1 de setembro de 2015

Como ultrapassar o medo de levar uma tampa?



Findado o mês de Agosto, o Doutor G está de volta à normalidade com a sua consulta semanal às terças-feiras "Doutor G explica como se faz". Há ainda muitas dúvidas pendentes do início de Agosto e a ordem é a de chegada. Quem quiser prioridade, é uma questão de enviar subornos por email. Prefiro dinheiro a fotos de seios.



Caro Doutor, tenho 16 anos, sou nova, mas apesar de tudo, histórias não me faltam (acerca do sexo masculino, obviamente). Acontece que eu tenho a capacidade de cativar um certo nicho de jovens-adultos-senhores: em primeiro lugar, os típicos controladores-obsessivos-ciumentos-dramáticos; em segundo, os super-interessantes-que-só-dão-esperanças;  em terceiro, os que tem namoradas e querem por-lhes os cornos.  Mantive uma relação curta e sem importância nenhuma com o gajo do tipo 1, ao que este muito arrependido de toda a merda que fez, vem-me pedir "colinho", ou seja, de "não sabes o que queres", "dás trela a todos" passou para "és a melhor rapariga que já conheci". Bem, eu não sou estúpida, mandei o gajo a merda umas 238928 vezes, mas o gajo não desiste, e continua-me a perseguir, sem eu saber o seu interesse, porque ele:
a)- é maior de idade;
b)- já tem carro;
c)- tem emprego;
d)- tem casa;
e)- come as gajas que quiser;
Depois disso, tenho um do tipo 2, que eu sou sincera, adoro aquele gajo, super porreiro, super divertido, inteligente, bom gosto, nada de kisombas nem pimbalhadas, adoro! Mas mantivemos conversa, atrás de conversa e nunca deu nada, o gajo desapareceu, mas como os tantos outros, voltou. Volta, mas com a mesma conversa "desculpa o que te fiz" "desculpa se te dei esperanças" blah, blah, blah, sempre a mesma historia! E como se já não me bastasse, ainda tenho um do tipo 3, é um gajo que se apaixonou por mim tinha eu 12 anos (e sem qualquer atributo físico), e ele tinha 17, como é óbvio, nunca quis nada com o gajo. Ao que, no ano passado (já ele numa relação de longa data, com emprego, 21 anos, carro, casa), envolvemos-nos uma noite. Para mim foi uma noite e acabou, mas o gajo quer mais, quer outra noite se possível (mas com outras "matérias" incluídas), mandei-o também a merda, mas como sempre, não vai desistir. Já não sei como me livrar destas historias em formato rotunda, pois o final é sempre o mesmo. No entanto estou numa relação a um ano, e vai bem. Bom rapaz, não se engloba em nenhum dos padrões já conhecidos. Mas chateia-me estes outros gajos! Resumindo, o problema é, mesmo despachando-os, eles arranjam maneira de voltar a encontrar-me e não sei que mais taticas deva usar usar. 
Mudar de número? já o fiz. Mudar de região? também já. Bloqueá-los em tudo o que é rede social? feito. Fazer queixa a PJ? também já. Alguma sugestão?    
Anónima, 16, Lisboa

Doutor G: Cara Anónima, normalmente quando alguém só atrai pessoas que não interessam é porque também se tem culpa no cartório. Não serás tu uma espécie de tipo 2? Que dá trela e esperanças mesmo não querendo nada? Não voltarão eles sempre a rondar o teu naco de novilho porque tu lhes dás sinais, ainda que inconscientes, de que se calhar até te podem fincar o dente? Parece-me que talvez seja esse o teu problema e que sem notares, lá no fundo gostes de os ter à tua volta, quais meninos de volta de uma fogueira a ver se conseguem meter lá o marshmallow. Prova disso é quando dizes «como é óbvio nunca quis nada» e passas para «no ano passado envolvemo-nos». Se tens uma relação de um ano e gostas dele, os outros nem deveriam ser problema. Para ele só são problema se ele vir que não estás a fazer tudo por tudo para os afastar, caso contrário ele não ficará nunca chateado contigo, mas sim com vontade de os esbofetear com um peru morto. Como é que eles te encontram se tu mudaste de número, de região e os bloqueaste nas redes sociais? Não me digas que eram todos espiões das Secretas? Cá para mim andas a deixar um rasto de migalhas, qual Hensel e Gretel, para que eles saibam sempre o caminho de volta à caverna dos doces. Se realmente fizeste isso tudo e eles te continuam a azucrinar a vida, sugiro contratares alguém para lhes acertar o passo. Isto se eles são indelicados/violentos, caso contrário é aguentares, já que a culpa é também tua por os teres atraído para a tua rede de sedução. Isto de ser sexy e sedutor tem os seus custos. With great power cums great... coiso.


Caro D. G, a minha dúvida prende-se com o facto de estar numa relação que em 90% do tempo funciona bem, mas volta e meia ele decide afastar-se e passar um tempo sem dizer nada ou muito pouco, o que me magoa bastante, porque fico preocupada e sem saber o que se passa. Sei que lhe parece que a resposta é rápida: ele tem outra, mas sei que isso não é verdade. Também já consegui perceber, com o tempo, que ele só se afasta quando tem problemas graves na vida, porque tem a mania que eu já tenho problemas e não me quer complicar mais a vida. Já falei com ele e lhe pedi que acabasse com isso, mas ele continua a repetir. Acha que vale a pena lutar por esta relação ou simplesmente partir para outra e poupar-me a muitos desgostos?
Cecília, 23, Lisboa

Doutor G: Cara Cecília, se tens mesmo a certeza que ele não tem outra (certezas na vida só a morte), então acho que têm que se encontrar a meio caminho. Se dizes que 90% da vossa relação é boa, então talvez estejas a ser demasiado exigente. 90% é altamente positivo, se fossemos fazer um estudo a maioria dos casais diria que está a 60% ou 70% e isto seria só porque tem vergonha de apontar todos os podres do parceiro/a. Cada um lida com os problemas como quer e se para ele o melhor é isolar-se, tens de respeitar. Imagina que ele não se afastava, mas devido às preocupações que tem e problemas graves ficava diferente para ti, má companhia e até meio parvo? Era pior. Deixa-o lidar com isso que, com o tempo, ele vai perceber que a melhor forma de resolver os problemas é ao teu lado (especialmente se lhe fizeres um felácio). Compreendo que para ti seja complicado, mas também haverá coisas em ti que ele não gosta e, mais uma vez, 90% de coisas boas é uma média pela qual vale a pena lutar. Deixa de ser dramática mas não faças uma mudança de sexo para conseguir isso.


Caro Dr.G, por cerca de 4 anos namorei, namorei com uma mulher que me enchia o coração, para mim tudo nela me enchia de orgulho, o intelecto, os ideais, o corpo, enfim tudo mesmo. Como tal dediquei-me por completo à relação, construí a minha vida em torno dela, escolhi uma faculdade o mais próximo possível e abdicava do que fosse preciso para estar com ela, para ser para ela. Senti amor de verdade, aquele amor que nos faz acreditar que tudo vale a pena para nos sentir-mos assim, com aquele sorrisinho estúpido cada vez que a vemos ou recebemos uma mensagem e que nos faz querer resolver tudo por mais chateados que estejamos. Acontece que embora houvesse o namoro, só eu é que amava assim, da parte dela foi mais passageiro, e quando as coisas ficaram difíceis de início ainda tentámos os dois resolver, mas passado um tempo ela decidiu que preferia trocar-me por alguém que conhecia à sensivelmente um mês. Fiquei magoado, furioso, senti de tudo, que fui enganado que fui traído que fui injuriado, enfim todas essas paneleirices. E no fim, agora passados muitos meses ainda dói. Já a perdoei, não a quero de volta porque acho que alguém que toma uma atitude dessas não merece alguém que dá o que eu dei. Mas embora já tenha perdoado, embora não a queira de volta, embora tenha passado os últimos meses a "limpar o palato" com a nossa fantástica e variada culinária portuguesa, continuo a ser um xoninhas como muito gostas de dizer, que acorda de noite e chora, que tem insónias que duram quase uma semana, que não consegue amar ou deixar-se ser amado por nenhuma das fantásticas e maravilhosas mulheres que tenho conhecido. Então pergunto ao nosso filósofo favorito, o que faço, ou será que não há mesmo nada a fazer?
Ninguém, 23, Portugal

Doutor G: Caro Ninguém, ao ler a tua dúvida havia uma palavra na minha cabeça que piscava em neons vermelhos e amarelos. A palavra era "XONINHAS!" e folgo muito em saber que o admitiste depois no texto. O primeiro passo para a cura é sair da negação. Tens que trabalhar a tua auto-estima, que se vê que está em baixo ao assinares como Ninguém. Tu és Alguém, tu consegues deixar de ser um panhonha cornudo. Os chifres de marfim servem para que nas próximas marradas te magoes menos e te defendas melhor. Se já andas a limpar o palato é porque estás no bom caminho. Se acordas de noite e choras, sugiro que coloques uma música do André Sardet a acompanhar. Isto serve dois motivos: primeiro, se alguém te apanhar a chorar tens desculpa que é por causa da eloquência e métrica das letras dele; depois, porque o teu corpo vai associar acordar e chorar, a ouvir André Sardet e vai entrar em modo de sobrevivência e ficar a dormir até à semana seguinte. Ainda não amaste nem te deixaste amar por nenhuma dessas tuas parceiras de samba genital porque nenhuma valia a pena e nesta altura mais vale dançares em grupo do que fazeres par para a noite toda, já que ainda não ultrapassaste e só vais estar a tapar os sentimentos com a peneira. Se tens o azar da próxima te fazer o mesmo, depois lá te vamos ver na capa do CM com o título «Jovem suicida-se a ouvir André Sardet». Num tom mais sério, rodeia-te de bons amigos, chora o que tens a chorar mas se vires que esse estado depressivo e catatónico persiste por muito mais tempo, recorre a um psicólogo e não a um consultório javardo online. Andar no psicólogo não tem nada de mal, todos os psicólogos frequentam outros psicólogos.


