6 de agosto de 2014

Os 10 melhores músicos portugueses


Depois deste texto sobre o estado actual da música portuguesa fazia sentido eu escrever sobre quais os meus músicos portugueses favoritos, ou os que mais me marcaram, só para verem que eu tenho realmente muito bom gosto e não estou a falar de sabor.

Esta lista vale o que vale, estarão outros de fora com igual ou maior valor, mas para agora são os que me lembrei e alguns dos grandes cantores, letristas, compositores e artistas que temos no nosso país, e que na sua maioria não dão o rabinho às editoras, rádios e televisões.

Pedro Abrunhosa
A A prova que para ser um grande cantor não é preciso uma boa voz. É preciso saber as limitações que se tem, e no caso do Pedro Abrunhosa isso é feito compondo letras e melodias de se lhe tirar o chapéu.

Delfins
Na altura do Levanta-te e Ri virou a banda de chacota nacional mas não podemos esquecer os seus tempos áureos em que para mim, eram uma das melhores bandas portuguesas. Estavam sempre nas minhas cassetes do walkman.

B Fachada
Um novo valor que já não é assim tão novo, dado a quantidade industrial de álbuns que conseguiu produzir em poucos anos. Voltou agora depois de um ano sabático e continua a inovar e a fazer músicas fantásticas. Para mim é o melhor novo valor da música portuguesa e se continuar a este ritmo, poderá ser um dos melhores de sempre. Mais um que compensa a falta de uma voz poderosa com um timbre e carisma único.

Sérgio Godinho
A A prova que as drogas também têm coisas boas. Um mago da língua portuguesa que consegue reunir fãs de todas as idades e que conseguiu envelhecer sem perder a graça. Já rappava antes de haver rap.

Manuel Cruz
Este senhor é um génio da composição e da escrita. Os Ornatos Violeta foram provavelmente uma das melhores bandas de sempre, poucas tiveram tanto impacto e tanta música brutal com apenas dois álbuns. Continua a solo ou com outras bandas, sempre com a brindar-nos com música de qualidade.

Jorge Palma
O Jorge Palma alcoólico é o mais genial cantor, compositor e letrista que este país já viu, na minha opinião. O Jorge Palma sóbrio é também muito bom mas falta-lhe qualquer coisa.

Sam the Kid
Se não tivesse nascido na geração do Hip Hop provavelmente seria um poeta que iria ser estudado nas escolas. Se tivesse nascido nos Estados Unidos era provavelmente um dos produtores e compositores mais aclamados da indústria musical.  

Valete
Hip Hop consciente ao mais alto nível. Este senhor sabe do que escreve e sabe como escrever. A par do Sam é o melhor rapper que Portugal já viu, com letras mais inteligentes e cuidadas do que 99% de todas as que passam nas rádios e TV. Além desse talento todo é um gajo porreiro.

António Variações
Um visionário à frente do seu tempo. Morreu aos 40 e conseguiu marcar a música portuguesa para sempre. Destes não há muitos em cada século. Era cabeleireiro e homossexual, aí não foi muito irreverente que é um bocado cliché.

Zeca Afonso
Com a simplicidade de acordes e de rimas consegui fazer da cantiga uma arma. Na voz carregava o peso de um povo oprimido pela ditadura. Termos tido um Zeca Afonso é das poucas coisas boas que devemos agradecer ao Salazar.

Chamaram-me à atenção por não haver mulheres na lista, embora esteja lá o António Variações. Peço desculpa, não me consegui conter. Mas posso acrescentar que gosto muito dos Deolinda, da Capicua, da nova geração de fadistas, da Teresa Salgueiro e da Rita Guerra. Esta última era a gozar claro.

E vocês o que acham? Concordam? Não? Sim? Talvez? Mandem bitaites que isto sem vocês não tem tanta piada.


