11 de dezembro de 2017

No "ajudar" é que está o ganho



A pergunta «O que queres ser quando fores grande?», feita aos petizes, poderá começar a ter respostas inusitadas como «Quero ser presidente de uma Instituição de Solidariedade Social!». Tão querido, diremos, pensando que é com o intuito de ajudar os outros, mas não: é porque parece ser uma carreira estável e bem remunerada. Por exemplo, a minha namorada diz que gostava de trabalhar a ajudar os outros, mas que não o faz porque pagam mal. Pelos vistos estava errada. Refiro-me, claro, à reportagem da TVI sobre a gestão da "Raríssimas", uma Instituição de Solidariedade Social que visa ajudar pessoas com deficiências raras, onde, ao que parece, há utilização de dinheiros públicos e de donativos para fins pouco nobres.

Parece-me, desde já, que a reportagem é caluniosa e uma tentativa de denegrir a boa imagem da sua presidente, Paula Brito e Costa. Dizem que a senhora comprou 230€ em gambas com o dinheiro da empresa. Se agisse de má fé tinha comprado lagosta, obviamente. Assim se vê que a Paula é poupadinha. Acho inadmissível acusarem a senhora de esbanjadora e de má gestão de dinheiros públicos quando, em alguns dos vídeos, se vê a senhora a usar um leque nas reuniões. Ora, isso só poderá ser devido ao facto de ser tão mão de vaca que nem o ar condicionado liga, para que sobre dinheiro para ajudar os necessitados e/ou comprar roupa de marca. Qual é o mal?

Quem nunca disse que foi pela autoestrada e, afinal, foi pela nacional e meteu ao bolso o dinheiro da portagem? Quem nunca usou o carro da empresa para ir às meninas a Vigo?

Acusam-na de uma vida de luxo por comprar um vestido de 228€, coisa que não me parece um escândalo. Ainda no outro dia dei 200€ por um casaco, mas senti-me tão mal que a seguir fui comprar outro por 30€ na Primark que já usei várias vezes, ao contrário do primeiro que ainda está por estrear. A diferença é que o fiz com o dinheiro que me sobrou depois de pagar IRS e Segurança Social e não com donativos e subsídios públicos. Para mim, esta reportagem só prova três coisas:
  1. Que a presidente é palerma. Fazer os empregados levantarem-se de cada vez que ela passa? Andamos a brincar às princesas, está visto. Superior hierárquico meu que exigisse isso, era uma chapada à padrasto na hora. Andou um gajo com medo do serviço militar obrigatório para vir esta badameca exigir honras de nobreza e tratar os outros como súbditos de tempos feudais?
  2. Que quando ela diz que ajuda pessoas, não está a mentir! Ajuda, efectivamente, pessoas da sua família. Primeiro, o facto do marido estar lá empregado e ganhar bem para o cargo que ocupa e mesmo assim ela enviar emails a dizer que receber quase três mil euros, como responsável do armazém, é e passo a citar, "vergonhoso". Igual quando se refere ao seu filho - também empregado na instituição - como o «herdeiro da parada», demonstrando que pensa que ajudar os outros é hereditário e que a sua Instituição deve ser regida como uma monarquia o que leva a crer que está mais preocupada em manter a dinastia do que em assegurar o melhor para as pessoas que dependem da sua ajuda.
  3. Fica, também, provado que somos mesmo todos iguais e que as mulheres em cargos de poder conseguem ser tão corruptas quanto os homens.
Não acho que quem dedica a vida a ajudar os outros deva viver remediado. Acho, até, que o contrário é uma forma de atrair mais pessoas para cargos onde podem contribuir activamente para a sociedade. No entanto, há uma linha, difícil de traçar, que delimita a boa vontade da imoralidade. Tal como os ministros e deputados, será que ela precisa mesmo de um BMW que custa à empresa 900€ mensais e que está listado como carro pessoal apesar de ser usado e pago como se fosse da associação? Desculpam-se, dizendo que a presidente tem de ter boa imagem e apresentar-se em condições quando recebe gente importante, mas isso parece-me parvo tendo em conta o cargo que ocupa: um mendigo de fato e gravata, todo aprumadinho, não recebe esmola. Mesmo que eu tivesse um Ferrari, quando vou a reuniões com potenciais clientes, continuaria a levar o meu Clio de 2002 para verem que o dinheiro que peço é justo e não serve para pagar o meu estilo de vida caro. O Marcelo dá abraços e tira fotos indiscriminadamente, não é preciso a senhora estar arranjadinha para conseguir uma Marselfie.

