16 de maio de 2018

Violência no Sporting, Fátima e Gaza, Casamento Real



No episódio desta semana falamos sobre a violência no Sporting, Fátima e a Faixa de Gaza, Casamento Real, monarquia, e muito mais.. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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Review à nova "música" de Luciana Abreu



As notícias só falam da violência no Sporting e dos confrontos na Faixa de Gaza - este último com menos destaque, obviamente - e esquecem-se que há coisas piores a acontecer em Portugal, neste momento. Enquanto se discutem quantos pontos levou o Bas Dost da cabeça e se o Jorge Jesus levou uma cabeçada standard ou à Cais do Sodré, o mundo ignora um dos maiores atentados terroristas de que há memória. Falo, claro, sobre a nova música da Luciana Abreu que tem como mote o apoio à selecção das quinas para o mundial que se avizinha. Aliás, a música saiu ontem, tal como as agressões em Alcochete a a escalada do conflito em Gaza: é a tal teoria do efeito borboleta "Quando uma Luciana bate as cordas vocais em Portugal, pode haver um terramoto no Japão".

Sinto que estou a trair a minha verdadeira musa, senhora Ana Malhoa, ao fazer uma review à nossa eterna Floribela, mas depois de ver o vídeo, achei que era meu dever escrever sobre este tema. Para quem ainda não teve o azar de ver, aqui fica e, em seguida, a review profissional a que vos tenho habituado.


Ora bem, o vídeo começa com uma batida a fazer lembrar o barulho de um Spectrum a carregar jogos, acompanhado de um xilofone tocado pelo meu avô com Parkinson. Há uma voz que diz "Miss LA", mas também pode ser "Mi sê lei" o que em crioulo macarrónico quer dizer "Eu sou a lei". Segue-se um riso e um "De Portugal para el mundo", porque nada diz mais "apoio à selecção portuguesa" como começar a música em castelhano. Lamento, mas duvido que esta música vá para o mundo.


É certo que somos dos maiores exportadores de azeite, mas parece-me que este não é extra-virgem.

Vemos um puto a imitar o filho do Cristiano Ronaldo, mas que será, certamente, contrafacção. Em vez do Cristianinho, é o Cristininho, alugado na Feira do Relógio por uma sande mista. A voz masculina diz qualquer coisa que não se percebe bem, mas como devem ser só palavras aleatórias e sem sentido algum, não se perde nada. Aparece, finalmente, a Luciana e começa a música de apoio a Portugal... em inglês. Se a a Nelly Furtado pode, porque é que a Luciana não pode? Deixem lá de criticar tudo. Miss LA, vestida com um baby grow de ganga, exibe o seu corpo impecável para quem já deu à luz três ou quatro vezes, já que no caso de gémeos não sei como é feita a contabilidade. Se ela investisse tanto tempo a escrever letras e aprender música como a ir ao ginásio, não estaríamos aqui a ter esta conversa. A letra, traduzida, diz isto:

Toda a gente sonha em grande / 
Paixão sem controlo
O sangue fala mais alto / E acreditamos que somos um
Estamos juntos / Alimenta a tua alma
Usa controlo / Sê audacioso e continua vivo
Tenta voar / Tu consegues se quiseres / Acredita e não te escondas

Gosto do apelo ao uso do preservativo e do incentivo ao suicídio nos últimos versos. Uma espécie de discurso anti-motivacional que termina com um "Vamos latinos" dito, imagino eu, pelo DJ Maci que é italiano. Nada faz sentido, não sei se já tinham percebido. Nisto, entra o refrão, com a Luciana Abreu disfarçada de Tatiana Neves, em que canta várias onomatopeias e o título da música "Pula pula". Penso que pode ser ofensivo, já que "pula" é o nome dado aos brancos em Angola e o William Carvalho pode ficar a sentir-se de fora. Existe toda uma coreografia que até é capaz de pegar se nos lembrarmos que as pessoas ainda dançam o eskema em algumas discotecas. A música segue, agora em castelhano que isto é preciso disparar em todas as direcções para ver se se tem sorte; a meio do castelhano, devo admitir que há uma transição bastante suave para o português em que a Luciana diz "Corações ao alto e samba no pé". É isso, Luciana... samba no pé, Kizomba no joelho e Duro no Cú. "Portugal vai mostrar como é que é", aquela frase que dá para tudo: pode mostrar como é que se perde, pode mostrar como é que se empata, etc.

