25 de fevereiro de 2020

Preliminares - "Documentário" de stand-up comedy



Em 2018, depois de terminar a tour do meu primeiro espectáculo a solo (que podem ver no YouTube), decidi fazer uma tour em bares com vista a preparar e criar o meu segundo solo, Só de Passagem. Essa pequena tour por bares teve o nome de Preliminares e todo o processo foi filmado com foco nos bastidores e palermices que se iam dizendo.

Já lancei 8 episódios, nas próximas semanas sairão os três últimos. Podem ver os dois últimos aqui em baixo e todos os outros neste link.

Episódio 8, Guarda e Covilhã

Episódio 7, Bragança.

Obrigado a todos os que participaram, a todos os parceiros e, especialmente, ao público. Já agora, aproveito para anunciar que estou a preparar uma nova tour de Preliminares lá para Maio. Podem deixar sugestões de cidades, vilas ou aldeias para passar por lá.
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21 de fevereiro de 2020

João Moura gosta muito de animais



João Moura, cavaleiro tauromáquico, é suspeito de maus tratos animais. Sim, é difícil ler essa frase sem rir, mas ao contrário do que se possa pensar, não foi porque a polícia comprou bilhete para um dos seus espectáculos e percebeu "Espera lá? Isto afinal é que é tourada? Se calhar é maus tratos…". Não, foi porque tinha 18 galgos na sua herdade que estavam a morrer à fome. Há sites e páginas de apoio à tourada que dizem que o senhor João Moura está a ser alvo de uma campanha de fake news. Sim, foi um plano concertado por várias associações de defesa animal  e pela comunicação social que pegaram em cães magricelas e os atiraram de paraquedas para a herdade do senhor João Moura. Os cães foram resgatados e um já morreu, deve ter sido desgosto de ter sido retirado ao seu dono tão querido.

Em entrevista ao blogue tauromáquico Farpas, que aproveito para dizer, na qualidade de informático, que tem um layout e design horrível de fazer lembrar os primórdios da Internet, mas não sejamos muito duros com eles que já saberem mexer num computador já é bom para quem tem aquela condição, o senhor João Moura disse o seguinte:

"A tauromaquia não está a viver um momento fácil (…) e a verdade é que a imprensa tem os holofotes virados contra nós, daí o empolamento que desde ontem estão a dar a este caso."

Verdade até certo ponto, se fosse o Zé da Esquina a ter animais a morrer à fome não seria tão noticiado, da mesma forma que é mais noticiado um padre pedófilo do que um pedófilo não padre. É que ninguém estava à espera que alguém como o senhor João Moura, que diz adorar animais, que vive da sua relação com eles, fosse capaz de maltratar um touro, quanto mais cães. O senhor é conhecido, normal que seja notícia, mas acreditem que se fosse a Rita Pereira a ter os 18 cães em condições desumanas, com unhas de gel ou assim, seria ainda mais noticiado. Ele continua:

"É curioso que tenham aberto alguns telejornais com a notícia de que eu tinha sido detido... Se tivesse ganho um importante troféu em Espanha, como ganhei tantos, ninguém diria nada."

Se fosse um troféu de cinema, de desporto ou assim, seria noticiado certamente, mas a maioria da sociedade já chegou à conclusão que espetar ferros em animais vivos para divertimento humano não é um feito importante e, como tal, os troféus que se ganham nessa área são equivalentes dos de futebol feminino: ninguém quer saber e a falar-se neles é só para parecer bem. O cavaleiro das ceroulas continua:

"Mas estou sereno e tranquilo e tenho a consciência muitíssimo tranquila. Quem me conhece sabe o quanto gosto de animais, de maus tratos jamais me poderão acusar."