A questão é que namoro à 2 anos com um rapaz daqueles que sabem o que querem da própria vida, cheios de objectivos a ser cumpridos e quês. A relação é boa, damo-nos bem, nunca houve grandes discussões, excepto quando estou em TPM e o meu temperamento me leva a fu$&@-lhe o juízo... Ou então quando penso seriamente neste assunto e na carência que sinto: ele não faz sexo comigo! Ao início, eu tentava incessantemente. Ele era virgem, e para mim continua a ser... Sendo alguém que gosta de levar as coisas com calma, apesar de insistir o suficiente para ele saber as minhas vontades aka necessidades, também lhe dava o tempo dele. Pensava que realmente seria diferente dos outros com quem já tive que volta e meia já só queriam levar-me para os lençóis! Mas isso do tudo muito bonito foi desvanecendo e acho que é normal que aconteça?! Cheguei a fazer-lhe sexo oral. A ver se ele "acordava". Mas ficou tão tenso... Que achei que não tivesse gostado, fiquei com medo que me achasse algum tipo de rameira por aquilo e não tentei mais aquele meio. Passado um tempo falei-lhe directamente que havia sexo a faltar na relação. Tentamos: ele estava visivelmente nervoso! Tanto ao jantar como na hora H, e não conseguiu dominar o instrumento... Se é que me faço entender! A partir dai ele nunca mais quis saber de "estou sozinha em casa", parece que foge de quando tento algo mais safado. E as vezes parece que ele tenta. Mas nunca avança para o que tão ansiosamente espero!! A minha auto-estima já desceu muito. Quando ele não conseguiu, achei que fosse por minha causa. Não me acho assim feia até porque tenho por onde escolher mas não tenho corpo de top model. Sou eu que ele leva a sair com a família e amigos e sinceramente ele não tem muitas amigas nem é social a ponto de se meter com elas por isso tenho plena certeza que não me trai. Ultimamente ele tem escolhido estarmos sempre a sós! Tem sido mais ousado nos toques... Mas nunca em pontos mais íntimos! Parece que tem medo. Que raio se passa com ele? O que é que eu como mulher posso fazer?!  
Maria, 20, Vila Real

Doutor G: Cara Maria, começo a pensar que a nova fornada de homens que está a sair para a sociedade é tudo uma cambada de xoninhas. Namoram há dois anos e ainda não praticaram a bela arte do funaná pelado? Com 20 aos? Só há duas hipóteses:
  1. Ele é gay. Pipi mete-lhe um bocado de nojo mas ainda está em negação e quer manter uma relação para se trancar no armário e os pais não o deserdarem.
  2. É só um gajo inseguro, como tantos outros. Os homens, parecendo que não, também têm direito a ser inseguros sem que venha um palerma chamar-lhes gay. A pressão de ser bom na cama está todo do lado dos homens: têm que ter um bom tamanho, têm que aguentar o tempo necessário, tem que tomar a iniciativa, têm que dar um orgasmo à mulher e ainda pagar os preservativos. A mulher não tem esta pressão, o homem vem-se sempre e na maioria dos casos ela não precisa de fazer nada, basta estar presente. Por tudo isto é que ele provavelmente não meteu a enguia trapalhona de pé quando era suposto. É normal, a culpa não é tua nem dele, é da pressão/tesão acumulada. Se ele anda a ficar mais ousado nos toques sem ser nos pontos íntimos, suponho que ele tenha um fetiche por cotovelos. Dá-lhe uma cotovelada nos dentes a ver se ele acorda.
Tens que lhe dizer que para ti o sexo é essencial e que ele ou cumpre ou passa às reservas. Bebam uns shots de tequila e senta-te na cara dele. Se não o mete de pé que te satisfaça de outras formas. Desta forma até testas a hipótese numero 1: se ele fizer um ar de nojo ou se vomitar, é porque é definitivamente gay. Compra-lhe um dildo com um lacinho e abandona-o à noite no Parque Eduardo VII em Lisboa.


Boa tarde,  Dr. G, desde pequena que gozo com as minhas amigas (aquelas raparigas que comentam nas tuas fotos do Facebook coisas como 'awnnn OMG que prft prinxexa <3 ja sbs bb smp aki pa td #sempre_com_os_melhores #adrt #nc_te_esquexerei' e, quando dás por isso, ela está a comer o teu namorado no carro, usando os limpa para brisas como vibrador) por elas namorarem com qualquer chavalo que esteja num raio de 3 metros, não dando nem dois dias de descanso quando acabam com um, partindo logo para outro para fazerem a mesma coisa. O tipo de raparigas que gosta de todos mesmo sem gostar. (Não sei se percebes, mas todas as incompreendidos do género feminino certamente que já chegaram lá). Acontece que sou incrivelmente ambiciosa, ao ponto de querer ganhar TUDO em TUDO (no 2 ano, cheguei ao ponto de ganhar o primeiro lugar num concurso, mas fazer uma birra por não ter ganho o segundo e terceiro) e acho que isso me está a tornar numa dessas raparigas. Sempre que vou a algum lado, por mais que eu saiba que é impossível encontrar lá o amor da minha vida, sempre vou com essa esperança. Claro está que chego lá e nada disto acontece. Outra situação com a qual me deparo é a de que, de todas as vezes que um rapaz diz que gosta de uma pessoa ou até que tem namorada, eu não sei como reagir, mesmo que esse gajo seja o mais porco, estúpido, arrogante e cara de abutre do mundo. A minha pergunta é esta, meu caro Sr. Dr.: será que isto é apenas uma fase (visto que eu tenho treze anos)? Ou será que eu sou uma, bem, tu sabes?
Ana, 13, Lisboa

Doutor G: Cara Ana, mas que chavascal vem a ser este? Com treze anos e a enfiarem limpa pára-brisas no exaustor de chicha? Sair à noite? Namorados? Mas que merda é esta? Vai já para o teu quarto brincar com as bonecas e ai de ti que ligues o Snapchat para mandar fotos das mamas a troco de carregamentos do telemóvel! Ai o caraças, mas esta juventude anda a comer gelados de carne com a testa e a decorar o colo do útero à bisnaga assim tão cedo? Ainda me perguntas se é uma fase? É uma fase puta com tendência a piorar, se com treze anos a brincadeira já é assim, imagino quando entrarem para a faculdade e forem morar fora de casa dos pais. É um sururu de pila que até a Érica Fontes teria um enfartamento. Bem, depois deste meu bonito momento em modo velho do Restelo, deixa-me dizer-te que está nas tuas mãos e não estou a falar de um pénis. Calculo que seja muito difícil não ceder à pressão dos grupos de "amigos" e embarcar em coisas só para parecer mais velho e cool e te integrares. Mas se vês esses podres nas tuas amigas, talvez não estejas perdida e consigas ir longe na vida sem teres que concorrer à Casa dos Segredos. Tens treze anos, desfruta o bom de ser criança e adolescente. Conhece-te, cresce e caga na opinião dos outros. Caga nos rapazes estúpidos, mesmo que sejam namoradas das outras e os queiras levar a brincar com a tua barbie só por pirraça. Veste o pijama da Hello Kitty e vai ver os desenhos e, pelo sim pelo não, anda sempre com preservativos na carteira.


Hey Dr G. namoro há 3 anos com uma rapariga fantástica. Boa na cama, romântica, fiel, cheia de ambições, responsável e empenhada. Problema: Eu quero-a como esposa, daqui a uns 15 anos. Agora quero curtir a vida (a adicionar o facto de que vou agora para a faculdade), experimentar o máximo possível, correr os lençóis do país, voltar a experimentar aquela adrenalina de conquistar um checkmate e viver como um lince: permanentemente à caça. 
Caminho seguro: Continuo com o meu namoro que conta com: sexo frequente e de qualidade (embora se torne repetitivo), romantismo, segurança, já conheço o território, não preciso de esconder os meus defeitos, ela já sabe lidar com a minha personalidade e vice versa, posso falar com ela sobre tudo e o mais importante de tudo: gosto mesmo dela. 
Caminho arriscado: um mundo novo, por explorar, cheio de riscos e inseguranças, explorável apenas uma vez na vida, repleto de aventuras, tentações e pecados.
Um é uma auto-estrada, segura mas aborrecida e o outro é um trilho montanhoso com sucessos e quedas, mas que daí resultam as histórias para contar. 
Pontos importantes: Já pensei e já falei com ela e será impossível acabar a relação durante uns tempos, curtir a vida e depois voltarmos. Será impossível ter os dois num só. Ela é mais calma que eu.
Inseguranças: Será que com a vida acelerada da faculdade, a relação vai apimentar? Será que à medida que ela cresce, novas coisas surgem e afinal a relação não é tão aborrecida como eu pensava? Será que depois de sacrificar esta vida loka por ela, realmente ficamos juntos?
Coiso, 19, Coimbra

Doutor G: Caro Coiso, o teu dilema é o mesmo de qualquer pessoa que tem um relacionamento estável e longo quando ainda é novo. Seja homem ou mulher, toda a gente pondera se o melhor é estar para sempre com alguém ou se é mais vantajoso andar a espalhar confetis por searas alheias. Escolhas o que escolheres, nunca vais saber qual o melhor, pois nunca poderás experimentar os dois caminhos. Por isso, mais vale fazeres o que te faz sentir melhor hoje sem pensar no amanhã. Foda-se! Parecia uma citação do Gustavo Santos! Deus Nosso Senhor seja cego, surdo e mudo! Óbvio que é impossível acabarem a relação durante um tempo e depois voltarem, parece que és tolo. Se ela aceitasse isso, é porque certamente não era a mulher ideal para ti, já que via com bons olhos andar a sugar miudezas amiúde, o que significa que o faria mais cedo ou mais tarde, com o ou sem o teu consentimento. Quando à monotonia na relação, não é a faculdade que a vai apimentar. Quanto muito vão ter que lutar contra todo o mundo novo que a faculdade pode ser, o que faz com que muitos casais se afastem, para terem tempo para novas amizades e experiências. Se com 19 anos e três de relação já sentem que a relação está pouco quente, é porque sois ambos uns xoninhas sem imaginação. Façam cenas porcas daquelas que se soubesses que a tua mãe fazia nunca mais conseguias comer comida cozinhada por ela. Esse tipo de coisas. Vejam filmes e tirem notas. Saiam à rua, vivam e cuidado para não irem presos por atentado ao pudor.