PS - Se não leram o texto sobre o estado da música portuguesa é clicar aqui.
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O estado da música portuguesa



A música portuguesa vive um período estranho. Uma época em que para se editar um disco há apenas a condição de ter que ter participado na Casa dos Segredos. Em que não só não é preciso ter uma boa voz, como se pode ter a voz de um rouxinol autista que acabou de rasgar as cordas vocais a felaciar um pica pau. É também uma época em que quem enche Coliseus tem que ter Carreira no nome e uma época em que alguns desses Carreiras só têm uma carreira derivado ao nome que têm, em que são convidados para júris de programas musicais e quando cantam fazem pior figura que a maioria dos concorrentes. Uma época em que os outros que estão a ver batem palmas e fingem que gostam, quando no fundo devem detestar estar ali a dividir o palco com artistas claramente inferiores. Eu até admiro o Tony Carreira e as suas crias, parecem-me genuinamente boas pessoas e sabem trabalhar a sua marca pessoal como ninguém na indústria da música em Portugal. Portanto têm o seu valor, mas quando olhamos para as vozes e para as letras, faz confusão só se conseguir rimar em "ar", "er" e "ir", fora a quantidade abusiva de rimas com "coração", "paixão" e "dá-me a tua mão". Mas pronto, já há uns anos que se rimava "melão" com "coração" que é, provavelmente, bastante pior.


Sou do tempo em que o Quim Barreiros queria cheirar o bacalhau da Maria e em que o Nel Monteiro cantava "Puta, Vida, Merda e Cagalhões" 

Quem tem uma cassete com este nome tem de ter o seu valor. Sou do tempo em que o pimba era pimba e não havia mal nenhum nisso, em que os reis do pimba não transbordavam para o resto das áreas musicais. Não tenho problema nenhum com o pimba se for feito para animar arraiais e festas de terrinha, também faz parte da nossa cultura e identidade, mas como tudo o que se começa a levar demasiado a sério e a ser pretensioso, perde a piada.

Sou ainda do tempo em que se assistiu ao fenómeno das Boys e Girls bands, estas últimas com menos sucesso porque os homens não passam pela fase de pita histérica. Dos Excesso, dos Millenium, dos D'Arrasar, dos 7º Céu, dos Maxi e de todos os sucedâneos que foram aparecendo. Mas a culpa é como na droga, é de quem consome. Talvez eu esteja a ficar como os velhos do restelo que diziam que Hip Hop era música de drogados, mas faz-me confusão ver miúdas à porta de concertos do Justin Bieber e dos One Direction aos berros e a desmaiar, sem ninguém as abater e lhes acabar com o sofrimento. Faz-me ainda mais confusão a maioria, possivelmente (de certeza vá) nem fazer ideia de quem foi Zeca Afonso, ou pior, pensar que foi um ministro das finanças, já que do que se passa no país também não devem saber muito.

Há poucos apoios para a música portuguesa bem sabemos, há poucos apoios para tudo, mas o que me faz mais confusão é não se dar tempo de antena a música de qualidade. Se calhar passa música portuguesa na TV como há muito não passava, mas infelizmente é 99% péssima, ou sem qualidade e ainda temos que levar com o Nuno Eiró a apresentar. Já agora, se por acaso quiserem cantar num desses programas deixo aqui os requisitos mínimos:
  • Gel no cabelo no caso dos homens
  • Vestir-se de prostituta no caso das mulheres
  • Ter bailarinas que são strippers nas horas vagas e ainda assim o pai tem mais vergonha de dizer que a filha dança na banda do Cajó Oliveira
  • Não saber fazer playback
  • Achar que os anos 80 foram o pináculo da moda
  • Pensar que ser produtor é fazer play naquele ficheiro midi que é usado para marcar o ritmo de 90% das músicas
  • Ter pouco amor próprio
Apesar disto tudo começam a aparecer cada vez mais bandas de grande qualidade. Começa-se também a perder a mania de cantar em inglês. E digo felizmente porque na grande maioria dos casos é porque não sabem escrever em português. Porque é mais difícil e em inglês conseguem disfarçar melhor a inabilidade para a escrita. Também há quem cante em inglês com qualidade, como é o caso do David Fonseca, do Paulo Furtado ou dos The Gift antes da Sónia Tavares começar a dar nos ácidos.

