3 de julho de 2017

Andei à caça de uma velha que se perdeu



Eram onze da noite quando recebo um telefonema desesperado: «Meu puto, a minha avó fugiu de casa, se tiveres por perto e puderes ajudar a procurar que eu estou sem carro...» diz um amigo meu cuja avó colecciona Alzheimer e todos os outros cromos da caderneta das demências. Ao que parece, a senhora tinha saído de casa sozinha, aproveitando uma distracção da sua cuidadora, e ninguém sabia dela - é o que dá os velhos não terem uma coleira com GPS - e temia-se o pior já que a senhora não teria noção de onde estava ou para onde ia, podia ser atropelada e acontecer o pior porque não tinha seguro contra todos os riscos.

Era importante encontrá-la antes que se metesse num táxi para ir a uma danceteria roçar-se num velho sarado.

Como sou uma jóia de moço, despi o pijama, vesti a minha farda de detective e muni-me com os meus acessórios de caça à velha:
  • Um apito que em vez de simular o grasnar de um pato simula a voz da Cristina Ferreira para atrair velhos. Já sei que estão a pensar que entre a voz da Cristina e o grasnar de um pato não há grande diferença, mas acreditem que uma velha com o aparelho auditivo bem calibrado consegue detectar as pequenas nuances;
  • Dois frascos de Calcitrin para elaborar uma espécie de ratoeira para velhos;
  • Uma corda em laço que os cowboys usam para apanhar gado;
  • Uma revista da TV 7 Dias com a notícia de mais uma temporada da novela «A Única Mulher»;
  • Um papagaio de voar feito de cartões de Bingo com prémio.
Meti-me no carro e lá fui em busca da senhora. Sabia-se que tinha saído de casa há cerca de vinte minutos e desconfiava-se que não pudesse ir longe devido às dificuldades de locomoção e, também, por ter acabado de tomar um cocktail forte de medicamentos para dormir - a velha era das rijas. Comecei por dar algumas voltas aos quarteirões a menos de dez à hora, com os outros carros a darem-me sinais de luzes e a buzinar. Ironicamente, estava a conduzir à velha enquanto procurava por uma velha. Só me faltou esquecer-me de tirar o travão de mão e entrar em sentido contrário.

Nem sinal da velha nas ruas mais próximas. Tentei pensar como uma velha: vais em direcção às ruas mais movimentadas ou como estás na idade em que detestas barulho e confusão optas pelas zonas mais escuras e calmas? O que te leva a sair de casa com esta idade? Ir à missa ou ao Bingo? Senti-me um profiler do FBI a traçar o perfil de um serial killer. Já que de carro não estava a ter sucesso, estacionei e fui procurar nas arcadas dos prédios não fosse a senhora deitar-se no fresquinho do mármore a fazer uma sesta.

Senti-me a fazer algo que nunca tinha feito: jogar Pokémon Go.

Senti-me em busca de um daqueles mais raros que o GPS diz estar nas redondezas, mas que não o conseguimos vislumbrar. Subitamente, vejo, ao longe, o que poderia ser a avó do meu amigo, apressei-me a chegar até ela, mas afinal era outra senhora de idade. Em Alvalade iria haver muitos falsos alarmes. Era como tentar encontrar um beto num festival de Verão! Depois desta pequena desilusão, apenas comparada à de um jogador de Pokémon Go que pensava estar prestes a capturar um Dragonite e afinal era só um Rattata, pensei que estava na hora de tomar medidas drásticas: levar uma velha qualquer e esperar que ninguém desse pela diferença. Mais cabelo branco, menos cabelo branco, podia ser que só reparassem amanhã com a luz do dia e até lá eu ficava o herói da noite. Sim, porque aquilo tinha-se tornado num desafio e queria ser eu a encontrá-la! Dei por mim a pensar que ficaria um pouco triste se não fosse o primeiro. Podem pensar que sou uma má pessoa por transformar algo que podia ser grave num desafio para mim e para o meu ego, mas aposto que foi o meu cérebro, inundado de compaixão e humanidade, que decidiu incutir-me esse espírito de competitividade para que tivesse maior motivação para a encontrar. Ou então sou só um sociopata, seja como for, eu estava lá a ajudar e vocês não.

