26 de julho de 2017

Fatos de banho? Não deixem o biquíni morrer



Chegou o que na Bíblia se descreve como o Apocalipse, os dias do fim do biquíni. Estamos a assistir ao Armagedão da indumentária de praia. Durante anos, a evolução foi feita num só sentido: no da redução do tecido que cobre as mulheres na praia. Era a forma de vermos que a sociedade caminhava para um sítio melhor quando ano após ano, mal abria a época da caça, vulgo época balnear, se via que a sociedade estava mais aberta e despida, literalmente e, também, de preconceitos. Era uma forma de nos lembrarmos que as mulheres fazem o que querem do próprio corpo e que os homens só tem é de virar-se de barriga para baixo na toalha.

Lembro-me de ser petiz, por volta do início da puberdade, em que ir à praia deixou de ser entusiasmante para fazer castelos na areia e dar mergulhos no mar, mas sim para ver corpos femininos seminus. Nessa altura não tinha Internet em casa e, por isso, só os podia ver na praia ou na secção de lingerie do catálogo da La Redoute onde as tangas começavam a dar os primeiros passos. Mais tarde, no catálogo da Reef cujos ténis vinham sempre com uns postais de belas paisagens em segundo plano ofuscadas pelos melhores rabos que Deus e o ginásio esculpiam. Esses postais vendiam-nos um sonho que não existia em Portugal e a ideia que lá fora é que faziam boas coisas, pois nas nossas praias a água não era tão azul e os biquínis não eram tão decotados.


Para além disso, ouso dizer que não se faziam rabos daqueles por cá já que o progresso está para Portugal como os filmes estão para o cinema da Guarda: chegam sempre mais tarde.

Nessa altura, a praia tinha regras simples: biquíni com cueca saco do pão ou fato de banho completo da natação. Os primeiros, para as raparigas elegantes e emancipadas ou para aquelas cujos pais achavam que o que era bom era para se mostrar; os segundos eram para as mães e avós e para as mulheres com problemas em mostrar o corpo, fosse por uma barriga mais saliente, por umas estrias da gravidez ou para esconder o piercing no umbigo que tinham feito com uma assinatura falsa dos pais.

Ao longo dos anos observou-se uma mudança nessas regras e outros tipos de biquíni deram à costa. Todos os Verões se notava uma diminuição do tecido que cobria os corpos morenos. Primeiro, veio o asa-delta que por vezes se confundia com o biquíni de tamanho S que se enfiava entre os glúteos de uma rapariga que o comprou com a promessa falhada de emagrecer até ao verão. Quantas vezes não fui enganado ao ver ao longe uma rapariga e pensar «Txii, aquela de biquíni todo reduzido!» mas, afinal, era só uma cueca do pão enfiada na gaveta de chicha. O asa-delta chegou a Portugal pelos rabos de mulheres que foram passar o verão ao Brasil e, ao início, não foi bem aceite pelas outras mulheres. Era um biquíni que revelava muito e nem todas as mulheres se sentiam confortáveis em expor as suas estrias e celulite. Invejavam as que não as tinham ou tinham mais desinibição para as mostrar e, como é apanágio das mulheres invejosas, apelidaram as outras de porcas exibicionistas. 

Pouco tempo depois veio o fio dental, mais uma vez inspirado pela cultura brasileira do bum bum. O fio dental - daquele mesmo fio - nunca pegou bem em Portugal, excepto nas residentes em bairros sociais e com tatuagens tribais ao fundo das costas. Mesmo com toda a evolução de mentalidades em Portugal, o fio dental era demasiado para nós. Isso e porque só mesmo rabos nota vinte é que o podem usar sem parecerem um molho de carne picada recheada e atada com um cordel para ir ao forno. Mais recentemente, apareceu outro tipo de biquíni: o cortinado. Não falo daquele biquíni com um cortinado em cima como se o rabo fosse um palco onde vai acontecer um espectáculo, mas sim daquele que dá para decidir se fica mais ou menos decotado. Nunca fui fã deste biquíni, até porque desconfio de mulheres com dupla personalidade que num dia querem mostrar tudo e no outro são freiras. Bem sei que dá jeito para ir com e sem namorado à praia, ou com e sem os pais, mas quando vejo fico sempre na dúvida.

Portanto, este foi o percurso normal do biquíni em que todos os anos havia uma maior quantidade de mulheres a apostar nos mais reduzidos. Era uma tendência que nos fazia ansiar pelo verão seguinte, fazendo-nos sonhar com um mundo em que o topless seria a norma. Agora, tudo mudou. Mulheres jeitosas fartaram-se da concorrência e para serem diferentes e se destacarem o que é que foram fazer? Trazer o fato de banho de volta para mostrar às outras que até tapadas ficam bem! Que merda é esta? Bem sei que é um fato de banho que na maioria das vezes tem a parte de baixo reduzida e o rabo à mostra, mas isso ainda é mais parvo.


Fato de banho fio dental é o mesmo que usar leggings com camisola de gola alta. É o mesmo que dormir de cobertor eléctrico com os pés de fora.

Nem nos anos de ouro do Marés Vivas com a Pamela Anderson o fato de banho ficou na moda e agora por causa de meia dúzia de modelos de Instagram que, do nada, começaram a publicar fotografias em fato de banho montadas num flamingo cor-de-rosa, a coisa veio para ficar? Quer dizer... disseram-me porque eu não uso Instagram para ver mulheres seminuas... Uso para publicar demasiadas fotografias da minha cadela e demasiadas selfies quando estou com os copos (se tiverem fetiche por cães e homens embriagados, podem seguir-me em @guilhermercd).

Ainda há alguns que tentaram que o triquíni entrasse na moda. O nome triquíni é estúpido, começamos logo por aí, porque se BIquíni são duas peças, TRIquíni deveriam ser três e, que eu veja, é só uma. Digo eu que apenas sou especialista em roupa de mulher do ponto de vista do observador. O triquíni ainda não pegou porque é feio e deixa um bronze de tapeçaria, mas sempre mostra mais pele! Agora, fato de banho, pá? O mundo está do avesso. Parece que estou numa aula de natação. Só falta usarem touca e molas no nariz para deixar de fazer sentido ir à praia. A praia é como a discotecas: um gajo comprometido não vai lá pelas mulheres, mas se a discoteca fosse só de homens um gajo não ia. Ia comer um pão com chouriço e ia para casa mais cedo. Certo que com o aparecimento do Instagram não é preciso ir à praia para ver rabos decotados já que depois das fotografias de comida e de gatos, os glúteos são as estrelas dessa rede social, mas como homem comprometido, o biquíni era a única forma que eu tinha de ver corpos de mulheres seminuas na vida real sem ter de meter uma peruca e ir a balneários femininos. Aos poucos, estão a tirar-me isso. Curiosamente, com os homens assiste-se ao oposto. Os calções são cada vez mais curtos só porque o Cristiano Ronaldo fez disso moda e os que se esqueceram de comprar calções novos enrolam os antigos da Billabong ou da Quicksilver para cima, como se alguém quisesse ver os seus quadríceps pálidos e depilados. Felizmente, a cueca continua a ser usada só pelo tio Alfredo e a sunga do Sandro está para os homens como o fio dental com tribal está para as mulheres e só pegou ali no pessoal fit das barracas.

