18 de setembro de 2018

Racismo e Mamona, atracção física, humanos do futuro



No episódio desta semana falamos sobre discriminação na entrada das discotecas, racismo e Patrícia Mamona, atracção física, carros e humanos do futuro e muito mais.  É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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17 de setembro de 2018

Pesadelo recorrente: ainda não acabei o curso



Tenho dois pesadelos recorrentes. O primeiro é que matei alguém, escondi o corpo e vivo em constante pânico de ser preso. O segundo, muito mais aterrador, é quando sonho que ainda me faltam cadeiras para acabar o curso.

O cenário é sempre o mesmo: vou à secretaria pedir o diploma e dizem-me que, afinal, ainda me faltam cadeiras para terminar o curso. Neste momento, instala-se o pânico e penso "O quê? Eu já nem sei estudar, há cadeiras que fiz sem saber como e só tenho a explicação da providência divina e agora ainda tenho mais para fazer?". O sonho torna-se num pesadelo e o desespero faz-me ponderar o suicídio já que nunca é uma cadeira simples de encher chouriços! É sempre um dos cadeirões com projectos complicados ou daquelas que passei apenas porque os planetas estavam todos alinhados e o professor tinha recebido um felácio e estava de bom humor. No meu caso, que tirei engenharia informática, costuma ser a cadeira de Sistemas e Sinais ou de Redes de Computadores que, ironicamente, me foram ensinadas por professores que só teriam felácios a troco de compensação monetária, o que pode explicar a grande concentração de prostituição à volta do Instituto Superior Técnico.

Há quem recorde com saudade os tempos de faculdade e há quem tenha estudado no IST. 

São dois grupos cuja única intersecção são os nerds da primeira fila que iam à segunda data de exame fazer melhoria porque só tinham tido 19. Já escrevi várias vezes sobre a minha experiência nessa bonita instituição e, por isso, não me vou alongar muito e quem quiser ler ou reler ficam aqui estes links - A vida de um estudante de engenharia; Ser engenheiro informático tem glamour; O que realmente aprendi na universidade - mas resumindo: aprendi muito e teve bons momentos, mas o mesmo dirão os soldados que estiveram no Iraque.

Voltando ao pesadelo recorrente. Quando acordo, empapado em suor e virado ao contrário na cama de tanto espernear, ainda fico, durante uns minutos, naquele limbo entre o sonho e a realidade em o meu cérebro debate consigo mesmo, tentando acordar a parte responsável pela lógica que está desligada durante o sono REM, que é quando sonhamos. O meu cérebro tem este diálogo quando acordo desde pesadelo:

- E agora? Como é que vou acabar o curso?
- Ó burro, já acabaste o curso há oito anos!
- Não acabei, não, falta-me uma cadeira que o senhor disse.
- Foi um sonho!
- Será? Parecia mesmo real.
- Foi, já nem trabalhas em informática.
- Não?
- Não, agora escreves merdas na Internet e fazes stand-up, mesmo que não tivesses acabado o curso, se tudo correr bem já não precisas dele.

Ufa. Apercebo-me que foi tudo um sonho e há uma sensação de alívio e paz que só deve ser comparada à de vermos a nossa amante a dar à luz um filho que dizia ser nosso, mas que vai-se a ver e nasceu com traços de índio Cherokee.

Falei com um especialista de interpretação de sonhos e ele disse-me que este pesadelo recorrente significa que não gostei do curso. Pedi o meu dinheiro de volta e dei-lhe uma chapada na moleirinha por estar a constatar o óbvio. No entanto, gostei muito do meu 12º ano e também costumo sonhar que ainda não o acabei e nunca é agradável: apercebo-me tarde, quase que como se me esquecesse que ainda o tinha para fazer e quando dou por ela já faltei a muitas aulas e testes e já não o consigo acabar. Andei na secundária D. João V na Damaia, o que também pode explicar muita coisa. Talvez quando tiver 70 anos, estes pesadelos se tornem em sonhos nostálgicos porque a morte está mais perto. Ficou profundo, agora. Chupa Chagas Freitas.

