18 de setembro de 2018

Racismo e Mamona, atracção física, humanos do futuro



No episódio desta semana falamos sobre discriminação na entrada das discotecas, racismo e Patrícia Mamona, atracção física, carros e humanos do futuro e muito mais.  É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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17 de setembro de 2018

Pesadelo recorrente: ainda não acabei o curso



Tenho dois pesadelos recorrentes. O primeiro é que matei alguém, escondi o corpo e vivo em constante pânico de ser preso. O segundo, muito mais aterrador, é quando sonho que ainda me faltam cadeiras para acabar o curso.

O cenário é sempre o mesmo: vou à secretaria pedir o diploma e dizem-me que, afinal, ainda me faltam cadeiras para terminar o curso. Neste momento, instala-se o pânico e penso "O quê? Eu já nem sei estudar, há cadeiras que fiz sem saber como e só tenho a explicação da providência divina e agora ainda tenho mais para fazer?". O sonho torna-se num pesadelo e o desespero faz-me ponderar o suicídio já que nunca é uma cadeira simples de encher chouriços! É sempre um dos cadeirões com projectos complicados ou daquelas que passei apenas porque os planetas estavam todos alinhados e o professor tinha recebido um felácio e estava de bom humor. No meu caso, que tirei engenharia informática, costuma ser a cadeira de Sistemas e Sinais ou de Redes de Computadores que, ironicamente, me foram ensinadas por professores que só teriam felácios a troco de compensação monetária, o que pode explicar a grande concentração de prostituição à volta do Instituto Superior Técnico.

Há quem recorde com saudade os tempos de faculdade e há quem tenha estudado no IST. 

São dois grupos cuja única intersecção são os nerds da primeira fila que iam à segunda data de exame fazer melhoria porque só tinham tido 19. Já escrevi várias vezes sobre a minha experiência nessa bonita instituição e, por isso, não me vou alongar muito e quem quiser ler ou reler ficam aqui estes links - A vida de um estudante de engenharia; Ser engenheiro informático tem glamour; O que realmente aprendi na universidade - mas resumindo: aprendi muito e teve bons momentos, mas o mesmo dirão os soldados que estiveram no Iraque.

Voltando ao pesadelo recorrente. Quando acordo, empapado em suor e virado ao contrário na cama de tanto espernear, ainda fico, durante uns minutos, naquele limbo entre o sonho e a realidade em o meu cérebro debate consigo mesmo, tentando acordar a parte responsável pela lógica que está desligada durante o sono REM, que é quando sonhamos. O meu cérebro tem este diálogo quando acordo desde pesadelo:

- E agora? Como é que vou acabar o curso?
- Ó burro, já acabaste o curso há oito anos!
- Não acabei, não, falta-me uma cadeira que o senhor disse.
- Foi um sonho!
- Será? Parecia mesmo real.
- Foi, já nem trabalhas em informática.
- Não?
- Não, agora escreves merdas na Internet e fazes stand-up, mesmo que não tivesses acabado o curso, se tudo correr bem já não precisas dele.

Ufa. Apercebo-me que foi tudo um sonho e há uma sensação de alívio e paz que só deve ser comparada à de vermos a nossa amante a dar à luz um filho que dizia ser nosso, mas que vai-se a ver e nasceu com traços de índio Cherokee.

Falei com um especialista de interpretação de sonhos e ele disse-me que este pesadelo recorrente significa que não gostei do curso. Pedi o meu dinheiro de volta e dei-lhe uma chapada na moleirinha por estar a constatar o óbvio. No entanto, gostei muito do meu 12º ano e também costumo sonhar que ainda não o acabei e nunca é agradável: apercebo-me tarde, quase que como se me esquecesse que ainda o tinha para fazer e quando dou por ela já faltei a muitas aulas e testes e já não o consigo acabar. Andei na secundária D. João V na Damaia, o que também pode explicar muita coisa. Talvez quando tiver 70 anos, estes pesadelos se tornem em sonhos nostálgicos porque a morte está mais perto. Ficou profundo, agora. Chupa Chagas Freitas.

Ao contrário do que seria de esperar, a recorrência deste pesadelo tem vindo a aumentar, e diria que o meu inconsciente decide fazer-me uma trollagem, pelo menos uma vez por mês. Talvez seja porque no último ano todas as semanas tenho de ir ao IST gravar o podcast Sem Barbas Na Língua; dizem que não devemos voltar a um sítio onde fomos felizes e por isso não há problema. Não me interpretem mal, gostei de lá estudar, mas só porque já não estudo lá, percebem? Até sinto alguma falta de aprender coisas novas a fundo e até me meteria num curso novo se tivesse tempo para isso, mas a perspectiva de ter de tirar novamente engenharia informática causa-me arrepios que descem pela espinha.

Como é óbvio, sendo uma pessoa minimamente inteligente, não acredito que podemos ver o futuro nos sonhos, caso contrário já teria feito uma orgia com as modelos da Victoria's Secret e a minha namorada nem tinha ficado chateada, mas a verdade é que no dia que fui à secretária pedir o meu certificado de habilitações, uns três anos depois de ter entregado a minha tese de mestrado (no primeiro trabalho que tive não me pediram provas de ter acabado o curso porque eu transmito muita idoneidade), o rapaz que lá estava deu uma olhadela para os meus dados no computador e disse-me "Ainda lhe faltam créditos para terminar, certo?". Devo ter ficado pálido e belisquei-me para ter a certeza de que não estava a sonhar. Seguiu-se esta conversa:

- Hum... acho que não, até tenho a mais.
- Aqui diz que faltam dez créditos.
- Pois, mas tem de estar mal. - digo, ponderando já o homicídio em massa ou o suborno. - Não há aí um processo de equivalências por causa da confusão de Bolonha?
- Ahhhh, está aqui sim, até tem créditos a mais, é verdade.