Segue-se uma chamada dos nomes de jogadores portugueses (com sotaque castelhano) e gosto que não tenham arriscado e só digam os nomes que estarão certos no Mundial, não fossem os outros confundir e pensar que isto era a convocatória oficial e depois ficar desiludidos (chamaram-me à atenção que é dito o nome do Danilo que não irá ao mundial devido a lesão. Temo que esta música não ajude na sua recuperação)Segue o disco e toca o mesmo, com a Luciana a dizer "Mister Santos" (com sotaque inglês), "It's true, Portugal in the house" (aliás, "Portxugal"). Refrão, mais uma vez, e entra uma batida de samba, com bailarinas fantasiadas de Carnaval de Torres Vedras e a dançar, intercaladas com um bailarino de capoeira porque, relembro, isto é uma música de apoio à selecção portuguesa e é preciso não ignorar a história: sem os escravos trazidos por Portugal não haveria capoeira nem samba. 

Para mostrar que é uma poliglota, ainda lança um russo ali perto do final com um "Spasiba Russia" que quer dizer "Obrigado Rússia", embora ela pareça dizer Racha, mas tudo bem, não vamos estar a exigir que fale bem quatro línguas. E pronto, é isto.


A música fica no ouvido? É capaz, mas otite também fica. 

Isto é, a meu ver, a pior música de sempre. Não faz sentido do início ao fim, tanto musicalmente como em termos de letra e, muito menos, o vídeo. Já estou a ver o produtor "Estou aqui já com ideias para esta música. Que tal se a gente metêssemos aqui uma gaja a dançar ballet, um gajo a dar toques na bola porque isto é sobre futebol, depois duas gajas a sambar e um capoeirista porque coiso, mas também curtia ter tipo dança hip hop, ginástica, e dança contemporânea... Sinto aqui falta de qualquer coisa... ah, já sei, preciso de um gajo com aqueles paus com pano no ar a esvoaçar que fica muita bonito. É isso, manda vir tudo que no fim vais ver que vai fazer sentido." Não faz.

A música não serve para apoiar selecção alguma, acho, até, que pode prejudicar. É apenas um aproveitamento do mundial para ver se o pessoal estrangeiro vê e há o lançamento de carreira internacional. É pior do que Marial Leal? É. A Maria Leal não tem voz nem meios de produção e é uma pobre coitada da qual se aproveitaram. A Luciana Abreu tem uma voz tremenda e meios para produzir coisas com qualidade, mas fez esta merda. A Maria Leal tem desculpa, a Luciana não. Claro que estou a ser injusto, já que seria ingénuo da minha parte esperar que alguém que fez uma música dedicada ao marisco e cujas filhas se chamam Lyonce Viiktórya, Lyannii Viiktórya, Amoor e Valentine, fizesse uma música melhor, mas isto não passa de uma imitação barata da Ana Malhoa, artista que, ao menos, é coerente e competente no estilo musical de merda que escolheu. Como sempre, estas críticas não têm nada de pessoal, acredito que seja boa pessoa e a prestação dela no Último a Sair foi excelente e de quem tem fair play e sabe representar. Que ela sabe cantar, também ninguém tem dúvidas, da mesma forma que ninguém duvida que ela só tem feito, na minha opinião, música de merda.