«Para o ano vou estar impec e vou usar granda fio dental, migas!» ouvia-se amiúde uma mulher dizer enquanto comia o que ela dizia ser a última bola de Berlim com creme das férias. A morte do biquíni está a tirar essa motivação às pessoas, tanto às mulheres para terem um corpo para mostrar, como aos homens para terem um corpo capaz de engatar uma mulher jeitosa de biquíni reduzido. Temo que num futuro não muito distante seja a burka biquíni, burkini, a entrar na moda. Apesar de ser apologista de que as mulheres usam o que quiserem, uma parte de mim é a favor da lei que proíbe o uso de burkinis em praias de países ocidentais. É uma balança que de um lado tem os meus valores humanitários e liberais e do outro tem a minha testosterona e gosto em ver pele feminina. É uma batalha interna do meu eu civilizado e evoluído contra o meu eu com resquícios da idade da pedra.

Já sei que haverá quem ache que este texto é uma objecficação do corpo da mulher. Já estou à espera de comentários de homens que não conseguem sacar mulheres jeitosas e de mulheres com buço e de mal com a vida. Este texto é, quando muito, um elogio ao corpo da mulher, mas não é a todos que essa teoria de que os corpos são todos lindos e sexys é uma treta e, para além disso, é perigoso. Ter 40 kg a mais, seja homem ou mulher, não é sexy: é perigoso. O culto do corpo perfeito é uma estupidez, mas o elogio e culto do corpo não saudável é, para além de hipócrita, ainda mais parvo. Feito este disclaimer, façam o favor de salvar o biquíni. Nem é por mim, é para um amigo.


PS: Depois do verão vou estrear o meu espectáculo a solo de stand up comedy que vai passar por várias cidades. Se quiserem receber uma notificação por email quando as datas foram reveladas e os bilhetes estiverem à venda, deixem os vossos contactos neste link.
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25 de julho de 2017

Blogs do ano 2017 - Desta fico só a ver



Para quem não sabe, este ano haverá novamente a entrega de prémios dos Blogs do Ano por parte da Media Capital. Só para dizer que me vou armar em Miss e que prefiro entregar a coroa a outra pessoa do que voltar a concorrer. Sinto que é justo que eu me afaste para que outros possam vencer. Isso e porque se concorresse outra vez e não ganhasse iria amuar. 

Sinceramente, nunca pensei ganhar da primeira vez, ainda para mais não sendo eu da casa  - o meu blogue está alojado no SAPO e não na Media Capital Digital - e pensei que isto fosse uma das muitas entregas de prémios em Portugal onde já está tudo comprado e decidido à partida. Não foi o caso e por isso dou os parabéns à Media Capital - não que eu fosse o único que merecesse ganhar, mas por terem sido isentos - e deixo aqui o apelo para todos os que têm blogues ou vlogs para concorrerem que pode valer a pena. Depois de anunciar essa decisão à organização e as minhas razões, foram amáveis o suficiente para me convidar para fazer parte da decisão na categoria de Blog Revelação, feita para premiar blogues com menos de um ano de idade. Por isso, já sabem, se têm um blogue há menos de um ano e quiserem participar, só têm de se inscrever aqui:


Não vale a pena enviarem nudes por mensagem para me subornar, mas podem fazê-lo na mesma só porque sim que eu não me oponho. Ficam é já a saber sou incorruptível e que só eu é que vou ficar a ganhar com isso.

Parabéns à Media Capital por continuar a apostar no digital e boa sorte a todos os que concorrerem, embora a sorte aqui não sirva de nada, porque o que conta é a qualidade ou serem da Buraca o o pessoal dar-vos o prémio por medo de represálias. E, mais uma vez, obrigado a todos os que votaram em mim o ano passado e me deram o prémio na categoria de entretenimento e ao júri que votou em mim para o prémio geral. Sim, foi só para repetir que o ano passado limpei dois prémios. Ainda pensei fazer um de moda este ano para varrer essa categoria, mas olha, desta vez fico só a ver.
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23 de julho de 2017

Quem morre na praia é parvo



Hoje, venho fazer serviço público. Vendo que se anda a gastar dinheiro dos contribuintes para fazer campanhas nas praias para alertar para o risco de instabilidade das arribas, decidi dar o meu contributo. A minha campanha de sensibilização passa por insultar toda a gente que ignora os avisos de perigo e se vai recostar na bela da arriba só porque bate menos o vento ou se tem sombra natural. Sou apologista que a selecção natural é cruel e que devemos ter uma sociedade que não assente em princípios darwinianos e da lei da selva, mas, no entanto, a selecção natural é necessária se quisermos passar para um patamar superior enquanto espécie. Não há nada de mal em preferirmos estagnar neste estágio de evolução, desde que percebamos as consequências e não nos queixemos, mais tarde, de haver tanta gente burra a sobre popular o planeta. Portanto, nos dias de hoje, em que a informação está acessível a todos, depois de várias notícias sobre mortes em anos transactos, basta visitar uma praia para ver muita gente de papo para o ar encostadinha a uma escarpa. Quem são estas abéculas que decidem colocar a toalha mesmo debaixo de um monte de calhaus periclitantes? No meu entender, dividem-se em três categorias: os burros; os destemidos; os matemáticos.

Vamos por partes: os burros.
Não é preciso ter grandes conhecimentos sobre física e geologia para perceber que ali há perigo, até porque está lá a placa a avisar. Basta olhar para os calhaus que estão cá em baixo e fazer a pergunta «De onde terá vindo esta pedra gigante com várias toneladas que se enterrou aqui na areia?». Não me parece um mistério como a construção das pirâmides de Gizé e basta olhar em redor para perceber que do mar não devem ter vindo. Claro que talvez esteja a ser ingénuo à espera de raciocínios lógicos por parte destas pessoas que, se calhar, pensam que as rochas das praias do Algarve vieram desde Marrocos ao sabor da corrente marítima. Talvez lhes seja muito difícil inferir que só pode ter sido resultado da erosão da arriba que fez os pedregulhos aterrarem ali. Depois, não é preciso saber que a aceleração da gravidade na terra é de 9,8 metros por segundo quadrado, para perceber que a rocha em questão não caiu como uma pena, nem veio a rolar delicadamente pela encosta a pedir com licença à moleirinha dos banhistas. Aquilo caiu com força e mesmo que não tenha atingido uma grande velocidade de ponta, a sua massa faz com que possua uma energia cinética capaz de esmigalhar um tenro corpo humano, por muito definido do ginásio que seja. De notar que muitas das pessoas que se colocam nesta situação de perigo gostam de se besuntar em óleo pensando, talvez, que as pedras batem nelas e escorregam para o lado. Os burros compõem a maioria das pessoas que se metem a jeito na praia e, permitam-me dizer embora não desejando a morte a ninguém, que merecem um bocadinho que lhes caia uma pedra solta de 500 quilogramas na nuca.