Há erros que não se cometem. Uma coisa é trocar o pénis por uma vagina a um paciente que só precisava de tirar uma verruga do ânus, outra é dizer a um aluno - especialmente se ele for do IST - que, ao contrário do que pensava, ainda não acabou o curso.

Isto é cutucar um ninho de vespas com a pila. Os gajos de Columbine mataram 13 pessoas por menos!

Passou, foi giro, rimo-nos, e até lhe sugeri que começasse a pregar esse susto a todos os alunos. É preciso um gajo divertir-se no trabalho, especialmente se esse trabalho for no mesmo local que causa pesadelos a tanta gente. Por isso, já sabem, se vos acontecer, podem estar a sonhar ou pode ser uma partida que eu iniciei. Podem agarrar-se a isso até perceberem que, afinal, ainda vos falta mesmo meio crédito para terminar o curso.
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11 de setembro de 2018

Idiotas na Internet, Regresso de Louis CK, Redes sociais e censura



Estamos de volta depois de umas merecidas férias. No episódio desta semana fazemos um resumo do que mais relevante se passou durante Agosto, falamos sobre as idiotices das redes sociais, psicopatas à portuguesa, o regresso de Louis CK, o boicote à Nike e Le Pen e muito mais.  É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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10 de setembro de 2018

Serena Williams: mau perder ou sexismo?



Estão todos a par da polémica com a Serena Williams? Resumindo: recebeu um aviso por ter recebido instruções do seu treinador na bancada (algo que é ilegal no ténis), depois levou um ponto de penalização por partir uma raqueta no chão e, finalmente, recebeu um jogo de penalização por ter chamado ladrão ao árbitro, entre outras coisas. Ela afirmou que foi por ser mulher e que se fosse um homem não seria tão penalizada. Sexismo ou mau perder?

Será que o árbitro foi mais rigoroso por ela ser mulher? É possível, não digo que não. É possível que um mecanismo inconsciente no cérebro daquele homem branco o tenha levado a ser mais rígido por estar a ser insultado em voz alta por uma mulher negra. Ainda por cima, uma mulher que tem caparro suficiente para lhe acertar o passo, fazendo com que possa ter agido por se sentir inferiorizado. No entanto, talvez tenha sido só porque a Serena infringiu as regras e ele, como árbitro, aplicou a lei como lhe compete. O seu treinador admitiu o erro e o abuso verbal é evidente, exigindo um pedido de desculpas e chamando o árbitro de ladrão.

Se é sexismo, não conseguimos provar, mas o que sei é que se fosse um jogador masculino a gritar e insultar daquela forma uma árbitra feminina, era logo acusado de sexismo e discriminação.

A Serena é uma das melhores atletas de sempre e parte do que a faz ter sucesso é a sua vontade e paixão pelo jogo o que implica extravasar em alguns momentos. Não é o primeiro caso, já havia ameaçado de morte um juiz de linha, dizem, no mesmo torneio e perdido um jogo de maneira semelhante. Ela diz que sempre que vai ao US Open acontece o mesmo, e sendo que joga em casa, se acontece sempre o mesmo, talvez o problema seja dela. Talvez a Serena precise de ser mais serena. Trocadilho muito forte. Não a  condeno pois não sei o que é ser atleta de alta competição e ter de lidar com situações de stress com os olhos postos em nós, por isso desculpo-lhe a atitude até porque podia estar com o período ou com tensão pré-menstrual ou na fase de ovulação. As mulheres têm desculpas hormonais para todas as fases do mês.

As desculpas da Serena são as mesmas que os putos dão na escola primária e cujo argumento se resume a "Mas o Joãozinho já fez igual e não levou reguada". As regras existem para todos e se houve quem passasse incólume noutras situações, isso não é desculpa para fazermos igual. Quando recebi uma multa de excesso de velocidade, também liguei para a polícia e disse "Mas toda a gente anda a mais de 120km/h na autoestrada e nem todos são multados, por isso penso que não mereço a multa. É por eu ter um Clio cinzento? Racista!". A chamada, estranhamente, caiu.

Este árbitro já perdoou situações iguais, várias vezes, a tenistas masculinos? Só se for esse o caso é que poderíamos estar a falar de algum tipo de discriminação e, mesmo assim, todos temos dias em que estamos mais flexíveis relativamente ao comportamento dos outros e isso pode não ter nada a ver com a genitália que apresentam entre as pernas. Partir do pressuposto que é por ela ser mulher é uma vitimização que só prejudica o feminismo. Para haver igualdade temos de nos responsabilizar e assumir os erros. No meio de tudo disto, a vitória da sua adversária, também mulher e negra e com o bónus de ser asiática, ficou ofuscada.

Os gritos de muitas pseudo feministas têm este condão: o de prejudicar as vitórias das outras mulheres que lutam e não se queixam tanto.

Claro que este caso acende a chama dos pequenos Hitlers que habitam nos alter-egos digitais das pessoas. Basta percorrer os comentários de algumas das notícias para percebermos que o racismo e machismo ainda está na moda, especialmente em pessoas com fotos mal tiradas devido à pouca luz que têm na sua caverna. Contudo, sejamos honestos e admitamos que todos os desportos são um bocadinho machistas, até porque os homens são melhores do que as mulheres em em todos os desportos (já vou ser acusado de sexismo por pessoas que ficam com dói-dói com os factos), o que atrai mais espectadores para os desportos masculinos, criando uma discrepância de vários factores, inclusivamente no respeito com que se olha para os atletas. Isto só vai mudar se forem criados desportos ajustados à biologia das mulheres, como por exemplo um triatlo em que depois de correrem têm de arrumar a casa e preparar uma sandes. Ou uma corrida de estafetas em que em vez de passarem um testemunho têm de passar uma cusquice que ouviram no café.

