24 de setembro de 2017

Apalparam a minha namorada no metro



Vendo que a Joana Amaral Dias propôs uma zona exclusiva para mulheres nos transportes públicos, para evitar o assédio, perguntei à minha namorada se já tinha sido apalpada no metro. Ela respondeu-me: «Fui uma vez.» Achei nojento e senti repulsa! Não percebo que tipo de homens andam no metro que só apalparam a minha namorada UMA vez! Uma única vez?! São todos cegos ou quê? Ou por ela ser tão gira não a apalpam por acharem que não têm qualquer hipótese? Andam os homens deste Portugal a descer-lhe a autoestima para depois ser eu a lidar com as inseguranças dela? Enfim, os homens são todos uns porcos.

A Joana Amaral Dias sugeriu esta medida só para mostrar que é gostosa. «Vejam lá que eu sou apalpada tantas vezes diariamente que preciso de uma carruagem só para mim!». É como quando os homens dizem, casualmente, numa conversa de primeiro encontro, que não usam preservativo porque lhes aperta muito, tentando dar a entender que são donos de um pénis de calibre considerável. Normalmente é treta e não gostam de usar preservativo porque, não tendo volume, perdem-no dentro da parceira.

Embora não concorde com esta medida, penso que pode trazer bastantes vantagens, desde que a zona exclusiva para mulheres nos transportes não seja ao volante.

Desde logo: o facto de um gajo não ter de ceder o lugar uma mulher grávida ou a uma idosa; não ter de apanhar aquelas pitas histéricas que falam alto sobre assuntos sem interesse nenhum «Miga, viste o que a Constança meteu no Insta? Uma foto como Bernardo! C'horror, ela não sabe que ele andou enrolado com a Matilde lá na Católica?»; depois, não tenho de apanhar com aquelas mulheres que se enchem de perfume que cheira a veneno de matar mosquitos; etc. Pensando bem, começo a simpatizar com esta medida... 

Vamos por pontos: um homem que apalpa uma mulher no metro é um atrasado mental que merecia ter um diabo da Tasmânia a roer-lhe os testículos até chegar à próstata; um homem que assedia verbalmente uma mulher, especialmente se ela for menor, é também merecedor de uma chapada à padrasto na garganta. Nisso estamos todos de acordo! No entanto, os homens que fazem isso são uma minoria. Por exemplo, nunca apalpei ninguém e já fui apalpado por um gajo no metro e em discotecas várias vezes, tanto por homens como por mulheres. Sou mais apetecível do que a Joana Amaral Dias que, pelos vistos, só é apalpada por pessoas de um dos sexos. 

Uma vez, na discoteca, estava a dançar e dei um passo para trás, encostando-me, sem ver, a uma rapariga. Pedi desculpa, mas ela virou-se a pedir satisfações e a dizer que eu a tinha apalpado. Calmamente, disse-lhe que nem a tinha visto. Ela insistia e empurrava-me com as mãos e mantive a calma e disse-lhe, novamente, que não a tinha apalpado. Ela começou a gritar e a esbracejar que nem uma arara epiléptica até que cheguei ao meu limite e disse-lhe «Olha bem para ti... tomara tu.». Ficou ofendida porque percebeu que eu tinha razão e virou-me as costas. Não é que eu seja muito lindo, mas a rapariga era um 8, numa escala de 0 a 100. A minha namorada estava ao meu lado e ainda rematou «Olha bem para ti e olha bem para mim, achas que ele precisa de te apalpar?». Fatality! Flawless victory! A autoestima daquela rapariga ficou mais de rastos do que um paralítico atrás do ladrão que lhe roubou a cadeira de rodas. Este episódio serve só para mostrar que é preciso ter cuidado em julgar os homens todos da mesma forma porque ainda há muitos que não apalpam mulheres do nada e que meter esses no mesmo saco só faz com que se tornem umas bestas como eu.

Temo pelo dia que em um homem não pode olhar ou falar com uma mulher sem pedir autorização à Câmara Municipal e que isso faça com que as mulheres fiquem encalhadas como as que apoiam este tipo de medidas.

Ando confuso com a esquerda no tocante a estes assuntos de igualdade de género. Por um lado, vemos o crescimento de uma facção que diz que o género não existe e que o masculino e feminino são criações culturais que deviam ser abolidas e que somos todos iguais biologicamente; por outro, vemos cada vez mais uma luta por espaços privados para mulheres e por quotas em todos os trabalhos (menos nas obras e no transporte e montagem de móveis do IKEA). Esta gente tem de se decidir! Não podem ser as duas coisas! Ou o género não existe e temos de estar todos misturados - incluindo retirar as categorias masculino e feminino dos Jogos Olímpicos e as mulheres nunca mais cheirarem uma medalha - ou existem diferentes géneros e vamos segregar e discriminar positivamente o mais desfavorecido a ver se isto vai ao sítio. Não gosto de nenhuma das alternativas, mas se tiver de escolher vou mais pela primeira, já que assim os balneários dos ginásios serão mistos para que, como homem branco heterossexual que sou, possa objectificar mulheres à vontade.

É um problema o assédio nos transportes públicos? Não sou a pessoa indicada para responder a essa pergunta já que sou homem e, como tal, menos exposto a isso, mas acredito que seja. Acredito que a maioria das mulheres seja apalpada e oiça comentários ordinários de homens mentecaptos. Faz-me mais sentido tornar obrigatório o ensino de Krav Maga a todas as mulheres ou dar-lhes um spray pimenta para a mão. Assim, sempre que as apalpassem, elas poderiam dar um correctivo no homem e educá-lo a não fazer aquilo novamente. Com a separação proposta, os anormais vão continuar a existir, mas com menos oportunidades de o ser. Isto é como gente feia que é fiel: não vale de nada. O problema é real, mas temo que a segregação não seja a solução até porque tenho algumas dúvidas relativamente a esta medida:

Partindo do princípio que no metro esta separação seria feita por carruagens, como é que se controlava? Um guarda que apalpava zonas genitais à porta de cada carruagem? Uma câmara com reconhecimento genital à qual tinhas de mostrar a zona das virilhas? Ou vamos acreditar que as pessoas iam respeitar as leis? Parece-me absurdo pensar que homens que apalpam mulheres incautas fossem respeitar um sinal de proibido. Como se lidava no caso de uma lésbica safadona andar a apalpar o mulherio todo? E as mulheres podiam ir para a zona geral ou era exclusiva a homens? Se pudessem seriam chamadas de promiscuas pelas outras que preferem a segregação criando assim uma maior clivagem entre as próprias mulheres? E nos autocarros? Quem ficava com os bancos de trás que têm uma carga história de segregação tão grande? Os homens? E depois quando eles tivessem de vir para a frente para sair não iriam aproveitar para se roçar tudo aquilo que não tinha conseguido durante a viagem? Estou só a fazer perguntas antes de decidir se essa medida é parva ou tem potencial. Estou a gozar, é claro que é parva. Enfim, não era de esperar que a Joana Amaral Dias soubesse qual é o caminho certo já que ela, como qualquer mulher, tem um péssimo sentido de orientação.
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21 de setembro de 2017

Para a minha mãe tudo fazia cancro



As mães nunca precisaram de grande poder de argumentação pois bastava aquele olhar de quem tenta matar cabras com o olhar para que obedecêssemos, sem questionar a autoridade vigente lá de casa. Até os nossos pais sabiam que quando lhes pedíamos alguma coisa única resposta certa era «Já perguntaste à tua mãe?». Os homens mandam no mundo, mas as mulheres mandam lá em casa! Os primeiros não têm feito um grande trabalho no seu papel, mas temo que se fossem as mães a mandar no planeta vivêssemos numa ditadura em que todas as esquinas estão revestidas a borracha e onde não havia referendos, já que as mães têm sempre resposta a todas as perguntas. Lembro-me de ser criança e tentar enveredar por um encadeamento infinito de "porquês", a tentar contra-argumentar, e chegar sempre a três resultados possíveis como alegações finais da minha mãe:

- Porque sim
- Porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Porque faz cancro.

