3 de abril de 2018

Curso de exorcismo do Vaticano



Ora bem, isto parece uma notícia do Inimigo Público, mas é verdade. O Vaticano vai abrir um curso de exorcismo para fazer face ao aumento de casos de possessão demoníaca; só em Itália, há 500 mil casos por ano de pessoas que dizem estar possuídas pelo Capeta em pessoa.

Belzebu anda a possuir mais gente à força do que o violador de Telheiras.

Nem vou estar aqui a constatar o óbvio que é o facto de isto ser ridículo e um passo atrás numa Igreja Católica que parecia começar a evoluir com o Papa Francisco. Tampouco insinuarei que dizer a pessoas com problemas mentais que estão possuídas pelo demo e que um exorcismo é que faz bem e mata o bicho, em vez de procurarem ajuda médica, deveria constituir crime. O mais curioso é que o curso é pago - custa 300€ por pessoa; estranho a Igreja Católica - abastadíssima - não oferecer este curso aos seus sacerdotes para que haja o máximo número de exorcistas capazes de expulsar o demónio do corpo dos filhos de Deus e diminuir o mal na terra. Logo aqui, cheiraria a esturro, não fossem as Igrejas um grande negócio que precisa de muitos client... crentes.

O curso foi criado pela Associação Internacional de Exorcistas (AIE) - apoiada pelo Vaticano - e vai ter a duração de cinco dias. Estranho que nesse curto período de tempo se fique habilitado a lidar com tamanha força do mal como o Diabo! Pensava queria seria, no mínimo, necessária uma licenciatura Bolonha com mestrado integrado; imaginem que para tirar qualquer outra coisa de dentro do vosso corpo, que não o demónio, só era preciso um workshop tirado à pressa: «Tenha calma que eu tiro-lhe o apêndice! Tenho o certificado de cirurgião que tirei numa na semana que estive de férias na praia da Rocha.».

O curso foca-se em duas vertentes:
  • Exorcismo: tem de ser feito por um sacerdote que dá ordens ao demónio para que abandone o corpo da vítima;
  • Oração de libertação: pode ser feita por qualquer pessoa, já que é um pedido de graça feito aos anjos, santos ou à Virgem Maria para que interceda junto de Deus e ajude o possuído.
Mesmo com esta explicação no site, fiquei com algumas dúvidas e resolvi ligar para a AIE; atenderam-me em italiano, disse-lhes "Marco Bellini" e "Fiat Cinquecento" e lá nos entendemos ao ponto de chamarem alguém que falasse inglês. Disse que estava interessado no curso, perguntaram-me se era padre ou sacerdote e respondi negativamente; informaram-me que, sendo leigo, teria de enviar uma carta de intenções e uma recomendação do bispo da minha zona.

Agradeci, dizendo que falaria com o bispo e que a minha intenção era expulsar o Diabo do corpo da minha namorada, pois ressonava de tal forma que só podia estar possuída. Perguntei se só mesmo com exorcismo ou se a oração de libertação era suficiente.

Houve um silêncio estranho e a chamada caiu. Fiquei, por isso, com muitas dúvidas sobre o curso: como será a estrutura? Será só teórico? Terá exercícios práticos? Um gajo precisa de fazer exame final para ficar habilitado a exorcizar ou passam todos só porque pagaram? Dá direito a certificado para colocar no CV? Imagino que o programa seja algo do género:
  • Esquizofrenia, possessão ou birra do sono.
  • Lançamento do terço à cabeça do demo.
  • Taser, spray pimenta ou água benta? As melhores formas de imobilizar o Capeta.
  • Holy Water Break - Networking
  • Espírito bom é o contrário de espírito mau?
  • Contorcionismo ou possessão? Saiba as diferenças.
No final do curso, todos os alunos têm de expulsar o demónio do corpo de uma criança só com o auxílio de uma cruz, da bíblia e da pila. Esta última é opcional. Agora que penso nisso, isto dos exorcismos é uma excelente forma dos padres calarem as crianças: "se contas alguma coisa aos teus pais o Diabo vem e apodera-se do teu corpo" e se a criança não obedecer, dizem aos pais que é o Diabo que a está a obrigar a dizer mentiras. E, lembrei-me agora, se o curso tiver sido criado por um padre que está possuído pelo Diabo e que está a criar uma armadilha em que os alunos, em vez de aprenderem a praticar o exorcismo, estão, na verdade, a aprender de forma dissimulada uma espécie de ritual que vai dar mais poder ao espírito maligno que se apodera do corpo dos possuídos? Pois, nisso ninguém pensou. O Diabo é gajo para ser astucioso a esse ponto, o patife. E se a pessoa que estiver possuída for de uma religião diferente como é que isto funciona? Tem de se chamar um exorcista dessa religião ou estes podem expulsar qualquer diabo? E se em vez de um espírito maligno for um espírito bom e a pessoa não quiser porque é adoradora de Satanás? Há exorcistas ao contrário? E se a vítima for surda será que o Diabo que a possui ouve as ordens e as rezas do sacerdote ou assim não funcionam e acabei de descobrir as vítimas ideais para o Capeta? Tantas perguntas e tão poucas respostas.

INTERLÚDIO CONINHAS GONNA CONATE
(alguns comentários ao último texto que fiz sobre a Páscoa)

Aquece-me a alma metafórica ver que seguem atentamente os ensinamentos de bondade de Cristo. Felizmente, a maioria dos católicos tem sentido de humor e sabe que a sua religião tem incoerências passíveis de serem parodiadas e eles próprios riem com elas. Creiam em Deus se isso vos completa e vos faz melhores pessoas. Creiam em Deus como uma entidade qualquer que está para além da nossa consciência e compreensão humana. Tudo bem, respeito, invejo e não tenho nada contra desde que não tragam a religião para assuntos onde não é chamada, mas acreditar em possessões demoníacas e exorcismos é só sinal de pouca inteligência ou doença mental, ironicamente. Não é por ser mentira, porque até pode ser verdade da mesma forma que pode ser verdade eu estar a escrever este texto possuído pelo espírito da Cleópatra; é só por não haver nenhuma base científica que o sustente e, como diria Tim Minchin, se temos uma mente demasiado aberta, o cérebro corre o risco de cair.
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1 de março de 2018

Como resolver a crise na Síria



Parece que na Síria está, novamente, em alvoroço. Como tinham deixado de aparecer vídeos no nosso feed de Facebook, pensámos que já estava tudo a dançar à volta de uma fogueira e a comer cupcakes, não foi? Parece que não e só na última semana, 500 mortos, entre os quais 120 crianças. Sinto que não há grande vontade da comunidade e das grandes potências internacionais para acabar com este conflito e que partilhar vídeos chocantes não é suficiente. Por isso, achei que faria sentido dar algumas dicas práticas na esperança que cheguem aos altos cargos da ONU e se resolva a crise de uma vez por todas.

Enviar gurus motivacionais
Depois de ver um vídeo em que uma criança chorava e se lamentava por estarem num abrigo subterrâneo, sem água nem comida, e sem poderem ir lá fora buscar uma almofada para dormir mais confortáveis, dado o risco elevado de levarem com uma bomba, pensei numa solução brilhante: enviar gurus motivacionais e especialistas em coaching para as ajudarem com as seguintes frases:
  • «Estão fora da vossa zona de conforto e isso é bom!»
  • «Pedras no vosso caminho? Apanhem todas porque nunca sabem quando é que vão ter de se defender de metralhadoras.»
  • «Vocês preocupam-se demasiado com o futuro sem usufruir do presente. Há coisas que não podemos controlar, especialmente as balas perdidas.»
  • «Vivam cada dia como se fosse o último porque um dia vão acertar e esse dia será, provavelmente, ainda hoje.»

Mudar a geografia da Terra
O grande problema da Síria é que está lá longe. Nem com o mundo cada vez mais aldeia global são tratados como vizinhos e toda a gente sabe que a o nível de indignação e de tragédia depende da proximidade e do pantone do tom de pele. Exemplo: rebenta uma bombinha chinesa no nosso prédio ou um maluco anda com uma faca na mão para cortar queijos na nossa rua e gritamos "terrorismo"; rebenta uma bomba que mata dezenas de crianças inocentes do outro lado do mundo e afinal parece que é um "conflito militar". É natural, porque quando é ao pé de casa, lembra-nos que podíamos ter sido nós, já quando é lá longe, um gajo nem pensa muito nisso. Por isso, proponho que o mundo volte a ser uma Pangeia, onde todos os continentes estão ligados por terra e mais aconchegados. É agarrar em meia dúzia de barcos rebocadores e trazer a Síria ali para junto os Estados Unidos que a coisa resolve-se, isto se não construírem um muro.

