18 de janeiro de 2018

Os problemas de quem é pontual



Tenho um grande defeito: sou pontual. O que à partida pode parecer uma qualidade, é algo que afecta a minha vida de forma negativa. Vivemos num mundo em que as pessoas dizem valorizar o seu tempo, em que se consome comida e entretenimento fast-food, mas em que o tempo dos outros que ficam à espera é desvalorizado. Portugal sempre teve fama de ser um país atrasado e talvez a falta de pontualidade da maioria das pessoas tenha alguma influência nisso. Não tenho nada contra atrasados, até tenho amigos que são. Por exemplo, a cronologia de um jantar marcado para as 20h é mais ou menos esta:

19:30h - Saio de casa, apesar de só demorar 10 minutos a chegar.
19:40h - Chego ao local e fico a fazer tempo.
20:00h - Vou para o restaurante e ninguém chegou.
20:15h - Olho para o telemóvel várias vezes.
20:30h - Vou ver a conversa de WhatsApp para ter a certeza se não me enganei nas horas; não me enganei.
21:00h - Chega o primeiro atrasado e diz «Eish, já estás a comer as entradas, nem esperas nem nada!».

É sempre a mesma rotina e eu não aprendo. Já sei que vou ser o primeiro a chegar e ficar à espera e tento convencer-me a juntar-me ao lado negro da força e ignorar as horas e chegar meia hora atrasado, mas nunca consigo. Ser pontual é mais forte do que eu.

Minto, uma vez consegui e fiz de propósito para chegar meia hora atrasado só para mostrar o que custa esperar pelos outros, mas acabei, na mesma, por estar vinte minutos à seca.

Com o telemóvel, é certo que este problema é atenuado, já que posso fingir que estou a ver algo interessante quando na verdade ando às voltas no painel das definições a fazer tempo, tal como toda a gente faz no computador do trabalho quando faltam dez minutos para sair. Não me cabem nos dedos das mãos as vezes que simulei uma chamada telefónica, só para me esquivar a conversas de circunstância com outras pessoas pontuais, mas com as quais não tenho grande afinidade. Muitas vezes, como chegar atrasado, para mim, não é uma opção, acabo por chegar sempre demasiado cedo em algumas ocasiões e fico no carro, à espera, enquanto vou ligando e desligando o motor para ter a certeza que não fica sem bateria por estar a ouvir rádio para passar o tempo. Como seres pontuais, começamos a desenvolver estratégias para conseguirmos sobreviver neste mundo, ou país, de gente atrasada. Todos nós, pontuais, quando temos de marcar um jantar, temos a mesma técnica para lidar com os nossos amigos, atrasados crónicos, incapazes de chegar a horas: marcamos o jantar para às 21h, mas dizemos-lhes que é às 20h. Chegam pelas 21:30h. Para a próxima dizemos que é um lanche e na vez seguinte que é pequeno-almoço, só para garantir que os piores chegam a tempo de jantar.

Os homens pontuais que tenham uma namorada atrasada crónica, são os que mais sofrem com o facto de terem essa condição invulgar. Aliás, como pessoa pontual em Portugal, sinto que devia ter algum tipo de ajuda por parte da Raríssimas. Esses homens sofrem porque têm de esperar que ela experimente todas as roupas do armário enquanto vêem o tempo a passar; sofrem porque vão chegar atrasados e deixar os outros esperar, coisa que mais odeiam; sofrem, por fim, porque depois de esperarem duas horas por ela, ela vai à sala e diz «Então? Vamos? Estou à tua espera.». É nesta altura que um gajo compreende os elevados números da violência doméstica.

Há vários estudos feitos para tentar compreender os atrasados crónicos e há várias teorias:
- Estão-se a cagar para os outros;
- O cérebro dessas pessoas processa o tempo de forma diferente;
- São optimistas por natureza e acreditam que, por exemplo, não vai estar trânsito.

Talvez não tenham culpa e seja só uma incapacidade mental de perceber que o tempo é relativo e que para quem se atrasa meia hora o tempo passa rápido, mas para quem está à espera é uma eternidade.

Engane-se quem pense que ser pontual apenas me traz problemas em contexto pessoal e social. É, também, um grave problema a nível profissional. Já o era quando tinha um trabalho de gente séria e ia a entrevistas ou reuniões com potenciais clientes. Raramente alguma começava a horas e nunca podia refilar com os doutores e engenheiros. Já estive numa entrevista de emprego onde esperei mais de meia hora e o entrevistador, a meio, diz que a pontualidade é algo que valorizam muito naquela empresa. Achei irónico e apanágio de todas as pessoas que chegam atrasadas que é o facto de afirmarem, à boca cheia, que detestam fazer esperar os outros. Mentira, estão-se a cagar. Se realmente não gostam de nos fazer esperar e o fazem, ainda é pior. Agora, acontece com entrevistas na televisão, por exemplo. «Esteja cá pelas 9h, por favor», desde logo, sinto-me violado pois não saí do mundo empresarial para me estar agora a levantar às 8h da manhã, mas com muito sacrifício lá chego à hora marcada e oiço «Agora é esperar aí um bocado.», bocado esse que é sempre uma ou duas horas. Neste novo mundo onde me movimento, o chamado mundo do espectáculo, sinto que estou numa timezone diferente e a pontualidade ainda me traz mais problemas.

Existe uma panóplia de frases que os atrasados utilizam e que são todas mentira:
  1. Estou mesmo a chegar.
  2. Saí mesmo agora de casa.
  3. É só lavar os dentes e sair de casa.
  4. Estou à procura das minhas lentes.
  5. Apanhei uma operação STOP.
  6. Já me levantei, sim.
Tudo mentira. Se metermos essas frases no Google translate de Atrasadês -> Pontualês, o resultado é o seguinte:
  1. Ainda nem saí de casa.
  2. Estou na sanita a jogar Angry Birds, apesar de já ter feito tudo ainda vai demorar porque quero mesmo acabar este nível. Depois ainda vou tomar banho e comer qualquer coisa.
  3. Estou a aquecer o almoço, ainda. A começar a fazer, vá, mas é coisa rápida... é cabrito no forno.
  4. Comecei agora a ver o último episódio de Narcos.
  5. Fui só tomar café e encontrei lá pessoal e fiquei na conversa meia hora.
  6. Foda-se! Adormeci, ainda bem que me acordaste, vou-me atrasar duas horas, pelo menos.

