14 de agosto de 2018

David Carreira, uma má influência para a juventude



Para eu escrever sobre o David Carreira é porque estamos mesmo na silly season. Parece que ele fez o chamado Kiki Challenge que consiste em sair do carro em andamento, dançar um bocado e voltar a entrar. As fãs adoraram, o resto caiu-lhe em cima, dizendo que é uma irresponsabilidade. Fizeram-se boas piadas sobre o tema como uma do Paulo Almeida que disse algo como "(...) Chamem-me antiquado mas gostei muito mais das versões do Dino e do Angélico.". Ri-me.

O que eu acho é que estamos aqui todos a fazer uma tempestade num copo de água. É um challenge estúpido? É, mas é ao que a Internet nos habituou. Ele devia ter mais cuidado porque pode estar a influenciar seguidores a fazer o mesmo?

Devia, mas ele não é responsável pela burrice dos outros e, além disso, os seguidores dele não têm idade para conduzir.

Em termos de influenciar negativamente a juventude, acho mais grave o facto de ele estar com camisola de alças e um boné virado ao contrário. Parece o menino Tonecas da Linha de Sintra. Por fim, no vídeo ele dança ao som da sua música e como o Instagram tem a funcionalidade de auto-play sem som, não me parece assim tão grave este caso.

A PSP diz que "quem adopta este comportamento pode ser acusado de infracção ao art. 3.º do Código da Estrada, ’praticar acto que comprometa a segurança (…) dos utilizadores da via’, que é sancionada com coima até 300 euros." e afirma que "Iremos enviar uma participação à ANSR [Associação Nacional de Segurança Rodoviária], para que seja iniciado o procedimento contra-ordenacional.". É aqui que eu torço um bocadinho o nariz. Se há coisa que todos exigimos é que os famosos e as celebridades sejam tratados de igual forma aos comuns mortais. Não gostamos que tenham facilidades para fazer uma marquise em casa ou para aceder a um empréstimo, não gostamos que passem à frente nas reservas de um restaurante e ficamos fulos quando a polícia fura o trânsito para deixar passar algum político que vai com pressa para chegar a casa. Portanto, se queremos igualdade para o bom, também devemos querer para o mau. O David Carreira, a ser condenado por esta contra-ordenação, sê-lo-á porque é famoso e teve visibilidade no seu vídeo e isso parece-me injusto. Se vamos condenar o rapaz, temos de começar a enviar multas para casa de toda a gente que faz vídeos e tira fotos enquanto conduz. É só ter um agente de autoridade a fazer scroll no Instagram e entre os zooms que faz a mamas encontrará centenas de fotografias e vídeos produzidos pelo condutor de um carro em andamento. É isto que queremos? Se fosse um crime, tudo bem, mas o que ele fez não é crime, apenas contra-ordenação.

Claro que o challenge é parvo, mas não me parece assim tão perigoso: acredito que ninguém queira estragar o seu Porsche e de certeza que é um risco muito controlado; está alguém dentro do carro a filmar e que está a segurar no volante; o carro tem estabilidade; havia pouco trânsito e espaço para circular e até, talvez, o carro esteja em cruise control. Portanto, sendo parvo, parece-me de baixo risco e menos estúpido do que comer cápsulas de detergente. Podemos criticar? Claro que sim, mas quando somos moralistas temos de nos lembrar que provavelmente já conduzimos, pelo menos uma vez, com os copos e já enviámos SMSs ao volante, pelo menos cem vezes. Nos comentários à notícia vemos muita gente a desejar-lhe a morte e a exigir cadeia porque "a lei é para todos". Se vivêssemos dentro do Facebook, Portugal era a Coreia do Norte.

Se a Tesla tivesse criativos tão bons quanto eu, já tinha aproveitado esta oportunidade para fazer um anúncio e dizer "Se o David tivesse um Tesla em vez de um Porsche nada disto teria acontecido, já que o carro estaria a conduzir-se sozinho em segurança.". Estou sempre a dar pérolas às marcas e elas não abrem os olhos.