Vamos por partes: tem a consciência tranquila? Claro que sim, disso não tenho dúvidas. Para estar intranquila é preciso achar que se fez algo de errado e o grande problema aqui é que o senhor João Moura não deve achar que matar cães à fome é fazer algo de errado. Um serial killer também tem a consciência tranquila. Quanto a gostar muito de animais e nunca o poderem acusar de maus tratos, só mesmo quem não souber a profissão dele, mas até posso ignorar a tourada, porque ele nasceu no meio e acha que o touro é um valente que até gosta de morrer na arena, mas acabou de lhe morrer um cão por negligência e ele está na boa? A teoria cai por terra, mas sim, ele gosta tanto de animais que numa entrevista à SIC há uns anos mostrou alguns dos seus troféus e, além das cabeças dos touros que matou penduradas na parede (há quem não goste de espelhos e então prefira ter animais cornudos pendurados, são gostos) tinha a cabeça de um cavalo seu e uma mesa cujas pernas eram as patas desse mesmo cavalo. No mínimo, estranho:

Quando tu gostas muito de um animal que tiveste, o que fazes quando ele morre? Cortas-lhe a cabeça, empalhas e metes na parede, óbvio. Mais, mandas esquartejar o bicho, cortar a cauda para um porta-chaves e as patas para fazer pernas de uma mesa. Aposto que deve ter a picha embalsamada a fazer de candeeiro de pé alto. Posso ser eu que não estou nesse mundo e não percebo, mas isto tem um leve aroma a psicopatia. Nem quero imaginar o que fará caso lhe morra a mulher. Um ancinho com as unhas, uma pandeireta com os dentes e as mamas e ainda aproveita para fazer um espanta-espíritos com os lábios da cona.

Por falar na família Moura, o seu filho, João Moura Jr (dar o próprio nome ao filho é mais um sinal de psicopatia narcisista) já tinha estado envolvido numa polémica em 2013 quando foram divulgadas umas fotografias que tinha no seu Facebook onde atiçava cães a touros, uma prática comum neste mundo tauromáquico, chamado bull bating, daí o "Bull" no nome de algumas raças de cães.

Quando houve gente indignada, vá-se lá saber porquê, ao ser apanhado disse o seguinte:

"Foi uma situação isolada quando os cães entraram inadvertidamente no recinto onde estava a vaca, não se tratando de nenhuma luta de animais".

Ah ah ah. Uma vez a minha cadela também entrou num galinheiro inadvertidamente e eu fui logo buscar a câmara fotográfica e tirei várias fotografias enquanto ela esfranganava as galinhas. Depois, selecionei as melhores e coloquei na minha página, sem me esquecer de colocar a minha assinatura no canto inferior direito para fazer publicidade. Burro. Bem, mas ao menos temos de perceber que a família Moura está a melhorar com as novas gerações: o pai deixa morrer cães à fome; o filho dá vacas vivas inteiras para os cães dele comerem; o ideal seria não continuar a linhagem, mas pode ser que o neto já venha normal sem taurossomia 21.

Podemos estar aqui a ser injustos com o senhor João Moura. Não querendo fazer fat shaming, o senhor está pesadote e todos sabemos que a obesidade é uma doença e que, muitas vezes, os gordinhos comem por impulso e não se controlam. Olham para donuts como o José Carlos Pereira olhava para uma garrafa de Absolut ou como o Cláudio Ramos olha para aquele objecto fálico que adora ter perto da boca, o microfone. O senhor João Moura pode ter adquirido um gosto especial por ração de cães. Há gostos para tudo, se há quem goste de peixe cru enrolado em alga e fique viciado de tal maneira que todas as semanas tem de ir ao sushi, haverá certamente quem fique viciado em ração de cão. Se calhar é como o sushi, tem de se provar várias vezes até gostar. Tal vício pode ter feito com que o senhor João Moura comesse a ração toda dos seus galgos deixando-os morrer à fome. Isso ou era parte de uma experiência a ver se os galgos conseguem voar. Seja como for, confesso que gostava de saber o segredo da dieta João Moura. A minha cadela está um bocado gorda e o verão está aí a chegar. Como é que ela vai publicar fotografias no seu Instagram se não tiver um dogkini body? Quando a minha cadela veio do canil é que estava boa, ali com as costelas a verem-se, pronta para uma passerelle, agora só se for para fazer de hipopótamo no Jumanji.