O pior de tudo é quando combino algo para as 17h, por exemplo, e a pessoa atrasada me envia mensagem às 17:15h a dizer «Estou atrasado.».

No shit, Sherlock. Ainda bem que avisas senão estava aqui numa dúvida existencial. Um gajo refila, mas acaba por aceitar que estas pessoas nunca vão mudar. Aceitamo-los como elas são até ao dia em que nós, pontuais, chegamos dez minutos atrasados porque o carro efectivamente avariou e tivemos de reanimar alguém na rua que colapsou e os nossos amigos atrasados dizem «Ahhh, vês... afinal tu também te atrasas!». Era uma chapada à padrasto nas ventas.

PS: Para todos os pontuais, o meu (último) espectáculo, dia 16 de Fevereiro, na Damaia, começa as 22h, mas atrasa sempre dez minutos para esperar pelos outros. Bilhetes aqui neste link.
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16 de janeiro de 2018

Funaná pelado em locais públicos? Sim ou não?



Tudo bacana, minha gente? Estou escrevendo em sotaque brasileiro para expandir o meu mercado alvo, feito Youtuber que fala como se estivesse dando aulas a alunos do ensino especial, né? Muito louco, caras! Bem, vamos a mais uma consulta "Doutor G explica como se faz".


Boa noite Dr G, namoro há mais de 3 anos e a relação é maravilhosa exceto numa coisa. Ele não gosta de arriscar, isto é, adorava praticar o funana com ele num carro ou noutros locais e ele não quer. Nesse campo ele é um deus mas quando eu quero ir para outros sítios que há sempre um maior risco (de sermos apanhados) diz logo que não. O que posso fazer?
Anónima, 24, Porto

Doutor G: Cara Anónima, há muitos homens que têm receio de praticar a arte do estica a enguia em locais públicos por se sentirem responsáveis pela segurança da sua fêmea. Imagina: estão no carro, a embaciar os vidros a arfar e chega um grupo de gandins prontos a arranjar merda. O rapaz vai sentir-se impotente, mesmo estando de tenda armada e tu corres o risco de teres de fazer um rodízio de pila à força enquanto o teu namorado é obrigado a assistir. É uma situação que acontece e que está na cabeça de muitos homens. Dito isto, ele que deixe de ser xoninhas e escolha locais onde esse risco é diminuto. Vão ver um filme de cinema francês que à partida a sala estará quase vazia, ou vão ver um daqueles filmes portugueses feitos com ajuda de subsídios do estado e que ninguém tem interesse em ver. Casas de banho públicas também são boa escolha, especialmente a dos deficientes porque têm mais espaço e porque, à partida, talvez entre um cego e nem dê conta. Puxa por ele e se ele continuar a rejeitar, é a vida. Como isto anda, já estás com sorte de ele te satisfazer no quarto e mais vale um orgasmo entre quatro paredes do que dois orgasmos a voar no banco de trás de um Ibiza.


Boa noite Doutor G, eu e o meu namorado temos uma atividade sexual muito intensiva. Não podemos estar em casa que a coisa vai dar sempre ao mesmo, daí termos vindo ao espectáculo do doutor em Leiria. Será um problema? E se for, como solucionar?    
Dois anónimos fogosos, Leiria

Doutor G: Caros fogosos, por que é que haveria de ser um problema? Sexo fortalece o sistema imunitário, o sistema cardiovascular e alivia o stress. Se me disseres que deixam de ter vida social porque estão sempre em casa a dançar a tarraxinha de virilha ao natural, então pode dar-se o caso de serem viciados em sexo e precisarem de arranjar hobbies. Mas, tendo em conta que saíram de casa para ver o meu espectáculo, diria que o caso não é assim tão grave, apesar de eu achar que uma boa noite de sexo é melhor do que ver-me ao vivo. A não ser que aqueles risos estranhos fosses tu a ter um orgasmo em pleno teatro. Nesse caso, parabéns por juntarem o útil ao agradável.


Caríssimo senhor Dr, a minha namorada de há 3 anos sempre que vamos fazer sexo eu peço lhe um bico pois preciso de um estímulo. A culpa é minha de precisar desse estímulo ou dela? Na verdade o estímulo que eu desejava mesmo era um cacho de uvas pelo esfíncter acima. Não sei, aquele suminho doce, os raminhos finos a roçar nos meus pêlos... serei eu homossexual ou tarado por fruta?  
António, 26, Portalegre

Doutor G: Caro Anónimo, vamos por partes:

  • Depende dos homens, há homens cujo motor de arranque não precisa de estímulos para além do facto de saberem que vão fazer sexo, mas há outros que precisam que alguém lhes toque um solo de oboé para que a jibóia anã fique em rigor mortis. Pode ser um mau estímulo para ela, saber que a simples visão do seu corpo nu não seja suficiente para te levantar a parabólica. No entanto, não me parece culpa de ninguém, é o que é. Era pior se o estímulo que precisas fosse ela ir fazer-te uma sandes enquanto canta o Chama o António do Toy. Em vez de pedires "um bico" como se estivesses no café, opta por estimulá-la tu primeiro oralmente ou a dedilhar a campainha de Satã até a deixares satisfeita, que vais ver que não vais precisar de pedir nada. As mulheres são menos egoístas dos que os homens.
  • A tua segunda questão, nem és gay nem tarado por fruta: és só nojento.