Os gostos não se discutem, é certo, o mercado é moldado pela procura mas também pelo que se dá a conhecer às pessoas. E há casos onde a qualidade deve ser quase que imposta. Há cantores que deviam ser estudados de tanto que ajudaram a moldar-nos enquanto povo e do quanto marcaram a história. Os outros, que agora são idolatrados, no futuro não vão passar de mais uma entrevista dos Perdidos e Achados da SIC.


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PS1 - Quem quiser ler o que já escrevi sobre as atrocidades que se cantam por este nosso belo Portugal pode ler estes:
PS2 - Se quiserem saber quais as minhas bandas/cantores portugueses favoritos é clicar aqui. Se não quiserem, amigos como dantes.
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4 de agosto de 2014

Pessoas que têm nojo de cenas invisíveis



O meu irmão quando era mais novo lavava as mãos depois de tocar em qualquer lado e andava a cheirar os dedos de 5 em 5 minutos num ritual que era mais nojento do que o nojo que ele tinha dos germes. Depois passou-lhe e hoje em dia é, aparentemente, uma pessoa normal. Mas há quem viva com essa mania, uns casos mais graves que outros. Há pancadas para tudo e algumas, como esta, não consigo perceber. Ainda por cima este cuidado com os germes tem o efeito contrário. Quando menos exposição a eles, com menos defesas ficamos, portanto é uma pancada que para além dos males que pode causar à vida pessoal acaba por poder afectar realmente a saúde. A ironia é uma badalhoca do caraças. 

Uma vez estava na fila do supermercado e o senhor que estava à minha frente virou-se para mim num tom altamente agressivo: "Já é a segunda vez que me respira para cima, que falta de educação!". Só me apeteceu dar-lhe um par de estalos mas como ainda só tinha 15 anos e era um xoninhas, pedi desculpa. Mas no fundo compreendo, ele tinha menos 20cm que eu e era careca, deve ter sentido bem o vento na moleirinha. Fora a forma como falou talvez tenha tido razão, eu também não gosto que me respirem para cima, ou que pessoas sebosas me toquem e eu tinha vindo da praia e estava realmente um bocado sarrabeco.

O medo obsessivo-compulsivo dos germes é uma doença psicológica grave, chama-se misofobia é uma forma de alucinação e distorção da realidade. Imagino que vejam gafanhotos gigantes e santolas de língua de fora em qualquer local passível de haver germes. Pessoas que abrem a porta com os cotovelos? Era uma cotovelada na nuca para deixarem de ser parvos. Quando funcionar tudo com impressão digital como é que eles fazem? Abrem uma porta e toca a esfregar o dedo?

E se uma pessoa com misofobia só arranjar um trabalho que envolva merda? Desentupir sanitas, estrumar terra, ou trabalhar na Assembleia da República?

Como é que mexem no dinheiro? Dinheiro deve ser a coisa mais nojenta que existe se formos a pensar bem nisso. Aquelas notas e moedas que temos na carteira, provavelmente já passaram pelas mãos de uma prostituta de rua suada, que acabou de receber o pagamento por um serviço e guardou as notas no meio do decote, possivelmente sujo de girinos. Nojo. E se quem sofre desta doença (pancada) ficar temporariamente cego e alguém os tiver que levar por uma mão? Estou bem tramados... aliás em qualquer cenário de guerra e apocalíptico esta gente é a primeira a ser morta porque ninguém está para os ouvir com as preocupações de higiene desnecessárias.

E agora o mais importante: como é que esta gente se governa na vida íntima? Haverá chavascal do bom, ou é tudo a meter nojo e com o menos contacto possível? Calculo que sejam os maiores compradores de toalhitas e sprays desinfectantes. O pior é que estes últimos devem arder. Quem tem esta pancada, a namorada ou namorado estão tramados, devem ter a genitália mais gasta que a de uma actriz porno em fim de carreira, de tanta vez que têm que ir lavar as vergonhas com água rás para matar a bicharada. Não sei porquê, mas imagino este pessoal como sendo sempre da zona de Cascaias: "Ó crido, vá lá lavar o Bernardinho com água de rosas importada da Polinésia, se não não entra aqui na vagina. E com as mãos e boca já sabe que é nojento isso, só com luvas de cirurgião e a bochechar elixir bocal entre cada basculação".