Enviar negociadores a sério
A ONU perdeu tempo a negociar um cessar fogo de 30 dias. O facto de se negociarem paragens na guerra, é sinal que a guerra não é assim tão importante. Nem num jogo online um gajo faz pausa, por mais que a nossa mãe nos chame para jantar! Por isso, só imagino que uma guerra destas seja menos importante do que uma ronda de Call of Duty, o que leva a crer que podia ser evitada e só existe devido a interesses externos. No entanto, já que o pessoal das bombas está aberto a negociar, sugiro que enviem os senhores que vendem flores e óculos escuros nas ruas. Ninguém negoceia melhor do que eles e convence as pessoas a comprar coisas que nunca querem, achando que fizeram um bom negócio quando eles ficam sempre ganhar. Facilmente, lhes vendiam armas que só iriam funcionar durante um dia, tal como aquelas bugigangas com luzinhas que lhes compramos quando estamos com os copos. Ainda lhes venderiam chapéus e tiaras de princesa e guerra perderia toda a credibilidade.

Holograma de Deus
Já escrevi, anteriormente, que a melhor forma de acabar com este tipo de conflitos que têm por base a religião era criar um holograma realista de Deus. Seja que Deus for, era recriá-lo digitalmente e projectar nas nuvens ou em cima de uma bananeira. Perdoem-me a incorrecção caso não haja bananeiras na Síria, mas o meu conhecimento sobre a flora local é diminuto. Deus apareceria a dizer que não aprovava aquela guerra e que quem quisesse ir para o céu tinha de agarrar na própria arma e estourar os miolos a si mesmo. Quem não o fizesse, ficava provado que estava na guerra por questões políticas e económicas e deixava de poder usar a carta de Deus para manipular o povo. Isso e talvez a população deixasse de acreditar que Deus está a olhar por elas, mesmo quando vêem os irmãos serem mortos à sua frente e isso ajudasse a que não se resignassem e ficassem à espera de uma ajuda que nunca virá, seja divina ou de países com interesses financeiros em manter uma guerra perpétua.

Matar toda a gente
Esta solução é um bocado radical, mas do ponto de vista prático talvez fosse a única 100% fiável. A morte só é chata se ficar cá alguém para chorar, caso contrário não faz mossa a ninguém. Por isso, o que tinha de se fazer era matar toda a gente daquela região, familiares e amigos incluídos, para que ninguém que ficasse órfão ou perdesse entes queridos ficasse vivo e a sofrer com a perda. Bastava ir ao Linkedin de todas as crianças sírias e matar todas as conexões até dois ou três graus acima na hierarquia. Assim, o conflito acabava rápido e o mundo sempre era mais honesto em admitir que, no fundo, se está a borrifar para as mortes de pessoas na Síria. Como bónus, ficava-se com um terreno livre para depois fazer campos de golf ou, juntando esta ideia à da Pangeia, trazia-se a Síria para perto da Linha de Sintra e aumentavam-se os subúrbios de Lisboa para quem não tem renda para pagar casa no centro. Em termos de paisagem, a Síria destruída não iria destoar muito do Cacém, Massamá ou da Buraca.

Ensiná-los a falar inglês perfeito
Acho que isto podia mudar muita coisa. Ver e ouvir crianças a sofrer em árabe nunca tem o mesmo impacto. Primeiro, porque é uma língua que se associa logo a terrorismo, depois porque um gajo nunca sabe se não foi o tradutor que se enganou e as crianças não estão ali só a queixar-se de não ter a nova casa da Barbie ou um fidget spinner novo. Garanto-vos que se os vídeos que andam a circular fossem com uma menina síria sem o hijab e a falar um inglês perfeito, a repercussão seria muito maior e toda a gente pensava «Opá, afinal eles são humanos como nós, se calhar é melhor ajudar.» 

Enviar a Super Nanny
Tendo em conta o passado recente, penso que a Super Nanny na Síria podia ajudar a que toda a gente se revoltasse, chocada com tamanha violação dos direitos básicos das crianças. Uma coisa é levar com bombas, ver os pais e os irmãos desfeitos no que parece um móvel do IKEA sem instruções de montagem, outra coisa é serem mandados para o banquinho das pausas e depois serem gozados na escola. Com uma Super Nanny, o mundo unir-se-ia para defender os interesses das crianças! Como consequência, a guerra terminaria num instante ou, pelo menos, deixaria de ser transmitida na televisão e já não nos estragava a hora de jantar porque não há nada pior no mundo que estar a comer magret de pato com redução de vinho do Porto e estar uma criança na TV a dizer que não tem nada para comer, fazendo-nos sentir mal. Pior do que isso só se o pato estiver demasiado bem passado.

São só ideias, lembrem-se que não há ideias estúpidas num brainstorming. Sintam-se à vontade de adicionar valor e novas ideias nos comentários.

PS: Quem ficar ofendido com este texto por não perceber ironia ou por ser burro no geral, em vez de perderem tempo a comentar, podem fazer algo mais útil e ajudar neste link.
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8 de fevereiro de 2018

Facebook, temos de falar...



Facebook, temos de falar...

Quero começar por te agradecer, não gosto de ser ingrato. Agradecer-te por nos teres livrado do Hi5; agradecer-te por todo o conteúdo gratuito; agradecer-te pela forma como ligas pessoas do mundo inteiro; agradecer-te pelos memes e vídeos de gatinhos e bebés; e, acima de tudo, por me teres dado uma plataforma para escrever e fazer rir os outros e, assim, descobrir aquilo que realmente me dá prazer na vida. Agradecer-te por teres sido a minha montra e porque se não fosses tu, provavelmente, nunca estaria a viver da comédia e da escrita, faz agora um ano.

No entanto, como na maioria das relações longas, há alguém que se começa a desleixar e neste caso foste tu. Foste retirando o alcance das minhas publicações gradualmente e este ano decidiste tirar-me uma grande fatia da minha visibilidade no feed das pessoas. É desmotivamente. Reuni mais de 300 mil pessoas na minha página, sem ajudas de ninguém, só através do meu conteúdo, da generosidade das partilhas e dos likes das pessoas que gostam e, também, com a ajuda dos haters e coninhas que se ofendem por tudo e por nada. Sinto-me orgulhoso por ter reunido esse número, em apenas quatro anos, sem estar na TV, rádio ou outros media tradicionalmente impulsionadores da visibilidade. Sinto-me orgulhoso de o ter feito com o conteúdo que eu gosto e não com o conteúdo que eu acho que as pessoas vão gostar. Sei que as minhas taxas de engagement são das mais altas de Portugal e isso não se deve à minha cara bonita, nem ao facto de estar na TV e ser uma celebridade, mas apenas e só porque há quem goste do meu conteúdo. Diria que a esmagadora maioria das pessoas que seguem a página nem sabe o meu nome e não reconheceria a minha cara na rua e isso, apesar de poder ser um erro de marketing, é algo que me orgulho porque sei que o que lhes importa é o que escrevo e digo e não quem sou.

Por isso, acho injusto que me trates como uma marca. Percebo que o faças num post em que vendo bilhetes ou livros, tudo bem, não tenho problemas em patrocinar esses para que cheguem a mais pessoas. É justo. Agora, no conteúdo original que faço e que são 99% das minhas publicações? As pessoas não vêm ao Facebook para ver e consumir publicações de marcas. Ninguém está numa rede social para ver o que a Staples ou a Danone publicaram, mas estão para ver o que eu e muitos criadores de conteúdos fazem diariamente. Sei que sou uma gota no oceano, mas sei que são as páginas como a minha que trazem pessoas ao Facebook. Se as pessoas quisessem ver o que a família anda a fazer iam mais vezes aos jantares de aniversário da tia-avó.