Devo dizer que o que mais me chocou foi o número de pessoas que a Raríssimas ajuda. 800 mil? Mau. Sinto-me enganado! Raríssimas? 800 mil pessoas não é assim tão raro. Estou a ver que basta ser estrábico para conseguir uma ajudinha desta instituição. Não sei se isto é prova da boa vontade da senhora presidente ou se é mais um facto que suporta a tese da má gestão. Quem quer ajudar toda a gente não ajuda ninguém; tem de haver uma melhor triagem. Ter a condição rara de ter uma frondosa monocelha  não deveria dar direito a vales para ir à esteticista.

Se dou dinheiro a uma instituição destas conto estar a ajudar aquela criançada toda bilú mesmo a sério que não anda nem fala e que se baba toda!

Não vou estar a dar dinheiro para ajudar o senhor Belarmino que tem síndrome do lobisomem a depilar os nós dos dedos dos pés. Investigue-se que estou em crer que anda lá muita gente a mamar para além da presidente. Acho que estes casos recentes de fraudes e imoralidades em algumas instituições de solidariedade têm repercussões ainda mais graves que são as ondas de desconfiança que se replicam contra todas as outras que são bem geridas e que ajudam muita gente. Não sei quais são, mas ainda vou acreditando que as há. (Já que falamos disso, dia 16 de Janeiro, acontecerá um mega-evento de stand-up comedy «RIR Ajuda» em que a totalidade das receitas revertem a favor da Fundação do GIL. Mesmo que o dinheiro seja usado para comprar um carro de luxo, ao menos passaram uma boa noite de comédia no Altice Arena, comigo e mais 16 humoristas.)

Por fim, estamos perante um daqueles casos complicados de quem alegadamente anda a roubar, mas que ajuda outros. Tal como dizia o Dave Chappelle sobre o Bill Cosby «Ele violou, mas salvou muitas vidas, mais do que as que violou, mas provavelmente violou.». Coloca-nos numa posição complicada, a ponderar se há um cinzento entre o bem e o mal: «Será que mais valia deixar a senhora impune já que ajuda muitas pessoas? Será que essas pessoas ficam contentes se a senhora for punida, mas perderem a ajuda que têm recebido?». É dúbio. Só sei que quem voltou a eleger o Isaltino Morais não tem legitimidade para criticar a Paula Brito e Costa.


***
Falta pouco para esgotar a nova data do meu espectáculo de stand up comedy em Lisboa, dia 5 de Janeiro. Agarrem os últimos bilhetes neste link.
Ler mais...

8 de dezembro de 2017

Morte, vida depois da morte e imortalidade



No episódio desta semana do podcast Sem Barbas Na Língua, o tema central é a morte. Falamos sobre ela, o luto, a vida depois da morte, a imortalidade e muitas outras coisas. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



Podem ouvir e subscrever o podcast nas seguintes plataformas:
Deixem sugestões e perguntas em sembarbasnalingua@gmail.com.
Ler mais...

5 de dezembro de 2017

Ser virgem é uma desvantagem?



Está frio. O meu carro não tem termómetro para tirar uma foto a comprovar, por isso vão ter de confiar na minha palavra. Vamos, então, aquecer o dia com mais um um "Doutor G explica como se faz".


Olá Dr. G, houve uma noite que eu a minha melhor amiga e mais duas amigas fomos a um bar e estávamos divertidas a falar e a certa altura a minha melhor amiga diz que vai à casa de banho e sai, mas passado um bocado olho e vejo-a a curtir com um gajo, eu olho para ver se elas tinham visto o mesmo que eu, mas não e ela desapareceu da vista. O problema é que ela vai casar daqui a dois meses e meio e o namorado dela é o melhor amigo do meu namorado, por isso não posso desabafar com ele este assunto que ia logo contar e ela é a minha melhor amiga e diz que não volta a repetir, o que acha que devo fazer?  
Entalada, 27, Lisboa 

Doutor G: Cara LA, é um caso mais recorrente do que se pensa e a resposta certa não existe nestas situações. Há poucas teses de doutoramento sobre isto, mas vou tentar resumir o que penso - e como tal o correcto - sobre este tipo de situações:

Este é confuso, eu sei, mas acho que a questão aqui é que deves, em primeiro lugar, ser fiel à tua amiga e não confidenciar ao teu namorado até porque isso irá colocá-lo numa situação complicada. A ignorância é uma bênção.