Não estou aqui a defender o David Carreira até porque ele não precisa da minha defesa, calculo que tenha dinheiro para contratar advogados mais competentes do que eu, mas acho que as notícias sobre o caso foram um exagero: primeiro, é normal que o David, sendo Carreira, faça algo a imitar o outros fizeram; segundo, penso que ele já fez coisas mais graves que justificavam a coima, como, por exemplo, algumas músicas.
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8 de agosto de 2018

Acha que sabe incendiar? Novo reality show!



No ano passado, as televisões descobriram uma nova galinha dos ovos de ouro: os incêndiosNuma altura em que as audiências das televisões baixam devido ao crescendo da Internet - pior ainda na altura da silly season - os canais encontraram uma espécie de elixir da juventude que lhes rejuvenesce o rating. 

Há muitos que os noticiários se tornaram programas de entretenimento, mas por estes dias são uma espécie de espremedor da desgraça alheia e é muito discutível se o fazem em prol da informação ou de outra coisa. Sim, mostrar imagens chocantes pode servir para alertar e consciencializar as pessoas, mas, talvez seja um céptico que não acredita na humanidade, parece-me que não é aí que está o ganho.

Este paradigma acontece porque os directores de informação ouvem a expressão "Incendiar as redes sociais" e decidem usar o fogo para combater o fogo na luta pelas audiências e relevância.

Tomando como exemplo o incêndio de Monchique, eis como condensar toda a informação relevante e ocupar cerca de dois minutos de telejornal:

O incêndio em Monchique continua activo, temos mais de 21 mil hectares ardidos, 230 pessoas deslocadas das suas casas e 32 feridos, um com gravidade. Estão cerca de 1400 operacionais no terreno, com 446 viaturas e 9 meios aéreos. Pode ajudar os bombeiros através destas entidades e não mande beatas da janela do carro. É isto. Agora vamos ao desporto.

Em vez disto, são 24h de cobertura dos incêndios, com drones,  a melgar a população que tem mais do que fazer do que responder a perguntas "Então, este fogo é chato, não é?", ainda por cima quando a melhor resposta de sempre sobre a perigosidade dos incêndios já foi dada há uns anos por aquele senhor que tinha de abalar para uma consulta às 17h. Está feito, foi atingido o pináculo das respostas, não é preciso perder mais tempo pois nunca haverá melhor. São colocados enviados especiais no terreno com cadáveres em pano de fundo como já vimos o ano passado. Ouvimos comentadores - daqueles que são especialistas em tudo - a explanar as causas dos incêndios, as melhores formas de prevenção e, sobretudo, sobre quem tem mais culpa, já que cada canal tem o seu comentador de serviço que transforma a desgraça alheia em arma de arremesso na sua agenda política e que tem tanta credibilidade para falar de incêndios como eu para falar de renda de bilros.

Marcelo aparece a dar abraços; Costa aparece em fotografias encenadas; a população reza e deixa as suas orações. Lamento, mas em termos de extinguir incêndios, tudo isto tem menos efeito do que cuspir-lhes.

Os canais de televisão devem estar todos à espera das primeiras vítimas mortais para o clímax da audiência, já com as músicas tristes escolhidas para a montagem com imagens da devastação. Devem ligar, de cinco em cinco minutos, para os hospitais onde estão as vítimas a perguntar "Já morre... já tiveram alta?". Tendo tudo isto em conta, parece-me que as televisões ainda podiam aproveitar melhor este fenómeno, utilizando a temática dos incêndios em diferentes formatos que ainda não foram explorados. Deixo alguns exemplos:

Achas que sabes incendiar? - Um talent show dedicado a pirómanos para eleger o melhor entre os portugueses. Podia ser ao género do The Voice em que os jurados estão de cadeiras voltadas, mas em vez de escolherem o candidato através da audição, seria através do cheiro a queimado.

Na casa de um pirómano - Poderia ser feito com o vencedor do "Achas que sabes queimar?" e daria a conhecer o dia-a-dia de alguém que pega foto a matas como hobbie ou profissão, já em que em muitos dos casos é um negócio lucrativo. Como é a rotina? Qual a melhor hora para deitar fogo? Gasolina ou aguardente? Como é que um pirómano lida com o facto de os amigos nos ficarem sempre com os isqueiros que pedem emprestados?