Já fiz muitos sacrifícios devido a trabalho: horas extra, aturar clientes mal educados, fazer stand up em sítios sem condições, mas nunca tinha feito um sacrifício tão grande como ver e ouvir este vídeo 10 vezes (DEZ) para conseguir fazer esta review. Espero que valorizem o meu esforço e que partilhem. Voltamos a falar para a semana que agora preciso de enfiar duas agulhas nos ouvidos e esfregar-me todo com aguarrás.
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9 de maio de 2018

Ingleses ofendidos com o Herman José na Eurovisão



Ontem, nos intervalos da Eurovisão, foi transmitida, apenas para o estrangeiro, uma série de sketches com o Herman José, intitulada "Planet Portugal", usando uma personagem inspirada no David Attenborough. A personagem é antiga, data do Herman Enciclopédia, mas na altura chamava-se David Vaitembora que para não haver piadas perdidas na tradução, foi alterada para David Attemburger.

Foram alguns sketches sobre as particularidades do povo português, mas alguns britânicos não gostaram e mostraram a sua revolta nos locais onde se mostra a revolta nos dias de hoje: nas redes sociais. Foram vários os comentários a mostrar indignação por se estar a parodiar o Sir David, especialmente por ser o seu 92º aniversário. Deixo alguns dos comentários com a respectiva tradução para quem não percebe inglês nem sabe usar um tradutor online:

"Are Portugal making fun of David Attenborough? On his birthday?? The absolute audacity #Eurovision"
Estão Portugal a fazer divertimento do David Attenborough? No seu dia de nascimento? Que absoluta audácia! 

"Taking the piss of SIR David Attenborough? #Eurovision."
A tirar o mijo do SENHOR David Attenborough?

"What the fuck is this David Attenburger shit? #Eurovision"
Que foder é este David Attenburger merdas?

"Oh god this is bad. Nobody takes the piss out of David Attenborough #Eurovision."
Oh deus isto é mau. Ninguém tira o mijo para fora do David Attenborough.

"This is incredibly offensive to David Attenborough on his birthday #Eurovision"
Isto é incrivelmente ofensivo para o David Attenborough no seu dia de nascimento.

"OMG #eurovision is mocking David Attenborough."
OH MEU DEUS, Eurovisão está fazendo pouco de David Attenborough.

"#Eurovision who the fuck is this loser taking the piss out of national treasure David Attenborough? Not at all even remotely funny"
Eurovisão quem é este perdedor da foda que está tirando o mijo fora do nosso tesouro nacional David Attenborough? De todo nada remotamente engraçado.

"Wtf is this David Attenburger…… you have lost me now. See ya Saturday. #Eurovision."
Que foda é este David Attenburger.... agora é que me perderam. Vejo-vos Sábado".

Gosto que este último fica ofendido mas só até sábado, sem fazer ideia que nesse dia deve levar com mais uma dose do Planet Portugal. Reparem que todos tinham a hashtag #Eurovision que é para ser uma revolta a sério e para ver se alguém lhes dava atenção. Para além destes, foram escritos vários a dizer "I'm offended on behalf of David Attenborough" que traduzindo assim directamente quer dizer "Estou ofendido porque sou otário". Até pensei que o David estivesse morto, mas pelo que vi na Wikipedia ainda está bem vivo, na medida dos possíveis dos seus 92 anos. Ficar ofendido por alguém, quando esse alguém está vivo e não disse que estava ofendido, é só parvo; aposto que ele, como pessoa inteligente que deve ser, estará ofendido por outros estarem ofendidos em nome dele; mas vamos por partes:

  • Os ingleses nunca ouviram falar de Herman José.
  • A maioria das pessoas é burra, logo, a maioria dos ingleses é burra.
A primeira parte explica o facto de não perceberem que a personagem é mítica para os portugueses e que o Herman é uma instituição tão grande em Portugal como o David é em Inglaterra. Vi, até, quem ficasse ofendido por a caricatura não ser parecida e por o Herman ser mais gordo (talvez se explique com o novo nome AttemBURGUER) e estar vestido à "Juventude hitleriana". Enfim, como se não se percebesse que aquilo é, claramente, roupa da Mocidade Portuguesa. A segunda parte, explica tudo o resto, mas justiça seja feita: depois da revolta inicial, muitos britânicos perceberam que se tratava de uma homenagem em formato de paródia. Os ingleses sempre tiveram sentido de humor e os seus maiores humoristas foram e são uma grande influência para os nossos maiores.

