25 de março de 2020

Vai ficar tudo bem, mas só para alguns



Nos últimos dias, já alguma vez acordaram pela manhã, limparam a baba do canto da boca, tentaram abrir os olhos que se habituavam à luz e pensaram, passados alguns segundos: "Por momentos pensei que tivesse sido tudo um sonho"? Depois, lembraram-se que que tudo o que está a acontecer é real e que para a maioria de nós é a primeira vez que estamos a passar por algo que parece saído de um filme. Por um lado, isso faz de nós privilegiados e talvez seja por isso que nos vai custar ultrapassar isto.

Talvez seja a primeira vez que a minha geração está a fazer sacrifícios pelos outros. Talvez isso seja positivo se quisermos acreditar mesmo que é o altruísmo que está na base desta aparente abnegação em prol dos mais vulneráveis. Poderá ser alguma, em parte, mas não nos iludamos nem nos façamos heróis quando a principal razão de estarmos em casa é porque temos medo que nos toque a nós ou aos nossos. Não vamos estar aqui a fingir que agora é que nos preocupamos com a vizinha de 80 anos, da qual nem sabemos o nome porque apenas dizíamos bom dia de passagem enquanto acelerávamos o passo para não termos de fazer conversa chata de elevador.

Os únicos heróis aqui são mesmo os médicos, enfermeiros e auxiliares. Dizem que nem todos os heróis usam capa, mas neste caso todos usam máscara, pelo menos enquanto as houver.

São esses os heróis mascarados, os que estão ali na linha da frente a dar o corpo ao vírus e a mente à exaustão, que são aplaudidos agora, mas que daqui a um ou dois anos serão apupados quando decidirem fazer greve para lutar por melhores condições. Se a COVID tem o sintoma da tosse e febre, a HUMANIDADE tem o sintoma da falta de memória e ingratidão e, infelizmente, nunca é assintomática. Essa amnésia mais depressa esquecerá quem está nas caixas de supermercado e todos os outros que continuam a trabalhar para que não falta nada aos outros.

Li que este sentimento estranho que temos todos nesta altura é uma forma de luto antecipado. Que a razão pela qual está a ser complicado para muitos estar em casa sem fazer nada, algo que muitos desejaram no passado, é porque há este sentimento no ar, uma tensão cada vez que vamos à rua ou o telefone toca. Há medo e há luto antecipado porque dificilmente chegaremos ao final do ano sem termos faltado a um funeral porque não pode haver muitas pessoas juntas.

É uma tensão que vai saindo por onde a deixamos. Já me emocionei com os vídeos de cantorias à janela em Itália e Espanha; já me emocionei com as palmas de agradecimento aos profissionais de saúde; já me emocionei com fotografias do desespero dos médicos e enfermeiros; já me escorreram lágrimas, mas consegui contê-las e nem sei bem porquê e para quê. Dei-lhes ordem de isolamento, apenas com saídas para o indispensável. Acho que deve ser porque não quero quebrar já, porque sei que o pior ainda está para vir, quero guardar a tristeza para quando fizer mais sentido, para não ficar já imune ao que aí vem.

Não quero parecer derrotista nem pessimista, prefiro não mentir a mim mesmo. O vírus não vai embora por muito que fiquemos em casa e nenhum país aguenta a sua população toda em quarentena durante mais de um ano até haver vacina. Tudo indica que o vírus se torne parte do nosso dia-à-dia o que significa que depois deste isolamento e distanciamento, os com menor risco vão ter de começar a fazer a sua vida normal e arriscar que não lhes calhe a eles a pequena probabilidade de contraírem sintomas graves. Aos poucos, vamos começar a sair de casa, os bares e discotecas vão reabrir, e vamos fazendo a vida normal enquanto os mais vulneráveis serão aconselhados ou obrigados a ficar em casa para não colapsar o SNS e não morrerem todos de uma vez. O vírus não vai embora, não vai desaparecer nem se vai cansar de nos infectar porque ele não tem vontade própria, apenas é. Ficar em casa é a única coisa que podemos fazer agora e que poderá salvar vidas, mas nunca todas.

Talvez tenha uma visão fria porque não sou de romantismos e acho que isto não é uma lição para sermos menos consumistas e aproveitarmos melhor a vida e o contacto humano. Não, isto não é uma lição para tratarmos melhor o planeta ou sermos veganos ou mudarmos outro hábito qualquer.

Isto não é uma lição porque o vírus não nos quer ensinar nada, só quer fazer aquilo que os vírus fazem, sem pensar nas consequências, algo que nós deveríamos compreender muito bem, já dizia o Agent Smith.

Isto não é uma guerra, porque na guerra o inimigo tem um objectivo. A COVID não tem qualquer objectivo. Na guerra mandam-se os mais novos para morrer, aqui parece ser ao contrário, embora andem muitos desse na rua a pensar que isto é só uma gripe, como se uma gripe não pudesse matar 50 milhões em dois anos. Não é uma guerra porque ainda não vi ninguém a meter-se em jangadas e botes de borracha, arriscando a vida a tentar atravessar o mar para ir para outro país onde as suas hipóteses de sobrevivência sejam mais altas. Chamar a isto guerra será um exagero, mas também poderá ser um eufemismo, só vamos saber depois de fazermos as contas porque a tal gripe espanhola matou mais que a 1ª guerra mundial.