O fluxo de conversa era mais ou menos este:

- Posso fazer uma tatuagem do Bolicao?- Não. Isso faz mal.
- Faz mal porquê?
- Porque sim.
- Tu dizes que porque sim não é resposta!
- Faz mal porque eu sou tua mãe e eu é que sei.
- Mas porquê?!
- Porque faz cancro.

Para a minha mãe, tudo fazia cancro quando eu era pequeno: eram as tatuagens do Bolicao; os chupa-chupas Push Pops; os chupões autoinfligidos nos braços; tirar as crostas das feridas; roer as peles dos dedos ou as unhas; coçar borbulhas das melgas até fazer ferida; comer o queijo que saía da tosta e ficava mais queimado; passar muito tempo em frente ao computador; beliscões; escrever a caneta nas mãos ou nos braços; engolir pastilhas; meter o dedo no nariz; ver televisão de perto; ver televisão de longe e esforçar os olhos; ouvir música muita alta com auscultadores; olhar directamente para o sol; respirar o cheiro da gasolina na estação de serviço; mergulhar de chapa na piscina; comer torradas queimadas e não usar protector solar, idem. Sei que nestas últimas até é verdade, mas na altura era difícil acreditar e, tal como na história de Pedro e o Lobo, desconfiava que se uma era mentira, as outras todas também seriam, mas, pelo sim, pelo não, fazia sempre os trabalhos de casa, não fosse ficar com um tumor no cérebro. Quando comecei a chegar à idade em que tinha a mania que era esperto – idade em que ainda me mantenho – dizia «Roer as unhas faz cancro? Então para que é que fumam?», fazendo alusão à hipocrisia de nessa altura ambos os meus pais fumarem e darem-me conselhos oncológicos sobre os perigos de tirar crostas e roer as unhas dos dedos dos pés. Em vez de perceberem que estava ali um potencial campeão mundial de contorcionismo, preferiram cortar-me as asas e as unhas.

Nessa altura, o cancro não metia muito medo já que eram, ou pareciam, poucas as pessoas a receber a sua visita. Ia-se sabendo de um ou outro caso, mas nunca muito próximo para se ter a certeza se a Dona Almerinda tinha morrido por fumar durante 70 anos ou por fazer demasiadas tatuagens do Bolicao. Ficava sempre no ar a incerteza. Por isso, o cancro era uma espécie de criatura mítica, um homem do saco 2.0, que os pais podiam usar sem que se tornasse demasiado próximo. Como na minha casa Deus não existia, era preciso um bicho papão mais real para me meter na linha. «Isso faz cancro» era o «Deus castiga» para os pais ateus. Dizer a uma criança descrente que Deus castiga é o mesmo que dizer-lhe que vem aí um unicórnio dar-lhe uma marrada.

Aliás, Deus tem muito em comum com os unicórnios: nunca ninguém os viu e ambos aparecem em livros de ficção. 

O que é certo é que vamos crescendo e percebendo que quase tudo faz cancro e que mesmo que leves uma vida saudável e evites tudo o que é cancerígeno, ele pode bater-te à porta. O cancro nunca podia entrar num episódio do «E se fosse consigo?» porque o cancro não discrimina ninguém e não é por isso que tem boa fama. Eh lá… que isto está a ficar demasiado sério e tétrico. Voltando a roer as unhas dos pés: sou só eu que não meto um corta-unhas nos pés há anos? Aquilo quando um gajo sai do banho e está mole tira-se facilmente sem qualquer utensílio! E nas unhas das mãos é sempre um stress, sendo destro, quando tenho de cortar as da mão direita. Pareço um daqueles gajos nos anúncios de prevenção rodoviária da DGV com a música Aimee Mann. Se por acaso tenho de cortar as unhas em dias de ressaca é impossível! Tremo por todos os lados e mais vale roer e depois limar numa parede porosa. Já sei por que é que o meu avô com Parkinson tinha sempre as unhas compridas. Pensava que era para o estilo ou para cortar queijo e descascar laranjas e, afinal, não.

A minha mãe, como todas as mães, tem conhecimentos avançados de medicina. A minha mãe é como o Google em que quaisquer sintomas que lhe dês a resposta é sempre cancro. Estou certo que a minha mãe poderia roubar o lugar à Maya e à Maria Helena a fazer biopsias por telefone e sem precisar de cartas de brincar compradas no Papagaio Sem Penas. A minha mãe sempre foi uma mãe galinha e dizia-me, entre muitas outras coisas, para não me esforçar demasiado na natação. Certamente, com medo de que eu ganhasse as provas todas e ficasse todo gostoso e tivesse as miúdas todas atrás de mim devido ao meu corpo de nadador. Sempre quis que eu as engatasse pelo meu intelecto que é o que, aos 33 anos, me resta. Sim, já fiz paz comigo mesmo e com o facto de nunca mais voltar ver os meus abdominais a não ser que apanhe uma daquelas doenças que nos emagrece muito antes de morrermos. Sinto que este texto está a resvalar para o cancro, novamente. É melhor ficarmos por aqui até porque, tal como disse, é chato crescer e descobrir que quase tudo faz cancro. Até o sexo oral desprotegido – que é a única forma de se fazer bom sexo oral – provoca cancro. Epá, tirem-me as tatuagens do Bolicao e as torradas queimadas, mas não me tirem cunnilingus sem papel de celofane e, já agora, se é para me fazerem um felácio com preservativo, mais vale irmos ver um filme.
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20 de setembro de 2017

Praxes, Tony Carreira e Buraca Vs Estoril



No episódio desta semana do podcast Sem Barbas Na Língua falamos sobre as praxes, o plágio de Tony Carreira, as diferenças entre a Buraca e o Estoril e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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14 de setembro de 2017

Sem Barbas Na Língua está de volta



Sem Barbas Na Língua está de volta depois de umas merecidas férias. Neste episódio falamos sobre tudo o que aconteceu este Agosto, desde a vinda de Madonna para Portugal, da polémica com o João Quadros e com a Rita Ferro Rodrigues, escalar da ameaça nuclear e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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13 de setembro de 2017

Tony Carreira é um cantor de covers



O Ministério Público acusou Tony Carreira por plágio de onze músicas. O choque! A pergunta que se impõe é: só onze músicas? Não acredito! Primeiro, o Ronaldo em tribunal por acusações de fraude fiscal, agora o Tony por plágio. Só falta descobrir-se que a Leopoldina aconchega o bico no rabo de crianças, para Portugal ficar sem heróis. O plágio é um assunto recorrente no mundo dos humoristas em que é mais fácil duas pessoas fazerem a mesma piada, sem querer, especialmente quando se fala de atualidade e há pressa em ser o primeiro a fazer uma piada sobre um determinado assunto: o resultado é uma piada pouco criativa na qual várias pessoas pensaram. Na música é diferente, já que é mais difícil duas pessoas lembrarem-se da mesma letra, música e melodia, mesmo que seja uma música de qualidade duvidosa, como é o caso. Aliás, o que não irá faltar são humoristas que plagiam outros a fazer piadas sobre o plágio do Tony Carreira. Haverá, certamente, quem plagie piadas sobre o plágio do Tony, criando assim um buraco negro no espaço-tempo contínuo.

O Tony Carreira é aquele aluno que leva cábulas para o teste e mesmo assim chumba. A pena para plagiar merda deveria ser mais pesada.