Por fim temos os campeões do mete nojo que são os asiáticos de máscara. Só dá vontade de lhes ir levantar aquilo e tossir-lhes na cara. 

Mas aquelas tosses puxadas cá do fundo da alma que se ouve o ronco do motor e quase que sai sangue. Na altura da gripe A e tal, com o pânico todo que havia ainda compreendo, ou nas cidades da China em que o ar é irrespirável também. Agora nos aeroportos e a passear por cidades da Europa? Um par de estalos.

Há ainda aquele pessoal que não tendo misofobia, faz aquele ritual de estofar o tampo da sanita com papel higiénico. Esse ritual também é bastante parvo, já que é sabido que em termos de servir como barreira aos germes não serve para nada, só mesmo como barreira psicológica. Eu nunca me preocupo com isso, sou um javardão, se parece limpo, passa-se papel para confirmar e toca a sentar meus delicados glúteos. O pior é quando o tampo ainda está morninho e se dá uma verdadeira dicotomia de sentimentos: por um lado sabe bem não ter que sentir o frio nas nalgas, especialmente no Inverno, mas por outro é um bocadinho nojento.
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29 de julho de 2014

10 argumentos a favor da tourada



Estive a ver um programa que me impressionou. Era um programa sobre tortura animal, em que homens e mulheres se exibiam sangrando feras inocentes. O mais estranho é que, naquele país, é uma tradição antiga que continua a atrair muitos espectadores ao recinto onde tais actos de brutalidade se executam. Bilhetes pagos a peso de ouro, mas sem peso na consciência. O país era o nosso, e a tradição parece que se chama tourada. Tudo isto num canal de nome saído de uma capa de filme pornográfico, Festa Brava. A julgar pela quantidade de palhaços nas bancadas, pode-se considerar um circo, e eu a pensar que circos com animais já não eram permitidos. Gostava, então, de deixar aqui os dez argumentos a favor da tourada.

«A tourada é tradição e cultura.»
É uma actividade que remonta ao século XII, altura em que a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever, em que a consciência humana e social era quase nula e ainda se cagava em penicos. Por si só, este argumento é parvo, já que os coliseus romanos queimar bruxas na fogueira e a escravatura também eram tradições culturais. Felizmente vamos evoluindo enquanto espécie, alguns, pelo menos, e vamos adaptando as nossas tradições aos valores da sociedade.

«Só vê quem quer. São gostos, e temos de respeitar.»
Sim, a liberdade de opinião é sempre de valorizar. Tem de existir toda a liberdade para se ser parvo, é um facto, que é o que este argumento é. Comentaram uma vez no blogue e disseram: «Eu também não gosto de boxe. Quando está a dar na TV, mudo de canal.» Comparar boxe com tourada é o mesmo que comparar violação com sadomasoquismo. Ambos fazem dói-dói, mas no sadomasoquismo estão lá os dois de livre vontade. Quando se fala de direitos e de civismo, o gosto e a liberdade não são para aqui chamados. Muitos padres também gostam de criancinhas e não é por aí que se vai legalizar a pedofilia.

«Não comes carne?»
O argumento mais parvo de todos, e que infelizmente é utilizado por muitos vegans para atacar quem não o é, em vez de apoiar quem está a tentar acabar com a tourada. Comer carne só seria comparável à tourada se começassem a cobrar bilhete para ir ao matadouro assistir ao break dance que as vacas e os porcos fazem quando estão a ser electrocutados. Com direito a transmissão televisiva e a desfile de homens de calças vermelhas, mulheres oxigenadas com filhos de cabelo à Playmobil pela mão, a dizer: «Veja, Martim, veja a vaca a contorcer-se. Se não fosse tradição e cultura, era horrendo. Agora assim é uma caturreira.» Relativamente a este tema, já aqui escrevi que sou vegan não praticante.