O único sexismo que vejo neste caso é o facto de lhe estarmos a dar atenção. Se tivesse sido um homem a refilar com um árbitro, a notícia passava despercebida, mas vemos uma mulher a levantar a voz e, como não estamos habituados a não ser das nossas mães e namoradas, achamos estranho e decidimos criticar. Se calhar somos todos sexistas, a começar pela Serena que puxa dessa carta para desculpar o seu mau perder.
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4 de setembro de 2018

Madalena Menezes, a nova sensação da Internet



Para quem não conhece, a dona Madalena ficou recentemente "viral", curiosamente em ambiente hospitalar, com um vídeo que publicou no seu Facebook quando, supostamente, foi acompanhar o seu irmão doente, que afinal tinha tido um acidente na mão, que afinal não estava com ela, mas já lá vamos. O vídeo foi visto e partilhado por milhares de pessoas, bem como alguns dos seus vídeos anteriores, onde se percebe, claramente, que a dona Madalena é uma pessoa especial. Uma pessoa que canta e que dança, muito expressiva e que parece, à falta de melhor palavra e num tom não pejorativo, uma tolinha. A Madalena Menezes é a filha da mítica dona Helena que estava de roda de uma fogueira tão linda, glaças a Deuze. Tenho a certeza, ora vejam.

Ao contrário do que se pensa, a linha entre a piada e o bullying não é ténue já que pode existir bullying com muita piada.

Não tenho qualquer problema em fazer piadas com a dona Madalena, mas é um bocado fácil, tal como o é com a Maria Leal, com a diferença que esta expôs o seu trabalho e "talento" na televisão nacional e, por isso, tem de aguentar. No caso da Madalena, parece-me que nem tinha bem noção de como funcionam as redes sociais. A maluquice da senhora não incomoda ninguém, pelo contrário até nos faz rir, embora não seja COM ela, mas com o riso e a viralidade, veio o comburente da redes sociais: o ódio. As ofensas a constatar o facto óbvio de ela parecer meio tolinha foram o lugar comum dos comentários às partilhas do vídeo.

Uma rápida pesquisa pelo seu perfil de Facebook e percebemos que é daquelas senhoras que tem a mesma foto de perfil com cinquenta versões diferentes com molduras e filtros foleiros para todas as ocasiões festivas ou só porque é segunda-feira. Comenta com verborreia de emoji e animações de gatinhos com corações. No fundo, a dona Madalena é um bocado todas as nossas mães. Sabemos que a senhora é tolinha porque se isto fosse uma personagem ao estilo Borat, feita por uma humorista, seria do mais genial que já havia sido feito até hoje e uma, como dizem os YouTubers, mega trollagem ao público português. Infelizmente, não me parece o caso e acho que estamos só na presença de alguém que, para seu bem, não devia ter acesso a um smartphone.

Toda esta viralidade e ofensas em catadupa a uma senhora que não fez mal a ninguém é um fenómeno novo sobre o qual ainda não temos medidas para evitar, seja em jovens sem idade para perceber as consequências, seja em pessoas mais infoexcluídas que nem sabem bem o que estão a fazer com o telemóvel. Acho, sinceramente, que deveria existir um workshop de utilização de redes sociais para pessoas burras tecnologicamente. Se eu mandasse, até haveria licença para usar a Internet, na verdade, mas podíamos começar por um workshop gratuito e disponível para quem quisesse, no qual lhes seria ensinado, em poucas horas, o básico das redes sociais. Esta gente não sabe que se partilhar um vídeo ele não fica restrito ao seu círculo de amigos e facilmente pode extravasar da rede com a funcionalidade de partilha; esta gente não sabe que o vídeo pode ser retirado e colocado noutras redes, como no YouTube e que ficará lá para todo o sempre; esta gente não sabe, muitas vezes, que um comentário pode ser público para todos; esta gente não sabe que o anonimato da Internet é apenas aparente.

Como sociedade, temos uma atracção pela desgraça, uma curiosidade mórbida que partilhamos enquanto espécie: abrandamos para ver se vislumbramos feridos graves no acidente da outra faixa da autoestrada, por exemplo, e acredito ser o mesmo mecanismo psicológico que levou à viralidade da Maria Leal e desta senhora. Dar Internet a esta gente é como dar uma dar uma pistola a um bebé: podem aleijar-se sem terem culpa. Uma coisa são os putos estúpidos que se expõem para ter engagement, esses merecem um bocadinho o bullying, outra coisa é a Madalena que me parece que nem sabe o que isso é. Por muito maluca que ela seja, por muito desequilibro mental que possa ou não ter, mais malucos são os que lhe inundaram as caixas de comentários e lhe pediram amizade para lhe enviar mensagens com ofensas e dizer que devia ser internada e que envergonhava Lousada. Quem se deu a esse trabalho é que envergonha toda a espécie humana.


Este ódio todo pela maluquinha acontece porque as pessoas percebem que ela é mais feliz do que todos nós.

Na sua ingenuidade, ignorância ou distúrbio mental, está sempre a sorrir e não se importa com o ridículo e com o que os outros pensam. Esta liberdade faz dela um alvo a abater por toda a gente frustrada por esse mundo real e digital. Não estou a falar de quem se riu ou fez vídeos a imitar, como os do Herman e outros, ou de piadas ou do que quer que seja no ramo da paródia inofensiva, mas que pode ofender sem intenção, estou a falar dos tais que a foram achincalhar directamente a senhora para o seu Facebook só para se sentirem melhor consigo mesmos.

O irmão da dona Madalena já veio meter-se ao barulho, também em vídeo, dizendo que ela estava a mentir quando disse que tinha ido ao hospital com ele. O senhor tem falta de dentes e de uma mão e, pelos vistos, de parafusos pois já esteve internado por problemas psicológicos. A doença mental não tem piada, mas algumas pessoas com doença mental têm um bocadinho de piada, não vamos estar aqui a mentir. Nem que seja pelo alívio em forma de gargalhada de não sermos nós a passar pela vergonha de termos um vídeo nosso viral na Internet que nos faça parecer malucos. Eu ri-me por imaginar a animação que devem ser os natais daquela família de malucos. Percebe-se pelo último vídeo que a Madalena publicou que o caso a transtornou e nele nem se vislumbra um sorriso tolinho que víamos nos restantes. Parece, até, ter envelhecido dez anos em poucos dias; ameaça processar toda a gente que partilhou o vídeo e ajustar contas com Herman José que fez umas quantas paródias no Instagram. Isto de dizer que vai processar toda a gente prova ainda mais que ela não sabe muito bem como funciona a Internet e, em especial, as redes sociais.