Caro Dr.G, preciso mesmo dos seus sábios conselhos e da sua honestidade dura e crua! Até agora apenas tive um namorado cujo relacionamento durou um ano. Corria tudo muito bem até avançarmos para a dança debaixo dos lençóis (ambos éramos virgens). Não senti qualquer tipo de prazer em nenhuma das nossas danças e, eventualmente, acabei por terminar porque já se sabe que quando a coisa não resulta debaixo dos lençóis, também não resulta em lado nenhum. Agora já passou um ano e meio e eu continuo sem nenhum tipo de ação debaixo dos lençóis. Não é que não tenha tido oportunidade, mas quando começava a falar com alguns moços, hesitava e acabava por recusar algum tipo de envolvimento. Sinto-me insegura e sem experiência nenhuma neste tipo de danças e não sei como ter "à vontade" com um moço qualquer. Diga-me Dr.G, como poderei deixar de ter este problema de intimidade? E não me entenda mal, eu quero muito lutar debaixo dos lençóis, mas parece que preciso de um bom professor e como não quero ganhar reputação de andar à procura de um bom professor de dança, como posso arranjar este tipo de ajuda se é que me entende? Será que um rapaz deixaria de querer dançar comigo porque não tive grandes espectáculos ainda? 
Anónima, 20, Porto

Doutor G: Cara Anónima, o sexo é como o stand-up comedy, só se aprende a fazer. Sim, claro que uns ensaios sozinho em frente ao espelho ou a ver vídeos na Internet de profissionais da especialidade podem ajudar, mas só com a prática é que se fica com calo, salvo seja. A resposta à tua última pergunta é um veiudo e fálico «NÃO». Os homens não rejeitam mulheres devido à sua inexperiência sexual, a maioria até prefere, porque lhes retira alguma da pressão de ter de competir com um batalhão atiradores furtivos que já lá deixaram o seu headshot. É um pensamento parvo, mas é assim que os homens são. A meu ver, quantos mais melhor, já que assim ela fica com a certeza de que foi mesmo o melhor do mundo e não fica na dúvida de que possa ter sido apenas por falta de bons termos de comparação. Portanto, aí não tens nada a temer. Não te sentires bem em ajavardar com um moço qualquer não é nenhum problema de intimidade. A isso eu dou o nome de bom senso e respeito próprio. Não é um gajo qualquer, é alguém que te encaracole os pelos hipotéticos que tu não tens, porque fazes a depilação completa. Espero que faças, se não aí tens uma dica para agradar um homem e não parecer inexperiente. Se aparecer alguém que te erice os poros, é pedir-lhe ajuda para dançar o tango pelado. Ele vai dizer que sim, porque os homens dizem quase sempre que sim. Se correr mal, para a próxima há-de correr melhor. Vivendo e aprendendo. Fodendo e melhorando. Alguém que mande estampar isto numa t-shirt, se faz favor.


Caríssimo Dr. G, tenho 18 anos, sou de Lisboa, e pode-se dizer que sou um autentico conas. Não tenho muitas amigas, e penso que essa é uma das razões de nunca ter tido nada com uma rapariga. A maioria do meu grupo de amigos parece ainda não mostrar grande interesse por namoradas e cenas dessas, mas eu desde há muito que o sinto. Nunca sei qual a melhor abordagem a fazer, nem o que dizer, e apesar de saber que é normal levar tampas, muitas das vezes não arrisco por achar que vou levar uma. As raparigas que me conhecem acham me engraçado, mas quem não me conhece bem muitas das vezes pode ficar a pensar que sou infantil ou irritante. Como é que posso deixar de ser um conas?
Anónimo, 18, Lisboa

Doutor G: Caro Anónimo, a conice é um mal que atinge a grande maioria dos homens. É uma epidemia do século XXI, em que se criaram xoninhas em frente às redes sociais e aos jogos virtuais e não se lhes incutiram as leis darwinianas deste mundo cão. No teu grupo de amigos, rapazes de 18 anos, a maioria não mostra interesse por raparigas? Deixa-me adivinhar: preferem tomar banho no balneário da escola do que em casa? Gostam de Katy Perry? São do agrupamento de artes? Se for esse o caso estás cheio de sorte, porque eles vão ter muitas amigas mulheres para te apresentar num futuro próximo! Bem, mas aqui segue um tutorial rápido para deixares de ser um grandessíssimo conas:
  1. Leva uma tampa. Cada uma é um sucesso: menos medo de levar outra e estás mais perto da vitória;
  2. Relativiza as tampas e pensa que quem perde são elas;
  3. Chora em posição fetal no banho e aproveitas e ficas mais cheiroso para a próxima tampa;
  4. Levar outra tampa;
  5. Fazer um desporto de combate para ganhar arcaboiço e aquele ar confiante do "Se houvesse stress aqui, era capaz de acertar o passo a 90% das pessoas no meu raio de visão";
  6. Não gostas de desportos de combate? Faz pilates que é onde há as gajas melhores;
  7. Agarra num amigo feio e pede-lhe para ser o teu wingman;
  8. Levem tampas em conjunto.
  9. Quando já tiveres o ego dorido e calejado, voltar a 1.
Algures neste processo, talvez logo no início, vais começar a ver os teus níveis de panhonhice no sangue a diminuir. O conas dentro de ti vai passar gradualmente a ganhar confiança e é essa confiança que vai fazer com que as tampas sejam cada vez menos e o cashflow cada vez mais. Não abuses é na dose, que mais vale um xoninhas do que um gajo palerma com a mania que é tudo dele. 



Foi do vosso agrado? Se não foi podem pedir o vosso dinheiro de volta à saída. Gostavam de ver uma edição especial do Doutor G em formato vídeo, ao género de chamadas telefónicas para a Maya e a Maria Helena a pedir conselhos astrológicos mas sem ser a burlar as pessoas? É só uma ideia, deixem o vosso parecer nos comentários. Obrigado a todos e, como sempre, até para a semana e continuem a enviar as vossas dúvidas para porfalarnoutracoisa@gmail.com. 


Partilhem e façam muito amor à bruta, que de guerras o mundo já está cheio.

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31 de agosto de 2015

10 tipos de pessoa que comentam na Internet



Se há coisa que me aquece a alma é ler as alarvidades que vagueiam pelas caixas de comentários na Internet. Seja no Facebook, nos sites de notícias ou em qualquer forum do ciberespaço
 visitado por muitas de pessoas que têm sexo pouco satisfatório. Há muitas vezes em que me vem ao imaginário uma sala de convívio, num manicómio, com acesso à Internet em que se diz aos doentes «Têm meia hora para deixar a loucura rolar!». Estou a ser injusto, essas pessoas têm a desculpa da patologia mental e da última vez que vi, a estupidez ainda não é considerada doença. Gosto de observar, desiludir-me um bocadinho com a Humanidade, chorar e depois ver que afinal mais vale rir. Como tal, aqui ficam os tipos de comentadores que identifiquei ao longo de vários anos de estudo de campo.

O SALAZAR
«A culpa é dos pretos, dos ciganos e dos estrangeiros! E o que não é culpa desses só pode ser dos paneleiros!». Parece um slogan do PNR (lá estou eu a dar ideias...) mas é um comentário que se vê em demasia nas páginas dos jornais online. Basta ver uma notícia sobre o casamento gay para perceber que há muita gente em Portugal cujo cérebro não funciona deste 1974. Por muito triste que seja, este tipo de mentalidade ainda abunda em Portugal e brota à superfície com o anonimato da Internet. Claro que também acontece na vida real, especialmente em algumas viagens de táxi. O que mais me assusta é que não é uma ou duas pessoas a cuspir racismo, homofobia e preconceito no geral, são vários. Às vezes são a maioria! Ideia: todos os ratos tinham um sistema de electrocussão e associado a cada comentário no Facebook havia o botão "Zap". Esta gente só lá vai com técnicas à Pavlov.

O CASANOVA
Este é aquele tipo de gajo que comenta nas páginas das celebridades ou de pitas "famosas" com milhares de seguidores devido ao enorme talento de colocar fotos em fio dental e decotes com citações brasileiras ao género «A melhor curva de uma mulher é o seu sorriso». Basta ir a uma página de uma qualquer actriz da nossa praça para ver vários comentários à lá Casanova, tais como: «Oi linda!», «Curtia de te conhecer-te a ti!» e «Escalavrava-te essa peida toda que até arrotavas a alheira de Mirandela guarnecida com ovo, batatas fritas e salada de tomate à parte!». Cada um é romântico à sua maneira e utiliza as técnicas que quer no tocante à sedução. Aposto que comentam sempre a uma só mão e com as calças a fazer de torniquete nos tornozelos. Quando é que esta técnica deu resultado? Nunca! Parem com isso. Mandem mensagem privada e nunca usem a palavra «Nina» se não o mIRC liga-vos de 1997 a pedir as suas abreviaturas de volta.