O sketch está com piada? Meh. Teve piada há 20 anos no Herman Enciclopédia que é, a meu ver, ainda hoje, o melhor programa de humor feito em Portugal, não contando com o Falta de Chá, obviamente. A piada é relativa, mas ofensivo? Bem, tenho a certeza que se fosse ao contrário, com os ingleses a parodiar o Cristiano Ronaldo, por exemplo, também teríamos muitos portugueses ofendidos. Porquê? Porque a maioria das pessoas é burra, logo, a maioria dos portugueses é burra. Não são vocês que estão a ler isto, é o resto, calma.

Aposto que na produção da Eurovisão foi dito: "Pessoal, vamos fazer uns sketches clean e family friendly que isto é Eurovisão e é para todas as idades e não queremos ofender ninguém.". Pimba. Chupem. Quem quer ser clean e critica quem arrisca ofender, acaba por se tramar, mais cedo ou mais tarde. Moral da história: há sempre alguém ofendido, por isso, na altura de fazer humor, é nem pensar nisso e arriscar, tendo sempre o foco na piada, mas cagando para os ofendidos do sofá. Humor não é design de usabilidade e se vamos ter de contar com os burros que nem conseguem perceber que aquilo era uma paródia ao povo português e uma homenagem ao David Attenborough, estamos limitados a não fazer nada.

Haters gonna Hate.
Coninhas Gonna Conate.
Pussies Gonna Pussycat Dolls.

Isto nem se trata de defender os humoristas, seja o Herman ou os Markl que, segundo sei, escreveram o guião. Ao contrário do que muita gente pensa, os humoristas raramente se defendem uns aos outros, nós (alguns) defendemos é o nosso direito a fazer piadas com o que nos apetecer e deixar o público escolher se quer ou não ver. O melhor a fazer nesses casos é ignorar este tipo de comentários ofendidos e não lhes dar atenção? Claro que é e até me sinto mal em estar a dar destaque a quem perde tempo a ficar ofendido com uma paródia completamente inócua, mas sei que isto me vai dar views e que ainda ganho uns trocos à pala desses coninhas. Estou só aqui a ser honesto, ao contrário dessa gente que fica ofendida com humor e ignora coisas muito mais ofensivas que ontem se passaram na Eurovisão: as "músicas".
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8 de maio de 2018

Modas parvas das redes sociais, Eurovisão, Sócrates, barulhos a mastigar



No episódio desta semana falamos sobre a Eurovisão; modas parvas das redes sociais; Sócrates e Câncio; pessoas que fazem barulhos a mastigar; pessoas que falam alto ao telemóvel na rua e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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7 de maio de 2018

Todas as opiniões são válidas



Quantas vezes, a meio de uma discussão, alguém que está prestes a perdê-la recorre à famosa frase "Todas as opiniões são válidas!". Torço logo o nariz e digo que isso é mentira. A outra pessoa refila e reafirma que sim, que todas as opiniões são válidas, ao que respondo "Então, mas a minha opinião é que nem todas as opiniões são válidas, mas se tu és dessa opinião, só tens de aceitar e respeitar a minha, já que todas as opiniões são válidas." Abre-se um buraco negro continuum espaço-tempo, a pessoa fica com um nó no cérebro e eu anuncio o check-mate.

Todas as opiniões podem e devem ser dadas, mas temos de aceitar que nem todas são, igualmente, válidas.

Por exemplo, dizer que a opinião de um físico teórico sobre mecânica quântica é igualmente válida à de um taxista sobre o mesmo tema, é palermice. Tal como o seria dizer que a opinião do físico sobre gajas bêbedas na noite é tão válida como a do taxista. Há assuntos para os quais é necessária uma especialização para se opinar em conformidade. No entanto, não quero com isto dizer que as opiniões, mesmo que estúpidas, não possam nem devam ser expressas; pelo contrário, penso que devemos incentivar os ignorantes a verbalizar a sua opinião para sabermos quem evitar, seja numa discussão ou na vida.