Caro doutor G, n
amorei com um rapaz mais novo do que eu durante quase dois anos. Na altura, ele tinha 19 anos e queria chafurdar pipi alheio. Ficamos sempre amigos até hoje. Na altura, com 20 anos, senti que o mundo ia acabar. Envolvi-me com vários rapazes, alguns one night stand, outros mais do que isso mas sem nunca me comprometer com ninguém. Entretanto, em outubro, e porque temos muitos amigos em comum, houve uma saída, uma grande borracheira e acabamos por nos envolver à bruta!! Depois disso houve funaná pelado mais meia dúzia de vezes, por iniciativa dele e porque eu estava carente a nível sexual. Na última vez, houve um certo problema de ejaculação precoce e ele para além de nunca mais ter mandado mensagem, quando antes o fazia bastantes vezes, também deixou de falar para mim. Agora limita-se a dizer olá e pouco mais. Provavelmente, tudo isto foi um grande erro. E eu, apesar de não ter sentimentos amorosos por ele, sempre gostei dele e sempre considerei a nossa amizade muito importante. O que faço?
Anónima, 22, Porto

Doutor G: Cara Anónima, ficar amigo de ex amores é como guardar cotão do umbigo para fazer brincos. É parvo. Parece-me que ele só te quer para sexo e deixou de falar porque arranjou outra ou fartou-se. Penso que o problema da ejaculação precoce foi apenas ele com pressa de ir ter com outra a seguir. Dito isto, se não tens sentimentos amorosos por ele, que interessa? Deixa-o ir à vida dele e trata da tua. Tens de te valorizar mais que isso é tudo carência e necessidade de atenção. Mesmo que a vossa amizade fosse assim tão linda, ficou provado que ele não te quer como amiga caso contrário não deixava de te falar. Isso ou está apaixonado por ti e afastou-se como mecanismo de defesa. Pronto, lá fui eu meter ideias na tua cabeça. Esquece o que disse, arranja outros amigos que esse é cotão.


Olá Doutor, faz uns dias que me envolvi com o irmão da minha melhor amiga. Durante o TchucaTchuca comecei a chorar porque me lembrei que ia perder uma grande amizade caso ela descobrisse. Isto também foi efeito de um charrinho de vitamina E (erva). Ele pensou que eu estava a chorar porque achava que queria algo mais sério para além de uma noite de sexo. No dia a seguir pediu-me em namoro em frente á irmã e mãe dele, acabei por lhe dar uma tampa e perder uma amizade na mesma. O que faço para reconquistar a minha melhor amiga? 
Anónima, 22, Lisboa 

Doutor G: Cara Anónima, mas por que é que perdeste a amizade? Ela namorava com o irmão ou assim? Se ela for mesmo tua amiga e tu estando apaixonada pelo irmão dela e ele por ti, ela aceita esse facto. Se não aceitar, é porque não é mesmo tua amiga e não perdeste amizade nenhuma. Diz-lhe que é por uma questão de reduzir despesas de transporte já que assim vais ao mesmo local fazer as unhas e a depilação - e essas coisas que as amigas fazem em conjunto - e sais de lá já com a vistoria feita.


Dr G, namorei quase dois anos com um rapaz, que a partida meu deu muita felicidade, foi isso que me fez ficar apaixonadissima. Trazia muitas coisas boas dentro de mim. Era dizendo-se assim uma relação feliz e saudável. Começou com o tempo a ficar o contrário. Tudo o que eu fazia, todos os meus comportamentos eram de 'malandragem', o simples facto de eu mexer no cabelo na rua era que me estaria a fazer a alguém. Começou por eu estar numa festa a olhar para os lados e ele dizer que eu estava a procura de alguém e cada vez que olhava para ele, ele imitava o gesto que eu fazia em modo de provocar. Por fim, ele já ficava chateado comigo pelo simples facto de estar na rua 10 minutos a minha espera porque eu ja devia ter chegado. Ou pelo simples facto de eu dizer uma palavra que nunca ele tinha ouvido de mim e desconfiar. Ele nao ia treinar, perdia peso, ele não ia trabalhar ou ele estava em baixo e a culpa era minha. Tudo o que girava mal a volta da vida dele era minha culpa enquanto eu fui mais que uma mãe para ele. Lutei muito pela felicidade daquela pessoa. Sempre arranjava na minha cabeça uma justificação para a sua atitude. Voltava sempre, estava sempre ali a tapar as suas feridas e não via o quanto abri feridas em mim. A minha auto estima foi acabando. Eu comecei a viver a vida dele, comecei a deixar a minha vida e tornei-me completamente dependente da nossa relação, como fosse uma droga. Passou passou...e nada mudou, ate que ele me bateu, me deixou roxa. Estava tão fraca que continuei com ele. Omiti de toda agente  porque nao o queria perder. Mas ele voltou a faze-lo. E a culpa novamente foi minha. Agora eu quero me livrar dessa droga que me infernizou a vida. Quero me reconstruir mas esta difícil. 

Anónima, 29, Lisboa 

Doutor G: Cara Anónima, antes de dar a minha resposta bruta, vou aconselhar-te a contactares as entidades competentes e não um Doutor da Internet. Aqui fica o contacto da APAV e da PSP. Dito isto, vamos lá então:
  1. Esse gajo é um merdas. Facto.
  2. Esse gajo merecia levar um enxerto de porrada de dez seguranças do Urban. A violência não resolve nada, mas... às vezes ajuda.
  3. Ele nunca vai mudar sozinho.
  4. Tu nunca o vais mudar.
  5. A culpa não é tua, conta o caso aos teus amigos e familiares porque é essencial o apoio deles.
  6. Faz as malas e sai de casa e deixa um bilhete a mandá-lo para o caralho.
  7. Faz queixa na polícia.
É isto. Papo recto, galera. Homens possessivos e ciumentos sem razão aparente, é dar-lhes um chuto no rabo logo aos primeiros sinais que a coisa só vai piorar. Se foi piorando e culminou com agressão, mesmo que tenhas deixado queimar o arroz, a culpa nunca é tua. Agarra nessa autoestima que resta e baza. Compra um spray pimenta e descarrega-lhe tudo na cara da próxima vez que ele se aproximar de ti. A culpa nunca é das vítimas, mas já sabes com o que contas e se o perdoas e voltas para ele quando ele vier com falinhas mansas, será que não tens um bocadinho de culpa? Caga nele, mais vale sozinha que com um merdas ao lado.


Olha-me a minha vida, hein? Tem um gajo um consultório para o gozo e para fazer rir e acabamos nesta toada séria. Dúvidas de violência física ou psicológica mandem para as autoridades, sim? Obrigado a todos e, como sempre, até para a semana e continuem a enviar as vossas dúvidas para porfalarnoutracoisa@gmail.com. 


Partilhem e façam muito amor à bruta, que de guerras o mundo já está cheio.

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15 de janeiro de 2018

Super Nanny: bullying gratuito ou educativo?