Sim, há pais e mães a passear com crianças no parque quando não o faziam há anos; há poluição humana que parece recuar; há coisas positivas nesta pandemia? Claro que há, tal como quando nos morre um amigo há o lado positivo de termos menos um aniversário para gastar dinheiro. Há sempre coisas positivas em qualquer tragédia, o problema é que infinito-1 dá infinito, segundo me lembro das aulas de análise matemática. À minha formação em engenharia, junta-se a minha hipocondria, o que faz de mim alguém que tem a mania irracional das doenças, mas que se tenta tranquilizar na lógica dos números. O problema é que se por um lado eu fico tranquilo quando vejo que alguém da minha idade e sem nenhuma doença de risco terá pouquíssima probabilidade de morrer com este vírus, por outro começo a pensar que posso ter alguma doença de risco que nunca me foi detectada. Ontem fiquei um bocado cansado a correr, será que tenho insuficiência cardíaca? Ando com o nariz entupido há muitos meses? Terei rinite alérgica? E a dor de cabeça que me dá de vez em quando? Um tumor? É nesse limbo entre a sanidade das estatísticas e o pânico silencioso da hipocondria que tenho vivido, bastante tranquilo, até. É como o meu medo de andar de avião, tem o seu pico até ao avião ligar o motor. Nessa altura, a minha mente descansa porque não há nada que eu possa fazer, ele está no ar e o que tiver de ser será, não no sentido metafísico, claro. Com este vírus já estou na fase de levantar voo, já sei que ele veio para ficar e que o irei contrair, muito provavelmente. Por mim, até seria agora, quando o SNS ainda tem capacidade e para ficar já imune e descontrair. Só não ando aí a lamber interruptores em Santa Maria ou botões de elevadores na Loja do Cidadão porque não quero ser um homicida por ricochete. Se a minha namorada apanha, vai para o lar de idosos onde trabalha e faz um full house e morrem os velhos todos. Ela ganha à comissão por cada velho e nesta altura será muito complicado fazer a reposição de stock. Sim, o príncipe Carlos está infectado e a Camila não, mas aquilo é gente que faz amor sem tocar, manda um empregado fazer por eles e eu não tenho dinheiro para isso.

Quantos de nós não vivem já em isolamento social e quase que ligados a um ventilador metafórico que nos dá apenas o ar necessário para sobreviver? Quantos têm a corda ao pescoço e há anos que não respiram fundo? De repente, idosos isolados em casa já não parece um problema assim tão grande, mas sim um conselho da DGS. Nas zonas mais pobres a vida continua mais igual. As senhoras que vivem na Cova da Moura não se podem dar ao luxo de não ir trabalhar e infelizmente, muitas das pessoas que dispensam as empregadas domésticas nesta altura, não lhes continuam a pagar o salário, mesmo que o seu não tenha sofrido cortes.

Na Cova da Moura tudo deve estar na mesma, com a diferença de que cada um fuma a sua própria ganza, já ninguém gira, e em vez de facas usam lenços com ranho.

Gostava de achar que isto vai mudar e que vamos finalmente exigir responsabilidades aos nossos governantes. Gostava de achar que alguns líderes mundiais vão ser julgados por crimes contra a humanidade por terem acordado tarde e ainda hoje estarem a desvalorizar a pandemia, sem qualquer preocupação com as pessoas pelas quais juraram proteger. Isto é como o terramoto que nos espera mais cedo ou mais tarde em Portugal. Será sempre mais caro reconstruir o país de um sismo devastador estilo 1755 do que tentar prevenir, proteger e melhorar as infraestruturas para que os estragos sejam menores e as vidas perdidas também. Todos os políticos sabem disso, mas empurram com a barriga para que alguém fique com a batata quente mais tarde. Com as pandemias é igual, isto estava mais que anunciado e previsto, houve várias desde a espanhola, esquivamo-nos de outras sem saber muito bem como. O que foi feito desde o surto de gripe suína do H1N1? Quase nada. Investem-se milhares de milhões em bancos e não temos uma reserva de máscaras e luvas e ventiladores para nos defendermos de uma pandemia que sabíamos que viria mais cedo ou mais tarde? Temos de andar em contrarrelógio a comprar a preço inflacionado? É quase criminoso. Por muito que achemos que o governo até agiu a tempo, a verdade é que agir a tempo teria sido agir antes de haver pandemia, há muitos anos e isso ninguém teve coragem de fazer. A culpa é nossa que os elegemos, queremos resultados imediatos, queremos o campeonato já este ano, não estamos dispostos a planear a dez anos, se perdermos no próximo jogo é para despedir o treinador já.

Vamos sair mais unidos disto tudo? Não acredito, o meu cinismo, subproduto do meu idealismo frustrado, não compra essa premissa. Talvez se o vírus fosse de outro planeta e tivesse uma vontade e um propósito assumido de nos aniquilar, talvez aí nos uníssemos na mesma luta. 

Vamos virar-nos, pouco a pouco, uns contra os outros. Já nos estamos a virar contra o Rodrigo Guedes de Carvalho que nem há uma semana era elogiado de todos os lados.