Ela ainda lucrará com isto? É provável. Já foi à televisão, o que para ela deve ser como ganhar o euromilhões, e sou gajo para apostar dinheiro em como algum agente chulo falará com ela para lançar umas músicas. 

Sim, porque pelo que vi de alguns vídeos da dona Madalena a cantar, em termos vocais está muito perto da nossa preguiça desengonçada que dança como se estivesse a ter um ataque epiléptico. Ainda vamos ter notícias da Madalena, garanto-vos, e essas notícias vão chegar em forma de cancro auditivo - podem dizer que leram aqui primeiro esta previsão - e nós vamos ouvir, ver e partilhar, porque adoramos acidentes e desgraça alheia para nos sentirmos melhor com a nossa vida.
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3 de setembro de 2018

BBC Vida Nocturna - Safari na noite do Algarve



Cai a noite nas ruas do Serengeti Algarvio, mas podia ser de qualquer outro sítio com vida nocturna. O verão é a época alta da caça e o calor faz expor mais as presas devido à falta de vegetação provocada pelas secas. Ainda é cedo e as famílias de gnus passeiam juntas, sem recear os predadores que ainda não saíram de casa. As crias de gnu passeiam com os seus progenitores que não desconfiam que estas, após os pais irem dormir, se aventurarão nas ruas perigosas da cidade em busca de comida, bebida e parceiros para acasalar.

Passadas umas horas, a noite é, agora, mais cerrada e os barulhos dos talheres dos jantares nas esplanadas dão lugar à música de fundo que brota de dentro dos bares, como se de um canto da sereia se tratasse que atrai todo o tipo de espécies autóctones e migratórias da noite algarvia. Os pavões, machos e fêmeas, distinguem-se ao longe iluminados pelas luzes dos candeeiros que disfarçam a escuridão das ruas da cidade. Eles de t-shirt de alças e tatuagens tribais, com gel no cabelo e músculos salientes; elas de vestido curto e frases profundas tiradas da Internet tatuadas à volta da coxa, maquilhadas como se fosse camuflagem de uma guerra que é injusta. Os pavões executam rituais de acasalamento belíssimos; elas dançam, abanando a sua cauda vistosa ao som de funk brasileiro para atrair os pavões machos das redondezas.

Eles engatam com o olhar, encostados ao balcão, ou através de chamamentos elaborados como "Ó boa, comia-te toda".

Aprendizagens passadas de pais para filhos e aprimoradas ao longo de milhões de anos de selecção natural, visto serem estes animais os que mais procriam.

Por entre o fumo de um bar e o seu chão que cola, dois Alces machos chocam de frente, empurrados pela multidão que dança. Lançam olhares ameaçadores e grunhidos ferozes e imperceptíveis. A luta é iminente e a violência inevitável. Começam, desafiando-se com empurrões e disputando a atenção das fêmeas que preferem os Alces alfa, numa espécie de ritual de medição de hastes, para ver quem a tem maior e mais vigorosa. No meio da pista, as suricatas dançam em grupo, protegendo-se umas às outras. Fazem uma rodinha em que colocam os seus pertences no chão, mostrando que apesar da estatura, são animais fortemente territoriais. As aves de rapina circulam o grupo, olhando de alto para baixo, tentando perceber qual o ponto fraco do círculo de segurança criado pelas suricatas que estão sempre atentas, avisando-se umas às outras se o perigo se aproxima por trás em forma de um falcão bêbedo e com boca de urinol. Ao lado, os leões rodeiam as presas, alguns confiam que podem comer a gazela mais esbelta da manada, outros, ainda aprendizes e inseguros, optam pela que trouxe o carro, que por ter mais chicha é a que corre menos e, assim, tem menos probabilidade de escapar das garras dos predadores esfomeados. Por vezes, são as leoas que caçam e, normalmente em grupos, atacam os bisontes machos atirando-lhes com os cabelos para a cara, num movimento coordenado, e encostando e oferecendo a sua parte traseira, olhando para trás como se o esfreganço tivesse sido acidental. Não foi e ambos o sabem, restando agora ao macho tomar a iniciativa, pensando que foi ele a caçar, quando, na verdade, foi atraído para o covil.

Num canto, iluminado em intervalos de fracções de segundo pelas luzes intermitentes que dançam ao som da música, vemos que um predador já se alimenta de uma jovem gazela. Encostados à parede, ele tenta sufocá-la, colocando-lhe o seu maxilar aberto com a maior amplitude de tal forma que lhe tapa as fossas nasais e a boca. A língua percorre toda a circunferência e as mãos atestam a qualidade da carcaça, num espectáculo natural de uma beleza rara, mas que pode chocar os mais sensíveis. Na planície da pista de dança, acontece o inesperado e algo raramente captado em filme. Uma hiena tenta caçar uma jovem zebra, encurralando-a e oferecendo-lhe bebidas. A zebra, alheia ao perigo, ou não, aceita as oferendas e continua a sua vida, parecendo insinuar-se à jovem hiena que arriscou perseguir a própria comida. A caçada parece estar prestes a ter o seu clímax, eis se não quando um leão entra em cena. Grande e possante, de juba frondosa e andar confiante, decide intervir e, em apenas cinco minutos e sem gastar dinheiro, consegue aquilo que a jovem hiena tentava há mais de uma hora: a zebra coloca-se nas mandíbulas do leão por vontade própria e a hiena afasta-se do local, de cauda por entre as pernas. Provavelmente, aquela hiena passará todo o verão sem se alimentar e, fraca e subnutrida, sucumbirá ao frio do inverno. É a lei do mais forte, a lei da selva, impiedosa e brutal e onde, por muito que nos custe, não devemos intervir.