Eu e o meu namorado namoramos há quase um ano e tem sido tudo perfeito até agora. O meu namorado sempre foi ciumento mas eu fazia um esforço para aceitar esse defeito e ele próprio também se esforçava para se controlar. A maioria das cenas de ciúmes devem-se ao facto de eu já ter andado com outros rapazes (muito antes de o conhecer) e ele só ter tido uma namorada. Agora, estamos a começar a nossa vida sexual e ele não consegue avançar quando chega ao momento porque lembra-se que houve outro rapaz a fazer o que ele está prestes a fazer. Sendo ele virgem, eu percebo que seja um pouco mais complicado para ele saber que eu não sou. Ele diz que tem noção que não fiz nada de anormal nos outros relacionamentos mas continua a deixar que isto interfira na nossa relação. Por favor Doutor G, ajude-me!
Anónima, 24, Lisboa 

Doutor G: Cara Anónima, já não és virgem, tens 24 anos, namoram há um ano e só agora estão a começar a ter relações sexuais? A juventude está perdida. Bem, há dois tipos de homem virgem: os que ficam inseguros quando a rapariga já tem andamento e os que vêem isso como um desafio para superar a competição. Claramente, o teu namorado é o primeiro que é o tipo mais comum. Não sei quais as conversas que tiveram sobre as tuas experiências passadas, mas vou deixar uma lista de coisas que nunca deves utilizar ao descrevê-las, mesmo que te pareçam que não são um elogio:
  • «Os meus últimos namorados tinham o pénis demasiado grande. A sério, aquilo era demais, ficava toda assada e nem o conseguia meter todo na boca... e tu já me viste a comer pepinos inteiros!»
  • «Aguentavam demasiado tempo. Uma pessoa queria ir ver a novela e quando dava por mim já estava a nascer o sol e lá ia eu toda assada e com sono para as aulas.»
  • «Foram tantos que não significaram nada. Nem deu para me apegar. Era um atrás do outro, sempre coisas sem importância. Foi sempre só sexo, muuuuiittto sexo!».
Tens de lidar com ele com carinho. Primeiro, apostar nos preliminares e dizer-lhe que se fosses virgem como ele, não irias saber que ele te excita como nenhum outro. Mente, mente muito. Diz-lhe que o dele é maior mesmo quando ele o tenta enfiar mole porque já está com a nervoseira. Demasiado gráfico, agora, peço desculpa. Puxa por ele, mostra-lhe que o desejas. Se ele continuar a não conseguir, que vá ao psicólogo ou vá arranjar uma namorada virgem para um infantário e mesmo assim, se tiver uma Igreja ao lado, é possível que já sejam em segunda mão.


Olá doutor G há uns tempos conheci uma rapariga que se mostrou interessada em mim, contudo vim a saber, antes de nos enrolarmos nos lençóis que ela já tinha marmelado com um grande amigo meu, mesmo assim, fiz-me ao pote e lá aconteceu. No entanto, percebi que o meu amigo mudou um pouco comigo, nunca falamos sobre o assunto, mas sei por terceiros que ele a ela nunca mais lhe falou. O que devo fazer!? Terei dado uma facada nas costas do meu amigo? Deverei falar com ele sobre isto? Sempre tive a ideia que o que eles tiveram nunca passou de sexo sem sentimentalismos o que me deixou a vontade para afiambrar a fêmea.

Miguel, 24, Porto

Doutor G: Caro Miguel, penso já ter respondido a várias dúvidas parecidas e a minha resposta é sempre a mesma: para quê andar a comer pernas de frango ratadas que os amigos deixaram no frigorífico quando há por aí tanto franguinho acabadinho de assar? No entanto, percebo a situação quando a falta de sexo é muita ou se é muito feio e não se tem outras opções. Se a rapariga for dona de uma excelsa peitaça, também há atenuante. Vou tentar resumir em forma de fluxograma:
Credo, que hoje estes fluxogramas estão complexos. Trocando por miúdos (não, não vou fazer referência ao Carlos Cruz), se não queres perder um amigo deves falar com ele e esclarecer tudo, embora o devesses ter feito antes, visto já saberes que ele já lá tinha marcado território. As pessoas são possessivas, mesmo com conquistas apenas carnais. Mete-te no lugar do teu amigo sem ser esse lugar onde já te meteste. E se fosse contigo? E agora entrava por tua casa a Conceição Lino de microfone na mão a perguntar-te se achas bem estar a ler o blogue de um gajo que está a tratar as mulheres como um objecto que se possui. A questão é que se fosses mulher, a minha resposta seria a mesma. Sou um igualitário javardo. Bem, conversa com o teu amigo e depois logo vêem e, na minha opinião, se nenhum de vocês tem sentimentos verdadeiros pela rapariga, optem pela vossa amizade.