Meia hora tinha passado e nada. Havia agora um dilema: teria a velha, com a adrenalina da fuga, ficado cheia de energia e andado trinta minutos sem parar ao ritmo de um gnu ferido? Nesse caso, poderia estar a mais de um ou dois quilómetros do ground zero da fuga e teríamos de alargar o raio da procura. Voltei a meter-me no carro e lembrei-me que encontrá-la poderia não significar uma vitória, já que a senhora não iria reconhecer-me e estava completamente desorientada e, pelo que me tinham dito, tornava-se agressiva com estranhos. Sendo assim, se a encontrasse o que faria? Ensaiei vários cenários na minha cabeça:
  • Sorrateiramente, aproximava-me por trás da velha e executaria um mata-leão até ela adormecer e, em seguida, colocá-la-ia na bagageira do carro. Corria o risco de ser parado numa operação stop:
    - Tem alguma coisa que o comprometa?
    - Hum... não.
    - Pode abrir a bagageira para vermos o triângulo?
    - Tem mesmo de ser...? É que a minha avó está lá a dormir...
  • Fingir que era um primo afastado e chegar ao pé da velha e dizer:
    - Olá Gertrudes! Como estás?
    - Quem és?
    - Sou o Jorge, primo da tia Clotilde lá de cima. Estás boa?
    - Sim.
    - Queres entrar aqui no carro para irmos visitar o Zé?
    - Quem é o Zé?
    - O tio avô do Renato. Aquele que tem um olho preguiçoso.
    - Ah, sim sim, vamos a isso, já não estou com ele há muito tempo.
  • Parar o carro ao lado dela e dizer:
    - Psst, psst, quer Calcitrin? Tenho aqui bom Calcitrin. Dois contos uma palete. Entre aqui, pode experimentar e só paga se gostar.
Qualquer um dos cenários me parecia indicado sendo que o ponto fulcral era evitar peixeirada no meio da rua. Ninguém quer ser visto a tentar enfiar uma velha num carro enquanto ela grita por socorro e que a estão a violar. Uma coisa é pensarem que maltratamos velhos, outra é ficarmos com fama de quasi-necrófilos. 

Já andava às voltas há mais de uma hora e nem sinal da velha. Se, ao menos, a velha cheirasse a gato, como a maioria das velhas, podia ter levado a minha cadela que detecta um gato a dois quilómetros de distância. A situação começava a ficar preocupante já que a noite estava fria e se a senhora ficasse a dormir na rua podia, facilmente, ir ter com o criador mais cedo, se bem que na idade dela já nunca é cedo. Restava-nos não desistir e esperar que se alguém a visse percebesse que não estava bem e precisava de ajuda e todos sabemos que depositar as esperanças na boa vontade de terceiros é o mesmo que esperar ficar rico a jogar o euromilhões.

Quem visse a senhora na rua mais depressa fugiria a pensar que o Apocalipse zombie tinha, finalmente, começado.

Primeiro, porque saiu de casa sem a placa; segundo, porque a senhora arrastava a perna devido a uma trombose que teve. O pior de tudo era se a senhora entrava num restaurante de rodízio brasileiro e ficava ali presa num ciclo infinito a comer maminha até rebentar tal como os sapos quando se lhes mete um cigarro na boca. 

Dizem que a esperança é a última a morrer, mas sendo que a senhora não se chamava Esperança, o caso começava a ficar complicado até que o telefone do meu amigo tocou. Era do hospital onde ela tinha dado entrada! Um taxista, no fim da viagem, depois da senhora ter adormecido e não dizer coisa com coisa depois de acordar, percebeu que ela não estava na posse de todas as suas faculdades mentais. A senhora estava bem fisicamente e psicologicamente, na medida dos possíveis. Fiquei feliz, por um lado, mas, por outro, fiquei triste por não ter sido eu a encontrá-la.
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29 de junho de 2017

Férias, amores de verão e festas de espuma - Podcast #12



No episódio de hoje do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre as férias e damos várias dicas para umas férias bem passadas e sem violações indesejadas como me ia acontecendo em Londres. A conversa passa por modelos de Instagram, decotes, festas da espuma, silly season, cocós de cães e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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28 de junho de 2017

