23 de outubro de 2017

Mulher adúltera merece porrada, segundo um juiz



Um juiz do Tribunal da Relação do Porto desculpou violência doméstica invocando que o adultério da mulher era uma forte atenuante e que o marido agiu por estar deprimido e com a honra denegrida. Podemos ver aqui parte do documento que depois vamos analisar em detalhe.


1. Não é. É um dói-dói no ego, mas depois passa. Normalmente, o parceiro traído também tem culpa no cartório até porque numa relação perfeita ninguém trai e para haver uma relação perfeita têm de ser dois a tentar. E, segundo as estatísticas, é provável que o homem também já a tivesse traído alguma vez. 

2. Facto; e que boas sociedades que são, embora muitas delas estejam a ficar desvirtuadas. Na Arábia Saudita, por exemplo, agora as mulheres até já podem conduzir. Parece que lhes estão a dar as ferramentas todas para serem adúlteras. Ninguém vai ter com o amante de autocarro, como toda a gente sabe. Por esta ordem de ideias, a mulher ter um orgasmo também é um atentado ao pudor, já que existem sociedades em que a mutilação genital feminina e prática comum.

3. Bem sei que Deus é o chefe de todos os julgadores, mas um juiz citar a Bíblia faz tanto sentido como um engenheiro civil citar "Os três porquinhos". Na Bíblia, também podemos ler que Jesus transformou água em vinho algo que me parece que este juiz gosta bastante ao pequeno-almoço. Na Bíblia, também podemos ler que não se deve cobiçar o escravo do vizinho, numa bonita lição de moral que nos diz que nos devemos contentar com o que temos. Se o escravo do vizinho é mais robusto, temos é de alimentar melhor o nosso e não invejar o outro. Um juiz invocar a Bíblia num estado laico faz tanto sentido como um médico que abusa das pacientes em coma invocar a "Branca de Neve" e a "Bela Adormecida" como desculpa.

4. O saudosismo deste juiz relativamente aos tempos em que ainda cagávamos todos em penicos. 1886 foi, sem dúvida, o melhor ano! Podia matar-se as gajas badalhocas à vontade; podia espancar-se pretos com uma marreta; podia mandar-se gays para a fogueira. Bons tempos, sim senhor. Cheira-me que este juiz devia ter ido para taxista. 

5. Claramente, este juiz já levou com um par de cornos no passado e está a descarregar toda a sua honra ferida nesta senhora. Primeiro, não são só as mulheres desonestas que traem, até porque quase toda a gente trai. Faz parte, somos animais e há quem num momento de fraqueza ceda ao quentinho que sente nas virilhas. Verdade que a sociedade condena mais o adultério feminino do que masculino: um homem varre uma residência de estudantes e é um garanhão; uma mulher pesca por arrasto duas minhocas na mesma freguesia e é uma puta. No entanto, pensava que os juízes não se deixavam levar pelo que a sociedade pensa, mas pelo que a lei diz e, que eu saiba, na lei somos todos iguais e ambos os adultérios são igualmente graves ou não são graves de todo e fazem parte da vida. Alguém vigie a mulher deste juiz porque me parece que ele está a levar problemas pessoais para o trabalho e a dar um sinal à mulher de que, não tarda, dar-lhe-á com o martelo na nuca. Imagino a mulher deste juiz a ler o acórdão e a pensar «Ai se ele descobre que ando a dançar o funaná no colo do Wilson vou apanhar no focinho!».

6. Não foi. Até porque o homem agrediu a mulher com uma moca com pregos! Se tens uma moca com pregos és um tipo especial de pessoa e não acredito que tenha sido com a depressão de ter sido traído que decidiu inscrever-se num workshop de trabalhos manuais e, enquanto os outros fizeram cinzeiros e pratos de cerâmica, fez uma moca com pregos. Vou agora fazer de advogado do diabo e dizer que é um facto que ele ter sido traído é uma atenuante. Nunca é desculpa, mas é atenuante. É mais compreensível que um homem bata numa mulher porque ela o trai do que por ter deixado cozer a gema do ovo estrelado. Ambos os casos são gravíssimos, atenção, e nenhum deles justifica a violência, mas é uma atenuante embora não suficiente para ilibar ou reduzir pena. No entanto, podemos concordar que bater numa mulher porque o Benfica perdeu é pior do que por ter chegado a casa e a ver na cama com o Zé da mercearia que lhe vende os chouriços. Ambas graves, mas uma mais "compreensível" - à falta de melhor palavra - do que outra.

7. Ora bem, tudo isto faz com que o agressor tenha um bocadinho menos de culpa, diz o juiz. A senhora foi agredida pelo marido e sequestrada pelo amante, por isso ela é que é culpada do mau gosto que tem para homens. Óbvio. É assim tão errado dizer que a mulher que apanhou no toutiço tem um bocadinho de culpa? Só um bocadinho? Não estou a dizer que mereceu e que o homem merece qualquer tipo de perdão, mas será que ela não tem um bocadinho de culpa? Hum? Um bocadinho, só? Já a todos os homens apeteceu dar uma chapada à padrasto na namorada ou mulher quando elas ficam de trombas e dizem «Não se passa nada...». Claro que já! Não o fazemos porque somos pessoas civilizadas, mas que já nos apeteceu várias vezes, lá isso já. Tal como elas a nós quando deixamos o tampo da sanita levantado. Faz parte de um casal haver momentos de tensão em que o amor, a educação e o respeito seguram as palavras e os actos, mas há uns que não conseguem e, seja porque razão for, não devem ser perdoados.

Eu posso dizer isto tudo porque sou um palerma que escreve na Internet, mas um juiz não pode nem deve nunca passar a culpa para uma vítima de agressão, numa situação destas. Ao fazê-lo, está legitimar todos os anormais que decidam bater nas namoradas ou mulheres porque viram uma troca de mensagens com um colega de trabalho, entre outras coisas, já que para muitos homens inseguros qualquer desculpa é boa para se sentirem mais machos. A meu ver, este juiz, com estas declarações, está a dar uma atenuante caso a mulher e vítima em questão decida atropelá-lo na rua. Teria desculpa? Não, mas era uma atenuante e, na minha opinião, só merecia uma reprimenda simbólica porque o senhor doutor juiz mereceu um bocadinho.


PS: Mulheres adúlteras são bem vindas ao meu espectáculo cujos bilhetes estão à venda neste link. Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro já esgotaram. Há uma data nova em Faro e os bilhetes vendem-se neste link e nos locais habituais.
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27 de setembro de 2017

A vida c'um sócio escolheu



Da Buraca directamente para LISBOA, PORTO, AVEIRO, TOMAR, COIMBRA, GUIMARÃES, FUNCHAL, BRAGA, PORTALEGRE e arredores! É com grande entusiasmo - e cólicas de angústia - que anuncio o meu primeiro espectáculo a solo de STAND-UP COMEDY (e outras coisas).


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Quando, há cerca de 3 anos e meio, criei esta página e comecei, uns meses mais tarde, a experimentar stand-up comedy, estava muito longe de imaginar que chegaria a este ponto em que subiria a palco sozinho para, durante mais de uma hora, tentar fazer-vos rir. Sempre fui o miúdo tímido que desviava os olhos da professora quando ela perguntava quem queria ir ao quadro. Sempre fui o miúdo introvertido que corava ao ler em voz alta para a turma e que tremia com a folha na mão quando tinha de fazer uma apresentação. Continuo a ser esse miúdo e, sinceramente, não sei porque é que faço isto. Por masoquismo não é que nem na cama gosto disso. Pelo dinheiro também não. Acho que é porque gosto de ver as pessoas a rir e o som do riso a ecoar numa sala (e o dinheiro também dá jeito, claro). Faço para me desafiar. É o meu bungee jumping, sabendo que também terá altos e baixos, mas que no fim, se tudo correr bem, sairei de lá vivo e a querer fazer outra vez. Em Agosto, mal cheguei de férias, fui fazer stand-up em Faro e no sábado, depois de actuar, dei por mim a dizer «Amanhã acabam as férias.». Nem me lembrei que já tinha trabalhado no dia anterior e foi aí que percebi que finalmente estou a fazer aquilo que gosto que é escrever humor e interpretar o que escrevo em vários formatos. Nem senti que fosse trabalho, embora o meu medo de falhar e o meu cagaço de estar em palco me levem a trabalhar muito e a preparar-me ao máximo para diminuir as hipóteses de passar vergonha. Por isso, uma das razões pelas quais tenho escrito menos na página é para ter tempo para me dedicar a isto ao máximo para que seja um espectáculo diferente, com vários momentos que podem falhar, mas que se funcionarem farão a diferença. O que é que isto vai ter:

- Vai ter stand-up. A parte do comedy depende se vocês se rirem ou não.
- Vai ter momentos de hip hop para mostrar que um branco da Buraca sem qualquer flow ou ouvido musical também pode ser rapper. Se o Tony pode ser músico, qualquer um pode.
- Vai ter um momento de Doutor G ao vivo que ainda não sei bem como vai ser. São parvos o suficiente para ir a palco ter uma consulta ao vivo?
- Vai ter um momento Coninhas Gonna Conate onde vou premiar os melhores haters.
- Outras cenas.

