21 de setembro de 2017

Para a minha mãe tudo fazia cancro



As mães nunca precisaram de grande poder de argumentação pois bastava aquele olhar de quem tenta matar cabras com o olhar para que obedecêssemos, sem questionar a autoridade vigente lá de casa. Até os nossos pais sabiam que quando lhes pedíamos alguma coisa única resposta certa era «Já perguntaste à tua mãe?». Os homens mandam no mundo, mas as mulheres mandam lá em casa! Os primeiros não têm feito um grande trabalho no seu papel, mas temo que se fossem as mães a mandar no planeta vivêssemos numa ditadura em que todas as esquinas estão revestidas a borracha e onde não havia referendos, já que as mães têm sempre resposta a todas as perguntas. Lembro-me de ser criança e tentar enveredar por um encadeamento infinito de "porquês", a tentar contra-argumentar, e chegar sempre a três resultados possíveis como alegações finais da minha mãe:

- Porque sim
- Porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Porque faz cancro.

O fluxo de conversa era mais ou menos este:

- Posso fazer uma tatuagem do Bolicao?- Não. Isso faz mal.
- Faz mal porquê?
- Porque sim.
- Tu dizes que porque sim não é resposta!
- Faz mal porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Mas porquê?!
- Porque faz cancro.

Para a minha mãe, tudo fazia cancro quando eu era pequeno: eram as tatuagens do Bolicao; os chupa-chupas Push Pops; os chupões autoinfligidos nos braços; tirar as crostas das feridas; roer as peles dos dedos ou as unhas; coçar borbulhas das melgas até fazer ferida; comer o queijo que saía da tosta e ficava mais queimado; passar muito tempo em frente ao computador; beliscões; escrever a caneta nas mãos ou nos braços; engolir pastilhas; meter o dedo no nariz; ver televisão de perto; ver televisão de longe e esforçar os olhos; ouvir música muita alta com auscultadores; olhar directamente para o sol; respirar o cheiro da gasolina na estação de serviço; mergulhar de chapa na piscina; comer torradas queimadas e não usar protector solar, idem. Sei que nestas últimas até é verdade, mas na altura era difícil acreditar e, tal como na história de Pedro e o Lobo, desconfiava que se uma era mentira, as outras todas também seriam, mas, pelo sim, pelo não, fazia sempre os trabalhos de casa, não fosse ficar com um tumor no cérebro. Quando comecei a chegar à idade em que tinha a mania que era esperto – idade em que ainda me mantenho – dizia «Roer as unhas faz cancro? Então para que é que fumam?», fazendo alusão à hipocrisia de nessa altura ambos os meus pais fumarem e darem-me conselhos oncológicos sobre os perigos de tirar crostas e roer as unhas dos dedos dos pés. Em vez de perceberem que estava ali um potencial campeão mundial de contorcionismo, preferiram cortar-me as asas e as unhas.

Nessa altura, o cancro não metia muito medo já que eram, ou pareciam, poucas as pessoas a receber a sua visita. Ia-se sabendo de um ou outro caso, mas nunca muito próximo para se ter a certeza se a Dona Almerinda tinha morrido por fumar durante 70 anos ou por fazer demasiadas tatuagens do Bolicao. Ficava sempre no ar a incerteza. Por isso, o cancro era uma espécie de criatura mítica, um homem do saco 2.0, que os pais podiam usar sem que se tornasse demasiado próximo. Como na minha casa Deus não existia, era preciso um bicho papão mais real para me meter na linha. «Isso faz cancro» era o «Deus castiga» para os pais ateus. Dizer a uma criança descrente que Deus castiga é o mesmo que dizer-lhe que vem aí um unicórnio dar-lhe uma marrada.

Aliás, Deus tem muito em comum com os unicórnios: nunca ninguém os viu e ambos aparecem em livros de ficção. 