Juntos Por Todos, Peidar Pelos Dois



O mundo tornou-me um cínico. Estava a ver o concerto solidário «Juntos Por Todos» e só pensava que aquilo era uma premissa excelente para um episódio do Black Mirror: transformar a solidariedade em entretenimento. Ajudar os outros fazia-te ganhar pontos que depois podias usar para descontos no supermercado ou assim. Angariou-se mais de um milhão de euros e há quem olhe para isto e veja o copo meio cheio e que é lindo ver que nos unimos em alturas de catástrofe. Eu, meio cínico, meio idealista frustrado, olho para isto com essa sensação, mas, também, com a de «Afinal até conseguíamos mudar o mundo se quiséssemos só que nos estamos a cagar porque a mudança do mundo não passa na televisão.». Se, ao menos, ao lado de cada sem-abrigo houvesse uma câmara a transmitir em directo para todos os canais e tu pudesses ir lá ajudar, mandar props para o teu pessoal da Régua e ligar para a tua mãe a dizer que estás na TV, a coisa seria diferente. Se, ao menos, os sacos do Banco Alimentar contra a fome tivessem uma app integrada que te permitisse partilhar automaticamente no Facebook com quanto quilogramas de comida é que acabaste de ajudar, a coisa seria diferente.

Pensei, também, em qual será a diferença entre fazer uma piada com uma tragédia ou cantar e dançar alegre ao som de uma música num concerto com uma tragédia em pano de fundo, especialmente com músicas «Anda comigo ver os aviões» que só se fosse para os contar e termos a certeza de que não caiu nenhum antes de lançar notícias. Nenhuma diferença: ambas servem para sacudir o medo da nossa própria desgraça. Claro que o momento da noite não foi a união entre as pessoas nem o dinheiro angariado para ajudar as vítimas, mas sim o que o Salvador Sobral disse. As pessoas têm um dom de passar do mood de solidariedade para o mood de ódio nas redes sociais em menos de dois segundos. As pessoas, quando é para dizer mal, têm um motor mais potente do que um Ferrari e um arranque mais rápido do que um Tesla com a diferença de que emitem gases nocivos ao ambiente sempre que abrem a boca. O rapaz fez, ou tentou fazer, uma piada e disse a palavra peido! Uhhh, que falta de chá! Pelo que ouvi o público riu-se bastante, o que valida a piada, seja boa ou má aos nossos olhos. Tenho para mim que as pessoas que ficaram indignadas com ele são as mesmas que ficam preocupadas com o destino do dinheiro angariado sem terem contribuídoVi mais gente ofendida com isto do que com o Passos Coelho a lançar boatos sobre suicídios.

Parece que os artistas têm de ser mais politicamente correctos do que os políticos têm de ser correctos.

As pessoas têm todo o direito de achar inconveniente aquele comentário e de não terem gostado, atenção, o que não percebo é a prontidão com que vão para o Facebook despejar o seus carregadores cheios de munições de frustração apontando as suas armas que parecem ter as miras desniveladas, já que escolhem sempre os alvos errados. Parece que estão a ver um evento solidário sempre à espera do momento para se ofenderem como se ser solidário lhes estivesse a consumir todas as forças e precisassem de uma dose de indignação para curar a ressaca. A mim ofende-me mais quem tem uma fotografia a dizer luto e que tendo possibilidade de ajudar, escolheu não dar um único euro porque dava muito trabalho. Aquilo pode ter sido só uma piada ou pode ter sido uma crítica disfarçada de piada já que antes ninguém ligava ao rapaz e agora tudo o que ele faz é considerado genial e, sim, se ele fizesse um álbum a tocar trompete com o cu as pessoas, nesta altura, compravam na mesma. Como artista, isso deve ser triste ver que a tua qualidade interessa menos do que a tua popularidade. Era o momento ideal para fazer essa crítica ao público? Talvez não, mas que mal vem daí ao mundo? Ao menos ele ajudou doando dinheiro e com o seu trabalho. É o momento certo para, a meio de um concerto solidário, se estar na Internet a dizer que ele estragou o evento no qual ele ajudou a angariar mais de um milhão? Acho que nenhuma das vítimas vai estar preocupada se o dinheiro vem com ou sem molho.
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27 de junho de 2017

Estou velho: fiz um cruzeiro aos 30 anos



No verão passado fiz um cruzeiro. Na altura não me apeteceu escrever sobre isso, mas agora vou contar-vos essa experiência. Para efeitos de não levar com processos em cima, não vou dizer qual foi a empresa. Foi assim tão mau? Não, mas gosto de dizer mal de tudo e, na verdade, foram um bocado aldrabões. Comecemos pelo início porque não vale a pena uma narrativa não linear para vos contar esta história. Poder-me-ia armar em David Lynch, mas acho escusado.