Talvez sirva para percebermos que o que interessa é mesmo ter saúde. Talvez sirva para ajustarmos as nossas prioridades e pensarmos onde andamos a investir o dinheiro. Encomendas entregues por drones? Carros que conduzem sozinhos? Robôs que passeiam por Marte? Sondas que vão até ao espaço profundo e que expandem o conhecimento humano? De que serve tanta tecnologia e progresso se depois estamos quase impotentes a um bicho que nem conseguimos ver a olho nu? Tantas invenções para agora nos dizerem "Ora bem, é ficar em casa e lavar as mãos com água e sabão…" É isto que temos para oferecer enquanto humanidade. Temos o mundo nas nossas mãos, à distância de meia dúzia de touches, mas parece que é nas nossas mãos que temos o vírus e que agora convém o mínimo de touches em todas as superfícies. Os smartphones fazem tudo, menos desinfectarem-se sozinhos, talvez tenhamos isso só no próximo iPhone.

Não vai ficar tudo bem, lamento. Para alguns, esperemos que poucos, vai ficar tudo mal porque vão perder entes queridos. Para outros, muitos, ficará a incerteza do que a crise trará, uma dificuldade em respirar não do vírus, mas do nó na garganta do futuro. Muitos vão ficar no desemprego, alguns já estão. Talvez não seja uma crise económica tão profunda e duradoura como a última porque muitos dos países vão estar no mesmo barco e talvez haja mais ajudas e apoios, mas a verdade é que muitos vão perder, de uma só vez, a fonte de rendimento. Haverá sempre os negócios que surgem das crises e as pessoas que se reinventam, mas por cada história de sucesso há 100 de miséria que os bate punhos da vida escondem com a peneira. Os suicídios vão disparar, se não forem alimentados pela crise económica sê-lo-ão pela doença mental que resulta do confinamento e do distanciamento social, do medo e da paranóia. Sinto-me um privilegiado nesse aspecto, apesar de ir perder muito dinheiro com cancelamento de espectáculos, posso continuar a fazer muito do meu trabalho em casa e tenho dinheiro de parte para sobreviver, vantagens de ter um Renault Clio de 2002 em vez de um Porsche. Se tudo correr mal, posso sempre voltar para a informática cujo trabalho dá bem para fazer remotamente em casa, embora entre voltar a programar e ficar no Curry Cabral num ventilador, não sei o que será melhor.

Talvez seja positivo para darmos algum valor às coisas que dávamos como garantidas. Vejo muita gente que dizia que queria morrer e que a vida era uma merda, a lavar as mãos várias vezes ao dia com miúfa de falecer. Talvez isto nos acorde da dormência niilista em que muitos vamos vivendo sem dar conta. Não sei. Está tudo muito esperançado que isto nos mude e transforme a humanidade. Muitos estão com medo do que isso trará e dos cataclismos sempre associados a mudanças forçadas e repentinas. Eu estou no outro espectro: estou com medo que não mude nada e isto seja apenas uma passagem pela casa de partida para mais uma voltinha.

Peço desculpa pelas passagens lamechas que possam fazer lembrar o Pedro Chagas Freitas e o Gustavo Santos ou o Rodrigo Guedes de Carvalho. Prometo continuar a fazer-vos rir, mesmo que seja só aqui, sem receber dinheiro em troca. Depois ajustamos contas quando eu tiver os próximos espectáculos, seja lá isso quando isso for, quando tudo voltar mais ou menos ao normal, as salas de teatro voltarem a funcionar, e vocês tiverem dinheiro para comprar bilhetes. Se tudo correr bem, este será o único texto lamechas que vou fazer sobre este tema. De resto vou continuar a tentar entreter-vos, embora seja de uma arrogância tremenda achar que nesta fase os pequenos risos que vos possa causar conseguirão amenizar tudo isto. Vou fazê-lo também por mim, porque tenho de continuar a fazer a minha vida normal e porque os vossos risos sabem-me tão bem a mim como a vocês. Obrigado por estarem desse lado. Fiquem em casa e pensem que se tudo correr mal, foi melhor do que a maioria das vidas que já viveram desde o início da humanidade. Ficou um ambiente agora também demasiado tétrico, não é preciso, mas é só para puxar para baixo para ficarmos todos deprimidos e depois ser sempre a subir. Se alguém ficar demasiado abatido e se decidir suicidar depois deste texto, não tenho nada a ver com isso, mas sempre é menos uma pessoa para ser infectada e espalhar o vírus. Há sempre um lado positivo. Cuidem-se.
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25 de fevereiro de 2020

Preliminares - "Documentário" de stand-up comedy



Em 2018, depois de terminar a tour do meu primeiro espectáculo a solo (que podem ver no YouTube), decidi fazer uma tour em bares com vista a preparar e criar o meu segundo solo, Só de Passagem. Essa pequena tour por bares teve o nome de Preliminares e todo o processo foi filmado com foco nos bastidores e palermices que se iam dizendo.

Já lancei 8 episódios, nas próximas semanas sairão os três últimos. Podem ver os dois últimos aqui em baixo e todos os outros neste link.

Episódio 8, Guarda e Covilhã

Episódio 7, Bragança.