Ao contrário do que seria de esperar, a recorrência deste pesadelo tem vindo a aumentar, e diria que o meu inconsciente decide fazer-me uma trollagem, pelo menos uma vez por mês. Talvez seja porque no último ano todas as semanas tenho de ir ao IST gravar o podcast Sem Barbas Na Língua; dizem que não devemos voltar a um sítio onde fomos felizes e por isso não há problema. Não me interpretem mal, gostei de lá estudar, mas só porque já não estudo lá, percebem? Até sinto alguma falta de aprender coisas novas a fundo e até me meteria num curso novo se tivesse tempo para isso, mas a perspectiva de ter de tirar novamente engenharia informática causa-me arrepios que descem pela espinha.

Como é óbvio, sendo uma pessoa minimamente inteligente, não acredito que podemos ver o futuro nos sonhos, caso contrário já teria feito uma orgia com as modelos da Victoria's Secret e a minha namorada nem tinha ficado chateada, mas a verdade é que no dia que fui à secretária pedir o meu certificado de habilitações, uns três anos depois de ter entregado a minha tese de mestrado (no primeiro trabalho que tive não me pediram provas de ter acabado o curso porque eu transmito muita idoneidade), o rapaz que lá estava deu uma olhadela para os meus dados no computador e disse-me "Ainda lhe faltam créditos para terminar, certo?". Devo ter ficado pálido e belisquei-me para ter a certeza de que não estava a sonhar. Seguiu-se esta conversa:

- Hum... acho que não, até tenho a mais.
- Aqui diz que faltam dez créditos.
- Pois, mas tem de estar mal. - digo, ponderando já o homicídio em massa ou o suborno. - Não há aí um processo de equivalências por causa da confusão de Bolonha?
- Ahhhh, está aqui sim, até tem créditos a mais, é verdade.

Há erros que não se cometem. Uma coisa é trocar o pénis por uma vagina a um paciente que só precisava de tirar uma verruga do ânus, outra é dizer a um aluno - especialmente se ele for do IST - que, ao contrário do que pensava, ainda não acabou o curso.

Isto é cutucar um ninho de vespas com a pila. Os gajos de Columbine mataram 13 pessoas por menos!

Passou, foi giro, rimo-nos, e até lhe sugeri que começasse a pregar esse susto a todos os alunos. É preciso um gajo divertir-se no trabalho, especialmente se esse trabalho for no mesmo local que causa pesadelos a tanta gente. Por isso, já sabem, se vos acontecer, podem estar a sonhar ou pode ser uma partida que eu iniciei. Podem agarrar-se a isso até perceberem que, afinal, ainda vos falta mesmo meio crédito para terminar o curso.
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11 de setembro de 2018

Idiotas na Internet, Regresso de Louis CK, Redes sociais e censura



Estamos de volta depois de umas merecidas férias. No episódio desta semana fazemos um resumo do que mais relevante se passou durante Agosto, falamos sobre as idiotices das redes sociais, psicopatas à portuguesa, o regresso de Louis CK, o boicote à Nike e Le Pen e muito mais.  É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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10 de setembro de 2018

Serena Williams: mau perder ou sexismo?



Estão todos a par da polémica com a Serena Williams? Resumindo: recebeu um aviso por ter recebido instruções do seu treinador na bancada (algo que é ilegal no ténis), depois levou um ponto de penalização por partir uma raqueta no chão e, finalmente, recebeu um jogo de penalização por ter chamado ladrão ao árbitro, entre outras coisas. Ela afirmou que foi por ser mulher e que se fosse um homem não seria tão penalizada. Sexismo ou mau perder?

Será que o árbitro foi mais rigoroso por ela ser mulher? É possível, não digo que não. É possível que um mecanismo inconsciente no cérebro daquele homem branco o tenha levado a ser mais rígido por estar a ser insultado em voz alta por uma mulher negra. Ainda por cima, uma mulher que tem caparro suficiente para lhe acertar o passo, fazendo com que possa ter agido por se sentir inferiorizado. No entanto, talvez tenha sido só porque a Serena infringiu as regras e ele, como árbitro, aplicou a lei como lhe compete. O seu treinador admitiu o erro e o abuso verbal é evidente, exigindo um pedido de desculpas e chamando o árbitro de ladrão.

Se é sexismo, não conseguimos provar, mas o que sei é que se fosse um jogador masculino a gritar e insultar daquela forma uma árbitra feminina, era logo acusado de sexismo e discriminação.