Casa dos Incêndios ou Love on Fire - Os participantes tinham de pegar fogo à mata à volta da casa mais vigiada do país e o que conseguisse queimar mais hectares ganhava. Depois, iam fazer presenças para a ala de queimados do hospital.

Portugal got Lighter - Este concurso não se destinaria a pirómanos profissionais, mas sim a encontrar diamantes em bruto. Os concorrentes seriam desafiados a atear fotos das maneiras mais criativas, seja batendo duas pedras ou cuspindo fogo pelo rabo depois de um workshop no Chapitô. Quem tem churrasqueiras parte em vantagem, mas seria aberto a todos.

Todos estes programas teriam um número de valor acrescentado, ao género dos 760, em que as pessoas ligavam e apostavam em qual o Concelho que mais irá arder durante o verão. O número da sorte serviria para arriscar o número de mortos.

Se é para explorar os incêndios em benefício das audiências, então que se assuma e se inove. Já ninguém pode com notícias em loop que não acrescentam nada e com comentadores de algibeira. RTP, SIC e TVI, pensem nas minhas sugestões. À CM TV nem é preciso apelar que de certeza que já estão a ponderar algo do género. 
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3 de agosto de 2018

Jogos Olímpicos Gay - Modalidades e regras são diferentes



Desconhecia a existência de jogos Olímpicos Gay, mas ao que parece existem e, este ano, pela primeira vez, existe uma comitiva portuguesa.
  • O evento terá uma passadeira vermelha onde serão comentados os outfits dos atletas?
  • Estes jogos dão todo um novo significado ao salto com vara e ao lançamento do martelo.
  • Ao contrário dos jogos olímpicos tradicionais, a prova rainha não é os 100 metros, mas sim a patinagem artística.
  • No atletismo, tal jogos olímpicos tradicionais, também aqui os africanos são os atletas mais cotados.
  • No judo tradicional, o combate acaba por ippon, no judo gay acaba por chave de virilha.
  • Os mínimos olímpicos são medidos em centímetros.
  • As regras são diferentes nos olímpicos gay, em vez de medalhas são atribuídas tiáras aos vencedores.
  • Também com a tocha olímpica a coisa é diferente e é transportado o dildo olímpico.
  • Não existe maratona, apenas a marcha, porque só conseguem correr meio tortos.
  • Na natação sincronizada todas as equipas escolhem as mesmas músicas da Lady Gaga ou da Barbra Streisand.
  • Será que há cerimónia de abertura ou já não é preciso?
  • As equipas de futebol feminino são exactamente as mesmas dos outros jogos olímpicos.
  • É o único evento desportivo onde o badminton não é a coisa mais gay.
  • Na luta greco-romana o maillot já faz todo o sentido.
  • Nas corridas de estafeta os atletas em vez de passarem o testemunho ao colega, passam HIV.

Agora que já fiz todas as piadas de mau gosto que me consegui lembrar, falemos um pouco mais a sério. Primeiro, a prova não é exclusiva a gays, qualquer pessoa pode participar independentemente da sua orientação sexual e, por isso, não me parece que isto seja uma espécie de segregação, mas sim um evento que pretende dar visibilidade e desmistificar o preconceito homossexual no desporto, no geral. "Não gostas de futebol? Ganda maricas" é comum ouvir-se entre grupos de amigos ou nas aulas de educação física de qualquer escola. Se repararmos bem, noutras áreas já não existe qualquer problema em alguém assumir a sua homossexualidade - no caso do mundo do espectáculo é até aconselhável para progressão de carreira - mas no mundo do desporto ainda continua a ser tabu, a não ser que acreditemos que não há futebolistas gays. Este evento pode servir para quebrar esse estigma e não vejo nenhum mal nisso, mas, tal como qualquer notícia que tenha a palavra "gay" no título, não está a ser bem acolhida. Os media têm alguma culpa, decidindo não esclarecer logo no título ou cabeçalho que os jogos não são exclusivos a gays, mas isso daria menos indignação e menos cliques, claro. Deixo alguns dos comentários à notícia:
Percebemos, rapidamente, que quem discrimina acha que este evento é uma "descriminação" o que prova que a ignorância anda de mão dada com o preconceito. 
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2 de agosto de 2018

Namorar com presos? As mulheres são MALUCAS!