O novo programa da SIC, Super Nanny, está a gerar controvérsia. Será bullying gratuito ou educativo? Primeiro, o programa devia chamar-se "Pessoas que não deviam ter filhos". Vi até ao fim, para ver se nos patrocinadores do programa estava a Durex, Control e Anal. Eu já não quero ter filhos, mas calculo que um casal que estivesse a ovular, depois de ver o programa, vá antes ver uma série em vez de praticar o coito. Dei por mim a pensar «Se a Maddie era como esta Margarida, começo a compreender e a ter pena dos pais...». Aliás, estive à espera que o conselho da Super Nanny fosse «Olhe, esta não tem remédio, é deixar sozinha em casa e deixar a porta aberta a ver no que dá.».

Parece-me incoerente dizer-se a uma criança que não deve dar conversa a estranhos e depois meter-se uma estranha lá em casa a dar-lhe ordens. A criança vai ficar confusa e de cada vez que aparecer uma senhora na rua vestida de secretária de filmes pornográficos, vai fazer tudo o que ela mandar. Acho estranho que uma mãe sujeite um filho àquela exposição, embora um pouco de humilhação possa ajudar a miúda a atinar. Deve ser essa a estratégia, já que a perspectiva de vergonha a nível nacional pode ser um detractor de comportamentos desviantes como a birra com ranho por causa do iPad. Que tipo de pais sujeitam uma criança àquele vexame público? Serão o mesmo tipo de pais que educam mal uma criança ao ponto de precisar destas medidas drásticas? Pois, coiso. Já estou a imaginar a conversa da mãe com a miúda no primeiro dia das gravações:

- Margarida, ai de ti que hoje não faças birra!
- Porquê, mãe?
- Porque vem cá a Super Nanny a casa e se não te portas mal ainda corremos o risco de não aparecer na televisão!
- Está bem, mãe, prometo que vou dar o meu pior!
- Isso, berra, grita, bate-me e prometo que te deixo ver o Wuant e o D4arkFrame.

Depois, parece-me mau o estereótipo de géneros. Se em alguns países estão a proibir anúncios que coloquem mulheres como donas de casa, acho que seria sensato colocar um homem como o Super Nanny. O Super Nando, que tem cinco enteados com hiperactividade, experiente em distribuir chapadas à padrasto a torto e a direito e que impõe respeito como deve ser. Banquinho dos castigos parece-me palermice e ainda vem alguém dizer que o banco não é bom para a postura e que devia ser a poltrona de massagem dos castigos porque as crianças são o melhor do mundo. Aliás, indo na linha de que o Super Nanny devia ser um homem, penso que este programa era a oportunidade ideal para o Carlos Cruz voltar à TV.

Quem melhor do que ele sabe como persuadir crianças a fazer o que não querem? Quem é que tem mais experiência na TV a convencer crianças a comerem o que não gostam?

Sim, o orçamento iria derrapar com a compra de ténis da Nike, mas a ver se a Margarida não comia a sopa toda. A Super Nanny tem outras armas como o seu ar intimidatório, é certo. Tem ar daquelas mulheres que dizem que os homens têm medo de mulheres independentes, como desculpa para estarem encalhadas. No entanto, sinto que a produção podia ter-se esmerado um pouco ao nível da caracterização: se a Super Nanny tivesse um chicote na mão e bebés mortos à cintura, a miúda era capaz de respeitar mais. Mas isto sou eu que não sou nenhum Carlos Cruz ao nível da persuasão infantil.

Fui vendo o programa, enquanto estava no computador a ver um documentário sobre a mortalidade infantil em Angola, e fiquei chocado com o que vi na SIC. Só me passava pela cabeça o bullying que a Margarida irá sofrer na escola agora que os colegas perceberam que ela é uma criança mimada. Dizem que a minha cadela é que é raça potencialmente perigosa, mas aquela criança nem com açaime e trela curta eu deixava chegar perto. É mais fácil domesticar um diabo da Tasmânia adulto e com cadastro do que aquela linha de montagem de ranho e birras. Aliás, senti falta de técnicas à Cesar Millan, como por exemplo dar um ligeiro biqueiro nas costelas da criança quando ela não parava de estrebuchar. Isso e mandá-la dormir no chão frio da cozinha. Acho que a violência não resolve nada, mas às vezes ajuda. A minha mãe, uma vez, atirou-me um rissol congelado tipo estrela ninja sopeira e eu acalmei logo a birra.

Claro que o programa até pode dar jeito a alguns pais e dar algumas dicas importantes, não digo que não, mas que tal, em vez de um programa sensacionalista, mandarem um vídeo ou uma newsletter a todos os pais? Que tal um workshop obrigatório para ter filhos? Que tal, até, uma licença para procriar?

- Vejo aqui, na sua timeline do Facebook, que partilha citações do Pedro Chagas Freitas e que fez like num post da Maria Vieira contra a vinda dos refugiados, estou correcto?
- Está sim senhor, é uma grande mulher e o Chagas Freitas só fica atrás do Gustavo Santos.
- Pronto, para evitar sobrepopular o planeta com mais crianças que vão sair aos pais, vamos lá proceder à vasectomia e a laqueação das trompas.

Não quero estar aqui a julgar o desespero de uma mãe que a leva a recorrer à Super Nanny, (não queria, mas julgo na mesma) por isso, talvez, a culpa não seja dela, mas sim de quem achou que este programa era giro. E é, eu pelo menos ri-me. No entanto, reconheço que tem uma vantagem para a Margarida que é a de ficar com boas imagens da sua juventude. Eu só tenho filmagens tremidas, desfocadas e com grão feitas na praia de Odeceixe em 1991, já a miúda teve direito a cinco câmaras profissionais e a tudo editado para mostrar só o que interessa.
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10 de janeiro de 2018

Polémica com a H&M: afinal, não somos todos macacos



Já todos estão a par da polémica com a H&M, com uma foto no site de uma camisola a dizer «O macaco mais fixe da selva» usada por uma criança negra, certo? Deixo, desde já, a resposta certa para quando vos mostrarem a imagem e perguntarem a vossa opinião: «Hum? Polémica porquê? Não percebo! É por dizerem macaco quando os humanos não são do mesmo ramo evolucional dos macacos, mas sim partilharem um ascendente comum aos chimpanzés actuais? Se é isso, concordo, a evolução é um tema sério.». Vamos analisar as várias hipóteses que podem justificar a escolha da H&M:

1. A H&M é uma marca racista e ao ver aquela camisola, achou que ficava bem escolher um miúdo negro porque acha efectivamente que os negros são todos parecidos, fisicamente e intelectualmente, com macacos.
Esta parece ser a hipótese colocada pela maioria das pessoas que ficaram ofendidas com a imagem. Parece-me parvo, até porque os racistas que sabem que são racistas, optam por escondê-lo e não saem da toca. Uma marca, ainda por cima, mesmo que fosse racista tem como prioridade fazer dinheiro e não passar ideais que podem alienar grande parte dos seus clientes. Boicotar a marca por causa de um "erro" que pode ter sido apenas um acaso, parece-me parvo, principalmente de pessoas que pagam boa nota pela Hugo Boss que tem um passado associado ao nazismo.