Os destemidos
Nada a dizer. Não tens medo da morte porque «calha a todos» e «o que aconteceu tinha de acontecer» tudo bem. É a tua forma de viveres a vida de maneira a que não tenhas de te responsabilizar por nada. Morre para aí, mas vê se não deixas cá pessoas a sofrer pela tua irresponsabilidade.

Os matemáticos 
Quais são as probabilidades de morrer nestas condições? Se calhar, menos do que andar de carro ou de morrer engasgado, não sei, mas um gajo tem de ir de A a B sem ser a pé e também tem de comer. Ir para debaixo de uma arriba é brincar com as probabilidades e toda a gente tem direito a fazê-lo, mas depois não me venham dizer que é uma tragédia. É só gente que morreu de forma parva e evitável. É como o pessoal que morre afogado com a bandeira vermelha ou que morre comido por um tubarão onde há sinais a alertar para esse perigo. Temos pena. Jogaste com as probabilidades e ganhaste o Euromilhões da morte.

Haverá uma fatia mínima das pessoas que não caem em nenhuma destas categorias e que apenas são desinformadas ou distraídas e que são as únicas às quais as campanhas de alerta podem servir para alguma coisa. São um bocadinho burras, mas têm desconto.

Agora, pergunto: se multamos as pessoas que não usam cinto de segurança, porque não multamos as pessoas que se colocam em perigo desta forma?

Penso que está previsto na lei, mas nunca - ou quase - foi aplicado. Isso ou obrigá-los a usar capacete. De mota, és multado se andares com os cabelos ao vento, mas ali ainda te vão sensibilizar e dizer «Sabia que estar aqui é perigoso?». Espanta-me a condescendência com as pessoas que escolhem ser burras. Especialmente os pais com os filhos que estão preocupados em besuntá-los com creme protector factor total e depois lhes dizem para se irem abrigar junto ao sopé da falésia. Parece-me óbvio que esta gente devia ser multada nem que fosse para pagar o dinheiro público que se gasta nas campanhas de prevenção e na remoção dos corpos quando acontece um acidente. Por tudo isto, tenho uma sugestão: sempre que alguém morrer soterrado deixem-se ficar os corpos e o funeral fica já feito. Não vale a pena mexer. Desenterrar um cadáver para depois voltar a enterrar é um desperdício de tempo e nos dias de hoje há que ser pragmático. Com sorte, as cruzes e as flores colocadas pelos familiares servirão de melhor alerta para os outros cidadãos burros e em vez de se gastar dinheiro o estado ainda lucra com o IVA das flores e do carpinteiro, se ele passar factura. Tudo isto com a vantagem de tornar os funerais bem mais alegres já que a família, depois de chorar sobre o leite derramado, pode ir dar um mergulho, tornando os versos de Fernando Pessoa «Ó mar Salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?» numa pergunta pertinente.

Se quiserem partilhar o alerta ou identificar alguém que se costume meter encostado às arribas, estão à vontade. O meu alerta está dado, mas eu fumo (estou a deixar), por isso não sou ninguém para falar de gente burra que mete a vida em risco. Vocês é que sabem da vossa vida.
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19 de julho de 2017

Ciganos, homofobia e padres pedófilos - Podcast #14



Neste que é o último episódio da primeira temporada do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre o caso dos André Ventura vs. Ciganos, do Gentil Martins vs Gays e Ronaldo, religião e padres pedófilos e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



Podem ouvir e subscrever o podcast nas seguintes plataformas:
Obrigado a todos os que ouviram e partilharam a primeira temporada. O podcast volta em Setembro se Deus nosso senhor quiser.
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18 de julho de 2017

Ninguém quer um bairro de ciganos perto de casa



Isto anda bonito. De repente, parece que voltámos a 1970 onde a discriminação era uma espécie de calças à boca de sino em que toda a gente usava e, pior, se orgulhava disso. Depois do caso dos polícias na Cova da Moura acusados de racismo e tortura, tivemos o Gentil Martins a dizer que a homossexualidade era uma anomalia e, agora, temos o candidato do PSD/CDS, André Ventura, a xingar os ciganos na praça pública. Sobre homofobia e racismo já escrevi várias vezes, mas sobre ciganos nunca opinei. É um assunto complicado até porque tenho medo de ser mal interpretado e levar uma chinada no lombo de quem acha que os ciganos deviam morrer todos. Fintei-vos bem.

A minha vista na Buraca eram barracas dos ciganos. Depois, mudou e passaram a ser prédios de ciganos. Subiu um bocado o IMI, mas a zona ficou melhor mostrando que dar o mínimo de condições a quem tem pouco ajuda a resolver problemas. Tive dois colegas ciganos na escola: um era fixe e dava-me bem com ele, o outro espetou-me uma lapiseira na mão só porque era segunda-feira. Como o gajo era do SASE isso significa que aquela lapiseira que usou para me agredir tinha sido comprada, em parte, com os impostos dos meus pais. É como os americanos que morrem às armas do Estado Islâmico. Como podem ver, a minha experiência com ciganos é 50% positiva e, para mim, isso é uma boa média já que mais de metade das pessoas não-ciganas com as quais vou convivendo, não são pessoas decentes. Para além desta vasta experiência, toda a minha vida vesti roupa da Feira de Benfica comprada aos ciganos. Ainda hoje tenho muita. Já me fizeram cara feia em lojas caras quando fui trocar ou devolver uma peça de roupa, mas nos ciganos o máximo que acontecia era a minha mãe fazer mais peixeirada do que os ciganos e vencê-los por insistência.

Ciganos não é um assunto que esteja no topo das minhas preocupações. Preocupo-me com a morte, minha e dos meus entes queridos, com o futuro em termos de trabalho, com o chegar a velho e ter dinheiro para uma velhice digna neste país que ameaça falir, etc. Nunca me sinto ansioso e penso «Se não fossem os ciganos a minha vida até era feliz.» e olhem que tenho um bairro de ciganos a 200 metros de casa e passo no meio deles todos os dias para estacionar o carro porque é a única zona onde não meteram parquímetros porque lá, ao que parece, chamam-lhes «Aquelas máquinas estranhas que dão moedas.». É isso que me parece estranho: as pessoas estarem preocupadas com os ciganos. Por cada cigano que não declara rendimentos há 10 taxistas que metem tarifa 3 a um turista. Por cada cigano que não faz descontos há 100 donos de cafés que dizem que o multibanco está avariado para no final do mês declararem o ordenado mínimo. Por cada cigano que recebe o Rendimento de Inserção Social há 230 brancos, de fato e gravata, que recebem viagens e ajudas de custo para passearem com a família às nossas custas. Por cada cigano que não desconta há 10 pessoas que fazem spoilers do Game of Thrones e reparem que eu nem vejo isso, mas percebo a gravidade da situação. Preocupam-me mais os Ricardos Salgados deste país do que os Ricardinos Salganhadas. Nunca ouviram um político dizer «Portuguesas e portugueses, vamos ter de aumentar o IVA e o IRS para equilibrar as contas públicas por causa dos bancos que tivemos de resgatar e por causa dos ciganos.».