A Serena é uma das melhores atletas de sempre e parte do que a faz ter sucesso é a sua vontade e paixão pelo jogo o que implica extravasar em alguns momentos. Não é o primeiro caso, já havia ameaçado de morte um juiz de linha, dizem, no mesmo torneio e perdido um jogo de maneira semelhante. Ela diz que sempre que vai ao US Open acontece o mesmo, e sendo que joga em casa, se acontece sempre o mesmo, talvez o problema seja dela. Talvez a Serena precise de ser mais serena. Trocadilho muito forte. Não a  condeno pois não sei o que é ser atleta de alta competição e ter de lidar com situações de stress com os olhos postos em nós, por isso desculpo-lhe a atitude até porque podia estar com o período ou com tensão pré-menstrual ou na fase de ovulação. As mulheres têm desculpas hormonais para todas as fases do mês.

As desculpas da Serena são as mesmas que os putos dão na escola primária e cujo argumento se resume a "Mas o Joãozinho já fez igual e não levou reguada". As regras existem para todos e se houve quem passasse incólume noutras situações, isso não é desculpa para fazermos igual. Quando recebi uma multa de excesso de velocidade, também liguei para a polícia e disse "Mas toda a gente anda a mais de 120km/h na autoestrada e nem todos são multados, por isso penso que não mereço a multa. É por eu ter um Clio cinzento? Racista!". A chamada, estranhamente, caiu.

Este árbitro já perdoou situações iguais, várias vezes, a tenistas masculinos? Só se for esse o caso é que poderíamos estar a falar de algum tipo de discriminação e, mesmo assim, todos temos dias em que estamos mais flexíveis relativamente ao comportamento dos outros e isso pode não ter nada a ver com a genitália que apresentam entre as pernas. Partir do pressuposto que é por ela ser mulher é uma vitimização que só prejudica o feminismo. Para haver igualdade temos de nos responsabilizar e assumir os erros. No meio de tudo disto, a vitória da sua adversária, também mulher e negra e com o bónus de ser asiática, ficou ofuscada.

Os gritos de muitas pseudo feministas têm este condão: o de prejudicar as vitórias das outras mulheres que lutam e não se queixam tanto.

Claro que este caso acende a chama dos pequenos Hitlers que habitam nos alter-egos digitais das pessoas. Basta percorrer os comentários de algumas das notícias para percebermos que o racismo e machismo ainda está na moda, especialmente em pessoas com fotos mal tiradas devido à pouca luz que têm na sua caverna. Contudo, sejamos honestos e admitamos que todos os desportos são um bocadinho machistas, até porque os homens são melhores do que as mulheres em em todos os desportos (já vou ser acusado de sexismo por pessoas que ficam com dói-dói com os factos), o que atrai mais espectadores para os desportos masculinos, criando uma discrepância de vários factores, inclusivamente no respeito com que se olha para os atletas. Isto só vai mudar se forem criados desportos ajustados à biologia das mulheres, como por exemplo um triatlo em que depois de correrem têm de arrumar a casa e preparar uma sandes. Ou uma corrida de estafetas em que em vez de passarem um testemunho têm de passar uma cusquice que ouviram no café.

O único sexismo que vejo neste caso é o facto de lhe estarmos a dar atenção. Se tivesse sido um homem a refilar com um árbitro, a notícia passava despercebida, mas vemos uma mulher a levantar a voz e, como não estamos habituados a não ser das nossas mães e namoradas, achamos estranho e decidimos criticar. Se calhar somos todos sexistas, a começar pela Serena que puxa dessa carta para desculpar o seu mau perder.
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4 de setembro de 2018

Madalena Menezes, a nova sensação da Internet



Para quem não conhece, a dona Madalena ficou recentemente "viral", curiosamente em ambiente hospitalar, com um vídeo que publicou no seu Facebook quando, supostamente, foi acompanhar o seu irmão doente, que afinal tinha tido um acidente na mão, que afinal não estava com ela, mas já lá vamos. O vídeo foi visto e partilhado por milhares de pessoas, bem como alguns dos seus vídeos anteriores, onde se percebe, claramente, que a dona Madalena é uma pessoa especial. Uma pessoa que canta e que dança, muito expressiva e que parece, à falta de melhor palavra e num tom não pejorativo, uma tolinha. A Madalena Menezes é a filha da mítica dona Helena que estava de roda de uma fogueira tão linda, glaças a Deuze. Tenho a certeza, ora vejam.

Ao contrário do que se pensa, a linha entre a piada e o bullying não é ténue já que pode existir bullying com muita piada.

