22 de fevereiro de 2017

Buraca first! America second!



Caro presidente Trump,

Sei que já deve estar farto destes apelos que foram feitos por muitos países e cidades que manifestam o interesse de ver as suas zonas em segundo lugar no ranking das maiores nações mundiais, logo a seguir, obviamente, à grande nação da América, que por acaso até é um continente, mas que para facilitar e não confundir as pessoas que votaram em si, irei utilizar como referência aos Estados Unidos da América. Ia fazer um vídeo, mas a verdade é que já é um formato muito batido e, bem, dá mais trabalho porque é preciso levantar o rabo do sofá e o meu sofá é muito confortável. O mais confortável de todos! Então, escrevo-lhe e, ao contrário dos outros vídeos, não quero que a minha terra, a Buraca venha em segundo. A Buraca vem primeiro! Deixo alguns bons exemplos que poderá seguir se quer tornar a América grande outra vez.

Vocês têm o Central Park em Nova Iorque. Na Buraca temos o Jardim dos Aromas. O melhor jardim. Grande. Nem dá para acreditar! Tem esse nome devido aos perfumes que se sentem no ar: da erva, do chamon, do pólen e dos canabinóides no geral. Aqui ninguém manda consumidores e pequenos traficantes de drogas leves para a prisão durante anos, somos pessoas com bom senso. Em vez disso, a polícia leva-os até à esquadra e dá-lhes um enxerto. Dos melhores enxertos do mundo! Grandes! Enormes! Antes, neste parque, havia um muro de onde eu me pus a saltar com oito anos e fracturei a perna. Péssimo. A maior fractura de sempre. Horrível! Tive de andar com gesso dois meses. Não fiquei coxo por acaso.

Vocês têm o «Born in the USA» do Bruce Springsteen, nós temos o «Quero ir à Buraca» dos Fúria do Açúcar. Um hino feito na altura em que as pessoas não ficavam ofendidas com regionalismos bacocos. Ninguém da Buraca boicotou os concertos deles, nem queimou as suas cassetes. As pessoas da Buraca têm sentido de humor porque desde cedo percebem que rir é a melhor forma de lidar com o facto de se viver numa terra chamada Buraca.

A Buraca está inserida numa espécie de Estados Unidos: a Linha de Sintra. Pense em Benfica como sendo São Francisco, onde as elites moram. Pense na Amadora como se fosse Nova Iorque, onde existe uma espécie de melting pot. Vocês têm o Empire State Building, nós temos o centro comercial Babilónia que, tal como a mítica capital suméria com o mesmo nome, também é uma espécie de meca do progresso e tecnologia com 300 lojas de indianos que reparam telemóveis. Pense em Massamá como Chicago, com prédios altos e vento. Pense no Cacém como uma espécie de Detroit, mas ainda com mais mitras. Os melhores mitras!

Vocês têm Las Vegas, mas nós temos o Bingo da Reboleira.

Também temos um muro na Buraca: o Aqueduto das Águas Livres, Free Waters. Curioso que haja muros que tenham derivados de liberdade no nome e que serviam para levar bens essenciais às pessoas. Ainda temos outro muro, mesmo ao lado, na Damaia. Lindo. Grande. O melhor muro. É o muro da Escola Secundária D. João V, onde fui aluno durante cinco anos. Não chumbei nenhum, o que pode parecer estranho aos olhos dos seus eleitores. Era um excelente aluno. O melhor. O conceito de escola secundária também pode parecer estranho aos seus fãs que são filhos de primos direitos. Bem, este muro separa a escola do seu exterior, já que a escola é paredes meias com a Cova da Moura que é o melhor bairro social de Portugal. Grande. O maior. Contrariamente ao que se possa pensar, este muro não serve para segregar, serve para manter as bolas de futebol de educação física dentro do campo, já que quando iam parar à Cova da Moura não voltavam. Este muro, para além das funções básicas dos muros, tem outra: a de ser uma tela onde vândalos rabiscam coisas. Na fotografia pode ver alguns exemplos do vândalo Odeith. Enfim, uns a usar muros para separar pessoas, outros a enchê-los com arte e cultura. Sad.

Vocês têm o Rodeo Drive e a 5ª Avenida onde as pessoas podem fazer compras de luxo, mas a Buraca está a uma distância de dois minutos do Colombo, da Decathlon e do IKEA. Temos bons artistas. Vocês têm o Louis CK, mas foi na Buraca que nasceu o Bruno Nogueira. Vocês têm a Oprah, mas nós temos o João Baião. Vocês têm o Dr. Phill que não vale nada ao pé do nosso Quimbé. Temos, ainda, os Buraka Som Sistema, grupo no qual nenhum dos elementos é da Buraca, só para ver o impacto que esta localidade tem que até quem não mora lá quer fazer de conta que sim.

Na Buraca não temos mexicanos, mas temos Guineenses, São-Tomenses, Cabo-Verdianos, Angolanos, Brasileiros, etc. Muitos deles são portugueses, já. Vivemos todos em harmonia... estou a gozar, há muita merda. Há tráfico de droga, há assaltos, há criminalidade no geral. A diferença é que percebemos que não é a cor da pele nem as raízes geográficas que provocam isso. Percebemos que as desigualdades, a discriminação e a situação económica e social são a base do problema. Conseguimos resolver? Não, mas está melhor do que há uns anos, especialmente porque quando mandaram abaixo o Casal Ventoso, Windy Couple, o tráfico veio para aqui e a criminalidade na rua diminuiu porque o pessoal faz mais dinheiro a vender droga do que a assaltar na rua. Como pode ver, vocês têm o Steve Jobs, mas nós temos o Celestino Mata-Bófias que também era empreendedor. Depois foi morto pela polícia, mas o Steve Jobs também morreu, por isso vai dar ao mesmo. No entanto, mesmo com isto tudo, não colocámos muros à volta de bairros de má fama, nem deportámos toda a gente para o Cacém. Eles já têm chungaria que chegue de todas as cores.

A verdade é que esses muros sempre existiram. Há quem nasça do lado do muro que tem menos oportunidades. Há quem nasça do lado do muro que lhes baixa as expectativas porque ninguém espera nada deles e até ficam surpresos se não forem por maus caminhos. Os muros já existem e enquanto há uns que os tentam derrubar, há outros que os querem erguer e torná-los de pedra e cimento. Mesmo numa zona complicada em que é fácil encontrar racismo, dos dois lados da barricada, tenho a certeza que se o senhor Presidente concorresse à Junta de Freguesia da Buraca, pouca gente votaria em si. Por isso, a Buraca vem primeiro e a América vem depois. Não vamos fazer a Buraca grande outra vez, porque a Buraca nunca foi grande, nem nunca vai ser. Mas é cada vez menos má, tal como Portugal. Porque em locais onde as pessoas são boas, as coisas tendem a melhorar e nunca precisam de ser como já foram.
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21 de fevereiro de 2017

Ser solteiro vs rotina de uma relação longa.



Mais uma terça-feira, mas uma consulta "Doutor G explica como se faz".