Está toda a gente indignada (e bem) com os comentários do André Ventura, mas o que é certo é que ninguém quer um bairro de ciganos ao pé de casa.

O problema do André Ventura não é ter dado a sua opinião que, do pouco que li, até pode ter algum fundamento. O problema é que o André Ventura não está no café a conversar com os amigos! É candidato político das autárquicas e está a fazer apenas e só uma coisa: campanha populista. O populismo já é bem javardolas, mas quando se auxilia de xenofobia e discriminação ainda pior. Acham que ele convive com ciganos lá nos comícios do PSD e do CDS? Ele só disse o que disse à caça do voto do povo que pensa «Ciganos? Era matá-los.». Por isso, ele não pode dar a sua opinião e esconder-se debaixo da alçada da liberdade de expressão porque ele tem responsabilidades políticas. Um gajo dizer o que ele disse num tasco é uma coisa, num palanque e amplificado pelos media roça a discurso de ódio e propaganda xenófoba. Eu percebo que as pessoas sintam comichão: compras a tua casinha em Entrecampos ou na Avenida do Brasil, dás bom dinheiro e pagas bom IMI por aquilo e, de repente, tapam-te a vista com um prédio social onde realojam famílias ciganas. Claro que percebo. Fizeste um dos investimentos mais importantes da tua vida e aquilo desvaloriza num instante. Dás 200 ou 300 mil euros por uma casa numa zona privilegiada e, de um momento para o outro, sabes que tens como vizinhos pessoas às quais lhes ofereceram as casas ou pagam 20€ de renda. Contudo, se te dessem a escolher, trocavas? Trocavas a tua vida, o teu trabalho, a tua etnia, para ir morar para aquele bairro, trabalhar na feira ou não fazer nada e ganhar o RSI? Não trocavas, não é? Então, pronto, o privilegiado és tu e não eles. A pior coisa que um cigano me fez foi parar o carro ao meu lado a ouvir Despacito no volume máximo. Confesso que nessa altura proferi vernáculo xenófobo, mas toda a gente tem o seu limite.

Depois, nestas coisas de catalogar as pessoas pela etnia há um grande problema: quem realmente sofre são as pessoas dessa etnia que tentam levar uma vida decente e cumpridora. Até me podem vir dizer que há só meia dúzia de ciganos que são bons cidadãos - spoiler alert: há mais - que isso não pode dar direito a um político de rotular todos pela parte pior, mesmo que essa parte seja grande. Isso só faz com que se tire a vontade dos bons continuarem a ser bons e sem bons exemplos dentro da comunidade, nada muda. Há que haver a presunção de inocência para todos, por isso, pensem que um cigano é um Quaresma até prova em contrário.

Agora, é óbvio que a cultura cigana tem alguns problemas. O problema não é a etnia, a "raça", ou a genética, mas sim a cultura. As culturas têm problemas e embora seja de valorizar que os ciganos se orgulhem das suas raízes, há que não ter problemas em assumir que há coisas que não estão certas ao olhos moldados pela sociedade onde vivemos. Muitos ciganos querem o melhor de dois mundos: receber do estado e viver à margem da lei, sem respeitar coisas tão simples como manter as crianças na escola até ao 12º, especialmente as raparigas e todos sabemos que não há sociedades evoluídas sem emancipação e educação no feminino. Claro que há muitos ciganos assim, mas é preciso perceber a carga histórica e que a ostracização de séculos não se apaga em algumas décadas. Queiramos admitir ou não, todos guardamos um pouco de preconceito para com os ciganos e isso acaba por nos obrigar a sermos contidos quando os criticamos. É igual com os gordos. Quantos de vocês conhecem em detalhe a história da etnia cigana, a sua origem, tradições e valores, e as perseguições a que foram sujeitos ao longo de anos e anos? Eu não. E, atenção, que eu não estou a defender criminosos, ciganos ou não, quem vive na impunidade deve ser julgado e condenado, mas é preciso perceber que há culpa dos dois lados e que há atenuantes.


Um gajo que rouba milhões para comprar casas em Paris não é a mesma coisa que um gajo que vende louro prensado no Rossio para comprar um boné da Lacoste.

Claro que também gostava de ter essa impunidade. Até ver, de ambos os casos. Aquele célebre caso da Quinta da Fonte onde se vê pessoal aos tiros reforçou essa impunidade, aparente ou não, dos ciganos. Vai lá tu, menino branquinho e de olhos azuis com o teu pólo da Quebramar desatar aos tiros no meio da rua a ver se não te acontece nada. Mas quantos brancos já saíram impunes de muitos crimes? Uma coisa é certa, se fores a tribunal, de certeza que te safas melhor se fores branco e tiveres um bom advogado. Só nos Malucos do Riso é que o Camacho Costa a fazer de cigano se safava sempre.

É óbvio que existe um medo generalizado dos ciganos e que esse medo vem de sabermos que eles são, em muitos casos, meninos para resolver os problemas chamando a família toda para a festa. Claro que há muitos que andam armados, por exemplo, ainda no outro dia, mesmo ao meu lado, um ameaçou dar um tiro num gajo que estava passear o cão perto de um prédio de ciganos. Como podem ver, era um cigano asseado e que prezava pela higiene e limpeza da sua praceta. Uma urina de cão é razão para desatar aos tiros? Não, e foi a acreditar nisso que o rapaz lhe fez frente e o cigano gritou e gritou, mas não deu tiro a ninguém. Se eu soubesse que as pessoas tinham medo de mim, também fazia altos bluffs. Sei de casos de assistentes sociais que eram corridos à pedrada e à cuspidela dos bairros de ciganos só porque iam lá fazer o trabalho delas e, muitas vezes, tentar ajudá-los. Por tudo isto, é claro que a comunidade cigana tem muitos problemas e focos de criminalidade. Mas, surpresa, também a comunidade branca, preta, e vegana. Onde há pessoas, há merda e a merda, venha de que raça ou etnia vier, cheira sempre mal e tem a mesma cor.

