25 de julho de 2017

Blogs do ano 2017 - Desta fico só a ver



Para quem não sabe, este ano haverá novamente a entrega de prémios dos Blogs do Ano por parte da Media Capital. Só para dizer que me vou armar em Miss e que prefiro entregar a coroa a outra pessoa do que voltar a concorrer. Sinto que é justo que eu me afaste para que outros possam vencer. Isso e porque se concorresse outra vez e não ganhasse iria amuar. 

Sinceramente, nunca pensei ganhar da primeira vez, ainda para mais não sendo eu da casa  - o meu blogue está alojado no SAPO e não na Media Capital Digital - e pensei que isto fosse uma das muitas entregas de prémios em Portugal onde já está tudo comprado e decidido à partida. Não foi o caso e por isso dou os parabéns à Media Capital - não que eu fosse o único que merecesse ganhar, mas por terem sido isentos - e deixo aqui o apelo para todos os que têm blogues ou vlogs para concorrerem que pode valer a pena. Depois de anunciar essa decisão à organização e as minhas razões, foram amáveis o suficiente para me convidar para fazer parte da decisão na categoria de Blog Revelação, feita para premiar blogues com menos de um ano de idade. Por isso, já sabem, se têm um blogue há menos de um ano e quiserem participar, só têm de se inscrever aqui:


Não vale a pena enviarem nudes por mensagem para me subornar, mas podem fazê-lo na mesma só porque sim que eu não me oponho. Ficam é já a saber sou incorruptível e que só eu é que vou ficar a ganhar com isso.

Parabéns à Media Capital por continuar a apostar no digital e boa sorte a todos os que concorrerem, embora a sorte aqui não sirva de nada, porque o que conta é a qualidade ou serem da Buraca o o pessoal dar-vos o prémio por medo de represálias. E, mais uma vez, obrigado a todos os que votaram em mim o ano passado e me deram o prémio na categoria de entretenimento e ao júri que votou em mim para o prémio geral. Sim, foi só para repetir que o ano passado limpei dois prémios. Ainda pensei fazer um de moda este ano para varrer essa categoria, mas olha, desta vez fico só a ver.
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23 de julho de 2017

Quem morre na praia é parvo



Hoje, venho fazer serviço público. Vendo que se anda a gastar dinheiro dos contribuintes para fazer campanhas nas praias para alertar para o risco de instabilidade das arribas, decidi dar o meu contributo. A minha campanha de sensibilização passa por insultar toda a gente que ignora os avisos de perigo e se vai recostar na bela da arriba só porque bate menos o vento ou se tem sombra natural. Sou apologista que a selecção natural é cruel e que devemos ter uma sociedade que não assente em princípios darwinianos e da lei da selva, mas, no entanto, a selecção natural é necessária se quisermos passar para um patamar superior enquanto espécie. Não há nada de mal em preferirmos estagnar neste estágio de evolução, desde que percebamos as consequências e não nos queixemos, mais tarde, de haver tanta gente burra a sobre popular o planeta. Portanto, nos dias de hoje, em que a informação está acessível a todos, depois de várias notícias sobre mortes em anos transactos, basta visitar uma praia para ver muita gente de papo para o ar encostadinha a uma escarpa. Quem são estas abéculas que decidem colocar a toalha mesmo debaixo de um monte de calhaus periclitantes? No meu entender, dividem-se em três categorias: os burros; os destemidos; os matemáticos.

Vamos por partes: os burros.
Não é preciso ter grandes conhecimentos sobre física e geologia para perceber que ali há perigo, até porque está lá a placa a avisar. Basta olhar para os calhaus que estão cá em baixo e fazer a pergunta «De onde terá vindo esta pedra gigante com várias toneladas que se enterrou aqui na areia?». Não me parece um mistério como a construção das pirâmides de Gizé e basta olhar em redor para perceber que do mar não devem ter vindo. Claro que talvez esteja a ser ingénuo à espera de raciocínios lógicos por parte destas pessoas que, se calhar, pensam que as rochas das praias do Algarve vieram desde Marrocos ao sabor da corrente marítima. Talvez lhes seja muito difícil inferir que só pode ter sido resultado da erosão da arriba que fez os pedregulhos aterrarem ali. Depois, não é preciso saber que a aceleração da gravidade na terra é de 9,8 metros por segundo quadrado, para perceber que a rocha em questão não caiu como uma pena, nem veio a rolar delicadamente pela encosta a pedir com licença à moleirinha dos banhistas. Aquilo caiu com força e mesmo que não tenha atingido uma grande velocidade de ponta, a sua massa faz com que possua uma energia cinética capaz de esmigalhar um tenro corpo humano, por muito definido do ginásio que seja. De notar que muitas das pessoas que se colocam nesta situação de perigo gostam de se besuntar em óleo pensando, talvez, que as pedras batem nelas e escorregam para o lado. Os burros compõem a maioria das pessoas que se metem a jeito na praia e, permitam-me dizer embora não desejando a morte a ninguém, que merecem um bocadinho que lhes caia uma pedra solta de 500 quilogramas na nuca.