As pessoas queixam-se que as redes sociais vieram dar voz a todos os opinadores de sofá, mas, a meu ver, isso é excelente para a sociedade. Claro que custa ler centenas de observações homofóbicas e racistas numa qualquer caixa de comentários de um jornal online; custa, especialmente, devido aos erros ortográficos que, coincidência ou não, andam de mão dada com as opiniões abjectas. Andámos anos a pensar que as pessoas estavam mais civilizadas, mas com as redes sociais percebemos que estávamos errados e isso é bom! Agora que sabemos que essas abéculas ainda existem, aos magotes, podemos parar de varrer a ignorância para baixo do tapete e fingir que está tudo bem.

Por aqui se vê que a velha máxima de "Temos de respeitar as opiniões dos outros!" também é falsa. Foi por nem todos respeitarem as opiniões dos outros que se fizeram revoluções, se desafiaram dogmas, e a humanidade foi evoluindo. A opinião de um racista não deve ser respeitada nem é válida, apesar de ele ter todo o direito em ser racista e em dizer que o é. Se todas as opiniões fossem respeitáveis, teríamos um diálogo deste género:
- Acho que fazer sexo com crianças só lhes faz bem e as prepara para a vida.
- Pronto, eu discordo, mas são opiniões e temos de respeitar.
- Sim, sim, vamos concordar em discordar.

Aliás, as sentenças judiciais seriam muito mais simples:
- O senhor assassinou a sua mulher?
- Sim, senhor doutor juiz.
- E qual o motivo?
- Deixou queimar o arroz.
- E acha que isso é motivo suficiente para cometer homicídio?
- Ora bem, na minha opinião, é muito mais do que suficiente.
- Agora é que me complicou aqui o sistema porque na opinião da lei o que o senhor fez foi um crime, mas, agora, se você me diz que na sua opinião ela mereceu e, como tão bem sabemos, todas as opiniões são válidas, o julgamento terá de ficar sem efeito porque deu empate.

Se todas as opiniões fossem válidas, teríamos problemas no ensino:
- Pedrinho, em termos biológicos quantos géneros existem? - pergunta o professor de biologia.
- Na minha opinião, existem todos aqueles com os quais a pessoa se quiser identificar.
- Olhe que não, Pedrinho, em termos biológicos, existem apenas dois.
- Buh, fascismo! Nazismo! Capitalismo!

Bem sei que estou aqui recorrer ao exagero com situações que nunca aconteceriam na vida real (cof cof), mas posso dar-vos um exemplo mais realista e prático: na decoração cá de casa é notório que nem todas as opiniões são válidas. Tenho legitimidade para expressar o meu descontentamento face ao elevado número de almofadas que ocupam o meu sofá, mas, no entanto, essa minha opinião não é tão válida como a da pessoa que comprou as almofadas.

É atrás destas máximas de "Todas as opiniões são válidas" e "Temos de respeitar as opiniões dos outros" que se escondem algumas pessoas que não têm outros argumentos para perpetuar algo que está ultrapassado eticamente. Por exemplo, andam aí a rodar uns vídeos de uns estudantes de Évora em que enaltecem a garraiada.

Desde logo, achei inteligente meterem os bois e as vacas a falar para a câmara.