Bem sei que fui mal-habituado e que nos deste uma plataforma nunca antes vista onde gajos como eu, sem cunhas nem jeito para o networking no meio “artístico”, podiam mostrar o seu trabalho a milhares de pessoas sem pagar nada. Bem sei que sim e é só por aí que te estou grato. Espero que quando vires os utilizadores a ir embora, como muitos já estão a ir, especialmente os mais novos, percebas o tiro no pé que estás a dar e voltes a dar às pessoas o conteúdo que elas disseram que queriam receber, embora perceba que em parte a culpa é delas que metem like em todas as páginas sem critério. Percebo que queiras fazer dinheiro e tens toda a legitimidade para isso, mas não trates quem cria conteúdo da mesma forma que tratas uma empresa que só quer vender serviços ou produtos. Tiras-me o público que eu angariei e ainda tens a lata de me enviar mensagens a dizer «Sabias que por mais 40€ podes alcançar até 7 mil pessoas?». Olha, por acaso não sabia e acho um roubo do caralho, se queres que te diga muito honestamente. Não sou rico, nem os meus pais são, por isso não vou poder pagar-te o que me pedes para chegar ao MEU público. Repara, há plataformas que pagam pelo conteúdo, já tu, ganhas dinheiro comigo com aqueles anúncios que metes ali de lado enquanto as pessoas me estão a ler. É na boa, era uma relação quid pro quo: tu davas-me espaço e público, eu dava-te tempo de antena para os teus anúncios e vivíamos bem com isso. Era justo. Agora, começo a achar que não.

Nem fiquei ressentido contigo quando me bloqueaste duas vezes sem qualquer razão e sem me deixares contestar a decisão. Uma conversa com a minha namorada que tinha a palavra violação foi o suficiente para me meteres de castigo 24h. Depois, voltaste a fazê-lo quando publiquei um comentário onde me ofendiam e chamavam nomes e ao qual respondi sem uma única caralhada. Censurei a fotografia e nome da pessoa, mas mesmo assim decidiste que era bullying. Percebo, realmente a minha resposta foi de uma categoria que destruiu o coninhas e, por isso, talvez fosse mesmo caso de bullying. Não fiquei magoado nem me queixei, pois percebo que tens um algoritmo de reports e precisas de manter a casa limpa e, às vezes, levam por tabela os que não fizeram nada de errado a não ser dizer umas verdades ou ofender gente sensível a tudo menos a causas importantes. Percebo, é na boa, faz parte. Compreendo que os teus indianos não saibam distinguir ironia em português.
Vou continuar por cá, até porque o meu conteúdo dificilmente se adapta às outras redes. Só os vídeos, que faço pouco, no YouTube, talvez. Eu escrevo, textos longos, por isso o Twitter será sempre uma plataforma secundária para mim e o Instagram é para comédia fastfood que não é a minha. Não digo fastfood no sentido negativo, atenção, há conteúdos fastfood muito bons por lá, mas simplesmente não é o meu estilo. De qualquer das formas, vou começar a andar mais também pelo Twitter (@noutracoisa), Instagram (@guilhermercd) e no YouTube (PorFalarNoutraCoisa). Se calhar começo a publicar por email ou por grupo de WhatsApp, não sei, ou faço um canal no mIRC onde vou partilhando as minhas coisas. Cá me irei safar, não precisas de te preocupar comigo, mas sinto que quem está a começar a criar conteúdo vai ter uma tarefa difícil e acabará por desistir ainda antes de saber se tem jeito ou não, e é pena porque há por aí tanta gente com talento e vontade para criar, seja em que área for.

Resta-me esperar que o público se lembre de mim quando não lhes apareço no feed durante uns tempos e venham aqui ou ao blogue ver se publiquei alguma coisa nova ou que activem as notificações ali em cima do botão Gostar e Seguir. Resta-me esperar que essas pessoas partilhem quando gostam, caso contrário a página poderá começar a morrer. Repara, por mim é na boa, Facebook, da mesma forma que me despedi para fazer isto, também volto a trabalhar na minha área de formação, sem qualquer problema. Gostava é que isso acontecesse quando o público se fartasse de mim, ou eu perdesse o gosto em fazer isto, e não porque tu não lhes mostras o que ando a fazer, mesmo depois de terem mostrado interesse nas minhas publicações e interagido com elas centenas de vezes.

Sem ressentimentos.
Guilherme Duarte a.k.a. O gajo de barba do Por Falar Noutra Coisa.
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15 de janeiro de 2018

Super Nanny: bullying gratuito ou educativo?



O novo programa da SIC, Super Nanny, está a gerar controvérsia. Será bullying gratuito ou educativo? Primeiro, o programa devia chamar-se "Pessoas que não deviam ter filhos". Vi até ao fim, para ver se nos patrocinadores do programa estava a Durex, Control e Anal. Eu já não quero ter filhos, mas calculo que um casal que estivesse a ovular, depois de ver o programa, vá antes ver uma série em vez de praticar o coito. Dei por mim a pensar «Se a Maddie era como esta Margarida, começo a compreender e a ter pena dos pais...». Aliás, estive à espera que o conselho da Super Nanny fosse «Olhe, esta não tem remédio, é deixar sozinha em casa e deixar a porta aberta a ver no que dá.».

Parece-me incoerente dizer-se a uma criança que não deve dar conversa a estranhos e depois meter-se uma estranha lá em casa a dar-lhe ordens. A criança vai ficar confusa e de cada vez que aparecer uma senhora na rua vestida de secretária de filmes pornográficos, vai fazer tudo o que ela mandar. Acho estranho que uma mãe sujeite um filho àquela exposição, embora um pouco de humilhação possa ajudar a miúda a atinar. Deve ser essa a estratégia, já que a perspectiva de vergonha a nível nacional pode ser um detractor de comportamentos desviantes como a birra com ranho por causa do iPad. Que tipo de pais sujeitam uma criança àquele vexame público? Serão o mesmo tipo de pais que educam mal uma criança ao ponto de precisar destas medidas drásticas? Pois, coiso. Já estou a imaginar a conversa da mãe com a miúda no primeiro dia das gravações:

- Margarida, ai de ti que hoje não faças birra!
- Porquê, mãe?
- Porque vem cá a Super Nanny a casa e se não te portas mal ainda corremos o risco de não aparecer na televisão!
- Está bem, mãe, prometo que vou dar o meu pior!
- Isso, berra, grita, bate-me e prometo que te deixo ver o Wuant e o D4arkFrame.

Depois, parece-me mau o estereótipo de géneros. Se em alguns países estão a proibir anúncios que coloquem mulheres como donas de casa, acho que seria sensato colocar um homem como o Super Nanny. O Super Nando, que tem cinco enteados com hiperactividade, experiente em distribuir chapadas à padrasto a torto e a direito e que impõe respeito como deve ser. Banquinho dos castigos parece-me palermice e ainda vem alguém dizer que o banco não é bom para a postura e que devia ser a poltrona de massagem dos castigos porque as crianças são o melhor do mundo. Aliás, indo na linha de que o Super Nanny devia ser um homem, penso que este programa era a oportunidade ideal para o Carlos Cruz voltar à TV.

Quem melhor do que ele sabe como persuadir crianças a fazer o que não querem? Quem é que tem mais experiência na TV a convencer crianças a comerem o que não gostam?

Sim, o orçamento iria derrapar com a compra de ténis da Nike, mas a ver se a Margarida não comia a sopa toda. A Super Nanny tem outras armas como o seu ar intimidatório, é certo. Tem ar daquelas mulheres que dizem que os homens têm medo de mulheres independentes, como desculpa para estarem encalhadas. No entanto, sinto que a produção podia ter-se esmerado um pouco ao nível da caracterização: se a Super Nanny tivesse um chicote na mão e bebés mortos à cintura, a miúda era capaz de respeitar mais. Mas isto sou eu que não sou nenhum Carlos Cruz ao nível da persuasão infantil.

Fui vendo o programa, enquanto estava no computador a ver um documentário sobre a mortalidade infantil em Angola, e fiquei chocado com o que vi na SIC. Só me passava pela cabeça o bullying que a Margarida irá sofrer na escola agora que os colegas perceberam que ela é uma criança mimada. Dizem que a minha cadela é que é raça potencialmente perigosa, mas aquela criança nem com açaime e trela curta eu deixava chegar perto. É mais fácil domesticar um diabo da Tasmânia adulto e com cadastro do que aquela linha de montagem de ranho e birras. Aliás, senti falta de técnicas à Cesar Millan, como por exemplo dar um ligeiro biqueiro nas costelas da criança quando ela não parava de estrebuchar. Isso e mandá-la dormir no chão frio da cozinha. Acho que a violência não resolve nada, mas às vezes ajuda. A minha mãe, uma vez, atirou-me um rissol congelado tipo estrela ninja sopeira e eu acalmei logo a birra.