Cá fora, ouve-se um barulho característico, não muito longe, e todos os animais da savana param e inclinam a cabeça para vislumbrar o que se aproxima. Por entre gritinhos de "uhhhh" e "yeahhh" avista-se uma vara de porquitchonas selvagens do reino unido. Uma espécie migratória que ruma ao Algarve em busca do calor e que é uma das refeições principais dos linces ibéricos. As gazelas olham-nas de lado, comentando "Olha bem aquelas porcas", sabendo que o lince nacional tem alguma preferência por esta espécie loira e clara, principalmente devido à sua fama de refeição fácil.

É aqui que presenciamos a um dos espectáculos mais questionáveis da vida selvagem: linces adultos rodeiam porcas selvagens que aparentam ser ainda pequenos leitões menores de idade.

Já fumam e bebem e o álcool e tabaco só se vendem a maiores de 18 anos, pensarão os linces que atacam na mesma sem qualquer critério. Por vezes, as porquitchonas selvagens fazem-se acompanhar dos machos da sua espécie: estes andam em grupo, já temperados em vinha de alhos, vermelhos do sol, e apenas se preocupam em beber mais e arranjar confusão e, por vezes, dá-se a luta com bois almiscarados nacionais que guardam os bares e discotecas, quais protectores das zonas de repasto da savana e, normalmente, o porco selvagem inglês bate em retirada com o ego e o nariz ferido.

Já a noite vai longa e o sol ameaça em espreitar pelo horizonte a este, quando vemos as ruas e os bares encherem-se de abutres e hienas. Necrófagos por natureza, buscam as presas que ficaram para trás, que cambaleiam inebriadas e que já vomitaram o que tinham no estômago num canto escuro da calçada. Chegam-se com promessas de ajuda, perguntando se está tudo bem e se precisam de auxílio, mas tal não passa de uma emboscada para conseguirem a refeição que lhes foge há muito tempo, numa estratégia triste e desesperada de que só os machos são capazes.

O sol nasce e a cidade ganha outra vida, numa calma aparente e num ciclo que se repete, verão após verão, estação após estação, noite após noite.
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27 de agosto de 2018

Tipos de pessoa nas piscinas dos hotéis



Quem não é rico tem de dividir a piscina com outras pessoas, nomeadamente em hotéis. Com quantas pessoas? Com muitas. Com tantas que a densidade populacional na piscina se assemelha à concentração de lojas de telemóveis no centro comercial Babilónia, na Amadora. 

O maior mal das piscinas são as crianças; as crianças são o melhor do mundo excepto nas piscinas dos hotéis e até os próprios pais gostariam de não as ter lá, perguntando-se, naqueles momentos, por que razão não optaram pelo coito interrompido. São manadas de pessoas pequeninas a correr de um lado para o outro aos guinchos e a chapinhar na água como se não tomassem banho em casa. Ao contrário do que vemos na praia, na piscina os pais estão mais tranquilos porque não há ondas ou correntes que os levem e, então, descansam e deixam-nos fazer o que querem. O Martim está a fazer bombas com mortal encarpado para cima dos vizinhos do lado? Deixa-o estar que é criança e as pessoas compreendem, deixa-me fingir que estou a dormir. A Benedita está a guinchar como se fosse um porco na matança porque o Bernardo lhe roubou os óculos da natação? É preciso deixar as crianças resolverem os conflitos por elas sem a interferência dos pais. E com isto, multiplicado por várias famílias, a piscina do hotel transforma-se numa festa de aniversário infantil para a qual fomos convidados, mas preferíamos não ir.

Normalmente, existe a piscina das crianças e a dos adultos, mas as crianças têm pressa em crescer e decidem ir para a segunda, munidas das suas braçadeiras com as quais dão duas braçadas à cão e os pais aplaudem como se fossem um mini Michael Phelps. É uma pena as piscinas dos hotéis não terem o mesmo serviço de manutenção que o Aquaparque. 

À partida, poderíamos pensar que as crianças não ocupam muito espaço e que, por isso, não incomodam, mas, normalmente, as famílias com crianças vêm equipadas para a piscina do hotel como se fossem para um parque aquático. Trazem pranchas, colchões, unicórnios e flamingos insufláveis; trazem bisnagas, bóias, barbatanas e óculos. Uma família de quatro passa logo a ocupar espaço para vinte. Se houver jacuzzi, mas vale esquecermos que existe. Será ocupado por crianças o dia todo, mesmo que diga para que ninguém use por mais de dez minutos para dar lugar aos outros. As crianças são um bicho anarquista que não respeita as regras. Nem vou falar do facto de a maioria fazer xixi na piscina, porque prefiro não pensar nisso já que tenho um ouvido entupido e preferia que fosse com água do que com urina de criança. Aliás, estou com o ouvido entupido há três dias e é chato, não vou dizer que não, mas, por outro lado, não oiço tanto os gritos das crianças na piscina. Deus tira de um lado, mas dá do outro.

Quando conhecerem alguém que vos diga que gosta de piscinas cheias de crianças aos saltos e aos gritos, já podem dizer que, muito provavelmente, conheceram um pedófilo. 

Vi um pai que não deixava o filho ir à água durante a digestão, mesmo com a criança a pedir de cinco em cinco minutos enquanto fazia birra; o mesmo pai que estava sempre a chamar o filho para meter creme, avisando-o que o sol estava muito forte e fazia mal; o mesmo pai que estava a usar uma tanga zebra. Foda-se. Uma coisa é o filho ter melanoma ou morrer de congestão, outra é ter traumas com o pai vestido de zebra que fugiu do Badoca Park e foi para o Zoomarine.