Plagiar o Tony dá cem anos de perdão porque, afinal, ele é apenas um cantor de covers. Nada contra, há excelentes bandas de covers, mas que são apenas isso e nunca ficam na história por muito boas que sejam pois falta-lhes aquilo que distingue os artistas dos restantes: a criatividade e originalidade. Por algum motivo, uma cópia perfeita da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci não vale um trilionésimo do original.

Até tenho em alguma consideração a família Carreira. Das entrevistas que já vi, tanto o Tony como os filhos parecem gente decente que vieram do nada. Bem, o Tony veio do nada, os filhos já vieram com a Carreira escrita no nome. Apesar de não ser apreciador da música de nenhum deles, acho que tratam o público com respeito, sincero ou não. O Tony é dos poucos "artistas" em Portugal que sabe trabalhar o marketing como deve ser e que prefere ter 50 músicos em palco e ganhar um bocado menos, mas dar um bom espectáculo para os fãs, do que cantar meio em playback com o mínimo de banda possível e meter mais dinheiro ao bolso. Sim, é um cantor pimba, mas foi o primeiro a ser respeitado fora desse meio, com excepção, talvez, de Marco Paulo a quem todos reconheciam o potencial vocal (e o plágio que no caso dele era admitido e, pelo que sei, pagava os direitos de autor). Tony Carreira viveu tempos em que era mal-visto dizer-se mal da sua música. Mesmo outras celebridades, nomeadamente apresentadores de televisão do daytime, diziam gostar muito das músicas dele quando, na verdade, estavam a mentir e só o diziam porque ele falava para o mesmo público que eles. Acho que a música pimba tem mau nome e todos se esquecem que serve um propósito importante que é o de alegrar. Fado é muito lindo sim senhor, mas dêem-me uma bifana e uma mini enquanto o Quim Barreiros está a tocar no palco e serei muito mais feliz. No fundo, os fadistas também são quase todos cantores de covers, mas como é fado é para respeitar porque são artistas superiores aos pimbas. Tretas. A maioria é só gente com boa voz que canta covers.

Ao que parece, Tony já reagiu e diz que o assunto já foi resolvido há uns anos com os autores das músicas que é como quem diz que lhes pagou e não se fala mais no assunto. Não tenho nada contra isso se for honesto: vês uma música que achas que se adaptaria a ti, ligas ao autor e perguntas quanto é que ele quer para te ceder os direitos com a condição que podes ajavardar a letra à vontade e nunca dar créditos ao original. Ele diz-te o preço e tu pagas. Tudo bem, tudo honesto, mas ao que parece não foi assim que foi feito. Foi «Ora deixa cá usurpar isto sem dizer nada a ninguém porque hoje estou com pouca inspiração.». A folha em branco é tramada para quem cria algo, eu sei, mas plagiar deliberadamente alguém e recolher os louros (e dinheiro) por isso, é de quem desrespeita o seu público e a arte que representa. Pode dizer-se que o impacto das músicas dele não muda devido ao plágio e que emociona e inspira as pessoas na mesma. Talvez seja verdade e, no fundo, Tony esteja a fazer um favor a todos os portugueses que não sabem línguas que é o de traduzir músicas estrangeiras para que mesmo os com menos estudos possam apreciar.

A próxima edição do Festival Músicas do Mundo vai ser só com o Tony a cantar em português músicas de 200 países diferentes. 

O problema é que se Tony foi considerado culpado, irá apenas pagar uma multa que não prejudicará em nada o seu império. É como o Ricardo Salgado que pagou três milhões pela caução, milhões esses que, alegadamente, foram obtidos de forma ilícita e ainda lá ficou com uns quantos outros que mesmo que seja condenado, depois de um ou dois anitos de prisão, poderá utilizar para gozar uma bela reforma. No caso do Tony, penso que a multa não deveria ser paga em dinheiro, mas sim em canções originais que seriam avaliadas pelo júri do The Voice. Até o Tony conseguir virar as quatro cadeiras, não poderia sair da prisão. Como isto é coisa para demorar, provavelmente chegaria uma altura em que o Anselmo Ralph já nem precisava de estar de costas voltadas para ser considerada uma audição às cegas. Não me parece que este caso danifique a carreira do Tony, já que era um rumor bastante audível, há muitos anos, e parece-me que o público do Tony é o mesmo que vota Isaltino Morais ou noutros políticos corruptos. Desculpam-lhes tudo porque é isso que os fãs fazem. Os seguidores do trabalho de alguém são críticos a esse trabalho, os fãs estão enamorados pela imagem que têm do seu ídolo e estas polémicas só reforçam esse amor. Os fãs são como as mães de bebés feios: acham-nos lindos e ai de quem disser que têm cara de peru atropelado por uma carroça! Por isso, este caso ficará apenas na consciência do Tony ao qual gostava de deixar umas palavras:

Tony, plagiar é como ir para a cama com uma mulher, desligar as luzes, sair do quarto sem ela ver e mandar no teu lugar outro gajo que lhe dá uma esfrega daquelas de usar Halibut no dia seguinte. Incontáveis orgasmos múltiplos depois, o gajo sai do quarto e tu voltas a entrar e a acender as luzes. Ela olha-te como quem diz que foste o melhor que ela já teve. Tu recolhes os louros e ficas com uma boa imagem aos olhos dela, mas sabes, lá no fundo, que o mérito não foi teu. Sabes que, afinal, o menino não eras tu. Era outro.
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11 de setembro de 2017

Grupos de Facebook de Operações STOP são parvos



Somos uma espécie capaz de se odiar por coisas simples como a cor da pele ou devido a divergências quanto ao nome do amigo imaginário que mora nas nuvens, mas quando o assunto é avisar os outros onde há operações STOP, somos uma raça que se une. Quais cordões humanos e minutos de silêncios por Timor, quais manifestações contra o trabalho precário, os portugueses unem-se é quando o problema se resume a: «Bebi uns copos a mais, mas apetece-me conduzir na mesma... quem me dera saber onde há operações STOP!». Desse problema generalizado da sociedade, nasceram grupos de Facebook com milhares de pessoas onde são publicados os locais onde há operações STOP, tudo em tempo real para o efeito do álcool não se desperdiçar. À primeira vista, tudo isto é inócuo e ingénuo, mas se pensarmos bem sobre o assunto, é um bocado parvo.

Imaginem o cenário: um gajo está bêbedo, mas quer levar o carro para casa porque está bem para conduzir, diz ele. Vai ao Facebook e vê que no caminho que ele faria normalmente há uma operação STOP. Decide, então, ir por outro lado. Como qualquer bêbedo que acha que está bem para conduzir, conduz qual Ayrton Senna e, tal como ele, perde o controlo do carro, galga um passeio e passa a ferro uma grávida que estava a passear um cão adoptado do canil. Morrem todos, incluindo o condutor e o pendura que ia a comer um pão com chouriço. De quem é a culpa? Do gajo que ia a conduzir bêbedo, claro. Mas se tivessem sido vocês a fazer aquela publicação e a avisar aquele gajo da operação STOP, e soubessem disso, não iriam sentir um bocadinho de culpa? Um bocadinho, só?

No fundo, estamos a ajudar outras pessoas a infringir a lei e a colocar a própria vida, e de terceiros, em risco. Se fosse só a tua vida em risco nem devia ser proibido conduzir inebriado. Acho que deverias poder andar sem cinto de segurança à vontade. Queres ir ver mais de perto a traseira de uma Renault Kangoo? Força nisso. Andas de mota sem capacete porque sempre sonhaste ter a cara metade pessoa, metade batata a murro? É na boa, força nisso. É como quem se vai encostar a uma arriba na praia mesmo juntinho ao sinal de perigo. Um gajo precisa de se livrar do peso morto para evoluir a espécie. Os burros estão a atrasar-nos demasiado e gostava que o mundo não acabasse antes de ser criado o teletransporte, de descobrirem o soro da imortalidade e, se não for pedir muito, do Sporting ser campeão outra vez.