Depois, o "Quem não gosta não vê", variação das frases acima referidas, só se aplica quando valores básicos não estão em causa. Eles têm legitimidade para expressar a sua opinião? Claro que sim. É uma opinião válida quando colocada ao lado do que dizem biólogos e veterinários e face ao que a comunidade científica nos diz sobre o sofrimento animal? Não me parece. Talvez seja precipitado julgar esses estudantes apenas por uma opinião que pode estar inquinada por todo um contexto social e cultural, mas sou assim: julgo as pessoas. Bem sei que há quem afirme que "Não devemos julgar ninguém", mas quem diz isto são as pessoas que mais julgam os outros. Claro que devemos julgar os outros, é o que fazemos no dia a dia, sempre que observamos ou contactamos com outras pessoas. A humanidade nunca se tinha desenvolvido se não nos julgássemos a toda a hora. Cenário: estás num beco escuro e na tua direcção avança um homem, com uma faca na mão, e com uma cabeça decepada na outra e diz-te "Olhe, desculpe, precisava de uma informação". Se optares por não o julgar com base na primeira impressão, e decidires não fugir porque ele até pode ser boa pessoa, mereces, um bocadinho, que a tua cabeça seja a próxima a ser usada como porta-chaves.

Mas pronto, isto é só a minha opinião.
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2 de maio de 2018

Os benfiquistas são uns ingratos



Na verdade, o título do texto foi só para criar o caos: os adeptos de futebol, seja que de clube forem, são uma cambada de ingratos. A velha máxima de "bestial a besta" aplica-se quase todos os anos com jogadores e treinadores de todas as cores, mas, este ano, o principal visado é Rui Vitória, treinador que deu dois campeonatos ao Benfica, que está a ser contestado por muitos benfiquistas que exigem a sua saída. Ingratos. Sabem quantos treinadores eu vi, em toda a minha vida, darem dois campeonatos ao Sporting? Nenhum. Percebo que os benfiquistas estejam mais mal habituados, visto ganharem mais vezes, mas parece-me que a ingratidão é o pior dos sentimentos. Curiosamente, é um sentimento presente em quem é mimado e habituado a ter tudo. Alguns dirão que Rui Vitória foi campeão por demérito dos adversários directos, mas o que é certo é que no primeiro ano fez recorde de pontos na liga portuguesa; terá sido mérito do antecessor que havia montado uma boa equipa? Jorge Jesus diz que sim e os benfiquistas que agora criticam Rui Vitória também o dizem indirectamente ou estarão a admitir que houve ajudas externas, não sei. Aliás, se alguém devia ser despedido é quem (alegadamente) andou a entrar em citius e a tentar pressionar árbitros. A ser verdade, esses gajos é que são uns incompetentes, porque ser corrupto e ganhar é de homem, ser corrupto e não ganhar nada é vergonhoso.

Neste momento, estão alguns benfiquistas a espumar-se a ler isto e os portistas a rir até eu referir o apito dourado e as escutas que todos sabemos. Agora, também alguns portistas se espumam. Falta ofender os sportinguistas sem fair-play: para o ano é que é (x17).

O futebol, como qualquer paixão, exacerba o melhor e o pior das pessoas; tal como alguém que sempre levou uma vida pautada pelo civismo e respeito pode cometer um crime passional, ou alguém egoísta é capaz de dar a vida por alguém que ama, no futebol acontece o mesmo. Acontece, também, aquele fenómeno que só vemos nas relações românticas: esquecer todo o bem que foi feito quando algo de mal acontece. Numa amizade, um erro de um amigo não apaga as vezes que ele esteve lá para nos apoiar, mas numa relação amorosa, um tampo da sanita levantado faz esquecer a loiça lavada, ou uma falta de atenção ao novo corte de cabelo - dois centímetros podados - faz esquecer as milhares de vezes que foram tecidos elogios, mesmo ao acordar, com olheiras e o bafo a cão molhado.

A linha entre a exigência e a ingratidão é ténue e percebo que pendamos mais para a primeira em profissões que envolvam vidas de pessoas. Um médico não pode salvar mais vidas do que as que mata por negligência, simplesmente não pode matar por negligência; parafraseando Chris Rock, um piloto de avião não pode, mesmo que esporadicamente, espetar o avião no chão; uma prostituta não pode, mesmo que só às vezes, ter sida. Agora, tanta exigência com o futebol? Quantas vezes um clube não foi campeão e isso afectou drasticamente a vida dos seus adeptos? Quantos não conseguiram pagar contas depois de uma derrota? Imaginem esta exigência aplicada aos políticos: político tem dois anos de excelente governação, mas ao terceiro claudica e a população exigiria a sua demissão e não votaria nele uma e outra vez. Na política, podes errar, ser preso, roubar, que os adeptos ficam do teu lado. Percebo que comandar os destinos de um país tenha muito menos importância do que comandar os destinos de um clube que nos dá em troca as alegrias das vitórias e dos golos, até porque esses golos fazem esquecer o parco ordenado.