Só toleramos crianças mal comportadas porque são crianças e, se tudo correr bem, vão crescer e ser melhores pessoas. O problema é que a maioria das crianças resulta em adultos mal comportados. Desde logo, os que decidem deixar a toalha nas espreguiçadeiras, na noite anterior, pensando que isso lhes reserva o lugar. Ora bem, este tipo de gente é o que se designa em termos técnicos: otários. Acham que são mais espertos do que os outros; é o mesmo tipo de gente que passa à frente nas filas e que estaciona no lugar dos deficientes sem o ser, criando assim o paradoxo da deficiência, pois ao fazê-lo passam a ser deficientes mentais. Não, meus amigos, deixar a toalha na cadeira no dia antes, ou de manhã, não vos confere o estatuto de usucapião das espreguiçadeiras. Se eu tivesse um hotel, tinha uma pessoa cujo único trabalho era recolher estas toalhas, encharcá-las em gasolina, atirá-las à cara do dono e depois mandar um fósforo para os ver feitos atrasados mentais flambé a correr para a piscina que eles tanto gostam. 

Outra espécie autóctone às piscinas do hotel é o DJ Sunga. O DJ Sunga, como o nome indica, usa sunga e transporta consigo uma coluna portátil para dar música a toda a gente. Acha que o seu gosto musical é tão bom que é impossível alguém sentir-se incomodado com a batida de carrinho de choque que emana por baixo da sua espreguiçadeira. Se o ser humano não tivesse inventado auscultadores e estivesse um silêncio desconfortável, ainda percebia, mas com essa invenção e juntando o facto de o bar da piscina ter colunas que já estão a passar música, parece-me disparate. Em algumas zonas da piscina as duas músicas fundem-se, numa espécie de remix, cortesia do DJ Sunga. O DJ Sunga tem, claro, tatuagens tribais cujo significado profundo é o facto de marcarem um dia especial da sua vida: o dia em que ele conseguiu juntar dinheiro para as fazer.

Sabem qual é a parte boa das tatuagens tribais? O facto de já não estarem na moda. Sabem qual é a parte má? É que como são tatuagens continuam lá.

Depois temos as meninas das selfies. Dez da manhã e lá estão elas à beira da piscina, maquilhadas e com brincos, a fazer todo o tipo de poses para a câmara. A menina da selfie só vai à piscina para trabalhar para o bronze; parece uma flor e essa flor é o girassol que vai rodando a espreguiçadeira, consoante o ângulo do sol, para que o bronzeado fique perfeito. Dez minutos de um lado e vira o frango para tostar do lado contrário. Os homens só querem bronzear à frente, para um homem heterossexual, estar bronzeado nas costas não tem qualquer utilidade estética ou prática.

Por fim, há sempre um gajo sozinho, que pouco mais faz do que dar um mergulho e voltar para a toalha. É a única pessoa sozinha no hotel e está sempre a olhar com um ar psicopata para toda a gente, a observá-las como se estivesse a tramar alguma. Senta-se na espreguiçadeira com um bloco de notas e vai apontando o que vê para mais tarde publicar um texto no seu blog. Enfim, só malucos. 
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21 de agosto de 2018

A praga das t-shirts da Levi's



Sabem aqueles filmes futuristas em que os humanos andam todos vestidos de igual e, por norma, de branco para retratar um mundo frio e asséptico? Pois bem, as previsões estavam correctas com a diferença de que temos uma marca estampada no peito. Já devem ter reparado na praga que invadiu as ruas e o Instagram do nosso país: pessoas vestidas com uma t-shirt branca com o logótipo da Levi's. Chamam-lhe "T-shirt viral" que é todo um conceito novo que ainda estou a tentar compreender. Ontem, na rua e em menos de uma hora, contei cerca de 52 destas t-shirts; a maioria era branca e as t-shirts também. Não consigo perceber o processo mental de: "Bem, toda a gente tem esta t-shirt, vou comprar uma.". Se fosse uma t-shirt muito bonita ou com uma relação preço/qualidade incrível, tudo bem, não acho que é por outras pessoas terem que não devemos querer só porque achamos que somos diferentes. No entanto, neste caso parece-me que é apenas porque "é moda" e quem não tem sente-se excluído desta tribo super cool.

É uma espécie de flamingo cor-de-rosa, versão 2018, com a diferença de que com o dito insuflável o mundo só era igual nas fotografias do Instagram e não tínhamos ruas inundadas de clones.

Talvez isto seja tudo um mal entendido e a explicação para este fenómeno esteja no facto de a Levi's pagar tão mal aos seus empregados que nem têm dinheiro para comprar roupa e andam com a farda do trabalho nos dias de folga. Se pensarem bem, essa t-shirt, básica e com um logótipo gigante, só faz sentido para os empregados das lojas da Levi's. Imaginem o que seria este conceito com outra marca e passearmos todos vestidos com a farda do McDonald's e a cheirar fritos. Imaginem que vestiam uma t-shirt branca e alguém vos abordava na rua: "Olhe, tenho aqui este autocolante com o logótipo da minha empresa e gostava de o colar na sua t-shirt. Em troca o senhor paga-me 20€, pode ser?". A Levi's conseguiu convencer milhares de pessoas que isto é cool e o mais engraçado é que a marca é conhecida, maioritariamente, pelas calças de ganga e não pelas t-shirts.

Vi uma fotografia de uma rapariga no Instagram em que envergava a dita t-shirt e cuja legenda dizia "Sê tu mesma, não tenhas medo de ser única.". Alguém lhe devia explicar o conceito de unicidade. Andávamos enganados ao pensar que o pior que podia acontecer a uma mulher era chegar a um sítio e ver outra com a mesma roupa. Ninguém gosta de usar farda na escola e depois anda tudo de igual. Pensando bem, pode ser essa a mensagem por trás deste movimento Leviano (forte trocadilho): se andarmos todos vestidos de igual, o estatuto e as classes sociais dissolvem-se e o mundo é um local melhor. Sim, porque com os ciganos a vender as mesmas t-shirts na feira por três euros e meio, a Levi's torna-se, assim, uma marca transversal que é usada tanto por betos de Cascais como por mitras da Linha de Sintra; por emigrantes com crucifixo de rezar no escuro como por mães de Martins e Beneditas que pensam que ainda são jovens.