Olá Doutor G, em primeiro lugar sou um grande fã e tenho lido o seu livro, que está 5 estrelas. À 4 meses eu e a minha ex acabámos. Desde ai tem sido um deserto em termos de luta pelada. Apesar de ser um tipo tímido, tenho tentado. Simplesmente as raparigas com que eu tentei falar deram pra trás. Sendo que tinha sido a minha primeira o mais provável é eu estar a fazer algo de errado, mas não faço a menor ideia o quê. Será que estou a fazer alguma coisa de errada? E, já agora, pode dar alguns conselhos nesta matéria uma vez que sou iniciante?  
JC, 22, Coimbra

Doutor G: Caro JC, obrigado por teres comprado o meu livro, (à venda neste link) mas não deves ter lido com atenção, caso contrário saberias conjugar o verbo haver. Toma nas orelhas que já almoçastes. Estou a gozar, é almoçaste. Uma rapariga inteligente pode deixar de ter interesse em ti com base nos erros ortográficos do chat, por isso, o melhor será investires nas mais burras. JC, estou farto de responder a dúvidas do género, pá. Não há segredo. É tentar. Falar. Implorar. Alguma irá querer. A rejeição faz parte da vida dos homens e tens de te habituar e não desanimar. Quanto mais te habituares à rejeição, mais confiança irás ter e as mulheres têm um nariz especial que detecta machos confiantes à distância. Não estás a fazer nada de errado, estás só a ser tu mesmo e isso às vezes prejudica porque podes não ser muito interessante. Estou a fazer sapateado em cima do teu ego para o calejar e te ajudar. É tough love, não é sadismo. Usa apps de dating e sai à noite com os amigos. Vive. Tens 22 anos e ainda vais conhecer muita gente e fazer muito sexo. As tuas iniciais são JC e só isso é uma arma para sacar miúdas católicas que, ao contrário do que se possa pensar, são as que mais facilmente irão cair-te no colo para meter um terço na mão e dois terços na boca.


Excelentissimo Dr G., em 22 anos de vida nunca consegui ter uma relação séria. Acho que assusto os homens, sempre que estou a conhecer alguém e penso “vai ser agora, acho que é desta” e isto passa por vários cafés, passeios, conversas de horas, etc, eles deixam de falar comigo, sem motivo aparente! Já conheci pessoas na vida real, nas redes sociais, em aplicações, mas o desfecho é sempre o mesmo. E muitas vezes esses rapazes aparecem uns meses depois com namorada nova e aí é que não entendo. Já tive vários rapazes a fazer-me propostas de "aventuras" e até tive 2 casos que duraram uns mesitos mas que não passaram de uns momentos debaixo dos lençóis e decidi-me que não era o que queria. Quero ter um namoro sério e ando à quase 4 anos... acha que vou ficar solteira para sempre?   
Raquel, 22, Porto

Doutor G: Cara Raquel, parece-me que eles deixam de falar contigo porque a coisa não passa de vários cafés, passeios e horas de conversa e festa rija no leito que é bom, nada. Se vais para um primeiro encontro com a postura do «Este tem de ser para casar.» claro que a coisa não vai correr bem. Os homens têm um radar para detectar desespero e percebem que de cada vez que se baixam para atar os atacadores tu ficas a pensar que te vão pedir em casamento. O segredo está em ires com calma. Queres forçar uma relação séria com um gajo que não vale a pena (a maioria)? Não. Então não forces. Deixa andar. Se a coisa se der, deu-se. És nova e os ovários não estão a secar. Quando dizes que andas à 4 anos a tentar, parece-me que podes ter o mesmo problema do JC. Se quiserem posso fazer de cupido e apresentar-vos que assim só se estraga um dicionário. Bem, aproveita a tua fase solteira, por muito longa que for, porque um dia vais sentir-lhe falta. O teu príncipe encantado está já ao virar da esquina, não é o que dizem? Mentira. Não há príncipes encantados e quando os há vocês trocam-nos por um badboy sarrabeco que vos trata mal.


Caro doutor G, nem sei se procuro ajuda ou apenas um desconhecido que espete com isto na net para eu desabafar. É o seguinte, tenho um namoro de anos e a minha vida sexual é uma merda! Nos primeiros tempos foi muito bom, era com cada esfoliação ao bicho que até ficava a arder para fazer xixi. Agora o apetite sexual dela é muito pouco, e quando lhe apetece é pumba pumba até ela estar satisfeita e eu acabo a fazer sexo com uma espécie de ser inanimado que nem geme, nem abre as pernas ou empina o rabo etc. Não ponho a hipótese de ela me andar a trair, ou não gostar de mim. Simplesmente acho que passou o entusiasmo do "fator novidade" e ela não é grande coisa na cama. Tirando isso sou muito feliz com ela, gosto mesmo dela é sei que ela gosta de mim, mas a minha vida sexual é tão aborrecida que ando com vontade de pular a cerca. O que devo fazer? Masturbar até passar?
De Alberto Constantino de Melo, 34, Porto

Doutor G: Caro De Alberto, é um caso muito comum em casais de longa data. Cabe aos dois falarem sobre o assunto e verem formas de apimentar a relação, sendo que se usarem mesmo pimenta é capaz de te voltar a arder a fazer xixi. Grande, grande trocadilho. Ao nível dos melhores escritores mundiais. Bom, sendo que ela não empina o rabo nem abre as pernas, por um lado é bom que não gema nem faça barulho pois podia ser sinal de que a estavas a violar. Formas de apimentar a relação:

  • Brinquedos sexuais. Compra cenas marotas, sendo que se comprares dildos opta sempre por um mais pequeno que o teu pénis. Caso contrário, se ela ficar maluca com aquilo vais saber a razão da sua falta de apetite contigo.
  • Ajuda nas lides domésticas: há estudos que dizem que os homens que ajudam em casa satisfazem melhor as suas parceiras na cama já que as libertam de várias tarefas que lhes ocupam a cabeça a as stressam. Não é por acaso que faço o jantar todos os dias, até porque se não o fizesse iria morrer à fome.
  • Se for a vossa cena, façam swing. Cuidado com as doenças, caso contrário vai voltar a arder-te a fazer xixi. Grande, grande callback.
  • Investiga o histórico de internet dela para perceber que tipo de pornografia ela vê e poderes dar vida aos fetiches dela. Se ela só pesquisar por «Gangbang big black cocks» já sabes que a tens de levar a ver jogos da NBA. Atenção no role-play que fazer black-face ou black-dick é racismo.
Pode dar-se o caso de só agora teres percebido que são incompatíveis sexualmente e, nesse caso, ou vais conformar-te e esperar que o teu desejo sexual vá pelo cano abaixo, ou vais pular a cerca. Não aconselho uma nem outra, antes pelo contrário.


Olá Dr. G! Modéstia à parte, considero-me uma rapariga gira e boa e, bem, gosto muito de fazer sexo! Mas a verdade é que o meu namorado de há 2 anos trata-me como uma princesa na cama! Já lhe expliquei que na cama não quero ser princesa nenhuma, mas ele diz que “uma dama” deve ser tratada com ternura... Acabei por pesquisar na net e encontrar festas para adultos, com ar super sexy, em que todos os participantes usam máscara! Achei top e, sabendo que não ia ser apanhada, inscrevi-me, arranjei uma desculpa ao meu namorado e no sábado lá fui à festa. E curti para o mundial! Ontem, ele propôs-me irmos os 2 a, precisamente, uma dessas festas! Fiquei verde e sem saber o que dizer. Que faço Dr. G? Finjo que nunca fui e aceito ir? Digo nem pensar e continuo a ir sozinha? Digo que fui? E explico-lhe que é só sexo e que, no fundo, o que gostava era de ir com ele fazer, como tu dizes, lutas greco-romanas? Lá no fundo, era o que gostava, porque o amo, mas tenho medo que ele me ponha nas couves se descobrir que já lá andei. Socorro, Dr. G!
Anónima, 27, Lisboa

Doutor G: Cara Anónima, foste a uma festa e fizeste sexo com desconhecidos sem dizer ao teu namorado? Agora aguenta. As tuas hipóteses são as seguintes:

  • Fingir que nunca foste e aceitar ir - chegas lá e alguém te reconhece devido a um sinal que tens no interior da coxa e pergunta «Olha, a menina outra vez. É o do costume? Um vodka e três moçambicanos?»
  • Dizes que não e continuas a ir sozinha - se queres ser uma cabra é contigo.
  • Dizes que foste - és sincera e arriscas que ele te dê um pontapé, sendo que se estão a ponderar fazer swing não me parece que ele vá ficar muito chateado. Quanto muito diz que agora tem créditos para gastar e que tem de comer duas gajas para ficarem quites.
Mas bem, se queres sexo à bruta com o teu namorado e ele não alinha, para além de namorares com um xoninhas, tens de lhe dizer que sem isso, vais andar insatisfeita. A melhor forma de conseguires que ele te dê com força e te açoite é riscar-lhe o carro a estacionar e dizer que não tiveste culpa, que o problema é do carro que tem a frente muito grande. Normalmente, depois disto, qualquer homem tem vontade de dar duas lambadas na mulher. Põe-te de quatro e deixa-o descarregar a raiva.