Quero terminar, dizendo que acho que a maioria das pessoas que gosta de touradas nunca seria capaz de maltratar animais noutro contexto, muito menos de deixar cães a morrer à fome. Não acho que gostar de tourada seja sinónimo de ser má pessoa, tal como não acho que ser vegan seja sinal de ser boa, embora aumente a probabilidade de se ser chato. Por isso, quem gosta de tourada e não se revê nestes maus tratos a animais é que devia estar indignado porque a mim não me surpreende nada.
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18 de fevereiro de 2020

Caso Marega: meteu-se a jeito



Se há 30 anos me perguntassem, se em 2020 ainda se iria falar tanto de racismo, sabem o que diria? Diria o seguinte: "Sei lá, caralho, tenho 5 anos, que pergunta de merda para se fazer a uma criança. Dêem-me um push pop, mas é."

Bem, mas já estamos todos a par da polémica com o jogador de futebol Marega, insultos racistas das bancadas, que deu origem a todo um pandemónio no desporto, nas redes sociais e na sociedade no geral. Quando há polémicas destas é preciso debater e, então, a TVI decidiu convidar o André Ventura para falar sobre o assunto porque nestas situações de racismo há que chamar os especialistas na prática. Na prática do racismo, entenda-se. Ele começou por afirmar que não é racista e até disse, e passo a citar, "Já festejei muitos golos de negros". 

O antigo "Não sou racista, até tenho um amigo pretoé assim substituído por "Não sou racista, até festejei o golo do Éder".

O André Ventura, não sendo racista, tem feito confusão em como se deve demonstrar isso. Em vez do típico "Não sou racista, até tenho amigos que são… pretos." ele acha que é o "Não sou racista, até tenho amigos que são… racistas", daí se explica que ele não se importe de apelar à falta de inteligência dos racistas para ter mais votos. Chamar o André Ventura para identificar racismo é como chamar um toureiro, ou o Miguel Sousa Tavares, para explicar se algo é abuso animal. É como um gajo saudável a dizer se a eutanásia deve ser legalizada ou não. É como chamar o Schumacher para o Dança com as Estrelas.

Mas bem, esta discussão do Marega é complicada porque temos de ver os dois lados. Sei de fonte segura que o Marega andou a provocar os racistas. Pelo que apurei, ele entrou em campo com pele escura e andou lá a ser preto de um lado para o outro, mesmo a provocar quem não gosta de pretos. Queriam o quê? Meus amigos, cada um colhe o que semeia, e o Marega não teve respeito pelos racistas. Aliás, o Marega foi o primeiro a ser racista porque escolheu ser preto. Porque é que o Marega não escolheu ser branco neste jogo? Pois, mesmo a provocar os racistas. Disto ninguém fala. Há sempre dois lados numa discussão e não existiria racismo se não houvesse as duas partes: os racistas e as pessoas que eles odeiam. Agora pensem. O Marega meteu-se a jeito, ora vejamos:
  • O Marega podia ter sido mais discreto, podia ter usado uma base para aclarar a pele ou assim, que ia saindo ao longo do jogo, para os racistas se irem habituando aos poucos. Uma espécie de homeopatia do racismo.
  • O Marega começa logo a provocar quando decide chamar-se Moussa. Moussa Marega. Os racistas odeiam nomes que não sabem escrever, daí odiarem quem se chama Helena porque não sabem se leva H ou c com cedilha.
  • Pior, o Marega tem de decidir se quer fazer parte do problema ou da solução. O que é que os racistas acham sobre os pretos? Que são preguiçosos e não gostam de trabalhar. O que é que o Marega fez? Saiu do jogo antes do fim. Isto é dar razão aos racistas, como toda a gente sabe.
  • Isto para não falar que o Marega provocou os racistas que tinham atirado uma cadeira das bancadas, colocando-a na cabeça. Ora, os racistas tinham atirado a cadeira para ele se sentar e ficar confortável e ele decidiu faltar ao respeito, gozando com essa oferta. O Daniel Alves, há uns anos, aceitou a oferenda dos racistas e comeu a banana que lhe foi enviada das bancadas. O Marega devia aprender com o Daniel Alves a não provocar os racistas. Na altura fomos todos macacos, embora isso não seja muito preciso cientificamente: somos é todos símios, mas uns são mais primatas do que outros.
Ao Marega, que tenha mais respeito pelos racistas numa próxima. Só faltou baixar os calções e exibir aquilo que os racistas mais odeiam porque é o segundo órgão que têm mais pequeno do que o normal. O primeiro é o cérebro, claro.