O que é certo é que vamos crescendo e percebendo que quase tudo faz cancro e que mesmo que leves uma vida saudável e evites tudo o que é cancerígeno, ele pode bater-te à porta. O cancro nunca podia entrar num episódio do «E se fosse consigo?» porque o cancro não discrimina ninguém e não é por isso que tem boa fama. Eh lá… que isto está a ficar demasiado sério e tétrico. Voltando a roer as unhas dos pés: sou só eu que não meto um corta-unhas nos pés há anos? Aquilo quando um gajo sai do banho e está mole tira-se facilmente sem qualquer utensílio! E nas unhas das mãos é sempre um stress, sendo destro, quando tenho de cortar as da mão direita. Pareço um daqueles gajos nos anúncios de prevenção rodoviária da DGV com a música Aimee Mann. Se por acaso tenho de cortar as unhas em dias de ressaca é impossível! Tremo por todos os lados e mais vale roer e depois limar numa parede porosa. Já sei por que é que o meu avô com Parkinson tinha sempre as unhas compridas. Pensava que era para o estilo ou para cortar queijo e descascar laranjas e, afinal, não.

A minha mãe, como todas as mães, tem conhecimentos avançados de medicina. A minha mãe é como o Google em que quaisquer sintomas que lhe dês a resposta é sempre cancro. Estou certo que a minha mãe poderia roubar o lugar à Maya e à Maria Helena a fazer biopsias por telefone e sem precisar de cartas de brincar compradas no Papagaio Sem Penas. A minha mãe sempre foi uma mãe galinha e dizia-me, entre muitas outras coisas, para não me esforçar demasiado na natação. Certamente, com medo de que eu ganhasse as provas todas e ficasse todo gostoso e tivesse as miúdas todas atrás de mim devido ao meu corpo de nadador. Sempre quis que eu as engatasse pelo meu intelecto que é o que, aos 33 anos, me resta. Sim, já fiz paz comigo mesmo e com o facto de nunca mais voltar ver os meus abdominais a não ser que apanhe uma daquelas doenças que nos emagrece muito antes de morrermos. Sinto que este texto está a resvalar para o cancro, novamente. É melhor ficarmos por aqui até porque, tal como disse, é chato crescer e descobrir que quase tudo faz cancro. Até o sexo oral desprotegido – que é a única forma de se fazer bom sexo oral – provoca cancro. Epá, tirem-me as tatuagens do Bolicao e as torradas queimadas, mas não me tirem cunnilingus sem papel de celofane e, já agora, se é para me fazerem um felácio com preservativo, mais vale irmos ver um filme.
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20 de setembro de 2017

Praxes, Tony Carreira e Buraca Vs Estoril



No episódio desta semana do podcast Sem Barbas Na Língua falamos sobre as praxes, o plágio de Tony Carreira, as diferenças entre a Buraca e o Estoril e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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14 de setembro de 2017

Sem Barbas Na Língua está de volta



Sem Barbas Na Língua está de volta depois de umas merecidas férias. Neste episódio falamos sobre tudo o que aconteceu este Agosto, desde a vinda de Madonna para Portugal, da polémica com o João Quadros e com a Rita Ferro Rodrigues, escalar da ameaça nuclear e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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13 de setembro de 2017

Tony Carreira é um cantor de covers



O Ministério Público acusou Tony Carreira por plágio de onze músicas. O choque! A pergunta que se impõe é: só onze músicas? Não acredito! Primeiro, o Ronaldo em tribunal por acusações de fraude fiscal, agora o Tony por plágio. Só falta descobrir-se que a Leopoldina aconchega o bico no rabo de crianças, para Portugal ficar sem heróis. O plágio é um assunto recorrente no mundo dos humoristas em que é mais fácil duas pessoas fazerem a mesma piada, sem querer, especialmente quando se fala de atualidade e há pressa em ser o primeiro a fazer uma piada sobre um determinado assunto: o resultado é uma piada pouco criativa na qual várias pessoas pensaram. Na música é diferente, já que é mais difícil duas pessoas lembrarem-se da mesma letra, música e melodia, mesmo que seja uma música de qualidade duvidosa, como é o caso. Aliás, o que não irá faltar são humoristas que plagiam outros a fazer piadas sobre o plágio do Tony Carreira. Haverá, certamente, quem plagie piadas sobre o plágio do Tony, criando assim um buraco negro no espaço-tempo contínuo.