Os destemidos
Nada a dizer. Não tens medo da morte porque «calha a todos» e «o que aconteceu tinha de acontecer» tudo bem. É a tua forma de viveres a vida de maneira a que não tenhas de te responsabilizar por nada. Morre para aí, mas vê se não deixas cá pessoas a sofrer pela tua irresponsabilidade.

Os matemáticos 
Quais são as probabilidades de morrer nestas condições? Se calhar, menos do que andar de carro ou de morrer engasgado, não sei, mas um gajo tem de ir de A a B sem ser a pé e também tem de comer. Ir para debaixo de uma arriba é brincar com as probabilidades e toda a gente tem direito a fazê-lo, mas depois não me venham dizer que é uma tragédia. É só gente que morreu de forma parva e evitável. É como o pessoal que morre afogado com a bandeira vermelha ou que morre comido por um tubarão onde há sinais a alertar para esse perigo. Temos pena. Jogaste com as probabilidades e ganhaste o Euromilhões da morte.

Haverá uma fatia mínima das pessoas que não caem em nenhuma destas categorias e que apenas são desinformadas ou distraídas e que são as únicas às quais as campanhas de alerta podem servir para alguma coisa. São um bocadinho burras, mas têm desconto.

Agora, pergunto: se multamos as pessoas que não usam cinto de segurança, porque não multamos as pessoas que se colocam em perigo desta forma?

Penso que está previsto na lei, mas nunca - ou quase - foi aplicado. Isso ou obrigá-los a usar capacete. De mota, és multado se andares com os cabelos ao vento, mas ali ainda te vão sensibilizar e dizer «Sabia que estar aqui é perigoso?». Espanta-me a condescendência com as pessoas que escolhem ser burras. Especialmente os pais com os filhos que estão preocupados em besuntá-los com creme protector factor total e depois lhes dizem para se irem abrigar junto ao sopé da falésia. Parece-me óbvio que esta gente devia ser multada nem que fosse para pagar o dinheiro público que se gasta nas campanhas de prevenção e na remoção dos corpos quando acontece um acidente. Por tudo isto, tenho uma sugestão: sempre que alguém morrer soterrado deixem-se ficar os corpos e o funeral fica já feito. Não vale a pena mexer. Desenterrar um cadáver para depois voltar a enterrar é um desperdício de tempo e nos dias de hoje há que ser pragmático. Com sorte, as cruzes e as flores colocadas pelos familiares servirão de melhor alerta para os outros cidadãos burros e em vez de se gastar dinheiro o estado ainda lucra com o IVA das flores e do carpinteiro, se ele passar factura. Tudo isto com a vantagem de tornar os funerais bem mais alegres já que a família, depois de chorar sobre o leite derramado, pode ir dar um mergulho, tornando os versos de Fernando Pessoa «Ó mar Salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?» numa pergunta pertinente.

Se quiserem partilhar o alerta ou identificar alguém que se costume meter encostado às arribas, estão à vontade. O meu alerta está dado, mas eu fumo (estou a deixar), por isso não sou ninguém para falar de gente burra que mete a vida em risco. Vocês é que sabem da vossa vida.
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19 de julho de 2017

Ciganos, homofobia e padres pedófilos - Podcast #14



Neste que é o último episódio da primeira temporada do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre o caso dos André Ventura vs. Ciganos, do Gentil Martins vs Gays e Ronaldo, religião e padres pedófilos e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



Podem ouvir e subscrever o podcast nas seguintes plataformas:
Obrigado a todos os que ouviram e partilharam a primeira temporada. O podcast volta em Setembro se Deus nosso senhor quiser.
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18 de julho de 2017