Boa tarde Doutor, tenho um namoro estável e feliz a mais de meia dúzia de anos, porém o raio da moça gosta pouco de chafurdar, se calhar porque vivemos com os nossos pais e a única maneira de nos afundarmos um no outro é no carro a meio da noite. As desculpas que ela dá nunca são dores de cabeça nem nada disso, é sempre que não lhe apetece ir para lá... e ai de mim que insista, só faço pior e a abstinência aumenta... Quanto à minha prestação ela diz que sou bom, a prova disse é que ela alcança o orgasmo sempre, e até sou muito bom de língua, excecional, dito por ela. A minha questão é a seguinte: devo continuar a minha vida feliz e meia assexuada ou devo procurar uma segunda opinião acerca da minha performance?
Jaime, 25, Santa Comba de Assobia

Doutor G: Caro Jaime, como está o tempo aí por Santa Comba de Assobia? Húmido? Ah, não, está seco, tal como a tua namorada e ao contrário dos teus testículos. Sou nojento. Bem, se não são compatíveis sexualmente, a relação não tem futuro. É assim a vida. O sexo não é tudo, mas é muita coisa. O dinheiro também não é tudo na vida, mas sem ele um gajo falece à fome. Compreendo que a rapariga possa não se sentir confortável a efectuar o coito no carro. Pode sentir-se exposta e insegura e fazer com que não consiga descontrair e aproveitar. Sugiro que testem um motel a ver no que dá. Se resultar, o problema não é teu nem dela, mas sim do contexto. Fazendo esse despiste, tudo fica mais fácil. Se ela continuar a só querer de vez em quando, é a vida. Há pessoas assim, tanto homens como mulheres. Tentem outras coisas se for esse o caso. Como uma vez um rapaz me disse numa festa académica «Convidas-li-a a jantar em tua casa, ya. Depois fazes uma sangria com fruta, vinho forte e duas aspirinas. Ela fica maluca, sócio. Agarra-te bem que ela vai-te montar-te até te deslocar-te a bacia.». Nunca experimentei.


Boa noite Doutor G, quero desde já dizer que o acho um génio e que devia sim ser reconhecido pelo trabalho que faz nesta rubrica, que é excelente. Recentemente, um rapaz, que já conheço desde a básica, mas nunca tivemos qualquer tipo de contacto, começou a mostrar um enorme interesse por mim. Ele afirma que quer realmente ter "uma cena" comigo, e que quer ver "no que isto dá", e que quer "tentar", mas ao mesmo tempo parece que só quer praticar luta Greco romano, o que me deixa confusa. Confesso que não é de todo um panorama que não desgoste, mas também não sei se quero ser levada e rotulada como "amiga do sexo" e porque, como acabei recentemente um relacionamento, não me quero já prender a uma pessoa e sim aproveitar mais um bocadinho enquanto não tiver idade para casar e ter filhos. Estarei a ser fácil demais ao dar-lhe já a minha caixinha da pandora?  
Anónima, 20, Lisboa 

Doutor G: Cara Anónima, obrigado por começares a tua dúvida a constatar o óbvio. Quanto à tua questão, vou responder em forma de fluxograma.
É isto. Se não te importas se ele só quiser sexo e até vês isso com bons olhos, força nisso. Aproveita. Se não queres nada sério, não te envolvas. Se te envolveres é porque te apaixonaste e já queres algo sério. Se ele depois não quiser, azar. É a vida.


Obrigado a todos e, como sempre, até para a semana. Não partilhem que não é preciso. Leiam às escondidas sem partilhar com os vossos amigos e depois venham chorar quando o Doutor G fechar as portas. Só falsos puritanos.


Façam amor à bruta porque de guerras o mundo já está cheio.

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19 de fevereiro de 2017

Modas Parvas 2017: pitas, fotos de bebés, startups



Como já vem sendo moda, todos os anos faço um apanhado das novas modas parvas que deveriam acabar. São sempre textos que geram muitos comentários de pessoas ofendidas porque também é moda ser-se maneta e rir-se de piadas com pernetas, mas quando é ao contrário é de mau gosto. Vamos, então, às modas mais parvas a terminar em 2017.

Fotos de crianças com emojis
Se a tua criança é tão feia que precisas de lhe colocar um emoji a tapar a cara, então que tal não partilhares a foto dela no Facebook? Será que sempre quiseste adoptar uma criança asiática e meter uma carinha amarela no teu bebé é o mais perto disso que vais estar? O quê? É por questões de segurança?! Repara, ninguém quer o teu bebé. Ninguém vai ver a fotografia no seu mural e pensar «Epá, este bebé é mesmo bonito, se calhar vou raptá-lo e fazer amor com ele.», sabes porquê? Porque o teu bebé é feio. A sério que é. As pessoas à tua volta é que te andam todas a mentir para poupar os teus sentimentos. Se queres dizer a toda a gente que te reproduziste, como se isso não fosse um feito ao alcance de quase todos os mortais, então sugiro uma nova moda em vez do bebémoji: uma foto de um cabrito! É o desafio que lanço a todos: sempre que forem pais, publiquem uma foto com uma frase toda nhonhó a dizer «Bem-vindo a casa, meu novo amor.» e botam uma foto de um cabrito. Porquê? Porque os cabritos são fofinhos e sabem bem.

Dizer que estão a morrer mais celebridades
Não estão. Sempre morreu gente famosa. A diferença é que está a chegar aquela altura em que os grandes monstros dos anos de ouro da TV e da música, 60, 70 e 80, estão a chegar àquela idade em que as pessoas morrem. Ainda para mais porque a maioria não tinha um estilo de vida saudável. O álcool conserva, mas não é assim. Outra teoria é que há mais celebridades agora e que as suas mortes são amplificadas por todos os pategos que demonstram as suas condolências nas redes sociais. Ah, e podemos parar de ter pena de gajos que viveram à grande e morreram de overdose aos 60 anos? Morreram a fazer aquilo que mais gostavam: consumir droga. A parte da música era uma desculpa. E sim, sem a droga nunca teriam sido tão criativos. Por isso, se querem génios, aceitem que eles morrem com droga e álcool. Porque é que acham que antes de sair um disco novo do Jorge Palma é sempre difícil encontrar droga no Bairro do Amor? Ah e parem com o RIP. RIP parece uma cena a rasgar-se. E se disserem RIP in Peace era cortar-vos o acesso à Internet.