O Tony Carreira é aquele aluno que leva cábulas para o teste e mesmo assim chumba. A pena para plagiar merda deveria ser mais pesada.

Plagiar o Tony dá cem anos de perdão porque, afinal, ele é apenas um cantor de covers. Nada contra, há excelentes bandas de covers, mas que são apenas isso e nunca ficam na história por muito boas que sejam pois falta-lhes aquilo que distingue os artistas dos restantes: a criatividade e originalidade. Por algum motivo, uma cópia perfeita da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci não vale um trilionésimo do original.

Até tenho em alguma consideração a família Carreira. Das entrevistas que já vi, tanto o Tony como os filhos parecem gente decente que vieram do nada. Bem, o Tony veio do nada, os filhos já vieram com a Carreira escrita no nome. Apesar de não ser apreciador da música de nenhum deles, acho que tratam o público com respeito, sincero ou não. O Tony é dos poucos "artistas" em Portugal que sabe trabalhar o marketing como deve ser e que prefere ter 50 músicos em palco e ganhar um bocado menos, mas dar um bom espectáculo para os fãs, do que cantar meio em playback com o mínimo de banda possível e meter mais dinheiro ao bolso. Sim, é um cantor pimba, mas foi o primeiro a ser respeitado fora desse meio, com excepção, talvez, de Marco Paulo a quem todos reconheciam o potencial vocal (e o plágio que no caso dele era admitido e, pelo que sei, pagava os direitos de autor). Tony Carreira viveu tempos em que era mal-visto dizer-se mal da sua música. Mesmo outras celebridades, nomeadamente apresentadores de televisão do daytime, diziam gostar muito das músicas dele quando, na verdade, estavam a mentir e só o diziam porque ele falava para o mesmo público que eles. Acho que a música pimba tem mau nome e todos se esquecem que serve um propósito importante que é o de alegrar. Fado é muito lindo sim senhor, mas dêem-me uma bifana e uma mini enquanto o Quim Barreiros está a tocar no palco e serei muito mais feliz. No fundo, os fadistas também são quase todos cantores de covers, mas como é fado é para respeitar porque são artistas superiores aos pimbas. Tretas. A maioria é só gente com boa voz que canta covers.

Ao que parece, Tony já reagiu e diz que o assunto já foi resolvido há uns anos com os autores das músicas que é como quem diz que lhes pagou e não se fala mais no assunto. Não tenho nada contra isso se for honesto: vês uma música que achas que se adaptaria a ti, ligas ao autor e perguntas quanto é que ele quer para te ceder os direitos com a condição que podes ajavardar a letra à vontade e nunca dar créditos ao original. Ele diz-te o preço e tu pagas. Tudo bem, tudo honesto, mas ao que parece não foi assim que foi feito. Foi «Ora deixa cá usurpar isto sem dizer nada a ninguém porque hoje estou com pouca inspiração.». A folha em branco é tramada para quem cria algo, eu sei, mas plagiar deliberadamente alguém e recolher os louros (e dinheiro) por isso, é de quem desrespeita o seu público e a arte que representa. Pode dizer-se que o impacto das músicas dele não muda devido ao plágio e que emociona e inspira as pessoas na mesma. Talvez seja verdade e, no fundo, Tony esteja a fazer um favor a todos os portugueses que não sabem línguas que é o de traduzir músicas estrangeiras para que mesmo os com menos estudos possam apreciar.

A próxima edição do Festival Músicas do Mundo vai ser só com o Tony a cantar em português músicas de 200 países diferentes. 