Ninguém quer um bairro de ciganos perto de casa



Isto anda bonito. De repente, parece que voltámos a 1970 onde a discriminação era uma espécie de calças à boca de sino em que toda a gente usava e, pior, se orgulhava disso. Depois do caso dos polícias na Cova da Moura acusados de racismo e tortura, tivemos o Gentil Martins a dizer que a homossexualidade era uma anomalia e, agora, temos o candidato do PSD/CDS, André Ventura, a xingar os ciganos na praça pública. Sobre homofobia e racismo já escrevi várias vezes, mas sobre ciganos nunca opinei. É um assunto complicado até porque tenho medo de ser mal interpretado e levar uma chinada no lombo de quem acha que os ciganos deviam morrer todos. Fintei-vos bem.

A minha vista na Buraca eram barracas dos ciganos. Depois, mudou e passaram a ser prédios de ciganos. Subiu um bocado o IMI, mas a zona ficou melhor mostrando que dar o mínimo de condições a quem tem pouco ajuda a resolver problemas. Tive dois colegas ciganos na escola: um era fixe e dava-me bem com ele, o outro espetou-me uma lapiseira na mão só porque era segunda-feira. Como o gajo era do SASE isso significa que aquela lapiseira que usou para me agredir tinha sido comprada, em parte, com os impostos dos meus pais. É como os americanos que morrem às armas do Estado Islâmico. Como podem ver, a minha experiência com ciganos é 50% positiva e, para mim, isso é uma boa média já que mais de metade das pessoas não-ciganas com as quais vou convivendo, não são pessoas decentes. Para além desta vasta experiência, toda a minha vida vesti roupa da Feira de Benfica comprada aos ciganos. Ainda hoje tenho muita. Já me fizeram cara feia em lojas caras quando fui trocar ou devolver uma peça de roupa, mas nos ciganos o máximo que acontecia era a minha mãe fazer mais peixeirada do que os ciganos e vencê-los por insistência.

Ciganos não é um assunto que esteja no topo das minhas preocupações. Preocupo-me com a morte, minha e dos meus entes queridos, com o futuro em termos de trabalho, com o chegar a velho e ter dinheiro para uma velhice digna neste país que ameaça falir, etc. Nunca me sinto ansioso e penso «Se não fossem os ciganos a minha vida até era feliz.» e olhem que tenho um bairro de ciganos a 200 metros de casa e passo no meio deles todos os dias para estacionar o carro porque é a única zona onde não meteram parquímetros porque lá, ao que parece, chamam-lhes «Aquelas máquinas estranhas que dão moedas.». É isso que me parece estranho: as pessoas estarem preocupadas com os ciganos. Por cada cigano que não declara rendimentos há 10 taxistas que metem tarifa 3 a um turista. Por cada cigano que não faz descontos há 100 donos de cafés que dizem que o multibanco está avariado para no final do mês declararem o ordenado mínimo. Por cada cigano que recebe o Rendimento de Inserção Social há 230 brancos, de fato e gravata, que recebem viagens e ajudas de custo para passearem com a família às nossas custas. Por cada cigano que não desconta há 10 pessoas que fazem spoilers do Game of Thrones e reparem que eu nem vejo isso, mas percebo a gravidade da situação. Preocupam-me mais os Ricardos Salgados deste país do que os Ricardinos Salganhadas. Nunca ouviram um político dizer «Portuguesas e portugueses, vamos ter de aumentar o IVA e o IRS para equilibrar as contas públicas por causa dos bancos que tivemos de resgatar e por causa dos ciganos.».


Está toda a gente indignada (e bem) com os comentários do André Ventura, mas o que é certo é que ninguém quer um bairro de ciganos ao pé de casa.