A VIRGEM OFENDIDA
Este é um dos tipos de comentadores virtuais mais comuns. São os cavaleiros brancos da moralidade que comentam a qualquer oportunidade com «Com coisas sérias não se brinca!», sempre que se faz humor com as suas crenças. Por norma, são pessoas que ficam mais ofendidas com uma piada do que com fotografias paparazzi, numa revista cor-de-rosa, à saída do funeral do pai de uma figura pública com zoom nas lágrimas. Só o humor é que tem limites e são eles que os impõem! São pessoas que partilham fotografias de crianças africanas a morrer à fome e acham que fizeram a sua quota parte para um mundo melhor. Também há outro tipo de virgens ofendidas, que são aquelas pessoas que têm como foto de perfil a imagem "Je Suis Charlie" e que acham que a liberdade de expressão é uma coisa bonita mas só até lhes fazer comichão no rabo. Pode-se gozar com tudo o que não lhes toca a eles. Pode-se gozar com os 250 deuses em que eles não crêem, e com os milhares de clubes de futebol que eles não apoiam. Mas quando se lhes pisa as ervas daninhas do jardim, está o caldo entornado. O termo virgem ofendida não é ao acaso, é porque a maioria destas pessoas é virgem, ou pior... mal fodida.

O KKK
Tal como no mundo real, também na Internet há pessoas com um riso peculiar. Sabem aquela senhora de meia-idade que no restaurante mete toda a gente a olhar com o seu riso de javali que pisou pioneses? É uma guinchadeira mais estridente do que o Nuno Guerreiro a ser pedido em casamento. Na Internet estas pessoas identificam-se através dos comentários em que expressam as suas convulsões sob a forma de um «kkkkkkkkkkkkkk», um «kakakakaka» e ainda o famoso «rsrsrsrsrsrs». O primeiro é uma espécie de invocação dos espíritos dos criadores do Ku Klux Klan; o segundo é uma onomatopeia de quem é fetichista por galinhas; e o terceiro, é de quem se está a rir com a boca cheia. Quando vejo a última imagino sempre um velho a puxar uma escarreta das profundezas do seu ser que até chega a causar hemorragias internas. Ao contrário dos restantes, este tipo de comentador online tem a minha simpatia. Primeiro porque cada um ri como quer e depois porque também eu escrevo «LOL» enquanto nem um sorriso estou a esboçar.

O CAPS LOCKED
Um dos meus favoritos é o tipo de pessoa que escreve SEMPRE ASSIM, PARA MOSTRAR QUE ESTÁ MESMO IRRITADO COM O MUNDO!!!!!!!!!!!!!!!!!! ESTÃO A VER DE QUEM ESTOU A FALAR!!!!!!!!!!!??????????? O seu português nunca é o melhor, há sempre palavras cortadas e comidas e a única pontuação que utiliza são os pontos de exclamação, cuja tecla já deve estar mais carcomida do que o seu cérebro. Dá vontade de lhes aparecer em casa enquanto eles estão a dormir e acordá-los com um megafone ao ouvido a cantar a música "Tá Turbinada" da Ana Malhoa. Nunca ouviram dizer que quando se começa a gritar se perde a razão? Na Internet é igual, quando vejo um comentário destes parto automaticamente do principio que o QI (ou qi) da pessoa é menor do que o número do seu calçado. 

O TIO ALFREDO
Este tipo de comentador é aquele senhor na crise da meia-idade: foto de perfil com óculos escuros e uma t-shirt com padrões tingidos. A foto foi tirada no quarto à media luz, com a webcam do portátil. Confere-lhe, automaticamente, ar de pedófilo em final de carreira. É comentador assíduo nas publicações do Correio da Manhã que têm como foto de capa raparigas de fio dental, mesmo que a notícia seja sobre um incêndio que matou uma idosa paraplégica e um cão, e que desalojou três esquilos amestrados com Síndrome de Down. O tio Alfredo faz sempre comentários inadequados, muitas vezes em fotografias de raparigas menores de idade. Tenta ser eloquente mas acaba por ser ainda mais assustador «Uma delícia...», «Ai, se eu tivesse 80 anos a menos...» e «No meu tempo as miúdas de 13 anos não me davam-me vontade de fuder! O progresso é lindo...». Sim, o tio Alfredo utiliza muitas reticências a pensar que lhe conferem um ar misterioso, sem saber que só tornam os seus comentários ainda mais sinistros.

A EDITE ESTRELA
Um dos meus tipos favoritos. Nada melhor do que ver que o bom português é tão valorizado pelas pessoas que frequentam as caixas de comentários na Internet. Nada melhor do que ver pessoas a opinar num texto grande, sobre temas importantes para a sociedade e sobre os quais se pede reflexão, apenas com o seguinte: «Falta uma vírgula.». Quando não se tem opinião, mais vale estar calado. Se querem corrigir o português, façam-no educadamente, mais vale dizer «Gostei do texto e partilho da opinião e já agora falta uma vírgula!» ou «Detestei o texto e discordo de tudo e já agora falta uma vírgula!». Encarem a Internet como a vida real, se vissem alguém na mesa do café ao lado a dar um erro de português assim sem um bom dia nem boa tarde? Não. É uma questão de cortesia. Nem estou a falar de mim, estão à vontade em corrigir-me que eu agradeço. Estou mais a falar em notícias importantes como «Morreram mais 200 migrantes em naufragio» e há sempre uns palermas que vão lá escrever «Naufragio?! Sem acento?! Chamam a isto jornalismo?! É por estas e por outras que o país está como está!» e depois disto, como bons grammar nazis, fazem uma referência à falta que um Salazar faz a Portugal.

O JORGE JESUS
Este tipo de comentador é o oposto do anterior. É aquele que parece que só fez a 1ª classe numa escola improvisada num vão de escadas no Intendente. São autênticos Ted Bundy da língua portuguesa tal é a série de homicídios gramaticais que cometem. Não sabem conjugar o verbo haver e cometem erros imperdoáveis como «Tivesse-mos», «Voçê» e o famoso «Fizes-tes». A culpa não é deles, é dos professores que tiveram que não lhes deram com reguadas nos nós dos dedos ao ver estas calinadas. Quando se queixarem que o vosso trabalho é difícil, pensem que podiam ser o corrector ortográfico desta gente. O melhor dos dois mundos é quando há uma espécie de híbrido, Jorge Estrela ou Edite Jesus, e alguém faz uma correcção a erros insignificantes e que se vê que foram desleixo e não iliteracia, com uma frase, toda ela carregada de erros piores. Já fui corrigido assim: "O texto que escreves-te está xeio de erros! És mesmo um palhasso!".

O HERÓI DO TECLADO
O famoso keyboard warrior que acha que a Internet é toda ela um jogo de World of Warcraft e que a cada comentário a demonstrar força está mais perto de chegar a paladino fucking shit. Oferece porrada por tudo e por nada ao género «Vamos lá fora resolver isto!», pavoneando a sua testosterona virtual por todo o lado. Vê-se muito em sites desportivos e em notícias sobre tourada o que não é de estranhar. Quem gosta de ver o sofrimento de um animal no conforto da bancada, só pode ser o tipo de pessoa cobarde que ameaça outros através da segurança do ecrã. A magia acontece quando ao herói do teclado se juntam as características do Jorge Jesus e do Caps-Locked, num autêntico espectáculo de fogo de artifício machão de pólvora seca. Era aparecer-lhes à porta de casa com um grupo de ex-presidiários e confrontá-los com um abraço apertado e por trás. O amor vence tudo.

O TROLL
O troll é uma compilação de vários tipos. O objectivo do troll é ter atenção, já que em casa ninguém lhe liga. Normalmente são homens, com borbulhas na cara e pila pequena: daí a sua falta de confiança que os leva a descarregar no local onde conseguem que é a Internet. Na vida real são uns xoninhas que dizem que sim a tudo, que seguem a carneirada sem contestar nada e que levam duas chapadas na tromba sempre que há confusão. O troll segue várias páginas no Facebook, inclusivamente com as notificações activas, para poder ser sempre o primeiro a comentar e a dizer mal. Lá no fundo ele até gosta, mas tal como alguns terroristas que adoram os prazeres dos países ocidentais, sente-se mal com isso. Há quem diga que nunca se deve discutir com um troll porque são invencíveis, dado que nos rebaixam à sua estupidez e nos vencem por experiência. É mentira, os trolls são como aqueles gajos do ginásio que são grandes e que nunca levaram um selo bem dado porque toda a gente preferiu fugir do que confrontá-los. Com uma resposta à séria e mais troll do que eles, eles fogem e escondem-se na cave dos pais, ou seja, no seu quarto.


O George Carlin dizia que o mundo era um circo de aberrações e que viver nos Estados Unidos era ter um bilhete para a fila da frente. Eu acrescento que ter acesso à Internet é ter acesso à tribuna VIP e ao backstage desse circo.

PS: Se por acaso quem estiver a ler isto foi algum destes tipos, já sabem, não se armem em virgens ofendidas.
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28 de agosto de 2015

Aventura em Marrocos (4/4): Moulay Bousselham



Para quem não leu, pode ser ver as partes que antecedem este texto.
A aventura por terras marroquinas estava a chegar ao fim. Restava-nos uma última paragem, onde iríamos estar duas noites: Moulay Bousselham, uma aldeia piscatória já perto da fronteira. Saímos cedo de Meknès e esperava-nos uma viagem de apenas três horas. Queríamos chegar cedo ao nosso último destino para aproveitar bem a piscina e a praia e conseguirmos descansar e relaxar depois de uma viagem tão cansativa. Chegámos ao hotel sem qualquer percalço, ao contrário do que havia sempre acontecido nas cidades anteriores. Fizemos o check-in e fomos directos à piscina dar uma mergulho e apreciar a vista paradisíaca para a praia. Bastava abrirmos uma porta e tínhamos os pés na areia. Na areia e em sacos de plástico e outro tipo de material não biodegradável. Fui dar um mergulho no mar que estava impecável e tentei ver onde andavam as gajas boas, aproveitando que a minha namorada tinha ficado na piscina do hotel. Depois é que percebi o porquê de ela não se ter importado que eu fosse sozinho: gajas boas, nem vê-las. Só havia mulheres tapadas do pescoço aos pés, fosse na areia a apanhar banhos de sol ou mesmo na água. Talvez um bom negócio para aqueles lados seja fazer túnicas e burkas em material dos fatos de banho ou de surf. Ou umas túnicas com um salva-vidas embutido, em que bastaria puxar um cordel para aquilo insuflar. Sabendo que os marroquinos têm excelente olho para o negócio, acredito que seja só uma questão de tempo até aparecer uma ideia destas no Arab Tank.