Num país que trata mal o stand-up comedy onde muitos donos de teatros não querem ter por acharem que não é digno dos seus espaços pseudo-intelectuais e eruditos, onde muitos donos de bares acham que pagar 20€ e uma imperial é suficiente porque só vais contar umas anedotas e que nem de microfone precisas porque o espaço tem bom som, resta ter esperança que vocês querem ver isto e que vão levar amigos. Sem a vossa ajuda será impossível isto correr bem. Espero que partilhem, identifiquem os vossos amigos e ajudem a espalhar a mensagem porque o Facebook pede-me para meter 1000€ para conseguir chegar às quase 300 mil pessoas que têm like na página e eu não tenho pais ricos. Numa altura em que as televisões pouco ou nada apostam no humor e num mundo online onde o conteúdo é gratuito, os espectáculos ao vivo são uma das únicas formas de se viver disto, especialmente quando se tem um tipo de humor que tenta arriscar e ao qual a maioria das marcas não tem coragem para se associar com medo de quem fica ofendido por tudo e por nada. Infelizmente, começo a perceber que ter opiniões é uma má gestão de carreira, mas sem elas não fazia sentido para mim. Por isso, isto é entre mim e vocês, sem intermediários nem chulos, e o vosso feedback é que interessa e me motiva a continuar. Não vos posso devolver o dinheiro caso vão e não gostem, mas prometo dar o meu máximo para fazer valer os 12€ dos bilhetes que estão à venda nos locais habituais e na Ticketline.


Obrigado a todos os que seguem o que vou escrevendo e me ajudaram a chegar até aqui.

PS2: Já sei que me vão perguntar «E Leiria?», «E Viseu?», «E Algarve?», e «Moimenta da Beira?», mas para já estas são as únicas datas previstas. Há outras cidades em vista, mas ainda estou à espera de disponibilidades por isso não prometo nada. Gostava de ir a todo o lado onde há gente que quer assistir, mas infelizmente é impossível, por isso se puderem vão a uma das outras cidades assistir. Já agora, deixem nos comentários a cidade onde gostariam que o espectáculo passasse que isso pode ajudar a desbloquear espaços e a definir prioridades na agenda.
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24 de setembro de 2017

Apalparam a minha namorada no metro



Vendo que a Joana Amaral Dias propôs uma zona exclusiva para mulheres nos transportes públicos, para evitar o assédio, perguntei à minha namorada se já tinha sido apalpada no metro. Ela respondeu-me: «Fui uma vez.» Achei nojento e senti repulsa! Não percebo que tipo de homens andam no metro que só apalparam a minha namorada UMA vez! Uma única vez?! São todos cegos ou quê? Ou por ela ser tão gira não a apalpam por acharem que não têm qualquer hipótese? Andam os homens deste Portugal a descer-lhe a autoestima para depois ser eu a lidar com as inseguranças dela? Enfim, os homens são todos uns porcos.

A Joana Amaral Dias sugeriu esta medida só para mostrar que é gostosa. «Vejam lá que eu sou apalpada tantas vezes diariamente que preciso de uma carruagem só para mim!». É como quando os homens dizem, casualmente, numa conversa de primeiro encontro, que não usam preservativo porque lhes aperta muito, tentando dar a entender que são donos de um pénis de calibre considerável. Normalmente é treta e não gostam de usar preservativo porque, não tendo volume, perdem-no dentro da parceira.

Embora não concorde com esta medida, penso que pode trazer bastantes vantagens, desde que a zona exclusiva para mulheres nos transportes não seja ao volante.

Desde logo: o facto de um gajo não ter de ceder o lugar uma mulher grávida ou a uma idosa; não ter de apanhar aquelas pitas histéricas que falam alto sobre assuntos sem interesse nenhum «Miga, viste o que a Constança meteu no Insta? Uma foto como Bernardo! C'horror, ela não sabe que ele andou enrolado com a Matilde lá na Católica?»; depois, não tenho de apanhar com aquelas mulheres que se enchem de perfume que cheira a veneno de matar mosquitos; etc. Pensando bem, começo a simpatizar com esta medida... 

Vamos por pontos: um homem que apalpa uma mulher no metro é um atrasado mental que merecia ter um diabo da Tasmânia a roer-lhe os testículos até chegar à próstata; um homem que assedia verbalmente uma mulher, especialmente se ela for menor, é também merecedor de uma chapada à padrasto na garganta. Nisso estamos todos de acordo! No entanto, os homens que fazem isso são uma minoria. Por exemplo, nunca apalpei ninguém e já fui apalpado por um gajo no metro e em discotecas várias vezes, tanto por homens como por mulheres. Sou mais apetecível do que a Joana Amaral Dias que, pelos vistos, só é apalpada por pessoas de um dos sexos. 

Uma vez, na discoteca, estava a dançar e dei um passo para trás, encostando-me, sem ver, a uma rapariga. Pedi desculpa, mas ela virou-se a pedir satisfações e a dizer que eu a tinha apalpado. Calmamente, disse-lhe que nem a tinha visto. Ela insistia e empurrava-me com as mãos e mantive a calma e disse-lhe, novamente, que não a tinha apalpado. Ela começou a gritar e a esbracejar que nem uma arara epiléptica até que cheguei ao meu limite e disse-lhe «Olha bem para ti... tomara tu.». Ficou ofendida porque percebeu que eu tinha razão e virou-me as costas. Não é que eu seja muito lindo, mas a rapariga era um 8, numa escala de 0 a 100. A minha namorada estava ao meu lado e ainda rematou «Olha bem para ti e olha bem para mim, achas que ele precisa de te apalpar?». Fatality! Flawless victory! A autoestima daquela rapariga ficou mais de rastos do que um paralítico atrás do ladrão que lhe roubou a cadeira de rodas. Este episódio serve só para mostrar que é preciso ter cuidado em julgar os homens todos da mesma forma porque ainda há muitos que não apalpam mulheres do nada e que meter esses no mesmo saco só faz com que se tornem umas bestas como eu.

Temo pelo dia que em um homem não pode olhar ou falar com uma mulher sem pedir autorização à Câmara Municipal e que isso faça com que as mulheres fiquem encalhadas como as que apoiam este tipo de medidas.

Ando confuso com a esquerda no tocante a estes assuntos de igualdade de género. Por um lado, vemos o crescimento de uma facção que diz que o género não existe e que o masculino e feminino são criações culturais que deviam ser abolidas e que somos todos iguais biologicamente; por outro, vemos cada vez mais uma luta por espaços privados para mulheres e por quotas em todos os trabalhos (menos nas obras e no transporte e montagem de móveis do IKEA). Esta gente tem de se decidir! Não podem ser as duas coisas! Ou o género não existe e temos de estar todos misturados - incluindo retirar as categorias masculino e feminino dos Jogos Olímpicos e as mulheres nunca mais cheirarem uma medalha - ou existem diferentes géneros e vamos segregar e discriminar positivamente o mais desfavorecido a ver se isto vai ao sítio. Não gosto de nenhuma das alternativas, mas se tiver de escolher vou mais pela primeira, já que assim os balneários dos ginásios serão mistos para que, como homem branco heterossexual que sou, possa objectificar mulheres à vontade.

É um problema o assédio nos transportes públicos? Não sou a pessoa indicada para responder a essa pergunta já que sou homem e, como tal, menos exposto a isso, mas acredito que seja. Acredito que a maioria das mulheres seja apalpada e oiça comentários ordinários de homens mentecaptos. Faz-me mais sentido tornar obrigatório o ensino de Krav Maga a todas as mulheres ou dar-lhes um spray pimenta para a mão. Assim, sempre que as apalpassem, elas poderiam dar um correctivo no homem e educá-lo a não fazer aquilo novamente. Com a separação proposta, os anormais vão continuar a existir, mas com menos oportunidades de o ser. Isto é como gente feia que é fiel: não vale de nada. O problema é real, mas temo que a segregação não seja a solução até porque tenho algumas dúvidas relativamente a esta medida:

Partindo do princípio que no metro esta separação seria feita por carruagens, como é que se controlava? Um guarda que apalpava zonas genitais à porta de cada carruagem? Uma câmara com reconhecimento genital à qual tinhas de mostrar a zona das virilhas? Ou vamos acreditar que as pessoas iam respeitar as leis? Parece-me absurdo pensar que homens que apalpam mulheres incautas fossem respeitar um sinal de proibido. Como se lidava no caso de uma lésbica safadona andar a apalpar o mulherio todo? E as mulheres podiam ir para a zona geral ou era exclusiva a homens? Se pudessem seriam chamadas de promiscuas pelas outras que preferem a segregação criando assim uma maior clivagem entre as próprias mulheres? E nos autocarros? Quem ficava com os bancos de trás que têm uma carga história de segregação tão grande? Os homens? E depois quando eles tivessem de vir para a frente para sair não iriam aproveitar para se roçar tudo aquilo que não tinha conseguido durante a viagem? Estou só a fazer perguntas antes de decidir se essa medida é parva ou tem potencial. Estou a gozar, é claro que é parva. Enfim, não era de esperar que a Joana Amaral Dias soubesse qual é o caminho certo já que ela, como qualquer mulher, tem um péssimo sentido de orientação.
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21 de setembro de 2017

Para a minha mãe tudo fazia cancro



As mães nunca precisaram de grande poder de argumentação pois bastava aquele olhar de quem tenta matar cabras com o olhar para que obedecêssemos, sem questionar a autoridade vigente lá de casa. Até os nossos pais sabiam que quando lhes pedíamos alguma coisa única resposta certa era «Já perguntaste à tua mãe?». Os homens mandam no mundo, mas as mulheres mandam lá em casa! Os primeiros não têm feito um grande trabalho no seu papel, mas temo que se fossem as mães a mandar no planeta vivêssemos numa ditadura em que todas as esquinas estão revestidas a borracha e onde não havia referendos, já que as mães têm sempre resposta a todas as perguntas. Lembro-me de ser criança e tentar enveredar por um encadeamento infinito de "porquês", a tentar contra-argumentar, e chegar sempre a três resultados possíveis como alegações finais da minha mãe:

- Porque sim
- Porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Porque faz cancro.

