6 de fevereiro de 2014

O meu melhor amigo está no céu



Chamava-se Zen e tinha na alma a calma e pachorrência de quem não guarda rancores. Gostava de brincar a que horas fosse, se fosse desafiado para isso. Gostava de dormir, de passear, de mimos e de maçãs. Tinha quase 6 anos quando adormeceu pela última vez à força de químicos injectados na veia. Sem dor partiu mas ficou a dor para os outros, para eu digerir.

Já foi há quase 4 anos, dia 19 de Março, dia do pai, um dia a seguir aos meus anos que fiquei sem o meu melhor amigo. Sem o meu companheiro dos dias. Sem ouvir o seu ressonar à noite a ecoar nas paredes do meu quarto ou da cozinha, quando estava mais calor. Sem alguém que vá a correr para a porta sempre que eu entro em casa, com uma alegria desmedida, fosse a minha ausência de 5 minutos ou 5 dias. Sem alguém que fosse apanhar os bocados de comida do chão que caíam enquanto eu estava a preparar o jantar, ou o lanche. Sem alguém que viesse ter comigo e fazer-me sentir que fosse qual fosse o problema tudo iria ficar bem.

Desde que me lembro de ser gente que me lembro de querer um cão. No meu diário quando tinha 12 anos escrevi "O meu maior sonho era ter um cão ou ter os poderes do Songoku" e isto diz muito sobre o quanto eu queria ter um cão, porque ter os poderes do Songoku era do catano. Mas os meus pais nunca foram na conversa durante anos, até que, sem saberem como, já com mais de 20 lhes dei a volta. Apaixonaram-se por ele no momento em que o viram. Os xixis ocasionais no tapete do corredor, os chinelos roídos e os pelos no sofá deixaram de ser problema. Era mais um lá em casa que sujava.

Era o melhor cão do mundo e eu tentei ser o melhor dono possível, e acho que fui. Passei os últimos 3 meses da vida dele a dar-lhe comida à boca, a comprar toda a comida possível para lhe despertar o apetite, a cozinhar para ele. A dar-lhe antibióticos de 4 em 4 horas, todos os dias na esperança, que era pouca, que ele melhorasse e não se fosse. Apesar dessa dedicação lhe ter dado mais 2 meses do que o prognóstico inicial, acabou por ir. Vi-lhe os olhos a fechar e o corpo a abater-se quando se lhe entrou o líquido da seringa. A médica disse que era melhor eu não estar presente, mas eu estive. Ele merecia isso. Merecia que eu fosse a última coisa que ele visse, que estivesse calmo antes de lhe darem o sedativo. Merecia que eu lhe desse uma festa e dissesse que ia correr tudo, que depois disso já não ia sofrer a tentar respirar, porque já não ia precisar de o fazer.

São poucas as pessoas que amei mais do que amei o meu cão. Mais que muita gente que é ligada a mim por sangue. Quando ele já estava muito doente, a minha mãe ligou-me quando eu estava fora de casa. Eu atendo e vejo na voz dela que algo não estava bem, pensei que tivesse chegado o dia, mas não. Era um tio meu que tinha morrido de ataque cardíaco. Quis ficar triste mas não consegui. O alívio de não ter sido o Zen a morrer foi maior.

Quem não tem, ou nunca teve provavelmente não compreende. Não consegue conceber como se consegue gostar tanto de um animal, que para mim era uma pessoa. Não tenho filhos, mas gostava dele como se fosse um. E quem diz que não se deve comparar que vá à merda, porque eu trocava o teu filho por o meu cão sem pensar 1 vez. Saber que há pessoas capazes de abandonar um cão, ou de o mal tratar de outras formas, faz-me querer estar com elas cara-a-cara numa sala fechada onde as leis não se aplicam. Deviam ser abatidas mas sem a bondade de uma morte calma e indolor como foi a do Zen.

Quando foi operado da primeira vez, ainda novo, ficou sem me "falar" 2 dias. Sem aceitar biscoitos da minha mão, sem querer festas, sem dormir no meu quarto. Depois perdoou tudo. 2 dias foram o suficiente para esquecer o sofrimento horrível que passou sem compreender nada. 2 dias bastaram para me perdoar na culpa que não tinha, mas que ele não sabia. 2 dias para voltar a amar incondicionalmente e sem remorsos, sem ressentimento. Só um cão consegue fazer isso.