2. A H&M escolheu o miúdo negro porque já sabia que ia dar merda e acreditam que a polémica é boa.
Duvido. Nos dias de hoje, este tipo de polémicas não é boa. Sim, toda a gente fala na marca, mas tens uma série de celebridades a boicotar patrocínios e afins. Uma coisa é assumir posições que dividem, outra é assumir posições que a esmagadora maioria da população rejeita. Quase ninguém acha que ser racista é fixe e mesmo os próprios racistas se escondem um bocadinho, embora com o Trump e a Maria Vieria estejam mais afoitos. Garanto-vos que a maioria dos brancos ofendidos é preconceituosa em relação a negros. Colocassem num polígrafo esses e fizessem a pergunta «Ficava contente se a sua filha casasse com um negro?» a resposta ia dar mentira, depois de tentarem dar uma de mente aberta. No entanto, as pessoas esquecem rápido e toda a gente que ficou ofendida, se lhes derem um desconto especial de 50% deixam os ideais de lado.

3. A H&M não sendo racista, tem um preconceito latente e inconscientemente escolheu o miúdo negro.
Tenho dúvidas. Pode ser, não digo que não, mas duvido. De entre as hipóteses que acusam de racismo, parece-me a menos descabida, no entanto. Talvez tenha sido um preconceito antigo e colonialista que faz com que a associação entre negros e macacos ainda esteja presente na nossa sociedade a intervir de forma subliminar. Se assim foi, o que volto a dizer que não acredito, até que ponto o pessoal da marca tem culpa? Se foi esta a situação, é legítimo apontar o dedo e discutir as causas e implicações, mas acusar de racismo é estúpido. Vivemos num mundo em que o benefício da dúvida é coisa do passado. A lei pressupõe que se sejam inocente até prova em contrário, mas isso não se aplica às redes sociais.

4. A H&M nem pensou no assunto e escolheu um modelo ao acaso
Será assim tão impossível? A mim, parece-me a hipótese mais óbvia. Não por achar que o racismo não existe ou que na equipa da H&M é tudo boa gente, mas porque acho que é o mais provável tendo em conta que a H&M é uma marca grande que tem de ter cuidados com estas coisas. Por isso, se isto passou foi apenas e só porque não foi assunto e talvez isso seja bom. Quiçá, haveria até negros na equipa que aprovou isto que também não repararam. Não sabemos.

Há ainda a hipótese de ter sido apenas porque o preto dá bem com tudo.

Pergunta para queijo: se a equipa da H&M tivesse visto esta camisola e tivesse pensado «Epá, não podemos meter um preto aqui! Já viram o que diz a t-shirt? Vá, vão lá procurar um branquelas para modelo que este não pode ser.» não seria isso mais preconceituoso? Se eles não fizeram essa associação, não serão eles melhores do que todos nós que a fizemos, tenhamos ficado ou não ofendidos? Reparem, se eu estivesse na equipa que aprovou isto, teria sido o primeiro a meter a mão no ar e dizer «Hum... odeio ser a pessoa que identificou este risco, mas... macaco e preto na mesma foto vai dar merda. Não é por mim, que eu até tenho amigos pretos e tal, mas sabem como são as pessoas... vai dar merda, minha gente. Vão por mim porque nas redes sociais tudo dá merda e isto vai dar merda da grossa. Metam aí um chinês ou um monhé só para precaver e mostrar que não somos racistas. Ciganos é que não que isto é roupa de marca.». Talvez eu seja preconceituoso ou apenas um excelente gestor de risco que tem um profundo conhecimento do que indigna as pessoas nas redes sociais, nunca saberemos. Não sou ingénuo, infelizmente. Preferia ser a pessoa que vê a foto e nem faz a associação que era sinal que tinha crescido num mundo perfeito onde o racismo nunca foi tema.

Agora, pergunto: se a marca nem pensou no assunto e foi apenas o acaso que ditou a escolha do modelo, não haverá racismo por parte de quem fez essa associação? Não seriam boas notícias para o racismo o facto de aquilo ter passado por não sei quantos olhos e nem se terem dado conta porque na cabeça deles a cor do miúdo não importa? Não será antes uma ofensa para o macaco estar a ser comparado com alguém da espécie humana? Fica no ar para pensarem antes de dormir.

Alguém escreveu na Internet que era melhor darem uma reprimenda às crianças escravas do Bangladesh que fizeram a camisola a troco de uma taça de arroz para que deixem de fazer camisolas que ofendem as pessoas. Boa observação que gostava de ter sido eu a fazer. Claro que percebo que haja negros ofendidos com isto. Acho parvo, mas percebo. Percebo de onde vem a ofensa: a comparação entre negro e macaco foi (e ainda é) usada como primeira arma de arremesso numa ofensa racista. Percebo que essas feridas estejam abertas e que façam ver maldade onde pode não haver. No entanto, há tanto racismo real no mundo e vão indignar-se com isto? Sabem porquê? Porque é fácil e está à distância de um clique. Como em 99% das polémicas das redes sociais, podem vir de um fundo bom e legítimo, mas o alvo é quase sempre mal escolhido. Bem sei que é difícil dar o benefício da dúvida ao homem branco, mas e se isto foi feito sem qualquer má intenção?


Puxar levianamente da carta do racismo é faltar ao respeito a quem sofre diariamente na pele o verdadeiro racismo de não ter as mesmas oportunidades de educação e trabalho.