Claro que o programa até pode dar jeito a alguns pais e dar algumas dicas importantes, não digo que não, mas que tal, em vez de um programa sensacionalista, mandarem um vídeo ou uma newsletter a todos os pais? Que tal um workshop obrigatório para ter filhos? Que tal, até, uma licença para procriar?

- Vejo aqui, na sua timeline do Facebook, que partilha citações do Pedro Chagas Freitas e que fez like num post da Maria Vieira contra a vinda dos refugiados, estou correcto?
- Está sim senhor, é uma grande mulher e o Chagas Freitas só fica atrás do Gustavo Santos.
- Pronto, para evitar sobrepopular o planeta com mais crianças que vão sair aos pais, vamos lá proceder à vasectomia e a laqueação das trompas.

Não quero estar aqui a julgar o desespero de uma mãe que a leva a recorrer à Super Nanny, (não queria, mas julgo na mesma) por isso, talvez, a culpa não seja dela, mas sim de quem achou que este programa era giro. E é, eu pelo menos ri-me. No entanto, reconheço que tem uma vantagem para a Margarida que é a de ficar com boas imagens da sua juventude. Eu só tenho filmagens tremidas, desfocadas e com grão feitas na praia de Odeceixe em 1991, já a miúda teve direito a cinco câmaras profissionais e a tudo editado para mostrar só o que interessa.
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10 de janeiro de 2018

Polémica com a H&M: afinal, não somos todos macacos



Já todos estão a par da polémica com a H&M, com uma foto no site de uma camisola a dizer «O macaco mais fixe da selva» usada por uma criança negra, certo? Deixo, desde já, a resposta certa para quando vos mostrarem a imagem e perguntarem a vossa opinião: «Hum? Polémica porquê? Não percebo! É por dizerem macaco quando os humanos não são do mesmo ramo evolucional dos macacos, mas sim partilharem um ascendente comum aos chimpanzés actuais? Se é isso, concordo, a evolução é um tema sério.». Vamos analisar as várias hipóteses que podem justificar a escolha da H&M:

1. A H&M é uma marca racista e ao ver aquela camisola, achou que ficava bem escolher um miúdo negro porque acha efectivamente que os negros são todos parecidos, fisicamente e intelectualmente, com macacos.
Esta parece ser a hipótese colocada pela maioria das pessoas que ficaram ofendidas com a imagem. Parece-me parvo, até porque os racistas que sabem que são racistas, optam por escondê-lo e não saem da toca. Uma marca, ainda por cima, mesmo que fosse racista tem como prioridade fazer dinheiro e não passar ideais que podem alienar grande parte dos seus clientes. Boicotar a marca por causa de um "erro" que pode ter sido apenas um acaso, parece-me parvo, principalmente de pessoas que pagam boa nota pela Hugo Boss que tem um passado associado ao nazismo.

2. A H&M escolheu o miúdo negro porque já sabia que ia dar merda e acreditam que a polémica é boa.
Duvido. Nos dias de hoje, este tipo de polémicas não é boa. Sim, toda a gente fala na marca, mas tens uma série de celebridades a boicotar patrocínios e afins. Uma coisa é assumir posições que dividem, outra é assumir posições que a esmagadora maioria da população rejeita. Quase ninguém acha que ser racista é fixe e mesmo os próprios racistas se escondem um bocadinho, embora com o Trump e a Maria Vieria estejam mais afoitos. Garanto-vos que a maioria dos brancos ofendidos é preconceituosa em relação a negros. Colocassem num polígrafo esses e fizessem a pergunta «Ficava contente se a sua filha casasse com um negro?» a resposta ia dar mentira, depois de tentarem dar uma de mente aberta. No entanto, as pessoas esquecem rápido e toda a gente que ficou ofendida, se lhes derem um desconto especial de 50% deixam os ideais de lado.

3. A H&M não sendo racista, tem um preconceito latente e inconscientemente escolheu o miúdo negro.
Tenho dúvidas. Pode ser, não digo que não, mas duvido. De entre as hipóteses que acusam de racismo, parece-me a menos descabida, no entanto. Talvez tenha sido um preconceito antigo e colonialista que faz com que a associação entre negros e macacos ainda esteja presente na nossa sociedade a intervir de forma subliminar. Se assim foi, o que volto a dizer que não acredito, até que ponto o pessoal da marca tem culpa? Se foi esta a situação, é legítimo apontar o dedo e discutir as causas e implicações, mas acusar de racismo é estúpido. Vivemos num mundo em que o benefício da dúvida é coisa do passado. A lei pressupõe que se sejam inocente até prova em contrário, mas isso não se aplica às redes sociais.

4. A H&M nem pensou no assunto e escolheu um modelo ao acaso
Será assim tão impossível? A mim, parece-me a hipótese mais óbvia. Não por achar que o racismo não existe ou que na equipa da H&M é tudo boa gente, mas porque acho que é o mais provável tendo em conta que a H&M é uma marca grande que tem de ter cuidados com estas coisas. Por isso, se isto passou foi apenas e só porque não foi assunto e talvez isso seja bom. Quiçá, haveria até negros na equipa que aprovou isto que também não repararam. Não sabemos.

Há ainda a hipótese de ter sido apenas porque o preto dá bem com tudo.

Pergunta para queijo: se a equipa da H&M tivesse visto esta camisola e tivesse pensado «Epá, não podemos meter um preto aqui! Já viram o que diz a t-shirt? Vá, vão lá procurar um branquelas para modelo que este não pode ser.» não seria isso mais preconceituoso? Se eles não fizeram essa associação, não serão eles melhores do que todos nós que a fizemos, tenhamos ficado ou não ofendidos? Reparem, se eu estivesse na equipa que aprovou isto, teria sido o primeiro a meter a mão no ar e dizer «Hum... odeio ser a pessoa que identificou este risco, mas... macaco e preto na mesma foto vai dar merda. Não é por mim, que eu até tenho amigos pretos e tal, mas sabem como são as pessoas... vai dar merda, minha gente. Vão por mim porque nas redes sociais tudo dá merda e isto vai dar merda da grossa. Metam aí um chinês ou um monhé só para precaver e mostrar que não somos racistas. Ciganos é que não que isto é roupa de marca.». Talvez eu seja preconceituoso ou apenas um excelente gestor de risco que tem um profundo conhecimento do que indigna as pessoas nas redes sociais, nunca saberemos. Não sou ingénuo, infelizmente. Preferia ser a pessoa que vê a foto e nem faz a associação que era sinal que tinha crescido num mundo perfeito onde o racismo nunca foi tema.

Agora, pergunto: se a marca nem pensou no assunto e foi apenas o acaso que ditou a escolha do modelo, não haverá racismo por parte de quem fez essa associação? Não seriam boas notícias para o racismo o facto de aquilo ter passado por não sei quantos olhos e nem se terem dado conta porque na cabeça deles a cor do miúdo não importa? Não será antes uma ofensa para o macaco estar a ser comparado com alguém da espécie humana? Fica no ar para pensarem antes de dormir.

Alguém escreveu na Internet que era melhor darem uma reprimenda às crianças escravas do Bangladesh que fizeram a camisola a troco de uma taça de arroz para que deixem de fazer camisolas que ofendem as pessoas. Boa observação que gostava de ter sido eu a fazer. Claro que percebo que haja negros ofendidos com isto. Acho parvo, mas percebo. Percebo de onde vem a ofensa: a comparação entre negro e macaco foi (e ainda é) usada como primeira arma de arremesso numa ofensa racista. Percebo que essas feridas estejam abertas e que façam ver maldade onde pode não haver. No entanto, há tanto racismo real no mundo e vão indignar-se com isto? Sabem porquê? Porque é fácil e está à distância de um clique. Como em 99% das polémicas das redes sociais, podem vir de um fundo bom e legítimo, mas o alvo é quase sempre mal escolhido. Bem sei que é difícil dar o benefício da dúvida ao homem branco, mas e se isto foi feito sem qualquer má intenção?