***

PS: Datas de stand-up comedy em breve:
  • 7 de Março, em Águeda, juntamente com o Hugo Sousa e o Renato Albani. Info e bilhetes neste link.
  • 24 de Abril, em Ponta Delgada, nos Açores, levo um convidado comigo. Info e bilhetes neste link.

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13 de fevereiro de 2020

Aborto vs pedofilia: venha o diabo e escolha



Um padre dos Estados Unidos da América, de 72 anos, disse algo como "a pedofilia não mata ninguém e isto mata". Quando ele diz "isto" está a referir-se ao aborto e não a lutas de bebés com espadas ou a touradas com bebés montados em caniches, pois isso é óbvio que mata até porque o caniche não é bicho para aguentar uma trancada de um touro. O bebé tem os ossos muito maleáveis e safa-se desde que não aterre de moleirinha no chão.

Comparar o aborto com pedofilia é a mesma coisa que comparar cortar as unhas com amputar a perna… de outra pessoa e sem o seu consentimento. Comparar aborto com pedofilia é a mesma coisa que comparar um serial killer com um médico que é a favor da eutanásia… pensando bem, deve ser essa a linha de raciocínio do padre. Eu investigaria este padre que aquela cara bolachuda e aqueles óculos já são um sinal e, depois, a falar de pedofilia como se fosse doutorado nela, hum, quem fala assim é quem tem experiência na óptica do utilizador.


"Ao menos a pedofilia não mata ninguém". Só faltou dizer que o que não nos mata torna-nos mais fortes e que é de pequenino que se torce o pepino. No entanto, temos de ser justos, o senhor padre tem razão numa coisa: a pedofilia em si não mata, a não ser que seja muito à bruta e mal feita. O pedófilo normalmente não quer matar a criança até porque de que lhe serve um cadáver de uma criança? Vai fazer sexo com o cadáver? Há limites. Um pedófilo tem valores e toda a gente sabe que gostam delas a dar luta.

A pedofilia só mata se a criança for malcomportada e não souber guardar segredo. A pedofilia pode não matar, mas o que não mata engorda e uma criança gordinha sofre bullying na escola e isso ainda é pior que ser abusado sexualmente.

Os padres são sempre muito parciais nesta questão do aborto porque é normal que sejam contra, já que mais abortos significam menos crianças e as crianças dão imenso jeito aos padres, seja para o coro, a catequese ou para aquela actividade lúdica que 10% dos padres fazem com a pila em crianças, mas que não é bem sexo porque eles fizeram um voto de castidade. É desporto, vá. É hobbie. São "só" 10%. Imaginem se 10% dos professores fossem pedófilos!? Estatisticamente, na escola primária era mais tranquilo, mas mal chegávamos ao 2º ciclo ano era quase certo que íamos levar no cu.

A julgar pelos esforços de grande parte da Igreja Católica, que se empenha mais em fazer campanhas anti-aborto do que em expor e resolver os inúmeros casos de pedofilia que tem enraizados até às mais altas instâncias da sua empresa, Deus aceita melhor a pedofilia do que o aborto. Porquê? Porque o aborto, às vezes, impede que uma criança nasça para ser vítima de pedofilia e isso estraga o plano de Deus que tinha seleccionado minuciosamente, à mão, aquela alminha para ser abusada e agora a alma vem para trás como se fosse um bife muito mal passado e que quando volta ao lume fica sempre mais rijo e menos suculento. Deus fica muito chateado se lhe baralharem a gestão de stock de almas que, parecendo que não, o aborto é uma espécie de devolução e aquilo tem de voltar a ser embalado para o cliente a seguir não perceber que a alma já foi usada. Cada aborto é um nascimento refurbished.