O problema é que se Tony foi considerado culpado, irá apenas pagar uma multa que não prejudicará em nada o seu império. É como o Ricardo Salgado que pagou três milhões pela caução, milhões esses que, alegadamente, foram obtidos de forma ilícita e ainda lá ficou com uns quantos outros que mesmo que seja condenado, depois de um ou dois anitos de prisão, poderá utilizar para gozar uma bela reforma. No caso do Tony, penso que a multa não deveria ser paga em dinheiro, mas sim em canções originais que seriam avaliadas pelo júri do The Voice. Até o Tony conseguir virar as quatro cadeiras, não poderia sair da prisão. Como isto é coisa para demorar, provavelmente chegaria uma altura em que o Anselmo Ralph já nem precisava de estar de costas voltadas para ser considerada uma audição às cegas. Não me parece que este caso danifique a carreira do Tony, já que era um rumor bastante audível, há muitos anos, e parece-me que o público do Tony é o mesmo que vota Isaltino Morais ou noutros políticos corruptos. Desculpam-lhes tudo porque é isso que os fãs fazem. Os seguidores do trabalho de alguém são críticos a esse trabalho, os fãs estão enamorados pela imagem que têm do seu ídolo e estas polémicas só reforçam esse amor. Os fãs são como as mães de bebés feios: acham-nos lindos e ai de quem disser que têm cara de peru atropelado por uma carroça! Por isso, este caso ficará apenas na consciência do Tony ao qual gostava de deixar umas palavras:

Tony, plagiar é como ir para a cama com uma mulher, desligar as luzes, sair do quarto sem ela ver e mandar no teu lugar outro gajo que lhe dá uma esfrega daquelas de usar Halibut no dia seguinte. Incontáveis orgasmos múltiplos depois, o gajo sai do quarto e tu voltas a entrar e a acender as luzes. Ela olha-te como quem diz que foste o melhor que ela já teve. Tu recolhes os louros e ficas com uma boa imagem aos olhos dela, mas sabes, lá no fundo, que o mérito não foi teu. Sabes que, afinal, o menino não eras tu. Era outro.
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11 de setembro de 2017

Grupos de Facebook de Operações STOP são parvos



Somos uma espécie capaz de se odiar por coisas simples como a cor da pele ou devido a divergências quanto ao nome do amigo imaginário que mora nas nuvens, mas quando o assunto é avisar os outros onde há operações STOP, somos uma raça que se une. Quais cordões humanos e minutos de silêncios por Timor, quais manifestações contra o trabalho precário, os portugueses unem-se é quando o problema se resume a: «Bebi uns copos a mais, mas apetece-me conduzir na mesma... quem me dera saber onde há operações STOP!». Desse problema generalizado da sociedade, nasceram grupos de Facebook com milhares de pessoas onde são publicados os locais onde há operações STOP, tudo em tempo real para o efeito do álcool não se desperdiçar. À primeira vista, tudo isto é inócuo e ingénuo, mas se pensarmos bem sobre o assunto, é um bocado parvo.

Imaginem o cenário: um gajo está bêbedo, mas quer levar o carro para casa porque está bem para conduzir, diz ele. Vai ao Facebook e vê que no caminho que ele faria normalmente há uma operação STOP. Decide, então, ir por outro lado. Como qualquer bêbedo que acha que está bem para conduzir, conduz qual Ayrton Senna e, tal como ele, perde o controlo do carro, galga um passeio e passa a ferro uma grávida que estava a passear um cão adoptado do canil. Morrem todos, incluindo o condutor e o pendura que ia a comer um pão com chouriço. De quem é a culpa? Do gajo que ia a conduzir bêbedo, claro. Mas se tivessem sido vocês a fazer aquela publicação e a avisar aquele gajo da operação STOP, e soubessem disso, não iriam sentir um bocadinho de culpa? Um bocadinho, só?

No fundo, estamos a ajudar outras pessoas a infringir a lei e a colocar a própria vida, e de terceiros, em risco. Se fosse só a tua vida em risco nem devia ser proibido conduzir inebriado. Acho que deverias poder andar sem cinto de segurança à vontade. Queres ir ver mais de perto a traseira de uma Renault Kangoo? Força nisso. Andas de mota sem capacete porque sempre sonhaste ter a cara metade pessoa, metade batata a murro? É na boa, força nisso. É como quem se vai encostar a uma arriba na praia mesmo juntinho ao sinal de perigo. Um gajo precisa de se livrar do peso morto para evoluir a espécie. Os burros estão a atrasar-nos demasiado e gostava que o mundo não acabasse antes de ser criado o teletransporte, de descobrirem o soro da imortalidade e, se não for pedir muito, do Sporting ser campeão outra vez.