Puxar levianamente da carta do racismo é faltar ao respeito a quem sofre diariamente na pele o verdadeiro racismo de não ter as mesmas oportunidades de educação e trabalho.

Quem me conhece ou segue o que eu escrevo atentamente, sabe que o racismo é um tema que me é próximo. Já escrevi várias vezes sobre isso por devido ao sítio onde cresci ter lidado de perto com o racismo até porque ser branco nas escolas da Buraca e da Damaia não é fácil. Quando alguém da Quinta da Marinha me diz que o racismo não é um assunto relevante em Portugal, dá-me vontade de rir e sou o primeiro a dizer que é claro que existe racismo e que as oportunidades não são as mesmas para a maioria das pessoas que nascem com cor mais escura. Por isso, percebo que fiquem traumas, percebo que quando um gajo passa tanto tempo a ser vítima, às vezes puxe dessa carta inconscientemente como defesa e, muitas vezes, desculpa para aquilo que de mal nos acontece, por vezes por culpa própria. Mas, a meu ver, quem ficou ofendido com esta polémica, seja branco ou preto, é meio palerma. Não acho que o racismo desapareça por deixarmos de falar nele: acho que deve ser falado e discutido e não esquecido e varrido para debaixo do tapete, mas isto tudo parece-me ridículo, quando ainda há pouco tempo "éramos todos macacos". Quando pudermos tratar todos por igual, sem paninhos quentes ou medo de ofender com base em estereótipos, é quando o racismo vai começar a desaparecer.

A marca já veio pedir desculpas e retirar a imagem do site. Percebo, mas sonho com o dia em que as marcas tenham tomates para fazer frente ao batalhão de ofendidos. Se a imagem não foi feita com má intenção, estar a pedir desculpa é uma hipocrisia. Deviam ter dito «Minha gente, aqui na equipa ninguém fez essa associação, mas obrigado por nos lembrarem que esse preconceito ainda existe em muitas cabeças. Logo agora que vamos fazer mega-saldos de 90% e vocês que ficaram ofendidos não vão poder aproveitar. É lidar com isso e ir fazer compras na Zara. Over and out, niggas.»
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8 de janeiro de 2018

Comprar roupa: o drama de um homem branco e hetero



Sinto que há uma temática importante que a nossa sociedade recusa debater: o facto de, ano após ano, ser cada vez mais complicado, como homem branco heterossexual, comprar roupa nas lojas mais conhecidas. Sinto que nos dias de hoje, abordar este tema é como dançar sapateado num campo minado cheio de engenhos que podem explodir a qualquer momento, lançando pregos com as  palavras "homofóbico" e "racista" escritas, mas como tenho a consciência tranquila posso dar-me a esse luxo.

Começo por dizer que a imagem do post serve apenas para ilustrar. Bem sei que os gays não se vestem assim no seu quotidiano e que a parada gay é uma forma metafórica e hiperbolizada de festejar a liberdade sexual e acho muito bem. No entanto, dizer que não existe tal coisa como roupa gay é mentira. Deixando o politicamente correcto de lado, é notória a diferença que os vários grupos de pessoa marcam na forma de se vestir e, sendo certo que ser gay não é uma moda e que existem gays em todas as tribos urbanas, são sempre os que têm mais estilo, cuidado e arriscam mais.


Vês um grupo de mitras com bonés, fatos de treino e com brilhantes nas orelhas e de repente vês que um deles usa uma écharpe em vez de um cachecol para tapar a cara durante um assalto? É o gay.

Vês um grupo de góticos, todos vestidos de preto e olhos pintados com lápis e no meio destaca-se um que tem os atacadores das Doc Martens amarelos e usa uma lâmina Vênus para se cortar? É o gay. Não têm medo de arriscar e de ser diferentes. Não tenho problemas com a forma como os outros se vestem, o meu único "problema" é que a maioria das lojas está a dar preferência a esse tipo de roupa que arrisca e um gajo como eu fica sem grandes alternativas. No outro dia, entrei na ZARA e dei por mim à procura da secção de homem. Dei duas voltas e não encontrei. Abordei um dos empregados:

- Olhe, a secção de homem é onde?
- Ah... é esta toda. Esta loja é toda de homem...
- Ah... ok.

Percebi pelas sobrancelhas arranjadas do empregado e pela forma como andava, dando a parecer que era patinador, tal era a ligeireza com que deslizava ao locomover-se, que poderia interpretar a minha pergunta como ofensiva, mas não foi essa a minha intenção. Era uma pergunta legítima de um heterossexual que não tem grande noção de estilo. Vi casacos vermelhos compridos com botões dourados, vi camisolas pelo joelho e com transparências nas mangas e assumi que estivesse na secção de mulher ou no guarda-roupa do Diogo Piçarra e do Anselmo Ralph. Um erro legítimo, parece-me. Por vezes, a roupa até parece discreta, mas tem escondido um pequeno apontamento exuberante: letras nas costas com brilhantes, um forro com flores rosas, ou uma cintura demasiado estreita e descaída. O meu baixo ventre não foi feito para usar calças de cintura descaída. Ali, um homem que não use skinny jeans, camisolas daquelas que parecem um vestido, e cores berrantes com lantejoulas e golas de palhaço Batatinha, sente-se discriminado. Às vezes, só quero uma t-shirt preta, sem nada, só preta. Não quero letras roxas com estrelinhas, não quero brilhantes, não quero que seja com uma gola em V até ao umbigo, nem justinha no pneu. Sempre fui desproporcional da cintura para baixo (wink wink) com muito mais massa muscular nas pernas do que no resto do corpo. Daí, mesmo que não fosse por uma questão de gosto, é-me impossível usar skynny jeans porque se o fizer vou-me assemelhar a uma experiência falhada em laboratório entre um flamingo e um cavalo.

Sou do tempo em que havia uma clara diferença entre a roupa de homem e a roupa de mulher e em que as zonas correspondentes nas lojas eram facilmente destrinçáveis à vista desarmada. Hoje, tal não acontece. É preciso ser uma espécie de detective para perceber se estamos na secção de roupa de homem. À primeira vista, não parece, mas temos de procurar pela presença de saias ou vestidos para ter a certeza e, mesmo assim, não é garantido. Longe vão os tempos em que as cores vivas eram para as mulheres e em que os homens estavam cingidos a uma paleta de cores escuras e mortas. Não tenho problema com isso: tenho uma t-shirt laranja e outra amarela, por exemplo, sou um gajo que não nega o progresso, mas, tal como é complicado encontrar roupa quando se é um homem baixo ou gordo, começa a ser difícil sendo heterossexual e branco. Claro que sobram as lojas com roupa de tio de Cascais, com calças caqui e camisa branca com pólo azul, mas antes vestir-me como um pavão colorido do que como um gajo que gosta de touradas.

«Oh Guilherme, começaste por referir que era o homem branco heterossexual e só te vejo a escrever sobre a parte heterossexual, afinal o que é que a cor da pele tem a ver com o assunto?». Boa pergunta. Por norma, e reparem que estou sempre a generalizar sabendo que existem excepções, os negros têm uma forma diferente de vestir dos brancos. Apesar de sermos todos impactados pela mesma sociedade e moda, temos influências diferentes em várias fases da vida e o próprio facto de durante muitos anos as discrepâncias financeiras terem sido maiores entre raças, faz com que isso tudo se reflicta na forma como nos vestimos. Lembro-me de ver os meus colegas de escola com bonés dos Chicago Bulls e de querer um também, para ficar com estilo. Os meus pais compraram-me e mal o experimentei e me vi ao espelho, percebi que o único estilo que tinha era o de palerma. Vemos isso no hip-hop, cultura que influencia muitos negros: vestir merdas à parva e ficar com estilo sem saber como. Um negro safa um casaco vermelho com uma camisa amarela e uns sapatos de pele de crocodilo azul. Fica a mandar pausa. Um branco que opte pela mesma indumentária vai parecer um chulo daltónico. Acho que tem a ver com a confiança: talvez um negro arrisque mais na roupa porque tem maiores problemas com que se preocupar do que a forma como as outras pessoas olham para a maneira como se veste. Se calhar, enquanto eu estava preocupado se o casaco ficava bem com a camisa antes de ir para uma entrevista de emprego, um negro estava mais apreensivo que o entrevistador o pudesse achar demasiado escuro para a sua empresa.