Não nasci com o gene do fanatismo, por isso custa-me a perceber. Gosto de futebol, mas prefiro ver um Real Madrid x Barcelona do que um Sporting x Tondela - neste momento já se espuma o pessoal de Tondela, também. Até ao fim do texto conto abranger toda a I Liga - Já gritei e emocionei-me com futebol, especialmente com a selecção, celebrei os dois campeonatos que vi o Sporting ganhar, mas nos anos que não ganho não fico minimamente triste, caso contrário andava sempre deprimido e, permitam-me, a minha vida tem coisa muito mais interessantes do que festejar ou chorar a vitória de uma empresa com a qual simpatizo, apenas e só, por questões geográficas ou de envolvência cultural ou familiar. Aliás, é por isto que não percebo o fanatismo futebolístico, especialmente quando entra em ofensas aos adversários: só és de um clube específico porque calhou, podias estar do outro lado. O fenómeno já deve ter sido estudado por pessoas que estudam fenómenos, mas nunca percebi a transformação que ocorre quando se coloca um cachecol e se insere um indivíduo, aparentemente sem distúrbios mentais, numa meio de uma tribo de cachecóis da mesma cor. Do doutor ao trolha, chovem chorrilhos de caralhadas, manguitos desfraldados no ar, e ofensas à mãe de toda a gente que têm um cachecol de outra cor.

Só vejo este fanatismo cego na religião. Tal como os católicos só vêem os podres dos muçulmanos, e vice-versa, também no futebol, só o clube adversário é que rouba e é beneficiado. Infelizmente, na religião, não se aplica a mesma exigência/ingratidão que vemos no futebol. Imaginem o que seria os adeptos religiosos exigirem a demissão de padres pedófilos em vez de assobiarem para o lado. Imaginem o que seria deixarem de pagar quando as preces não são atendidas. Imaginem o que era matarem outros porque acham que o seu Deus tem a pila maior do que o Deus adversário. Ah, nesta parte a religião é igual ao futebol.

O bom que era que exigissem a demissão de Deus como exigem a demissão de treinadores.

É que Rui Vitória deu dois campeonatos ao Benfica, enquanto que Deus nunca fez nada de jeito por nós. Deus é um treinador ausente como era o meu professor de educação física do 9º ano que nos dava uma bola e ia para o seu gabinete enrolar-se com outra professora. O futebol e a religião estão, ainda, ligados pelas orações e preces que a esmagadora maioria dos jogadores faz antes de entrar em campo. Se pedirem que não se lesionem, ainda vá que não vá, embora não sirva de nada, agora pedirem para a sua equipa ganhar? Que falta de respeito para com Deus. E se os adversários rezam igual, para onde se vira Deus? Não me parece que Ele tenha equipa preferida e diria que nem é adepto de futebol e que prefere golf ou ténis porque é praticado por pessoas de boas famílias que são as preferidas dele.

Em suma, não acho que o futebol seja só um desporto e admito que tem uma importância maior do que aquilo que é jogado em campo. Pode aproximar pessoas e nações, pode subir a autoestima de um país, pode dar alegrias e distrair-nos dos nossos males, mas não percebo quando esse poder do futebol é usado para tudo o que é oposto a isso. Deve ser bom amar assim alguma coisa. Amar ao ponto de ficar transtornado quando se perde. Amar ao ponto de ter o símbolo do clube na fotografia de perfil de Facebook. Amar assim alguma coisa é sempre bom, até ao dia em que não somos correspondidos.
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