Namoro há 1 ano e meio com um rapaz de 20 anos que não quero revelar o nome por isso vou trata-lo por Roberto. O problema que surge é o seguinte: Eu gosto bastante dele, mas ele ás vezes tem uns tiques meios maricas. Durante o funaná pelado ele ás vezes pede-me que lhe meta o dedinho no cu. No início ainda pensei que fosse só um fetiche mas depois ele começou a pedir que eu lhe pusesse cada vez coisas mais grossas... Deste modo, convenci um amigo meu (homossexual, que ele não conhece e de descendência africana) para o tentar excitar e ver se ele é mesmo panasca. O que aconteceu foi que ele ficou mesmo seduzido e até lhe praticou sexo oral. Não sei como me sentir nem o que fazer (ainda não disse nada disto ao meu namorado e ele continua a agir da mesma forma como se nada tivesse acontecido). Diga-me o que posso fazer perante esta situação doutor.
Tânia, 22, Leiria

Doutor G: Cara Tânia, dizes que vais tratar o rapaz por Roberto e no resto da dúvida não te referes ao nome Roberto uma única vez. Percebes que só gastaste caracteres para nada, certo? Vamos, então, por partes:
  • Um homem pedir a uma mulher para lhe enfiar um dedo no rabo não é sinal de homossexualidade. A mim não me apraz muito, mas é uma questão de gosto. Um homem que gosta de ter coisas enfiadas no rabo só é gay se uma dessas coisas for uma pila de verdade.
  • Pelo resto da história, facilmente se conclui que o teu namorado é gay ou então gostava mesmo muito de ter ido a África no Verão e sente culpa devido aos tempos de escravatura e achou que era racismo rejeitar cair de boca no colo do Wilson. Sim, vou chamar Wilson ao gajo a quem o Roberto fez amor com a boca.
Ora bem, depois de ler e reler a tua história a pergunta que me salta à vista é a seguinte: por que é que o Roberto ainda é teu namorado? Primeiro, traiu-te; segundo, gosta de pila e, até ver, tu não tens uma. Sim, pode ser bissexual e gostar de limpar o palato com rolo de carne depois de ter comido bacalhau com broa, mas não me parece que ele esteja investido na relação contigo. Das duas uma, ou compras um strap-on para ver se ele te é fiel, ou acabas tudo. Podes comprar este com 10% de desconto usando o cupão DRG10 através deste link. Repara que escolhi um de cor escura de propósito.


Não tenho muitos ex-namorados (ok meeesmo "a sério" tive um), mas já conversei e tomei cafés, acompanhados no máximo por uns amassos sem naked funanated, com alguns rapazes. Estão constantemente a mandar mensagens coninhas e a ligar até às tantas da manhã, umas abordagens claramente a ver se dá para molhar o ganso, mas outras mesmo fofinhas e românticas e tal. Mandam flores só porque sim (um dos ramos a festejar "um mês desde que FALÁMOS pela primeira vez, não há direito!!!!). Chateia-me porque já deixei bem claro, de forma educada, que não estou interessada em nada mais do que uma amizade, e não queria ter de dizer "pára de me chatear os cornos chato de merda" porque não quero destruir a auto-estima de ninguém. Será que não entendem que depois de dizer que não quero, se não respondo e nunca atendo não estou interessada?? No entanto, agora estou interessada num gajo que foi o primeiro a dizer que só estava à procura de uma amizade, tendo eu concordado, mas 30 minutos depois estava a tentar mamar-me na língua. Começo a gostar dele mas confesso que não faço grandes investidas. Ele liga-me todos os dias para falar da vida e é bastante querido (meh) e sempre que estamos juntos tenta avançar para beijos e amassos, mas afasta-se sempre que eu falo do próximo passo da minha vida que é ir embora durante uns meses em missão para o meio oriente. Há um lado romântico que quer acreditar que ele gosta de mim mas tem medo de se apegar demasiado porque eu vou embora uns tempos e até há uma ínfima hipótese de levar com uma bomba na testa, ou estou só a ser ingénua e ele quer é uma amizade com bónus?  
Uma fã, 25, do Nuorte 

Doutor G: Cara Fã, tanta conversa que quase adormeci a meio da dúvida. Qual era a pergunta, mesmo? Deixa-me cá reler... ah, são duas, ok, vamos por partes:
  1. Tens de ser bruta e dizer-lhe que não queres mesmo nada. Os gajos são meio burros e quando uma rapariga não responde nem devolve as chamadas pensam que é porque se está a fazer de difícil e não percebem que são eles que são feios e/ou desinteressantes. Não podes é depois falar com eles quando estiveres carente só para te subir o ego, que normalmente é o que acontece e depois queixares-te que eles não te largam. Vocês sabem muito, mas eu sei mais.
  2. Quem é que diz «Só estou à procura de amizades!»? Que coninhas diz isso? Quem precisa de procurar amizades é pessoa em quem não se deve confiar e só tem desculpa se os amigos morreram todos num desastre e ele ficou sozinho sem ninguém porque de resto, se andas à procura de amigos é porque és uma pessoa que ninguém quer ter por perto. Dito isto, era treta para baixares as guardas e te poder enfiar o escalope na boca, provavelmente. O que interessa o que ele quer? O que interessa é o que tu queres. Vais lá para o "meio oriente", é aproveitar e logo vês. Pensas demasiado nas coisas. Se ele gostar de ti e tu dele, quando voltares logo vês. Se ele só te quiser saltar à cueca, aproveita que lá está, podes levar com uma bomba e ao menos vais de barriga cheia ter com o Senhor.