Mesmo para quem é contra o aborto, uma posição que eu até percebo em certa medida, acho que ninguém, a não ser muito radical, acha que são situações comparáveis. Se alguém acha que uma mulher que decide fazer um aborto é pior do que um pedófilo, lamento, mas essa pessoa é uma atrasada mental. O aborto é a interrupção voluntária da gravidez. A pedofilia é a interrupção involuntária da inocência. Dá para ter um aborto espontâneo. Não dá para fazer pedofilia espontânea. Quer dizer, muitos dirão que tiveram um impulso espontâneo e incontrolável e que não têm culpa.

Percebo que há dois tipos de pessoa que queira criminalizar o aborto: os muito religiosos e os pedófilos. Este padre tem cara de ser intersecção dentre os dois grupos.

Para alguém muito religioso, um aborto é a morte de uma vida. Para um pedófilo, um aborto é uma encomenda da Amazon que foi extraviada.

Para os padres, o aborto é pecado até ser uma beata que engravidou deles. Aí ou é aborto ou é filho de pai incógnito que Deus que é avó que cuide, crie e dê pensão de alimentos. A quantidade de filhos de padres não perfilhados e o facto de o Vaticano ter regras secretas para os padres que têm filhos, leva-me a crer que a Igreja é a favor do aborto teórico. É abortista não praticante. Por isso, sempre que virem um padre a conduzir um carro que diz "Bebé a bordo", não é alerta, é Uber Eats.
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10 de fevereiro de 2020

Óscares 2020 - Os piores looks da passadeira vermelha



Mais uma cerimónia dos Óscares em que eu fiquei acordado até às 3h da manhã e desisti, vendo assim a entrega de todos os prémios que não interessam e deixando para o dia seguinte os que realmente fazem a pena. A cerimónia dos Óscares é como sexo demorado, mas mal feito, se tudo correr bem só vale a pena pela parte final.

Sobre os prémios em si não vou escrever que isso não interessa para nada, acho que a maioria das estatuetas ficaram bem entregues, tivemos daqueles bonitos discursos de milionários a falar de igualdade e a tocar nas campainhas todas para sinalizar a virtude. O que está a bater é falar de mulheres realizadoras? Vamos falar disso. Ah, é alterações climáticas? Deixa só ir ali reescrever o meu discurso num instante.

Bem, como os Óscares são muito parecidos aos Globos de Ouro da SIC, tanto que em Hollywood até se referem a eles como "Os Globos de Ouro da SIC à americana", decidi fazer o que faço sempre e comentar aquilo que é a minha especialidade: as roupas. Toda a gente sabe que passei ao lado de uma grande carreira de comentador de passadeira vermelha, tudo culpa dos meus pais que me deram objectivos na vida. Não querendo ser um nacionalista, mas isto com estrangeiros não tem a mesma piada já que duvido que algum deles vá ficar ofendido e ameaçar-me de processo, mas nunca se sabe, por isso vou esmerar-me na mesma. Segue a análise aos looks mais estranhos dos Óscares 2020.


O Spike Lee veio vestido à pica da CP de Hogwarts. Ele diz que é uma homenagem ao Kobe Bryant e não vou comentar se não ainda aparece aí o filho do Bolsonaro outra vez a falar mal de mim e tenho de aturar ofensas em português do Brasil. Reparem na calça curta e de quem parece que se vai descalçar e apanhar lamejinhas a qualquer momento. Depois, desconfio sempre de homens adultos com pulseiras. Sempre. São sempre homens que vêm com conversas de que querem abrir um bar em Albufeira porque estão na crise da meia-idade.


Ela bem tentou que ninguém reparasse na sua cara esticada, mostrando perna inteira e meia mama, mas falhou. Parece que fizeram um transplante de cara em que lhe meteram um focinho de gato esfinge, mas afinal era dois números abaixo e tiveram de o esticar bem para conseguir prender às orelhas. Se a Kim Kardashian é a Paris Hilton dos trezentos, a Blac Chyna é a Kim Kardashian do chinês.


Este vestido só dá jeito para a after party quando ela começar a beber da garrafa e o que vai entornando escorre e faz cascata ali na cintura e dá para cinco pessoas se ajoelharem e beberem também, numa bonita mensagem de reciclagem e reutilização.