Sempre pensei que o pior que podia acontecer era ter que se decidir quando abater um cão. Talvez pela palavra abater, que é horrível. Talvez por me ter morrido antes um, com 5 meses, no colo, de repente. Sempre achei que era pior ter que se decidir por fim à vida do nosso melhor amigo quando ele ainda dá sinais de dela e de alegria ocasional. Quando por muito mal que esteja haja sempre esperança de recuperar. Mas não foi difícil. Foi fácil. Foi perceber que era egoísmo ele continuar vivo. Na noite dos meus anos decidi que de manhã iria dar-lhe paz. Ele sempre me apaziguou e acalmou, sempre me tirou a depressão ao deixar fazer-lhe uma festa no focinho enrugado, e eu, como melhor amigo dele, tive que o deixar ir. Foi fácil. O difícil é lembrar-me dele todos os dias e saber que nunca mais o vou ver. Porque o céu onde ele está não existe, só existe onde ele deitava a cabeça para dormir. No meu peito.

P.S. - Não se assustem que isto não se vai tornar um blogue sério e lamechas! Não tarda já levam com um texto parvo, como é hábito.
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5 de fevereiro de 2014

Estranho num funeral



Não sou adepto de funerais. Não puxam por mim. Só fui a dois até hoje, e nenhum deles era de pessoas próximas. As poucas pessoas próximas que morreram optei por não ir. Não concordo com o negócio da morte e o espectáculo triste que se monta à volta. Prefiro ficar com a última imagem da pessoa em vida. Não preciso de um funeral para fechar o assunto, mas compreendo quem precise. Um fui por vontade própria para dar apoio a um amigo meu que tinha perdido o pai. Fui por ele apenas, porque achei que o meu apoio era importante. Outro fui apanhado na curva. Tive que a ir a um funeral do avô de uma ex-namorada minha. Lá tive eu que ir ao funeral do velho que não conhecia de lado nenhum e que reza a lenda só passou a ser boa pessoa depois de morrer.

Ninguém diz "A última vez que vi o António foi no caixão, mesmo antes de enterrar". Ninguém diz isto e era verdade para muita gente. Muita gente diz "ainda a semana passada estive com ele". E então? Que interessa isso? Era suposto que esse facto lhe tivesse curado o cancro? Ou que não viesse um comboio e o colhesse só porque o tinhas visto há 7 dias? Há pessoas egocêntricas.

Ir a um funeral de uma pessoa cuja morte te é indiferente é complicado. É complicado porque não te podes rir. Ninguém vai interpretar o riso de um estranho num funeral de uma forma leve e descontraída como quando um dos familiares próximos se começa a rir de forma incontrolável por descargo de stress ou por outra razão, como tantas vezes acontece. E o pior é que na minha cabeça começam a passar uma vasta panóplia de piadas de mau gosto que não posso contar a ninguém. Mas ficam na minha cabeça e começam a ter cada vez mais piada e eu tenho que me controlar para não rir. Humor "negro" é a minha "praia" ("negro" das capas do traje e "praia" do Meco), e porem-me num funeral de alguém que não conheço é como meterem uma criancinha de fralda tanga à frente de um padre.

A propósito de funerais, a minha namorada trabalha num lar e então tem que ir a vários enterros e velórios e essas coisas giras. Não tem que ir mas fica bem, apesar de ser um cliente que nunca mais se vai fidelizar. E uma vez foi a um errado e começou a achar estranho quando toda a gente a olhava de lado e não via ninguém conhecido. Claramente que estavam a pensar que seria a amante ou uma filha bastarda que estava ali para reclamar a sua parte da herança. Mas segundo ela "oh isso foi só uma vez, já fui a muitos que correram bem".

E pronto é isto que tinha para vos contar hoje. Bem sei que já foram a funerais mais divertidos do que este post mas a inspiração é como o período para quem pratica coito interrompido. Há vezes que não vem.
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4 de fevereiro de 2014

Licenciaturas de curta duração



Pois é, está na ordem do dia a nova medida que o governo quer tomar: A criação de cursos superiores de curta duração, ou como são tecnicamente denominados "Licenciaturas-Relvas".

Não tenho grande opinião sobre o assunto. Pode correr bem, pode correr mal. Acho já há muito tempo que muitas das licenciaturas convencionais são uma perda de tempo. Há matéria a mais, teoria a mais e prática a menos. São poucos os cursos que nos preparam realmente para o mercado de trabalho, por isso uma coisa curta e mais profissionalizada pode não ser mau (isto é o que dizem muitos gajos com complexo de pila pequena). Mas também pode ser uma merda. Como disse não tenho grande opinião sobre o assunto, só estou a escrever sobre isto porque me lembrei do Relvas mal li a notícia. Do Sócrates também, mas mais do Relvas.