Mais uma vez, um agradecimento ao patrocinador oficial do Doutor G, Vibrolandia. O Natal está aí e é o local ideal para comprar prendas para aqueles jantares de amigo secreto e para animar a vossa avó agora que o vosso avô já não consegue cumprir.  Até para a semana e continuem a enviar as vossas dúvidas para porfalarnoutracoisa@gmail.com. 


Façam amor à bruta, porque de guerras o mundo já está cheio.

Ler mais...

4 de dezembro de 2017

Faz um ano que adoptei a minha cadela



Faz hoje um ano que fui buscar a Zaya a um canil. Dias antes, tinha lá estado a filmar um vídeo - a desafio da SOS Animal - a chamar nomes a todos aqueles que, seja qual for o motivo, abandonam animais de estimação. Ir a um canil é tramado, já tinha ido a dois, mas há alguns cães que estão lá "bem", em matilha, com algum espaço para irem passando o dia a dia e, aparentemente, bem alimentados e tratados. A Zaya não era um desses casos. No final do segundo dia de gravações, já tendo tudo o que precisava, acabei por ir filmar a ala dos "cães potencialmente perigosos" que estavam fechados noutra parte do Canil Municipal de Sintra. Ao contrário dos outros, estavam numa zona fechada, sem sol, enclausurados sozinhos em jaulas com pouco mais de um metro quadrado. Entre vários, demasiados, que curiosamente rosnavam e ladravam menos do que os outros "não perigosos" e se iam chegando às grades a pedir festinhas, lá estava a que viria a chamar-se Zaya. Sozinha, toda suja e remelosa, com um comedouro de metal na boca, a tremer e a fazer olhos de quem pedia para que a levassem dali para outro lugar, fosse ele qual fosse.

Fiquei a filmá-la quase meia hora, à espera que este olhar desse mais impacto ao vídeo e incentivasse alguém a ser mais humano, mas, apesar dos 4 ou 5 milhões de visualizações, o maior impacto ficou em mim. Aquela imagem ficou e saí do canil com um peso fodido de quem não pode fazer nada para mudar aquela realidade. Cheguei a casa e mostrei as imagens à minha namorada e aqueles olhos apavorados fizeram os nossos encherem-se de lágrimas. Já andávamos a pensar adoptar um cão, mas só daí a uns meses e nunca seria um pitbull, muito menos adulto e sem se saber quais os traumas que traz de brinde. Especialmente pela minha namorada, já que eu tenho mais arcaboiço para aguentar caso o cão se passasse por algum motivo. Como perguntar não custa, tentei saber o passado daquele cão e foi aí que me disseram que era uma cadela; que tinha sido encontrada amarrada a uma árvore ao pé de um barracão no meio do mato em Sintra; e que estava ali, naquela jaula, há dois ou três meses. Era muito meiga e não tinha historial de violência nem processos em tribunal, disseram-me. «Vamos lá buscá-la… coitadinha.» disse a minha namorada depois de saber isso.

Passados dois dias, num domingo à tarde, há exactamente um ano, fomos buscá-la para passar um dia connosco e ver como se dava. Nunca mais voltou ao canil.

Quando a trouxeram da jaula vinha com um olhar de curiosidade misturado com pânico. Deram-lhe um banho rápido só para tirar aquela merda seca colada ao pelo de quem mijava e cagava onde dormia e comia porque não havia outro sítio. Enfiaram-lhe um chip na pouca carne que revestia as costelas salientes e nem refilou; meti-lhe uma trela maricas e cor de rosa que a minha namorada comprou nos chineses, e ela foi puxando até ao parque de estacionamento do canil, como se soubesse logo que era para ir embora dali. Quando lhe abri a porta do carro e entrou para o banco de trás, previamente revestido com umas toalhas, foi quando tive a certeza de que nunca mais a deixaria voltar para aquele buraco. A felicidade dela a esfregar-se naquelas toalhas mil vezes mais fofas do que o cimento frio que tinha sido a sua cama durante meses, foi o suficiente para nos convencer. Tinha aquele sorriso de cão estampado no rosto, que embora não seja um sorriso humano, interpretamos como felicidade. E acho era.