«Banco Alimentar? Ui, hoje não, dei ontem.»
«Uma moeda? Ui, não tenho trocos.»
«Uma operação STOP? Deixa-me cá cumprir o meu dever cívico para com os meus conterrâneos. O táxi é caro e um gajo tem pouco dinheiro porque as bebidas estão caras. A culpa é do governo e dos turistas que inflacionaram isto, porque se o táxi fosse de borla eu não cometia contra-ordenações! Isso e para tramar esses gatunos da polícia que só andam é na caça à multa!»

As pessoas criticam a polícia por fazer caça à multa, mas há uma forma muito fácil de não cair nessas armadilhas que é, pasme-se: não infringir a lei! Ahhh, informação dramática! Também acho que se deve investir mais na prevenção e na educação do que na punição, mas até chegar uma geração mais consciente na estrada, temos de caçar o pessoal que trata o volante como as caixas de comentários do Facebook e só diz e faz merda. Longe de mim ser moralista, também já conduzi com um ou dois copos a mais, já liguei a amigos polícias a perguntar onde havia operação STOP e já fui, uma vez, a um grupo desses ver se a costa estava livre.


A diferença é que se eu vir uma operação STOP não vou lá publicar. Quero é que os outros se fodam. Às vezes, o egoísmo tem efeitos secundários positivos.

No entanto, acho que é nestas pequenas coisas que vemos que há esperança no mundo e que a nossa espécie é capaz de se unir e esquecer as diferenças. Aposto que já deve ter havido um gajo nazi a publicar num desses grupos sem se preocupar se está a ajudar bêbedos negros, ciganos ou muçulmanos. Bem, estes últimos só bebem em casa às escondidas e não pegam no carro a seguir. Esse nazi simplesmente quer ajudar o outro e quer sentir-se útil na sociedade, esquecendo-se de julgar pela diferença, tal como os nazis que aplaudem os jogadores negros da sua própria equipa, mas apupam com cânticos racistas os da equipa adversária. Não sei se isto prova que há esperança, ou só que o futebol e o querer conduzir embriagado são valores mais altos do que o racismo.

Uma vez fui apanhado com álcool numa operação STOP e não foi com uma garrafa na mão, foi mesmo no sangue. Foi há uns 4 ou 5 anos e até vi a operação ao longe e podia ter virado ou invertido a marcha, mas, como qualquer bêbedo, achei que estava bem. Não estava. Acusei 0.9 g/l e arrotei 500€ que bem mereci. Voltarei eu a pegar num carro com os copos? É provável que sim, mas se a multa em vez de 500€ tivesse sido de 5 mil, ainda a estava a pagar às prestações e se calhar não pegava. Uma vez passei numa operação STOP com um olho fechado e outro aberto porque era a única forma que conseguia focar. Desta vez, também os vi antes, mas até chegar perto pensava que eram os homens do lixo com uma farda nova. Não fui parado, infelizmente. Merecia ter levado uma multa valente e ficado sem carta uns meses para aprender e não voltar a fazer. Quer dizer, até acho que estava naquele ponto em que nem é muito perigoso conduzir porque tinha a perfeita noção de que nem para andar estaria bem. Então, fui devagarinho e a cumprir todas as regras. 


Quando vês um gajo sozinho, numa rotunda vazia, a fazer piscas já sabes que ou fez merda ou está para fazer.

Até em passadeiras sem ninguém eu parava, não fosse estar a ver mal. Nesse estado fim de festa é melhor do que só bêbedo party mode porque é aí que um gajo acha que está na boa e que fazer curvas a chiar pneu é fixe e que dar 150 km/h dentro da cidade é bué racing. Nesse estado, vem à tona o condutor de UBER que já foi taxista que há dentro de nós em que há toda uma veia de campeão da estrada reprimida.

Voltando aos grupos, imaginem que havia grupos de Facebook para outros crimes que, por exemplo, avisavam sobre a presença de rondas policiais para auxiliar quem está a pensar assaltar uma ourivesaria. Se calhar estou aqui a dar boas ideias de borla, mas pronto. Estes grupos que avisam desconhecidos sobre operações STOP são a versão 2.0 dos sinais de luzes na estrada. Um gajo pode chamar filho da puta a quem não mete os piscas, pode fingir que abalroa o carro de quem nos vai a ultrapassar pela direita, mas não somos animais! Há que ser cortês e avisar o incauto colega de estrada que há polícia mais à frente, não vá ele ser multado só porque vai a 200 km/h na nacional com o seu Fiat Punto kitado. É este altruísmo enquanto espécie que está na base destes grupos de Facebook.

O Homem, especialmente do sexo masculino e especialmente português, já conduz normalmente como se estivesse bêbedo. Já pensa que é herói, não respeita traços contínuos nem limites de velocidade e nem sóbrio sabe fazer uma rotunda, imaginem com os copos. Imaginem que iam de carro ou a pé e que todos os outros carros eram taxistas depois do almoço. Então, para quê ajudar os bêbedos? Longe de mim dar-vos conselhos ou estragar a festa de quem quer beber uns copos e a seguir pegar no carro, mas da próxima vez que forem avisar pessoas que não conhecem de lado nenhum, que podem conduzir feitos atrasados mentais mesmo quando estão sóbrios, pensem nisso.
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Este país não é para portugueses



Portugal está nas bocas do mundo e apesar de isso ser bom, o risco de apanhar herpes ou mononucleose é elevado. Lisboa e Porto são cidades que lideram vários rankings de melhores destinos para visitar e o Algarve acabou de ser eleito como o melhor local do mundo para viver os anos de reforma. Sendo que a reforma média em Portugal é de pouco mais de 4000€ anuais, suponho que estivessem a falar de reformados ingleses ou alemães. Reformados esses que podem ser engatados pelas nossas viúvas e viúvos, ajudando assim a compensar o dinheiro que lhes foi roubado na reforma. Mesmo que isso não aconteça, é preciso ver o lado positivo de viver no melhor país para reformados com uma reforma miserável: toda a gente sabe que muitas doenças são psicológicas e psicossomáticas e quem tem de reforma menos de 400€ por mês não se pode dar ao luxo de as contrair, pois não teria dinheiro para os medicamentos.

É caso para dizer que este país não é para velhos... portugueses.

Portugal foi, também, eleito o melhor destino europeu de 2017 e os turistas chegam aos magotes, durante todo o ano, às principais cidades portuguesas. Se isto traz consigo a vantagem de vermos zonas outrora devolutas a serem reabilitadas, de haver mais dinheiro a entrar e de haver mais loiras pouco habituadas ao sol de portugal - facto que se reflecte nas roupas que usam - aos poucos, vamos percebendo que este Portugal não é para portugueses.

Os preços nos centros das principais cidades sobem a um ritmo impossível de acompanhar para a maioria dos portugueses. Basta pensar que com o salário mínimo português - 557€ - quem quiser morar no centro da capital, não consegue mais do que um T0, num quarto andar sem elevador e com a casa de banho ao lado, ou mesmo dentro, do frigorífico. O preço dos restaurantes também sobe em flecha à boleia do dinheiro de turistas e da moda do gourmet. Começa a ser complicado comer um bom bitoque por 6€ no centro das cidades. As tascas estão a morrer e a ser substituídas por comida pretensiosa que chegará o dia em que no menu só veremos escrito "Double Touch", por 15€, e em que só teremos bolo do caco para molhar no ovo e salada de rúcula em vez de batata frita a escorrer óleo. Temo pelo dia em que nas casas de fado se cantará os grandes clássicos «Oh people from my land», «People who wash on the river» e «In the house of the little gay». Não tarda, todo o Portugal será um grande Algarve de Agosto, em que se tem de saber falar inglês para pedir uma cerveja num bar. Viaje para fora cá dentro nunca fez tanto sentido. Não me estou a queixar, tenho pouco de nacionalismo dentro de mim, acho que o ar é de todos e é da maneira que se treina o inglês e se melhora o CV. Os portugueses já são conhecidos lá fora por serem bons de língua e a falar outros idiomas, também.

