem intenção, estou a falar dos tais que a foram achincalhar directamente a senhora para o seu Facebook só para se sentirem melhor consigo mesmos.

O irmão da dona Madalena já veio meter-se ao barulho, também em vídeo, dizendo que ela estava a mentir quando disse que tinha ido ao hospital com ele. O senhor tem falta de dentes e de uma mão e, pelos vistos, de parafusos pois já esteve internado por problemas psicológicos. A doença mental não tem piada, mas algumas pessoas com doença mental têm um bocadinho de piada, não vamos estar aqui a mentir. Nem que seja pelo alívio em forma de gargalhada de não sermos nós a passar pela vergonha de termos um vídeo nosso viral na Internet que nos faça parecer malucos. Eu ri-me por imaginar a animação que devem ser os natais daquela família de malucos. Percebe-se pelo último vídeo que a Madalena publicou que o caso a transtornou e nele nem se vislumbra um sorriso tolinho que víamos nos restantes. Parece, até, ter envelhecido dez anos em poucos dias; ameaça processar toda a gente que partilhou o vídeo e ajustar contas com Herman José que fez umas quantas paródias no Instagram. Isto de dizer que vai processar toda a gente prova ainda mais que ela não sabe muito bem como funciona a Internet e, em especial, as redes sociais.

Ela ainda lucrará com isto? É provável. Já foi à televisão, o que para ela deve ser como ganhar o euromilhões, e sou gajo para apostar dinheiro em como algum agente chulo falará com ela para lançar umas músicas. 

Sim, porque pelo que vi de alguns vídeos da dona Madalena a cantar, em termos vocais está muito perto da nossa preguiça desengonçada que dança como se estivesse a ter um ataque epiléptico. Ainda vamos ter notícias da Madalena, garanto-vos, e essas notícias vão chegar em forma de cancro auditivo - podem dizer que leram aqui primeiro esta previsão - e nós vamos ouvir, ver e partilhar, porque adoramos acidentes e desgraça alheia para nos sentirmos melhor com a nossa vida.
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8 de agosto de 2018

Acha que sabe incendiar? Novo reality show!



No ano passado, as televisões descobriram uma nova galinha dos ovos de ouro: os incêndiosNuma altura em que as audiências das televisões baixam devido ao crescendo da Internet - pior ainda na altura da silly season - os canais encontraram uma espécie de elixir da juventude que lhes rejuvenesce o rating. 

Há muitos que os noticiários se tornaram programas de entretenimento, mas por estes dias são uma espécie de espremedor da desgraça alheia e é muito discutível se o fazem em prol da informação ou de outra coisa. Sim, mostrar imagens chocantes pode servir para alertar e consciencializar as pessoas, mas, talvez seja um céptico que não acredita na humanidade, parece-me que não é aí que está o ganho.

Este paradigma acontece porque os directores de informação ouvem a expressão "Incendiar as redes sociais" e decidem usar o fogo para combater o fogo na luta pelas audiências e relevância.

Tomando como exemplo o incêndio de Monchique, eis como condensar toda a informação relevante e ocupar cerca de dois minutos de telejornal:

O incêndio em Monchique continua activo, temos mais de 21 mil hectares ardidos, 230 pessoas deslocadas das suas casas e 32 feridos, um com gravidade. Estão cerca de 1400 operacionais no terreno, com 446 viaturas e 9 meios aéreos. Pode ajudar os bombeiros através destas entidades e não mande beatas da janela do carro. É isto. Agora vamos ao desporto.

Em vez disto, são 24h de cobertura dos incêndios, com drones,  a melgar a população que tem mais do que fazer do que responder a perguntas "Então, este fogo é chato, não é?", ainda por cima quando a melhor resposta de sempre sobre a perigosidade dos incêndios já foi dada há uns anos por aquele senhor que tinha de abalar para uma consulta às 17h. Está feito, foi atingido o pináculo das respostas, não é preciso perder mais tempo pois nunca haverá melhor. São colocados enviados especiais no terreno com cadáveres em pano de fundo como já vimos o ano passado. Ouvimos comentadores - daqueles que são especialistas em tudo - a explanar as causas dos incêndios, as melhores formas de prevenção e, sobretudo, sobre quem tem mais culpa, já que cada canal tem o seu comentador de serviço que transforma a desgraça alheia em arma de arremesso na sua agenda política e que tem tanta credibilidade para falar de incêndios como eu para falar de renda de bilros.

Marcelo aparece a dar abraços; Costa aparece em fotografias encenadas; a população reza e deixa as suas orações. Lamento, mas em termos de extinguir incêndios, tudo isto tem menos efeito do que cuspir-lhes.

Os canais de televisão devem estar todos à espera das primeiras vítimas mortais para o clímax da audiência, já com as músicas tristes escolhidas para a montagem com imagens da devastação. Devem ligar, de cinco em cinco minutos, para os hospitais onde estão as vítimas a perguntar "Já morre... já tiveram alta?". Tendo tudo isto em conta, parece-me que as televisões ainda podiam aproveitar melhor este fenómeno, utilizando a temática dos incêndios em diferentes formatos que ainda não foram explorados. Deixo alguns exemplos:

Achas que sabes incendiar? - Um talent show dedicado a pirómanos para eleger o melhor entre os portugueses. Podia ser ao género do The Voice em que os jurados estão de cadeiras voltadas, mas em vez de escolherem o candidato através da audição, seria através do cheiro a queimado.

Na casa de um pirómano - Poderia ser feito com o vencedor do "Achas que sabes queimar?" e daria a conhecer o dia-a-dia de alguém que pega foto a matas como hobbie ou profissão, já em que em muitos dos casos é um negócio lucrativo. Como é a rotina? Qual a melhor hora para deitar fogo? Gasolina ou aguardente? Como é que um pirómano lida com o facto de os amigos nos ficarem sempre com os isqueiros que pedem emprestados?

Casa dos Incêndios ou Love on Fire - Os participantes tinham de pegar fogo à mata à volta da casa mais vigiada do país e o que conseguisse queimar mais hectares ganhava. Depois, iam fazer presenças para a ala de queimados do hospital.

Portugal got Lighter - Este concurso não se destinaria a pirómanos profissionais, mas sim a encontrar diamantes em bruto. Os concorrentes seriam desafiados a atear fotos das maneiras mais criativas, seja batendo duas pedras ou cuspindo fogo pelo rabo depois de um workshop no Chapitô. Quem tem churrasqueiras parte em vantagem, mas seria aberto a todos.

Todos estes programas teriam um número de valor acrescentado, ao género dos 760, em que as pessoas ligavam e apostavam em qual o Concelho que mais irá arder durante o verão. O número da sorte serviria para arriscar o número de mortos.

Se é para explorar os incêndios em benefício das audiências, então que se assuma e se inove. Já ninguém pode com notícias em loop que não acrescentam nada e com comentadores de algibeira. RTP, SIC e TVI, pensem nas minhas sugestões. À CM TV nem é preciso apelar que de certeza que já estão a ponderar algo do género. 
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