«Os touros bravos estariam extintos sem as touradas.»
E então? Noventa e nove por cento das espécies que já existiram estão extintas. Não fomos nós que as matámos todas, é o curso da natureza. Se for de forma natural, é deixá-las ir. Não faz muito sentido, a meu ver, manter uma espécie viva para lhe causar sofrimento. Esse argumento seria o que os apoiantes da escravatura utilizariam se a raça negra se estivesse a extinguir. Antes extintos do que escravos, digo eu, que nunca fui escravizado, mas, pelo que li, não devia ser agradável.

«O touro não sofre.»
Este argumento é parvo. Já viram que há um padrão nos argumentos? Não digo que sofra mais que em muitos matadouros. Provavelmente sofre menos, mas não é isso que está em causa. É o espectáculo deprimente que se monta à volta de um animal que está ser espicaçado e sangrado. Mesmo que as bandarilhas não lhe doam assim tanto, não justifica o ritual medieval que hoje em dia é mais para agradar à direita «chique» do que ao povo. Ver pessoas na plateia a tapar a cara de horror, mas que vão na mesma, porque está na moda... era um par de chapadas à padrasto para aprenderem.

«Os touros são animais agressivos e nasceram para a lide.»
Os touros são animais territoriais e selvagens, e, como tal, quem lhes invade o território sujeita-se a levar com um chifre nas nalgas. Fora isso, são animais normais colocados entre a bandarilha e a parede, onde se vêem forçados a marrar nos forcados. Nunca vi um touro a andar a vaguear à noite, escondido em esquinas e becos, à espera de uma rapariga perdida para a violar. Nunca vi gangues de touros com lenços na cabeça a arranjar confusão no Bairro Alto. No entanto, os humanos fazem isso e nós, infelizmente, não os pomos numa arena a serem espetados com bandarilhas no lombo. Agressivo e parvo é o ser humano, uns mais que outros.

«É uma arte bonita de se ver.»
Também é bonito ver mulheres nuas na rua (algumas), e não é por isso que é legal. Infelizmente. A definição de arte e a beleza são subjectivas, se o Da Vinci tivesse utilizado bebés e um espremedor de laranjas para a tinta dos seus quadros, também continuariam a ser obras de arte, mas os meios não justificariam os fins. Cá para mim, a arte a que os aficionados se referem é ver a tomatada dos toureiros ali toda pronunciada, no meio dos collants e das lantejoulas, normalmente de tons rosa e amarelo. Sim, é realmente uma arte conseguirem arrumar aquilo para um lado e ainda conseguirem andar como deve ser.

«Atrai turismo.»
Acredito que sim, mas sabem o que também atrai turismo? Prostituição e drogas. Há até quem vá a certos países do Terceiro Mundo para comer criancinhas. É esse o turismo que queremos ter? Eu cá passo bem sem os estrangeiros que querem ver um animal a sofrer. Prefiro mil vezes um grupo de dez ingleses bêbedos a vomitar.

«Dá emprego a muita gente.»
O desemprego é, na sua maioria, mau, mas há muita gente que está desempregada porque ou não quer trabalhar ou não tem capacidades para fazer nada. Se a tauromaquia é a única coisa que se sabe fazer na vida, então, se calhar, o desemprego é justo. Sem subsídio, neste caso, se faz favor. Mais uma vez, a droga e a prostituição também dão emprego a muita gente. A diferença é que, no caso da droga e da prostituição, a legalização iria diminuir o número de pessoas que estão nessa vida contra a sua própria vontade.