Foi daqueles cruzeiros mais baratos, 8 dias no Mediterrâneo, marcado por impulso na Internet porque já havia pressões externas, vulgo namorada, a dizer que já estava muito em cima para se marcar férias. Iríamos os dois e, sendo ela uma princesa como quase todas as mulheres, sou sempre eu que trato de tudo e, por isso, desta vez, precisava de férias daquelas que se mete uma pulseira e não se tem de conduzir, nem escolher restaurantes nem hotéis e com empregados em todos os cantos que tratam de nós.


Sendo que ir passar férias para uma plantação de café no tempo da escravatura estava esgotado, o cruzeiro pareceu-me o mais adequado.

Isso e porque um cruzeiro é excelente desculpa para alguém que, como eu, tem medo de andar de aviãoQuando disse que foi daqueles baratos, isso era o que pensava inicialmente, mas já lá vamos. Depois de comprar os bilhetes e de ir para Barcelona de comboio porque avião é para quem gosta de facilidades e não sabe esperar pelas coisas, lá chegámos ao porto de embarque. Navio grande e imponente, com muitas janelinhas pequeninas, especialmente as dos quartos em baixo que seriam os nossos porque, lá está, eram os mais baratos. Ao fazer o check-in percebi que onde há preconceito há fogo e que aquela ideia de que os cruzeiros estão cheios de pessoas na última volta da vida, é, de facto, verdade. Muitas cabecinhas grisalhas com chapéus de palha a arrastar malas que se não tivessem rodas só conseguiam levar uma muda. Depois de uma hora à espera, lá fizemos o check-in e foi nessa altura que nos pediram para pagar as gratificações dos empregados. Noventa euros por pessoa, vai buscar. Eu que nunca dou gorjetas, estava ali a ser extorquido por uma senhora vestida à capitão Iglo. Reclamei:

- Pero, gratificaciones só lo se paguien dan lo finale de la viaje despues de lo servicio sere bueno, no? Si o que? - disse eu no meu castelhano irrepreensível que aprendi a ver o Narcos.

A senhora não foi na conversa e, ao que parece, é obrigatório e estava naquelas letras pequeninas do contrato. Na verdade, já sabia, mas achei que era giro começar as férias indignado e mostrar que a alma lusitana que expulsou os espanhóis ainda está viva! Paguei, enquanto resmungava calão em português, mas a partir daquele momento incumbi-me da missão de dar despesa ao cruzeiro, fosse no bar aberto ou nos buffets. Subimos as escadas para o navio e mal se entra esquece-se que se está num barco: aquilo é um hotel flutuante! De duas estrelas, mas um hotel. Descemos as escadas até ao nosso quarto que era uma espécie de caixão com cama de casal e janelinha demasiado rente ao nível da água. Era, claramente e em gíria automóvel, o lugar do morto, a não ser num evento improvável de o barco ficar virado ao contrário e mesmo assim, vai lá sair pelo casco a ver se consegues. Bem, deixámos as coisas e vamos fazer aquilo que nos trouxe aqui: ficar a beber no bar e a abanar o pulso, estilo Roque Santeiro, para o empregado ver a pulseirinha e nos tratar como mestres senhoriais. Todos os empregados eram simpáticos, sempre de sorriso rasgado e a fingir muito bem que estavam mesmo interessados no nosso bem estar. Talvez fossem sinceros, já que as gorjetas já as tinham no bucho, os lambões. A primeira noite foi de tempestade: deitado na cama sentia-me como naquelas noites em que um gajo se deita ainda bêbado e sente que está num barco. A diferença é que ali estava mesmo num barco e sentia o sangue a acorrer-me à cabeça e, depois, a descer consoante as ondulações. Sentia as ondas a bater na janelinha e à primeira vista parecia que estava num submarino, mas lá adormeci, embalado por Poseidon e por Johnnie Walker.