O problema do André Ventura não é ter dado a sua opinião que, do pouco que li, até pode ter algum fundamento. O problema é que o André Ventura não está no café a conversar com os amigos! É candidato político das autárquicas e está a fazer apenas e só uma coisa: campanha populista. O populismo já é bem javardolas, mas quando se auxilia de xenofobia e discriminação ainda pior. Acham que ele convive com ciganos lá nos comícios do PSD e do CDS? Ele só disse o que disse à caça do voto do povo que pensa «Ciganos? Era matá-los.». Por isso, ele não pode dar a sua opinião e esconder-se debaixo da alçada da liberdade de expressão porque ele tem responsabilidades políticas. Um gajo dizer o que ele disse num tasco é uma coisa, num palanque e amplificado pelos media roça a discurso de ódio e propaganda xenófoba. Eu percebo que as pessoas sintam comichão: compras a tua casinha em Entrecampos ou na Avenida do Brasil, dás bom dinheiro e pagas bom IMI por aquilo e, de repente, tapam-te a vista com um prédio social onde realojam famílias ciganas. Claro que percebo. Fizeste um dos investimentos mais importantes da tua vida e aquilo desvaloriza num instante. Dás 200 ou 300 mil euros por uma casa numa zona privilegiada e, de um momento para o outro, sabes que tens como vizinhos pessoas às quais lhes ofereceram as casas ou pagam 20€ de renda. Contudo, se te dessem a escolher, trocavas? Trocavas a tua vida, o teu trabalho, a tua etnia, para ir morar para aquele bairro, trabalhar na feira ou não fazer nada e ganhar o RSI? Não trocavas, não é? Então, pronto, o privilegiado és tu e não eles. A pior coisa que um cigano me fez foi parar o carro ao meu lado a ouvir Despacito no volume máximo. Confesso que nessa altura proferi vernáculo xenófobo, mas toda a gente tem o seu limite.

Depois, nestas coisas de catalogar as pessoas pela etnia há um grande problema: quem realmente sofre são as pessoas dessa etnia que tentam levar uma vida decente e cumpridora. Até me podem vir dizer que há só meia dúzia de ciganos que são bons cidadãos - spoiler alert: há mais - que isso não pode dar direito a um político de rotular todos pela parte pior, mesmo que essa parte seja grande. Isso só faz com que se tire a vontade dos bons continuarem a ser bons e sem bons exemplos dentro da comunidade, nada muda. Há que haver a presunção de inocência para todos, por isso, pensem que um cigano é um Quaresma até prova em contrário.

Agora, é óbvio que a cultura cigana tem alguns problemas. O problema não é a etnia, a "raça", ou a genética, mas sim a cultura. As culturas têm problemas e embora seja de valorizar que os ciganos se orgulhem das suas raízes, há que não ter problemas em assumir que há coisas que não estão certas ao olhos moldados pela sociedade onde vivemos. Muitos ciganos querem o melhor de dois mundos: receber do estado e viver à margem da lei, sem respeitar coisas tão simples como manter as crianças na escola até ao 12º, especialmente as raparigas e todos sabemos que não há sociedades evoluídas sem emancipação e educação no feminino. Claro que há muitos ciganos assim, mas é preciso perceber a carga histórica e que a ostracização de séculos não se apaga em algumas décadas. Queiramos admitir ou não, todos guardamos um pouco de preconceito para com os ciganos e isso acaba por nos obrigar a sermos contidos quando os criticamos. É igual com os gordos. Quantos de vocês conhecem em detalhe a história da etnia cigana, a sua origem, tradições e valores, e as perseguições a que foram sujeitos ao longo de anos e anos? Eu não. E, atenção, que eu não estou a defender criminosos, ciganos ou não, quem vive na impunidade deve ser julgado e condenado, mas é preciso perceber que há culpa dos dois lados e que há atenuantes.


Um gajo que rouba milhões para comprar casas em Paris não é a mesma coisa que um gajo que vende louro prensado no Rossio para comprar um boné da Lacoste.

Claro que também gostava de ter essa impunidade. Até ver, de ambos os casos. Aquele célebre caso da Quinta da Fonte onde se vê pessoal aos tiros reforçou essa impunidade, aparente ou não, dos ciganos. Vai lá tu, menino branquinho e de olhos azuis com o teu pólo da Quebramar desatar aos tiros no meio da rua a ver se não te acontece nada. Mas quantos brancos já saíram impunes de muitos crimes? Uma coisa é certa, se fores a tribunal, de certeza que te safas melhor se fores branco e tiveres um bom advogado. Só nos Malucos do Riso é que o Camacho Costa a fazer de cigano se safava sempre.