Startups
Toda a gente quer ser empreendedor, ter apps e startups. Toda a gente quer ir ao web summit fazer um pitch, falar com investors e mostrar que a sua startup tem uma excelente revenue. Vejo com maus olhos esta moda de todos quererem ter o seu próprio negócio, ainda pior se esse negócio for uma furgoneta que vende hambúrgueres e cachorros a preço inflacionado só porque são gourmet, do bairro, ou artesanais e, claro, em bolo do caco. Não dá para sermos todos chefes, lamento. Alguém tem de trabalhar. Por cada startup de sucesso há 1000 que foram à falência e quem diz que para singrar basta trabalhar, ou bater punho, está a levar ao engano muito boa gente que nem sabe gerir a mesada dos papás quanto mais gerir uma empresa. Despedires-te do call center para criar uma app que consiste num alarme que toca quando tens poucos ovos no frigorífico é uma má jogada de carreira. Já existe uma coisa parecida no mercado que é a de abrir a porta do frigorífico e ver quantos ovos há. Para quem sabe contar até doze é um método muito mais simples. Não compliquem.

Snapchat filters
O meu Instagram é o seguinte: fotos da minha cadela e fotos de raparigas com um filtro com orelhas e focinho de cadela. Já chega. Pergunto: se pintar a cara de preto, vulgo black-face, é racismo, dizem alguns, então o filtro do cão também é? Ainda por cima não há filtros de cão rafeiro. Já percebemos que gostam de usar a coleira e a gargantilha da moda e que o filtro com focinho de cão vos tapa o buço. Sim, ficam muito lindas com uma coroa de flores como se tivessem ido a um qualquer país exótico, mas vai-se a ver e foi numa discoteca da Margem Sul. Prevejo que num futuro próximo, quando todos utilizarmos lentes de contacto com realidade aumentada, que as pessoas vão escolher o filtro que usam na vida real. Pessoal das startups vejam lá isso que isso sim é uma boa app que vai fazer com que milhões de homens esperem menos tempo enquanto as namoradas se arranjam. Basta colocarem o filtro belezura e está feito. Deus nos livre é de uma avaria nas lentes a meio do sexo e vermos que afinal estamos a copular com uma espécie de Madame Min a ressacar de anfetaminas.

Fake news
Se calhar está na altura de parar de partilhar notícias sem fundamento propagadas por sites manhosos, não? Se calhar também está na altura dos media, ditos credíveis, perceberem que fazer click bait e dar títulos sensacionalistas a notícias que depois se lermos tudo não tem nada a ver, também não é bem ser-se jornalista. O Facebook quer filtrar as fake news e, a meu ver, isso é um erro. É tapar o sol com a peneira e fazer de paizinho das pessoas burras. Acho que a estupidez deve estar a céu aberto para que todos possamos ter noção da sua quantidade. Por exemplo, costumo aceitar muita gente que não conheço no meu perfil de Facebook pessoal. Normalmente a triagem é: ou têm amigos em comum ou são gajas boas. Sou um gajo que gosta de fórmulas simples. Ultimamente tenho removido muitas amizades e a fórmula é a seguinte: tem like na página do PNR ou partilha notícias de sites com zero credibilidade.

Calças rasgadas
Bem diz a minha namorada que guarda roupa antiga porque nunca se sabe se volta a ficar na moda. Como qualquer moda que volta, volta em pior. Já vimos isto acontecer com os bigodes. Lembro-me de calças com pequenos rasgões e buracos que a minha avó olhava de lado e ia buscar dois contos para me dar, pois na cabeça dela aquilo era sinal de que os meus pais andavam a passar dificuldades e nem umas calças novas me conseguiam comprar. Sorte a dela que morreu o ano passado e não tem de ver raparigas e rapazes que usam calças cujos rasgões são maiores do que as áreas com tecido. Pavoneiam-se com pernas que fazem lembrar um lombo de porco atado com cordel para ir ao forno, a pensar que estão sexys por mostrar muita pele. E homens, desde quando é que mostrar os joelhos é uma cena? Tenham juízo. 

Selfie no ginásio
Sim, já percebemos que vocês vão muito ao ginásio, mas a cena de tirar fotos do antes e depois é para ver os resultados e não para se gabarem de terem ido para a máquina de step depois de terem ido de elevador para o ginásio. Tirar selfies no ginásio, partilhar quantos quilómetros correram, é gabarolice pura. Ninguém quer saber. Não vos incomodo quando em vez de encomendar uma piza por telefone vou antes à loja a pé porque a promoção é maior, pois não? Muito menos tiro uma selfie todo suado depois de fazer quinhentos metros com dois pães de alho na mão a dizer «No pão, no gain». Quem tira selfies no ginásio e no espelho do balneário e depois diz «Só ando no ginásio por mim e não para agradar ninguém.» merecia fazer abdominais numa cama de pregos enferrujados.

Fazer pessoas sem talento famosas
Sabem porque é que a (ou as) Kardashian é famosa e multimilionária? Porque existe muita gente burra que a segue e faz dela rica. Pessoas cujo talento se resume publicar uma sex-tape onde nem têm talento para fazer sexo, e a publicar selfies todos os dias, serem pagas para continuar a fazer isso é sinal de que o nosso mundo está com uma virose. Reparem, essas pessoas são espertas e invejo-as, mas quem as segue e lhes dá essa visibilidade é gente burra. Por cá temos fenómenos como a Maria Leal que fica famosa porque o povo português tem uma atracção mórbida por acidentes de automóvel. «Ah, ó Guilherme, mas tu também fizeste um texto sobre ela e assim contribuíste para lhe dar fama.», pensam alguns de vós. Sim, é verdade, e então? Essa moda de não deixarem uma pessoa ser incoerente também tem de acabar. Nesta categoria entram também as modelos do Instagram. Raparigas cujo dia se resume a experimentar roupa e filtros em fotos "artísticas" em que o actor principal é o decote ou o pacote. Têm milhares de seguidores e as marcas pagam-lhes para promoverem o seu creme ou peça de roupa, a pensar que vão vender alguma coisa, sem perceberem que 99% dos seus seguidores são homens com as calças nos tornozelos. 

Cadeias de cenas
Um flagelo que parecia ter morrido há uns anos e que utilizava o email como canal preferencial, ressurge graças ao fácil acesso que mães, pais e tias velhas têm ao Facebook. Não, colar disclaimers no mural a dizer que não autorizam a utilização dos vossos dados por parte do Facebook não serve para nada. Serve só para mostrarem ao mundo digital que são uns pategos e ajuda na triagem de alvos para os príncipes nigerianos. Partilhar fotos de crianças com sida e fome não as faz ter menos sida nem menos fome. Colocar um amém é ofensivo e se Deus existir vai-vos enviar para o inferno pela vossa hipocrisia. E já chega de cenas virais ao estilo dos harlem shakes desta vida, o planking, o manequim challenge e aquela palhaçada de tirar fotos em locais altos a segurar o telemóvel só com dois dedos. Deviam era pendurar-se em penhascos só a segurar-se com um dedo e deixar a selecção natural seguir o seu curso. Ide tirar uma selfie na linha de comboio e com auscultadores.