O que era mesmo fixe, é que as pessoas que defendem tanto os ciganos depois não as discriminassem quando elas se candidatam às suas empresas. Se vocês acham que é difícil arranjar emprego com um curso de sociologia, deviam experimentar ser ciganos. Isso é que era, porque criticar, com unhas e dentes, quem diz mal dos ciganos, na prática, não resolve nada. O que resolve é darem a cara quando têm oportunidade de mostrar que são mesmo pela justiça social. Comprar uma camisola da Nick e uns ténis da Ardidas na Feira do Relógio não conta como ajuda, lamento. No dia em que as oportunidades forem todas, mas todas, iguais para os ciganos e os não-ciganos, tanto as dadas pela sociedade como dentro da cultura deles, e as coisas não forem ao sítio, podemos ter a certeza que a culpa é só deles e aí sim, dar-lhes uma ilha onde eles fazem as próprias regras e pescam robalos com louro prensado como isco. Até lá, até podemos não gostar deles e não os querer por perto, mas temos de assumir que a culpa é, também, muito nossa. Lembrem-se que mesmo quem defende os ciganos não quer ter um bairro de ciganos perto de casa, e isso diz tudo sobre o que é ser-se cigano: nem mesmo os que te defendem te querem por perto. Agora pensem o que é viver assim.
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12 de julho de 2017

Racismo, Truques, One nigth stands - Podcast #13



No episódio de hoje do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre o caso de racismo na Cova da Moura, jornalistas e a polémica com os Truques da Imprensa Portuguesa, one night stands e o vício dos telemóveis. Ainda há tempo para as coisas que nos fazem comichão em que ofendemos quem envia mensagens enquanto conduz e quem ouve música no telemóvel sem auscultadores. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



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Diário do Bernardo - Parte 3 - Época de exames



Tive acesso a mais um capítulo do diário do Bernardo, menino que foi transferido do colégio privado para a escola pública onde se teve de misturar, pela primeira vez, com gente pobre e que só toma banho uma vez por semana com sabão azul. Depois do relato chocante sobre os primeiros dias de aulas no primeiro e no segundo período, eis que chega o final do ano e a época de exames.

11 de Junho
Este ano foi o pior da minha vida! Até a viagem de finalistas, evento pelo qual ansiava há anos, foi um fiasco. Sugeri aos meus colegas irmos todos para uma estância de ski, mas disseram que não. Sugeri Ibiza em resort de regime tudo incluído, mas também não quiseram. Acabámos por ir para Torremolinos... em Espanha! Toda a gente sabe que ir a Espanha não é bem viajar, pelo que isto foi apenas um Passeio de Finalistas. Ainda por cima, acabou demasiado cedo porque houve desacatos no Hotel onde partiram tudo. Foi uma turma da Damaia que devem ser de famílias com posses em que os papás lhes pagam tudo o que eles estragam.
Note to self: Pedir ao papá para aumentar a semanada para o dobro, 2000€, para me poder divertir sem restrições.

19 de Junho
Desta vez tive de estudar para o exame de português porque só tive 10 na nota final do período. No meu colégio antigo os professores eram muito mais justos e bastava os meus pais darem um envelope ao professor para se ter um 20. Os professores desta escola não valorizam o facto de os meus pais terem trabalhado imenso a vida toda para ter dinheiro e pagar a educação dos filhos. Enfim, é o ensino público que temos.

22 de Junho
Parece que o exame de português pode vir a ser repetido porque alguns alunos tiveram acesso a informação confidencial que uma explicadora deu a uma aluna. Acho inadmissível que este tipo de informação se espalhe desta forma sem qualquer tipo de controlo! As minhas explicadoras sempre me deram informações confidenciais e eu nunca contei a ninguém! Para quê contar e colocar o bom nome da explicadora em causa e, pior, colocar todos os alunos em pé de igualdade? É aqui que começa um dos grandes males da sociedade.

25 de Junho
Ontem foi o meu aniversário. Convidei todos os meus colegas para ir jantar ao Belcanto e ninguém apareceu. O Wilson disse que ia se pudesse levar um tupperware com o jantar dele, mas sabendo que ele tem solário em casa - relembro que está muito bronzeado o ano inteiro - e pertence ao clube restrito do SASE, tive medo que me envergonhasse e levasse comida do restaurante Loco que foi eleito o melhor de Portugal este ano.
Note to self: Exigir ao papá que para o ano me marque o aniversário no Loco que é para ver se os meus colegas vão.

30 de Junho
Vou ter de fazer alguns exames em 2ª fase. Os meus pais não confiam, e bem, no ensino público e, por isso, pagaram explicações a todas as disciplinas para que eu tivesse boas notas no terceiro período. Incrível a diferença de qualidade de ensino já que eu no colégio conseguia ter média de 19 sem quaisquer explicações. Aqui, uma pessoa desaprende e desmotiva com notas tão baixas no período e chega aos exames e ainda tem pior nota. Os meus pais sempre me disseram que o que é barato sai caro e é por isso que me ofereceram um Mercedes SLK novo nos anos.

7 de Julho
Hoje fui ao festival Alive. Perguntei aos meus colegas se também iam, mas nenhum deles vai. Disseram que era porque o bilhete era muito caro, mas seu senti ali uma pontada de ironia como que a dizerem-me que festivais de verão em Portugal são coisa de pobre que gasta o dinheiro onde não deve. Aposto que vão todos para o Coachella e para outros festivais melhores no estrangeiro. Acabei por não ver nenhuma banda, mas o ambiente foi bom.

9 de Julho
Falei com os meus colegas sobre as férias. O Rafael vai passar duas semanas para a Fonte da Telha, a Verónica vai uma semana para Portimão, e o Xavier diz que não vai ter férias e fica a trabalhar no café dos pais. Enfim, cunhas. Disse-lhes que ia passar 3 semanas às Caraíbas e eles olharam com um desdém de quem já lá foi e não gostou.
Note to self: Pedir ao papá para alterar as férias para o resort de luxo da Fonte da Telha.

10 de Julho
O baile de finalistas até foi engraçado. Teve o tema de músicas do mundo, mas só passaram kizomba. Convidei a Jéssica para ser o meu par, mas ela disse que estava grávida e que tinha de ir com o pai da criança. Falei com a Andreia e ela disse-me que estava grávida e que ia com a Jéssica e o pai das crianças. Ao que parece o pai era o Wilson! Enfim, quando se tem posses é fácil ter muitos filhos porque há sempre uma ou duas amas que cuidam deles.

12 de Julho
Agora começa o grande dilema que é escolher a universidade. Pública está fora de questão pois só me interessava medicina, mas por me terem mudado para esta escola piorei a minha média e por apenas 8 valores (8!!!) que não vou conseguir ser médico. Ser médico era o meu sonho de criança desde que me lembro de o meu pai dizer que era o que eu tinha de ser quando fosse grande. Por isso, a minha mãe diz que o melhor é tirar um curso de gestão numa faculdade privada e depois enviar currículo para a empresa onde ela trabalha como CEO. O papá diz que o melhor é fazer o que um amigo dele fez que é tirar o primeiro ano numa faculdade menos exigente e depois ir para a Lusófona e pedir equivalências e assim poupo uns anos.
Note to self: se for para a Lusófona é melhor ter aulas de natação primeiro.