O segundo dia foi todo passado em alto mar a caminho da primeira paragem. A tempestade já tinha ficado para trás e o bom tempo convidava a banhos na piscina. Piscina essa que era demasiado pequena para aquela gente toda e havia sempre aquela típica dança das espreguiçadeiras em que o pessoal armado em esperto ia deixar as toalhas antes de ir tomar o pequeno-almoço para reservar lugar. Nada que atirar a toalha para o chão e levar a cadeira para outro sítio não resolvesse. Há sempre quem seja mais esperto! A piscina estava mais lotada do que uma carrinha de ciganos, mas ia dando para molhar os pés. 


O pior eram os jacuzzis que estavam sempre, mas sempre, cheios pessoas pequeninas e nojentas: crianças.

Dizia lá para o pessoal não usar mais de dez minutos, mas todos sabemos que as crianças são gentalha que faz o que lhes apetece. Quando saiam de lá ficavam por perto aos gritinhos impossibilitando o relaxamento para o qual as banheiras com bolhas foram criadas. Com tanta confusão teria sido demasiado fácil afogar duas ou três crianças sem que dessem conta. Depois era chamar o empregado para recolher os corpos e trazer mais um Piña colada. Foi aqui, na piscina, que percebi a quantidade de gente feia que ali se tinha juntado. Não tenho problemas em dizer que eu e a minha namorada éramos as pessoas mais bonitas daquele cruzeiro. As menos feias, no meu caso. Senti-me como uma modelo da Victoria Secret a desfilar na Clínica Tallon. Só gente feia, muitos sem dentes e não me venham com tretas de possibilidades para arranjar a cremalheira porque entre um cruzeiro e um pivot, digo-vos que a minha prioridade seria o segundo.

Tínhamos de acordar cedo para tomar o pequeno-almoço e ir passear. Era aqui que, mais uma vez, se notava que havia gente a mais naquele barco, já que as filas para o pequeno-almoço eram consideráveis. Na frente, estavam sempre aqueles casais de gordos, que chegam ao final das férias de verão com o interior das coxas todo assado, a salivar e raspar a pata no chão como touros antes de entrar na arena. Mal abriam as portas, iam a correr sentar-se nos lugares mais perto do buffet para conseguirem tirar mini crepes de chocolate sem se levantarem. O pessoal nos campos de refugiados vai buscar comida de forma mais ordeira, mas é compreensível já que os refugiados não pagaram. Aposto que era por causa destes animais que os quartos eram arrumados e os lençóis eram trocados duas vezes ao dia. Eram estes javardos que deviam ficar o dia a comer nachos na cama enquanto os passavam pelo umbigo que servia para recipiente para o molho. A comida do pequeno almoço era de hotel de três estrelas, razoável, e como todos os dias passávamos a tarde fora nas cidades, era preciso um plano para não se gastar ainda mais dinheiro, já que este menino não vai estar a comer pizzas por 30€ em Itália. Aprendam como se faz: levar vários pães, fiambre e queijo para a mesa, fazer várias sandes, enfiar nuns sacos de sandes previamente levados para esta finalidade, e encher a mala da namorada até ficarem sandes a espreitar. Há quem lhe chame ser pobre, eu chamo-lhe ser inteligente. Não me importo de gastar dinheiro, desde que o tenha e que seja em coisas que valem esse valor. Um café, só porque estou em Roma, não passa a valer 4€. Já me tinha bastado perceber que tinha sido enganado nas gorjetas e, pior, nos portos das cidades. Quando diz no Cruzeiro que pára em Roma, eu, não percebendo muito de geografia, estou à espera que o barco atraque à porta do Coliseu e não que o porto seja a uma hora e tal de viagem de autocarro. Imaginem o que seria os estrangeiros que fazem cruzeiros a Lisboa pararem em Peniche. «Is this Lisbon? No, it's Pénis.», diriam. O pior é que esses transfers não estão incluídos no preço. Ah pois, vai buscar mais 40€ por pessoa na paragem em Roma e também em Florença.