«Banco Alimentar? Ui, hoje não, dei ontem.»
«Uma moeda? Ui, não tenho trocos.»
«Uma operação STOP? Deixa-me cá cumprir o meu dever cívico para com os meus conterrâneos. O táxi é caro e um gajo tem pouco dinheiro porque as bebidas estão caras. A culpa é do governo e dos turistas que inflacionaram isto, porque se o táxi fosse de borla eu não cometia contra-ordenações! Isso e para tramar esses gatunos da polícia que só andam é na caça à multa!»

As pessoas criticam a polícia por fazer caça à multa, mas há uma forma muito fácil de não cair nessas armadilhas que é, pasme-se: não infringir a lei! Ahhh, informação dramática! Também acho que se deve investir mais na prevenção e na educação do que na punição, mas até chegar uma geração mais consciente na estrada, temos de caçar o pessoal que trata o volante como as caixas de comentários do Facebook e só diz e faz merda. Longe de mim ser moralista, também já conduzi com um ou dois copos a mais, já liguei a amigos polícias a perguntar onde havia operação STOP e já fui, uma vez, a um grupo desses ver se a costa estava livre.


A diferença é que se eu vir uma operação STOP não vou lá publicar. Quero é que os outros se fodam. Às vezes, o egoísmo tem efeitos secundários positivos.

No entanto, acho que é nestas pequenas coisas que vemos que há esperança no mundo e que a nossa espécie é capaz de se unir e esquecer as diferenças. Aposto que já deve ter havido um gajo nazi a publicar num desses grupos sem se preocupar se está a ajudar bêbedos negros, ciganos ou muçulmanos. Bem, estes últimos só bebem em casa às escondidas e não pegam no carro a seguir. Esse nazi simplesmente quer ajudar o outro e quer sentir-se útil na sociedade, esquecendo-se de julgar pela diferença, tal como os nazis que aplaudem os jogadores negros da sua própria equipa, mas apupam com cânticos racistas os da equipa adversária. Não sei se isto prova que há esperança, ou só que o futebol e o querer conduzir embriagado são valores mais altos do que o racismo.

Uma vez fui apanhado com álcool numa operação STOP e não foi com uma garrafa na mão, foi mesmo no sangue. Foi há uns 4 ou 5 anos e até vi a operação ao longe e podia ter virado ou invertido a marcha, mas, como qualquer bêbedo, achei que estava bem. Não estava. Acusei 0.9 g/l e arrotei 500€ que bem mereci. Voltarei eu a pegar num carro com os copos? É provável que sim, mas se a multa em vez de 500€ tivesse sido de 5 mil, ainda a estava a pagar às prestações e se calhar não pegava. Uma vez passei numa operação STOP com um olho fechado e outro aberto porque era a única forma que conseguia focar. Desta vez, também os vi antes, mas até chegar perto pensava que eram os homens do lixo com uma farda nova. Não fui parado, infelizmente. Merecia ter levado uma multa valente e ficado sem carta uns meses para aprender e não voltar a fazer. Quer dizer, até acho que estava naquele ponto em que nem é muito perigoso conduzir porque tinha a perfeita noção de que nem para andar estaria bem. Então, fui devagarinho e a cumprir todas as regras. 


Quando vês um gajo sozinho, numa rotunda vazia, a fazer piscas já sabes que ou fez merda ou está para fazer.

Até em passadeiras sem ninguém eu parava, não fosse estar a ver mal. Nesse estado fim de festa é melhor do que só bêbedo party mode porque é aí que um gajo acha que está na boa e que fazer curvas a chiar pneu é fixe e que dar 150 km/h dentro da cidade é bué racing. Nesse estado, vem à tona o condutor de UBER que já foi taxista que há dentro de nós em que há toda uma veia de campeão da estrada reprimida.

Voltando aos grupos, imaginem que havia grupos de Facebook para outros crimes que, por exemplo, avisavam sobre a presença de rondas policiais para auxiliar quem está a pensar assaltar uma ourivesaria. Se calhar estou aqui a dar boas ideias de borla, mas pronto. Estes grupos que avisam desconhecidos sobre operações STOP são a versão 2.0 dos sinais de luzes na estrada. Um gajo pode chamar filho da puta a quem não mete os piscas, pode fingir que abalroa o carro de quem nos vai a ultrapassar pela direita, mas não somos animais! Há que ser cortês e avisar o incauto colega de estrada que há polícia mais à frente, não vá ele ser multado só porque vai a 200 km/h na nacional com o seu Fiat Punto kitado. É este altruísmo enquanto espécie que está na base destes grupos de Facebook.