Esta senhora pode vestir-se como quiser que eu deixo, mas aparecer vestida de filha de Eduardo Beauté nos Globos de Ouro de 2017 é um bocado falta de imaginação.


Quando só podes trazer um acompanhante, mas queres trazer a família inteira e a única forma de eles entrarem é irem escondidos dentro do teu vestido. Pensavam que eu ia dizer que ela comeu a família? Tenham juízo, todos os corpos são lindos e ser obeso mórbido é tão saudável como ter um peso dito normal. É como fumar, todos os pulmões são bonitos.


Esta pensou que era a Comic-Con. Agora pensem que, antes de sair de casa, esta menina olhou-se uma última vez ao espelho e pensou "É mesmo isto, não mexe mais".


Não sei se isto é um protesto a favor da igualdade, o que sei é que me faz lembrar vagina. Vagina ou pila de cavalo marinho. Faz lembrar um choco, também, ou o coronavírus visto ao microscópio. As possibilidades são muitas, mas a certeza é só uma: ridículo.


Numa altura em que se fala de inclusão e diversidade, devo dizer que sou a favor de quotas se as quotas forem 100% de Margot Robbie, em qualquer lado. Parlamento? 100% Margot. Empresa de mudanças? 100% Margot a carregar-me os móveis. Até num call center pode ser Margot, embora seja desperdício. "Estás a objectificar a mulher, Guilherme, ela é mais do que uma cara bonita.". Talvez, não a conheço pessoalmente, mas considero até que não objectificar a Margot é ofensivo para ela e para os pais que a fizeram tão perfeitinha.


Esta pensou "O senhor dos Parasitas ainda ganha e deixam de reparar em mim por causa das quotas de sul-coreanos" então toma lá um vestido com dois cus de ganso morto nos ombros. Esta senhora talvez tenha mais jeito para ser cirurgiã na vida real do que para se vestir.


Veio vestido à professor de educação física do colégio privado. Tem pinta de otário. Tem aquela cara de palerma que diz "Tu sabes quem é o meu pai?" e depois leva duas bofas e roubam-lhe o Bollycao. Se olharmos bem, assim vestido também passa uma vibe de guarda de Auschwitz.


A imitar a Inês Castel-Branco na última gala dos Globos de Ouro. Esta gente de Hollywood não pode ver nada por Portugal que é logo a imitar. O que vocês não sabem é que isto representa com exactidão a primeira aparição de Fátima em que os três pastorinhos, mocados depois de comer uma azeda estragada, viram e disseram "Vestida com um manto de brilhantes da cabeça aos pés, Nossa Senhora era preta e lésbica". A Igreja é que abafou a última parte porque já se sabe o que a casa do Senhor gasta.


Uma bonita homenagem aos primórdios da televisão, vindo vestida de monitor CRT com naperon em cima. Levou o Óscar de melhor actriz secundária, ou como se diz agora para não ferir susceptibilidades, "Melhor actriz num papel de apoio". Os figurantes agora devem chamar-se "Decoração humana para engenharia de cenários".


Esta senhora é igual à actriz portuguesa Ana Bustorff. Igual. Decidiu vir vestida à apóstolo de Jesus gay. Uma túnica com brilhantes para pregar aos senhores todos! A ideia foi essa ou ficar vestida pronta para os jogos sem fronteiras, já que virando o vestido ao contrário fica pronta para aquela prova das corridas com saco de batatas.


Aqui não dá para ver bem, mas o decote é bastante projectado para a frente, criando ali quase um babete saliente. À noite, o namorado dela escusa de comer antes de ir para a cama que pode alambazar-se com os restos dos croquetes e migalhas que ela foi acumulando no decote ao longo da noite. Nomeada para dois Óscares, não ganhou nenhum. Invejosas.


Qualquer outra pessoa vestida assim e era ridículo, mas como é a Billie Eilish tudo bem porque ela é única e irreverente neste mundo de coisas formatadas. Spoiler alert: a Billie toda ela é um produto formatado para agradar a uma geração. Atenção que eu até gosto da música dela, mas unhas de gel daquele tamanho é deitar gasolina e pegar fogo. É sempre unha de quem não trabalha muito nem faz nada em casa. Quem trabalha ou lava a loiça não pode ter unhas destas, por isso que não venha com tretas de que faz tudo sozinha ela e o irmão. Sim sim. Ah e o pijama polar? Ainda se fosse da Primark, agora assim é: Tipo, I don't give a fuck, mas é Chanel. lol, whatever.