Sempre que há uma reportagem sobre algum criminoso que está preso, ele diz que tem uma senhora lá fora com a qual se começou a corresponder. Que merda é esta? Qual é a mulher que, no seu perfeito estado de saúde mental, acorda e pensa "Olha, o que era giro era eu mandar uma carta àquele homicida a ver se ele me responde pois gostava muito de o conhecer melhor". Quão desesperada tem de estar uma mulher para equacionar namorar por carta com um preso?

Fui investigar um pouco sobre este fenómeno e encontrei alguns estudos que dão conta que as mulheres que se envolvem com presos são mulheres que tiveram, no seu passado, homens que abusaram delas, seja fisicamente ou psicologicamente, ou seja, a culpa é sempre dos homens e não são elas que são malucas, obviamente. Dizem, também, que o namoro com um criminoso encarcerado torna a relação mais arriscada e numa espécie de conto de fadas em que a mulher tem de entrar nas muralhas do castelo e passar pelos guardas para visitar o seu príncipe. Querem saber a minha opinião? MA-LU-CAS. Ainda dizem que as mulheres são mais inteligentes emocionalmente do que os homens, mas os homens não iniciam namoros com presidiárias, muito menos se tiverem cometido crimes violentos. Um gajo, mesmo que nenhuma gaja lhe pegue cá fora, não vai mandar cartas a uma condenada por homicídio. Talvez seja por os homens só pensarem em sexo e a relação com presidiárias não poder ser muito carnal, ou talvez seja porque não são tão malucos quanto as mulheres. Serão as mulheres mais empáticas e com uma maior necessidade de ajudar quem está a passar uma má fase da vida? Não, são malucas.

Consigo perceber que uma fraca auto-estima leve uma mulher a tentar tudo, mas iniciar uma relação com um presidiário não sobe o ego, pois todos sabemos que estar preso baixa os padrões e até um rabo peludo no duche passa a ser refeição.

Há quem defenda que estas mulheres, como foram abusadas no passado, escolhem relacionar-se com presos pois estando encarcerados não lhes podem fazer mal. Mentira, podem ter capangas cá fora e o abuso psicológico pode ser feito por carta. Se existe o cyberbullying, também existirá o letter bullying que, a meu ver, ainda é pior. Com o primeiro, basta desligares a Internet, no segundo tens de mudar de casa. Um gajo já não gosta de ver o correio porque sabe que é só más notícias com contas para pagar, imaginem receber uma carta todos os dias, sem remetente, que diz "És uma merda, não vales nada".

Dizem que as vítimas nunca têm culpa, mas uma mulher que inicie, por vontade própria, uma relação com um violador e homicida condenado, não tem um bocadinho de culpa se ele depois a esventrar com um cutelo? Não? Só um bocadinho de culpa? Eu acho que tem. Os famosos serial killers Ted Bundy e Richard Ramirez, por exemplo, tinham fãs como se fossem rock stars, filas de mulheres à porta dos tribunais a gritar por eles e a quererem saltar-lhes para cima. Centenas de cartas por semana com proposta de casamento! Sabem que crimes eles tinham no currículo? Violar e matar mulheres às resmas! Foda-se. MA-LU-CAS.

Aileen Wuornos, famosa serial killer que matou pelo menos seis homens, sabem quantos pretendentes tinha cá fora a mandarem-lhe cartas? Nenhum. Já o infame Charles Manson, antes de morrer o ano passado, sacou uma gaja que até nem é muito feia e com menos 50 anos do que ele.


Grande soco no estômago para quem estiver a ler isto e já estiver solteiro sem sexo há uns anos, não é? Até o Manson conseguiu e vocês aí, sem ninguém que vos dê um aconchego. Antes sozinho do que com uma gaja maluca como esta, basta olhar um bocado para perceber que tem crazy eyes, claramente, e só o facto de andar metida com um velho psicopata devia dar direito a ser ela presa porque se não o fez, está para fazer. 

"Ah, deve ser uma pessoa que sofreu muito e está desequilibrada" dirão alguns. Não. É maluca dos cornos, ponto final.