Um relato arrepiante. Deixo, novamente, o apelo a todos para que partilhem o terceiro e último episódio da epopeia do Bernardo na escola pública. Alertem para este flagelo. #PrayForBernardos
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10 de julho de 2017

Cortes de cabelo foleiros



Prefiro ir ao dentista do que ao cabeleireiro. Talvez seja um trauma de infância que ficou quando, no cabeleireiro no Centro Comercial Babilónia, na Amadora, uma cabeleireira me fez um corte na orelha que jorrou sangue. Por sorte, não fiquei com orelhas à Spock e ela ainda disse à minha mãe que a culpa foi minha por me ter mexido como se eu sofresse de ataques epilépticos. Erro crasso dizer isso à minha mãe que, tal como todas as mães, é a única pessoa no mundo que pode culpar os filhos por tudo e por nada. Ironicamente, esse centro comercial, nos dias de hoje, é um dos locais mais prováveis de levares uma facada. Outra razão que me faz sentir desconfortável no cabeleireiro é o facto de ter sempre achado estranho ser normal ter um estranho a lavar-me a cabeça e a massajar-me o escalpe.


No meu tempo havia duas opções de corte de cabelo para homem: curto ou comprido.

Era isto. Podia cortar-se o cabelo à máquina - com um pente todo por igual - usar o tamanho normal ou deixar crescer caso pertencesses a uma banda de metal ou quisesses vestir-te sempre de preto para que toda a gente soubesse que tinhas tido uma infância difícil. Há mais de 15 anos que digo sempre o mesmo quando vou cortar o cabelo: «Pente 4 atrás e dos lados e em cima à tesoura sem ser muito curto para não espetar. Ah, e não quero que se note a diferença de lado do pente para a tesoura!». É isto. Há 15 anos. Por vezes, rapo em casa à máquina zero, mas ter a cabeça rapada e viver na Buraca é arriscar dar origem a mal-entendidos e, por muito que eu goste de desafios, prefiro não jogar a vida em modo Survival Hard Shit Modafoca. Hoje, há mais tipos de corte de cabelo para homem do que para mulher. A sociedade é orgânica e tende a evoluir para melhor, mas enquanto as mulheres foram conseguindo o direito ao voto e a fazer o que querem com o próprio corpo, os homens foram, subtilmente, ficando com alguns dos privilégios das mulheres como o de cortarem e pentearem o cabelo como bem lhes apetecer sem serem julgados pela sociedade. Mentira. Eu julgo-os. Vejamos os principais penteados da moda.

Carrapito
O carrapito veio para ficar. Se antigamente se usava uma crista punk como forma de rebeldia e dar nas vistas, agora, tal como a sociedade, essa crista ficou murcha e flácida e precisa de um elástico para aguentar a erecção. É uma tentativa de se destacarem no galinheiro ao mostrarem que são os alfas devido à sua crista de peru gourmet. Mães, namoradas e amigos destes homens que acham que são os samurais da Margem Sul e da Linha de Sintra, peço-vos uma coisa: digam-lhes que ficam ridículos com aquela merda no cimo da cabeça! Bem sei que o herói da vossa juventude devia ser o cebolinha, mas assim ficam é com ar de Cascão que era o que não tomava banho. Sempre que um homem pergunta à namorada se tem um elástico do cabelo que lhe empreste, abre-se um buraco negro que suga uma foca bebé para um universo paralelo onde é morta à paulada com outra foca congelada.


Reality Shows
A grande maioria dos concorrentes de reality shows, seja da Casa dos Segredos ou do Love on Top, exibe um penteado semelhante: curto dos lados, num degradê mal disfarçado, e em cima uma juba volumosa toda penteada, muitas vezes para cima. Tal como as doenças venéreas que esses concorrentes coleccionam, também estes cortes de cabelo se espalharam mais rápido do que um surto de piolhos púbicos na casa da mãe mais conhecida do vale de Santarém. Por causa destes meninos, cada vez que vou cortar o cabelo, tenho de frisar bem a parte do «Máquina dos lados em em cima à tesoura MAS SEM SE NOTAR A DIFERENÇA!».


Gajo que vende louro prensado
É uma variante do anterior, com a diferença que de lado é completamente rapado e em cima é puxado para trás com o auxílio de vários litros de gel e banha de porco. Parece que tem uma espécie da alga pousada na cabeça, mas em vez de se comer com pauzinhos devia comer-se com tacos de basebol. No caso dos traficantes de louro prensado percebo que queiram ser identificados à distância para chamar os clientes, mas para quem tem um trabalho digno, este penteado devia ser proibido. E acaba por ser porque quem tem este cabelo é desempregado e diz não saber porquê.


Juventude Hitleriana
Curtinho dos lados e comprido em cima, mas todo penteado para um dos lados com o risco bem pronunciado. «Os nazis podem ter feito muita coisa má, mas tinham estilo. Aquelas fardas impecáveis e os cabelos sempre aprumadinhos, quem nunca sentiu vontade de lhes copiar o estilo?» Eu não. Só as mulheres é que podem utilizar o bigodinho à Hitler, se é que me faço entender.


Tuning
Puto, não és o Drake. Ter o cabelo com os padrões do naperon que a tua avô tricotava é de quem está desesperado por atenção. Bem sei que queres ter a cabeça a condizer com as unhas de gel da tua namorada que, por sua vez, condizem com os decalques que fizeste nas laterais do teu Fiat Uno, mas a coerência nem sempre é uma coisa boa. Esta gente devia fazer um padrão na nuca com um ferro em brasa para ser permanente e ficar mais barato a longo prazo.


Poupas
Parecendo que não, ainda há quem use este penteado. No meu tempo de escola era o penteado da moda na Buraca e na Damaia. Percebo: os brancos viam que o estilo estava todo do lado dos pretos, com os seus cabelos ornamentados e com o símbolo da Nike não patrocinado, e decidiram tentar, também, ter estilo. Então, o que pensaram foi «Se a gente pentear o cabelo com gel todo para a frente e depois levantar só a parte da frente, para além de ficarmos com estilo ainda servimos de pára-raios!». Esqueceram-se que os brancos não têm a mesma confiança para ter estilo com coisas excêntricas e não funcionou, mas há uns que pensam que sim. Parece que têm uma rampa de lançamento de piolhos na cabeça. 


Crista
Um estilo de cabelo que usei na minha juventude, devo confessar. Não aquela crista punk, mas a que era feita penteando o cabelo para o meio e para cima. Todos temos a nossa fase má. Para mim foi essa em que para fazer parelha com o meu cabelo do cenário ainda usava daquelas chapas militares ao pescoço. Graças a Deus que nunca usei a fita com as chaves do carro à mostra, mas também quem é que se ia gabar de ter um Renault 19 com 250 mil km? Felizmente, ainda só havia Hi5 e essas fotos já estão nas catacumbas perdidas da Internet. A crista é um estilo de cabelo que já só se vê em jogadores de futebol da distrital.