Pitas histéricas
Troquem o trailer do Game of Trones ou Star Wars por uma foto dos One Direction e vão ver que o texto que o acompanha, cheio de excitação e histerismo, faria mais sentido nesse caso. Algo que parece saído da boca de uma adolescente que ainda mal começou a menstruar, mas que afinal é de um homem já adulto que ainda vivem na cave dos pais. «É a minha man cave!», dizem, mas não é. Moram lá porque os pais os escondem tal como antigamente se fazia aos filhos deficientes, para não afugentarem as visitas. Os mesmos que dizem mal das pitas que acampam à porta de um concerto do Justin Bieber são os que removem amizades no Facebook por ver alguém que fez um spoiler, mesmo que seja da 2ª season que já passou há uns anos. São os mesmos que dizem «Não festejo o Carnaval, é uma palermice.» ou «Halloween é uma tradição americana que só trouxeram para cá por questões comerciais e vocês papam tudo.», mas quando chega a estreia do Star Wars vão vestido de Princesa Leia para a fila do cinema ou vão à Comic Con vestidos de lula gigante a pensar que vão ter sorte com uma das raparigas que estão lá só porque lhes pagaram para atrair gajos. Por fim, quero deixar a minha palavra de apreço para quem vai para a fila da Apple, dias ou horas, para comprar o novo iPhone no dia em que ele sai: vocês são o reflexo do mal do mundo. São uma merda de putos mimados que não sabem esperar um dia para ter aquilo que querem. Tem de ser já e agora porque foi a educação de merda que os vossos paizinhos vos deram. Espero que um camião se despiste e vos varra a todos na fila para irem ter com o vosso Steve Jobs mais depressa.


Ufa, já está. Isto é melhor do que ir ao psicólogo. Dizer mal dos outros é, sem dúvida, a minha terapia. Obrigado por me ouvirem. Façam o que vos apetecer, se quiserem entrar em modas parvas é convosco. Cá vou estar para vos achincalhar, porque escrever textos a dizer mal de tudo também é uma moda irritante e eu adoro paradoxos.
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15 de fevereiro de 2017

Ir a uma discoteca depois dos trinta



Ir a uma discoteca depois dos trinta começa a ser uma experiência estranha. Para além de sentir que acabei de entrar numa escola secundária na qual sou o professor, o que mais me faz sentir desajustado são as músicas. Não estou a falar do estilo, mas sim das letras.

A forma alegre com que o Taio Cruz canta I got a hangover, whoa! já não faz sentido na minha idade. Não há razão para entusiasmo quando já sei que a ressaca vai durar dois dias! A ressaca não merece uma música de homenagem na qual ainda diz I got an empty cup pour me some more. Quanto muito enche-me um copo com água que é para ver se isto amaina e amanhã não tenho a cabeça como se estivesse a ser atacada por abelhas com ferrões em brasa.

Quando passa o «Save the world» dos Sweedish House Mafia tudo me faz sentir velho. Mal começa, dizem We never sleep, never get tired. Mentira. Quando não durmo pelo menos oito horas para além de cansado fico rabugento. Depois, no refrão, têm a lata de perguntar Who's gonna save the world tonight? Desvio logo olhar como quando fazia quando as minhas professoras perguntavam quem queria ir ao quadro. Peço imensa desculpa, mas não será possível ajudar a salvar o mundo a esta hora da madrugada. Isso é coisa para demorar e eu gostava de chegar a casa ainda com o sol a fazer oó. Se der para esperar até amanhã de manha, por volta do meio dia, vá, ainda posso dar uma ajudinha, agora, assim, de repente, a esta hora, perdoem-me o egoísmo, mas não vai dar. Who's gonna bring you back to life? perguntam, de seguida. Mais uma vez, finjo que não é comigo. Já não tenho energia para fazer manobras de reanimação seja a quem for. Ninguém lhe mandou ter um ataque cardíaco às duas da manhã. Provavelmente foi de misturar álcool com drogas. Fazer massagem cardíaca cansa os braços e amanhã tenho de aspirar a casa e lavar a loiça. Não me levem a mal, mas peçam antes a outra pessoa.

Inevitavelmente, ouvimos a SIA a cantar It's friday night and I won't be long... Pois, enganaram-me bem. Era para se ir só jantar e beber um copo e são três da manhã e eu aqui. É sempre a mesma coisa. Depois de o Sean Paul dizer palavras aleatórias que foram escritas com colheradas de uma sopa de letras, a SIA continua com Baby I don't need dollar bills. To have fun tonight. Não, que ideia! Só se forem as mulheres que entram à borla e ainda lhes pagam copos, ou quando era puto e eram os papás a pagar e um gajo ficava bêbedo só com duas cervejas. Agora, ponho-me a fazer as contas: ora bem, 20€ o táxi, mais 15€ o jantar, mais 12€ para entrar na discoteca, mais as cervejas e os gins que bebi no bar… na próxima semana como atum com massa para compensar. Ainda com a SIA: tem uma música em que se gaba, à boca cheia, só para me fazer sentir mal:  Uh-oh, running now, I close my eyes / Well, oh, I got stamina. Estamina com 32 anos? Não tenho, já. Correr? Nem durante o dia, quanto mais correr a esta hora. Nem vou até à praça de táxi, chamo o Uber que ele vem cá ter à porta e ainda me leva ao colo até à cama e me dá uma goma.

Quando o Justin Bieber pergunta Is it too late to say I'm sorry now? respondo logo que sim. É tarde para fazer seja o que for que não seja ir para casa beber um chá quentinho e dormir. A esta hora não vale a pena andar a pedir desculpa e a resolver problemas. Mais vale dormir sobre o assunto e amanhã de manhã, de cabeça fria, perceber se realmente queremos pedir desculpa ou se a culpa é da outra pessoa. A esta hora uma pessoa não deve tomar decisões importantes de vida.

Quando o Enrique Iglesias canta Bailamos hasta las diez / Hasta que duelan los pies. O caralhinho, Enrique, sim? Até às dez? Estás parvo, não? São duas e já me doem os pés, não é preciso esperar até às dez. Bem basta o caminho que ainda vou fazer a pé porque não vou encontrar lugar para o carro à porta de casa. Vou ter de andar uns 500 metros, Enrique. Está bom, já chega. Foi giro e se ficar mais tempo estraga. Com todo este cansaço claro que quando oiço um dos milhares de covers e remixes do «Sweet Dreams» só penso no quão bom seria estar na cama a sonhar que estou numa cama a dormir. Acontece o mesmo quando passa a música do Major Lazer onde refere que All we need is somebody to lean on. Verdade, nesta altura já me encosto a qualquer pessoa ou a qualquer canto para dormir. Não fosse isto tudo já suficiente para me deprimir, lá tem de vir a Rihanna com o seu Work, work, work, work lembrar-me que na segunda-feira vou ter de trabalhar. Obrigadinho, Rihanna, estou aqui a tentar aproveitar o meu fim de semana e tu com essas merdas.

Outra música que não me faz sentido naquela situação é a «The Nights» dos Avicii: So live a life you will remember / My father told me when I was just a child. Tenho a certeza que não era isso que o teu pai queria dizer. Tenho a certeza que estar acordado até esta hora a dançar feito pinguim de copo na mão e cigarro na outra não é propriamente uma vida que eu queira recordar, até porque se continuar a beber assim amanhã não me vou lembrar do que fiz e quando chegar a velho nem saberei o próprio nome. Prossegue com um These are the nights that never die. Era o que faltava esta noite nunca morrer. Para mim já morreu. Há vinte minutos que estou a dizer isso ao pessoal, a ver se vamos embora. Agora é ir comer um caldo verde e um pão com chouriço, xixi e cama. O mesmo artista ainda tem a lata de dizer, noutra música, So wake me up when it's all over / When I'm wiser and I'm older. Deixa-me dormir! Não me acordes que se eu quiser acordar faço-o sozinho. Amanhã é Domingo e se vou desligar o despertador não é para me vires acordar, se faz favor, mesmo estando já velho e sábio. Mais velho do que sábio, mas, ainda assim, deixa-me dormir até acordar e me arrepender de ter dormido tanto.

