31 de julho de 2018

Último episódio: Perguntas dos ouvintes



Este que é o último episódio desta temporada do podcast Sem Barbas Na Língua é inteiramente dedicado às perguntas que os ouvintes nos foram enviando durante a semana. Desde perguntas filosóficas como "Preferem mamas ou cus?" a temas menos densos como "Qual o sentido da vida?", há de tudo um pouco em mais de duas horas de amena cavaqueira para compensar o tempo que estaremos sem publicar.  É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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30 de julho de 2018

Arrumar a casa com a namorada ao fim de semana



Percebi que estou velho e castrado quando este sábado, ao acordar, a minha namorada diz "E se este fim de semana não sairmos e ficarmos a arrumar a casa?" e eu não só digo que sim, como recebo a ideia com bastante entusiasmo. Quando vamos ficando mais velhos, a perspectiva de ter uma casa arrumada deixa-nos contentes e a ideia de acordar a um sábado ou domingo cedo e sem ressaca parece-nos fascinante e faz-nos sentir vivos.


Então, foi com grande euforia interna que lhe gabei a iniciativa pois o nosso pequeno T2 já se assemelhava a uma arrecadação de um T0 cujos proprietários são uma família de furões.

Somos ambos, igualmente, desarrumados, dirá a minha namorada. Concordo, mas o problema é que cá em casa existem muito mais coisas que são dela do que minhas, o que se traduz em muito mais coisas desarrumadas da parte dela. Ou seja, em termos relativos desarrumamos igual, mas em termos absolutos a bagunça com o nome dela é incomparavelmente maior à minha. Ela dirá que não e tentará censurar esta parte do texto, mas serei rijo e comprarei esta guerra em prol da verdade e do humor. Por exemplo: ela tem cerca de 54 vezes mais roupa do que eu - isto fazendo contas por baixo - e usa uma ou duas mudas por dia; eu, trabalhando em casa, ando com a mesma t-shirt três dias seguidos; até escolher o outfit do dia, ela experimenta quatro ou cinco que depois de serem rejeitados não voltam para o sítio onde estavam arrumados; eu, muitas vezes, levo a camisola do pijama por baixo de um casaco para ir passear a cadela ou ir ao café; na casa de banho eu possuo uma escova de dentes e uma lâmina de barbear enquanto ela possui tudo o resto que existe nas três gavetas e dois armários. Só o facto de ela ter malas, muitas como qualquer mulher, faz com que se isto de desarrumar se tornasse modalidade olímpica, fosse uma espécie de Usain Bolt contra um gordo amputado e sem próteses numa corrida de 100 metros.

A casa nem sempre está muito desarrumada; há tarefas definidas: eu faço o comer e lavo a loiça todos os dias, a minha namorada trata da roupa quando eu me queixo que já estou a fazer reciclagem de boxers e meias. O pó ninguém limpa que ele sossegado não chateia ninguém e mais vale deixá-lo quieto a alcatifar as prateleiras do que passar lá um pano e irritá-lo, fazendo com que esvoace e se aloje nas nossas cavidades. Aspirar também é disparate visto que temos uma cadela. Portanto, arrumar prende-se com não ter roupa nem lixo espalhado pela casa, algo que é difícil porque a minha namorada tem alma de coleccionadora, mas como é indecisa quanto ao ramo do coleccionismo ao qual se dedicar, decide guardar tudo. Se formos à casa de banho podemos pensar que ela colecciona embalagens vazias de condicionador de cabelo, recipientes para lentes de contacto ou giletes cheias de ferrugem, mas não: custa-lhe mandar coisas fora. Mandar roupa fora? Isso é uma espécie de pecado capital que nunca lhe passaria pela cabeça. E se a roupa volta a estar na moda? E se os gostos dela mudam? É melhor guardar tudo.


Ela tem dois portáteis, um que funciona e o outro que não liga o ecrã, mas que ela se recusa a mandar fora porque pode precisar um dia, sendo que esse dia está para chegar há mais de quatro anos.