Quem me conhece ou segue o que eu escrevo atentamente, sabe que o racismo é um tema que me é próximo. Já escrevi várias vezes sobre isso por devido ao sítio onde cresci ter lidado de perto com o racismo até porque ser branco nas escolas da Buraca e da Damaia não é fácil. Quando alguém da Quinta da Marinha me diz que o racismo não é um assunto relevante em Portugal, dá-me vontade de rir e sou o primeiro a dizer que é claro que existe racismo e que as oportunidades não são as mesmas para a maioria das pessoas que nascem com cor mais escura. Por isso, percebo que fiquem traumas, percebo que quando um gajo passa tanto tempo a ser vítima, às vezes puxe dessa carta inconscientemente como defesa e, muitas vezes, desculpa para aquilo que de mal nos acontece, por vezes por culpa própria. Mas, a meu ver, quem ficou ofendido com esta polémica, seja branco ou preto, é meio palerma. Não acho que o racismo desapareça por deixarmos de falar nele: acho que deve ser falado e discutido e não esquecido e varrido para debaixo do tapete, mas isto tudo parece-me ridículo, quando ainda há pouco tempo "éramos todos macacos". Quando pudermos tratar todos por igual, sem paninhos quentes ou medo de ofender com base em estereótipos, é quando o racismo vai começar a desaparecer.

A marca já veio pedir desculpas e retirar a imagem do site. Percebo, mas sonho com o dia em que as marcas tenham tomates para fazer frente ao batalhão de ofendidos. Se a imagem não foi feita com má intenção, estar a pedir desculpa é uma hipocrisia. Deviam ter dito «Minha gente, aqui na equipa ninguém fez essa associação, mas obrigado por nos lembrarem que esse preconceito ainda existe em muitas cabeças. Logo agora que vamos fazer mega-saldos de 90% e vocês que ficaram ofendidos não vão poder aproveitar. É lidar com isso e ir fazer compras na Zara. Over and out, niggas.»
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9 de janeiro de 2018

Vale a pena reatar uma relação passada?



Bom ano e que 2018 vos traga muito funaná pelado e amor à bruta pela frente, trás e outros ângulos. Vamos, sem demoras, começar a primeira consulta do ano do "Doutor G explica como se faz". 


Caríssimo Dr. G, terminei há uns meses uma relação de 5 anos porque me interessei por outra pessoa que entretanto me deu com os pés. Mas agora surgiu uma nova pessoa interessada mas que eu sei que não é flor que se cheire sendo que também não o quero para casar, digamos que podíamos passar bons momentos mas eu sei que não tenho perfil para este tipo de relações porque penso demais e tenho medo de sair pior do que estou agora! O que me diz a isto?    
Anónima, 21, Coimbra

Doutor G: Cara Anónima, se há coisa que o Doutor G detesta no seu consultório são pessoas que enviam as dúvidas, expõem as várias hipóteses e dão as respostas. Parece aquele pessoal na escola que metia a mão no ar durante a aula para repetir o que a professora tinha acabado de dizer em forma de pergunta, para ter aprovação da professora e ter boa nota na participação. Essas pessoas, mereciam levar com um martelo na ponta dos dedos. Se sabes que o que se está a fazer a ti não é flor que se cheire e sabes que não consegues ter uma relação baseada apenas no sexo e te vais apegar a ele e acabar por sofrer, qual é a dúvida? Para que é que eu estou aqui a falar, tu vais fazer o que queres na mesma, não é? Vais tentar mudá-lo, levar com um par de chifres e depois queixares-te que os homens são todos uns porcos e farinha do mesmo saco, certo? Então, olha, boa sorte.


Caro Dr. G, durante quase 6 anos namorei com uma rapariga que faz parte de um grupo de amigos comum, daqueles mesmo chegados, tipo férias juntos e tudo. A coisa é que há mais de um ano ela terminou tudo comigo por causa de outro sujeito. Foi um ano ​muito positivo ​tendo mesmo acabado por evoluir imenso a nível pessoal e profissional​, e espectacular ​para a fanfarra entre amigos, já que chafurdei em mais pipi alheio do que um porco na lama​ ​em época de monção​, mas a verdade é que não há pipi como aquele, e não falo anatomicamente! Nos últimos meses fomos sair duas ​ou três vezes​​ juntos, ​e​ ​acabámos ​​por passar a noite a falar e nas piadolas, seguido de longas conversas emocionais ​"​do que foi e podia ter sido​"​, sendo que da última vez​ antecedeu em dias o fim da relação que ela mantinha.​ Depois disso temos estado juntos algumas vezes mas nunca aconteceu nada, até porque eu não quero​, mas a verdade é que estou desesperado para que aconteça. Eu ainda gosto da "piquena", mas percebo que ela agora esteja confusa e não faça ideia do que quer, tendo isto vindo da boca dela! O que é que eu faço? Dou-lhe espaço? Vou com tudo e rezo para que dê certo? Se me puder dar uma​ indicação de para onde me virar,​ eu agradecia!
S, 25, Lisboa

Doutor G: Caro S, devias apanhar um par de chapadas à padrasto na moleirinha a ver se acordas para a vida. Vamos por partes:

  1. O ano que estiveste sem ela foi muito positivo a todos os níveis;
  2. Ela acabou um namoro de 6 anos para estar com outro e agora que o outro acabou com ela (sim, estou a assumir isso) está confusa e na dúvida se ainda gosta de ti;
  3. Não aconteceu nada por "não queres, mas estás desesperado que aconteça"? Valha-nos a coerência;
Analisando estes três pontos, chegamos à conclusão que tu és a segunda e a opção segura dela que agora não quer estar sozinha. O mais provável é ela depois fazer-te o mesmo quando se fartar e se lembrar porque é que terminou contigo da primeira vez. Tu vais ficar na merda, novamente. Ainda se ela dissesse que foi um erro e estivesse segura que é de ti que gosta, agora ainda está com dúvidas? Se voltarem, 99% de certeza que vai dar merda, mas tens 1% de hipótese de correr tudo bem e serem felizes para sempre. Como engenheiro do amor, só me sujeito a baixas probabilidades quando a alternativa é a morte. Nunca se deve voltar a um sítio onde já se foi feliz, especialmente se esse sítio é um pipi. Podes mandar estampar numa t-shirt.