«Preocupem-se antes com os cães abandonados.»
Uma coisa não exclui a outra. A questão é que o abandono de cães acontece às escondidas (e agora já é crime), e a tourada passa na RTP. É normal que chame mais a atenção. Não acho que quem goste de tourada seja automaticamente atrasado mental e má pessoa, que é o que acho de quem abandona um cão. Quem faz isso a um animal, com o qual conviveu e devia ter criado laços, para o deixar a sofrer algures na beira de uma estrada ou numa mata, devia morrer. É impossível que seja uma pessoa decente, e devia estar numa arena a ser sodomizado por uma manada de touros com elefantíase do pénis. O touro sempre tirava algum prazer assim. Por falar na nova lei que criminaliza os maus-tratos a animais, como sabem, só se aplica aos de companhia. Será que, se eu tiver um touro amestrado, lhe posso espetar ferros no lombo para o ensinar a sentar e dar a pata? E os circos, a mesma coisa. Aliás, os circos com animais e as touradas têm um ponto em comum: ambos maltratam e exploram seres vivos contra a sua vontade e ambos têm palhaços. No caso das touradas, costumam estar também nas bancadas.

Posto isto, quero apenas terminar dizendo que respeito muito mais quem gosta de tourada e diz que gosta porque sim, porque cresceu com isso e não está preocupado com o touro. Que o sofrimento do animal não o preocupa. Respeito muito mais quem tem essa honestidade do que quem tenta dar um destes argumentos parvos que fazem tanto sentido como a tourada ainda existir. Nenhum.
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24 de julho de 2014

Ser tímido não é defeito, é feitio



"Ser tímido não é defeito... é feitio", ouvi eu inúmeras vezes quando era pequeno e me tentavam conformar cada vez que eu dizia que ser tímido era um dos meus defeitos. Diziam-me que não era, mas a mim parecia-me ser, ainda parece se olharmos à volta. O mundo está feito para os extrovertidos, somos ensinados desde pequenos que é bom ser extrovertido e que devíamos corrigir a nossa timidez. Logo em criança percebemos que quem fala muito é que é ouvido, que quem participa nas aulas, mesmo sem nada para dizer, é que é valorizado. Eu era bom aluno mas as professoras apontavam-me sempre o mesmo "defeito" de que tinha que ser mais participativo nas aulas, mesmo que, estando calado a absorver o conhecimento e tirasse melhores notas que todos os outros que intervinham apenas para repetir o que a professora tinha acabado de dizer, sem acrescentar nada. Ainda assim, diziam-me que devia ser mais como eles.

Nunca fui inseguro, tenho as minhas inseguranças claro, mas no geral considero-me uma pessoa confiante, ainda assim sempre fui tímido, ainda sou, mas já fui muito mais. Houve um tempo em que detestava sê-lo, detestava não conseguir iniciar uma conversa, ficar calado enquanto outros conversavam. Ficar corado cada vez que a professora me mandava ler em voz alta ou me mandava ao quadro. Não conseguir dizer à rapariga que gostava o que sentia por ela, ter vergonha de atender um telefonema que não soubesse de quem era ou ter que ir pedir um copo de água no café. 


Ficava todo acagaçado se estivesse na fila do supermercado à espera da minha mãe, que tinha ido buscar algo que se tinha esquecido e eu estava quase a ser atendido.

Lembro-me de alturas em que havia aquele silêncio desconfortável quando estava com alguém que não conhecia ainda bem. Pensava "tenho que arranjar assunto", "até parece mal estar aqui sem dizer nada, o que é que vão pensar". O mais engraçado é que, se a outra pessoa também estava calada estaria provavelmente a pensar o mesmo que nós, no mesmo desconforto em relação a ela própria e não a julgar-nos por estarmos calados.

Crescemos todos com a pressão de ser popular e essa popularidade está vetada aos introvertidos. Sabemos que não é para nós. Mas quantas boas ideias se perdem por não se ouvirem os introvertidos? Por as vozes dos extrovertidos serem sempre as mais ouvidas e ninguém parar para perguntar ao miúdo calado na sala o que ele acha? Quantas vezes já vimos uma discussão sobre um assunto sobre o qual nós sabíamos a resposta e que os argumentos que estavam a ser dados eram errados, mas nos mantivemos calados? Mas a culpa não é só de quem nos ignora e acha que ser introvertido é igual a ser anti-social, coisa que os extrovertidos, na sua maioria, não sabem distinguir. A culpa é nossa que temos mais medo de errar do que um extrovertido. Pensamos na vergonha que podemos passar se o que dissermos estiver errado e por isso mesmo erramos menos. Mas por causa disso se calhar também perdemos muitas oportunidades de aprender.