O fluxo de conversa era mais ou menos este:

- Posso fazer uma tatuagem do Bolicao?- Não. Isso faz mal.
- Faz mal porquê?
- Porque sim.
- Tu dizes que porque sim não é resposta!
- Faz mal porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Mas porquê?!
- Porque faz cancro.

Para a minha mãe, tudo fazia cancro quando eu era pequeno: eram as tatuagens do Bolicao; os chupa-chupas Push Pops; os chupões autoinfligidos nos braços; tirar as crostas das feridas; roer as peles dos dedos ou as unhas; coçar borbulhas das melgas até fazer ferida; comer o queijo que saía da tosta e ficava mais queimado; passar muito tempo em frente ao computador; beliscões; escrever a caneta nas mãos ou nos braços; engolir pastilhas; meter o dedo no nariz; ver televisão de perto; ver televisão de longe e esforçar os olhos; ouvir música muita alta com auscultadores; olhar directamente para o sol; respirar o cheiro da gasolina na estação de serviço; mergulhar de chapa na piscina; comer torradas queimadas e não usar protector solar, idem. Sei que nestas últimas até é verdade, mas na altura era difícil acreditar e, tal como na história de Pedro e o Lobo, desconfiava que se uma era mentira, as outras todas também seriam, mas, pelo sim, pelo não, fazia sempre os trabalhos de casa, não fosse ficar com um tumor no cérebro. Quando comecei a chegar à idade em que tinha a mania que era esperto – idade em que ainda me mantenho – dizia «Roer as unhas faz cancro? Então para que é que fumam?», fazendo alusão à hipocrisia de nessa altura ambos os meus pais fumarem e darem-me conselhos oncológicos sobre os perigos de tirar crostas e roer as unhas dos dedos dos pés. Em vez de perceberem que estava ali um potencial campeão mundial de contorcionismo, preferiram cortar-me as asas e as unhas.

Nessa altura, o cancro não metia muito medo já que eram, ou pareciam, poucas as pessoas a receber a sua visita. Ia-se sabendo de um ou outro caso, mas nunca muito próximo para se ter a certeza se a Dona Almerinda tinha morrido por fumar durante 70 anos ou por fazer demasiadas tatuagens do Bolicao. Ficava sempre no ar a incerteza. Por isso, o cancro era uma espécie de criatura mítica, um homem do saco 2.0, que os pais podiam usar sem que se tornasse demasiado próximo. Como na minha casa Deus não existia, era preciso um bicho papão mais real para me meter na linha. «Isso faz cancro» era o «Deus castiga» para os pais ateus. Dizer a uma criança descrente que Deus castiga é o mesmo que dizer-lhe que vem aí um unicórnio dar-lhe uma marrada.

Aliás, Deus tem muito em comum com os unicórnios: nunca ninguém os viu e ambos aparecem em livros de ficção. 

O que é certo é que vamos crescendo e percebendo que quase tudo faz cancro e que mesmo que leves uma vida saudável e evites tudo o que é cancerígeno, ele pode bater-te à porta. O cancro nunca podia entrar num episódio do «E se fosse consigo?» porque o cancro não discrimina ninguém e não é por isso que tem boa fama. Eh lá… que isto está a ficar demasiado sério e tétrico. Voltando a roer as unhas dos pés: sou só eu que não meto um corta-unhas nos pés há anos? Aquilo quando um gajo sai do banho e está mole tira-se facilmente sem qualquer utensílio! E nas unhas das mãos é sempre um stress, sendo destro, quando tenho de cortar as da mão direita. Pareço um daqueles gajos nos anúncios de prevenção rodoviária da DGV com a música Aimee Mann. Se por acaso tenho de cortar as unhas em dias de ressaca é impossível! Tremo por todos os lados e mais vale roer e depois limar numa parede porosa. Já sei por que é que o meu avô com Parkinson tinha sempre as unhas compridas. Pensava que era para o estilo ou para cortar queijo e descascar laranjas e, afinal, não.

A minha mãe, como todas as mães, tem conhecimentos avançados de medicina. A minha mãe é como o Google em que quaisquer sintomas que lhe dês a resposta é sempre cancro. Estou certo que a minha mãe poderia roubar o lugar à Maya e à Maria Helena a fazer biopsias por telefone e sem precisar de cartas de brincar compradas no Papagaio Sem Penas. A minha mãe sempre foi uma mãe galinha e dizia-me, entre muitas outras coisas, para não me esforçar demasiado na natação. Certamente, com medo de que eu ganhasse as provas todas e ficasse todo gostoso e tivesse as miúdas todas atrás de mim devido ao meu corpo de nadador. Sempre quis que eu as engatasse pelo meu intelecto que é o que, aos 33 anos, me resta. Sim, já fiz paz comigo mesmo e com o facto de nunca mais voltar ver os meus abdominais a não ser que apanhe uma daquelas doenças que nos emagrece muito antes de morrermos. Sinto que este texto está a resvalar para o cancro, novamente. É melhor ficarmos por aqui até porque, tal como disse, é chato crescer e descobrir que quase tudo faz cancro. Até o sexo oral desprotegido – que é a única forma de se fazer bom sexo oral – provoca cancro. Epá, tirem-me as tatuagens do Bolicao e as torradas queimadas, mas não me tirem cunnilingus sem papel de celofane e, já agora, se é para me fazerem um felácio com preservativo, mais vale irmos ver um filme.
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11 de setembro de 2017

Grupos de Facebook de Operações STOP são parvos



Somos uma espécie capaz de se odiar por coisas simples como a cor da pele ou devido a divergências quanto ao nome do amigo imaginário que mora nas nuvens, mas quando o assunto é avisar os outros onde há operações STOP, somos uma raça que se une. Quais cordões humanos e minutos de silêncios por Timor, quais manifestações contra o trabalho precário, os portugueses unem-se é quando o problema se resume a: «Bebi uns copos a mais, mas apetece-me conduzir na mesma... quem me dera saber onde há operações STOP!». Desse problema generalizado da sociedade, nasceram grupos de Facebook com milhares de pessoas onde são publicados os locais onde há operações STOP, tudo em tempo real para o efeito do álcool não se desperdiçar. À primeira vista, tudo isto é inócuo e ingénuo, mas se pensarmos bem sobre o assunto, é um bocado parvo.

Imaginem o cenário: um gajo está bêbedo, mas quer levar o carro para casa porque está bem para conduzir, diz ele. Vai ao Facebook e vê que no caminho que ele faria normalmente há uma operação STOP. Decide, então, ir por outro lado. Como qualquer bêbedo que acha que está bem para conduzir, conduz qual Ayrton Senna e, tal como ele, perde o controlo do carro, galga um passeio e passa a ferro uma grávida que estava a passear um cão adoptado do canil. Morrem todos, incluindo o condutor e o pendura que ia a comer um pão com chouriço. De quem é a culpa? Do gajo que ia a conduzir bêbedo, claro. Mas se tivessem sido vocês a fazer aquela publicação e a avisar aquele gajo da operação STOP, e soubessem disso, não iriam sentir um bocadinho de culpa? Um bocadinho, só?

No fundo, estamos a ajudar outras pessoas a infringir a lei e a colocar a própria vida, e de terceiros, em risco. Se fosse só a tua vida em risco nem devia ser proibido conduzir inebriado. Acho que deverias poder andar sem cinto de segurança à vontade. Queres ir ver mais de perto a traseira de uma Renault Kangoo? Força nisso. Andas de mota sem capacete porque sempre sonhaste ter a cara metade pessoa, metade batata a murro? É na boa, força nisso. É como quem se vai encostar a uma arriba na praia mesmo juntinho ao sinal de perigo. Um gajo precisa de se livrar do peso morto para evoluir a espécie. Os burros estão a atrasar-nos demasiado e gostava que o mundo não acabasse antes de ser criado o teletransporte, de descobrirem o soro da imortalidade e, se não for pedir muito, do Sporting ser campeão outra vez.


«Banco Alimentar? Ui, hoje não, dei ontem.»
«Uma moeda? Ui, não tenho trocos.»
«Uma operação STOP? Deixa-me cá cumprir o meu dever cívico para com os meus conterrâneos. O táxi é caro e um gajo tem pouco dinheiro porque as bebidas estão caras. A culpa é do governo e dos turistas que inflacionaram isto, porque se o táxi fosse de borla eu não cometia contra-ordenações! Isso e para tramar esses gatunos da polícia que só andam é na caça à multa!»

As pessoas criticam a polícia por fazer caça à multa, mas há uma forma muito fácil de não cair nessas armadilhas que é, pasme-se: não infringir a lei! Ahhh, informação dramática! Também acho que se deve investir mais na prevenção e na educação do que na punição, mas até chegar uma geração mais consciente na estrada, temos de caçar o pessoal que trata o volante como as caixas de comentários do Facebook e só diz e faz merda. Longe de mim ser moralista, também já conduzi com um ou dois copos a mais, já liguei a amigos polícias a perguntar onde havia operação STOP e já fui, uma vez, a um grupo desses ver se a costa estava livre.