Caro Doutor G, tenho um grupo de amigos com os quais andei durante o verão, em que um deles mostrou um certo interesse. Depois de poucos beijos e do rapaz fritar a pipoca, decidimos que não ia à frente, já que o jovem afirmou que como éramos do mesmo grupo qualquer tipo de envolvimento só poderia ser uma relação séria, coisa que para a qual ele não estava preparado no momento. Mas a coisa continuou e acabámos num quarto de hotel numa tentativa do "vai ou racha". Ora, nem foi nem rachou, quanto muito tremeram-lhe as pernas e fugiu. Isto tudo sempre dizendo que não era certo, acabando a minha saga pseudo violação com a frase "se calhar ainda me vou arrepender". Devo calar o meu orgulho e volto a insistir correndo o risco de ser presa, ou devo interpretar isto como um não definitivo?
Anónima, 20, Lisboa 

Doutor G: Cara Anónima, analisando o caso e recorrendo a toda a minha sapiência e experiência ao longo destes anos como consultor sexual e amoroso, deixo aqui um creampie chart que mostra as razões que podem ter levado o jovem a ter essa atitude de suricata amedrontada:
Posto isto e somando as probabilidades de ele ser virgem e/ou sofrer de ejaculação precoce, há 53% de probabilidade de ele não te satisfazer na cama, devido à sua inexperiência e notória falta de vontade de fazer sexo. Vale a pena insistir, sabendo disso? Quão desesperada estás? Se alguém me dissesse a frase "se calhar ainda me vou arrepender" antes de fazer sexo comigo, para mim estava tudo acabado a não ser que fosse "arrepender porque deves ser tão bom na cama que me vou apaixonar e querer mais". O que para além de ser um elogio, mostrava que a pessoa é perspicaz e constata facilmente o óbvio. Fora esse contexto, essa frase deve ser tomada como ofensa e se avançares e o violares, enfia-lhe um dildo no rabo só para lhe dar razão. Ou não, há 1% de probabilidade de ele gostar.


Caro Doutor G, a minha dúvida é simples e rápida: num cenário paralelo, onde o Dr. G fosse solteiro, fazia a Ana Malhoa? Já agora, qual o seu vídeo clip preferido dessa artista? 
Uma fã (da Ana Malhoa, claro)

Doutor G: Cara fã da Ana Malhoa, para mim, fazer a Ana Malhoa seria como fazer o palhaço Batatinha. Não se deve estragar a infância. Dito isto, tenho por norma não ir para a cama com mulheres com mais músculos do que eu. A juntar a isso, eu vi as fotografias da Ana para a Playboy e tenho algum receio de não conseguir ter uma performance satisfatória por estar distraído com os mamilos estrábicos que só fariam sentido na Rita Pereira. Por fim, o video favorito é a Turbinada até porque é o que tem lubrificante feito à base de azeite.


Caro Doutor G, tenho 20 anos e acabei à algum tempo um relacionamento com pouco mais de 2 anos. Ele acabou porque eu mostrava algum desinteresse na relação, inclusive no que tocava a agasalhar o croquete. Ainda que na altura ele tenha dito que ainda me amava e não tenhamos ficado de costas voltadas, parece estar a seguir a sua vida. Contudo, eu continuo interessada nele, mais do que nunca – talvez porque tenha levado com os pés – e arrependo-me de só ter acordado agora. Mesmo afastada dele, não consigo esquecê-lo, e quando o vejo próximo de outra rapariga desce sobre mim um espirito de lutadora de MMA.  O que é que eu faço? 

Anónima, 20, Lisboa

Doutor G: Cara Anónima, o que fazes agora? Agora chuchas no dedo. Quem só dá valor quando perde ou porque há concorrência, não merece chuchar noutras coisas. Fim. Drop te mic.


Está feito. Bom ano e até à próstata. Se têm dúvidas, enviem para porfalarnoutracoisa@gmail.com, ou caso sejam de Leiria, podem ir assistir ao meu espectáculo dia 13 de Janeiro e fazer a pergunta ao vivo ao Doutor G em carne e osso. Últimos 40 bilhetes à venda neste link.


Partilhem e façam amor à bruta, porque de guerras o mundo já está cheio.

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8 de janeiro de 2018

Comprar roupa: o drama de um homem branco e hetero



Sinto que há uma temática importante que a nossa sociedade recusa debater: o facto de, ano após ano, ser cada vez mais complicado, como homem branco heterossexual, comprar roupa nas lojas mais conhecidas. Sinto que nos dias de hoje, abordar este tema é como dançar sapateado num campo minado cheio de engenhos que podem explodir a qualquer momento, lançando pregos com as  palavras "homofóbico" e "racista" escritas, mas como tenho a consciência tranquila posso dar-me a esse luxo.

Começo por dizer que a imagem do post serve apenas para ilustrar. Bem sei que os gays não se vestem assim no seu quotidiano e que a parada gay é uma forma metafórica e hiperbolizada de festejar a liberdade sexual e acho muito bem. No entanto, dizer que não existe tal coisa como roupa gay é mentira. Deixando o politicamente correcto de lado, é notória a diferença que os vários grupos de pessoa marcam na forma de se vestir e, sendo certo que ser gay não é uma moda e que existem gays em todas as tribos urbanas, são sempre os que têm mais estilo, cuidado e arriscam mais.


Vês um grupo de mitras com bonés, fatos de treino e com brilhantes nas orelhas e de repente vês que um deles usa uma écharpe em vez de um cachecol para tapar a cara durante um assalto? É o gay.

Vês um grupo de góticos, todos vestidos de preto e olhos pintados com lápis e no meio destaca-se um que tem os atacadores das Doc Martens amarelos e usa uma lâmina Vênus para se cortar? É o gay. Não têm medo de arriscar e de ser diferentes. Não tenho problemas com a forma como os outros se vestem, o meu único "problema" é que a maioria das lojas está a dar preferência a esse tipo de roupa que arrisca e um gajo como eu fica sem grandes alternativas. No outro dia, entrei na ZARA e dei por mim à procura da secção de homem. Dei duas voltas e não encontrei. Abordei um dos empregados:

- Olhe, a secção de homem é onde?
- Ah... é esta toda. Esta loja é toda de homem...
- Ah... ok.