Depois de algumas horas a trabalhar para o bronze, fomos jantar fora a um restaurante aleatório no centro da aldeia. Pedimos para ir para o terraço, parecendo-nos que teria uma excelente vista para o pôr-do-sol. 


Ao chegarmos lá acima, vemos o que parecia ser a esplanada do AquaParque depois de vinte anos de abandono e exposição às intempéries.

Cadeiras e mesas de plástico todas pretas e partidas, mas com uns chapéuzinhos de palha a enfeitar. Demos meia volta e descemos. Nisto, vem uma senhora ter connosco, a perguntar o que íamos comer. Falou-nos em francês, língua que nenhum de nós sabe falar sem ser à imigrante que está em França há apenas uma semana. Ela, prestável, disse que o filho falava inglês e que podia traduzir. Nesso momento, percebemos que ela não trabalhava no restaurante! Queria colar-se ao nosso jantar em troca de serviços de intérprete dos quais não precisávamos. Quando a senhora vai à janela gritar a chamar o filho, «Muhammad Miguel», que estava do outro lado da estrada, nós efectuámos uma manobra evasiva de fazer inveja a um espião da CIA, a um ninja do Japão antigo, ou a um gajo que engravidou uma rapariga depois de uma noite no Urban. Fomos sentar-nos lá fora a um canto e nunca mais vimos a senhora. Finalmente, ao fim de vários dias em Marrocos, já estávamos a aprender com eles. A toalha de mesa pegava-se aos nossos braços e havia teias de aranha em todo o lado. Veio o empregado, extremamente simpático, de perfil magrinho e cenas pretas nos dentes que claramente não eram tinta de choco. Só falava francês mas lá nos desenrascámos apontando para o menu. Só não tínhamos a certeza do que significava «viande» e quisemos confirmar que não era borrego. Ninguém se lembrava da tradução de «vaca» para francês. Eu ainda tentei com um «Vaquê», «Vacoir» e um «Fanny», mas nada. Então, eu e a minha namorada dissemos em uníssono "Muuuhhhhhhh?" e ele riu-se e disse que sim. Foi um fartote de rir até eu depois descobrir que afinal «viande» quer dizer carnes vermelhas no geral e não apenas vaca. Resultado? As espetadas eram de borrego... O prato estava todo bem arranjado e bem servido, com a carne e os acompanhamentos deitados sobre uma cama de dois quilogramas de ramos de salsa que cobriam todo o prato, o que acabava por servir como barreira protectora contra a sujidade da loiça que estava patente nos copos e talheres com que nos presentearam. As primeiras garfadas até nos souberam bem, com a carne carregada de cominhos e tempero para disfarçar o bedum natural do borrego. No entanto, entre um e outro pedaço, foi-se instalando em nós um enjoo. Talvez fosse a carne, talvez todo o ambiente do restaurante que, apesar da vista, não era agradável.

Enquanto nos íamos queixando de tudo, uma miúda pequena vem ter à nossa mesa e começa a pedir cenas na língua dela. Pensámos que fosse dinheiro e continuámos a comer e a ignorá-la. Ela insistiu. A minha namorada começou a pensar que talvez fosse comida o que ela queria e deu-lhe uma pedaço de pão. A miúda olhou para o pão com desdém de como quem é pobre e mal-agradecida, mas depois percebemos que queria carne para o pão! Demos-lhe duas fatias com carne lá dentro e ela foi toda contente ter com a mãe que a esperava sentada num muro em frente ao restaurante. Deu uma dentada na comida e vomitou-se toda com o nojo daquela carne.


Mentira! Comeu e lambeu os dedos. Quem tem fome a sério não liga se o tempero está q.b. e se a massa está al dente.

Tal como havia acontecido com as crianças a pedir dinheiro em Meknès, foi um momento triste, mas, infelizmente, vamos ganhando carapaça e ficando insensíveis a estas situações. Pedimos a conta e o senhor vem todo sorridente com ela, feita à mão, pousada num pratinho com chocolates e rebuçados. O valor era astronómico, cerca de 55€ e eu, já resignado de tantas vezes que me tentaram enganar em Marrocos, nem ia ver, pois pensava que fossem taxas de serviço e o chá supostamente oferecido e que não iríamos conseguir não pagar sem armar confusão. Eu costumo confirmar sempre a conta e nunca deixo passar uma única azeitoninha que não tenha comigo, mas foi a Xana que insistiu desta vez. Lá abri o papel e vi que algo estava errado de mais. Havia números que não se percebiam bem e o total não fazia sentido. Passei ao André para ele ver e chegámos à conclusão que nos estavam a cobrar 5€ pelo serviço e 10€ por cada prato, sendo que na lista vinham marcados como 5€. Estavam a tentar mamar-nos 25€ à força! Olha-me estes aldrabões! Chamámos o senhor e ele disse que estava certo. O André refilou a dizer que os pratos não eram 100 dirhams mas sim 55 e o senhor ainda insistiu que estava certo e que eram 100 (não havia nada a 100 dirhams na carta). Pediu-se o menu para confirmar e viu-se o olhar de "Estou fodido..." nos olhos do empregado. Tentou não trazer mas voltámos a insistir. Foi lá dentro, apressado, demorou cinco minutos, durante os quais vimos o que pareciam ser os donos do restaurante a espreitar cá fora e observar-nos. Depois, o empregado vem todo sorridente a dizer que afinal tínhamos razão. Se fosse no primeiro dia em Marrocos, se calhar tinham nos encavado, agora assim, depois de uma semana, já nós estávamos peritos em detectar este tipo de aldrabice.

Fomos até à praça central onde decorria o festival das praias de Marrocos. Tínhamos visto, cerca de cinco horas antes, pessoas já junto às grandes do palco para ficar na fila da frente. O artista da noite devia ser o Tony Carreira marroquino. Ficámos ali uma meia hora a ouvir a música, a ver as pessoas a dançar, a bater palmas e a segurar cadeiras acima da cabeça como modo de celebração. Para meu desalento, não houve mulheres todas malucas a atirar as burkas para o palco. A praça estava cheia e cheirava a frutos secos torrados, possivelmente com pregos lá dentro. Abstivémo-nos de dançar já que a nossa dança ocidental podia ser mal interpretada. Era para fazer um twerkzito, mas não quis causar ataques cardíacos ao mulherio. Vimos o que tínhamos a ver e fomos para o hotel jogar às cartas e beber o vinho que reabastecemos no Carrefour, o único local que encontrámos a vender álcool. Cinco euros a garrafa, embrulha e vai buscar, e era o mais barato que havia. Ficámos a jogar até tarde e como se estivéssemos em casa, mas no terraço. Sei que fizemos barulho a mais porque um estrangeiro de um dos quartos veio cá acima em tronco nu e cara toda remelosa mesmo quando íamos a descer as escadas para irmos dormir. Olhou para nós sem dizer nada e voltou para o quarto. No dia seguinte, parecia meio chateado com a namorada, o que me leva a crer que ela esteve a noite toda a melgar-lhe a cabeça para nos ir mandar fazer pouco barulho e que, finalmente, quando ele teve deixou de ser xoninhas e ganhou coragem já não serviu de nada.

O dia seguinte foi de relaxamento, passado na piscina para ganhar uma corzinha e para não pensarem que as fotos que tirei eram todas do Martim Moniz. Havia alguma má disposição e enjoo, e alguns de nós já estavam com o intestino a mostrar fraqueza e soltura. Deve ter sido a carne do dia anterior que fez mossa. O que vale à miúda a quem demos a carne é que ela andava a vender pacotes de lenços na rua. É por estas e por outras que eu não gosto de dar nada a ninguém. Jantámos no hotel, couscous que a dona diziam ser muito bons, isto depois de nós lhe termos dito que até agora não éramos fãs da comida marroquina. Não estavam maus, embora para o preço não estivessem nada bons. O André deixou quase tudo no prato, dizendo: «Couscous Royal? Para que é que se põem a dar nomes maricas à comida? Porque é que não dizem que isto é couscous com cozido à portuguesa mas sem os enchidos e as carnes boas? Couscous Royal é o caralho!». Teve razão.

No manhã seguinte arrancámos por volta das dez, para termos tempo de apanhar o barco que era às 13.30h. Ao chegarmos ao porto disseram-nos que afinal o barco era só as 16.00h. Esperámos ali na fila durante umas horas e lá entrámos. A viagem foi curta e depois de esperarmos bastante tempo para sair do barco, lá pisámos terra europeia. Passámos por vários postos de controlo, numa fila de uma lentidão a fazer lembrar Portugal e as suas repartições das finanças. Veio um cão cheirar-nos as rodas do carro e claro que não encontrou nada. O polícia a quem mostrámos os passaportes era português! Ficou todo contente:

- Não se vê por aqui muitos portugueses! Fizeram boa viagem?
- Fizemos sim senhor.
- Então e estes passaportes são falsificados ou quê?
- Todos verdadeiros e novinhos.
- Sim senhor, e não têm nada que vos comprometa?
- Tenho uma túnica um bocadinho gay...
- ... e droga? Não há aí droga nessa mochila? Olhem que depois a guarda civil ainda vos vai revistar. - brincou ele.
- Nada disso, eu sou da Buraca... Acha que preciso de trazer droga de Marrocos?
- Está bem visto sim senhor. Vá, boa viagem e obrigado por este bocadinho em que pude treinar o português.

Passámos os pontos de controlo todos e fomos direitos a Sevilha, para jantarmos num restaurante que eu conhecia e que é do caraças. Jantámos divinamente, várias tapas e comidas boas, que nos souberam ainda melhor depois de tantos dias a comer mal e porcamente. Pagámos 15€ cada um, uma pechincha em pleno centro sevilhano e no 1º Mundo. Não nos assaltaram o carro, o que em Sevilha também foi de estranhar. A recta final até Lisboa estava à nossa espera e fizémo-la de seguida, chegando às três da manhã à bela localidade da Buraca.