Voltemos ao cruzeiro em si. A animação na zona da piscina era sempre variada: variava de muito má para merda. Para além de dez músicas espanholas antigas a passar em loop, fazendo lembrar a minha viagem de finalistas a Lloret del Mar, havia momentos de, chamemos-lhe, humor. O staff fazia umas danças e uns jogos, mas claramente tinham mais jeito para preparar gins. Houve um que era a recriação dos jogos olímpicos com pessoal vestido de ciclista e de acrobata e com bandeiras de vários países e devo dizer-vos que parecia um musical do La Féria, mas ainda em pior. Era mau. Muito mau. Era como ver circo com 30 anos. Até fiquei com pena deles e a achar que mereciam aquelas gorjetas obrigatórias. Deprimente e muita vergonha alheia em que só as crianças mais pequenas e atrasadas em termos de desenvolvimento intelectual é que achavam interessante. Até no lar de terceira idade onde a minha namorada é directora, ou em termos técnicos «repositora de stock de velhos», a animação é melhor. Se foi para aquilo que as minhas gratificações foram canalizadas, ainda maior roubalheira foi. Por falar em vergonha alheia, o cruzeiro tinha uma discoteca, mas que estava sempre às moscas. Os velhos dormem cedo e os gordos têm de acordar a tempo para abrir a pista do buffet, o que deixava 90% da população do cruzeiro fora desta equação. Fomos lá algumas vezes ver o que se passava e o cenário era o semelhante a uma discoteca normal em fim de noite: os tristes que pensaram que ir para aquele cruzeiro engatar alguém era uma boa ideia. Homens com esperança de que o facto de uma mulher estar presa num barco e com bar aberto fosse o suficiente para baixar os padrões e irem com eles para o quarto. Vi uma dança de acasalamento incrível, como se estivesse a ver um grupo de suricatas do Serengeti a tentar acasalar com dois antílopes. Um rapaz, esforçou-se durante uma hora, a tentar convidar a rapariga para dançar, a falar-lhe ao ouvido, a ir buscar-lhe bebidas - que neste caso nem servia de muito porque o bar era aberto - e nada. Nisto, quando o rapaz foi buscar o quinto safari cola à menina, na esperança que de que o álcool fosse o seu wing man, vem outro gajo meter-se com ela: cinco minutos e estavam a comer-se na pista. Nunca me hei de esquecer do olhar triste do rapaz, a vir do bar com duas bebidas na mão, ao ver aquele espectáculo de mamanço da boca. Estão a ver a cara de uma chita bebé quando vem uma leoa e lhe rouba a carcaça de gnu? Foi isso.


Foi como observar uma mãe foca a ver a sua cria a ser engolida por uma orca e não poder fazer nada para ajudar porque a natureza é assim: bela na sua crueldade.

As cidades estão para um cruzeiro como as bandas estão para um festival de verão: não interessam muito. No entanto, aqui fica um pequeno resumo das paragens:
  • Olbia - É uma espécie de terriola algarvia, mas com água mais quente.
  • Nápoles - É uma cidade bonita, fomos a Pompeia de comboio suburbano e digo-vos que a linha de Sintra ao pé daquele percurso de 50 minutos parecia a Quinta da Marinha.
  • Roma - Fila de três horas para entrar no Coliseu? Temos pena, não vai dar para mim. Fomos ao Vaticano e a minha namorada foi barrada por estar vestida à rameira, segundo o dress code sacro. Já escrevi sobre isso neste texto.
  • Florença - Uma cidade muito bonita, pagámos 15€ para passar à frente da fila de três horas para ver lá a Igreja ou o caraças. Comi um gelado que me custou 10€. Tal como o mundo em geral, o único problema é ter demasiadas pessoas.
  • Toulon -Um cruzeiro fazer paragem em Toulon é o mesmo que um avião fazer escala de quatro horas no Cacém. Aquela ideia do «quatro horas nem dá para visitar nada!» é uma vantagem. Ainda assim, fomos à praia que não era má excepto a areia e as pessoas. A sério, nunca vão a Toulon. É tipo Quarteira depois de uma guerra.
Com isto tudo, faria novamente este cruzeiro? Sim. Foi giro, eu é que tenho um dom especial para dizer mal de tudo. Vim cansado de tanto andar, com peso a mais de tanto comer, e com tonturas e vertigens durante um mês o que, pelo que vi no Google, é comum e chama-se Síndrome do Marinheiro. Como bom hipocondríaco que sou, também é possível que fosse um tumor cerebral, mas como ainda não morri e já passou um ano, devo estar safo.
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25 de junho de 2017