Obrigado a todos os que participaram, a todos os parceiros e, especialmente, ao público. Já agora, aproveito para anunciar que estou a preparar uma nova tour de Preliminares lá para Maio. Podem deixar sugestões de cidades, vilas ou aldeias para passar por lá.
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21 de fevereiro de 2020

João Moura gosta muito de animais



João Moura, cavaleiro tauromáquico, é suspeito de maus tratos animais. Sim, é difícil ler essa frase sem rir, mas ao contrário do que se possa pensar, não foi porque a polícia comprou bilhete para um dos seus espectáculos e percebeu "Espera lá? Isto afinal é que é tourada? Se calhar é maus tratos…". Não, foi porque tinha 18 galgos na sua herdade que estavam a morrer à fome. Há sites e páginas de apoio à tourada que dizem que o senhor João Moura está a ser alvo de uma campanha de fake news. Sim, foi um plano concertado por várias associações de defesa animal  e pela comunicação social que pegaram em cães magricelas e os atiraram de paraquedas para a herdade do senhor João Moura. Os cães foram resgatados e um já morreu, deve ter sido desgosto de ter sido retirado ao seu dono tão querido.

Em entrevista ao blogue tauromáquico Farpas, que aproveito para dizer, na qualidade de informático, que tem um layout e design horrível de fazer lembrar os primórdios da Internet, mas não sejamos muito duros com eles que já saberem mexer num computador já é bom para quem tem aquela condição, o senhor João Moura disse o seguinte:

"A tauromaquia não está a viver um momento fácil (…) e a verdade é que a imprensa tem os holofotes virados contra nós, daí o empolamento que desde ontem estão a dar a este caso."

Verdade até certo ponto, se fosse o Zé da Esquina a ter animais a morrer à fome não seria tão noticiado, da mesma forma que é mais noticiado um padre pedófilo do que um pedófilo não padre. É que ninguém estava à espera que alguém como o senhor João Moura, que diz adorar animais, que vive da sua relação com eles, fosse capaz de maltratar um touro, quanto mais cães. O senhor é conhecido, normal que seja notícia, mas acreditem que se fosse a Rita Pereira a ter os 18 cães em condições desumanas, com unhas de gel ou assim, seria ainda mais noticiado. Ele continua:

"É curioso que tenham aberto alguns telejornais com a notícia de que eu tinha sido detido... Se tivesse ganho um importante troféu em Espanha, como ganhei tantos, ninguém diria nada."

Se fosse um troféu de cinema, de desporto ou assim, seria noticiado certamente, mas a maioria da sociedade já chegou à conclusão que espetar ferros em animais vivos para divertimento humano não é um feito importante e, como tal, os troféus que se ganham nessa área são equivalentes dos de futebol feminino: ninguém quer saber e a falar-se neles é só para parecer bem. O cavaleiro das ceroulas continua:

"Mas estou sereno e tranquilo e tenho a consciência muitíssimo tranquila. Quem me conhece sabe o quanto gosto de animais, de maus tratos jamais me poderão acusar."

Vamos por partes: tem a consciência tranquila? Claro que sim, disso não tenho dúvidas. Para estar intranquila é preciso achar que se fez algo de errado e o grande problema aqui é que o senhor João Moura não deve achar que matar cães à fome é fazer algo de errado. Um serial killer também tem a consciência tranquila. Quanto a gostar muito de animais e nunca o poderem acusar de maus tratos, só mesmo quem não souber a profissão dele, mas até posso ignorar a tourada, porque ele nasceu no meio e acha que o touro é um valente que até gosta de morrer na arena, mas acabou de lhe morrer um cão por negligência e ele está na boa? A teoria cai por terra, mas sim, ele gosta tanto de animais que numa entrevista à SIC há uns anos mostrou alguns dos seus troféus e, além das cabeças dos touros que matou penduradas na parede (há quem não goste de espelhos e então prefira ter animais cornudos pendurados, são gostos) tinha a cabeça de um cavalo seu e uma mesa cujas pernas eram as patas desse mesmo cavalo. No mínimo, estranho:

Quando tu gostas muito de um animal que tiveste, o que fazes quando ele morre? Cortas-lhe a cabeça, empalhas e metes na parede, óbvio. Mais, mandas esquartejar o bicho, cortar a cauda para um porta-chaves e as patas para fazer pernas de uma mesa. Aposto que deve ter a picha embalsamada a fazer de candeeiro de pé alto. Posso ser eu que não estou nesse mundo e não percebo, mas isto tem um leve aroma a psicopatia. Nem quero imaginar o que fará caso lhe morra a mulher. Um ancinho com as unhas, uma pandeireta com os dentes e as mamas e ainda aproveita para fazer um espanta-espíritos com os lábios da cona.

Por falar na família Moura, o seu filho, João Moura Jr (dar o próprio nome ao filho é mais um sinal de psicopatia narcisista) já tinha estado envolvido numa polémica em 2013 quando foram divulgadas umas fotografias que tinha no seu Facebook onde atiçava cães a touros, uma prática comum neste mundo tauromáquico, chamado bull bating, daí o "Bull" no nome de algumas raças de cães.

Quando houve gente indignada, vá-se lá saber porquê, ao ser apanhado disse o seguinte:

"Foi uma situação isolada quando os cães entraram inadvertidamente no recinto onde estava a vaca, não se tratando de nenhuma luta de animais".