Um artista perito em fazer-me sentir velho é o David Guetta que, armado ao pingarelho, diz Work hard, play hard, work hard, play hard. Vê-se mesmo que nunca trabalhou a sério na vida. Isso de meter pens no computador e carregar no play e andar com os auscultadores a mandar pausa não é bem um trabalho. É por ter trabalhado no duro, durante a semana toda, que estou incapaz de play hard. Play razoavelmente? Sim. Play moderadamente até a uma hora decente? Tudo bem. Agora play hard é para quem andou a molengar a semana toda. O fim de semana com trinta é para descansar! Brincar só se for às empregadas domésticas. O David, mais uma vez com a mania que é jovem, diz noutra música You shoot me down but I won't fall / I am titanium e faz-me logo lembrar que não devia ter bebido aquele shot de absinto. O tempo em que o meu fígado era de titânio já lá vai. Agora é feito de iscas em vinha de alho.

Depois, vem a Icona Pop cantar I crashed my car into the bridge. / I don't care / I love it. Deve ser porque é o paizinho que paga o arranjo. Eu importava-me só de pensar que não tenho seguro contra todos os riscos! Mesmo que tivesse, o prémio iria aumentar uma brutalidade! Está bem que o meu Clio de 2002 está velho, mas daí a não me importar de o mandar para a sucata vai uma distância maior do que os 250 mil km que ele já fez. Esta gente não tem noção do que custa a vida. Desculpa lá Icona, mas se espetas o carro contra uma ponte (que nem sei bem como é que isso é possível) e, para além de não te importares, ainda "amas" fazer isso, então és uma mimada de merda.

I’m sexy and I know it, dizem os LMFAO. Nem por isso. Já tive melhores dias. Já fiz mais desporto. Já tive mais cabelo. Talvez esteja com um charme da idade, mas mais sexy não estou e recuso-me a cantar isso. Não há nada mais triste do que ver um gajo de trinta e tal ou quarenta anos, no meio de gente com metade da idade dele, a afirmar que é sexy e que sabe isso. Só ele é que sabe isso.

Clean Bandit diz no refrão de uma das suas músicas There's no place I'd rather be. Sem ter de pensar muito lembro-me de alguns locais onde preferia estar: na cama, no sofá, numa cadeira de pau com uma manta, no chão com um amontoado de roupa suja a fazer de almofada, etc. Para piorar isto aparecem o Deorro com Chris Brown a dizer-me que This right here is my type of party / 5 more hours, we're just getting started. Primeiro, este já não é o meu tipo de festa, se é que alguma vez foi. E só estamos a começar? Mais cinco horas? Mas está tudo doido?! São duas da manhã, pá. Achas que vou ficar aqui até às sete? Esta merda não fechava às seis? Tem juízo Chris Brown, se calhar é por dormires pouco e beberes demasiado que depois bates em mulheres.

E quando o DJ Snake na sua música «The Half» diz It's a Friday, I'm 'bout to go off? Sair à sexta-feira? Impossível. Sexta-feira é o dia da semana em que me sinto mais velho e cansado. Depois dizem See the hoes (...) e só penso que isso não é uma forma correcta de tratar as mulheres. Aliás, sinto-me velho quando vejo que o meu pensamento a olhar para raparigas de 18 anos seminuas, a dançar como quem está a fazer amor com o ar, passou de «Olha aquela gaja boa toda safadona a dançar como quem quer peso!» para «Mas os pais sabem que ela sai assim vestida à noite?».

Por fim, é na altura que aparece aquele Pedro que é patrocinado por um modelo da Citroen e canta Não, nós vamos ficar por aqui / A nossa história chegou ao fim que uma letra faz sentido. Acato o que ele diz e decido que a noite chegou ao fim. Uma coisa é estar num sítio a dançar ao som de músicas que me fazem sentir velho, outra é dançar ao som de quizomba.
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14 de fevereiro de 2017

Ele tem outra: o que devo fazer?



É dia de São Valentim e esta é a centésima edição do "Doutor G explica como se faz"! Mentira, não faço ideia, mas já foram muitas. Por esta altura, estava à espera de já ter sido reconhecido pela Associação Portuguesa de Sexologia, mas enfim. Um gajo da Buraca não tem cunhas em lado nenhum.


Ora viva, caro Doutor G. Em tempos de outrora, houve uma altura em que até tinha umas amigas só que como sou um rapaz tímido nunca consegui faturar com nenhuma delas. Mas, durante o 10º/11º ano deixei de me relacionar com gajas, porque a minha turma era só pixota e então deixei de ter amigas e de saber falar com elas. Desde essa altura que me tornei um conas, um xoninhas e, às vezes, quando está alguma gaja no grupo de amigos eu retraio-me pra caraças. Há uns tempos ainda andei a falar com uma rapariga que era da minha escola só que não deu em nada! Portanto, doutor, venho aqui pedir ajuda para deixar de ser um conas com as gajas. 
J.M, 17, Terra dos Xoninhas

Doutor G: Caro JM, se o Doutor G conseguisse com que deixasses de ser um xoninhas apenas com meia dúzia de frases, o Doutor G seria milionário porque nunca o faria de borla. Fosse esse o caso e o Doutor G venderia mais do que o Gustavo Santos e todos os livros de auto-ajuda juntos, embora sejam quase todos comprados por mulheres. Com 17 anos eu também era meio xoninhas, e hoje sou uma espécie de David Copperfield da Buraca, sempre a espalhar magia. Por isso, ainda há esperança para ti. Até lá, é tentar. É não ter medo de fazer figuras ridículas e dizer baboseiras, já sabendo que isso vai acontecer e que a velha máxima «O não é garantido» é mesmo verdade. Vai doer-te no ego, sim. Vais para casa chorar no banho, sim, mas depois custa-te menos. Deixo aqui um fluxograma que te pode ajudar:



Olá Dr. G, é normal um homem ter ficado "solteiro" recentemente (há menos de um ano), iniciar e investir numa nova relação, mas ainda manter fotografias com a ex namorada nas redes sociais? E aqueles que não eliminaram o estado "numa relação com xx" ou que ainda são amigos/seguem-se um ao outro?    
Anónima, 31, Leiria

Doutor G: Cara Anónima, não é normal. Ponto. Manter fotos é parvo, manter o estado de namoro, não só é parvo como, provavelmente, ele te mente e ainda está com ela. A não ser que ela tenha morrido e lhe custe deixá-la ir para o céu do Facebook. Ser amigo do ex é como guardar calças à boca de sino que já não se usam a pensar que um dia podem voltar a ficar na moda. É parvo.


Boas Doutor G! Antes de mais sou um grande fã e já comprei o seu último livro que está fantástico!! Acabei com a minha namorada e passado um tempo comecei a envolver-me com outra rapariga. Esta nova rapariga sabe que fiquei amigo da minha ex, embora diga que confia em mim, noto algum ciúme visto que a minha ex ainda tenta que voltemos a namorar. O maior problema vem agora é que ambas me querem e eu gosto ainda da minha ex só que esta rapariga é que me tem feito bem. Às vezes penso ter uma luta pelada com a minha ex só que não o faço por respeito a ela (que não sabe que ando envolvido com outra pessoa) e à outra rapariga. Apesar de não ter nada sério com nenhuma delas será que deva ter uma festa de xixa com as duas? Parar de ser parvo e deixar-me estar só com uma? Ou dizer à minha ex que tenho outra pessoa?  
 Anónimo, 19, Marte

Doutor G: Caro Anónimo, obrigado por teres comprado o meu livro que, já agora, aproveito para relembrar que está à venda nas FNACs, Bertrands e outras livrarias e aqui neste link com desconto e portes grátis. Portanto, a rapariga com quem andas atualmente confia em ti, embora tenha algum ciúme, dizes, para depois afirmares que ainda gostas da tua ex. Realmente, as mulheres têm ciúmes por tudo e por nada! Ora bem, vou tentar responder à tua dúvida em forma de silogismos, só para a minhas professoras de filosofia do secundário se sentirem melhor com elas próprias a ver que a sua vida sempre serviu para alguma coisa:
  • A: Gostar pressupõe honestidade.
  • B: Anónimo não é honesto com a ex-namorada.
  • C: Logo, Anónimo não gosta assim tanto da ex.
  • D: Todo o homem que gosta da ex está indisponível para amar outra pessoa.
  • E: Anónimo gosta da ex.
  • F: Logo, Anónimo não gosta assim tanto da rapariga actual.
Logo, pelas inferências C e F pode inferir-se que não gostas de nenhuma e devias estar sozinho. Não querendo estar sozinho, devias ser honesto com ambas e ver se consegues ter festa a três ou se tem de ser a cinco contra um.