A diferença é que se eu vir uma operação STOP não vou lá publicar. Quero é que os outros se fodam. Às vezes, o egoísmo tem efeitos secundários positivos.

No entanto, acho que é nestas pequenas coisas que vemos que há esperança no mundo e que a nossa espécie é capaz de se unir e esquecer as diferenças. Aposto que já deve ter havido um gajo nazi a publicar num desses grupos sem se preocupar se está a ajudar bêbedos negros, ciganos ou muçulmanos. Bem, estes últimos só bebem em casa às escondidas e não pegam no carro a seguir. Esse nazi simplesmente quer ajudar o outro e quer sentir-se útil na sociedade, esquecendo-se de julgar pela diferença, tal como os nazis que aplaudem os jogadores negros da sua própria equipa, mas apupam com cânticos racistas os da equipa adversária. Não sei se isto prova que há esperança, ou só que o futebol e o querer conduzir embriagado são valores mais altos do que o racismo.

Uma vez fui apanhado com álcool numa operação STOP e não foi com uma garrafa na mão, foi mesmo no sangue. Foi há uns 4 ou 5 anos e até vi a operação ao longe e podia ter virado ou invertido a marcha, mas, como qualquer bêbedo, achei que estava bem. Não estava. Acusei 0.9 g/l e arrotei 500€ que bem mereci. Voltarei eu a pegar num carro com os copos? É provável que sim, mas se a multa em vez de 500€ tivesse sido de 5 mil, ainda a estava a pagar às prestações e se calhar não pegava. Uma vez passei numa operação STOP com um olho fechado e outro aberto porque era a única forma que conseguia focar. Desta vez, também os vi antes, mas até chegar perto pensava que eram os homens do lixo com uma farda nova. Não fui parado, infelizmente. Merecia ter levado uma multa valente e ficado sem carta uns meses para aprender e não voltar a fazer. Quer dizer, até acho que estava naquele ponto em que nem é muito perigoso conduzir porque tinha a perfeita noção de que nem para andar estaria bem. Então, fui devagarinho e a cumprir todas as regras. 


Quando vês um gajo sozinho, numa rotunda vazia, a fazer piscas já sabes que ou fez merda ou está para fazer.

Até em passadeiras sem ninguém eu parava, não fosse estar a ver mal. Nesse estado fim de festa é melhor do que só bêbedo party mode porque é aí que um gajo acha que está na boa e que fazer curvas a chiar pneu é fixe e que dar 150 km/h dentro da cidade é bué racing. Nesse estado, vem à tona o condutor de UBER que já foi taxista que há dentro de nós em que há toda uma veia de campeão da estrada reprimida.

Voltando aos grupos, imaginem que havia grupos de Facebook para outros crimes que, por exemplo, avisavam sobre a presença de rondas policiais para auxiliar quem está a pensar assaltar uma ourivesaria. Se calhar estou aqui a dar boas ideias de borla, mas pronto. Estes grupos que avisam desconhecidos sobre operações STOP são a versão 2.0 dos sinais de luzes na estrada. Um gajo pode chamar filho da puta a quem não mete os piscas, pode fingir que abalroa o carro de quem nos vai a ultrapassar pela direita, mas não somos animais! Há que ser cortês e avisar o incauto colega de estrada que há polícia mais à frente, não vá ele ser multado só porque vai a 200 km/h na nacional com o seu Fiat Punto kitado. É este altruísmo enquanto espécie que está na base destes grupos de Facebook.

O Homem, especialmente do sexo masculino e especialmente português, já conduz normalmente como se estivesse bêbedo. Já pensa que é herói, não respeita traços contínuos nem limites de velocidade e nem sóbrio sabe fazer uma rotunda, imaginem com os copos. Imaginem que iam de carro ou a pé e que todos os outros carros eram taxistas depois do almoço. Então, para quê ajudar os bêbedos? Longe de mim dar-vos conselhos ou estragar a festa de quem quer beber uns copos e a seguir pegar no carro, mas da próxima vez que forem avisar pessoas que não conhecem de lado nenhum, que podem conduzir feitos atrasados mentais mesmo quando estão sóbrios, pensem nisso.
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Este país não é para portugueses



Portugal está nas bocas do mundo e apesar de isso ser bom, o risco de apanhar herpes ou mononucleose é elevado. Lisboa e Porto são cidades que lideram vários rankings de melhores destinos para visitar e o Algarve acabou de ser eleito como o melhor local do mundo para viver os anos de reforma. Sendo que a reforma média em Portugal é de pouco mais de 4000€ anuais, suponho que estivessem a falar de reformados ingleses ou alemães. Reformados esses que podem ser engatados pelas nossas viúvas e viúvos, ajudando assim a compensar o dinheiro que lhes foi roubado na reforma. Mesmo que isso não aconteça, é preciso ver o lado positivo de viver no melhor país para reformados com uma reforma miserável: toda a gente sabe que muitas doenças são psicológicas e psicossomáticas e quem tem de reforma menos de 400€ por mês não se pode dar ao luxo de as contrair, pois não teria dinheiro para os medicamentos.

É caso para dizer que este país não é para velhos... portugueses.

Portugal foi, também, eleito o melhor destino europeu de 2017 e os turistas chegam aos magotes, durante todo o ano, às principais cidades portuguesas. Se isto traz consigo a vantagem de vermos zonas outrora devolutas a serem reabilitadas, de haver mais dinheiro a entrar e de haver mais loiras pouco habituadas ao sol de portugal - facto que se reflecte nas roupas que usam - aos poucos, vamos percebendo que este Portugal não é para portugueses.

Os preços nos centros das principais cidades sobem a um ritmo impossível de acompanhar para a maioria dos portugueses. Basta pensar que com o salário mínimo português - 557€ - quem quiser morar no centro da capital, não consegue mais do que um T0, num quarto andar sem elevador e com a casa de banho ao lado, ou mesmo dentro, do frigorífico. O preço dos restaurantes também sobe em flecha à boleia do dinheiro de turistas e da moda do gourmet. Começa a ser complicado comer um bom bitoque por 6€ no centro das cidades. As tascas estão a morrer e a ser substituídas por comida pretensiosa que chegará o dia em que no menu só veremos escrito "Double Touch", por 15€, e em que só teremos bolo do caco para molhar no ovo e salada de rúcula em vez de batata frita a escorrer óleo. Temo pelo dia em que nas casas de fado se cantará os grandes clássicos «Oh people from my land», «People who wash on the river» e «In the house of the little gay». Não tarda, todo o Portugal será um grande Algarve de Agosto, em que se tem de saber falar inglês para pedir uma cerveja num bar. Viaje para fora cá dentro nunca fez tanto sentido. Não me estou a queixar, tenho pouco de nacionalismo dentro de mim, acho que o ar é de todos e é da maneira que se treina o inglês e se melhora o CV. Os portugueses já são conhecidos lá fora por serem bons de língua e a falar outros idiomas, também.

Portugal foi ainda escolhido como o quinto melhor país do mundo para viver e trabalhar, segundo um inquérito feito a expatriados, claro. Os portugueses teriam uma opinião diferente, talvez porque se queixam mais e valorizam menos o que têm. Sendo que à nossa frente ficaram países como o México e a Costa Rica, não sei como devemos encarar este troféu. Digo, há muito, que Portugal é o melhor país do mundo para se viver, mas dos piores para trabalhar, especialmente se compararmos com a Somália, onde cerca de 40% das crianças entre os 5 e os 14 anos já estão empregadas. Aos 18 anos terão um currículo melhor do que a maioria da minha geração, a tão falada Millennial. O nome Millennial vem do facto de ser a geração onde Mil euros é a expectativa máxima de salário para quem tem mestrado, boas notas e tirou um curso com boa empregabilidade, já que os outros, mesmo licenciados, podem dar-se por contentes com 500€ a recibos verdes. O meu pai sempre me disse que a melhor forma de saber gerir a minha mesada era se fosse pequena. Isto para não falar de que 25% dos jovens está no desemprego o que tem um impacto directo na forma como começamos a ver o núcleo familiar.

Sabem qual é a idade com que os filhos saem de casa dos pais? Três anos seria a resposta dos pais da Maddie, mas a média em Portugal é de 29 anos.

Ao contrário do que possa parecer, isto tem imensas vantagens como o facto de aproximar os netos dos avós já que vivem todos na mesma casa e, com os cortes nas reformas, há toda uma entreajuda entre pais e filhos para conseguirem pagar um T2 para seis pessoas nos arredores de Lisboa, ou seja, em Leiria. Sabem porque é que eu também acho que as rendas estão obscenas? Porque não tenho nenhuma casa para alugar em Lisboa. Se tivesse, acharia que estavam muito boas e que ainda havia margem para subir o preço e que só paga quem quer e pode. Esta exorbitância das rendas irá afastar muita gente das grandes cidades e trazer várias vantagens: diminuir o trânsito para os tuk-tuks poderem andar à vontade; reabilitar o interior e as aldeias, onde poderão ter a vossa horta biológica. Estou a brincar, essa aldeia que tinham em mente foi comprada e transformada num enorme turismo eco-agro-rural onde turistas ricos vêm brincar às quintas.