Por exemplo eu tirei o curso de Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico (para quem não conhece é assim uma espécie de Hell's Kitchen das Universidades) e fui trabalhar para consultoria, onde talvez 90% do pessoal vai parar. Tive alguma cadeira de consultoria? De bases? De como falar com clientes? De como gerir prioridades, prazos, das várias áreas que existem dentro da consultoria? Nada. Nicles. Se tive foi daquelas a que não fui, que só apareci no exame e já nem me lembro do que se tratava. É possível, não digo que não, mas duvido. Se tirassem a matéria de encher chouriços do meu curso ficava provavelmente com 2 anos, ou 5 matrículas, aplicando o factor de proporcionalidade de aproveitamento do IST.

Bem, voltando à notícia. Estes cursos vão servir provavelmente para quem as tirar ser desvalorizado no mercado de trabalho e como tem uma "meia-licenciatura" lhe pagarem menos, apesar de poder saber mais. Isto sou eu a dar uma de Maya e prever o futuro, mas cheira-me que vai acontecer. Antigamente quem não tinha curso não arranjava trabalho, hoje em dia quem tem curso omite-o do CV para conseguir trabalhar no McDonalds ou no IKEA. Por isso a "meia-licenciatura" pode ser o meio termo que andávamos à procura.

Já que estamos nesta de licenciaturas quero só dizer que quem vai tirar o curso de Antropologia ou Sociologia e não consegue depois trabalhar na área só têm a eles para culpar. O meu irmão também queria ser Dragão com fogo para assar castanhas mas com a falta de procura acabou por mudar de ideias. "Ai mas deviam reduzir as vagas consoante a procura!". Não sei se concordo. Depois para tirar um determinado curso que só tem 5 vagas a média ia subir estupidamente, e como se vê no caso da Medicina, nem sempre são os melhores alunos que têm mais vocação. Há marrões com média de 19 que são umas abéculas (o meu corrector não reconhece a palavra abéculas...) a lidar com pessoas, e chamem-me picuinhas mas acho que essa é uma característica essencial num bom médico. Mas isto dava pano para mangas e hoje estou de colete.

Portanto, em jeito de conclusão, deixem ver no que isto vai dar. Se calhar até corre bem. Eu já estou naquela fase que é deixar experimentar. Já que eles estão numa de jogar SimCity sem fazer SaveGame é deixá-los andar até isto rebentar (No Dubai joga-se com cheats e assim nem tem piada). Até lá vamos vendo, opinando e tendo assunto para falar no café com os amigos em dias que não houve jogo de futebol nem está a dar a Casa dos Segredos.

Adeus um bem haja, até logo e, para quem está na faculdade, estudem muito para os exames. Mas também se chumbarem não se preocupem, porque ganham currículo para chegar a Dux.
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3 de fevereiro de 2014

Estamos todos ligados



Apesar de andarmos sempre às turras uns com os outros e de sermos todos tão diferentes, gosto de pensar que há coisas que nos unem e que provam que somos um só. Não no sentido espiritual que não acredito nessas tretas, mas no sentido que viemos todos do mesmo sítio e que vamos todos parar ao mesmo lugar, seja debaixo da terra ou no pote de cinzas em cima do naperon de uma prateleira.
  1. Virar a almofada no verão para termos aquele fresquinho durante 3 segundos;
  2. Sentirmos um misto de emoções quando nos sentamos da sanita e o tampo ainda está morno porque saiu de lá alguém há pouco tempo. Por um lado é nojento mas por outro sabe bem não termos que sentir o frio nas nalgas;
  3. Aquela vez que confiámos que o flato que íamos largar não ia cheirar mal e ele nos provou que estávamos errados e tivemos que fazer alguma manobra de diversão;
  4. Não ter coragem de dizer na cara dos pais que o seu bebé não é assim tão lindo mesmo que seja daqueles mais feios que um coelho atropelado e deixado no asfalto ao sol durante dias;
  5. Aquelas merdas que aparecem nos olhos que parecem bactérias vistas ao microscópio e que não conseguimos apanhá-las com os olhos porque elas fogem sempre;
  6. Quando pedimos vinho num restaurante e nos vêm servir um bocadinho (esta é para os homens) para provarmos. E não percebemos nada de vinho mas fazemos sempre que sim e depois acenamos com a cabeça ao empregado. Já alguém disse? "Nah isto não está no ponto, é para ir para trás"? Nunca...;
  7. Quando damos cedência de passagem a alguém e essa pessoa não arranca logo passamos em instantes de "faz favor de passar" com um sorriso na cara para "não andas porquê ó meu anormal do caralho????";
  8. Sempre que te ligam e é engano e dizes "Deve ser engano" e desligas. Ficas sempre a pensar que devias ter dito "Sim senhor é o próprio, como estás?" Só para ver onde é que aquilo ia dar;
  9. Quando nos ligam e estávamos a dormir e se nos perguntam "Acordei-te"... Dizemos sempre "Não... ainda estou na cama mas já estava acordado";
  10. Ficares todo molhado ao lavares uma colher e pensares que és mesmo burro porque já é a centésima vez que acontece;
  11. Entrarmos numas escadas rolantes paradas e deixarmos de saber andar normalmente por segundos.
Vá confessem lá que já passaram por pelo menos 5 destas situações. Se não passaram deixem-me que vos diga que alguma coisa está errado com vocês.