No meio disto tudo, tenho de dar os parabéns ao pessoal do marketing da Levi's que conseguiu este feito. Não sei se foi propositado ou se estão a apanhar do ar tipo "Eh pá, como é que a gente fez isto? Era giro descobrirmos para conseguirmos replicar para outras peças". Penso que isto possa vir a ser um case study com o título: como é que uma marca conseguiu convencer os seus clientes a pagar para serem outdoors publicitários ambulantes. Ando na rua e estou sempre a ter déjà vus, com pessoas iguais a brotar de cada esquina com a marca estampada quais anúncios popups.

Se for para a cama com uma mulher com esta t-shirt não a dispo, faço "Ignorar anúncio".

Acho que este saco do mupi zombie andante foi o resultado desta cronologia:
  1. Levi's paga a influencers de moda do Instagram para usarem a t-shirt;
  2. Nos grupos de amigas as mais giras compram e começam a usar;
  3. As amigas feias e invejosas compram a pensar que também lhes vai ficar bem.
Estou a falar de mulheres porque toda a gente sabe que são elas que movimentam 90% do mercado da roupa, mas os homens também estão a aderir a esta moda em força, não pensem que são só as mulheres que são pategas. Depois desses três passos, cria-se o efeito bola de neve e como se não bastasse pagarem para lhes alugarem espaço publicitário no peito, ainda tiram a foto para o Instagram com a hashtag #levisshirt, mesmo que tenha sido comprada nos ciganos. Nem nos sonhos mais molhados os criativos de marketing tinham ambicionado istoA Levi's terá, assim, conseguido tornar-se uma love brand. Poucas o conseguem e não me lembro muitas outras além da Coca-Cola, da Nike e, claro, da Apple. Se os portáteis da Apple tivessem letras gigantes em néon a piscar a dizer "Este aparelho é da marca Apple e foi caro!" as pessoas compravam com gosto. Quem tem estas marcas paga o preço inflaccionado pelo estatuto que elas conferem e prova disso é que quem tem um iPhone nunca se refere ao seu aparelho móvel como "o meu telemóvel", mas sim como "o meu iPhone". Ninguém diz "O meu Nokia" ou "O meu Samsung". Acontece o mesmo com os portáteis quando ouvimos "O meu mac", numa espécie de impulso incontrolável de anunciar ao mundo que se é uma pessoa muito cool e irreverente. Será que quem tem Ferraris também diz "Eu depois passo a buscar-te de Ferrari" em vez de "Eu depois passo a buscar-te de carro"? Não sei, não conheço ninguém que tenha um Ferrari.

Esta t-shirt não foi a primeira "viral", já tínhamos experienciado este fenómeno, embora um pouco diferente, com as t-shirts do Rock In Rio e do Hard Rock, como se alguém quisesse saber onde vocês vão ou deixam de ir. Tentou-se com uma que dizia "Dar sangue? Eu dei", mas a moda não pegou, ninguém sabe muito bem o porquê. Já agora, se alguém do departamento de marketing da Levi's vir isto e me quiser enviar uma t-shirt, escusam de dar-se ao trabalho porque vou fazer as minhas. (No entanto, se me quiserem enviar calças de ganga aceito com gosto que as minhas estão todas rotas nas virilhas.)
Daqui a uns anos, olharemos para as fotografias de 2018 como fazemos com as de 1994 - em que toda a gente tinha daqueles fatos de treino fluorescentes - e pensaremos exactamente o mesmo: "Bem, que foleirada." Somos todos ovelhas influenciáveis. Todos. Não me estou a colocar fora desse baralho que só tem cartas do mesmo naipe; não o sou com a roupa, mas sou com outras coisas, certamente, como por exemplo com a moda de dizer mal de pessoas que seguem a moda. Agora tramei-vos o comentário que estavam a pensar fazer, não foi? Podem sempre comentar outra coisa e partilhar. Obrigado e voltem sempre.
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16 de agosto de 2018

Entrevistei a Marine Le Pen



Marine Le Pen foi desconvidada para a Web Summit. Sei bem o que ela deve estar a sentir e acho que lhe fizeram um favor, tal como me fizeram quando fui desconvidado para um casamento porque houve gente ofendida com coisas que escrevi. Castigo era terem-me obrigado a apanhar seca e ainda ter gastar dinheiro na prenda. Em relação a Le Pen, houve quem enaltecesse o facto de ser desconvocada, houve quem achasse que é uma espécie de censura e que isso é descer ao nível da senhora fascista. Tenho um misto de sentimentos: por um lado, acho que a Web Summit, um palco internacional que simboliza uma aldeia cada vez mais global, não é lugar para o nacionalismo de algibeira; por outro, já que tinha sido convidada, acho que devia ter vindo nem que fosse para termos oportunidade de lhe mandarmos com fruta podre à cabeça. Assim, perdeu-se uma boa ocasião para lhe dizermos em pessoa o que costumamos escrever nas redes sociais sobre os seus ideais.

Seja como for, acho que o racismo e a xenofobia não se combatem a varrer para baixo do tapete e, por isso, gostava de ter visto um debate com Le Pen ou vê-la responder a perguntas incómodas vindas da audiência. É a contrapor e a ridicularizar que se combatem estes fenómenos populistas. Assim, só lhe fizemos o que mais lhe criticamos: mandá-la de volta para a terra dela.