Sabes que o país está cada vez menos feito para os portugueses quando tens um salário médio mensal de 913€ - salário médio mais perto do salário mínimo de todos os países da União Europeia - e tens milionários e celebridades estrangeiras a escolher o nosso país para viver. Apesar de ser mais glamouroso ter a Madonna, Monica Bellucci ou o Éric Cantona a morar em Portugal, o que eu gostava era de ter gente pobre da Nicarágua a escolher Lisboa como a cidade onde iriam mudar de vida, pois era sinal de que o preço das coisas estava barato e que as oportunidades de trabalho eram boas. Estrangeiros famosos em Portugal é como ver vinagre balsâmico na borda de um prato de cozido à portuguesa: sabes que vais pagar mais, mas que o sabor é o mesmo. Isto de gente famosa vir cá para ficar é mau sinal. No Burundi, as pessoas gostam da Angelina Jolie porque ela vai lá passear, dá umas canetas e uns cadernos à malta e volta com umas crianças na mala que só iam dar despesa. Se ela fosse para lá permanentemente morar ninguém ia achar piada quando o café da esquina ao pé de casa dela começasse a cobrar o triplo por um café.

Durante anos ouvi toda a gente dizer - inclusivamente eu - naquelas conversas de café onde se arranjam soluções para todos os problemas do país, que Portugal deveria apostar mais no turismo. Todos eram da opinião que Portugal tem tanto ou mais para dar do que Espanha e do que França e que o turismo seria a chave que resolveria todos os problemas económicos do país. Ora bem, as nossas preces foram ouvidas e há cerca de dois anos que não oiço ninguém dizer que Portugal precisa é de mais turismo. Portugal seguiu os conselhos de todos nós e neste momento toda a gente se queixa que há turistas a mais em Lisboa. Os portugueses nunca estão satisfeitos, faz parte do nosso ADN dizer mal e responder «Cá se vai andando» em vez de «Epá, olha que até estou impecável!». Não é que estejamos impecáveis, mas pensar positivo é a única esperança dos pobres e precisamos de aceitar que este país já não é para portugueses. É para o mundo.
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23 de julho de 2017

Quem morre na praia é parvo



Hoje, venho fazer serviço público. Vendo que se anda a gastar dinheiro dos contribuintes para fazer campanhas nas praias para alertar para o risco de instabilidade das arribas, decidi dar o meu contributo. A minha campanha de sensibilização passa por insultar toda a gente que ignora os avisos de perigo e se vai recostar na bela da arriba só porque bate menos o vento ou se tem sombra natural. Sou apologista que a selecção natural é cruel e que devemos ter uma sociedade que não assente em princípios darwinianos e da lei da selva, mas, no entanto, a selecção natural é necessária se quisermos passar para um patamar superior enquanto espécie. Não há nada de mal em preferirmos estagnar neste estágio de evolução, desde que percebamos as consequências e não nos queixemos, mais tarde, de haver tanta gente burra a sobre popular o planeta. Portanto, nos dias de hoje, em que a informação está acessível a todos, depois de várias notícias sobre mortes em anos transactos, basta visitar uma praia para ver muita gente de papo para o ar encostadinha a uma escarpa. Quem são estas abéculas que decidem colocar a toalha mesmo debaixo de um monte de calhaus periclitantes? No meu entender, dividem-se em três categorias: os burros; os destemidos; os matemáticos.

Vamos por partes: os burros.
Não é preciso ter grandes conhecimentos sobre física e geologia para perceber que ali há perigo, até porque está lá a placa a avisar. Basta olhar para os calhaus que estão cá em baixo e fazer a pergunta «De onde terá vindo esta pedra gigante com várias toneladas que se enterrou aqui na areia?». Não me parece um mistério como a construção das pirâmides de Gizé e basta olhar em redor para perceber que do mar não devem ter vindo. Claro que talvez esteja a ser ingénuo à espera de raciocínios lógicos por parte destas pessoas que, se calhar, pensam que as rochas das praias do Algarve vieram desde Marrocos ao sabor da corrente marítima. Talvez lhes seja muito difícil inferir que só pode ter sido resultado da erosão da arriba que fez os pedregulhos aterrarem ali. Depois, não é preciso saber que a aceleração da gravidade na terra é de 9,8 metros por segundo quadrado, para perceber que a rocha em questão não caiu como uma pena, nem veio a rolar delicadamente pela encosta a pedir com licença à moleirinha dos banhistas. Aquilo caiu com força e mesmo que não tenha atingido uma grande velocidade de ponta, a sua massa faz com que possua uma energia cinética capaz de esmigalhar um tenro corpo humano, por muito definido do ginásio que seja. De notar que muitas das pessoas que se colocam nesta situação de perigo gostam de se besuntar em óleo pensando, talvez, que as pedras batem nelas e escorregam para o lado. Os burros compõem a maioria das pessoas que se metem a jeito na praia e, permitam-me dizer embora não desejando a morte a ninguém, que merecem um bocadinho que lhes caia uma pedra solta de 500 quilogramas na nuca.

Os destemidos
Nada a dizer. Não tens medo da morte porque «calha a todos» e «o que aconteceu tinha de acontecer» tudo bem. É a tua forma de viveres a vida de maneira a que não tenhas de te responsabilizar por nada. Morre para aí, mas vê se não deixas cá pessoas a sofrer pela tua irresponsabilidade.

Os matemáticos 
Quais são as probabilidades de morrer nestas condições? Se calhar, menos do que andar de carro ou de morrer engasgado, não sei, mas um gajo tem de ir de A a B sem ser a pé e também tem de comer. Ir para debaixo de uma arriba é brincar com as probabilidades e toda a gente tem direito a fazê-lo, mas depois não me venham dizer que é uma tragédia. É só gente que morreu de forma parva e evitável. É como o pessoal que morre afogado com a bandeira vermelha ou que morre comido por um tubarão onde há sinais a alertar para esse perigo. Temos pena. Jogaste com as probabilidades e ganhaste o Euromilhões da morte.

Haverá uma fatia mínima das pessoas que não caem em nenhuma destas categorias e que apenas são desinformadas ou distraídas e que são as únicas às quais as campanhas de alerta podem servir para alguma coisa. São um bocadinho burras, mas têm desconto.

Agora, pergunto: se multamos as pessoas que não usam cinto de segurança, porque não multamos as pessoas que se colocam em perigo desta forma?

Penso que está previsto na lei, mas nunca - ou quase - foi aplicado. Isso ou obrigá-los a usar capacete. De mota, és multado se andares com os cabelos ao vento, mas ali ainda te vão sensibilizar e dizer «Sabia que estar aqui é perigoso?». Espanta-me a condescendência com as pessoas que escolhem ser burras. Especialmente os pais com os filhos que estão preocupados em besuntá-los com creme protector factor total e depois lhes dizem para se irem abrigar junto ao sopé da falésia. Parece-me óbvio que esta gente devia ser multada nem que fosse para pagar o dinheiro público que se gasta nas campanhas de prevenção e na remoção dos corpos quando acontece um acidente. Por tudo isto, tenho uma sugestão: sempre que alguém morrer soterrado deixem-se ficar os corpos e o funeral fica já feito. Não vale a pena mexer. Desenterrar um cadáver para depois voltar a enterrar é um desperdício de tempo e nos dias de hoje há que ser pragmático. Com sorte, as cruzes e as flores colocadas pelos familiares servirão de melhor alerta para os outros cidadãos burros e em vez de se gastar dinheiro o estado ainda lucra com o IVA das flores e do carpinteiro, se ele passar factura. Tudo isto com a vantagem de tornar os funerais bem mais alegres já que a família, depois de chorar sobre o leite derramado, pode ir dar um mergulho, tornando os versos de Fernando Pessoa «Ó mar Salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?» numa pergunta pertinente.

Se quiserem partilhar o alerta ou identificar alguém que se costume meter encostado às arribas, estão à vontade. O meu alerta está dado, mas eu fumo (estou a deixar), por isso não sou ninguém para falar de gente burra que mete a vida em risco. Vocês é que sabem da vossa vida.
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18 de julho de 2017

Ninguém quer um bairro de ciganos perto de casa



Isto anda bonito. De repente, parece que voltámos a 1970 onde a discriminação era uma espécie de calças à boca de sino em que toda a gente usava e, pior, se orgulhava disso. Depois do caso dos polícias na Cova da Moura acusados de racismo e tortura, tivemos o Gentil Martins a dizer que a homossexualidade era uma anomalia e, agora, temos o candidato do PSD/CDS, André Ventura, a xingar os ciganos na praça pública. Sobre homofobia e racismo já escrevi várias vezes, mas sobre ciganos nunca opinei. É um assunto complicado até porque tenho medo de ser mal interpretado e levar uma chinada no lombo de quem acha que os ciganos deviam morrer todos. Fintei-vos bem.

A minha vista na Buraca eram barracas dos ciganos. Depois, mudou e passaram a ser prédios de ciganos. Subiu um bocado o IMI, mas a zona ficou melhor mostrando que dar o mínimo de condições a quem tem pouco ajuda a resolver problemas. Tive dois colegas ciganos na escola: um era fixe e dava-me bem com ele, o outro espetou-me uma lapiseira na mão só porque era segunda-feira. Como o gajo era do SASE isso significa que aquela lapiseira que usou para me agredir tinha sido comprada, em parte, com os impostos dos meus pais. É como os americanos que morrem às armas do Estado Islâmico. Como podem ver, a minha experiência com ciganos é 50% positiva e, para mim, isso é uma boa média já que mais de metade das pessoas não-ciganas com as quais vou convivendo, não são pessoas decentes. Para além desta vasta experiência, toda a minha vida vesti roupa da Feira de Benfica comprada aos ciganos. Ainda hoje tenho muita. Já me fizeram cara feia em lojas caras quando fui trocar ou devolver uma peça de roupa, mas nos ciganos o máximo que acontecia era a minha mãe fazer mais peixeirada do que os ciganos e vencê-los por insistência.