Como já veio adulta, dois anos talvez, a educação é mais desafiante. O cuidado é redobrado e apesar de se dar bem com toda a gente, nunca se sabe quando é que se pode atirar a um gajo de chapéu de cowboy azul e bigode só porque o antigo dono dela tinha esse estilo e lhe ficou o trauma. Por exemplo, da primeira vez que tirei o cinto das calças ao pé dela, encolheu-se toda e foi para um canto. Não me parece que seja um instinto inato, mas sinal que o antigo dono fazia mais do que negligenciá-la. Filho da puta. Quem é que trata assim um animal, ainda por cima um que não tem um pingo de agressividade para outras pessoas? Devia ladrar e roer coisas, portar-se como um cão talvez tenha sido esse o erro dela. Roeu-me um bocado do sofá, sim. Estragou – e ainda estraga – o chão todo com xixi e com derrapagens. Tenho a roupa cheia de pelos. Toda. O carro idem. Não me deixa dormir de manhã acordando-me com lambidelas na cara depois de, provavelmente, ter lambido o próprio cu. Ladra quando ouve outros cães. Puxa como um mini tractor quando vai de trela na rua. Já trepou para a bancada da cozinha para enfardar comida indiana que tinha acabado de trazer do restaurante, mas que como era picante serviu de emenda e nunca mais se armou em ninja que rouba comida. Partiu um candeeiro. Já destruiu duas camas dela. Já deu despesa ao ser operada a um hematoma na orelha. Já fez isto tudo e muito mais fará, mas nunca me passou pela cabeça devolvê-la como se fosse um casaco que, afinal, ao espelho e luz de casa, não nos assenta tão bem quanto isso. É chato acordar cedo ao fim de semana para a levar à rua? Um bocado. Apetece ir passeá-la numa noite de dezembro com frio e chuva? Não apetece nada. É chato andar a pedir aos meus pais ou irmão para ficarem com ela quando vou para fora e não a posso levar? É. É agradável ela não se dar com outros cães e ficar nervosa quando vê um na rua porque deve ter sido usada para lutas de visto que tem marcas no corpo e os dentes todos partidos? Nada agradável. A casa cheira a cão? Há quem diga que sim, mas nem noto.

É giro apanhar cocós da cozinha? Nem por isso, mas acordar com o cheiro a merda nem é assim tão mau, porque é sinal que já não a tenho de levar à rua.

A cena é que ela me dá muito, muito mais do que presentes de cocó. Compensa sempre. Nem é por ela, por saber que ela está melhor e que a "resgatei", como agora se diz. É mesmo por mim. É porque chegar a casa e ser recebido aos saltos e lambidelas faz com que o stress que apanhei no trânsito passe logo. É porque dar-lhe uma festa abranda um bocado o tempo. É porque ser acordado por ela é mil vezes melhor do que andar a meter o snooze no despertador. É porque enche a casa de alegria, por vezes demasiada alegria para um apartamento pequeno. «Ter um cão num apartamento não é bom.», já ouvi de alguns vizinhos. Devia estar melhor no T0 de dois metros quadrados, se calhar. Não sei queixa. Nunca a ouvi dizer «Isto é tudo muito giro, mas tenho pouco espaço aqui.» enquanto vai do sofá para a cama dela e da cama dela para o sofá e dorme 16 horas por dia. Só precisa de comida, mas menos do que a que tem tido já que veio com 18 kg e já está com 25 kg, feita lontra; precisa de passear e correr um bocado e felizmente a minha profissão permite-me estar mais tempo em casa e levá-la pelo menos três vezes à rua; e precisa de mimos, coisa que tem a mais, mas que é porque merece receber festas e carinho com retroactivos por todo o mal que sofreu, embora nem se deva lembrar. Os cães esquecem rápido e confiam na espécie humana mesmo sem merecermos.

Uma publicação partilhada por Zaya (@diariodeumabitch) a
O último cão que tinha tido morreu há 7 anos. Pensei que nunca mais fosse gostar de um não humano como gostei do Zen. Enganei-me, apesar de dizer à Zaya, várias vezes, que nunca será como ele e que se volta a mijar no tapete da sala volta para o canil. Ela abana a cauda e tenta saltar-me para o colo porque sabe que estou a brincar e porque é um cão e não percebe o que estou a dizer. O Zen e o anterior que tive, o Byte, tinham sido comprados a um criador conhecido de uns amigos. Não pensei muito nisso, na altura, só queria finalmente ter o cão que andava a pedir aos meus pais desde os seis anos. Eram de raça shar-pei e o facto de terem a característica de não ladrar foi a única forma de convencer os meus pais a ter um cão num apartamento. Depois de entrar num canil, nunca mais seria capaz de comprar um cão. Não condeno quem o faça, desde que num criador com princípios e nunca naquelas montras nojentas que algumas lojas insistem em ter. Mas, antes de comprarem, vão dar uma volta a um canil. Nunca vão encontrar uma tão fofa como a Zaya, mas pode ser que vejam por lá uns que vos olhem de forma a que vos impeça de comprar um cão sem se lembrarem que podiam, efectivamente, salvar uma vida. Sim, não tenho fotografias dela em cachorrinha para dar like no Instagram, não a vi crescer, mas felizmente vou vê-la a envelhecer e a morrer sem estar naquela jaula em que era mais humano ser abatida.