Lá nos preparámos para a epopeia que se avizinhava durante este fim de semana em que o Verão decidiu chegar só para nos fazer pirraça. Arrumar a casa é uma ciência e é preciso planear; temos de traçar uma estratégia que nos permita o menor esforço possível e usando vários algoritmos - que aprendi no curso de engenharia - lá determinei o caminho de custo mínimo e calculei que era melhor arrumar a cozinha primeiro. Arrumei tudo enquanto ela tratou do nosso quarto. Seguiu-se a casa de banho da qual foram extraídos dois sacos cheios de embalagens vazias de cremes e maquilhagem e afins. Nesta operação de limpeza a fundo à qual chamei "Solução Final", abro uma caixa e encontro um molho de cabelo que parecia vindo de um campo de concentração Nazi. Assustei-me ao perceber que podia estar a viver com uma serial killer que mata mulheres, ou homens de cabelo comprido, e lhes guarda as madeixas como troféu, mas não, afinal eram extensões que ela tinha usado uma vez. Como se não bastasse o cabelo natural dela a entupir o ralo do poliban.

O tempo passa depressa quando nos estamos a divertir, demos por nós e já eram quase horas de jantar. Decidimos que já chegava por hoje já que amanhã era domingo e depois ficávamos sem nada para fazer. Acordámos cedo, um pequeno almoço dos campeões com ovos mexidos e bacon para haver energia para o dia inteiro, algo que foi um erro porque sujou muita loiça, a juntar à do jantar que fiz no dia anterior, e lá tive de recomeçar tudo na cozinha e percebi que, afinal, deveria ter ficado para o fim. Tratámos da sala e do resto da casa, e quando estávamos quase a terminar, a minha namorada começou a quebrar, tal como os grandes atletas quebram no último quilómetro da maratona. Ela não faz exercício desde as aulas a que não faltava em Educação Física do 12º ano e eu deixei de fazer desporto há uns três anos, pelo que também não estava melhor, mas não quis dar parte fraca e puxo por ela e digo "Vá, só mais um bocadinho, está quase." numa espécie de personal trainer de empregadas domésticas. Aliás, se os vizinhos estivessem a ouvir a conversa, talvez pensassem que estávamos a fazer sexo em vez de limpezas:

  • "Se começámos é para acabar!"
  • "Anda lá que eu dou-te uma mãozinha."
  • "Tens de esfregar melhor!"
  • "Deixaste isto aqui tudo sujo."
  • "Ainda há espaço para arrumar isto aí dentro?"
Lá conseguimos terminar quase tudo, fora a roupa que falta passar, a roupa que ainda falta lavar e estender depois da outra secar. Entretanto, a cozinha tem mais loiça para lavar e a cadela já urinou no hall de entrada e roeu as fronhas novas da almofada. Moral da história: vamos contratar uma empregada.
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26 de julho de 2018

Coninhas 101: Manual de indignação para as redes sociais



Estar constantemente indignado das redes sociais não tão fácil como, à partida, se possa pensar. É necessário dedicação, energia e, acima de tudo, uma vida pouco preenchida de prazeres e com muito tempo livre. Antes de dar algumas dicas sobre como ser um bom coninhas das redes sociais, vou, primeiro, tentar dar uma boa definição do que é ser coninhas neste contexto:

Como nem sempre é trivial identificar um coninhas através da definição que vem no dicionário, deixo um fluxograma para que a identificação desta espécie abundante seja mais fácil:
Pelo ponto 3. da definição e pelo fluxograma, chegamos à conclusão que ser coninhas não é apenas não gostar de uma determinada piada, isso é normal. Coninhas não é apenas ficar ofendido, isso também é normal. Coninhas é achar que o nosso limite para o humor deve ser o dos outros e só ficar ofendido com algumas coisas e decidir expressar essa indignação como se a nossa opinião devesse ser tida em conta. Ser coninhas é ficar mais indignado com piadas do que com os verdadeiros problemas da sociedade, mas escolher os humoristas porque são alvos mais fáceis e que dão mais visibilidade à indignação. Por vezes, há casos especiais, que têm de ser analisados em mais detalhe e, para isso, criei este questionário - adaptado de um inglês que encontrei na Internet - que deve ser preenchido sempre que houver indícios de conice para percebermos o que pode estar a causar o problema e, para efeitos estatísticos e científicos, melhor catalogar os coninhas.
Agora, que estabelecemos, de forma precisa, o que é um/a coninhas neste contexto, posso passar a dar algumas sugestões de comentários que devem fazer se quiserem ser um coninhas encartado. Para se ser coninhas não se pode ser muito original e, por isso, os comentários seguintes englobam mais de 90% dos coninhas digitais.

«Com coisas sérias não se brinca.»
O comentário essencial para terem no vosso leque de indignação enconada. Já riram de piadas com o holocausto, mas não se pode brincar com vegans, por exemplo, porque esse assunto vos é próximo. Usem este comentário para mostrar que são um coninhas defensor da moral e dos bons costumes e que a vossa definição de assunto sério devia ser a de toda a gente.