É óbvio que existe um medo generalizado dos ciganos e que esse medo vem de sabermos que eles são, em muitos casos, meninos para resolver os problemas chamando a família toda para a festa. Claro que há muitos que andam armados, por exemplo, ainda no outro dia, mesmo ao meu lado, um ameaçou dar um tiro num gajo que estava passear o cão perto de um prédio de ciganos. Como podem ver, era um cigano asseado e que prezava pela higiene e limpeza da sua praceta. Uma urina de cão é razão para desatar aos tiros? Não, e foi a acreditar nisso que o rapaz lhe fez frente e o cigano gritou e gritou, mas não deu tiro a ninguém. Se eu soubesse que as pessoas tinham medo de mim, também fazia altos bluffs. Sei de casos de assistentes sociais que eram corridos à pedrada e à cuspidela dos bairros de ciganos só porque iam lá fazer o trabalho delas e, muitas vezes, tentar ajudá-los. Por tudo isto, é claro que a comunidade cigana tem muitos problemas e focos de criminalidade. Mas, surpresa, também a comunidade branca, preta, e vegana. Onde há pessoas, há merda e a merda, venha de que raça ou etnia vier, cheira sempre mal e tem a mesma cor.

O que era mesmo fixe, é que as pessoas que defendem tanto os ciganos depois não as discriminassem quando elas se candidatam às suas empresas. Se vocês acham que é difícil arranjar emprego com um curso de sociologia, deviam experimentar ser ciganos. Isso é que era, porque criticar, com unhas e dentes, quem diz mal dos ciganos, na prática, não resolve nada. O que resolve é darem a cara quando têm oportunidade de mostrar que são mesmo pela justiça social. Comprar uma camisola da Nick e uns ténis da Ardidas na Feira do Relógio não conta como ajuda, lamento. No dia em que as oportunidades forem todas, mas todas, iguais para os ciganos e os não-ciganos, tanto as dadas pela sociedade como dentro da cultura deles, e as coisas não forem ao sítio, podemos ter a certeza que a culpa é só deles e aí sim, dar-lhes uma ilha onde eles fazem as próprias regras e pescam robalos com louro prensado como isco. Até lá, até podemos não gostar deles e não os querer por perto, mas temos de assumir que a culpa é, também, muito nossa. Lembrem-se que mesmo quem defende os ciganos não quer ter um bairro de ciganos perto de casa, e isso diz tudo sobre o que é ser-se cigano: nem mesmo os que te defendem te querem por perto. Agora pensem o que é viver assim.
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12 de julho de 2017

Racismo, Truques, One nigth stands - Podcast #13



No episódio de hoje do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre o caso de racismo na Cova da Moura, jornalistas e a polémica com os Truques da Imprensa Portuguesa, one night stands e o vício dos telemóveis. Ainda há tempo para as coisas que nos fazem comichão em que ofendemos quem envia mensagens enquanto conduz e quem ouve música no telemóvel sem auscultadores. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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Diário do Bernardo - Parte 3 - Época de exames



Tive acesso a mais um capítulo do diário do Bernardo, menino que foi transferido do colégio privado para a escola pública onde se teve de misturar, pela primeira vez, com gente pobre e que só toma banho uma vez por semana com sabão azul. Depois do relato chocante sobre os primeiros dias de aulas no primeiro e no segundo período, eis que chega o final do ano e a época de exames.

11 de Junho
Este ano foi o pior da minha vida! Até a viagem de finalistas, evento pelo qual ansiava há anos, foi um fiasco. Sugeri aos meus colegas irmos todos para uma estância de ski, mas disseram que não. Sugeri Ibiza em resort de regime tudo incluído, mas também não quiseram. Acabámos por ir para Torremolinos... em Espanha! Toda a gente sabe que ir a Espanha não é bem viajar, pelo que isto foi apenas um Passeio de Finalistas. Ainda por cima, acabou demasiado cedo porque houve desacatos no Hotel onde partiram tudo. Foi uma turma da Damaia que devem ser de famílias com posses em que os papás lhes pagam tudo o que eles estragam.
Note to self: Pedir ao papá para aumentar a semanada para o dobro, 2000€, para me poder divertir sem restrições.

19 de Junho
Desta vez tive de estudar para o exame de português porque só tive 10 na nota final do período. No meu colégio antigo os professores eram muito mais justos e bastava os meus pais darem um envelope ao professor para se ter um 20. Os professores desta escola não valorizam o facto de os meus pais terem trabalhado imenso a vida toda para ter dinheiro e pagar a educação dos filhos. Enfim, é o ensino público que temos.