Talvez seja por isso, por terem mais com que se preocupar, que arriscam roupa com mais confiança. Isso ou porque o preto dá bem com tudo, não sei.

Se pensarmos bem, isto da roupa das lojas estar cada vez menos branca e heterossexual é bom sinal. É sinal que, por um lado, temos grupos de pessoas que começam a ter mais poder de compra levando as marcas a pensar neles quando desenham as roupas e, por outro, que a sociedade está mais aberta e que outros grupos de pessoas se podem expressar através da roupa sem problemas de serem julgados. No fundo, este texto que à primeira vista pode parecer preconceituoso, é uma celebração do progresso social que temos tido. Tem bué camadas e eu sou um génio, é a conclusão que podemos, obviamente, tirar disto tudo. O problema, se é que é um problema, é que toda a nova questão da neutralidade e da fluidez de género - que diz que o masculino e feminino não são mais do que concepções culturais - assusta-me. Assusta-me porque se isso for a norma aceite pela sociedade, deixará de haver uma secção de roupa de mulher e de homem e tornar-se-á, analisando o padrão dos últimos anos, ainda mais, tudo numa grande amálgama indistinguível e onde irão dominar as pessoas que, por norma, mais gastam dinheiro em roupa: as mulheres e os gays. E pronto, lá vou eu andar com as mesmas calças de 2004 e com as mesmas tshirts que usava no secundário, todas rafadas e russas.

Dito isto, não tenho qualquer problema com a forma como as outras pessoas se vestem. Interfere zero na minha vida. Já sei que me estou a repetir, mas é importante não confundir: não tenho nada contra o Roberto querer usar botas de cano alto leopardo rosas, com um pavão a fazer de boina e com uma lanterna no rabo porque o seu animal preferido é um pirilampo. Posso gozar com isso e fazer piada como faço com o mitra de bolsa ao pescoço a pensar que é um são bernardo do gueto. A crítica nunca é baseada na orientação sexual ou raça, mas sim no ridículo que para mim possa ser vestir-se de uma ou de outra forma, tal como acho ridículo usar fato e gravata para dar uma imagem profissional e honesta quando os maiores ladrões que conhecemos são políticos e banqueiros engravatados. Só peço é uma coisa: é que as lojas comecem a ter para além da secção de homem e de mulher, uma secção de "Homem antiquado que não gosta de arriscar na vestimenta". Não é pedir muito. Vejam lá isso.
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11 de dezembro de 2017

No "ajudar" é que está o ganho



A pergunta «O que queres ser quando fores grande?», feita aos petizes, poderá começar a ter respostas inusitadas como «Quero ser presidente de uma Instituição de Solidariedade Social!». Tão querido, diremos, pensando que é com o intuito de ajudar os outros, mas não: é porque parece ser uma carreira estável e bem remunerada. Por exemplo, a minha namorada diz que gostava de trabalhar a ajudar os outros, mas que não o faz porque pagam mal. Pelos vistos estava errada. Refiro-me, claro, à reportagem da TVI sobre a gestão da "Raríssimas", uma Instituição de Solidariedade Social que visa ajudar pessoas com deficiências raras, onde, ao que parece, há utilização de dinheiros públicos e de donativos para fins pouco nobres.

Parece-me, desde já, que a reportagem é caluniosa e uma tentativa de denegrir a boa imagem da sua presidente, Paula Brito e Costa. Dizem que a senhora comprou 230€ em gambas com o dinheiro da empresa. Se agisse de má fé tinha comprado lagosta, obviamente. Assim se vê que a Paula é poupadinha. Acho inadmissível acusarem a senhora de esbanjadora e de má gestão de dinheiros públicos quando, em alguns dos vídeos, se vê a senhora a usar um leque nas reuniões. Ora, isso só poderá ser devido ao facto de ser tão mão de vaca que nem o ar condicionado liga, para que sobre dinheiro para ajudar os necessitados e/ou comprar roupa de marca. Qual é o mal?

Quem nunca disse que foi pela autoestrada e, afinal, foi pela nacional e meteu ao bolso o dinheiro da portagem? Quem nunca usou o carro da empresa para ir às meninas a Vigo?

Acusam-na de uma vida de luxo por comprar um vestido de 228€, coisa que não me parece um escândalo. Ainda no outro dia dei 200€ por um casaco, mas senti-me tão mal que a seguir fui comprar outro por 30€ na Primark que já usei várias vezes, ao contrário do primeiro que ainda está por estrear. A diferença é que o fiz com o dinheiro que me sobrou depois de pagar IRS e Segurança Social e não com donativos e subsídios públicos. Para mim, esta reportagem só prova três coisas:
  1. Que a presidente é palerma. Fazer os empregados levantarem-se de cada vez que ela passa? Andamos a brincar às princesas, está visto. Superior hierárquico meu que exigisse isso, era uma chapada à padrasto na hora. Andou um gajo com medo do serviço militar obrigatório para vir esta badameca exigir honras de nobreza e tratar os outros como súbditos de tempos feudais?
  2. Que quando ela diz que ajuda pessoas, não está a mentir! Ajuda, efectivamente, pessoas da sua família. Primeiro, o facto do marido estar lá empregado e ganhar bem para o cargo que ocupa e mesmo assim ela enviar emails a dizer que receber quase três mil euros, como responsável do armazém, é e passo a citar, "vergonhoso". Igual quando se refere ao seu filho - também empregado na instituição - como o «herdeiro da parada», demonstrando que pensa que ajudar os outros é hereditário e que a sua Instituição deve ser regida como uma monarquia o que leva a crer que está mais preocupada em manter a dinastia do que em assegurar o melhor para as pessoas que dependem da sua ajuda.
  3. Fica, também, provado que somos mesmo todos iguais e que as mulheres em cargos de poder conseguem ser tão corruptas quanto os homens.
Não acho que quem dedica a vida a ajudar os outros deva viver remediado. Acho, até, que o contrário é uma forma de atrair mais pessoas para cargos onde podem contribuir activamente para a sociedade. No entanto, há uma linha, difícil de traçar, que delimita a boa vontade da imoralidade. Tal como os ministros e deputados, será que ela precisa mesmo de um BMW que custa à empresa 900€ mensais e que está listado como carro pessoal apesar de ser usado e pago como se fosse da associação? Desculpam-se, dizendo que a presidente tem de ter boa imagem e apresentar-se em condições quando recebe gente importante, mas isso parece-me parvo tendo em conta o cargo que ocupa: um mendigo de fato e gravata, todo aprumadinho, não recebe esmola. Mesmo que eu tivesse um Ferrari, quando vou a reuniões com potenciais clientes, continuaria a levar o meu Clio de 2002 para verem que o dinheiro que peço é justo e não serve para pagar o meu estilo de vida caro. O Marcelo dá abraços e tira fotos indiscriminadamente, não é preciso a senhora estar arranjadinha para conseguir uma Marselfie.

Devo dizer que o que mais me chocou foi o número de pessoas que a Raríssimas ajuda. 800 mil? Mau. Sinto-me enganado! Raríssimas? 800 mil pessoas não é assim tão raro. Estou a ver que basta ser estrábico para conseguir uma ajudinha desta instituição. Não sei se isto é prova da boa vontade da senhora presidente ou se é mais um facto que suporta a tese da má gestão. Quem quer ajudar toda a gente não ajuda ninguém; tem de haver uma melhor triagem. Ter a condição rara de ter uma frondosa monocelha  não deveria dar direito a vales para ir à esteticista.

Se dou dinheiro a uma instituição destas conto estar a ajudar aquela criançada toda bilú mesmo a sério que não anda nem fala e que se baba toda!

Não vou estar a dar dinheiro para ajudar o senhor Belarmino que tem síndrome do lobisomem a depilar os nós dos dedos dos pés. Investigue-se que estou em crer que anda lá muita gente a mamar para além da presidente. Acho que estes casos recentes de fraudes e imoralidades em algumas instituições de solidariedade têm repercussões ainda mais graves que são as ondas de desconfiança que se replicam contra todas as outras que são bem geridas e que ajudam muita gente. Não sei quais são, mas ainda vou acreditando que as há. (Já que falamos disso, dia 16 de Janeiro, acontecerá um mega-evento de stand-up comedy «RIR Ajuda» em que a totalidade das receitas revertem a favor da Fundação do GIL. Mesmo que o dinheiro seja usado para comprar um carro de luxo, ao menos passaram uma boa noite de comédia no Altice Arena, comigo e mais 16 humoristas.)