«Too soon!»
Este comentário deve ser utilizado quando se pretende ser um coninhas hipócrita. Com este comentário demonstram que a vossa empatia por uma tragédia tem prazo de validade e que agora vos faz impressão rir, mas que se for daqui uns tempos já é na boa, porque já se esqueceram e já não se importam com as pessoas que realmente viveram a tragédia.

«Já perdes-te a piada toda.»
Devem usar este comentário sempre que quiserem expressar a vossa admiração e descontentamento ao mesmo tempo. Este comentário faz de vocês um coninhas ingrato que, pelo comentário, dá a entender que houve tempos em que gostava da pessoa em questão. Usando este comentário mostram que são ingratos e que, à primeira piada que acham que não tem graça, esquecem tudo o resto que já gostaram. Para se ser um coninhas devem exigir que todas as piadas sejam boas e, acima de tudo, ao vosso gosto. E erro no tempo verbal é essencial para conseguirem chegar ao cinturão negro dos coninhas.

«Vou deixar de te seguir.»
Devem usar este comentário se quiserem ser o coninhas que se acha importante. Devem avisar sempre que vão deixar de seguir uma página porque, no fundo, se não o fizerem, sabem que ninguém vai dar pela vossa falta. Podiam deixar de seguir sem dizer nada, o que seria inteligente, mas não seria digno de um coninhas que precisa de atenção e de achar que a sua opinião é relevante para alguém.

«Havia de ser alguém da tua família a ver se também fazias piadas sobre isso.»
Este argumento deve ser utilizado se querem ser um coninhas nível paladino master shit. Com este comentário demonstram a vossa indignação e, ao mesmo tempo, deixam no ar uma espécie de desejo kármico porque vocês são tão boas pessoas que acham que quem faz uma piada com uma doença devia passar por ela como vingança. Podem rematar com um «Só espero que um dia tenhas cancro.», embora ache que devam utilizar uma doença mais mortal e mais rara como o Ébola. Desejar cancro a alguém, nos dias de hoje, é como apostar que um dos três grandes vai ganhar a liga de futebol. Vamos todos ter, provavelmente, por isso mais vale apostar num SARS ou assim, que se calha a acontecer ficam a pensar que têm os poderes da bruxa da tusa.

«Já sigo à mais de um ano e só escreves merda.»
Com este comentário, não só demonstram que são um coninhas, como são masoquistas e têm demasiado tempo livre. A maioria das pessoas nem tem tempo para seguir tudo aquilo de que gosta, mas um coninhas tem tempo para seguir até o que não gosta, religiosamente. A má utilização do verbo haver é opcional, mas dá pontos extra na taxa de conice no sangue.

«Quando te encontrar na rua vou partir-te a boca toda.»
Quando querem ser um coninhas alfa, devem, para além de mostrar descontentamento, ameaçar de porrada e, se possível, de morte. Assim, mostram que não só são muito machos como acreditam no destino e deixam a cargo do acaso a sessão de porrada. Podiam marcar um sítio para partir a boca, mas preferem que seja o universo a juntar-vos.

Deixo uma dica final que podem sempre utilizar com arma de arremesso quando ficam indignados:
  • Se a piada tiver muitos likes: neste caso devem dizer algo do género «Tens muitos likes porque as pessoas são burras e a qualidade não se mede pelos seguidores porque também o Hitler tinha muitos.»
  • Se a piada tiver poucos likes: neste caso, podem dizer «É por isso que nem tens likes nesta piada o que prova que é má!».
Assim, nunca se comprometem. É um bocado incoerente? Sim, mas um coninhas para ser coninhas tem de ser incoerente e hipócrita, caso contrário não tem direito ao diploma. Por falar nisso, fica aqui o Diploma do Coninhas que podem usar com orgulho na vosso foto de perfil ou atribuir a alguém que vejam a espalhar conice pelas redes sociais.
Muito obrigado a todos os coninhas deste mundo digital que nos alegram os dias e me dão material de comédia, contribuindo assim para o problema que identificaram e não para a solução.
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24 de julho de 2018

Verão, animais e touradas, escatologia diversa, profissões inúteis



Neste episódio falamos sobre o verão e incêndios, sobre animais de estimação e tourada, escatologia diversa como puns, cocó e macacos do nariz, profissões inúteis e obsoletas e muito, muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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23 de julho de 2018

Deus é um mau chefe



Basta olhar para o mundo para perceber que Deus é um gestor medíocre. Bem sei que na visão monoteísta não existe concorrência e talvez seja por isso que Deus está pouco empenhado no seu trabalho como CEO da Terra S.A.