Portugal foi ainda escolhido como o quinto melhor país do mundo para viver e trabalhar, segundo um inquérito feito a expatriados, claro. Os portugueses teriam uma opinião diferente, talvez porque se queixam mais e valorizam menos o que têm. Sendo que à nossa frente ficaram países como o México e a Costa Rica, não sei como devemos encarar este troféu. Digo, há muito, que Portugal é o melhor país do mundo para se viver, mas dos piores para trabalhar, especialmente se compararmos com a Somália, onde cerca de 40% das crianças entre os 5 e os 14 anos já estão empregadas. Aos 18 anos terão um currículo melhor do que a maioria da minha geração, a tão falada Millennial. O nome Millennial vem do facto de ser a geração onde Mil euros é a expectativa máxima de salário para quem tem mestrado, boas notas e tirou um curso com boa empregabilidade, já que os outros, mesmo licenciados, podem dar-se por contentes com 500€ a recibos verdes. O meu pai sempre me disse que a melhor forma de saber gerir a minha mesada era se fosse pequena. Isto para não falar de que 25% dos jovens está no desemprego o que tem um impacto directo na forma como começamos a ver o núcleo familiar.

Sabem qual é a idade com que os filhos saem de casa dos pais? Três anos seria a resposta dos pais da Maddie, mas a média em Portugal é de 29 anos.

Ao contrário do que possa parecer, isto tem imensas vantagens como o facto de aproximar os netos dos avós já que vivem todos na mesma casa e, com os cortes nas reformas, há toda uma entreajuda entre pais e filhos para conseguirem pagar um T2 para seis pessoas nos arredores de Lisboa, ou seja, em Leiria. Sabem porque é que eu também acho que as rendas estão obscenas? Porque não tenho nenhuma casa para alugar em Lisboa. Se tivesse, acharia que estavam muito boas e que ainda havia margem para subir o preço e que só paga quem quer e pode. Esta exorbitância das rendas irá afastar muita gente das grandes cidades e trazer várias vantagens: diminuir o trânsito para os tuk-tuks poderem andar à vontade; reabilitar o interior e as aldeias, onde poderão ter a vossa horta biológica. Estou a brincar, essa aldeia que tinham em mente foi comprada e transformada num enorme turismo eco-agro-rural onde turistas ricos vêm brincar às quintas.

Sabes que o país está cada vez menos feito para os portugueses quando tens um salário médio mensal de 913€ - salário médio mais perto do salário mínimo de todos os países da União Europeia - e tens milionários e celebridades estrangeiras a escolher o nosso país para viver. Apesar de ser mais glamouroso ter a Madonna, Monica Bellucci ou o Éric Cantona a morar em Portugal, o que eu gostava era de ter gente pobre da Nicarágua a escolher Lisboa como a cidade onde iriam mudar de vida, pois era sinal de que o preço das coisas estava barato e que as oportunidades de trabalho eram boas. Estrangeiros famosos em Portugal é como ver vinagre balsâmico na borda de um prato de cozido à portuguesa: sabes que vais pagar mais, mas que o sabor é o mesmo. Isto de gente famosa vir cá para ficar é mau sinal. No Burundi, as pessoas gostam da Angelina Jolie porque ela vai lá passear, dá umas canetas e uns cadernos à malta e volta com umas crianças na mala que só iam dar despesa. Se ela fosse para lá permanentemente morar ninguém ia achar piada quando o café da esquina ao pé de casa dela começasse a cobrar o triplo por um café.

Durante anos ouvi toda a gente dizer - inclusivamente eu - naquelas conversas de café onde se arranjam soluções para todos os problemas do país, que Portugal deveria apostar mais no turismo. Todos eram da opinião que Portugal tem tanto ou mais para dar do que Espanha e do que França e que o turismo seria a chave que resolveria todos os problemas económicos do país. Ora bem, as nossas preces foram ouvidas e há cerca de dois anos que não oiço ninguém dizer que Portugal precisa é de mais turismo. Portugal seguiu os conselhos de todos nós e neste momento toda a gente se queixa que há turistas a mais em Lisboa. Os portugueses nunca estão satisfeitos, faz parte do nosso ADN dizer mal e responder «Cá se vai andando» em vez de «Epá, olha que até estou impecável!». Não é que estejamos impecáveis, mas pensar positivo é a única esperança dos pobres e precisamos de aceitar que este país já não é para portugueses. É para o mundo.
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5 de setembro de 2017

Aventura na Croácia (e Bósnia) - Parte 3/3



Como não há duas sem três, depois da primeira e segunda parte, eis que chega a última etapa da minha aventura pela Croácia, Montenegro e Bósnia. A parte anterior terminou em Kotor, de onde seguiríamos para a Bósnia, mais concretamente, para Mostar, cidade à qual chegámos depois de mais uns caminhos de cabra e fronteiras com dez polícias em que só um é que trabalhava, tal como nas obras em Portugal.

Mostar é aquela cidade que se forem pesquisar ao Google aparece sempre a mesma fotografia da icónica ponte que separa o lado Cristão e Ortodoxo do Muçulmano. A foto é sempre do mesmo local porque, realmente, é a única coisa que Mostar tem. Ainda assim, vale muito a pena por todo a zona envolvente e contrastes entre ambas as margens, com o seu centro histórico património da UNESCO. A Bósnia tem muitas recordações da guerra e, nos edifícios altos, principalmente, podem ver-se muitas marcas de balas em volta das janelas. Alguns prédios em ruínas devido a bombardeamentos, mas, acima de tudo, as recordações da guerra notam-se na cara fechada dos bósnios. Never Forget, lia-se em algumas zonas, mas o mundo tem amnésia.
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Mostar tem muitos ninjas, também conhecidos por mulheres muçulmanas com aquelas burkas pretas que só deixam os olhinhos de fora.

Apesar de achar que cada um usa o que quer, fico sempre um pouco desconfortável por imaginar que se está a perder ali uma oportunidade de se ver bom decote e bom pacote.

Isso e porque me faz lembrar que as mulheres ainda são ostracizadas e subjugadas em muitas culturas onde nem uma ladies night têm. Depois de perdermos as namoradas no meio daquelas barraquinhas que vendem colares e pulseiras - é o que dá não andar com elas por uma rédea curta - sentámo-nos a beber uma cerveja. Lá deram à costa com saquinhos cheios de tralha e de sorriso no rosto de criança que veio da loja de gomas. Fomos jantar fora ao melhor restaurante da cidade e o que comi eu? Uma grelhada mista! Desta vez, óptima e barata. Estava tudo bom. Encheu-se o bandulho de chicha, bebeu-se vinho e nem 15€ por pessoa se gastou. Finalmente, depois de tantas grelhadas mistas, uma que valeu a pena e que limpou o palato daquela salada de carne horrível que comi em Kotor. Não há muito mais a dizer sobre Mostar. Vale a pena e um dia chega. As pessoas, apesar da cara fechada são muito simpáticas. No fundo, é como a Buraca: uns tiros aqui, outros ali; uma ponte que liga a Alfragide que tem uma tradição de assaltos; come-se bem e as pessoas são desconfiadas, mas afáveis.