Foi uma experiência inesquecível esta minha primeira saída do velho continente. Marrocos é um país que vale a pena visitar, mais do que uma vez. Gostava de voltar a algumas das cidades e conhecer outras. Para não falar de que tenho que ir passar uma noite no deserto, que foi uma das grandes falhas desta viagem. É um país pobre, com miséria e lixo nas ruas, mas tem um povo que apesar de se ver obrigado a utilizar algumas técnicas de aldrabice, prefere fazer isso do que assaltar os turistas. Qualquer outro país pobre teria muito mais violência e insegurança! Aqui não e não acredito que seja só devido às leis duras que penalizam quem interfere com o turismo. Acredito que seja porque é realmente um povo bom, se esquecermos a parte de que muitos obrigam as mulheres a andar tapadas e as tratam como seres inferiores. São sinais do atraso devido ao tempo que passa mais devagar quando a religião está tão presente. Um dia, acredito que melhore. No fundo, Marrocos e Portugal não são assim tão diferentes: gostamos de enganar os turistas; os transportes estão sempre atrasados; e conduzimos sem qualquer tipo de civismo. Seja como for, vale a pena. Vão lá que não se vão arrepender e sai mais caro ir ao Allgarve.





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27 de agosto de 2015

Aventura em Marrocos (3/4): Meknès



A epopeia marroquina continua, depois das cidades de Chefchaouen e Marraquexe, a próxima paragem seria Meknès, a capital Berbere. Não investigámos muito sobre esta cidade, foi mais por posicionamento geográfico e porque nos disseram que ir a Fez era complicado e pouco seguro. A viagem desde Marraquexe foi tranquila, cerca de 500 quilómetros mas todos em autoestrada. Como já falei nas duas primeiras partes, o trânsito em Marrocos é um caos. Parece que todos os condutores estão aflitos para ir ao WC e que tiraram a carta na Lusófona, por equivalência à de burro. Estou a brincar, eles nem parecem ter carta. Seria de esperar, por isso, que na autoestrada fosse igual e que andassem todos a acelerar como se o amanhã não fosse chegar, mas não. Foram muitos raros os carros que vimos a mais do limite de velocidade. Obviamente, que tal não acontece por respeito e civismo, mas por medo dos radares da polícia que eram mais do que muitos. Parar na berma é outra história. Qualquer carro pára e sem se encostar muito, não vá o raile lateral riscar o carro todo amolgado. Param ali com duas rodas na berma e as outras duas no meio da estrada e quem quiser que se desvie, que isto é uma terra em que é cada um por si e Alá sabe de todos. Vimos, inclusivamente, um senhor com um camião parado dessa forma a rezar com um tapete em frente ao veículo. Quando a vontade, ou as amarras da religião, apertam, é parar e fazer o serviço sujo, seja onde for.

Lá chegámos a Meknès, a meio da tarde, e desde logo vimos que era uma cidade diferente. Parecia mais pobre, com mais pedintes a cada semáforo e rotunda desorganizada. Havia azáfama na rua, uma praça grande com tendas montadas e música a tocar. Turistas não vislumbrámos nenhum e sentimos mais aqui do que em qualquer outra cidade, que as pessoas nos olhavam. Não de lado, nem de qualquer forma estranha. Apenas olhavam a diferença que por ali passava. Estacionámos, mais uma vez num parque de terra batida improvisado e fomos com as malas, fintando vários guias que nos queriam levar a ver a cidade, mesmo com os nossos pertences aos ombros. Subimos uma estrada e atravessámos a praça central a pé.

Sem querer, dei um encontrão a uma senhora e ela fitou-me intensamente através da sua burka. Não percebi se me estava a rogar pragas ou a fazer olhinhos sedutores.

Chegámos ao riad, onde fomos recebidos por um senhor simpático ofereceu um chá de menta e nos falou um pouco sobre a história da cidade, do edifício que agora hospedava turistas e que havia sido uma casa de uma família de um senhor com quatro mulheres e vinte e sete filhos. Se eu morasse ali também teria quatro mulheres porque a casa era grande e uma pessoa não chegava para a limpar. Não querendo estereotipar, o senhor tinha uns certos tiques e maneirismos de quem não come porco por questões religiosas, mas que gosta de um bom salpicão à martelada. Pensei que deve ser tramado ser gay naquele país, ter que o esconder e ter uma vida dupla a vida inteira. Nos países como Marrocos, o armário está fechado por fora a sete chaves. Claro que deve ter as suas vantagens, pois ao menos já sabem mais ou menos com o que contam na hora do sexo, já os hetero nunca sabem o que está por baixo daquelas burkas. Se calhar a desilusão não é tão grande como nos países ocidentais depois de tirarem a maquilhagem, os soutiens almofadados e as calças push-up coladinhas ao pacote.

Subimos ao quarto e fomos ao terraço ver a vista. O sol já estava baixo e iluminava os telhados brancos das casas degradadas que se amontoavam até à linha do horizonte. Visto dali parecia uma favela com algum carisma que dava vontade de explorar. Tomei banho e enquanto os restantes ainda se arranjavam, fui lá abaixo perguntar algumas informações ao senhor da recepção: sítios a visitar, restaurantes e essas banalidades turísticas. Perguntei-lhe, também, se era seguro andar ali à noite e ele disse que sim, «Safe. No dangerous. No problem» assegurou-me. Vim até à porta do riad fumar um cigarro e observar as pessoas que passavam sem tanta pressa como nas outras cidades. Fui logo abordado por um senhor de meia idade, que me perguntou se já tinha ido à sauna. Disse que não e ele insistiu para que eu fosse no dia seguinte, que era mesmo em frente e valia o dinheiro. Devia ser o negócio da prima, como sempre. Nisto, vejo o senhor do riad a vir também à porta escutar a conversa e, ao perceber isso, o senhor com fetiche de sauna foi-se logo embora. O outro chamou-me para dentro e disse:

- Don't talk to him. Dangerous people.
- You said no danger when I asked you...
- Yes, but they ask you if you want to smoke drugs. A lot of people like him. No good people. Dangerous.

Não fiquei muito descansado mas relativizei e calculei que o único perigo fosse se algum de nós decidisse ir com ele para algum beco com o intuito de querer comprar um recuerdo de THC. Ainda assim deveria ser menos perigoso do que comprar comida de rua, mas já lá vamos.

Fomos jantar a um dos restaurantes da praça central, que servia grelhados no carvão, já que de tajines e couscous já estávamos todos nauseados. Pedimos uma espécie de grelhada mista com várias carnes e batata frita. O senhor traz a comida e um pratinho com ketchup com o dedão grande lá mergulhado. Toda a gente sabe que roer as unhas com ketchup é muito mais saboroso. Nem liguei. Havia espetadinhas de frango que estavam razoáveis já que frango não dá para estragar muito. Havia almôndegas de uma carne que parecia ser borrego e que também estavam aceitáveis e depois havia o ex libris do prato. A salsicha no topo do bolo. Salsicha de borrego, meus amigos. Meti uma à boca, salvo seja, com um entusiasmo de quem estava com saudades de enchidos, mas num sentido diferente das do senhor do riad. Quando começo a mastigar só não me vomitei porque sou um gajo rijo. Nojo. Ninguém comeu a não ser o André que no meio do pão, alface, batata frita e ketchup dizia que conseguia disfarçar o sabor. Nem as dezenas de gatos pequenos e esfomeados que povoavam a cidade e estavam junto às mesas do restaurante, à espera de que alguém lhes desse comida, gostaram daquilo. Os gatos também são uns esquisitinhos da merda, diga-se, mas gostaram de todas as outras carnes menos da salsicha. Ao menos ficámos descansados porque tivemos quase a certeza de que não eram de ratazana.

Fomos dar uma volta pelas ruas da medina cujas lojas já estavam todas a fechar mostrando que a cidade não tinha a energia de Marraquexe. Voltámos à praça, que parecia toda ela uma Feira da Ladra mas em pior. Havia de tudo. Parecia que estavam ali todos os vendedores de bujigangas do Bairro Alto que se aproveitam do álcool no sangue da juventude para vender óculos, chapéus do SWAG e anéis com luzinhas que só funcionam dois segundos e meio. Optámos por descer a rua e fomos dar uma zona onde se vendia fruta, com várias bancas a apregoar o seu produto. Ao subirmos, uma menina vem tentar vender-nos lenços de papel. Uma menina com não mais de três anos, de vestido rosa sujo e com uma tristeza no olhar que nunca deveria estar em alguém daquela idade. Estendeu-nos a mão e pediu um dirham, cerca de dez cêntimos. Por muito que me tenha custado, não dei nada. Primeiro, porque é estar a dizer-lhes que afinal vale a pena estar a pedir na rua em vez de estarem em casa a dormir; segundo, porque depois podem aparecer mais e não se pode dar a todos; terceiro, porque sou um forreta insensível. A Xana e a Rita, mulheres e por isso menos sociopatas, deram-lhe treze dirhams. Há muito tempo que não via uma criança tão feliz e há muito tempo que a felicidade de uma criança não me deixava tão triste. Foi com as moedas nas suas pequenas mãos, a correr o máximo que podia e a gritar em plenos pulmões «Maman, maman!» para mostrar a sua conquista à mãe. O irmão, uns quatro ou cinco anos mais velho, empurrou-a e disse-lhe que nos viesse pedir mais. Ela não veio e veio ele. Apesar da insistência não lhe demos nada. Pediu, pediu e insistiu. Veio atrás de nós a pedir durante uns quinhentos metros. A implorar. A humilhar-se, quando quem devia estar envergonhado éramos nós por fazermos parte da fatia do mundo que vive bem e se queixa enquanto as restantes, a maior parte, está na merda. Crianças sem culpa, sem hipótese de escolherem o que querem ser quando forem grandes até porque muitas não o chegam a ser. Crianças sem oportunidades, só porque nasceram no local errado à hora errada. A culpa é de todos nós e daqueles pais, que nunca o deviam ser e que fazem com que os seus filhos andem ali na rua a pedir àquela hora. O pai provavelmente passa do dia no café a beber chá e a ver a bola. Não sei se a educação tem grandes custos em Marrocos, mas mesmo que seja gratuita, acredito que muitos pais prefiram que os filhos peçam esmola ou trabalhem, do que tenham a ilusão de que podem vir a ser doutores ou engenheiros. Aquelas crianças não tinham o sorriso rasgado e a alegria que se vê em muitas outras de países pobres mas que parecem sempre felizes. O olhar daquelas crianças não reflectia as luzes da cidade.