O Homem, especialmente do sexo masculino e especialmente português, já conduz normalmente como se estivesse bêbedo. Já pensa que é herói, não respeita traços contínuos nem limites de velocidade e nem sóbrio sabe fazer uma rotunda, imaginem com os copos. Imaginem que iam de carro ou a pé e que todos os outros carros eram taxistas depois do almoço. Então, para quê ajudar os bêbedos? Longe de mim dar-vos conselhos ou estragar a festa de quem quer beber uns copos e a seguir pegar no carro, mas da próxima vez que forem avisar pessoas que não conhecem de lado nenhum, que podem conduzir feitos atrasados mentais mesmo quando estão sóbrios, pensem nisso.
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Este país não é para portugueses



Portugal está nas bocas do mundo e apesar de isso ser bom, o risco de apanhar herpes ou mononucleose é elevado. Lisboa e Porto são cidades que lideram vários rankings de melhores destinos para visitar e o Algarve acabou de ser eleito como o melhor local do mundo para viver os anos de reforma. Sendo que a reforma média em Portugal é de pouco mais de 4000€ anuais, suponho que estivessem a falar de reformados ingleses ou alemães. Reformados esses que podem ser engatados pelas nossas viúvas e viúvos, ajudando assim a compensar o dinheiro que lhes foi roubado na reforma. Mesmo que isso não aconteça, é preciso ver o lado positivo de viver no melhor país para reformados com uma reforma miserável: toda a gente sabe que muitas doenças são psicológicas e psicossomáticas e quem tem de reforma menos de 400€ por mês não se pode dar ao luxo de as contrair, pois não teria dinheiro para os medicamentos.

É caso para dizer que este país não é para velhos... portugueses.

Portugal foi, também, eleito o melhor destino europeu de 2017 e os turistas chegam aos magotes, durante todo o ano, às principais cidades portuguesas. Se isto traz consigo a vantagem de vermos zonas outrora devolutas a serem reabilitadas, de haver mais dinheiro a entrar e de haver mais loiras pouco habituadas ao sol de portugal - facto que se reflecte nas roupas que usam - aos poucos, vamos percebendo que este Portugal não é para portugueses.

Os preços nos centros das principais cidades sobem a um ritmo impossível de acompanhar para a maioria dos portugueses. Basta pensar que com o salário mínimo português - 557€ - quem quiser morar no centro da capital, não consegue mais do que um T0, num quarto andar sem elevador e com a casa de banho ao lado, ou mesmo dentro, do frigorífico. O preço dos restaurantes também sobe em flecha à boleia do dinheiro de turistas e da moda do gourmet. Começa a ser complicado comer um bom bitoque por 6€ no centro das cidades. As tascas estão a morrer e a ser substituídas por comida pretensiosa que chegará o dia em que no menu só veremos escrito "Double Touch", por 15€, e em que só teremos bolo do caco para molhar no ovo e salada de rúcula em vez de batata frita a escorrer óleo. Temo pelo dia em que nas casas de fado se cantará os grandes clássicos «Oh people from my land», «People who wash on the river» e «In the house of the little gay». Não tarda, todo o Portugal será um grande Algarve de Agosto, em que se tem de saber falar inglês para pedir uma cerveja num bar. Viaje para fora cá dentro nunca fez tanto sentido. Não me estou a queixar, tenho pouco de nacionalismo dentro de mim, acho que o ar é de todos e é da maneira que se treina o inglês e se melhora o CV. Os portugueses já são conhecidos lá fora por serem bons de língua e a falar outros idiomas, também.