Lembrei-me disto após uma piada que escrevi em que alguém comentou "Quando morreres e te encontrares com Deus vais arrepender-te de dizer estas coisas e vais ter o que mereces". Achei estranho este tipo de gestão por parte de Deus: já que pequei tão horrivelmente, não seria suposto ir directo para o inferno? Ainda tenho de falar com Deus? Para que é que Deus vai perder tempo comigo quando tem o Diabo para tratar desses assuntos? Que raio de micro management é este? Deus tem de delegar! Se calhar, é por isto que o mundo não anda para a frente, já que Deus está sempre a querer controlar todos os detalhes em vez de dar liberdade aos seus colaboradores. Colaboradores esses que quando toca a serem reconhecidos e valorizados, Deus comporta-se como um qualquer mau chefe: se algo corre mal, Deus diz que não teve nada a ver com o assunto, mas quando algo de bom acontece, em vez de Deus reconhecer o mérito dos seus colaboradores, fica com os créditos para Ele.


Exemplo: um médico salva uma vida e diz-se que é milagre, tirando, assim, todo o mérito a quem, na verdade, trabalhou.


Deus é um gestor indisponível para falar com os seus colaboradores. A comunicação com Deus é unidireccional e raramente atende o telefone ou responde aos e-mails. Bem podemos rezar que Deus só responde a um grupo restrito de pessoas, como a Alexandra Solnado, por exemplo. Este tratamento desigual dos empregados cria conflitos no local de trabalho e faz com que muitos se sintam desvalorizados e não se empenhem tanto em espalhar a visão e os valores da empresa. Aliás, todas as empresas mal geridas sofrem desse grande problema: cunhas. Pessoas contratadas para cargos com responsabilidade sem terem qualquer competência para isso, mas que são conhecidos ou familiares do chefe. No caso da empresa de Deus, este nepotismo é gritante, já que a Jesus bastou-lhe ser filho do chefe para conseguir o trabalho e logo no cargo de Messias. Jesus tinha um bom CV? Tinha experiência na área? Nada. Foi contratado por ser filho de quem é e fez um péssimo trabalho, prova disso é que nem conseguiu juntar doze pessoas competentes para o ajudarem, mostrando que era péssimo recrutador, já que com um bom gestor de recursos humanos Judas nunca teria sido contratado. No entanto, neste caso dou algum crédito a Deus, já que não foi por Jesus ser seu filho que Ele lhe deu especial atenção, deixando-o morrer como se fosse outro colaborador qualquer, sem o ajudar ou responder às suas preces.

Deus adopta um estilo de chefia bastante antiquado, optando por ameaçar em vez de inspirar. Se cometemos alguma falha, se deixamos algum bug no nosso trabalho, ou, neste caso um pecado, diz-nos que seremos castigados para toda a eternidade. Quando é Ele a cometer erros, a história é outra: Deus descarta-se de todos os que comete, dizendo que escreve direito por linhas tortas. Um gestor que não admite os erros é um gestor condenado a não aprender com os seus falhanços e a não melhorar com o tempo. Deus acha que está sempre certo e nunca se questiona e essa postura só prova que o Deus que exige humildade aos seus colaboradores é o mesmo que se comporta como um narcisista vingativo. 

Deus comete outro erro clamoroso que todos os chefes idiotas fazem: pede esforço à equipa, pede que vistam a camisola, mas não lidera por exemplo. É exigido a todos os colaboradores - que somos todos nós, humanos - que trabalhem horas a fio, mas Deus trabalhou apenas meia dúzia de dias e agora raramente faz alguma coisa. Prova disso é a escassez de milagres que acontecem no mundo moderno, mundo ao qual Deus nunca se adaptou já que resiste à mudança e isso é um grande problema quando se quer ser um bom gestor. O mundo está em constante evolução, mas Ele rege-se por dogmas antigos e que não fazem sentido no mundo actual; bem sei que uma empresa com tantos milhares de milhão de empregados será sempre pouco flexível e lenta a mudar o rumo, mas continuar a insistir em regras porque "Sempre se fez assim e é o que diz na Bíblia" é um erro.

Para piorar tudo isto, Deus é aquele tipo de chefe que ostenta riqueza quando a maioria dos seus empregados nem tem dinheiro para comer.