"Eu gostava de ir vestida de vilão da Disney, mas com um fato de mãe solteira com dois filhos que lhe escrevem na roupa merdas sem sentido nenhum". Não diga mais nada, minha cara. E, assim, nasceu o Joker de Massamá que à noite espalha o terror na linha de Sintra e durante o dia trabalha no Papagaio Sem penas.


Isto é muito simples: cada um se veste como quer e se o Billy Porter quer ir mascarado de assessor de Joacine Katar Moreira, não tenho problemas nenhuns. Ele diz que é activismo, mas a verdade é que é necessidade de aparecer e ser falado. É o que é. Nada de mal nisso, todos os que vão à passadeira vermelha querem aparecer e ser falados. É uma questão é de admitir e ser honesto. De resto, fica-lhe bem, eu não usaria, mas só porque o dourado não fica bem com o meu tom de pele.


Nada a dizer, Natalie também pode quase tudo. De realçar que ali na capa ou lá o que é aquilo, ter bordado os nomes das realizadoras que não foram nomeadas para o Óscar. Nunca pensei que houvesse tão poucas realizadoras ou então só bordou as amigas. Um bom protesto pela igualdade e bem pensado, porque se calha ela bordar os nomes das mulheres que sofrem mutilação genital ou que não têm acesso à educação e que sofrem uma discriminação real em todo o mundo, tinha de ter uma capa muito maior e depois ainda tropeçava na hipocrisia. Se quer ser coerente é melhor mudar o nome para Natalie PortWoman. 


E foi isto. Antes que venha alguém dizer que esta publicação contém machismo ou objectificação de mulheres, deixem-me dizer-vos que a culpa é dos homens que usam quase todos os mesmo fato, iguais e sem arriscar. Depois, eu pesquisei "Worst dressed men oscars 2020" no Google e nada, mas se pesquisar mulheres há toda uma panóplia de publicações o que mostra como estes eventos, passadeiras vermelhas e a própria indústria são inerentemente machistas, metendo pressão nas mulheres para se vestirem bem. A culpa não é minha, nem dos homens, a culpa é de todos e todas que se sujeitam a isso e que consomem isso. Quem vê os Óscares sem ter visto nenhum filme e só para comentar os vestidos da passadeira vermelha, não tem qualquer moral para criticar seja o que for. É como ver uma super-modelo a falar dos padrões de beleza irrealista que tentam impor às mulheres. Quando és o problema, não tentes mandar bitaites sobre a solução.
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4 de fevereiro de 2020

ÓSCARES: A minha review se eu fosse um crítico do Público



Em semana que culmina com a cerimónia dos Óscares, acho que faz todo o sentido eu fazer aqui uma espécie de review aos nomeados para a categoria de Melhor Filme. Para ser mais giro, vou fazer as reviews como se eu fosse um crítico de cinema do jornal Público, daqueles virgens com acne nas costas, muito entendido e nada presunçoso. Vamos a isso?

Neste filme estamos perante uma narrativa dentro de outra narrativa, quase que numa matrioska de histórias, onde o realizador desconstrói a realidade e a volta a construir ao seu gosto. Uma leve ironia marca todo o filme, tal com uma crítica à indústria de Hollywood, onde as referências históricas se misturam com o universo surrealista característico do autor que, infelizmente, já todos conhecemos. - Once Upon a Time ...in Hollywood.
Veredicto: Dou apenas 2 estrelas porque o Tarantino é muito mainstream agora e como já todos conhecem eu já não me sinto especial.

Pegando no seu universo favorito, o realizador conta a história de personagens reais em três pontos temporais diferentes, recorrendo à analepse e prolepse ao longo de toda a epopeia cinematográfica. O recurso a efeitos especiais desvirtua o cinema e tinha ficado melhor se inventassem mesmo um elixir que rejuvenescesse os actores, mas enfim, Hollywood cada vez mais agarrada ao CGI. - The Irishman.
Veredicto: Dou uma estrela porque não gosto da Netflix porque não sei bem como se usa e teve de ser o meu filho a ajudar-me para eu ver o filme.