Faz hoje um ano que agradeço ao filho da puta que a maltratou e abandonou e me possibilitou ser um bocado mais feliz. Agradeço a esse gajo que para compensar a pequenez do seu pénis decidiu arranjar um "cão perigoso" para se sentir macho e depois o negligenciar e maltratar. Enquanto escrevo isto, ela está ali no sofá a olhar para mim. Deve pensar que sou uma espécie de Deus que a salvou do inferno. Tem-me em demasiada consideração. Sou só um gajo que precisa de um cão para ser completamente feliz e que percebeu que mais vale ir buscar um em sofrimento do que ser egoísta, embora haja sempre um pouco de egoísmo em ter um animal de estimação. Quando os meus outros cães morreram, um com cinco meses e o outro com cinco anos, pensei «Para que é que eu me faço passar por isto? Para que é que um gajo tem um cão e se apega tanto para depois sofrer isto tudo?». Quando a Zaya morrer a resposta será simples: para ela ter uma vida melhor e melhorar a minha.


PS: Sim, as fotografias são do Instagram da Zaya, Diário de uma Bitch, cadela diva. Podem seguir que faz parte de um projecto que ando a magicar para o ano, juntamente com o seu próprio blogue "Por Ladrar Noutra Coisa", onde vai dar o seu olhar canino sobre o mundo.

PS2: Os bilhetes para a segunda data do meu espectáculo em Lisboa já estão à venda neste link. A Zaya não estará presente, escusam de perguntar. Serei só mesmo eu, sei que não vale o mesmo, mas é o que se arranja. 
Ler mais...

30 de novembro de 2017

Grávida, velho ou deficiente: quem tem mais prioridade?



Ontem, estava na fila no Pingo Doce, logo após a notícia da morte do Belmiro de Azevedo, só para fazer pirraça e ver se o gajo dava uma última volta no tabuleiro da morgue, e uma senhora com um bebé ao colo perguntou-me se podia passar à frente. «Claro que sim.», respondi-lhe, e dei por mim a pensar na nova lei da prioridade nas filas dos supermercados e outros serviços. No ano passado, acabaram-se as filas prioritárias e em todas elas é obrigatório ceder passagem a grávidas, pessoas com crianças de colo, pessoas com deficiência e idosos com limitações visíveis. O facto de tudo isto ter de estar na lei diz muito de nós enquanto espécie humana. Seria natural que dar a prioridade a alguém que tem mais dificuldades do que nós fosse um impulso que não precisasse de ser legislado. No entanto, tenho algumas dúvidas, muitas delas parvas, mas sobre as quais me apetece filosofar um pouco. Como organizamos as prioridades dentro das pessoas com prioridade?

É tipo pedra, papel, tesoura? A grávida ganha ao deficiente e o deficiente ganha ao velho manco?

É preciso esclarecer as pessoas para que não haja equívocos. A meu ver, a grávida e o acompanhante de criança de colo deveriam ficar para último lugar. Porquê? Ter filhos, embora muita gente pense que não, é uma escolha. Não é uma obrigação e sendo que o aborto é legal, também não é um acidente. É uma escolha e as escolhas não deveriam ter prioridade. Não acho que as grávidas sejam assim tão especiais. Engravidar não é uma cena muito complicada, qualquer pessoa com QI de uma ameba consegue engravidar, infelizmente. Até acontece por acidente, não é preciso técnica, nem planeamento: é só serem irresponsáveis ou estarem com um gajo que não se controla e não tira a tempo. Podemos, até, dizer que ter filhos é um acto de vandalismo no mundo actual. Um gajo paga dez cêntimos por um saco de plástico, mas dão prioridade a quem está a gerar um ser que vai poluir o planeta? O meu maior feito de activismo será não me reproduzir e assim ajudar a acelerar a extinção da espécie humana. Quando morrer, quero na minha lápide o epitáfio «Sempre se preocupou com o planeta: comprava sacos de papel reciclado e não teve filhos.».

Se as grávidas estão sempre a tentar explicar que não estão doentes, então talvez fosse natural que uma pessoa enferma tivesse prioridade sobre elas, não? Cenário: estou com febre alta e tive de ir comprar um franguito daqueles manhosos do Pingo Doce porque não estava capaz de cozinhar, será que tenho direito a passar à frente? É que para ir comprar um frango daqueles é sinal que estou mesmo mal e a febre me está a causar demência! Quem devia ter prioridade? Eu, com febre, que fui comprar fraldas para a minha avó que está de diarreia ou uma grávida de quatro meses, com saltos altos, que foi comprar gelado de chocolate porque estava com desejos que é como quem diz que está a aproveitar a desculpa da gravidez para ficar um mamute com bócio? E tentar perceber se a senhora atrás de nós está mesmo grávida ou é só gorda? Na dúvida, prefiro passar por gajo que não cede o lugar proactivamente do que destruir o ego da senhora, embora lhe bastasse ter um espelho para perceber que o erro foi legítimo. Agora que já provoquei uma onda de revolta nas grávidas sem sentido de humor, vamos aos deficientes. Tem de haver uma hierarquia!