Cortinado
Um corte de cabelo em vias de extinção que tinha como embaixador o Tino de Rans. Já nem ele usa e apenas alguns bêbedos da aldeia mantêm viva a tradição de ter farripas no cabelo. O cabelo cortinado tem de ser obrigatoriamente acompanhado por bochechas rosadas e espuma nos cantos da boca.

Mais haverá, mas eu não sou blogger de moda e estes já servem para ver que sou um gajo preconceituoso relativamente a cortes de cabelo. Talvez seja inveja por estar a ficar careca, é possível. Ainda assim, qualquer um destes é melhor do que o conhecido cabelo à beto, estilo Playmobil, com a franja a tapar um olho. Esses era fazer-lhes um ninho de pintassilgos no cabelo e depois mandar-lhes duas gatas com o cio para cima.

***

PS: Estou a preparar o meu espectáculo de stand up comedy a solo que irá estrear depois do verão. Se quiseres receber um email quando for divulgada a data perto da tua cidade e os bilhetes estiverem à venda, clica neste link e deixa os teus contactos.
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3 de julho de 2017

Cronologia do mercado de verão no futebol



Todos os anos o mercado de verão de futebol é uma animação. Os estagiários dos jornais desportivos têm liberdade para dar largas à sua imaginação e inventam notícias a um ritmo alucinante. Todos os anos fico esperançado que grandes estrelas venham para o meu clube e que este faça encaixes milionários e consiga vender jogadores - que nem calçaram as chuteiras - por vinte milhões de euros só porque têm um agente que tem mais lábia do que um vendedor de colchões. Todos os anos sigo esta novela de especulações e se pudesse resumir-se todo este período de mercado em apenas um dia seria mais ou menos o que se segue. Foi escrito na perspectiva de um sportinguista, mas penso que a maior parte se adapta a qualquer clube, especialmente dos três grandes.

09.00h - Arsenal pode chegar aos trezentos milhões pelo William Carvalho.

09.10h - Sporting sonda Real Madrid para empréstimo de Cristiano Ronaldo por cinquenta temporadas.

09.30h - Adrien, Gelson, Patrício e o roupeiro Paulinho manifestam vontade de sair do Sporting.
09.35h - Adrien, Gelson, Patrício e o roupeiro Paulinho desmentem e dizem estar felizes no Sporting, mas fonte próxima diz que é mentira.

10.00h - Manchester City oferece 40 milhões por qualquer jogador do Sporting.
10.10h - Manchester City compra Saul Ricardo ao Benfica por 40 milhões.

11.05h - Fábio Coentrão certo no Sporting.
11.10h - Fábio Coentrão quase certo no Sporting.
11.15h - Fábio Coentrão fechado após os testes médicos.
11.20h - Fábio Coentrão já é leão!
11.25h - Fábio Coentrão preso por detalhes.
11.30h - Fábio Coentrão com princípio de acordo.
11.35h - Fábio Coentrão finalmente certo no Sporting.
11.40h - Fábio Coentrão é o próximo reforço a ser apresentado.
11.45h - Fábio Coentrão assina pelo Benfica.
11.50h - Flávio Coentros, da segunda divisão brasileira, apresentado no Sporting.

12.00h - Sporting disposto a bater cláusula de rescisão de Gonzalo Martínez por 16,5 milhões de euros.
12.30h - Leões desistem de Martínez e como substituto contratam Babah dji Kamel por dez contos na moeda antiga e uma camisola assinada por Cristiano Ronaldo.
12.45h - Conheça a nova estrela do Sporting neste vídeo do YouTube onde ele faz dois passes bons e manda uma bola ao poste.

13.00h - Quaresma associado aos leões.
13.30h - Cervi associado aos leões.
14.00h - Ravioli Pesto associado aos leões.
14.30h - Quaresma assina pela Futebol Clube do Porto.
15.00h - Cervi assina pelo Sport Lisboa e Benfica.
15.30h - Ravioli Pesto assina pelo Portimonense.

16.00h - Sporting disposto a reintegrar Jardel na pré-época com contrato por objectivos.

17.00h - Real Madrid prepara-se para bater a cláusula do central Beto, a eterna jovem promessa do Sporting, agora com 41 anos.

18.00h - William e Adrien na porta de saída por 80 milhões.
18.05h - William e Adrien com um pé fora de Alvalade.
18.10h - William e Adrien ficam no Sporting.

19.00h - Sporting tenta novamente o empréstimo de Cristiano Ronaldo e como moeda de troca oferece todo o plantel sénior, masculino e feminino, e o roupeiro Paulinho.

20.00h - Sporting prepara-se para apresentar um reforço bomba até ao fecho do mercado!
23.58h - Malkovinovic Kramé, médio de 38 anos do Estrela de Bratislava da terceira divisão eslovaca assina por cinco temporadas com uma cláusula de rescisão de mil milhões de euros.
23.59h - Jorge Jesus diz que plantel não está fechado.
00.00h - Fechou mercado de transferências.
00.01h - Jorge Jesus diz que está satisfeito com o plantel e que este ano é que é.

Jornais desportivos de Portugal, se precisarem de alguém para vos ajudar a inventar e especular é só dizerem. Isto é tão fácil que vos faço um bom preço.
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Andei à caça de uma velha que se perdeu



Eram onze da noite quando recebo um telefonema desesperado: «Meu puto, a minha avó fugiu de casa, se tiveres por perto e puderes ajudar a procurar que eu estou sem carro...» diz um amigo meu cuja avó colecciona Alzheimer e todos os outros cromos da caderneta das demências. Ao que parece, a senhora tinha saído de casa sozinha, aproveitando uma distracção da sua cuidadora, e ninguém sabia dela - é o que dá os velhos não terem uma coleira com GPS - e temia-se o pior já que a senhora não teria noção de onde estava ou para onde ia, podia ser atropelada e acontecer o pior porque não tinha seguro contra todos os riscos.

Era importante encontrá-la antes que se metesse num táxi para ir a uma danceteria roçar-se num velho sarado.

Como sou uma jóia de moço, despi o pijama, vesti a minha farda de detective e muni-me com os meus acessórios de caça à velha:
  • Um apito que em vez de simular o grasnar de um pato simula a voz da Cristina Ferreira para atrair velhos. Já sei que estão a pensar que entre a voz da Cristina e o grasnar de um pato não há grande diferença, mas acreditem que uma velha com o aparelho auditivo bem calibrado consegue detectar as pequenas nuances;
  • Dois frascos de Calcitrin para elaborar uma espécie de ratoeira para velhos;
  • Uma corda em laço que os cowboys usam para apanhar gado;
  • Uma revista da TV 7 Dias com a notícia de mais uma temporada da novela «A Única Mulher»;
  • Um papagaio de voar feito de cartões de Bingo com prémio.
Meti-me no carro e lá fui em busca da senhora. Sabia-se que tinha saído de casa há cerca de vinte minutos e desconfiava-se que não pudesse ir longe devido às dificuldades de locomoção e, também, por ter acabado de tomar um cocktail forte de medicamentos para dormir - a velha era das rijas. Comecei por dar algumas voltas aos quarteirões a menos de dez à hora, com os outros carros a darem-me sinais de luzes e a buzinar. Ironicamente, estava a conduzir à velha enquanto procurava por uma velha. Só me faltou esquecer-me de tirar o travão de mão e entrar em sentido contrário.