Vendo que ela já não viria, mexi uns cordelinhos e consegui uma entrevista com a senhora que vou partilhar convosco:

GD: Então, Marine, diga-me lá uma das primeiras medidas que tomaria caso fosse eleita presidente de França.
LP: Expulsão automática de estrangeiros condenados por crimes e de todos os que estiverem a ser vigiados pelos serviços de espionagem.
GD: A primeira até posso concordar, mas a segunda quer dizer que acredita que as pessoas são culpadas até prova em contrário?
LP: Os estrangeiros, sim.
GD: Faz sentido, não falam bem a língua por isso nunca se sabe se estão a confessar o crime ou não. E mais uma medida?
LP: Construir prisões para termos vagas para mais 40 mil reclusos.
GD: Ui, então, mas depois de expulsar todos os estrangeiros e migrantes ilegais ainda vai precisar de prender tanta gente? Não me diga que os franceses também cometem crimes?
LP: Próxima questão, por favor.
GD: Qual acha que é a coisa mais importante numa sociedade?
LP: A educação.
GD: Mais uma coisa em que concordamos, ainda saímos daqui amigos, mas diga-me, sobrará dinheiro das prisões para apostar em escolas?
LP: Não, mas o que vamos fazer é decretar que apenas os cidadãos franceses tenham acesso a educação gratuita.
GD: Então, deixe cá ver se entendi: acha que a educação é a coisa mais importante da sociedade, mas quer limitá-la, é isso?
LP: Hum... sim.
GD: Então, e se acha que os estrangeiros são a fonte dos problemas, não deviam ser eles a ter mais acesso à educação já que se acha que é a coisa mais importante na sociedade talvez ajudasse a integração?
LP: Próxima pergunta, por favor.
GD: Em termos de desemprego, o que pretende fazer?
LP: Vou taxar empresas que não fabriquem as coisas na França.
GD: Ok, mas sai mais caro às empresas produzir as coisas em França do que, por exemplo, na China, certo?
LP: Certo, mas assim é que se combate o desemprego!
GD: Será? Olhe a Apple que fabrica no estrangeiro e que, por isso, consegue margens de lucros gigantes ao ponto de ser a empresa mais valiosa do mundo que emprega no seu país de origem cerca de 80 mil pessoas e estima-se que tenha criado cerca de dois milhões de postos de trabalho indirectamente. Se tivesse de fabricar nos EUA é provável que nunca crescesse tanto e assim tinha criado menos postos de emprego no seu próprio país.
LP: Próxima pergunta, se faz favor.
GD: Em termos laborais, tem mais alguma medida?
LP: Sim, os empregadores que contratem estrangeiros devem pagar um imposto adicional.
GD: Porquê?
LP: Para favorecer a contratação de franceses!
GD: No início deste ano foram várias as notícias que deram conta de que a França tem falta de mão de obra qualificada como engenheiros, por exemplo.
LP: Temos é de formar e não ir buscar estrangeiros que isso só prejudica o país!
GD: Por exemplo, em Silicon Valley, 50% das pessoas são nascidas fora dos Estados Unidos o que significa que se não aceitassem estrangeiros nunca seriam a meca de inovação e tecnologia do mundo.
LP: Próxima pergunta, por favor.
GD: Um dos seus temas mais queridos é o Islão, certo?
LP: Sim, os muçulmanos estão a querer invadir a França, mas nós vamos resistir!
GD: Parece-me que anda a ler Astérix a mais, mas qual é o problema ao certo?
LP: O terrorismo como é óbvio! Andam a matar os franceses!
GD: Percebo, mas, por exemplo, neste século morreram 249 pessoas em França devido a ataques de terrorismo islâmico. No entanto, por ano, existem mais de 700 homicídios em França o que dá, para o mesmo período de tempo, cerca de 11900 mortes.
LP: Sim, e?
GD: Nada, nada, achei curiosas as prioridades. E mais medidas?
LP: Retirar aos migrantes ilegais o acesso gratuito aos cuidados básicos de saúde, por exemplo.
GD: Percebo, acha que quem não paga impostos não deve usufruir do que é sustentado com eles.
LP: É isso mesmo! Finalmente, alguém me compreende.
GD: Espere... mas uma das suas medidas é impossibilitar a legalização de migrantes ilegais, correcto?
LP: É, sim senhor.
GD: Então, não é uma questão de dinheiro, caso contrário facilitaria isso para que eles pagassem impostos pelo trabalho que já estão a desempenhar de qualquer forma e isso beneficiaria o Estado e, por isso, todos os contribuintes franceses.
LP: Próxima pergunta, por favor.
GD: Ouvi dizer que também quer restringir os pedidos de asilo, correcto?
LP: Correcto.
GD: Da mesma forma, se França fosse, por exemplo, invadida por uma Alemanha Nazi, ninguém deveria dar asilo e abrigo aos franceses, certo?
LP: Não percebi a pergunta, porque é que alguém quereria fugir de uma França ocupada por Nazis?
GD: Tem toda a razão, erro meu, troco Alemanha nazi por uma Rússia comunista.
LP: Acho que aqui vou ter de lhe dar razão que realmente ser invadido por comunistas é de fugir.
GD: Visto que a imigração é péssima para o mundo, faz sentido que a França dê o exemplo, certo?
LP: É nesse sentido que queremos trabalhar.
GD: Existem cerca de 300 milhões de pessoas no mundo de ascendência francesa devido à emigração. Têm espaço para os receber a todos de volta?
LP: Próxima pergunta, por favor.
GD: Já percebemos que não aprecia estrangeiros, mas imagine, senhora Le Pen, que em vez de ser um migrante que vem escondido num barco, é um dos 20 milhões de turistas que visitam Paris todos os anos e que sustentam a economia francesa.
LP: Não vejo problema nisso.
GD: Mesmo que fosse uma família saudita, por exemplo?
LP: Desde que sejam pessoas com boa educação, não vejo problema.
GD: Sim, sim, esta família hipotética é riquíssima e teve acesso aos melhores estudos.
LP: São muito bem vindos.
GD: Ok, então deixe-me dizer que acabou de deixar entrar a família Bin Laden em França. E agora?
LP: Bom, tenho de ir embora.
GD: Precisa de boleia? Tenho um tio que mora "na França" e que vai voltar hoje para cima. Acho que ainda tem espaço para si na bagageira no meio das chouriças e das batatas.
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