Olá Doutor G, estou a viver um drama! Descobri que o rapaz que me anda a engatar namora. Segundo o facebook namora desde 2013. Em Setembro de 2016, veio-me buscar pra dançar (de dia) à frente de TODAS as faculdades com toda a gente a ver. Passadas duas semanas demos uns beijinhos na noite à frente de toda a gente. Queria-me levar pra casa, mas não fui. Desde aí, sempre que me vê manda mensagem a perguntar se era eu. Nada mais. Desde Dezembro que anda a dar like nas minhas fotos de antigamente. Ontem meteu conversa comigo pra combinarmos um café, etc.etc. Que devo fazer?
Mafalda, 21, Lisboa

Doutor G: Cara Mafalda, ai o drama, o horror, a tragédia! Sabes porque é que não é drama? Porque tu podes dizer-lhe «Ai namoras e andas a fazer-te a mim, meu cabrão?» e manda-lo dar uma volta. E pronto, acabou-se o drama. Fácil. As mulheres é que complicam e sabes porquê? Porque te deu um gostinho especial saber que ele tem outra. Fez subir a tua cotação no mercado e quanto mais gira ela for melhor tu te sentes. O que deves fazer? Primeiro, se queres algo mais do que funaná pelado, deves confrontá-lo com isso e ver o que ele diz. Vou já arriscar que ele vai dizer uma desta seguintes frases:
  1. «Sim, mas é como se já não namorássemos. Já estamos afastados e é uma questão de tempo.»
  2. «Estamos a dar um tempo para ver o que realmente queremos.»
  3. «Descobri que ela me traiu.»
  4. «Ela não me dá atenção e sinto-me mal e em baixo e preciso de alguém que me dê valor.»
  5. «Ela está a passar uma má fase e descarrega em mim. Eu tento ajudá-la, mas ela cada vez me afasta mais. Eu também preciso de atenção e de me sentir desejado.»
Curiosamente, são também as frases utilizadas por mulheres que pulam a cerca. Bem dizem as feministas que somos todos iguais. Por fim, se só queres dar umas voltas, deixa-te estar calada. O problema é dele e se mencionares isso ele vai afastar-se. Não por remorsos, mas porque vai ter medo que tu te chibes à namorada. O que leva a maioria dos homens a não trair é o mesmo que os leva a não assaltar um banco: não são os princípios morais, mas sim o medo de ser apanhado.


Olá Doutor G, somos um casal extremamente feliz e satisfeito a todos os níveis. Somos extremamente cúmplices e bastante preocupados com o prazer um do outro. Tanto que, eu como namorado atrevido lhe comprei um vibrador para apimentar a relação, porém hoje ela só quer usar o vibrador, e quase não praticamos a luta Greco romano um com outro, apenas treinos com a ajuda um do outro... qual será a justificação? Será a elevada potência do vibrador ou o baixo rendimento do meu "amigo"?
Anónimo, 19, Porto

Doutor G: Caro Anónimo, há estudos que dizem que os pipis se podem viciar em vibradores. Não pelo seu tamanho, mas pela vibração rápida que nenhuma língua ou dedo de idoso com Parkinson conseguem imitar. No entanto, nenhuma mulher troca um pénis suculento e que trabalha com mestria por um objecto inanimado e a pilhas. Por isso, parece-me que estarás a fazer mal o trabalho. No entanto, que tal utilizarem o vibrador enquanto estão à bulha pelados, para aumentar o prazer da donzela enquanto tu vais aprendendo e melhorando com o tempo? Faz o seguinte: estimula-a com o vibrador até ela ficar naquela ponto em que todos os problemas da vida desaparecem. Nisto, tiras o vibrador e metes o teu pau-de-sebo rapidamente para que ela atinja o orgasmo e assim começar a associar o clímax ao teu bracinho-sem-mão. Tens é de ter cuidado com a transição, porque quando uma mulher é interrompida quando está quase a vir-se torna-se numa espécie de bicho possuído por Satanás.


Oi Doutor, namorei com um jovem a mais ou menos cinco anos atrás, onde eu tinha cerca de 15 anos de idade e estudávamos na mesma escola, mas acabamos por terminar. Desde então, ele diz que eu sou o amor da vida dele, que nunca me esqueceu, mas já segui em frente e estou num relacionamento a mais ou menos quatro anos. Penso que o meu ex está obcecado porque ele não sabia onde morava e andou pelo meu bairro até conseguir saber onde moro e acabou mesmo por descobrir. Desde então vem na minha casa sem ser convidado! Estou desesperada porque não quero estragar meu novo relacionamento, estou muito feliz mas ele não entende continua a insistir. Até cheguei a descobrir que para além de mim tem mais duas no qual ele jura que não mas pouco me importa só quero que ele pare de achar que me ama porque ele não me ama. Já ameacei levá-lo a polícia. Estou desesperada porque não sei mesmo o que fazer. 
Anónima, 20, Lisboa

Doutor G: Cara Anónima, percebo o teu desconforto. Não há nada pior do que descobrirmos que o nosso stalker tem outras pessoas. Foi o mesmo que as vítimas do violador de Telheiras sentiram ao saber que eram apenas uma em muitas e que não foi por serem especiais. Não o leves à polícia que isso dá trabalho, chama antes a polícia para que venha até ele. Andar a rondar a casa e aparecer sem ser convidado, é motivo para uma queixa. Ou isso ou o teu novo namorado que o vá receber à porta com um taco de basebol, um pepino e um dildo só para o confundir. É isto, não te posso ajudar muito mais. Chama a polícia ou contrata uns manfios do bairro para lhe acertarem o passo. Conheço uns que fazem barato e posso descer a minha comissão só por ser para ti.


Obrigado a todos e, se ainda não compraram a prenda do dia dos namorados, aqui fica uma excelente sugestão dada por uma pessoa que fodeu muita gente e outra que foi uma estrela da indústria pornográfica:
Comprar neste link ou em qualquer FNAC. Até para a semana e continuem a enviar as vossas dúvidas para porfalarnoutracoisa@gmail.com. 


Partilhem e façam amor à bruta porque de guerras o mundo já está cheio.

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13 de fevereiro de 2017

Tipos de pessoa no dia dos namorados



É dia de S. Valentim, dia dos namorados, de juras de amor para uns, de gritos de independência para outros. Para além daqueles casais que vão jantar fora e está cada um no seu smartphone, sem dizerem uma palavra, há vários tipos de pessoa que encaram este dia de forma diferente.