Quando nos livrámos do puto ranhoso, pude sacar finalmente da carteira para comprar futilidades. Fui comprar uma espécie de nougat que havia à venda numa banca de rua. Levei um saco com diferentes variedades e fomos para o terraço do hotel beber o nosso vinho e jogar uma cartada. Vou todo pimpão para provar a minha compra, meto um à boca e trinco. Mastigo e sinto algo demasiado duro até para um nougat. Voltei a trincar e a sentir. «Deve ser um vidro!» digo eu na brincadeira enquanto levo os dedos à boca para ver do que se tratava. Qual não é o meu espanto quando tiro de lá um prego ferrugento! Um prego! Nem era um parafuso, que toda a gente sabe que escorrega muito melhor pela tripa. Era um prego que se eu o engolisse era menino para me fazer sofrer durante uns dias antes de me enviar para junto do criador.

O marroquino deve ter ouvido dizer que os portugueses tinham uma comida que se chamava "Prego no pão" e quis fazer cozinha de fusão.

Olhem aqui o bicho que quase fez com que este vosso menino falecesse:


No dia seguinte, levantámo-nos, tomámos o pequeno almoço e fomos embora, para chegarmos cedo e aproveitarmos a praia e a piscina da nossa última paragem. Chegámos ao carro e somos novamente abordados por um guia que queria que fossemos com ele ver a cidade antes de irmos embora. Tinha cabelos brancos e um sorriso honesto. Dissemos que não podíamos, que tínhamos mesmo de ir embora e ele insistiu mais algumas vezes, mas sempre com respeito e simpatia. Percebeu que não iria mesmo conseguir demover-nos e então pediu-me algo: pediu-me canetas! Disse que tinha muitos filhos e que não tinham com o que escrever para estudar. Só tinha uma, uma Bic sem tampa, e dei-lha de bom grado. Ele agradeceu emocionado pelo que chamou «um regalo de Portugal». Como é que se consegue continuar a ser rei num país em que há crianças que nem uma caneta têm para estudar? Bem, é exactamente assim que se consegue ser rei: com educação precária e religião castradora.

Como sempre, aqui ficam mais umas fotografias manhosas que tirei com o telemóvel e amanhã a saga termina em Moulay Bousselham, uma aldeia no litoral. Fiquem atentos que tem histórias giras para contar. É muito parecida com Portugal, mas só ao nível de nos tentarem enganar nos restaurantes.




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26 de agosto de 2015

Aventura em Marrocos (2/4): Marraquexe



Para quem não leu, a aventura marroquina começou em Chefchaouen, onde, depois de pernoitarmos, seguimos viagem em direcção a Marraquexe. Foram cerca de 700 quilómetros, duzentos dos quais feitos em estradas secundárias, com dezenas de operações STOP à entrada e saída de todas as terriolas por onde fomos passando. Para nossa desilusão, nunca nos mandaram parar nem olharam duas vezes para o nosso carro. Matrícula portuguesa deve ser sinal de falta de dinheiro para pagar multas inventadas. Ainda dizem que a crise não tem vantagens. A viagem foi demorada mas fez-se bem. Passámos pelo centro de Rabat, a capital marroquina, onde conduzimos por entre um serpentear caótico de carros e motas. A cada segundo havia uma contra-ordenação grave e pessoas a atravessar vias rápidas a pé, numa pressa que contrastava com a cidade que parecia ter parado no tempo há vários anos. Mais uma vez, as ruas iam tendo as faixas que dessem jeito e facilmente uma estrada com duas faixas, se transformava numa autobahn de seis para cada sentido.

Chegámos a Marraquexe já o sol se tinha escondido há muito. Já passava um pouco da meia-noite e tal como na primeira paragem, o riad ficava já dentro da Medina nas estradas onde apenas passam burros anorécticos. Percorremos os labirintos castanhos da cidade quase deserta, depois de um dia intenso de comércio. Estacionámos o carro ao ver um sinal de passagem proibida e quando o GPS nos dizia que só faltavam mais 300 metros que tinham que ser feitos a pé. 

Deixámos ali o carro, num beco que convidava ao assalto e ao amor feito no rabo sem consentimento.

Fomos apressados mais confiantes nas reviews do TripAdvisor que diziam que Marraquexe era mais segura que a Buraca. De malas aos ombros e trolleys pelo chão, fazendo um barulho no asfalto que fazia as poucas cabeças acordadas virarem-se para ver o que se passava, lá fomos. Chegámos a um cruzamento e ao esperarmos que o GPS actualizasse a posição, veio um grupo de rapazes ter connosco a perguntar qual era o riad que estávamos à procura. Dissemos o nome, ele disse que era já ali e que ia connosco. Nós fomos.

- Spanish? - pergunta ele.
- No, portuguese. - respondo eu.
- So you speak spanish.
- Yes, but in Portugal we speak portuguese.
- Similar to brazilian?
- In Brazil they speak portuguese as well, but a diferent accent.
- Ok. Me gusta mucho Cristiano Ronaldo.
- Vale.

Entramos por becos quase sem luz, sem ninguém, com esse rapaz mais velho ao meu lado e dois mais novos atrás a ver se também pingavam uns dirhams para eles. O André pergunta-me se estamos a ir na direcção certa, como quem já tem um pinguinho na cueca. Eu não tinha a certeza mas disse que sim na mesma. Nisto, apagam-se as luzes. Toda a cidade fica às escuras! Passou-me logo pela cabeça que poderia ser um plano elaborado para nos assaltarem, mas depois pensei que era parvo já que os marroquinos, que eu saiba, não vêem no escuro como os gatos. O rapaz acendeu a lanterna do telemóvel e continuou a guiar-nos. Passámos por um túnel onde se vislumbravam sombras de várias pessoas, construídas apenas pela luz da lua que ia alta. Passámos no meio deles, cheios de confiança de que talvez fossemos ser assaltados. Não fomos. Chegámos ao riad, demos cerca de dois euros ao rapaz, como havíamos feito com os outros na cidade anterior, e ele diz que é pouco. Pede mais e nós damos outros três. Ele queria ainda mais, mas recusámos. Ele agradeceu, foi-se embora e nós entrámos pela porta que separava as casas degradadas, do riad luxuoso que em Portugal custaria duzentos euros a noite, pelo qual apenas pagámos 20€ cada um. Deixámos as malas e fomos até ao terraço apreciar o céu estrelado que a falha de electricidade na cidade destapou. Ficámos ali algum tempo na conversa e depois fomos dormir.

Acordámos cedo, tomámos o pequeno almoço e depressa saímos do riad para ir explorar a cidade. Íamos com alguma apreensão mas descansámos ao ver que o carro estava são e salvo, sem vidros partidos ou sinal de arrombamento. Desde logo fomos abordados por um marroquino que disse que não era guia mas que nos indicava o caminho para o centro. Insistiu para irmos ver o sítio onde trabalhavam as peles dos animais e impingiu-nos a outro marroquino que ia a passar, dizendo que ele ia para lá, pois era lá que trabalhava. Seguimo-lo, com ele sempre a dizer que não era guia, sinal que nós pensávamos ser a indicar que não queria dinheiro. Andámos atrás dele a passo apressado durante quinze minutos, em curva e contra curva, por entre ruas e ruelas apinhadas de gente, de motas e de carroças. Havia bancas a vender abacates ao lado de pilhas de lixo em todo o lado.

Havia pão e croissants que pareciam cobertos de chocolate mas que ao chegar mais perto se via ser um aglomerado de moscas. 

O cheiro na cidade também não é o melhor, é uma espécie de bedum, com terra e peixe deixado ao sol em banho-maria de urina. Lá chegamos a um local onde o nosso não-guia nos deixa e se apressa a ir embora. Pensámos "Epá sim senhor, um gajo que dá indicações sem querer dinheiro". Nesse momento, é-nos dado para a mão um ramo de menta a cada um e somos convidados a entrar no local onde as peles eram feitas. O ramo de menta era para contermos os vómitos devido ao cheiro de carne putrefacta. Cheirava a morte e a fim do mundo. Tentei respirar sem a menta perto do nariz durante uns segundos e só não chamei o tio Gregório porque ele não estava atento. O senhor que nos acompanhava, foi explicando o processo do tratamento da pele, do qual só retive que passava por tirar o pelo, mergulhar em caca de pombo e depois passar por cal. Os motards e as dominadoras vestidos de cabedal estão, portanto, cobertos de roupa que se faz com fezes de pombo. Depois de cinco minutos de visita guiada fomos deixados por ele, sem pedir nada em troca, numa loja de dois pisos cheia de artigos feitos com a pele que ali se tratava. Trabalhavam ali mais de quarenta famílias, numa espécie de favela improvisada e construída à volta daquele recinto nauseabundo. Fomos recebidos por um senhor já de meia idade, porte forte e com um sorriso rasgado.

- Bien venidos à nuestra cooperativa. Puedes ver e se te gusta puedes comprar. Si no, no hay problema.
- Gracias, vamos a ver.
- Portugueses son como los Marroquinos... tesos. Hahaha.