Fui crescendo, por volta dos meus 15 anos a timidez começou a ser defendida com o sentido de humor. Percebi que fazer rir, lançar uma piada no meio de uma conversa na qual eu não tinha nada para dizer era a melhor forma de me integrar e de mostrar que não sou anti-social. Hoje já não me importo de ficar calado quando a conversa não me interessa. A maioria das vezes que estou calado enquanto pessoas estão a falar à minha volta já não se deve à minha timidez, deve-se ao assunto ser desinteressante ou a preferir estar de fora a observar as baboseiras de quem fala muito sempre com a certeza das coisas. Ou ainda, simplesmente porque estou bem assim, a ouvir o que os outros têm de interessante para dizer.

Hoje em dia faço Stand Up Comedy, falo com clientes no meu trabalho, fiz um projecto que passou por uma viagem de 2 meses pela Europa em que tinha que abordar pessoas e entrevistá-las diariamente nas ruas, fui à televisão e à rádio dar entrevistas sobre esse projecto e ainda assim, com isto tudo, continuo a ser um introvertido por natureza. A única diferença é que hoje já não me importo tanto com o que os outros pensam de mim, e quando assim é, já considero que ser tímido não é realmente um defeito, é feitio.

P.S. - Depois de escrever este texto encontrei esta Ted Talk que fala sobre este assunto, de forma muito mais clara e interessante que eu, por isso é ver e ouvir.



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23 de julho de 2014

Momento Kodak: Um dia no IST



Andei a vasculhar as minhas gavetas e encontrei lá um pequeno texto que data de 2005. Deixo-o aqui inalterado, só para verem que já pelo menos há 9 anos que sou bastante parvo.


Há dias, que, pela forma penosa como começam, nos deixam alegres de pensar que pior é impossível ficar. O dia de hoje é o mais perfeito exemplo disso. A bem dizer o dia hoje não teve um começo visto que as horas de sono dormidas serem iguais a ZERO. Ora bem, directa em cima e tal, a estudar, ou a tentar pelo menos, saio de casa as 7:15h e rapo o frio mais acutilante (como sinónimo posso utilizar "filho da puta"), de toda a minha vida. Em cinco minutos de caminho, durante o qual proferi todos os vocábulos ordinários existentes, fiquei com as orelhas e dedos em ferida (vulgo frieiras). Omitindo os pormenores da viagem (sovacos escancarados exalando um cheiro putrefacto, como exemplo), cheguei a essa magnífica (ironia/sarcasmo) instituição que dá pelo nome de Instituto Superior Técnico na qual sou aluno do curso de Engenharia Informática. O programa de festas para essa manhã era um exame de Sistemas de Sinais cuja chamada era a última e cuja matéria por mim sabida, compreendida e assimilada, tendia perigosamente para zero.

Chegando lá, entrando na sala (1 hora de antecedência), revendo alguns pontos da matéria (notar bem que aqui o verbo "rever" não será talvez o mais apropriado), começam a chegar os bichos, leia-se alunos, à sala. E qual não é o meu espanto quando quando vejo, incrédulo, julgando serem alucinações provocadas pela tortura do sono que impus a mim mesmo, um aluno que coitado vinha fazer melhoria pois "só" tinha tido 19 no primeiro exame. Pronto perdia a cabeça! 

Quer dizer "estava-me a correr bem o dia... e vem aquele maricas a dizer que" vem fazer melhoria!

E pronto, fiz exame, correu mal, muito mal, arrumei a trouxa, vim para casa e decidi escrever este texto só para expressar a minha indignação. É que um gajo tenha tido 10 e venha fazer melhoria pronto... agora levantar cedo, com o frio que estava, para ir tentar tirar 20 numa cadeira que já tinha 19. É de quem tem as prioridades todas trocadas, ou então é só de quem é parvo.


E foi isto. Momento Kodak, espero que tenham gostado. Já que aqui estamos podem também ler este texto sobre a minha experiência nas PRAXES no Instituto Superior Técnico.
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