O casal que começou a namorar há pouco tempo
O mundo é perfeito para estas pessoas. São capazes de jurar que a égua que viram a pastar na estrada nacional era um unicórnio que defecava arco-íris e espirrava purpurinas. Anseiam pelo seu primeiro dia de S. Valentim com a mesma excitação que uma criança de seis anos, filha de pais ricos, espera pela chegada do Pai Natal. Jantar romântico marcado com três meses de antecedência num restaurante de comida chique que é como quem diz de pequenas porções a preço inflaccionado. Vinho sem ser da casa, desta vez. Prendas caras: para ela jóias, flores e um ursinho de peluche; pare ele um relógio, uns ténis e uma camisa porque ela ainda tem esperança de mudar o estilo dele para que fique ao seu gosto. Cartões com corações e bonequinhos foram comprados, escritos e assinados com juras de amor eterno. No fundo, tudo o que ela quer é um amor de contos de fada para fazer inveja às amigas e tudo o que ele quer é que ela finalmente faça anal.

A encalhada
A que diz cinquenta vezes, neste dia e só durante a parte da manhã, que não liga ao dia dos namorados. Diz que está bem sozinha e que é independente. Diz que prefere gatos e que os cães são mais fiéis do que homens. Diz isto tudo para mascarar o facto de ver que está nos trinta e continua sem ninguém que lhe pegue. Sente os ovários a secar e o útero a encarquilhar. Cria um grupo no WhatsApp com o nome "As poderosas" para marcar um jantar com todas as amigas também encalhadas. É o mais próximo que estarão de celebrar a própria despedida de solteira. Enquanto jantam vão dizendo mal de todos os casais nas mesas à volta. Riem-se das demonstrações de afecto enquanto brindam para esquecer que não as têm. Quando ainda está sóbria, vai rejeitando os poucos homens que vêm meter conversa com ela na noite «Hoje é noite com as amigas.» diz, mas, mal começa a ficar inebriada, começa a dar tudo na pista de dança para atrair qualquer macho que, tal como qualquer leão, consegue detectar desespero a 100 km com o seu poderoso olfacto. A noite acaba numa de duas maneiras para estes espécimes: a curtir sem critério com um qualquer gajo na discoteca com mangas à cava, ou a comer um caldo verde e um pão com chouriço enquanto chora e vai fazendo swipes no Tinder a tudo o que aparece.

O encalhado
Ao contrário das mulheres, o homem encalhado vê o dia dos namorados como uma oportunidade. A sociedade foi mais branda com ele e nunca o pressionou a arranjar uma parceira o quanto antes. Sabe que ter trinta e ser solteiro, para um homem, pode ser um elogio aos olhos dos outros. Está a entrar nos anos de ouro dos solteiros em que o seu leque de opções é enorme e tanto há raparigas de 18 anos embriagadas e carentes que lhe podem querer saltar para cima, como há quarentonas divorciadas em busca de chicha nova. Sai com os outros amigos encalhados em busca de presas fáceis. Sempre que vêem um casal fazem piadas sobre o dinheiro que pouparam em prendas neste dia, «Mais fica para beber e ir às putas!», gritam quais mosqueteiros. Nesse grupo de encalhados, há os que são vividos e que conseguem parceiras com facilidade e que, realmente, estão contentes por serem solteiros. No entanto, há também aquele amigo que nunca namorou e ainda é virgem. Esse tenta entrar na onda e celebrar a independência, mas tudo o que ele queria era uma mulher que lhe fizesse um felácio e, acima de tudo, lhe fizesse o jantar como a mãe lhe faz. Os amigos prometeram que ia ser uma saída de homens, mas acabam todos de boca alapada a raparigas com bafo de álcool, enquanto ele joga Angry Birds no canto do bar.

O que tem duas namoradas
Este é aquele dia em que os gajos que têm duas namoradas, que não sabem da existência uma da outra, menos anseiam durante o ano inteiro. Preferem celebrar o funeral da própria mãe do que o Dia dos Namorados. É nesta altura que eles percebem que o que fazem não é certo e que deviam começar a ser honestos: ambas vão querer ir jantar e comemorar o seu amor e ele vai ter de arranjar uma desculpa. Perde mais tempo a planear este dia do que um interrail de dois meses. Tem de pensar em todas as variáveis. Fica doente? Muito arriscado já que elas podem decidir ir a casa dele fazer-lhe uma surpresa para cuidar dele. Vai em viagem de trabalho? E se elas querem ir despedir-se dele ao aeroporto? Para além de que vai ter de ir ao Google buscar fotografias amadoras de Londres para ir alimentando o Instagram. Um amigo terminou com a namorada e precisa de apoio? Demasiado clássica. Morreu-lhe a mãe? E se a mãe morrer mesmo... pensa. Todas as hipóteses lhe passam pela cabeça enquanto tenta prever todos os acontecimentos. Fica fechado em casa e tem mini ataques de pânico de cada vez que alguém toca à campainha. Mesmo com tudo isto, o que o faz pensar que é uma estupidez ter duas namoradas é o facto de ter de comprar duas prendas.

O forreta
O forreta é aquele tipo de pessoa que arranja um pretexto para terminar o namoro uma semana antes do dia dos namorados, só para não ter de gastar dinheiro em prendas. Este tipo é normalmente do sexo masculino e é no dia dos namorados que mete em marcha a estratégia de reaproximação. Envia uma mensagem por volta das 22h, quando já não há tempo para gastar dinheiro em jantar, a dizer «Sinto a tua falta.». A rapariga ou está em casa a chorar ou num jantar de amigas encalhadas de onde volta para ele a correr, deixando-as penduradas porque afinal aquela treta de estar bem solteira não era assim tão verdade.

O na corda bamba
Este é um tipo de casal que já anda para acabar há algum tempo. Discutem por tudo e por nada e só o respirar da outra pessoa os irrita. Fantasiam formas de cometer homicídio sem serem descobertos e pesquisam na Internet a melhor forma de ocultar cadáveres. No entanto, vão adiando o fim. Primeiro, porque parece mal acabar em vésperas de dia de São Valentim, segundo porque pode sempre calhar-lhes uma prenda jeitosa. Este casal usa o S. Valentim como aqueles casais à beira do divórcio usam a ovulação para tentar remendar o casamento. Não funciona. Vão acabar por discutir no restaurante porque ele sorriu para a empregada, ou porque ela recebeu uma mensagem que a fez rir e não quer dizer de quem foi porque ele tem de confiar nela, mas vai-se a ver e foi o Zé que se anda a fazer a ela lá no trabalho.

Os pindéricos
Este tipo de pessoa é aquele que aproveita a desculpa do dia dos namorados para soltar tudo o que de mais foleiro tem dentro de si. Este tipo de pessoa é facilmente identificável pelas publicações no Facebook, seja com textos lamechas, com frases feitas, ou com, valha-nos Deus, montagens com corações e letras de todas as cores. Normalmente, num casal pindérico, há um elemento que é o pindérico e o outro que é o muito pindérico. O primeiro é o que manda na relação, o que torna o segundo ainda mais pindérico em busca da aprovação e, muitas vezes, de se desculpar por ter feito alguma coisa de errado. Pensem que por detrás de cada post lamechas com declarações de amor, há um gajo, ou uma gaja, que fez merda da grossa e tem de ser rebaixar para ser perdoado/a. Festejam o dia dos namorados com um pequeno almoço de panquecas recortadas em coração, com molho de morango porque é cor-de-rosa, embora nenhum deles goste de morango. É só para a foto.

O casal que está junto há 10 anos
- Então amanhã vamos jantar?
- Porquê?
- É dia dos namorados.
- Deve estar uma confusão... vamos antes no sábado.
- Ok.
Ela fica a ver a novela e ele a escrever um texto no seu blogue.
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