Ciganos não é um assunto que esteja no topo das minhas preocupações. Preocupo-me com a morte, minha e dos meus entes queridos, com o futuro em termos de trabalho, com o chegar a velho e ter dinheiro para uma velhice digna neste país que ameaça falir, etc. Nunca me sinto ansioso e penso «Se não fossem os ciganos a minha vida até era feliz.» e olhem que tenho um bairro de ciganos a 200 metros de casa e passo no meio deles todos os dias para estacionar o carro porque é a única zona onde não meteram parquímetros porque lá, ao que parece, chamam-lhes «Aquelas máquinas estranhas que dão moedas.». É isso que me parece estranho: as pessoas estarem preocupadas com os ciganos. Por cada cigano que não declara rendimentos há 10 taxistas que metem tarifa 3 a um turista. Por cada cigano que não faz descontos há 100 donos de cafés que dizem que o multibanco está avariado para no final do mês declararem o ordenado mínimo. Por cada cigano que recebe o Rendimento de Inserção Social há 230 brancos, de fato e gravata, que recebem viagens e ajudas de custo para passearem com a família às nossas custas. Por cada cigano que não desconta há 10 pessoas que fazem spoilers do Game of Thrones e reparem que eu nem vejo isso, mas percebo a gravidade da situação. Preocupam-me mais os Ricardos Salgados deste país do que os Ricardinos Salganhadas. Nunca ouviram um político dizer «Portuguesas e portugueses, vamos ter de aumentar o IVA e o IRS para equilibrar as contas públicas por causa dos bancos que tivemos de resgatar e por causa dos ciganos.».


Está toda a gente indignada (e bem) com os comentários do André Ventura, mas o que é certo é que ninguém quer um bairro de ciganos ao pé de casa.

O problema do André Ventura não é ter dado a sua opinião que, do pouco que li, até pode ter algum fundamento. O problema é que o André Ventura não está no café a conversar com os amigos! É candidato político das autárquicas e está a fazer apenas e só uma coisa: campanha populista. O populismo já é bem javardolas, mas quando se auxilia de xenofobia e discriminação ainda pior. Acham que ele convive com ciganos lá nos comícios do PSD e do CDS? Ele só disse o que disse à caça do voto do povo que pensa «Ciganos? Era matá-los.». Por isso, ele não pode dar a sua opinião e esconder-se debaixo da alçada da liberdade de expressão porque ele tem responsabilidades políticas. Um gajo dizer o que ele disse num tasco é uma coisa, num palanque e amplificado pelos media roça a discurso de ódio e propaganda xenófoba. Eu percebo que as pessoas sintam comichão: compras a tua casinha em Entrecampos ou na Avenida do Brasil, dás bom dinheiro e pagas bom IMI por aquilo e, de repente, tapam-te a vista com um prédio social onde realojam famílias ciganas. Claro que percebo. Fizeste um dos investimentos mais importantes da tua vida e aquilo desvaloriza num instante. Dás 200 ou 300 mil euros por uma casa numa zona privilegiada e, de um momento para o outro, sabes que tens como vizinhos pessoas às quais lhes ofereceram as casas ou pagam 20€ de renda. Contudo, se te dessem a escolher, trocavas? Trocavas a tua vida, o teu trabalho, a tua etnia, para ir morar para aquele bairro, trabalhar na feira ou não fazer nada e ganhar o RSI? Não trocavas, não é? Então, pronto, o privilegiado és tu e não eles. A pior coisa que um cigano me fez foi parar o carro ao meu lado a ouvir Despacito no volume máximo. Confesso que nessa altura proferi vernáculo xenófobo, mas toda a gente tem o seu limite.

Depois, nestas coisas de catalogar as pessoas pela etnia há um grande problema: quem realmente sofre são as pessoas dessa etnia que tentam levar uma vida decente e cumpridora. Até me podem vir dizer que há só meia dúzia de ciganos que são bons cidadãos - spoiler alert: há mais - que isso não pode dar direito a um político de rotular todos pela parte pior, mesmo que essa parte seja grande. Isso só faz com que se tire a vontade dos bons continuarem a ser bons e sem bons exemplos dentro da comunidade, nada muda. Há que haver a presunção de inocência para todos, por isso, pensem que um cigano é um Quaresma até prova em contrário.

Agora, é óbvio que a cultura cigana tem alguns problemas. O problema não é a etnia, a "raça", ou a genética, mas sim a cultura. As culturas têm problemas e embora seja de valorizar que os ciganos se orgulhem das suas raízes, há que não ter problemas em assumir que há coisas que não estão certas ao olhos moldados pela sociedade onde vivemos. Muitos ciganos querem o melhor de dois mundos: receber do estado e viver à margem da lei, sem respeitar coisas tão simples como manter as crianças na escola até ao 12º, especialmente as raparigas e todos sabemos que não há sociedades evoluídas sem emancipação e educação no feminino. Claro que há muitos ciganos assim, mas é preciso perceber a carga histórica e que a ostracização de séculos não se apaga em algumas décadas. Queiramos admitir ou não, todos guardamos um pouco de preconceito para com os ciganos e isso acaba por nos obrigar a sermos contidos quando os criticamos. É igual com os gordos. Quantos de vocês conhecem em detalhe a história da etnia cigana, a sua origem, tradições e valores, e as perseguições a que foram sujeitos ao longo de anos e anos? Eu não. E, atenção, que eu não estou a defender criminosos, ciganos ou não, quem vive na impunidade deve ser julgado e condenado, mas é preciso perceber que há culpa dos dois lados e que há atenuantes.


Um gajo que rouba milhões para comprar casas em Paris não é a mesma coisa que um gajo que vende louro prensado no Rossio para comprar um boné da Lacoste.

Claro que também gostava de ter essa impunidade. Até ver, de ambos os casos. Aquele célebre caso da Quinta da Fonte onde se vê pessoal aos tiros reforçou essa impunidade, aparente ou não, dos ciganos. Vai lá tu, menino branquinho e de olhos azuis com o teu pólo da Quebramar desatar aos tiros no meio da rua a ver se não te acontece nada. Mas quantos brancos já saíram impunes de muitos crimes? Uma coisa é certa, se fores a tribunal, de certeza que te safas melhor se fores branco e tiveres um bom advogado. Só nos Malucos do Riso é que o Camacho Costa a fazer de cigano se safava sempre.

É óbvio que existe um medo generalizado dos ciganos e que esse medo vem de sabermos que eles são, em muitos casos, meninos para resolver os problemas chamando a família toda para a festa. Claro que há muitos que andam armados, por exemplo, ainda no outro dia, mesmo ao meu lado, um ameaçou dar um tiro num gajo que estava passear o cão perto de um prédio de ciganos. Como podem ver, era um cigano asseado e que prezava pela higiene e limpeza da sua praceta. Uma urina de cão é razão para desatar aos tiros? Não, e foi a acreditar nisso que o rapaz lhe fez frente e o cigano gritou e gritou, mas não deu tiro a ninguém. Se eu soubesse que as pessoas tinham medo de mim, também fazia altos bluffs. Sei de casos de assistentes sociais que eram corridos à pedrada e à cuspidela dos bairros de ciganos só porque iam lá fazer o trabalho delas e, muitas vezes, tentar ajudá-los. Por tudo isto, é claro que a comunidade cigana tem muitos problemas e focos de criminalidade. Mas, surpresa, também a comunidade branca, preta, e vegana. Onde há pessoas, há merda e a merda, venha de que raça ou etnia vier, cheira sempre mal e tem a mesma cor.

O que era mesmo fixe, é que as pessoas que defendem tanto os ciganos depois não as discriminassem quando elas se candidatam às suas empresas. Se vocês acham que é difícil arranjar emprego com um curso de sociologia, deviam experimentar ser ciganos. Isso é que era, porque criticar, com unhas e dentes, quem diz mal dos ciganos, na prática, não resolve nada. O que resolve é darem a cara quando têm oportunidade de mostrar que são mesmo pela justiça social. Comprar uma camisola da Nick e uns ténis da Ardidas na Feira do Relógio não conta como ajuda, lamento. No dia em que as oportunidades forem todas, mas todas, iguais para os ciganos e os não-ciganos, tanto as dadas pela sociedade como dentro da cultura deles, e as coisas não forem ao sítio, podemos ter a certeza que a culpa é só deles e aí sim, dar-lhes uma ilha onde eles fazem as próprias regras e pescam robalos com louro prensado como isco. Até lá, até podemos não gostar deles e não os querer por perto, mas temos de assumir que a culpa é, também, muito nossa. Lembrem-se que mesmo quem defende os ciganos não quer ter um bairro de ciganos perto de casa, e isso diz tudo sobre o que é ser-se cigano: nem mesmo os que te defendem te querem por perto. Agora pensem o que é viver assim.
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28 de junho de 2017

Juntos Por Todos, Peidar Pelos Dois



O mundo tornou-me um cínico. Estava a ver o concerto solidário «Juntos Por Todos» e só pensava que aquilo era uma premissa excelente para um episódio do Black Mirror: transformar a solidariedade em entretenimento. Ajudar os outros fazia-te ganhar pontos que depois podias usar para descontos no supermercado ou assim. Angariou-se mais de um milhão de euros e há quem olhe para isto e veja o copo meio cheio e que é lindo ver que nos unimos em alturas de catástrofe. Eu, meio cínico, meio idealista frustrado, olho para isto com essa sensação, mas, também, com a de «Afinal até conseguíamos mudar o mundo se quiséssemos só que nos estamos a cagar porque a mudança do mundo não passa na televisão.». Se, ao menos, ao lado de cada sem-abrigo houvesse uma câmara a transmitir em directo para todos os canais e tu pudesses ir lá ajudar, mandar props para o teu pessoal da Régua e ligar para a tua mãe a dizer que estás na TV, a coisa seria diferente. Se, ao menos, os sacos do Banco Alimentar contra a fome tivessem uma app integrada que te permitisse partilhar automaticamente no Facebook com quanto quilogramas de comida é que acabaste de ajudar, a coisa seria diferente.