Por fim, estamos perante um daqueles casos complicados de quem alegadamente anda a roubar, mas que ajuda outros. Tal como dizia o Dave Chappelle sobre o Bill Cosby «Ele violou, mas salvou muitas vidas, mais do que as que violou, mas provavelmente violou.». Coloca-nos numa posição complicada, a ponderar se há um cinzento entre o bem e o mal: «Será que mais valia deixar a senhora impune já que ajuda muitas pessoas? Será que essas pessoas ficam contentes se a senhora for punida, mas perderem a ajuda que têm recebido?». É dúbio. Só sei que quem voltou a eleger o Isaltino Morais não tem legitimidade para criticar a Paula Brito e Costa.


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Falta pouco para esgotar a nova data do meu espectáculo de stand up comedy em Lisboa, dia 5 de Janeiro. Agarrem os últimos bilhetes neste link.
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4 de dezembro de 2017

Faz um ano que adoptei a minha cadela



Faz hoje um ano que fui buscar a Zaya a um canil. Dias antes, tinha lá estado a filmar um vídeo - a desafio da SOS Animal - a chamar nomes a todos aqueles que, seja qual for o motivo, abandonam animais de estimação. Ir a um canil é tramado, já tinha ido a dois, mas há alguns cães que estão lá "bem", em matilha, com algum espaço para irem passando o dia a dia e, aparentemente, bem alimentados e tratados. A Zaya não era um desses casos. No final do segundo dia de gravações, já tendo tudo o que precisava, acabei por ir filmar a ala dos "cães potencialmente perigosos" que estavam fechados noutra parte do Canil Municipal de Sintra. Ao contrário dos outros, estavam numa zona fechada, sem sol, enclausurados sozinhos em jaulas com pouco mais de um metro quadrado. Entre vários, demasiados, que curiosamente rosnavam e ladravam menos do que os outros "não perigosos" e se iam chegando às grades a pedir festinhas, lá estava a que viria a chamar-se Zaya. Sozinha, toda suja e remelosa, com um comedouro de metal na boca, a tremer e a fazer olhos de quem pedia para que a levassem dali para outro lugar, fosse ele qual fosse.

Fiquei a filmá-la quase meia hora, à espera que este olhar desse mais impacto ao vídeo e incentivasse alguém a ser mais humano, mas, apesar dos 4 ou 5 milhões de visualizações, o maior impacto ficou em mim. Aquela imagem ficou e saí do canil com um peso fodido de quem não pode fazer nada para mudar aquela realidade. Cheguei a casa e mostrei as imagens à minha namorada e aqueles olhos apavorados fizeram os nossos encherem-se de lágrimas. Já andávamos a pensar adoptar um cão, mas só daí a uns meses e nunca seria um pitbull, muito menos adulto e sem se saber quais os traumas que traz de brinde. Especialmente pela minha namorada, já que eu tenho mais arcaboiço para aguentar caso o cão se passasse por algum motivo. Como perguntar não custa, tentei saber o passado daquele cão e foi aí que me disseram que era uma cadela; que tinha sido encontrada amarrada a uma árvore ao pé de um barracão no meio do mato em Sintra; e que estava ali, naquela jaula, há dois ou três meses. Era muito meiga e não tinha historial de violência nem processos em tribunal, disseram-me. «Vamos lá buscá-la… coitadinha.» disse a minha namorada depois de saber isso.

Passados dois dias, num domingo à tarde, há exactamente um ano, fomos buscá-la para passar um dia connosco e ver como se dava. Nunca mais voltou ao canil.

Quando a trouxeram da jaula vinha com um olhar de curiosidade misturado com pânico. Deram-lhe um banho rápido só para tirar aquela merda seca colada ao pelo de quem mijava e cagava onde dormia e comia porque não havia outro sítio. Enfiaram-lhe um chip na pouca carne que revestia as costelas salientes e nem refilou; meti-lhe uma trela maricas e cor de rosa que a minha namorada comprou nos chineses, e ela foi puxando até ao parque de estacionamento do canil, como se soubesse logo que era para ir embora dali. Quando lhe abri a porta do carro e entrou para o banco de trás, previamente revestido com umas toalhas, foi quando tive a certeza de que nunca mais a deixaria voltar para aquele buraco. A felicidade dela a esfregar-se naquelas toalhas mil vezes mais fofas do que o cimento frio que tinha sido a sua cama durante meses, foi o suficiente para nos convencer. Tinha aquele sorriso de cão estampado no rosto, que embora não seja um sorriso humano, interpretamos como felicidade. E acho era.

Como já veio adulta, dois anos talvez, a educação é mais desafiante. O cuidado é redobrado e apesar de se dar bem com toda a gente, nunca se sabe quando é que se pode atirar a um gajo de chapéu de cowboy azul e bigode só porque o antigo dono dela tinha esse estilo e lhe ficou o trauma. Por exemplo, da primeira vez que tirei o cinto das calças ao pé dela, encolheu-se toda e foi para um canto. Não me parece que seja um instinto inato, mas sinal que o antigo dono fazia mais do que negligenciá-la. Filho da puta. Quem é que trata assim um animal, ainda por cima um que não tem um pingo de agressividade para outras pessoas? Devia ladrar e roer coisas, portar-se como um cão talvez tenha sido esse o erro dela. Roeu-me um bocado do sofá, sim. Estragou – e ainda estraga – o chão todo com xixi e com derrapagens. Tenho a roupa cheia de pelos. Toda. O carro idem. Não me deixa dormir de manhã acordando-me com lambidelas na cara depois de, provavelmente, ter lambido o próprio cu. Ladra quando ouve outros cães. Puxa como um mini tractor quando vai de trela na rua. Já trepou para a bancada da cozinha para enfardar comida indiana que tinha acabado de trazer do restaurante, mas que como era picante serviu de emenda e nunca mais se armou em ninja que rouba comida. Partiu um candeeiro. Já destruiu duas camas dela. Já deu despesa ao ser operada a um hematoma na orelha. Já fez isto tudo e muito mais fará, mas nunca me passou pela cabeça devolvê-la como se fosse um casaco que, afinal, ao espelho e luz de casa, não nos assenta tão bem quanto isso. É chato acordar cedo ao fim de semana para a levar à rua? Um bocado. Apetece ir passeá-la numa noite de dezembro com frio e chuva? Não apetece nada. É chato andar a pedir aos meus pais ou irmão para ficarem com ela quando vou para fora e não a posso levar? É. É agradável ela não se dar com outros cães e ficar nervosa quando vê um na rua porque deve ter sido usada para lutas de visto que tem marcas no corpo e os dentes todos partidos? Nada agradável. A casa cheira a cão? Há quem diga que sim, mas nem noto.

É giro apanhar cocós da cozinha? Nem por isso, mas acordar com o cheiro a merda nem é assim tão mau, porque é sinal que já não a tenho de levar à rua.

A cena é que ela me dá muito, muito mais do que presentes de cocó. Compensa sempre. Nem é por ela, por saber que ela está melhor e que a "resgatei", como agora se diz. É mesmo por mim. É porque chegar a casa e ser recebido aos saltos e lambidelas faz com que o stress que apanhei no trânsito passe logo. É porque dar-lhe uma festa abranda um bocado o tempo. É porque ser acordado por ela é mil vezes melhor do que andar a meter o snooze no despertador. É porque enche a casa de alegria, por vezes demasiada alegria para um apartamento pequeno. «Ter um cão num apartamento não é bom.», já ouvi de alguns vizinhos. Devia estar melhor no T0 de dois metros quadrados, se calhar. Não sei queixa. Nunca a ouvi dizer «Isto é tudo muito giro, mas tenho pouco espaço aqui.» enquanto vai do sofá para a cama dela e da cama dela para o sofá e dorme 16 horas por dia. Só precisa de comida, mas menos do que a que tem tido já que veio com 18 kg e já está com 25 kg, feita lontra; precisa de passear e correr um bocado e felizmente a minha profissão permite-me estar mais tempo em casa e levá-la pelo menos três vezes à rua; e precisa de mimos, coisa que tem a mais, mas que é porque merece receber festas e carinho com retroactivos por todo o mal que sofreu, embora nem se deva lembrar. Os cães esquecem rápido e confiam na espécie humana mesmo sem merecermos.