Não tenho qualquer problema em fazer piadas com a dona Madalena, mas é um bocado fácil, tal como o é com a Maria Leal, com a diferença que esta expôs o seu trabalho e "talento" na televisão nacional e, por isso, tem de aguentar. No caso da Madalena, parece-me que nem tinha bem noção de como funcionam as redes sociais. A maluquice da senhora não incomoda ninguém, pelo contrário até nos faz rir, embora não seja COM ela, mas com o riso e a viralidade, veio o comburente da redes sociais: o ódio. As ofensas a constatar o facto óbvio de ela parecer meio tolinha foram o lugar comum dos comentários às partilhas do vídeo.

Uma rápida pesquisa pelo seu perfil de Facebook e percebemos que é daquelas senhoras que tem a mesma foto de perfil com cinquenta versões diferentes com molduras e filtros foleiros para todas as ocasiões festivas ou só porque é segunda-feira. Comenta com verborreia de emoji e animações de gatinhos com corações. No fundo, a dona Madalena é um bocado todas as nossas mães. Sabemos que a senhora é tolinha porque se isto fosse uma personagem ao estilo Borat, feita por uma humorista, seria do mais genial que já havia sido feito até hoje e uma, como dizem os YouTubers, mega trollagem ao público português. Infelizmente, não me parece o caso e acho que estamos só na presença de alguém que, para seu bem, não devia ter acesso a um smartphone.

Toda esta viralidade e ofensas em catadupa a uma senhora que não fez mal a ninguém é um fenómeno novo sobre o qual ainda não temos medidas para evitar, seja em jovens sem idade para perceber as consequências, seja em pessoas mais infoexcluídas que nem sabem bem o que estão a fazer com o telemóvel. Acho, sinceramente, que deveria existir um workshop de utilização de redes sociais para pessoas burras tecnologicamente. Se eu mandasse, até haveria licença para usar a Internet, na verdade, mas podíamos começar por um workshop gratuito e disponível para quem quisesse, no qual lhes seria ensinado, em poucas horas, o básico das redes sociais. Esta gente não sabe que se partilhar um vídeo ele não fica restrito ao seu círculo de amigos e facilmente pode extravasar da rede com a funcionalidade de partilha; esta gente não sabe que o vídeo pode ser retirado e colocado noutras redes, como no YouTube e que ficará lá para todo o sempre; esta gente não sabe, muitas vezes, que um comentário pode ser público para todos; esta gente não sabe que o anonimato da Internet é apenas aparente.

Como sociedade, temos uma atracção pela desgraça, uma curiosidade mórbida que partilhamos enquanto espécie: abrandamos para ver se vislumbramos feridos graves no acidente da outra faixa da autoestrada, por exemplo, e acredito ser o mesmo mecanismo psicológico que levou à viralidade da Maria Leal e desta senhora. Dar Internet a esta gente é como dar uma dar uma pistola a um bebé: podem aleijar-se sem terem culpa. Uma coisa são os putos estúpidos que se expõem para ter engagement, esses merecem um bocadinho o bullying, outra coisa é a Madalena que me parece que nem sabe o que isso é. Por muito maluca que ela seja, por muito desequilibro mental que possa ou não ter, mais malucos são os que lhe inundaram as caixas de comentários e lhe pediram amizade para lhe enviar mensagens com ofensas e dizer que devia ser internada e que envergonhava Lousada. Quem se deu a esse trabalho é que envergonha toda a espécie humana.


Este ódio todo pela maluquinha acontece porque as pessoas percebem que ela é mais feliz do que todos nós.

Na sua ingenuidade, ignorância ou distúrbio mental, está sempre a sorrir e não se importa com o ridículo e com o que os outros pensam. Esta liberdade faz dela um alvo a abater por toda a gente frustrada por esse mundo real e digital. Não estou a falar de quem se riu ou fez vídeos a imitar, como os do Herman e outros, ou de piadas ou do que quer que seja no ramo da paródia inofensiva, mas que pode ofender sem intenção, estou a falar dos tais que a foram achincalhar directamente a senhora para o seu Facebook só para se sentirem melhor consigo mesmos.