Bem sei que as mulheres se queixam que há poucos homens de jeito disponíveis e heterossexuais, mas duvido que os bons estejam na prisão. Dizem que o amor é cego, mas os cegos não são malucos. Até existem sites especializados de dating para prisioneiros. Investiguei um pouco e penso que são muito rudimentares. Devia haver uma versão do Tinder para a prisão. Podias filtrar por tipo de crime, por raio de distância não valia a pena porque não podem sair, e em vez de um super-like podias mandar um super-rape. Era um bom caso de estudo para depois percebermos que quanto pior é o crime, mais pretendentes os presos teriam. As mulheres gostam de homens com poder e bem sucedidos na sua profissão e talvez seja por isso que os serial killers têm mais groupies do que um gajo que rouba auto-rádios. As mulheres gostam de homens inacessíveis e quem mais inacessível do que um gajo no corredor da morte sem possibilidade de visitas?

Já todos tivemos relacionamentos que acabaram mal e a expressão "O meu ex é um psicopata" é comum para caracterizar aqueles ex que fritam a pipoca quando o namoro termina e se transformam em stalkers. Agora, imaginem um ex-namorado que é, literalmente, um psicopata homicida. Deve ser um desporto bem radical. E quando é ao contrário e é o preso a acabar o namoro? É aí que ficas com 100% de certeza que és feia e com uma personalidade de merda, é quando um preso, sem outras opções, sem contacto feminino de qualquer espécie, olha para ti e diz "Hum... não vai dar. O problema não és tu, sou eu.".
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31 de julho de 2018

Último episódio: Perguntas dos ouvintes



Este que é o último episódio desta temporada do podcast Sem Barbas Na Língua é inteiramente dedicado às perguntas que os ouvintes nos foram enviando durante a semana. Desde perguntas filosóficas como "Preferem mamas ou cus?" a temas menos densos como "Qual o sentido da vida?", há de tudo um pouco em mais de duas horas de amena cavaqueira para compensar o tempo que estaremos sem publicar.  É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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30 de julho de 2018

Arrumar a casa com a namorada ao fim de semana



Percebi que estou velho e castrado quando este sábado, ao acordar, a minha namorada diz "E se este fim de semana não sairmos e ficarmos a arrumar a casa?" e eu não só digo que sim, como recebo a ideia com bastante entusiasmo. Quando vamos ficando mais velhos, a perspectiva de ter uma casa arrumada deixa-nos contentes e a ideia de acordar a um sábado ou domingo cedo e sem ressaca parece-nos fascinante e faz-nos sentir vivos.


Então, foi com grande euforia interna que lhe gabei a iniciativa pois o nosso pequeno T2 já se assemelhava a uma arrecadação de um T0 cujos proprietários são uma família de furões.

Somos ambos, igualmente, desarrumados, dirá a minha namorada. Concordo, mas o problema é que cá em casa existem muito mais coisas que são dela do que minhas, o que se traduz em muito mais coisas desarrumadas da parte dela. Ou seja, em termos relativos desarrumamos igual, mas em termos absolutos a bagunça com o nome dela é incomparavelmente maior à minha. Ela dirá que não e tentará censurar esta parte do texto, mas serei rijo e comprarei esta guerra em prol da verdade e do humor. Por exemplo: ela tem cerca de 54 vezes mais roupa do que eu - isto fazendo contas por baixo - e usa uma ou duas mudas por dia; eu, trabalhando em casa, ando com a mesma t-shirt três dias seguidos; até escolher o outfit do dia, ela experimenta quatro ou cinco que depois de serem rejeitados não voltam para o sítio onde estavam arrumados; eu, muitas vezes, levo a camisola do pijama por baixo de um casaco para ir passear a cadela ou ir ao café; na casa de banho eu possuo uma escova de dentes e uma lâmina de barbear enquanto ela possui tudo o resto que existe nas três gavetas e dois armários. Só o facto de ela ter malas, muitas como qualquer mulher, faz com que se isto de desarrumar se tornasse modalidade olímpica, fosse uma espécie de Usain Bolt contra um gordo amputado e sem próteses numa corrida de 100 metros.