Ah ah ah. Uma vez a minha cadela também entrou num galinheiro inadvertidamente e eu fui logo buscar a câmara fotográfica e tirei várias fotografias enquanto ela esfranganava as galinhas. Depois, selecionei as melhores e coloquei na minha página, sem me esquecer de colocar a minha assinatura no canto inferior direito para fazer publicidade. Burro. Bem, mas ao menos temos de perceber que a família Moura está a melhorar com as novas gerações: o pai deixa morrer cães à fome; o filho dá vacas vivas inteiras para os cães dele comerem; o ideal seria não continuar a linhagem, mas pode ser que o neto já venha normal sem taurossomia 21.

Podemos estar aqui a ser injustos com o senhor João Moura. Não querendo fazer fat shaming, o senhor está pesadote e todos sabemos que a obesidade é uma doença e que, muitas vezes, os gordinhos comem por impulso e não se controlam. Olham para donuts como o José Carlos Pereira olhava para uma garrafa de Absolut ou como o Cláudio Ramos olha para aquele objecto fálico que adora ter perto da boca, o microfone. O senhor João Moura pode ter adquirido um gosto especial por ração de cães. Há gostos para tudo, se há quem goste de peixe cru enrolado em alga e fique viciado de tal maneira que todas as semanas tem de ir ao sushi, haverá certamente quem fique viciado em ração de cão. Se calhar é como o sushi, tem de se provar várias vezes até gostar. Tal vício pode ter feito com que o senhor João Moura comesse a ração toda dos seus galgos deixando-os morrer à fome. Isso ou era parte de uma experiência a ver se os galgos conseguem voar. Seja como for, confesso que gostava de saber o segredo da dieta João Moura. A minha cadela está um bocado gorda e o verão está aí a chegar. Como é que ela vai publicar fotografias no seu Instagram se não tiver um dogkini body? Quando a minha cadela veio do canil é que estava boa, ali com as costelas a verem-se, pronta para uma passerelle, agora só se for para fazer de hipopótamo no Jumanji.

Quero terminar, dizendo que acho que a maioria das pessoas que gosta de touradas nunca seria capaz de maltratar animais noutro contexto, muito menos de deixar cães a morrer à fome. Não acho que gostar de tourada seja sinónimo de ser má pessoa, tal como não acho que ser vegan seja sinal de ser boa, embora aumente a probabilidade de se ser chato. Por isso, quem gosta de tourada e não se revê nestes maus tratos a animais é que devia estar indignado porque a mim não me surpreende nada.
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18 de fevereiro de 2020

Caso Marega: meteu-se a jeito



Se há 30 anos me perguntassem, se em 2020 ainda se iria falar tanto de racismo, sabem o que diria? Diria o seguinte: "Sei lá, caralho, tenho 5 anos, que pergunta de merda para se fazer a uma criança. Dêem-me um push pop, mas é."

Bem, mas já estamos todos a par da polémica com o jogador de futebol Marega, insultos racistas das bancadas, que deu origem a todo um pandemónio no desporto, nas redes sociais e na sociedade no geral. Quando há polémicas destas é preciso debater e, então, a TVI decidiu convidar o André Ventura para falar sobre o assunto porque nestas situações de racismo há que chamar os especialistas na prática. Na prática do racismo, entenda-se. Ele começou por afirmar que não é racista e até disse, e passo a citar, "Já festejei muitos golos de negros". 

O antigo "Não sou racista, até tenho um amigo pretoé assim substituído por "Não sou racista, até festejei o golo do Éder".

O André Ventura, não sendo racista, tem feito confusão em como se deve demonstrar isso. Em vez do típico "Não sou racista, até tenho amigos que são… pretos." ele acha que é o "Não sou racista, até tenho amigos que são… racistas", daí se explica que ele não se importe de apelar à falta de inteligência dos racistas para ter mais votos. Chamar o André Ventura para identificar racismo é como chamar um toureiro, ou o Miguel Sousa Tavares, para explicar se algo é abuso animal. É como um gajo saudável a dizer se a eutanásia deve ser legalizada ou não. É como chamar o Schumacher para o Dança com as Estrelas.

Mas bem, esta discussão do Marega é complicada porque temos de ver os dois lados. Sei de fonte segura que o Marega andou a provocar os racistas. Pelo que apurei, ele entrou em campo com pele escura e andou lá a ser preto de um lado para o outro, mesmo a provocar quem não gosta de pretos. Queriam o quê? Meus amigos, cada um colhe o que semeia, e o Marega não teve respeito pelos racistas. Aliás, o Marega foi o primeiro a ser racista porque escolheu ser preto. Porque é que o Marega não escolheu ser branco neste jogo? Pois, mesmo a provocar os racistas. Disto ninguém fala. Há sempre dois lados numa discussão e não existiria racismo se não houvesse as duas partes: os racistas e as pessoas que eles odeiam. Agora pensem. O Marega meteu-se a jeito, ora vejamos:
  • O Marega podia ter sido mais discreto, podia ter usado uma base para aclarar a pele ou assim, que ia saindo ao longo do jogo, para os racistas se irem habituando aos poucos. Uma espécie de homeopatia do racismo.
  • O Marega começa logo a provocar quando decide chamar-se Moussa. Moussa Marega. Os racistas odeiam nomes que não sabem escrever, daí odiarem quem se chama Helena porque não sabem se leva H ou c com cedilha.
  • Pior, o Marega tem de decidir se quer fazer parte do problema ou da solução. O que é que os racistas acham sobre os pretos? Que são preguiçosos e não gostam de trabalhar. O que é que o Marega fez? Saiu do jogo antes do fim. Isto é dar razão aos racistas, como toda a gente sabe.
  • Isto para não falar que o Marega provocou os racistas que tinham atirado uma cadeira das bancadas, colocando-a na cabeça. Ora, os racistas tinham atirado a cadeira para ele se sentar e ficar confortável e ele decidiu faltar ao respeito, gozando com essa oferta. O Daniel Alves, há uns anos, aceitou a oferenda dos racistas e comeu a banana que lhe foi enviada das bancadas. O Marega devia aprender com o Daniel Alves a não provocar os racistas. Na altura fomos todos macacos, embora isso não seja muito preciso cientificamente: somos é todos símios, mas uns são mais primatas do que outros.
Ao Marega, que tenha mais respeito pelos racistas numa próxima. Só faltou baixar os calções e exibir aquilo que os racistas mais odeiam porque é o segundo órgão que têm mais pequeno do que o normal. O primeiro é o cérebro, claro.