A bonita tradição dos touros de fogo



Portugal sempre foi um país que valorizou as suas tradições. Desde o fado ao cante alentejano, o português é um povo que em toda a sua auto maledicência consegue valorizar as lembranças de um passado glorioso, em forma de tradições. É incrível como é que nós, novas gerações, muitas vezes, nem conhecemos as bonitas tradições do nosso país. Por exemplo, foi apenas há dois anos que tive conhecimento dessa bonita tradição portuguesa de queimar gatos vivos num recipiente de olaria nacional, e foi apenas este fim de semana que descobri a bonita tradição de pegar fogo aos cornos de touros. Sou um ignorante no tocante à cultura portuguesa, bem sei. Aconteceu em Benavente, apesar de ter sido anunciado previamente e proibido logo em seguida. Jornalistas e activistas da causa animal foram ameaçados por alguns populares de Benavente, mostrando que eles afinal são pela igualdade e que tanto agridem touros como pessoas. Ao menos isso, as pessoas também merecem apanhar com bandarilhas! A GNR, ao que parece, viu e não fez nada porque estavam a beber uma mini e não dá jeito tomar conta de ocorrências só com uma mão. Também não sei porque é que é proibida uma tradição tão linda que só torna a tradição da tourada ainda mais luminosa! Espetar ferros tudo bem, incendiar chifres não? Disparate. Se é para se ser burgesso, que se seja em grande! Se eu fosse adepto de tortura animal, colocava estalinhos nos cascos do touro para ele andar aos saltinhos feito cabra montesa, colocava uma motosserra presa à cauda do bicho para ele se cortar todo e os homens valentes que rabejam serem ainda mais corajosos e másculos! Tenho boas ideias, mas sinto que é estar a dar pérolas a porcos, não querendo ofender os porcos.

Sinto que já disse tudo o que tinha a dizer sobre touradas quando escrevi este texto, tanto que nunca mais falei no assunto. No entanto, esta notícia mereceu a minha atenção até porque vivemos num mundo onde não se pode dizer que as pessoas são más, apenas que têm um problema ou que tiveram uma infância difícil. Por isso, estou preocupado com este grupo de pessoas de Benavente, que quero acreditar serem a minoria da terra: esta gente que gosta de ver touros presos a espernear enquanto um grupo de chimpanzés com ténis lhes pegam fogo tem algum tipo de problema mental. Gostar de ver violência contra animais só porque é tradição demonstra que há ali qualquer coisa naqueles cérebros que está queimada. Talvez tenham assistido demasiado perto da última vez e o calor lhes tenha derretido os apoios do cérebro, não sei.

Não sei se foi a mãe deles que fumou e bebeu durante a gravidez ou se o pai desta gente é ao mesmo tempo primo em 2º grau.

Sei que a explicação mais consensual é que a exposição a este tipo de barbárie desde pequenos lhes tenha atrofiado ali a parte do cérebro responsável pela empatia com animais. Talvez seja isso. Cá para mim são só burros e ignorantes: no caso dos homens, com inseguranças penianas; no caso das mulheres, mal fodidas devido à pequenez de carácter e de pila dos seus homens.

O que me choca não é haver gente que gosta disto porque isso vai sempre existir: ainda há gente com nostalgia da escravatura, por exemplo. O que me choca é ser permitido ou, pior, ser proibido e fazer-se na mesma, e ninguém ser responsabilizado. É que a mim também me apetecia quebrar a lei e enfiar uma tocha a arder no cu desta gente e soltá-los na rua feitos pirilampos de Chernobyl, mas já sei que depois a polícia me vem bater à porta a pedir explicações. Por isso, fico-me por lhes chamar filhos da puta.
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23 de junho de 2017

Incêndios, cadáveres e pseudo feministas - Podcast #11



No episódio de hoje do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre o tema quente do momento, passe a expressão: os incêndios em Portugal. Falamos sobre o frenesim dos media e a cultura da tragédia alheia e do cadáver amestrado da Judite. Ainda há tempo para a rubrica «Coisas que nos fazem comichão» onde falamos sobre pseudo feministas e restaurantes sem higiene. Peço desculpa pelo som que desta vez ficou manhoso. Que não seja por isso que deixem de ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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