Portugal foi ainda escolhido como o quinto melhor país do mundo para viver e trabalhar, segundo um inquérito feito a expatriados, claro. Os portugueses teriam uma opinião diferente, talvez porque se queixam mais e valorizam menos o que têm. Sendo que à nossa frente ficaram países como o México e a Costa Rica, não sei como devemos encarar este troféu. Digo, há muito, que Portugal é o melhor país do mundo para se viver, mas dos piores para trabalhar, especialmente se compararmos com a Somália, onde cerca de 40% das crianças entre os 5 e os 14 anos já estão empregadas. Aos 18 anos terão um currículo melhor do que a maioria da minha geração, a tão falada Millennial. O nome Millennial vem do facto de ser a geração onde Mil euros é a expectativa máxima de salário para quem tem mestrado, boas notas e tirou um curso com boa empregabilidade, já que os outros, mesmo licenciados, podem dar-se por contentes com 500€ a recibos verdes. O meu pai sempre me disse que a melhor forma de saber gerir a minha mesada era se fosse pequena. Isto para não falar de que 25% dos jovens está no desemprego o que tem um impacto directo na forma como começamos a ver o núcleo familiar.

Sabem qual é a idade com que os filhos saem de casa dos pais? Três anos seria a resposta dos pais da Maddie, mas a média em Portugal é de 29 anos.

Ao contrário do que possa parecer, isto tem imensas vantagens como o facto de aproximar os netos dos avós já que vivem todos na mesma casa e, com os cortes nas reformas, há toda uma entreajuda entre pais e filhos para conseguirem pagar um T2 para seis pessoas nos arredores de Lisboa, ou seja, em Leiria. Sabem porque é que eu também acho que as rendas estão obscenas? Porque não tenho nenhuma casa para alugar em Lisboa. Se tivesse, acharia que estavam muito boas e que ainda havia margem para subir o preço e que só paga quem quer e pode. Esta exorbitância das rendas irá afastar muita gente das grandes cidades e trazer várias vantagens: diminuir o trânsito para os tuk-tuks poderem andar à vontade; reabilitar o interior e as aldeias, onde poderão ter a vossa horta biológica. Estou a brincar, essa aldeia que tinham em mente foi comprada e transformada num enorme turismo eco-agro-rural onde turistas ricos vêm brincar às quintas.

Sabes que o país está cada vez menos feito para os portugueses quando tens um salário médio mensal de 913€ - salário médio mais perto do salário mínimo de todos os países da União Europeia - e tens milionários e celebridades estrangeiras a escolher o nosso país para viver. Apesar de ser mais glamouroso ter a Madonna, Monica Bellucci ou o Éric Cantona a morar em Portugal, o que eu gostava era de ter gente pobre da Nicarágua a escolher Lisboa como a cidade onde iriam mudar de vida, pois era sinal de que o preço das coisas estava barato e que as oportunidades de trabalho eram boas. Estrangeiros famosos em Portugal é como ver vinagre balsâmico na borda de um prato de cozido à portuguesa: sabes que vais pagar mais, mas que o sabor é o mesmo. Isto de gente famosa vir cá para ficar é mau sinal. No Burundi, as pessoas gostam da Angelina Jolie porque ela vai lá passear, dá umas canetas e uns cadernos à malta e volta com umas crianças na mala que só iam dar despesa. Se ela fosse para lá permanentemente morar ninguém ia achar piada quando o café da esquina ao pé de casa dela começasse a cobrar o triplo por um café.

Durante anos ouvi toda a gente dizer - inclusivamente eu - naquelas conversas de café onde se arranjam soluções para todos os problemas do país, que Portugal deveria apostar mais no turismo. Todos eram da opinião que Portugal tem tanto ou mais para dar do que Espanha e do que França e que o turismo seria a chave que resolveria todos os problemas económicos do país. Ora bem, as nossas preces foram ouvidas e há cerca de dois anos que não oiço ninguém dizer que Portugal precisa é de mais turismo. Portugal seguiu os conselhos de todos nós e neste momento toda a gente se queixa que há turistas a mais em Lisboa. Os portugueses nunca estão satisfeitos, faz parte do nosso ADN dizer mal e responder «Cá se vai andando» em vez de «Epá, olha que até estou impecável!». Não é que estejamos impecáveis, mas pensar positivo é a única esperança dos pobres e precisamos de aceitar que este país já não é para portugueses. É para o mundo.
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