***

PS: Datas de stand-up comedy em breve:
  • 7 de Março, em Águeda, juntamente com o Hugo Sousa e o Renato Albani. Info e bilhetes neste link.
  • 24 de Abril, em Ponta Delgada, nos Açores, levo um convidado comigo. Info e bilhetes neste link.

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13 de fevereiro de 2020

Aborto vs pedofilia: venha o diabo e escolha



Um padre dos Estados Unidos da América, de 72 anos, disse algo como "a pedofilia não mata ninguém e isto mata". Quando ele diz "isto" está a referir-se ao aborto e não a lutas de bebés com espadas ou a touradas com bebés montados em caniches, pois isso é óbvio que mata até porque o caniche não é bicho para aguentar uma trancada de um touro. O bebé tem os ossos muito maleáveis e safa-se desde que não aterre de moleirinha no chão.

Comparar o aborto com pedofilia é a mesma coisa que comparar cortar as unhas com amputar a perna… de outra pessoa e sem o seu consentimento. Comparar aborto com pedofilia é a mesma coisa que comparar um serial killer com um médico que é a favor da eutanásia… pensando bem, deve ser essa a linha de raciocínio do padre. Eu investigaria este padre que aquela cara bolachuda e aqueles óculos já são um sinal e, depois, a falar de pedofilia como se fosse doutorado nela, hum, quem fala assim é quem tem experiência na óptica do utilizador.


"Ao menos a pedofilia não mata ninguém". Só faltou dizer que o que não nos mata torna-nos mais fortes e que é de pequenino que se torce o pepino. No entanto, temos de ser justos, o senhor padre tem razão numa coisa: a pedofilia em si não mata, a não ser que seja muito à bruta e mal feita. O pedófilo normalmente não quer matar a criança até porque de que lhe serve um cadáver de uma criança? Vai fazer sexo com o cadáver? Há limites. Um pedófilo tem valores e toda a gente sabe que gostam delas a dar luta.

A pedofilia só mata se a criança for malcomportada e não souber guardar segredo. A pedofilia pode não matar, mas o que não mata engorda e uma criança gordinha sofre bullying na escola e isso ainda é pior que ser abusado sexualmente.

Os padres são sempre muito parciais nesta questão do aborto porque é normal que sejam contra, já que mais abortos significam menos crianças e as crianças dão imenso jeito aos padres, seja para o coro, a catequese ou para aquela actividade lúdica que 10% dos padres fazem com a pila em crianças, mas que não é bem sexo porque eles fizeram um voto de castidade. É desporto, vá. É hobbie. São "só" 10%. Imaginem se 10% dos professores fossem pedófilos!? Estatisticamente, na escola primária era mais tranquilo, mas mal chegávamos ao 2º ciclo ano era quase certo que íamos levar no cu.

A julgar pelos esforços de grande parte da Igreja Católica, que se empenha mais em fazer campanhas anti-aborto do que em expor e resolver os inúmeros casos de pedofilia que tem enraizados até às mais altas instâncias da sua empresa, Deus aceita melhor a pedofilia do que o aborto. Porquê? Porque o aborto, às vezes, impede que uma criança nasça para ser vítima de pedofilia e isso estraga o plano de Deus que tinha seleccionado minuciosamente, à mão, aquela alminha para ser abusada e agora a alma vem para trás como se fosse um bife muito mal passado e que quando volta ao lume fica sempre mais rijo e menos suculento. Deus fica muito chateado se lhe baralharem a gestão de stock de almas que, parecendo que não, o aborto é uma espécie de devolução e aquilo tem de voltar a ser embalado para o cliente a seguir não perceber que a alma já foi usada. Cada aborto é um nascimento refurbished.

Mesmo para quem é contra o aborto, uma posição que eu até percebo em certa medida, acho que ninguém, a não ser muito radical, acha que são situações comparáveis. Se alguém acha que uma mulher que decide fazer um aborto é pior do que um pedófilo, lamento, mas essa pessoa é uma atrasada mental. O aborto é a interrupção voluntária da gravidez. A pedofilia é a interrupção involuntária da inocência. Dá para ter um aborto espontâneo. Não dá para fazer pedofilia espontânea. Quer dizer, muitos dirão que tiveram um impulso espontâneo e incontrolável e que não têm culpa.