P.S. - O grande George Carlin abordou este tema de forma genial num dos seus espectáculos. Podem ver aqui. Se não conheciam o George Carlin não precisam de agradecer. Se por acaso não gostam dele deixem-me dizer que provavelmente são burros.
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Philip Seymour Heroinoffman



Pois é, quinou mais um artista devido a drogas. Eu gostava bastante dele como actor, apesar de ter um certo ar de pedófilo. Não sei porquê, mas tem! E isso ainda se torna mais evidente com a batina de padre. Mais um de muitos que têm o mundo a seus pés mas preferem ter os pés calçados com as pantufas da droga. Parece que a vida de actor, milionário e mundialmente aclamado é demasiado aborrecida para não se precisar de tóxicos. Lá vão os gajos dos Óscares ter que editar outra vez o vídeo que passam sempre com o pessoal que morreu desde a última cerimónia. Mesmo depois de mortos continuam a dar trabalho.

Eu consigo ter compaixão para com alguns toxicodependentes, até já fui assaltado por um e não o condeno. A vida é uma merda para muitas pessoas e os escapes tomam conta delas. A droga é boa, se não fosse não havia dependentes, ninguém experimentava segunda vez. A droga é melhor que a vida de muitos que caiem nela. Pelo menos no início, quando o prazer é maior que a dor e estrago que causa. Com o tempo esse rácio vai-se invertendo, até ser só dor e depois o nada. Mas acho que quem se mete nela é parvo. A grande maioria pelo menos.

Agora, não consigo é compreender quem tem uma vida boa, dinheiro, fama, sucesso, saúde (pelo menos física), faz o que gosta e se mete nessa merda. "Ai porque eles não conseguem lidar com o sucesso e com a fama!". Aí não? Fácil. Deixem de ser actores, ou cantores ou o que seja, doem a fortuna a uma causa solidária e vão trabalhar para o McDonalds. Acabam-se logo as finezas. 

Não consigo ter pena de um gajo destes, mesmo sem conhecer a fundo a sua história de vida, confesso. Mas se ele precisa de um escape que o levou à morte, então o que dizer dos milhões de pessoas que vivem na miséria e que todos os dias se levantam para ir trabalhar 16 horas por tostões? Ou das que passam fome por não ter trabalho... Esses é que precisam de fugir à realidade. Este que tivesse arranjado um hobbie em vez de espetar agulhas no braço. Tanta coisa gira para se fazer com o dinheiro que ele tinha e vai injectar-se com heroína, que até é das drogas mais baratas. No fundo era um gajo simples.

Já se perderam muitos bons artistas, novos demais, que deixaram no ar a dúvida do trabalho genial que ainda tinham para dar a todos nós. Mas eu não tenho pena. Tenho pena de não lhes poder apreciar mais a arte em que eram mestres mas não tenho pena que tenham morrido. A droga é má mas as pessoas são piores. Já escrevi sobre isso anteriormente por isso não me vou repetir.

E pronto é esta a minha homenagem ao Philip. Era um excelente actor, morreu, e muito provavelmente só a ele se deve isso. Azar, temos pena, que descanse em paz e que haja muitas drogas no céu para que ele não se aborreça por lá. E já agora que o Justin Bieber se apresse a fazer-lhe companhia.
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1 de fevereiro de 2014

Para que realmente serve o Facebook?



Hoje o post é curto e directo ao assunto que é Sábado e eu tenho mais que fazer. Para que serve realmente o Facebook? Serve para muita coisa, mas hoje destaco apenas duas. As que me dão mais prazer.
  1. Descobrirmos aquele ou aquela colega de escola que tinha a puta da mania e que agora estão mais feios e acabados que um vão de escada do Intendente;
  2. Também serve para ver que as raparigas que gostámos enquanto petizes teriam sido um mau investimento no futuro.
Obrigado Mark Zuckerberg!
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