O irmão da dona Madalena já veio meter-se ao barulho, também em vídeo, dizendo que ela estava a mentir quando disse que tinha ido ao hospital com ele. O senhor tem falta de dentes e de uma mão e, pelos vistos, de parafusos pois já esteve internado por problemas psicológicos. A doença mental não tem piada, mas algumas pessoas com doença mental têm um bocadinho de piada, não vamos estar aqui a mentir. Nem que seja pelo alívio em forma de gargalhada de não sermos nós a passar pela vergonha de termos um vídeo nosso viral na Internet que nos faça parecer malucos. Eu ri-me por imaginar a animação que devem ser os natais daquela família de malucos. Percebe-se pelo último vídeo que a Madalena publicou que o caso a transtornou e nele nem se vislumbra um sorriso tolinho que víamos nos restantes. Parece, até, ter envelhecido dez anos em poucos dias; ameaça processar toda a gente que partilhou o vídeo e ajustar contas com Herman José que fez umas quantas paródias no Instagram. Isto de dizer que vai processar toda a gente prova ainda mais que ela não sabe muito bem como funciona a Internet e, em especial, as redes sociais.

Ela ainda lucrará com isto? É provável. Já foi à televisão, o que para ela deve ser como ganhar o euromilhões, e sou gajo para apostar dinheiro em como algum agente chulo falará com ela para lançar umas músicas. 

Sim, porque pelo que vi de alguns vídeos da dona Madalena a cantar, em termos vocais está muito perto da nossa preguiça desengonçada que dança como se estivesse a ter um ataque epiléptico. Ainda vamos ter notícias da Madalena, garanto-vos, e essas notícias vão chegar em forma de cancro auditivo - podem dizer que leram aqui primeiro esta previsão - e nós vamos ouvir, ver e partilhar, porque adoramos acidentes e desgraça alheia para nos sentirmos melhor com a nossa vida.
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3 de setembro de 2018

BBC Vida Nocturna - Safari na noite do Algarve



Cai a noite nas ruas do Serengeti Algarvio, mas podia ser de qualquer outro sítio com vida nocturna. O verão é a época alta da caça e o calor faz expor mais as presas devido à falta de vegetação provocada pelas secas. Ainda é cedo e as famílias de gnus passeiam juntas, sem recear os predadores que ainda não saíram de casa. As crias de gnu passeiam com os seus progenitores que não desconfiam que estas, após os pais irem dormir, se aventurarão nas ruas perigosas da cidade em busca de comida, bebida e parceiros para acasalar.

Passadas umas horas, a noite é, agora, mais cerrada e os barulhos dos talheres dos jantares nas esplanadas dão lugar à música de fundo que brota de dentro dos bares, como se de um canto da sereia se tratasse que atrai todo o tipo de espécies autóctones e migratórias da noite algarvia. Os pavões, machos e fêmeas, distinguem-se ao longe iluminados pelas luzes dos candeeiros que disfarçam a escuridão das ruas da cidade. Eles de t-shirt de alças e tatuagens tribais, com gel no cabelo e músculos salientes; elas de vestido curto e frases profundas tiradas da Internet tatuadas à volta da coxa, maquilhadas como se fosse camuflagem de uma guerra que é injusta. Os pavões executam rituais de acasalamento belíssimos; elas dançam, abanando a sua cauda vistosa ao som de funk brasileiro para atrair os pavões machos das redondezas.

Eles engatam com o olhar, encostados ao balcão, ou através de chamamentos elaborados como "Ó boa, comia-te toda".

Aprendizagens passadas de pais para filhos e aprimoradas ao longo de milhões de anos de selecção natural, visto serem estes animais os que mais procriam.

Por entre o fumo de um bar e o seu chão que cola, dois Alces machos chocam de frente, empurrados pela multidão que dança. Lançam olhares ameaçadores e grunhidos ferozes e imperceptíveis. A luta é iminente e a violência inevitável. Começam, desafiando-se com empurrões e disputando a atenção das fêmeas que preferem os Alces alfa, numa espécie de ritual de medição de hastes, para ver quem a tem maior e mais vigorosa. No meio da pista, as suricatas dançam em grupo, protegendo-se umas às outras. Fazem uma rodinha em que colocam os seus pertences no chão, mostrando que apesar da estatura, são animais fortemente territoriais. As aves de rapina circulam o grupo, olhando de alto para baixo, tentando perceber qual o ponto fraco do círculo de segurança criado pelas suricatas que estão sempre atentas, avisando-se umas às outras se o perigo se aproxima por trás em forma de um falcão bêbedo e com boca de urinol. Ao lado, os leões rodeiam as presas, alguns confiam que podem comer a gazela mais esbelta da manada, outros, ainda aprendizes e inseguros, optam pela que trouxe o carro, que por ter mais chicha é a que corre menos e, assim, tem menos probabilidade de escapar das garras dos predadores esfomeados. Por vezes, são as leoas que caçam e, normalmente em grupos, atacam os bisontes machos atirando-lhes com os cabelos para a cara, num movimento coordenado, e encostando e oferecendo a sua parte traseira, olhando para trás como se o esfreganço tivesse sido acidental. Não foi e ambos o sabem, restando agora ao macho tomar a iniciativa, pensando que foi ele a caçar, quando, na verdade, foi atraído para o covil.