Percebo que há dois tipos de pessoa que queira criminalizar o aborto: os muito religiosos e os pedófilos. Este padre tem cara de ser intersecção dentre os dois grupos.

Para alguém muito religioso, um aborto é a morte de uma vida. Para um pedófilo, um aborto é uma encomenda da Amazon que foi extraviada.

Para os padres, o aborto é pecado até ser uma beata que engravidou deles. Aí ou é aborto ou é filho de pai incógnito que Deus que é avó que cuide, crie e dê pensão de alimentos. A quantidade de filhos de padres não perfilhados e o facto de o Vaticano ter regras secretas para os padres que têm filhos, leva-me a crer que a Igreja é a favor do aborto teórico. É abortista não praticante. Por isso, sempre que virem um padre a conduzir um carro que diz "Bebé a bordo", não é alerta, é Uber Eats.
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10 de fevereiro de 2020

Óscares 2020 - Os piores looks da passadeira vermelha



Mais uma cerimónia dos Óscares em que eu fiquei acordado até às 3h da manhã e desisti, vendo assim a entrega de todos os prémios que não interessam e deixando para o dia seguinte os que realmente fazem a pena. A cerimónia dos Óscares é como sexo demorado, mas mal feito, se tudo correr bem só vale a pena pela parte final.

Sobre os prémios em si não vou escrever que isso não interessa para nada, acho que a maioria das estatuetas ficaram bem entregues, tivemos daqueles bonitos discursos de milionários a falar de igualdade e a tocar nas campainhas todas para sinalizar a virtude. O que está a bater é falar de mulheres realizadoras? Vamos falar disso. Ah, é alterações climáticas? Deixa só ir ali reescrever o meu discurso num instante.

Bem, como os Óscares são muito parecidos aos Globos de Ouro da SIC, tanto que em Hollywood até se referem a eles como "Os Globos de Ouro da SIC à americana", decidi fazer o que faço sempre e comentar aquilo que é a minha especialidade: as roupas. Toda a gente sabe que passei ao lado de uma grande carreira de comentador de passadeira vermelha, tudo culpa dos meus pais que me deram objectivos na vida. Não querendo ser um nacionalista, mas isto com estrangeiros não tem a mesma piada já que duvido que algum deles vá ficar ofendido e ameaçar-me de processo, mas nunca se sabe, por isso vou esmerar-me na mesma. Segue a análise aos looks mais estranhos dos Óscares 2020.


O Spike Lee veio vestido à pica da CP de Hogwarts. Ele diz que é uma homenagem ao Kobe Bryant e não vou comentar se não ainda aparece aí o filho do Bolsonaro outra vez a falar mal de mim e tenho de aturar ofensas em português do Brasil. Reparem na calça curta e de quem parece que se vai descalçar e apanhar lamejinhas a qualquer momento. Depois, desconfio sempre de homens adultos com pulseiras. Sempre. São sempre homens que vêm com conversas de que querem abrir um bar em Albufeira porque estão na crise da meia-idade.


Ela bem tentou que ninguém reparasse na sua cara esticada, mostrando perna inteira e meia mama, mas falhou. Parece que fizeram um transplante de cara em que lhe meteram um focinho de gato esfinge, mas afinal era dois números abaixo e tiveram de o esticar bem para conseguir prender às orelhas. Se a Kim Kardashian é a Paris Hilton dos trezentos, a Blac Chyna é a Kim Kardashian do chinês.


Este vestido só dá jeito para a after party quando ela começar a beber da garrafa e o que vai entornando escorre e faz cascata ali na cintura e dá para cinco pessoas se ajoelharem e beberem também, numa bonita mensagem de reciclagem e reutilização.


Esta senhora pode vestir-se como quiser que eu deixo, mas aparecer vestida de filha de Eduardo Beauté nos Globos de Ouro de 2017 é um bocado falta de imaginação.


Quando só podes trazer um acompanhante, mas queres trazer a família inteira e a única forma de eles entrarem é irem escondidos dentro do teu vestido. Pensavam que eu ia dizer que ela comeu a família? Tenham juízo, todos os corpos são lindos e ser obeso mórbido é tão saudável como ter um peso dito normal. É como fumar, todos os pulmões são bonitos.


Esta pensou que era a Comic-Con. Agora pensem que, antes de sair de casa, esta menina olhou-se uma última vez ao espelho e pensou "É mesmo isto, não mexe mais".


Não sei se isto é um protesto a favor da igualdade, o que sei é que me faz lembrar vagina. Vagina ou pila de cavalo marinho. Faz lembrar um choco, também, ou o coronavírus visto ao microscópio. As possibilidades são muitas, mas a certeza é só uma: ridículo.


Numa altura em que se fala de inclusão e diversidade, devo dizer que sou a favor de quotas se as quotas forem 100% de Margot Robbie, em qualquer lado. Parlamento? 100% Margot. Empresa de mudanças? 100% Margot a carregar-me os móveis. Até num call center pode ser Margot, embora seja desperdício. "Estás a objectificar a mulher, Guilherme, ela é mais do que uma cara bonita.". Talvez, não a conheço pessoalmente, mas considero até que não objectificar a Margot é ofensivo para ela e para os pais que a fizeram tão perfeitinha.