Pensei, também, em qual será a diferença entre fazer uma piada com uma tragédia ou cantar e dançar alegre ao som de uma música num concerto com uma tragédia em pano de fundo, especialmente com músicas «Anda comigo ver os aviões» que só se fosse para os contar e termos a certeza de que não caiu nenhum antes de lançar notícias. Nenhuma diferença: ambas servem para sacudir o medo da nossa própria desgraça. Claro que o momento da noite não foi a união entre as pessoas nem o dinheiro angariado para ajudar as vítimas, mas sim o que o Salvador Sobral disse. As pessoas têm um dom de passar do mood de solidariedade para o mood de ódio nas redes sociais em menos de dois segundos. As pessoas, quando é para dizer mal, têm um motor mais potente do que um Ferrari e um arranque mais rápido do que um Tesla com a diferença de que emitem gases nocivos ao ambiente sempre que abrem a boca. O rapaz fez, ou tentou fazer, uma piada e disse a palavra peido! Uhhh, que falta de chá! Pelo que ouvi o público riu-se bastante, o que valida a piada, seja boa ou má aos nossos olhos. Tenho para mim que as pessoas que ficaram indignadas com ele são as mesmas que ficam preocupadas com o destino do dinheiro angariado sem terem contribuídoVi mais gente ofendida com isto do que com o Passos Coelho a lançar boatos sobre suicídios.

Parece que os artistas têm de ser mais politicamente correctos do que os políticos têm de ser correctos.

As pessoas têm todo o direito de achar inconveniente aquele comentário e de não terem gostado, atenção, o que não percebo é a prontidão com que vão para o Facebook despejar o seus carregadores cheios de munições de frustração apontando as suas armas que parecem ter as miras desniveladas, já que escolhem sempre os alvos errados. Parece que estão a ver um evento solidário sempre à espera do momento para se ofenderem como se ser solidário lhes estivesse a consumir todas as forças e precisassem de uma dose de indignação para curar a ressaca. A mim ofende-me mais quem tem uma fotografia a dizer luto e que tendo possibilidade de ajudar, escolheu não dar um único euro porque dava muito trabalho. Aquilo pode ter sido só uma piada ou pode ter sido uma crítica disfarçada de piada já que antes ninguém ligava ao rapaz e agora tudo o que ele faz é considerado genial e, sim, se ele fizesse um álbum a tocar trompete com o cu as pessoas, nesta altura, compravam na mesma. Como artista, isso deve ser triste ver que a tua qualidade interessa menos do que a tua popularidade. Era o momento ideal para fazer essa crítica ao público? Talvez não, mas que mal vem daí ao mundo? Ao menos ele ajudou doando dinheiro e com o seu trabalho. É o momento certo para, a meio de um concerto solidário, se estar na Internet a dizer que ele estragou o evento no qual ele ajudou a angariar mais de um milhão? Acho que nenhuma das vítimas vai estar preocupada se o dinheiro vem com ou sem molho.
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25 de junho de 2017

A bonita tradição dos touros de fogo



Portugal sempre foi um país que valorizou as suas tradições. Desde o fado ao cante alentejano, o português é um povo que em toda a sua auto maledicência consegue valorizar as lembranças de um passado glorioso, em forma de tradições. É incrível como é que nós, novas gerações, muitas vezes, nem conhecemos as bonitas tradições do nosso país. Por exemplo, foi apenas há dois anos que tive conhecimento dessa bonita tradição portuguesa de queimar gatos vivos num recipiente de olaria nacional, e foi apenas este fim de semana que descobri a bonita tradição de pegar fogo aos cornos de touros. Sou um ignorante no tocante à cultura portuguesa, bem sei. Aconteceu em Benavente, apesar de ter sido anunciado previamente e proibido logo em seguida. Jornalistas e activistas da causa animal foram ameaçados por alguns populares de Benavente, mostrando que eles afinal são pela igualdade e que tanto agridem touros como pessoas. Ao menos isso, as pessoas também merecem apanhar com bandarilhas! A GNR, ao que parece, viu e não fez nada porque estavam a beber uma mini e não dá jeito tomar conta de ocorrências só com uma mão. Também não sei porque é que é proibida uma tradição tão linda que só torna a tradição da tourada ainda mais luminosa! Espetar ferros tudo bem, incendiar chifres não? Disparate. Se é para se ser burgesso, que se seja em grande! Se eu fosse adepto de tortura animal, colocava estalinhos nos cascos do touro para ele andar aos saltinhos feito cabra montesa, colocava uma motosserra presa à cauda do bicho para ele se cortar todo e os homens valentes que rabejam serem ainda mais corajosos e másculos! Tenho boas ideias, mas sinto que é estar a dar pérolas a porcos, não querendo ofender os porcos.

Sinto que já disse tudo o que tinha a dizer sobre touradas quando escrevi este texto, tanto que nunca mais falei no assunto. No entanto, esta notícia mereceu a minha atenção até porque vivemos num mundo onde não se pode dizer que as pessoas são más, apenas que têm um problema ou que tiveram uma infância difícil. Por isso, estou preocupado com este grupo de pessoas de Benavente, que quero acreditar serem a minoria da terra: esta gente que gosta de ver touros presos a espernear enquanto um grupo de chimpanzés com ténis lhes pegam fogo tem algum tipo de problema mental. Gostar de ver violência contra animais só porque é tradição demonstra que há ali qualquer coisa naqueles cérebros que está queimada. Talvez tenham assistido demasiado perto da última vez e o calor lhes tenha derretido os apoios do cérebro, não sei.

Não sei se foi a mãe deles que fumou e bebeu durante a gravidez ou se o pai desta gente é ao mesmo tempo primo em 2º grau.

Sei que a explicação mais consensual é que a exposição a este tipo de barbárie desde pequenos lhes tenha atrofiado ali a parte do cérebro responsável pela empatia com animais. Talvez seja isso. Cá para mim são só burros e ignorantes: no caso dos homens, com inseguranças penianas; no caso das mulheres, mal fodidas devido à pequenez de carácter e de pila dos seus homens.

O que me choca não é haver gente que gosta disto porque isso vai sempre existir: ainda há gente com nostalgia da escravatura, por exemplo. O que me choca é ser permitido ou, pior, ser proibido e fazer-se na mesma, e ninguém ser responsabilizado. É que a mim também me apetecia quebrar a lei e enfiar uma tocha a arder no cu desta gente e soltá-los na rua feitos pirilampos de Chernobyl, mas já sei que depois a polícia me vem bater à porta a pedir explicações. Por isso, fico-me por lhes chamar filhos da puta.
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21 de junho de 2017

Pesadelo numa Repartição das Finanças



Bem sei que ainda só se fala sobre os incêndios, mas eu também tenho desgraças na minha vida quase tão graves e que precisam da vossa atenção. Ontem, passei o dia nas Finanças. Ontem, que foi o dia mais longo do ano, decidi utilizar todas essas horas de sol para me enfiar em repartições das Finanças. Sim, repartições, plural, mas já lá vamos. Digo-vos que já estive em funerais mais animados e, tal como nos funerais, não fui às Finanças por gosto, mas sim por necessidade que calculo ser a razão que leva toda a gente a colocar os pés numa repartição, seja cliente ou trabalhador. Acontece que submeti o IRS e parece que houve divergências, sendo que a palavra «divergências» dita pelo Estado quer dizer «Olha que nós temos sempre razão e provavelmente vais pagar multas e cenas.». Fui notificado para esclarecer essas divergências e, como bom cidadão que sou, fui logo, a correr, resolver a situação porque ficar a dever alguma coisa ao Estado é pior do que ficar a dever ao Pablo Escobar, com a diferença que a plata és tu que a tens de dar. Lá fui, de manhã, para as Finanças de Alvalade. Chego por volta das 10h, tiro a senha e calha-me o número da sorte 83. Olho para o monitor e vejo que ia na senha 40. Nada mau. Tudo o que seja não ter de dar a volta é bom.

Felizmente, as filas das Finanças ainda não são como as outras filas em que os velhos têm sempre prioridade, caso contrário, em Alvalade, a única forma de seres atendido era esperares até chegares a velho.