Na manhã seguinte, cedo nos metemos a caminho de Sarajevo. Não tinha grandes expectativas formadas relativamente à cidade, apenas algum receio do que li na Internet onde dizem que nos arredores há sítios com minas e matilhas de cães selvagens o que achei estranho pois, caso fosse verdade, os cães já tinham ido todos pelos ares, a não ser que sejam ex-militares farejadores de explosivos. Depois de passarmos por várias zonas que faziam lembrar o Cacém depois de um terramoto provocado pela ira de Deus após um concerto da Ana Malhoa, lá chegámos ao centro, cosmopolita e cheio de vida que contrastava com tudo por onde tínhamos passado até então naquele país. Chegámos ao nosso apartamento e fazia jus às fotografias: uma vista brutal, dois pisos, uma marquise de luxo e tudo isto por 120€ por dia, com 3 quartos para seis pessoas. Na Bósnia um português até parece que tem dinheiro!
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«Este prédio é muito seguro porque a polícia faz rusgas de 45 em 45 minutos porque mora aqui o pessoal da embaixada norte americana e têm de garantir a segurança.» diz o gajo que nos alugou a casa. Ya... a Buraca também é muito segura porque há muitas carrinhas de intervenção de um lado para o outro a toda a hora. Normalmente onde há muitas rusgas são os melhores sítios para se ficar, toda a gente sabe disso.

Ao entrar no apartamento, o Zé Bósnias informou-nos que tínhamos de descalçar os sapatos. Ainda pensei que fosse porque ainda lá estava uma empregada a limpar, mas não: era mesmo por questões religiosas. Fiquei arreliado. Não tenho nada contra respeitar as crenças dos outros quando entro numa Igreja ou numa Mesquita, ou quando sou visita na casa de alguém. Agora, numa casa alugada por inteiro só para nós? Que merda é esta? Vou meter uma casa no AirBnB e quando as pessoas chegam lá, digo que têm de colocar-se em nu integral e só podem andar pela casa em posição de futebol-aranha. Palhaçada. Ao menos avisem na descrição do apartamento que estamos sujeitos a regras inventadas por amigos imaginários que moram no andar de cima. Mas pronto, respirei fundo e passou-me. Um dos meus amigos, quando viemos da cidade, esqueceu-se e andou uns minutos lá dentro com os ténis calçados. 

Durante a noite parece que levou no rabo de Maomé, mas ele também tinha bebido muito e não disse que não.

A cidade é composta por monumentos e mercados e talvez tenha sido das minhas favoritas. Do meu grupo quase ninguém gostou, mas eu achei que tinha um carisma diferente e que me cativou. Custa encontrar um café ou bar que venda álcool, mas quando encontras é barato. Jantámos a comida típica de lá, Bureg, que é uma espécie de pastel de massa tenra com carne. 1kg custava 6€. Jantou-se, com cerveja incluída, por 4€ por pessoa. Maravilha. Quem atende ao público é maio carrancudo, mas o resto das pessoas anda sorridente, mesmo os ninjas que se percebe que estão a sorrir com os olhos. Não fosse a minha namorada ler listo e dizia-vos que tem muitas mulheres bonitas, mas como ela vai ler não posso dar-vos essa informação dramática.

No dia seguinte formos embora de manhã, em direcção a Zagreb, para passarmos a última noite das férias, antes de apanharmos o avião às 8 da manhã. A menina da recepção dos apartamentos falava português fluentemente porque tinha estado a estudar português e já tinha ido a Portugal, que é como quem diz que andava a comer um tuga. Viram como eu disse que ela andava a comer e não a ser comida? E ainda há Capazes que dizem que eu sou machista e misógino. Enfim, falta de serem comidas com força, é o que é. Quanto à cidade, já tinha visitado Zagreb há quatro anos e não tinha ficado fã, mas desta vez adorei. A cidade estava cheia de vida, festas, piqueniques, luz e música em todos os parques durante a noite.

No dia seguinte foi acordar às 5 da manhã, depois de uma noite mal dormida com cagufa do avião, e ir para o aeroporto. Beber um sumo de laranja com 5mg de Diazepam, que acabou por não fazer efeito nenhum porque o avião tremeu mais do que o avião que o meu avô com Parkinson fazia a dar-me a sopa com a colher. Ainda não foi desta que virei crente e rezei, mas já faltou mais.

Balanço das férias:
  • Não usei calças nem camisola ou casaco uma única vez.
  • 5 grelhadas mistas comidas.
  • Média de litro e meio de cerveja por dia.
  • 3kg a mais do que quando parti.
  • 11 noites, 3 países e 7 cidades visitadas.
  • Mais de 2000 km percorridos de carrinha.
  • Sobrou dinheiro do subsídio de férias.
  • Duas viagens de avião com zero xixi na cueca.
  • Zero selfie sticks usados.
Espero que tenham gostado e se um dia forem a algum destes países e precisarem de dicas - como, por exemplo, onde comer uma grelhada mista - mandem mensagem que eu guio-vos.
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4 de setembro de 2017

Aventura na Croácia (e Montenegro) - Parte 2/3



Como escrevi na primeira parte, estávamos em Split e o próximo destino seria Dubrovnik, a cidade a que os hipsters já iam antes de entrar no Game of Thrones e ser conhecida. A viagem, apesar de não ser longa em distância, foi feita sempre pela costa, em estradas potencialmente perigosas, e tivemos mais de uma hora à espera para passar a fronteira para a Bósnia. Sim, para ir de carro da Croácia para a Croácia é preciso passar por uma zona que pertence à Bósnia que deve ter sido dada para eles ficarem com um bocadinho de mar, depois da guerra. Ainda dizem que a guerra não compensa: morreu gente, tudo destruído e tal, mas agora podem fazer praia ali no meio de umas rochas.

Chegando a Dubrovnik, houve toda uma aventura com a carrinha com a qual entrámos, à confiança, para uma rua estreita que foi ficando cada vez mais estreita, até já ser demasiado estreita. Dar a volta era impossível, ir de marcha-atrás quase. Sendo que optámos por seguro contra todos os riscos no aluguer da carrinha, arriscou-se e a carrinha riscou-se.


Eram seis pessoas a mandar bitaites, com os homens a dizer que cabia e as mulheres a dizer que era muito apertado. Inserir smile maroto a piscar o olho.

Com ajuda de uns moradores que nos abriram uns portões lá se conseguiu inverter a marcha e sair daquela rua que de tão apertada devia ser virgem em termos de carrinhas. Chegámos ao apartamento e a dona, para além de um bigode daqueles à seria e de pelos a brotar dos sovacos, tinha uma particularidade interessante: não falava inglês e o seu vocabulário resumia-se a:
  • Ok - embora me parecesse que ela usava tanto para sim como para não.
  • No problem - mesmo quando havia.
  • This here - para assinalar algo no mapa era tudo "Beach this here", "Market this here" e "Fladoblkicovncsa this here". 
  • Thank you.
E pouco mais. Sendo que o nosso conhecimento da língua croata se resumia a "hvala" que quer dizer obrigado, houve ali uma amena cavaqueira em que ninguém percebia nada do que se dizia, em que eu lutava com todas as forças interiores para não focar no bigode da senhora e me partir a rir. Os homens têm sempre 10 anos, bem sei. Lá resolvemos tudo o que havia para resolver e fomos passear. Dubrovnik é realmente uma cidade bonita, mas sofre de um problema que é comum no mundo em geral: tem demasiadas pessoas.