Num canto, iluminado em intervalos de fracções de segundo pelas luzes intermitentes que dançam ao som da música, vemos que um predador já se alimenta de uma jovem gazela. Encostados à parede, ele tenta sufocá-la, colocando-lhe o seu maxilar aberto com a maior amplitude de tal forma que lhe tapa as fossas nasais e a boca. A língua percorre toda a circunferência e as mãos atestam a qualidade da carcaça, num espectáculo natural de uma beleza rara, mas que pode chocar os mais sensíveis. Na planície da pista de dança, acontece o inesperado e algo raramente captado em filme. Uma hiena tenta caçar uma jovem zebra, encurralando-a e oferecendo-lhe bebidas. A zebra, alheia ao perigo, ou não, aceita as oferendas e continua a sua vida, parecendo insinuar-se à jovem hiena que arriscou perseguir a própria comida. A caçada parece estar prestes a ter o seu clímax, eis se não quando um leão entra em cena. Grande e possante, de juba frondosa e andar confiante, decide intervir e, em apenas cinco minutos e sem gastar dinheiro, consegue aquilo que a jovem hiena tentava há mais de uma hora: a zebra coloca-se nas mandíbulas do leão por vontade própria e a hiena afasta-se do local, de cauda por entre as pernas. Provavelmente, aquela hiena passará todo o verão sem se alimentar e, fraca e subnutrida, sucumbirá ao frio do inverno. É a lei do mais forte, a lei da selva, impiedosa e brutal e onde, por muito que nos custe, não devemos intervir.

Cá fora, ouve-se um barulho característico, não muito longe, e todos os animais da savana param e inclinam a cabeça para vislumbrar o que se aproxima. Por entre gritinhos de "uhhhh" e "yeahhh" avista-se uma vara de porquitchonas selvagens do reino unido. Uma espécie migratória que ruma ao Algarve em busca do calor e que é uma das refeições principais dos linces ibéricos. As gazelas olham-nas de lado, comentando "Olha bem aquelas porcas", sabendo que o lince nacional tem alguma preferência por esta espécie loira e clara, principalmente devido à sua fama de refeição fácil.

É aqui que presenciamos a um dos espectáculos mais questionáveis da vida selvagem: linces adultos rodeiam porcas selvagens que aparentam ser ainda pequenos leitões menores de idade.

Já fumam e bebem e o álcool e tabaco só se vendem a maiores de 18 anos, pensarão os linces que atacam na mesma sem qualquer critério. Por vezes, as porquitchonas selvagens fazem-se acompanhar dos machos da sua espécie: estes andam em grupo, já temperados em vinha de alhos, vermelhos do sol, e apenas se preocupam em beber mais e arranjar confusão e, por vezes, dá-se a luta com bois almiscarados nacionais que guardam os bares e discotecas, quais protectores das zonas de repasto da savana e, normalmente, o porco selvagem inglês bate em retirada com o ego e o nariz ferido.

Já a noite vai longa e o sol ameaça em espreitar pelo horizonte a este, quando vemos as ruas e os bares encherem-se de abutres e hienas. Necrófagos por natureza, buscam as presas que ficaram para trás, que cambaleiam inebriadas e que já vomitaram o que tinham no estômago num canto escuro da calçada. Chegam-se com promessas de ajuda, perguntando se está tudo bem e se precisam de auxílio, mas tal não passa de uma emboscada para conseguirem a refeição que lhes foge há muito tempo, numa estratégia triste e desesperada de que só os machos são capazes.

O sol nasce e a cidade ganha outra vida, numa calma aparente e num ciclo que se repete, verão após verão, estação após estação, noite após noite.
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