Percebi pelas sobrancelhas arranjadas do empregado e pela forma como andava, dando a parecer que era patinador, tal era a ligeireza com que deslizava ao locomover-se, que poderia interpretar a minha pergunta como ofensiva, mas não foi essa a minha intenção. Era uma pergunta legítima de um heterossexual que não tem grande noção de estilo. Vi casacos vermelhos compridos com botões dourados, vi camisolas pelo joelho e com transparências nas mangas e assumi que estivesse na secção de mulher ou no guarda-roupa do Diogo Piçarra e do Anselmo Ralph. Um erro legítimo, parece-me. Por vezes, a roupa até parece discreta, mas tem escondido um pequeno apontamento exuberante: letras nas costas com brilhantes, um forro com flores rosas, ou uma cintura demasiado estreita e descaída. O meu baixo ventre não foi feito para usar calças de cintura descaída. Ali, um homem que não use skinny jeans, camisolas daquelas que parecem um vestido, e cores berrantes com lantejoulas e golas de palhaço Batatinha, sente-se discriminado. Às vezes, só quero uma t-shirt preta, sem nada, só preta. Não quero letras roxas com estrelinhas, não quero brilhantes, não quero que seja com uma gola em V até ao umbigo, nem justinha no pneu. Sempre fui desproporcional da cintura para baixo (wink wink) com muito mais massa muscular nas pernas do que no resto do corpo. Daí, mesmo que não fosse por uma questão de gosto, é-me impossível usar skynny jeans porque se o fizer vou-me assemelhar a uma experiência falhada em laboratório entre um flamingo e um cavalo.

Sou do tempo em que havia uma clara diferença entre a roupa de homem e a roupa de mulher e em que as zonas correspondentes nas lojas eram facilmente destrinçáveis à vista desarmada. Hoje, tal não acontece. É preciso ser uma espécie de detective para perceber se estamos na secção de roupa de homem. À primeira vista, não parece, mas temos de procurar pela presença de saias ou vestidos para ter a certeza e, mesmo assim, não é garantido. Longe vão os tempos em que as cores vivas eram para as mulheres e em que os homens estavam cingidos a uma paleta de cores escuras e mortas. Não tenho problema com isso: tenho uma t-shirt laranja e outra amarela, por exemplo, sou um gajo que não nega o progresso, mas, tal como é complicado encontrar roupa quando se é um homem baixo ou gordo, começa a ser difícil sendo heterossexual e branco. Claro que sobram as lojas com roupa de tio de Cascais, com calças caqui e camisa branca com pólo azul, mas antes vestir-me como um pavão colorido do que como um gajo que gosta de touradas.

«Oh Guilherme, começaste por referir que era o homem branco heterossexual e só te vejo a escrever sobre a parte heterossexual, afinal o que é que a cor da pele tem a ver com o assunto?». Boa pergunta. Por norma, e reparem que estou sempre a generalizar sabendo que existem excepções, os negros têm uma forma diferente de vestir dos brancos. Apesar de sermos todos impactados pela mesma sociedade e moda, temos influências diferentes em várias fases da vida e o próprio facto de durante muitos anos as discrepâncias financeiras terem sido maiores entre raças, faz com que isso tudo se reflicta na forma como nos vestimos. Lembro-me de ver os meus colegas de escola com bonés dos Chicago Bulls e de querer um também, para ficar com estilo. Os meus pais compraram-me e mal o experimentei e me vi ao espelho, percebi que o único estilo que tinha era o de palerma. Vemos isso no hip-hop, cultura que influencia muitos negros: vestir merdas à parva e ficar com estilo sem saber como. Um negro safa um casaco vermelho com uma camisa amarela e uns sapatos de pele de crocodilo azul. Fica a mandar pausa. Um branco que opte pela mesma indumentária vai parecer um chulo daltónico. Acho que tem a ver com a confiança: talvez um negro arrisque mais na roupa porque tem maiores problemas com que se preocupar do que a forma como as outras pessoas olham para a maneira como se veste. Se calhar, enquanto eu estava preocupado se o casaco ficava bem com a camisa antes de ir para uma entrevista de emprego, um negro estava mais apreensivo que o entrevistador o pudesse achar demasiado escuro para a sua empresa.


Talvez seja por isso, por terem mais com que se preocupar, que arriscam roupa com mais confiança. Isso ou porque o preto dá bem com tudo, não sei.

Se pensarmos bem, isto da roupa das lojas estar cada vez menos branca e heterossexual é bom sinal. É sinal que, por um lado, temos grupos de pessoas que começam a ter mais poder de compra levando as marcas a pensar neles quando desenham as roupas e, por outro, que a sociedade está mais aberta e que outros grupos de pessoas se podem expressar através da roupa sem problemas de serem julgados. No fundo, este texto que à primeira vista pode parecer preconceituoso, é uma celebração do progresso social que temos tido. Tem bué camadas e eu sou um génio, é a conclusão que podemos, obviamente, tirar disto tudo. O problema, se é que é um problema, é que toda a nova questão da neutralidade e da fluidez de género - que diz que o masculino e feminino não são mais do que concepções culturais - assusta-me. Assusta-me porque se isso for a norma aceite pela sociedade, deixará de haver uma secção de roupa de mulher e de homem e tornar-se-á, analisando o padrão dos últimos anos, ainda mais, tudo numa grande amálgama indistinguível e onde irão dominar as pessoas que, por norma, mais gastam dinheiro em roupa: as mulheres e os gays. E pronto, lá vou eu andar com as mesmas calças de 2004 e com as mesmas tshirts que usava no secundário, todas rafadas e russas.

Dito isto, não tenho qualquer problema com a forma como as outras pessoas se vestem. Interfere zero na minha vida. Já sei que me estou a repetir, mas é importante não confundir: não tenho nada contra o Roberto querer usar botas de cano alto leopardo rosas, com um pavão a fazer de boina e com uma lanterna no rabo porque o seu animal preferido é um pirilampo. Posso gozar com isso e fazer piada como faço com o mitra de bolsa ao pescoço a pensar que é um são bernardo do gueto. A crítica nunca é baseada na orientação sexual ou raça, mas sim no ridículo que para mim possa ser vestir-se de uma ou de outra forma, tal como acho ridículo usar fato e gravata para dar uma imagem profissional e honesta quando os maiores ladrões que conhecemos são políticos e banqueiros engravatados. Só peço é uma coisa: é que as lojas comecem a ter para além da secção de homem e de mulher, uma secção de "Homem antiquado que não gosta de arriscar na vestimenta". Não é pedir muito. Vejam lá isso.
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