Esta pensou "O senhor dos Parasitas ainda ganha e deixam de reparar em mim por causa das quotas de sul-coreanos" então toma lá um vestido com dois cus de ganso morto nos ombros. Esta senhora talvez tenha mais jeito para ser cirurgiã na vida real do que para se vestir.


Veio vestido à professor de educação física do colégio privado. Tem pinta de otário. Tem aquela cara de palerma que diz "Tu sabes quem é o meu pai?" e depois leva duas bofas e roubam-lhe o Bollycao. Se olharmos bem, assim vestido também passa uma vibe de guarda de Auschwitz.


A imitar a Inês Castel-Branco na última gala dos Globos de Ouro. Esta gente de Hollywood não pode ver nada por Portugal que é logo a imitar. O que vocês não sabem é que isto representa com exactidão a primeira aparição de Fátima em que os três pastorinhos, mocados depois de comer uma azeda estragada, viram e disseram "Vestida com um manto de brilhantes da cabeça aos pés, Nossa Senhora era preta e lésbica". A Igreja é que abafou a última parte porque já se sabe o que a casa do Senhor gasta.


Uma bonita homenagem aos primórdios da televisão, vindo vestida de monitor CRT com naperon em cima. Levou o Óscar de melhor actriz secundária, ou como se diz agora para não ferir susceptibilidades, "Melhor actriz num papel de apoio". Os figurantes agora devem chamar-se "Decoração humana para engenharia de cenários".


Esta senhora é igual à actriz portuguesa Ana Bustorff. Igual. Decidiu vir vestida à apóstolo de Jesus gay. Uma túnica com brilhantes para pregar aos senhores todos! A ideia foi essa ou ficar vestida pronta para os jogos sem fronteiras, já que virando o vestido ao contrário fica pronta para aquela prova das corridas com saco de batatas.


Aqui não dá para ver bem, mas o decote é bastante projectado para a frente, criando ali quase um babete saliente. À noite, o namorado dela escusa de comer antes de ir para a cama que pode alambazar-se com os restos dos croquetes e migalhas que ela foi acumulando no decote ao longo da noite. Nomeada para dois Óscares, não ganhou nenhum. Invejosas.


Qualquer outra pessoa vestida assim e era ridículo, mas como é a Billie Eilish tudo bem porque ela é única e irreverente neste mundo de coisas formatadas. Spoiler alert: a Billie toda ela é um produto formatado para agradar a uma geração. Atenção que eu até gosto da música dela, mas unhas de gel daquele tamanho é deitar gasolina e pegar fogo. É sempre unha de quem não trabalha muito nem faz nada em casa. Quem trabalha ou lava a loiça não pode ter unhas destas, por isso que não venha com tretas de que faz tudo sozinha ela e o irmão. Sim sim. Ah e o pijama polar? Ainda se fosse da Primark, agora assim é: Tipo, I don't give a fuck, mas é Chanel. lol, whatever.


"Eu gostava de ir vestida de vilão da Disney, mas com um fato de mãe solteira com dois filhos que lhe escrevem na roupa merdas sem sentido nenhum". Não diga mais nada, minha cara. E, assim, nasceu o Joker de Massamá que à noite espalha o terror na linha de Sintra e durante o dia trabalha no Papagaio Sem penas.


Isto é muito simples: cada um se veste como quer e se o Billy Porter quer ir mascarado de assessor de Joacine Katar Moreira, não tenho problemas nenhuns. Ele diz que é activismo, mas a verdade é que é necessidade de aparecer e ser falado. É o que é. Nada de mal nisso, todos os que vão à passadeira vermelha querem aparecer e ser falados. É uma questão é de admitir e ser honesto. De resto, fica-lhe bem, eu não usaria, mas só porque o dourado não fica bem com o meu tom de pele.


Nada a dizer, Natalie também pode quase tudo. De realçar que ali na capa ou lá o que é aquilo, ter bordado os nomes das realizadoras que não foram nomeadas para o Óscar. Nunca pensei que houvesse tão poucas realizadoras ou então só bordou as amigas. Um bom protesto pela igualdade e bem pensado, porque se calha ela bordar os nomes das mulheres que sofrem mutilação genital ou que não têm acesso à educação e que sofrem uma discriminação real em todo o mundo, tinha de ter uma capa muito maior e depois ainda tropeçava na hipocrisia. Se quer ser coerente é melhor mudar o nome para Natalie PortWoman. 


E foi isto. Antes que venha alguém dizer que esta publicação contém machismo ou objectificação de mulheres, deixem-me dizer-vos que a culpa é dos homens que usam quase todos os mesmo fato, iguais e sem arriscar. Depois, eu pesquisei "Worst dressed men oscars 2020" no Google e nada, mas se pesquisar mulheres há toda uma panóplia de publicações o que mostra como estes eventos, passadeiras vermelhas e a própria indústria são inerentemente machistas, metendo pressão nas mulheres para se vestirem bem. A culpa não é minha, nem dos homens, a culpa é de todos e todas que se sujeitam a isso e que consomem isso. Quem vê os Óscares sem ter visto nenhum filme e só para comentar os vestidos da passadeira vermelha, não tem qualquer moral para criticar seja o que for. É como ver uma super-modelo a falar dos padrões de beleza irrealista que tentam impor às mulheres. Quando és o problema, não tentes mandar bitaites sobre a solução.
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