"Lamento, este ano não haverá aumentos" e depois constrói uma capela em talha dourada no valor de milhões de euros onde nunca vai, nem para passar férias.

Deus estimula a atitude de "lamber o cu" ao chefe, privilegiando a graxa e não o empenho no trabalho, pois só isso explica que as pessoas sejam mais incentivadas a dar esmolas à Igreja do que a ajudarem o seu semelhante. Uma coisa há que admitir: apesar disto, Deus é insubornável, pois está-se a cagar tanto para quem dá o dízimo como para quem não dá. Outro ponto positivo de Deus, enquanto líder, é o facto de desde sempre se preocupar com o problema do assédio sexual no local de trabalho, de tal forma que as mulheres têm um papel completamente secundário na Igreja para não haver misturas. No caso dos anjos isso ainda é mais evidente, já que Deus decidiu retirar-lhes o sexo para que não caiam na tentação de fornicarem em cima da fotocopiadora do escritório. Sim, existe o problema da pedofilia dentro do círculo dos seus colaboradores mais próximos, mas são só 10% dos padres e Deus tem feito um excelente trabalho a escudar a equipa e a abafar os casos. Toda a gente sabe que elogiar deve ser feito em público e repreender em privado e Deus, assim, mostra que consegue ser tolerante com os pedófilos e que não os discrimina pelos seus erros. Deus só discrimina os seus colaboradores pela cor, pela orientação sexual, pelo género e pelo credo. Olhando para o mundo e para a Igreja, Deus devia ter ido para taxista e não para gestor de uma grande empresa multinacional.
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17 de julho de 2018

O dia em que fui expulso de uma discoteca



Começo por dizer que não me lembro bem dessa noite, como será normal nas noites em que se é expulso de uma discoteca. Talvez já tenha sido expulso outras vezes e não me lembre, mas penso que não. Na verdade, nem foi por nenhum desacato típico de bêbedo que fui expulso, mas sim por ter a mania que sou engraçado. Foi numa discoteca do Cais do Sodré, em Lisboa, e aconteceu há vários anos atrás, até porque ter acontecido há vários anos à frente seria complicado e poderia perturbar o contínuo espaço-tempo.

A noite começou como muitas outras: com a promessa de "Vou só beber um copo e depois bazo cedo para casa" que não é mais do que um bilhete para uma montanha russa cujo único caminho é a descer.

A promessa foi, como sempre, quebrada e o copo transformou-se em vários e o ir cedo para casa só seria verdade se nos regêssemos pelo fuso horário de guarda-nocturno.

Deve ter sido por volta das três da manhã, quando se decide, já com um copo a mais, que ir para uma discoteca é que é o que precisamos para a nossa vida naquela momento. Estava com um grupo de amigos e lá entrámos, depois de passar na temível vistoria do porteiro que só os homens compreendem, pois não possuindo vaginas, há sempre o risco de ele não nos deixar entrar para não comprometer o rácio dentro da discoteca e estragar o negócio. Deixámos os casacos no bengaleiro e fizemos o que todos os homens fazem quando entram numa discoteca: ir directo ao bar pedir uma das bebidas pelas quais já pagámos.

Estava alegre, naquele estado inebriado em que estou no meu canto, calminho e sem chatear ninguém, mas não demasiado bêbedo e prova disso é que reparava que estava a enrolar a língua e que dizer palavras como "solidariedade" seria uma tarefa impossível. Quando percebemos que estamos a enrolar a voz é sinal de que ainda estamos relativamente bem, caso contrário nem reparamos e dizemos "Eu, a enrolar a voz?! Estou perelefeitamente bem.". Lá estava na danceteria de jovens e fui ao WC; coloquei-me de frente para um dos urinóis que, felizmente, estavam livres. Sim, não gosto de urinar com desconhecidos ao lado. Tenho a bexiga tímida. Nisto, quando estou já a meio, com a cabeça encostada à parede - que, já agora, deveria ser almofadada em todos os urinóis - quando um rapaz ocupa o urinol do lado. Tranquilo, já estava a meio e, por isso, já não havia aquela pressão de ter de começar a fazer, mesmo com o constrangimento acrescido de o rapaz ser negro, o que causa sempre mais insegurança nos homens brancos que querem utilizar o urinol. Nisto, ele faz aquilo que nunca se deve fazer: inicia conversa comigo. Ora bem, dois homens com os pénis nas mãos só devem conversar se forem muito amigos ou muito gays. Nada contra, apenas a constatar factos no tocante à etiqueta da conversa com miudezas nas mãos. Eis a conversa que se seguiu:

- Gostas de rap? - pergunta-me, talvez a música nessa altura fosse rap, não sei, sei que se fosse ao contrário talvez fosse racismo.
- Gosto, sim. - respondo, sempre a olhar-lhe nos olhos para não correr o risco de olhar para baixo sem querer.
- E rap tuga, curtes?
- Sim, por caso oiço bastante. - algo que é verdade.
- E que rappers curtes?
- Eh pá, vários... Sam the Kid, Valete, Xeg, por aí.
- Fixe fixe, e curtes Sir Scratch?
- Ya, também curto, por acaso. - algo que também é verdade.
- A sério? - pergunta com um sorriso.
- Sim. - asseguro-lhe.

Ele fica a olhar para mim a sorrir, desvio o olhar, dou três sacudidelas no trombinhas e despeço-me com um "Vá, fica fixe". Lavei as mãos e quando saio do WC tive uma espécie de momento Eureka, uma epifania ao som de um qualquer banda de indie rock britânico que passava na altura: apercebi-me que o gajo era o Sir Scratch. Afinal aquilo não tinha sido o pior engate gay interracial da história das casas de banho de discoteca! Afinal o sorriso malandro dele e o ar incrédulo não era por eu conhecer Sir Scratch e ser a alma gémea dele, mas sim porque ele era o MC em questão. Na verdade, mesmo que tivesse desconfiado talvez não lhe perguntasse se ele era o Sir Scratch, já que, caso não fosse, seria uma pergunta potencialmente racista e ele ainda me respondia que não e me acusava de achar que os negros eram todos iguais.

Ri-me sozinho e fui buscar uma bebida. Estou, ali, a curtir o som como um homem branco curte o som na discoteca: balancear levemente os ombros, sem levantar os pés do chão, quando sinto um toque no ombro. Era um segurança que emergia por uma porta atrás de mim à qual, aparentemente, eu estava a bloquear a saída.

- Não pode estar aqui à frente! - diz-me com aquele tom simpático e cordial que a maioria dos seguranças de discoteca tem.
- Peço desculpa, não reparei - justifiquei, humildemente, como se deve sempre fazer com alguém que tem o dobro do nosso tamanho e que tem ar de quem tem por hobbies fazer crochet e partir canas do nariz com a testa.
- Afaste-se já daqui, não volto a avisar! - continuou, naquele tom meigo tão característico dos seguranças e dos ursos pardos.

Nisto, vejo que a porta tem daqueles sinais "Proibida a entrada a estranhos" e embora fosse anos antes de ser comediante, o bicho de dizer palermice sempre esteve aqui dentro e, com o álcool, tomei a decisão inconsciente e precipitada de dizer o que estava a pensar:

"Se aí diz que não podem entrar pessoas estranhas, como é que o senhor veio daí? Podem sair pessoas estranhas, mas não podem entrar? Os estranhos entram por outro sítio e saem por aqui, é isso?"

Há ali um momento de pausa onde me apercebo que ou ele era burro e a piada ainda estava em processamento ou que não tinha achado graça ao meu génio humorístico. Pareceu-me que a segunda hipótese seria a mais provável e tento aliviar a tensão, dando-lhe uma palmadinha no ombro e dizendo "Estou só a ser parvo, não se chateio comigo.". Curiosamente, não funcionou. Ele, sem dizer nada nem pestanejar, limita-se a agarrar-me por um braço e a levar-me lá para fora. "Que falta de sentido de humor", disse-lhe enquanto ele me escoltava até à porta. "Posso ir buscar o meu casaco", perguntei, ao que ele me responde grunhindo um "Não", entredentes.

- E agora o meu casaco? - perguntei, já cá fora.
- Venha cá noutro dia buscar. - gostei da educação de me tratar na terceira pessoa depois de me ter apertado o braço como se fosse feito do mesmo material das bolas anti-stress.
- A sério que não me vai deixar entrar para ir buscar o meu casaco?! - pergunto, incrédulo.

Virou-me as costas e não me respondeu, provavelmente por eu ter utilizado demasiadas palavras numa frase e ele ter ficado confuso. Comecei a chamar-lhe todos os nomes e a dizer que não sabia com quem se estava a meter. Isto na minha cabeça e já longe da discoteca, claro. Liguei aos meus amigos a contar o sucedido, eles saíram da discoteca e vieram ter comigo. Rimos, fomos comer e, milagre, chegamos relativamente cedo a casa.
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