Uma publicação partilhada por Zaya (@diariodeumabitch) a
O último cão que tinha tido morreu há 7 anos. Pensei que nunca mais fosse gostar de um não humano como gostei do Zen. Enganei-me, apesar de dizer à Zaya, várias vezes, que nunca será como ele e que se volta a mijar no tapete da sala volta para o canil. Ela abana a cauda e tenta saltar-me para o colo porque sabe que estou a brincar e porque é um cão e não percebe o que estou a dizer. O Zen e o anterior que tive, o Byte, tinham sido comprados a um criador conhecido de uns amigos. Não pensei muito nisso, na altura, só queria finalmente ter o cão que andava a pedir aos meus pais desde os seis anos. Eram de raça shar-pei e o facto de terem a característica de não ladrar foi a única forma de convencer os meus pais a ter um cão num apartamento. Depois de entrar num canil, nunca mais seria capaz de comprar um cão. Não condeno quem o faça, desde que num criador com princípios e nunca naquelas montras nojentas que algumas lojas insistem em ter. Mas, antes de comprarem, vão dar uma volta a um canil. Nunca vão encontrar uma tão fofa como a Zaya, mas pode ser que vejam por lá uns que vos olhem de forma a que vos impeça de comprar um cão sem se lembrarem que podiam, efectivamente, salvar uma vida. Sim, não tenho fotografias dela em cachorrinha para dar like no Instagram, não a vi crescer, mas felizmente vou vê-la a envelhecer e a morrer sem estar naquela jaula em que era mais humano ser abatida.

Faz hoje um ano que agradeço ao filho da puta que a maltratou e abandonou e me possibilitou ser um bocado mais feliz. Agradeço a esse gajo que para compensar a pequenez do seu pénis decidiu arranjar um "cão perigoso" para se sentir macho e depois o negligenciar e maltratar. Enquanto escrevo isto, ela está ali no sofá a olhar para mim. Deve pensar que sou uma espécie de Deus que a salvou do inferno. Tem-me em demasiada consideração. Sou só um gajo que precisa de um cão para ser completamente feliz e que percebeu que mais vale ir buscar um em sofrimento do que ser egoísta, embora haja sempre um pouco de egoísmo em ter um animal de estimação. Quando os meus outros cães morreram, um com cinco meses e o outro com cinco anos, pensei «Para que é que eu me faço passar por isto? Para que é que um gajo tem um cão e se apega tanto para depois sofrer isto tudo?». Quando a Zaya morrer a resposta será simples: para ela ter uma vida melhor e melhorar a minha.


PS: Sim, as fotografias são do Instagram da Zaya, Diário de uma Bitch, cadela diva. Podem seguir que faz parte de um projecto que ando a magicar para o ano, juntamente com o seu próprio blogue "Por Ladrar Noutra Coisa", onde vai dar o seu olhar canino sobre o mundo.

PS2: Os bilhetes para a segunda data do meu espectáculo em Lisboa já estão à venda neste link. A Zaya não estará presente, escusam de perguntar. Serei só mesmo eu, sei que não vale o mesmo, mas é o que se arranja. 
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12 de novembro de 2017

Panteão Nacional: casamentos e baptizados



Parece que houve um jantar da Web Summit no Panteão Nacional. Como sempre, as redes sociais incendiaram-se devido ao seu inato problema de rastilho curto. As pessoas ficaram indignadas por acharem que, mais uma vez, Portugal estava a oferecer o nalguedo aos estrangeiros ricos, deixando-os jantar num local "sagrado" onde tal coisa seria impensável, até então. Como o que importa é ser o primeiro a mandar um bitaite, fizeram-no antes de saberem que, afinal, é relativamente frequente jantares naquele local, organizados por empresas ou por outras entidades. Como as redes sociais têm o braço muito rígido, obviamente que não o deram a torcer e ainda se revoltaram mais. Qual a razão invocada? É ofensivo devido às personalidades sepultadas. Os mortos não ficam ofendidos nem indignados com picuinhices, mas já os vivos, esses são uns coninhas.

Portanto, um monumento construído com o dinheiro saqueado a outros países durante os Descobrimentos, edificado com mão-de-obra escrava, para adorar - em tom de ostentação - um ser imaginário que instigou cruzadas sanguinárias, tudo bem, mas jantar lá dentro é que ofende a pequenada. Palermice. Por mim, façam jantares e eventos onde quiserem, desde que não incomodem os vizinhos nem partam nada e, no fim, deixem aquilo como estava inicialmente. É só essa a minha regra. De resto, façam uma lap dance no túmulo do Eusébio que garanto-vos que ele não levaria a mal. Recitem Ana Malhoa no cenotáfio do Camões que ele é gajo para gostar. Falta de respeito para com os mortos? Não os ouvi a queixar, mas posso ir buscar um tabuleiro ouija e depois já vos confirmo. Família dos mortos? Tens um familiar no Panteão Nacional e nem tiveste de pagar o funeral como os restantes mortais e vais ser ingrato ao ponto de ficar ofendido por alguém estar a comer asinhas de frango gourmet ao lado do túmulo da tua mãe? Tem juízo, Miguel Sousa Tavares. Vejo aquilo mais como uma homenagem do que como uma ofensa.

Se da minha marquise tiver vista para um cemitério, nunca posso comer uma sandes à janela, é isso? Aos mortos cheira-lhes a presunto e ficam todos irrequietos no caixão?

A maioria das pessoas que reclamaram nem fazem a ideia de quem foi João de Deus - um dos cadáveres inquilinos no Panteão - e isso para mim é que é uma falta de respeito para com o que o morto fez em vida. Sejamos sinceros: quem ficou ofendido foram os mesmos que passaram a semana toda a dizer mal do Web Summit sem nunca lá ter ido ou saber bem o que é. É uma feira meio parola e exagerada? Claro que sim, mas a maioria das pessoas não faz ideia da enorme importância que pode ter para o país a médio e longo prazo. É um aglomerado de nerds que em 90% dos casos têm uma startup de merda ou uma app que não serve para nada fundada com o dinheiro dos pais? Sim, mas não saber ver que Portugal ser a capital do maior evento de inovação da Europa é um enorme feito, é só parvo. Estamos todos fartos de turistas, bem sei, mas quando não os tínhamos dizíamos que Portugal deveria apostar mais nele. Enfim... pessoas.

Queremos ficar indignados por estarmos a tornar monumentos em espaços de festa para gente rica? Isso é outra coisa e até posso concordar, em parte. Seria chato ir visitar a Torre de Belém e estar fechada para uma festa privada da Cristina Ferreira ou para um workshop de coaching. Agora, trazer o argumento da ofensa à honra dos mortos é só parvo. Os mortos não têm honra. Só têm nada. Deixem-nos em paz. Percebo que seja de mau tom jantar ao pé dos corpos da Amália e do Eusébio e nem um copo de vinho lhes oferecer, mas é a vida, ou a morte, neste caso.

Já que as Igrejas não pagam imposto, que rentabilizem o espaço para não termos de ser nós a pagar as obras. Se fizessem um arraial pimba no cemitério onde estão enterrados os meus avós eu ficava ofendido? Nem por isso e talvez fosse a única forma de me levarem a um cemitério. Era ter lá boas festas e ter boa pontuação no Zomato. Sou um gajo que não lida bem com a morte e que nunca vai a funerais. Prefiro celebrar a vida. Sempre achei os cemitérios meio chochos e um pouco de animação só iria fazer-nos lidar melhor com certeza da morte. Quero, por fim, deixar registado que quando morrer podem jantar à vontade na minha campa e que instalarei uma máquina de tirar imperiais na minha lápide e que o meu epitáfio será «Sirvam-se e deixem de ser coninhas que a vida é só isto».


PS1: Esta semana vou atuar em Guimarães, dia 17, às 22h. Podem comprar os bilhetes neste link, na FNAC ou no local. Apareçam e partilhem com os vossos amigos, se fazem o favor. Obrigado.

PS2: Para a semana estarei em Faro, dia 23 (bilhetes neste link), e no Funchal, dia 25 (bilhetes neste link).
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