Acabámos por comprar uns cintos de pele, e, ao sairmos, aparece o primeiro marroquino que encontrámos à saída do riad, logo seguido pelo que nos fez a visita guiada pelas peles. Este último pediu-nos 5€ a cada um, que nós feitos parvos pagámos. Devíamos ter dado 5€ por todos e ele que fosse endrominar pessoas para outros lados, mas ainda estávamos verdes e cedemos à pressão, bem vistas as coisas era só o nosso terceiro dia em Marrocos. Nisto aparece também o outro não-guia que andou connosco mais tempo. No total, com os cintos, gastámos ali 60€, de onde comeu o senhor da loja e os três marroquinos simpáticos que diziam não ser guias. As mulheres andam de burca preta a mostrar os olhos, mas eles é que são ninjas da aldrabice.

Fomos ao centro e almoçámos no terraço de um restaurante, com uma vista fantástica para a azáfama da praça Jemaa El Fna e as suas tendas, encantadores de serpentes e bancas de sumo de laranja natural, que usavam copos de vidro embora não tivessem água para os lavar. A vitamina C mata o bicho, dirão eles. Pedimos vários pratos e todos eles estavam uma valente merda. Os couscous de frango que pedi eram suficientes para alimentar três pessoas mas estavam mal cozinhados e temperados. Não fiquei fã, mais uma vez, da comida marroquina. Fomos passear, comprámos Ray Ban contrafeitos e puseram-me uma cobra ao pescoço para tirar foto. Não tirei e disse que não havia dinheiro por me ter colocado um réptil sem autorização. Jantámos no hotel, uma tajine de galinha, a primeira refeição decente em terras de sua majestade marroquina. Foi a Rita, namorada do André, que pediu o jantar e disse ao senhor "It's a tajine kitchen".

Kitchen, chicken, soa tudo ao mesmo e pelos vistos sabe igual.

O segundo dia começou antes das oito da manhã, já que tínhamos marcado uma excursão às cascatas de Ouzoud, logo cedo. Fomos com mais dois casais que não conhecíamos, numa carrinha de nove lugares, conduzida por um marroquino com o demónio no corpo que deve ter tido aulas de condução com o instrutor de ski do Schumacher. Era suposto serem duas horas de viagem mas acabaram por ser três, mesmo com a condução psicopata do motorista de belzebu. A meio parámos uma loja de óleos que devia ser da prima dele, para ver se nós comprávamos alguma coisa. Nem entrámos, já fartos de que nos tentassem sempre impingir os negócios dos amigos e da família. Ao chegar as cascatas o senhor disse-nos que nos deixava ali e se quiséssemos para contratarmos um guia, algo que nos deixou a todos, os oito, estupefactos, pois pensávamos que o que tínhamos pago já tinha guia incluído. Parece que não. Eu refilei um bocado mas também não estava para me chatear. Se soubéssemos disso tínhamos ido com o nosso carro e teríamos poupado uns 60€. Apareceu logo um gajo com ar de jamaicano a vender-se como guia, disse que nos levava aos sítios menos turísticos e mais calmos e que cobrava apenas três euros por pessoa. Mais uma vez, cedemos e lá fomos com ele. Era um gajo simpático que foi sempre contando a história dos locais por onde passávamos, da forma de como as famílias ali viviam quase todas das oliveiras que se sucediam por entre as margens dos penhascos que embalavam as várias quedas de água paradisíacas que se deitavam de vários metros de altura.

- Down there, is where I live with my community. My family and friends. We are a nomad people, we stay in a place for a few years, then we go. We go and we never come back. - diz ele com um brilho nos olhos.
- How long do you live here? - pergunto.
- All my life. I'm 30 years old.
- Ok...
- I'm not arabic. I'm a free man. Me and my Bob Marley family.
- Great! - digo.
- When I say Bob Marley, I'm not saying we are going to buy and sell ganja. It's more about music and freedom.
- Yes, of course. Peace and love. - sorrio.
- Exactly my friend. - diz ele com a mão no meu ombro - Peace and love... and ganja.

Rimo-nos e lá fomos andando, descendo e subindo ravinas escorregadias mas onde havia os ramos das árvores para nos segurarmos, ou nos ampararem a queda. Vimos cascatas e bebemos um sumo de laranja feito com água da nascente, enquanto ele foi fumar uma ganza com os outros dois casais de turistas. Fomos ao banho, numa água castanha mas da argila e não de sujidade. Faz bem à pele, dizem eles. Mergulhámos, passámos por trás das quedas de água e ficámos ali, um pouco, naquele pedaço de paraíso num país que as únicas riquezas que tem são estas naturais. Secámos, encontrámos um casal de portugueses, os únicos em toda a nossa estadia em Marrocos, voltámos a subir, andámos de barco e vimos macacos selvagens de perto. Pagámos ao nosso guia e despedimos-nos dele. Enquanto comíamos algo à espera do motorista assistimos a uma cena de pancadaria entre dois locais que surgiu do nada à porta do restaurante. Não sabemos o motivo, mas vimos as mulheres todas aos gritos e a chorar, quais carpideiras do UFC. Reparei que eles não lutam ao soco, dão chapadas de mão aberta, talvez por todos viverem do trabalho feito com as mãos e ninguém querer arriscar um pulso ou dedos partidos. Isso, ou são todos umas Marias Amélias que não sabem andar à bulha. Não eram chapadas à Krav Maga nem à padrasto, eram chapadas de meninas da primária. Aquilo acalmou e fomos à nossa vida, em mais uma viagem de três horas, cheia de solavancos, buracos e perigos de morte.

Se o avião é o transporte mais seguro do mundo, aquela carrinha de nove lugares conduzida por aquele senhor era o menos seguro de sempre.

Chegámos e jantámos fora. hambúrguer de dromedário, só porque sim. Sabe a vaca porque provavelmente era vaca. Fomos até à praça central e ficámos admirados com a vida que ela tinha ganho desde a tarde do dia anterior. As pessoas eram dez vezes mais, as luzes dos candeeiros e velas à venda também. Havia fumo da comida que perfumava toda a praça e escondia os aromas menos convidativos às narinas europeias. O André tinha partido os óculos que tinha comprado e, por isso, quis ir ver de outros. A banca onde os tínhamos comprado já estava fechada e fomos a outra. Um senhor, musculado e sem ar de marroquino, antes com ar de quem esteve já preso por violar pessoas e animais, atendeu-nos com uma euforia desmedida de sermos portugueses. O André queria um modelo igual aos outros:

- I broke others and I want ones equals! - diz-lhe, mostrando que ele e a sua Rita, da tajine kitchen, foram feitos um para o outro.
- Equals? - questiona o vilão do James Bond, virando-se para outro a perguntar se ele tinha "equals" - No. Only Ray Ban, Dolce Gabbana, Gucci... - termina.
- No no! Ray Ban but equals! - insiste o André.
- Ray Ban equals? I don't have that model, sorry.

Rimo-nos que nem perdidos e reparámos que já não sabíamos o caminho de volta à praça. Vários locais tentaram-nos dar indicações e diziam-nos até que por onde estávamos a ir estava fechado e era perigoso. Tudo para nos enganar e irmos com eles e abrirmos a carteira. Ignorámo-los a todos e fomos dar ao sítio certo, claro. Aldrabões. Fomos ver de mais umas compras e chegámos a uma tenda onde o André e a Rita decidiram comprar um bule e copos de chá. As negociações foram mais intensas que as do Eurogrupo e mais acesas que as da minha mãe a discutir com o meu irmão para ele sair da cama às quatro da tarde. Já todos sentados no chão, a escrever vários valores numa folha para que não houvesse mal-entendidos. O vendedor era um fartote e genuíno, o riso foi constante e ele parecia ter ido com a nossa cara, mas pode ter sido como as strippers nos conseguem convencer que se sentem atraídas por nós, só para nos sacar dinheiro. Seja como for, eles compraram o bule e eu e a Xana comprámos um candeeiro que também foi alvo de muita especulação de mercado. Fiz um bluff a vir-me embora só porque ele não descia dois euros finais para dar conta certa. Deu resultado e ele cedeu porque claro que ainda estava a ganhar balúrdios naquele candeeiro de bronze com trabalho feito à mão por crianças marroquinas.

- Good luck to you my friends. - diz ele com um sorriso na cara.
- To you to.
- Don't forget, you have to marry and have children, so make good fuck tonight. Always good fuck.

Rimo-nos, apertámos a mão e saímos de lá com mais do que bujigangas para a casa, mas sim com uma experiência genuinamente marroquina e uma hora bem passada. Depois de mais umas voltas, decidimos ir de táxi para casa, outra experiência que se deve ter em Marrocos. Apesar de nas estradas vermos táxis com sete ou mais pessoas todas amarfanhadas no banco de trás, sempre que nós pedimos um disseram-nos que só levavam três pessoas e que, por isso, tinham que ser dois carros a levar-nos. Uma camaradagem taxista para que todos tenham mais serviço, obviamente. Os táxis são, invariavelmente, carros velhos, batidos e riscados, que vão desde Fiat Uno a Mercedes 200d do tempo em que o meu avó tinha idade para ir à tropa. Lá negociámos com um que concordou levar-nos aos quatro e baixámos o preço de 10€ para 6€. Não há taxa de activação para ninguém e o taxímetro existe mas está sempre desligado. Ele ia a conduzir e a falar ao telemóvel e passámos mesmo em frente ao posto da polícia, todos sem cinto. Uma terra sem lei, não muito diferente da Buraca onde toda a gente sabe que os sinais vermelhos são só para enfeitar. Chegámos ao riad, fomos dar cabo da segunda box de vinho que tínhamos levado de viagem, enquanto jogávamos à sueca, só para nos sentirmos mais na Europa. No dia seguinte, foi acordar, pagar e seguir viagem, rumo à próxima paragem, Meknès, a capital Berbere, mas isso ficará para a próxima parte.

Aqui ficam umas fotos a demonstrar, mais uma vez, as minhas capacidades artísticas ao nível de usar o telemóvel. Amanhã, a saga continua.






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