Nem sinal da velha nas ruas mais próximas. Tentei pensar como uma velha: vais em direcção às ruas mais movimentadas ou como estás na idade em que detestas barulho e confusão optas pelas zonas mais escuras e calmas? O que te leva a sair de casa com esta idade? Ir à missa ou ao Bingo? Senti-me um profiler do FBI a traçar o perfil de um serial killer. Já que de carro não estava a ter sucesso, estacionei e fui procurar nas arcadas dos prédios não fosse a senhora deitar-se no fresquinho do mármore a fazer uma sesta.

Senti-me a fazer algo que nunca tinha feito: jogar Pokémon Go.

Senti-me em busca de um daqueles mais raros que o GPS diz estar nas redondezas, mas que não o conseguimos vislumbrar. Subitamente, vejo, ao longe, o que poderia ser a avó do meu amigo, apressei-me a chegar até ela, mas afinal era outra senhora de idade. Em Alvalade iria haver muitos falsos alarmes. Era como tentar encontrar um beto num festival de Verão! Depois desta pequena desilusão, apenas comparada à de um jogador de Pokémon Go que pensava estar prestes a capturar um Dragonite e afinal era só um Rattata, pensei que estava na hora de tomar medidas drásticas: levar uma velha qualquer e esperar que ninguém desse pela diferença. Mais cabelo branco, menos cabelo branco, podia ser que só reparassem amanhã com a luz do dia e até lá eu ficava o herói da noite. Sim, porque aquilo tinha-se tornado num desafio e queria ser eu a encontrá-la! Dei por mim a pensar que ficaria um pouco triste se não fosse o primeiro. Podem pensar que sou uma má pessoa por transformar algo que podia ser grave num desafio para mim e para o meu ego, mas aposto que foi o meu cérebro, inundado de compaixão e humanidade, que decidiu incutir-me esse espírito de competitividade para que tivesse maior motivação para a encontrar. Ou então sou só um sociopata, seja como for, eu estava lá a ajudar e vocês não.

Meia hora tinha passado e nada. Havia agora um dilema: teria a velha, com a adrenalina da fuga, ficado cheia de energia e andado trinta minutos sem parar ao ritmo de um gnu ferido? Nesse caso, poderia estar a mais de um ou dois quilómetros do ground zero da fuga e teríamos de alargar o raio da procura. Voltei a meter-me no carro e lembrei-me que encontrá-la poderia não significar uma vitória, já que a senhora não iria reconhecer-me e estava completamente desorientada e, pelo que me tinham dito, tornava-se agressiva com estranhos. Sendo assim, se a encontrasse o que faria? Ensaiei vários cenários na minha cabeça:
  • Sorrateiramente, aproximava-me por trás da velha e executaria um mata-leão até ela adormecer e, em seguida, colocá-la-ia na bagageira do carro. Corria o risco de ser parado numa operação stop:
    - Tem alguma coisa que o comprometa?
    - Hum... não.
    - Pode abrir a bagageira para vermos o triângulo?
    - Tem mesmo de ser...? É que a minha avó está lá a dormir...
  • Fingir que era um primo afastado e chegar ao pé da velha e dizer:
    - Olá Gertrudes! Como estás?
    - Quem és?
    - Sou o Jorge, primo da tia Clotilde lá de cima. Estás boa?
    - Sim.
    - Queres entrar aqui no carro para irmos visitar o Zé?
    - Quem é o Zé?
    - O tio avô do Renato. Aquele que tem um olho preguiçoso.
    - Ah, sim sim, vamos a isso, já não estou com ele há muito tempo.
  • Parar o carro ao lado dela e dizer:
    - Psst, psst, quer Calcitrin? Tenho aqui bom Calcitrin. Dois contos uma palete. Entre aqui, pode experimentar e só paga se gostar.
Qualquer um dos cenários me parecia indicado sendo que o ponto fulcral era evitar peixeirada no meio da rua. Ninguém quer ser visto a tentar enfiar uma velha num carro enquanto ela grita por socorro e que a estão a violar. Uma coisa é pensarem que maltratamos velhos, outra é ficarmos com fama de quasi-necrófilos. 

Já andava às voltas há mais de uma hora e nem sinal da velha. Se, ao menos, a velha cheirasse a gato, como a maioria das velhas, podia ter levado a minha cadela que detecta um gato a dois quilómetros de distância. A situação começava a ficar preocupante já que a noite estava fria e se a senhora ficasse a dormir na rua podia, facilmente, ir ter com o criador mais cedo, se bem que na idade dela já nunca é cedo. Restava-nos não desistir e esperar que se alguém a visse percebesse que não estava bem e precisava de ajuda e todos sabemos que depositar as esperanças na boa vontade de terceiros é o mesmo que esperar ficar rico a jogar o euromilhões.

Quem visse a senhora na rua mais depressa fugiria a pensar que o Apocalipse zombie tinha, finalmente, começado.

Primeiro, porque saiu de casa sem a placa; segundo, porque a senhora arrastava a perna devido a uma trombose que teve. O pior de tudo era se a senhora entrava num restaurante de rodízio brasileiro e ficava ali presa num ciclo infinito a comer maminha até rebentar tal como os sapos quando se lhes mete um cigarro na boca. 

Dizem que a esperança é a última a morrer, mas sendo que a senhora não se chamava Esperança, o caso começava a ficar complicado até que o telefone do meu amigo tocou. Era do hospital onde ela tinha dado entrada! Um taxista, no fim da viagem, depois da senhora ter adormecido e não dizer coisa com coisa depois de acordar, percebeu que ela não estava na posse de todas as suas faculdades mentais. A senhora estava bem fisicamente e psicologicamente, na medida dos possíveis. Fiquei feliz, por um lado, mas, por outro, fiquei triste por não ter sido eu a encontrá-la.
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29 de junho de 2017

Férias, amores de verão e festas de espuma - Podcast #12



No episódio de hoje do podcast Sem Barbas Na Língua, falamos sobre as férias e damos várias dicas para umas férias bem passadas e sem violações indesejadas como me ia acontecendo em Londres. A conversa passa por modelos de Instagram, decotes, festas da espuma, silly season, cocós de cães e muito mais. É ouvir e, se gostarem, subscrevam e partilhem.



Podem ouvir e subscrever o podcast nas seguintes plataformas:
Subscrevam e partilhem, obrigado e não se fala mais nisso.
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