Dubrovnik para ficar impecável precisava ali de um ataque terrorista para perder 90% dos turistas e ficar no ponto. Para além das pessoas, tem outro problema que é o seguinte: ou ficas mesmo no centro, ou se ficas a 1,5 km de distância, como eu fiquei, vais sofrer. Pouca distância, pensei ao marcar a casa, mas o problema é que a ir para o centro vai-se bem, mas a voltar são umas mil escadas a subir e o corpo deste menino já não aguenta isso tudo. Bem as fiz várias vezes, mas deixou mossa. De carro é preciso ter cuidado, porque se te enganas numa cortada, tens de ir dar a volta numa rotunda a 20 km para voltar para o centro. Isso ou fazes inversão de marcha na nacional em cima de um traço contínuo numa curva onde não vês nada. Não estou a dizer se foi ou não feito, estou só a dizer que é possível. Ainda assim, o pior de Dubrovnik são os preços na zona do centro. Encontrar um restaurante cujos pratos custassem menos de 25€ foi tarefa quase impossível. Cerveja a menos de 5€, idem. Tudo inflacionado devido a Dubrovnik ter ficado na moda e a todos os restaurantes se terem tornado armadilhas para turistas, tal como acontece em muitas zonas do Algarve, com a diferença que são bem mais baratos no nosso cantinho do sul. Nunca, na minha vida, gastei mais de 30€ por pessoa para jantar fora, acho que a comida não vale esse dinheiro e, mesmo assim, mais de 15€ por pessoa é só em dias de festa. No entanto, se fosse para comer bem, pronto, um dia não são dias, mas pagar 25€ para comer carne manhosa como comi é que me deixa indigesto. O que pedi eu? Uma grelhada mista, claro. A terceira ou quarta em menos de uma semana. Estava má? Não. Estava boa? Não. Valia o que custou? Foda-se, nem me falem, só sei que na noite seguinte fiz atum à brás em casa bem melhor. Relembro que o salário mínimo na Croácia é de 433€. Lisboa, Porto e Algarve, ponham os olhos aqui que não tarda também só moram cá os portugueses ricos, os turistas ricos, e os reformados estrangeiros ricos.

Cansados de subir e descer tantas escadas, houve uma noite em que ficámos em casa a jogar às cartas. Perto das 23h, a dona bigodaças aparece-nos no terraço, qual assombração numa barbearia sem navalhas, a dizer o seguinte: «Please, speak slowly, ok? Yes? No problem, thank you.». Usou todo o seu vocabulário em inglês e, claramente, deve ter ido ao Google translate ver como se dizia para falar baixo e calhou-lhe "speak slowly".


A partir daí falámos devagar, mas aos berros, tal como falo com o meu avô acamado.

Nem estávamos a fazer muito barulho, não era assim tão tarde e quando um gajo está de férias e aluga uma casa com terraço é para fazer chinfrim. Se é para estar calado à noite, a senhora que meta na descrição do Booking que a partir de certa hora só se pode falar slowly.

No dia seguinte, despedimo-nos de Dubrovnik e fomos em direcção a Kotor, em Montenegro. Mais uma daquelas viagens por caminhos de cabras e com paragem na fronteira que demorou uma hora e tal, em que nos pedem os cartões do cidadão e desaparecem com eles para os copiar algures numa máquina de fax que eles têm. Paisagens fantásticas onde o mar corta as montanhas cujas colinas têm denso arvoredo, escarpas desenhadas e barracas. Mal entrámos em Kotor demos com um trânsito jeitoso e, no meio do para-arranca, um maluquinho veio pedir dinheiro à janela da carrinha. Não demos, até porque só tínhamos dinheiro croata e o gajo podia levar a mal, e ele fez-nos um pirete. Boa recepção, Montenegro. Desde logo se notou que a cidade era mais suja, mais pobre, mas, ainda assim, bonita. É mais comum haver cidades pobres e bonitas do que pessoas na mesma situação.

O senhor da casa que alugámos era uma espécie de Rambo da Damaia, com camisola de alças e músculos à vista. Ajudou-nos com as malas e andava a uma velocidade de quem estava a fugir do fisco e isso percebeu-se pelo facto de não pedir dados de reserva nem identificação. Nada. Estava pago pela net, deixou-nos no apartamento e nunca mais o vimos. Almoçou-se bem e barato, visitou-se a cidade até dar aquela moleza de sentar numa esplanada a beber cerveja. Fez-se tempo até ao jantar, porque a vida é o que acontece enquanto se espera pela próxima refeição e foi aqui, minha gente, que comi a pior refeição da minha vida. Grelhada mista? Não, sou parvo, mas não tanto. Foi uma salada de carne cuja receita deixo em baixo:

Ingredientes
  • 200g de alface
  • 100g de carne de vaca (se for rato, gato ou cão também dá)
Preparação
  • Deixar a alface ser ratada por bichos da seda durante dois dias numa sauna até parecer alface roxa rendilhada.
  • Grelhar a carne dois dias antes numa chapa ao sol nos montes e trazê-la pelo deserto na boca de um boi almiscarado sem glândulas salivares.
  • Meter tudo numa tigela e temperar a gosto com água de lavar a loiça.
  • Finalizar o prato com sementes de sêsamo dos restos do pão de hambúrguer dos clientes anteriores.
  • Cobrar 10€ ao patego do turista.
Uma merda. Em Portugal mandava para trás e pedia o livro de reclamações, mas no estrangeiro e em férias o meu tempo é demasiado valioso para me chatear. Restaurante Scorpio, se algum dia forem a Kotor já sabem o restaurante onde ir se quiserem ter uma experiência - como agora se diz - em vez de apenas comer. Uma experiência de merda não deixa de ser uma experiência. Mesmo assim, a cidade ali construída entre o mar e as montanhas fizeram valer a pena a visita. Fora estes restaurantes para chular turistas pategos como eu, é um país bem mais barato do que Portugal, com bolas de gelado a cinquenta cêntimos e cervejas de meio litro a dois euros em qualquer bar. As gajas, não perguntei preços.
Amanhã, a última parte das minhas férias, desta vez em Mostar e Sarajevo, na Bósnia, e ainda uma paragem em Zagreb antes de apanhar o avião.

PS: Parte três já disponível neste link.
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Aventura na Croácia - Parte 1/3



Como é que estamos? Bem? Com depressão pós-férias? É sinal que foram boas. Para efeitos de recordação futura quando tiver Alzheimer, vou fazer como já fiz da vez em que me aventurei em Marrocos e contar-vos as minhas férias só porque sim. Foram baratas, por isso não vou meter muito nojo. Pensem nisto como um guia turístico, mas daqueles em que ninguém me pagou para dizer bem nem tenho de promover a tasca de um tio que tem o melhor bitoque, mas que depois, afinal, é sola de sapato com a gema do ovo sem estar crua.

Quem estrela ovos e deixa a gema cozer, merecia que lhe enfiassem os dedos na frigideira até ficarem bem passados. 

Bem, vamos lá então. Fomos três casais heterossexuais brancos, não porque discriminemos casais do mesmo sexo ou de outras etnias, mas simplesmente porque assim calhou e porque ainda não é preciso preencher quotas nas férias. Foram as mulheres que ficaram de marcar as férias para mostrar que são independentes e proactivas, mas adiaram tanto que acabaram por ser os homens a tratar de tudo o que eram voos, hotéis e aluguer de veículo de quatro rodas. É bom ver que as tradições ainda se mantém. O destino? Não acredito nessas coisas, mas foi avião até à Croácia, onde alugaríamos uma carrinha suficientemente grande para seis pessoas e malas de três mulheres para 11 dias e com a qual percorreríamos a costa croata, Montenegro e a Bósnia.