A casa nem sempre está muito desarrumada; há tarefas definidas: eu faço o comer e lavo a loiça todos os dias, a minha namorada trata da roupa quando eu me queixo que já estou a fazer reciclagem de boxers e meias. O pó ninguém limpa que ele sossegado não chateia ninguém e mais vale deixá-lo quieto a alcatifar as prateleiras do que passar lá um pano e irritá-lo, fazendo com que esvoace e se aloje nas nossas cavidades. Aspirar também é disparate visto que temos uma cadela. Portanto, arrumar prende-se com não ter roupa nem lixo espalhado pela casa, algo que é difícil porque a minha namorada tem alma de coleccionadora, mas como é indecisa quanto ao ramo do coleccionismo ao qual se dedicar, decide guardar tudo. Se formos à casa de banho podemos pensar que ela colecciona embalagens vazias de condicionador de cabelo, recipientes para lentes de contacto ou giletes cheias de ferrugem, mas não: custa-lhe mandar coisas fora. Mandar roupa fora? Isso é uma espécie de pecado capital que nunca lhe passaria pela cabeça. E se a roupa volta a estar na moda? E se os gostos dela mudam? É melhor guardar tudo.


Ela tem dois portáteis, um que funciona e o outro que não liga o ecrã, mas que ela se recusa a mandar fora porque pode precisar um dia, sendo que esse dia está para chegar há mais de quatro anos.

Lá nos preparámos para a epopeia que se avizinhava durante este fim de semana em que o Verão decidiu chegar só para nos fazer pirraça. Arrumar a casa é uma ciência e é preciso planear; temos de traçar uma estratégia que nos permita o menor esforço possível e usando vários algoritmos - que aprendi no curso de engenharia - lá determinei o caminho de custo mínimo e calculei que era melhor arrumar a cozinha primeiro. Arrumei tudo enquanto ela tratou do nosso quarto. Seguiu-se a casa de banho da qual foram extraídos dois sacos cheios de embalagens vazias de cremes e maquilhagem e afins. Nesta operação de limpeza a fundo à qual chamei "Solução Final", abro uma caixa e encontro um molho de cabelo que parecia vindo de um campo de concentração Nazi. Assustei-me ao perceber que podia estar a viver com uma serial killer que mata mulheres, ou homens de cabelo comprido, e lhes guarda as madeixas como troféu, mas não, afinal eram extensões que ela tinha usado uma vez. Como se não bastasse o cabelo natural dela a entupir o ralo do poliban.

O tempo passa depressa quando nos estamos a divertir, demos por nós e já eram quase horas de jantar. Decidimos que já chegava por hoje já que amanhã era domingo e depois ficávamos sem nada para fazer. Acordámos cedo, um pequeno almoço dos campeões com ovos mexidos e bacon para haver energia para o dia inteiro, algo que foi um erro porque sujou muita loiça, a juntar à do jantar que fiz no dia anterior, e lá tive de recomeçar tudo na cozinha e percebi que, afinal, deveria ter ficado para o fim. Tratámos da sala e do resto da casa, e quando estávamos quase a terminar, a minha namorada começou a quebrar, tal como os grandes atletas quebram no último quilómetro da maratona. Ela não faz exercício desde as aulas a que não faltava em Educação Física do 12º ano e eu deixei de fazer desporto há uns três anos, pelo que também não estava melhor, mas não quis dar parte fraca e puxo por ela e digo "Vá, só mais um bocadinho, está quase." numa espécie de personal trainer de empregadas domésticas. Aliás, se os vizinhos estivessem a ouvir a conversa, talvez pensassem que estávamos a fazer sexo em vez de limpezas:

  • "Se começámos é para acabar!"
  • "Anda lá que eu dou-te uma mãozinha."
  • "Tens de esfregar melhor!"
  • "Deixaste isto aqui tudo sujo."
  • "Ainda há espaço para arrumar isto aí dentro?"
Lá conseguimos terminar quase tudo, fora a roupa que falta passar, a roupa que ainda falta lavar e estender depois da outra secar. Entretanto, a cozinha tem mais loiça para lavar e a cadela já urinou no hall de entrada e roeu as fronhas novas da almofada. Moral da história: vamos contratar uma empregada.
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