22 de Junho
Parece que o exame de português pode vir a ser repetido porque alguns alunos tiveram acesso a informação confidencial que uma explicadora deu a uma aluna. Acho inadmissível que este tipo de informação se espalhe desta forma sem qualquer tipo de controlo! As minhas explicadoras sempre me deram informações confidenciais e eu nunca contei a ninguém! Para quê contar e colocar o bom nome da explicadora em causa e, pior, colocar todos os alunos em pé de igualdade? É aqui que começa um dos grandes males da sociedade.

25 de Junho
Ontem foi o meu aniversário. Convidei todos os meus colegas para ir jantar ao Belcanto e ninguém apareceu. O Wilson disse que ia se pudesse levar um tupperware com o jantar dele, mas sabendo que ele tem solário em casa - relembro que está muito bronzeado o ano inteiro - e pertence ao clube restrito do SASE, tive medo que me envergonhasse e levasse comida do restaurante Loco que foi eleito o melhor de Portugal este ano.
Note to self: Exigir ao papá que para o ano me marque o aniversário no Loco que é para ver se os meus colegas vão.

30 de Junho
Vou ter de fazer alguns exames em 2ª fase. Os meus pais não confiam, e bem, no ensino público e, por isso, pagaram explicações a todas as disciplinas para que eu tivesse boas notas no terceiro período. Incrível a diferença de qualidade de ensino já que eu no colégio conseguia ter média de 19 sem quaisquer explicações. Aqui, uma pessoa desaprende e desmotiva com notas tão baixas no período e chega aos exames e ainda tem pior nota. Os meus pais sempre me disseram que o que é barato sai caro e é por isso que me ofereceram um Mercedes SLK novo nos anos.

7 de Julho
Hoje fui ao festival Alive. Perguntei aos meus colegas se também iam, mas nenhum deles vai. Disseram que era porque o bilhete era muito caro, mas seu senti ali uma pontada de ironia como que a dizerem-me que festivais de verão em Portugal são coisa de pobre que gasta o dinheiro onde não deve. Aposto que vão todos para o Coachella e para outros festivais melhores no estrangeiro. Acabei por não ver nenhuma banda, mas o ambiente foi bom.

9 de Julho
Falei com os meus colegas sobre as férias. O Rafael vai passar duas semanas para a Fonte da Telha, a Verónica vai uma semana para Portimão, e o Xavier diz que não vai ter férias e fica a trabalhar no café dos pais. Enfim, cunhas. Disse-lhes que ia passar 3 semanas às Caraíbas e eles olharam com um desdém de quem já lá foi e não gostou.
Note to self: Pedir ao papá para alterar as férias para o resort de luxo da Fonte da Telha.

10 de Julho
O baile de finalistas até foi engraçado. Teve o tema de músicas do mundo, mas só passaram kizomba. Convidei a Jéssica para ser o meu par, mas ela disse que estava grávida e que tinha de ir com o pai da criança. Falei com a Andreia e ela disse-me que estava grávida e que ia com a Jéssica e o pai das crianças. Ao que parece o pai era o Wilson! Enfim, quando se tem posses é fácil ter muitos filhos porque há sempre uma ou duas amas que cuidam deles.

12 de Julho
Agora começa o grande dilema que é escolher a universidade. Pública está fora de questão pois só me interessava medicina, mas por me terem mudado para esta escola piorei a minha média e por apenas 8 valores (8!!!) que não vou conseguir ser médico. Ser médico era o meu sonho de criança desde que me lembro de o meu pai dizer que era o que eu tinha de ser quando fosse grande. Por isso, a minha mãe diz que o melhor é tirar um curso de gestão numa faculdade privada e depois enviar currículo para a empresa onde ela trabalha como CEO. O papá diz que o melhor é fazer o que um amigo dele fez que é tirar o primeiro ano numa faculdade menos exigente e depois ir para a Lusófona e pedir equivalências e assim poupo uns anos.
Note to self: se for para a Lusófona é melhor ter aulas de natação primeiro.

Um relato arrepiante. Deixo, novamente, o apelo a todos para que partilhem o terceiro e último episódio da epopeia do Bernardo na escola pública. Alertem para este flagelo. #PrayForBernardos
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