Marcadas com três meses de antecedência, o que só piorou a minha angústia da espera pela viagem de avião, lá chegou o famigerado dia em que eu me meteria, mais uma vez, numa camioneta com asas conduzida por um taxista mascarado de piloto. Croatia Airlines, ainda por cima, essa companhia aérea de alto gabarito. Fui de directa, tomei jarda para dormir, não dormi, paniquei aqui e acolá e fui durante três horas a conter o ataque de pânico iminente que sentia a brotar de dentro de mim, qual Hulk mariquinhas. Aterrámos em segurança, as pessoas bateram palmas, não sei se ao piloto ou aos engenheiros que conseguiram fazer com que aquela lata velha desafiasse as leis da gravidade.

Fomos buscar a carrinha e seguimos viagem em direcção à primeira cidade: Pula. Foram cerca de 300 km onde verificámos que as portagens são mais caras do que em Portugal e as estradas são piores. O limite é 130 km/h, ou, traduzindo para limite à tuga, 160 km/h. Vislumbrámos paisagens bonitas, mas também muitas cidades que pareciam Rio de Mouro depois de uma praga de gafanhotos nucleares. Chegámos ao apartamento em Pula e fomos recebidos pelo Goran, Guronzan para os amigos, que nos recebeu com uma enorme simpatia e disponibilidade em ajudar, fora o facto de nos ter dito que o restaurante que nos aconselhava ficava a 5 minutos a pé, mas como sou desconfiado fui ver ao mapa e ficava a 3 km. Os croatas devem andar sempre a sprintar de um lado para o outro. Lá fomos para o restaurante que se chamava Lavanda que, como podem ver na foto, estava ali na linha ténue que separa o pitoresco e o motel para onde se levam prostitutas de rua.

Jantei uma grelhada mista, a primeira de muitas, como irão ver ao longo das três partes desta aventura. Estava razoável, mas em qualquer tasca portuguesa se come melhor e mais barato. Bem sei que nas zonas costeira da Croácia se deve é comer peixe e marisco, mas aqui o menino não aprecia bicheza do mar. 

Quem gosta de sapateira não tem critério. Se a sapateira andasse na selva em vez de no mar, toda a gente tinha nojo daquela tarântula gigante com pinças peludas.

Quando vou a Sesimbra peço um bitoque, sou esse tipo de pessoa que faz com que os empregados que dizem que o peixe é muito bom revirem os olhos. A cerveja deles faz lembrar a nossa, mas tem de ser bebida aos meios litros de cada vez porque homem que é homem bebe o seu peso em imperial ao lanche. Outra coisa que se bebe muito na Croácia é sumo de Pipi. Calma, vejam a foto em baixo e reparem que o designer não deve ter colocado as laranjas naquela zona por acaso.
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A cidade era razoável, mas nada de especial. Tem um coliseu a fazer lembrar Roma dos trezentos, um centro histórico pequeno para passear, e pouco mais. Valeu pelas praias, cuja água era como o Jorge Jesus gosta, limpinha, limpinha, e quente como não há em Portugal. Nem tudo é perfeito e, por isso, a areia era uma espécie de gravilha de parque de estacionamento ou rochas que dilaceram as plantas dos pés. A contar com isso levei uns sapatecos daqueles que os velhos usam para não pisar o peixe aranha. Não me orgulho.

Depois de duas noites, deixámos Pula em direcção a Split, mas primeiro parámos na jóia da coroa da Croácia: os lagos e cascatas Plitvice. Chegando lá, deparámo-nos com uma enchente de pessoas para comprar bilhete! Uma bicha maior do que o Polícia da Moda da CM TV. Piada fácil, mas apeteceu-me. Calem-se. No entanto, reparámos que havia outra fila, com um décimo das pessoas, que parecia ser também para comprar bilhetes. Entranhando e não querendo arranjar confusão com croatas de fato de treino, perguntei ao segurança e ele disse-me que ambas davam para comprar bilhetes e que podia ir para a que quisesse. Depois de muito pensarmos se queríamos esperar duas horas ou 10 minutos, optámos pela segunda. A psicologia de massas é assim, o pessoal vê uma fila grande e mete-se atrás a pensar que ali os bilhetes estão a sair do forno. Burros. Lá entrámos no parque sem nunca ninguém nos pedir bilhete e percebemos que havia uma terceira fila que era a de ir à confiança e não gastar dinheiro. Quem lá for, já sabe. Começamos a percorrer aquilo a pé enquanto íamos absorvendo toda aquela paisagem idílica, com água cristalina, quedas de água e verdura de fazer água na boca a qualquer vegan. Andámos uns dez quilómetros, tudo de chinelo menos eu que sou esperto e levei ténis. Ficaram todos cagados de lama? Ficaram, mas os pezinhos do menino não sofreram tanto.

Depois de tudo visitado e de contemplarmos o esplendor da obra que Deus fez em apenas um dia, fomos embora de coração cheio, pés doridos, e sovacos suados. Chegámos a Split, ao cair da noite, e a localização do apartamento não coincidia com as fotos do local. Pensei logo que tínhamos sido aldrabados, mas liguei ao dono da casa e ele veio buscar-nos. A casa era ao pé de um estádio de equipa distrital que tinha estampado em grande "White Boys", com a bandeira dos Confederados Americanos, que vim a saber serem uma claque do Hajduk Split. Não há melhor vizinhança do que os nazis supremacistas brancos. 

Ninguém te protege melhor do escuro do que um neo nazi.

O rapaz que nos alugou a casa tinha todo o ar de fazer parte dessa claque e ficámos felizes por sermos todos brancos heterossexuais. Era muito simpático só que demasiado. Sabem aquelas pessoas com muita energia e que se agarram, tocam e abraçam pessoas que acabaram de conhecer e dão aqueles socos fingidos na barriga dizem «Ahhh, sabes como é que é!!»? Népia, não sei como é que é. Fora isso, muito simpático, deu-nos uma garrafa de vinho como boas-vindas e do apartamento dele vinha um cheiro a ganza nas escadas, mas disso ele não ofereceu. Pelo sim pelo não, era melhor não ficarmos muito morenos para continuarmos a fazer parte da palete de cores aceitáveis daquela zona.

Split à noite é tipo Albufeira em Agosto e cada um tira as conclusões que quiser. Durante o dia a cidade velha é muito gira, com ruelas pitorescas e tudo muito bem conservado. Percebemos, mais uma vez, que na Croácia tudo funciona com código de honra: pagámos uma viagem de barco na qual ninguém nos pediu para ver o bilhete que havíamos comprado no dia anterior. Ninguém. Foi entrar no barco e seguir. Fomos a três ilhas, mergulhamos no meio do mar Adriático e fizemos cerca de 4 horas no total numa traineira na qual o senhor do barco nos veio pedir para não estarmos todos do mesmo lado porque aquilo virava. Já na cidade, pagámos para subir a uma torre com escadas de metal onde faltavam parafusos e parecia ter gente a mais. Não tenho vertigens, mas senti algum desconforto. Pior estava uma senhora que precisou de parar para descansar ao primeiro lanço de escadas - só faltavam uns 50 - gabo a coragem, mas há que ter noção das nossas próprias fraquezas. Claro, mais uma vez, que ninguém nos pediu bilhete e bastava termos entrado de queixo erguido. Os croatas não devem ter muitos turistas portugueses, caso contrário, começavam a perder dinheiro porque para a próxima já sei que vou ter de recorrer à chico-espertice, tão tipicamente tuga. Depois de um dia bem passado, fomos jantar fora. Jantei o quê? Grelhada mista, pois está claro.

Bem, na próxima parte conto-vos como foi Dubrovnik e Kotor que há que fazer render o peixe depois de tanta grelhada mista de carne manhosa.

PS: Parte dois já disponível neste link.
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