Por um lado, o gajo paraplégico devia ter prioridade sobre um gajo que é só coxo, mas, por outro, o primeiro fica na fila à espera sentadinho.

E os cegos? É tudo a enganá-los. «Até lhe dava a minha vez, mas estou grávida de nove meses.», diz o senhor Alfredo com voz fininha. No outro dia, atrás de mim, estava uma rapariga de muletas e ferros nas pernas, com uma máscara cirúrgica, e com um olho que tinha bazado para Marte sem bilhete de volta. Mal vi aquele combo de deficiência, perguntei-lhe «Quer passar à frente?» e ela responde-me, algo confusa, «Porquê?». Epá, parecia-me óbvio que não era porque me estava a fazer a ela devido aos seus bonitos olhos, olho, vá. Tinha ali pelo menos duas ou três razões para lhe dar, mas fiquei com receio que levasse a mal e então disse «Só tem esses dois artigos para pagar, eu tenho muitos.». Ela agradeceu e passou. Ufa.

Agora que está lançada a ira nos deficientes sem sentido de humor e sem uma ou outra parte do corpo, viremo-nos para os velhos. No Pingo Doce de Alvalade, a quantidade de idosos com dificuldades em manter-se vivo é absurda e pode acontecer (como já me aconteceu): estar apenas uma caixa aberta, chego lá para pagar as minha coisinhas e aparece uma velha com joenetes; deixo passar à frente; depois aparece um velho com marreca; deixo passar; depois aparece outra velha de muletas; deixo passar; depois uma mãe com um filho de quatro anos e pega-o ao colo e pede para passar; deixo passar a revirar os olhos; nisto, vêm mais duas velhas, pouso as minhas compras e vou-me embora. A única forma de ser atendido naquele dia seria esperar até ser velho ou procriar com alguém lá dentro e esperar nove meses para ter uma criança de colo e ser atendido. Sinto-me sempre constrangido quando vejo uma pessoa de idade atrás de mim e pondero ceder-lhe a vez: por um lado, lembro-me de todas as vezes que estive na caixa multibanco à espera que alguém de idade avançada pagasse as contas todas da vida desde 1934 e apetece-me vingança; por outro, sinto que posso ser ofensivo em perguntar se quer passar à frente. Uma vez, disse a um senhor para passar e levei um sermão do género: «Não estou velho! Tenho 82 anos, mas estou de muito boa saúde! Velhos são os trapos! Tenho mais energia do que quando andava a matar pretos em África... bons tempos.». As pessoas, por vezes, esquecem-se que também há velhos idiotas.

E os gordos? Ah pois, vou ter de dar prioridade aos gordalhões que andam naquelas scooters? Era o que faltava. Quanto mais tempo esperarem ali é menos tempo que estão em casa a comer donuts com banha de porco. No entanto, faz sentido darmos prioridade aos cachalotes de duas pernas que andam por aí, sendo que a obesidade é uma doença.

Enquanto sociedade, temos de nos decidir sobre um paradoxo: ou a obesidade é uma epidemia que deve ser combatida, ou as modelos XXL são um exemplo para a sociedade.

Não dá para ser os dois, minha gente. Modelo XXL é tipo irmos comprar uma casa e o vendedor dizer «Este aqui é o nosso andar modelo XXL.» e pensarmos que é por ser mais espaçoso, mas não: é porque está cheio de humidade e a precisar de obras.

Por fim, deixem-me repetir que nunca foi preciso haver lei para que cedesse o meu lugar a uma grávida, a um deficiente, a um idoso, ou a qualquer pessoa que me parecesse em maior dificuldade do que eu e/ou com muito menos compras para pagar. Todavia, o facto de no dia a dia ser boa pessoa, não me pode impedir de ser uma besta aqui. Sinto que ofendi muita gente com este texto. Estou feliz. Podem refilar nos comentários, que responderei dando prioridade aos que tiverem mais cara de coninhas.
Ler mais...

28 de novembro de 2017

Cães, raças perigosas e Ana Malhoa



No episódio desta semana do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre o melhor amigo do homem e das nossas experiências pessoais com eles. Desmistificamos as raças perigosas e ainda damos um pezinho de dança ao som da Ana Malhoa. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



Podem ouvir e subscrever o podcast nas seguintes plataformas:
Deixem sugestões e perguntas em sembarbasnalingua@gmail.com.
Ler mais...