Faço aquele pequeno ritual de esperar uns 20 minutos e perceber a que velocidade é que aquilo está a andar. Vejo que, nesses 20 minutos, o número avançou até ao 45 e recorrendo-me dos imensos conhecimentos matemáticos que adquiri ao longo de oito anos de curso de engenharia, percebo, através de uma regra de três simples, que a este ritmo iria demorar, sensivelmente, duas horas e meia. Fui ao café, aos correios, fazer compras para o mês e li Os Maias duas vezes. Voltei, passada hora e meia, com medo de já ter perdido a minha vez mas, felizmente, ainda faltavam 20 números! Ufa, que alívio. Lá esperei, desta vez sentado ao lado de todas as outras pessoas que estavam ali com cara de enterro. Já a espera ia longa e eis que recebo o que me pareceu ser um sinal da existência divina: do 75 ao 82 ninguém se acusou para ser atendido. Tinham desistido ou falecido, seja como for, ainda bem. Ao ver o meu número no ecrã, levanto-me como se tivesse uma mola nos glúteos e tivesse feito bingo. Aproximo-me do balcão, digo bom dia e sento-me:

- Então parece que tenho umas divergências no IRS... - afirmo.
- Acontece, vamos lá ver isso então - diz a senhora, sorridente - dê-me o seu cartão do cidadão.
- Ora aqui está.
- Hum... não pode tratar das divergências aqui, tem de ser nas Finanças da sua zona. - diz-me.
- A sério? - pergunto, incrédulo.
- Pois, é Amadora Zona 3. - confirma.
- Não sabia... - digo como olhar de Bambi ao ver a mãe a morrer.
- Divergências é sempre na repartição da zona onde mora - diz como se fosse uma informação veiculada, diariamente, nos media.
- Pronto, ok, mas pode dar-me uma ideia do que é? - tento.
- Ah sim, podemos ver aqui. Não podemos é resolver. - diz.

Lá estive com a senhora a tentar perceber o que teria acontecido e ao que parece eram questões com as retenções na fonte de alguns recibos verdes. Nada de grave, mas o mais simples erro com o Estado pode significar ter de ir alugar o rabo para o Parque Eduardo VII para pagar as dívidas. Pelo que vi o erro não seria meu, mas sim de uma das entidades que me pagou. Menos mal, à partida. Descansei, agradeci, comi um rissol no café do lado e pus-me a caminho das Finanças da Reboleira.

Chego lá às 14h do dia 21 de Junho de 2017, mas parecia que tinha chegado no ano de 1980.

Pensei que o meu velhinho Clio, acabado de vir da oficina, fosse agora um DeLorean, por engano do mecânico, e me tivesse feito regressar ao passado distante onde há ventoinhas com fitas esvoaçantes em vez de ar condicionado, ecrãs CRT com protecção para os olhos, e pessoas que apenas utilizam o dedo indicador para teclar. Parecia que estava dentro de um episódio do Duarte & Companhia com a diferença de que agora já ninguém pode fumar dentro dos escritórios. De resto, tudo igual. Tal como existe o andar modelo na venda de imobiliário, aqui parecia ter encontrado a repartição museu, parada no tempo, resistente às intempéries e com alguns trabalhadores que pareciam fossilizados. Tiro uma senha, daquelas do talho porque o digital podia destoar e sai-me o número 29. Ia no 20 e celebrei por dentro ao achar que iria demorar pouco. Esqueci-me que estávamos em 1980 e que, como tal, 9 senhas equivaliam a 50, já que aqueles computadores precisam de ser reiniciados a cada operação de somar na calculadora do Windows. Ao ver aquele oásis perdido num mundo cada vez mais tecnológico, decidi recorrer ao meu telemóvel, mais potente do que todos aqueles computadores juntos, e tirar uma fotografia para ilustrar este texto que pensei logo em escrever. Sinto uns passos a aproximarem-se na minha direcção e oiço uma voz:

- Peço descupaaaa... o senhor estava a tirar uma fotografiaaaa? - diz uma senhora.
- Sim. - respondo.
- Sabe que não pode tirar fotografias aquiiii? - pergunta.
- Não, por acaso não sabia. - digo.
- Vou ter de pedir para apagar a foto, simmmm? - pergunta num tom desagradável.
- Sim, sem problema. - digo enquanto procuro na galeria de imagens.
- É que não pode tirar fotografias aqui... percebeuuuu? - pergunta no mesmo tom.
- Sim. Já apaguei. - respondo, mostrando-lhe o telemóvel.
- De certezaaaa...? - desconfia.
- Sim. - afirmo.
- Prontoooo... - diz enquanto se afasta.
Como podem ver pelo arrastar da última sílaba de cada palavra, ela utilizou um tom paternalista e arrogante. Há uma diferença entre dizer «Peço desculpa» e «Peço desculpaaaa....», enquanto se faz um sorriso falso.
- Não precisa é de ser arrogante, sabe? - digo, não me contendo.
- Desculpeeee? - diz, virando-se para trás.
- Que pode dar-me a informação e pedir para apagar sem ser arrogante. Não é preciso. - sorrio, ironicamente.
- Eu fui arroganteeee?!?!?!?! - muda o tom.
- Pareceu-me.
- Fui arrogante? Eu fui arrogante? - perguntando a toda a gente que lá estava sentada, à procura da aprovação. - Vê, ninguém acha que eu fui arrogante. - diz, depois de ninguém se manifestar contra nem a favor já que ninguém quer desautorizar a pessoa que a seguir as pode tramar com os impostos. É como arranjar stress com um empregado de mesa antes de sermos servidos ou com um cabeleireiro antes do corte. Foi pouco inteligente da minha parte, bem sei, mas não me contive.
- Pronto, se calhar eu fiz confusão. Está calor aqui e posso ter interpretado mal. - digo, a tentar desanuviar.
- Pois, deve ter sido. Se eu fosse arrogante tinha chegado aqui e tirava-lhe o telemóvel para apagar as fotografias! - diz ela, reacendendo a chama de um problema que já estava resolvido.
- Sabe que não pode fazer isso e isso não era ser arrogante, era ser parva até porque não iria conseguir tirar-me o telemóvel e podia aleijar-se.
- Humpf... - resmunga enquanto vira costas e vai embora.

Nisto, fico em modo de alerta à espera que aparecesse um qualquer agente da autoridade a tentar fazer-me um mata-leão. Comecei logo a rever as aulas de jiu jitsu, mentalmente, para me recordar das várias técnicas de inverter a posição, fazer uma chave de braço ao polícia e mamar-lhe da boca que, segundo me ensinaram, é a melhor técnica para acabar um combate. Ninguém que anda à luta está preparado para aquilo se transformar numa violação homossexual, anotem que pode dar-vos jeito no futuro. Bem, sanado o conflito, lá esperei uma hora até que sou atendido. Sento-me:

- Boa tarde, parece que tenho umas divergências no IRS. - digo.
- Ora vamos lá ver isso, diga-me o seu número de contribuinte e vamos lá ver o que é que se passa. - diz a senhora, sorridente.
- Pelo que vi nas Finanças de Alvalade tem a ver com uma entidade que não submeteu todos os recibos - advirto.
- Ah, já sabe? Então porque é que não tratou das divergências lá em Alvalade? - pergunta, confusa.
- Porque me disseram que tinha de ser aqui... - respondo.
- Porquê? - insiste.
- Porque disseram que tinha de ser na zona de residência... - digo.
- Não tem. Pode fazer onde quiser. - diz, para meu espanto.
- Ai é? Então ando eu aqui a perder tempo para nada?
- Pois, o colega lá de Alvalade não sabe nada, está visto. - brinca dizendo a verdade.
- Eu a pensar que eu é que era ignorante, afinal a senhora que me atendeu é que é incompetente.
- Ah ah, há um mês que se pode fazer onde se quiser, mas há quem não queira ter trabalho, sabe como é... - diz.
- Pois... depois ficam todos com má fama.
- Ora nem mais. Nem mais.

Não vou usar o nome verdadeiro desta senhora que me atendeu nas Finanças da Reboleira porque isto pode chegar até lá e ela não querer o protagonismo, por isso, vou usar o nome fictício de "dona Impecável" porque foi isso que ela foi: IM-PE-CÁ-VEL. Viu e reviu tudo, sempre sorridente, enquanto fazia contas numa calculadora dos anos 50, daquelas que sai papelinho, e anotava e voltava a fazer as contas para garantir que estava tudo certo. A situação não era trivial e esteve mais de uma hora a tentar perceber o que se passava e a melhor forma de resolver, mesmo já se tendo fechado a porta das Finanças e passado do horário de fecho das 15.30h. Nem com isso, por um segundo, tentou apressar-me e fazer as coisas a despachar e, mesmo quando eu já estava satisfeito voltou a confirmar, a imprimir tudo e deixar notas para garantir que se o problema voltasse a acontecer seria mais fácil de resolver. A meio da caça ao problema, onde eu ia mandando bitaites aleatórios sobre as potenciais causas, ela diz-me: «Eu até gosto disto. Quando é fácil não tem piada, isto assim é um desafio, parece um puzzle e temos de juntar as peças e perceber o problema.». 

A dona Impecável, nos seus cinquentas, a trabalhar numa repartição das Finanças, com a má fama de incompetente que isso acarreta, sem ar condicionado e com este calor, tinha gosto naquilo que fazia e isso fazia toda a diferença.

Saí de lá com o problema resolvido e mais do que isso: percebido. Uma coisa é saber que dois ao quadrado é quatro, outra é saber porque é que é quatro. Se toda a gente fosse como a dona Impecável, não havia piadas com funcionários públicos e repartições das Finanças. Felizmente, para mim que gosto fazer humor, que também há a dona Otária que me mandou ir a outro lado porque não queria trabalhar e a dona Arrogante De Merda que acreditou que eu tinha apagado a fotografia. 

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