Como se conta uma história com mais de 100 anos? Foi este o desafio a que se propôs o realizador que passa duas horas a mostrar-nos como sabe filmar tão bem, transportando-nos para o cenário apocalíptico, utilizando um plano apertado e subjectivo para nos colocar no meio da acção. - 1917.
Veredicto: Dou 5 estrelas porque quase ninguém viu.

Uma alegoria social que mistura o drama e a comédia, o terror e ironia. Num cenário e planos quase kubrickianos, o realizador coloca-nos de frente com mal que há no mundo e a desigualdade e luta de classes, numa metáfora e analogia surrealista de fazer lembrar Lynch mas com o suspense de Hitchcock e toques de Park Chan-wook e reviravoltas de Paul Pogba. - Parasite.
Veredicto: Como muita gente gostou, a minha vontade é dar 1 estrela, mas como é um filme falado numa língua estranha tenho de dar 5 para parecer culto.

Um conto de fadas sobre um dos períodos mais negros da humanidade, numa paródia ao estilo Calvinesco em que Hobbes não é um felino de quatro patas. Existem limites para o humor? Talvez, e esse limite será muito provavelmente a inépcia que não espoleta o riso. - Jojo Rabbit.
Veredicto: 0 estrelas porque não se brinca com coisas sérias.

Planos apertados em redor do mesmo actor tentam dar-nos a sensação de claustrofobia que ele tem na sua vida, numa sociedade que o aprisiona e lhe vai apertando a camisa de forças aos poucos. É uma espécie de pastiche pretensiosa, pouco orgânica e previsível, tentando inovar um universo que já foi feito e refeito mil vezes. A interpretação é boa, mas o filme falha ao ser estéril e oco nas suas referências existenciais e filosóficas. - Joker.
Veredicto: 0 estrelas ou perderia a licença de crítico de cinema intelectual.

Um filme Woody Alleniano, mas sem o humor. Uma narrativa plana com personagens unidimensionais e sem arco, tal como é a realidade. A realidade nem sempre tem plot twists para ser feliz ou dramática, a realidade simplesmente o é. A rotina e a estagnação são os ingredientes principais da vida e é nessa monotonia cinzenta que reside a força deste filme cujos últimos 10 minutos não visionei porque adormeci. - Marriage Story.
Veredicto: 1 estrela ao filme, bónus de duas estrelas por ser um filme chato e parado e mais 5 de bónus por ter a Scarlett Johansson dá uma média 4.

Uma adaptação de um clássico intemporal que tenta inovar algo que já foi adaptado ao cinema mais de uma mão cheia de vezes. Um universo feminino que tenta fazer rir e chorar, mas torna-se inócuo em todo o seu esplendor, o que não é bom nem mau, antes pelo contrário. - Little Women.
Veredicto: 5 estrelas porque é realizado por uma mulher e se dou menos ainda me cancelam. Por mim ganhava tudo.

Dois dos melhores actores da sua geração num filme biográfico que agradará aos fãs de automóveis que não é o meu caso pois tal não se coaduna com o facto de eu ser um intelectual. - Ford v Ferrari.
Veredicto: É sobre carros por isso nem tem direito a classificação.

E é isto, agora como crítico de cinema intelectual, vou recolher à minha caverna e ver se encontro alguém no Hi5 que me venha espremer os pontos negros das costas. Obrigado e boa cerimónia dos Óscares.


PS: Podem ouvir a versão audio nas plataformas de podcasts se pesquisarem por "Por Falar Noutra Coisa" ou aqui no player da Antena 3.
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13 de janeiro de 2020

Não tenho classe para brincar aos ricos



Há uma semana decidi brincar aos ricos. À classe média alta, vá. Fui passar umas noites a um hotel de cinco estrelas ali para os lados de Sintra, uma coisa como deve ser, com SPA, piscina interior e outras mordomias que senti que, depois de um ano de muito trabalho, merecia. Na verdade, gastei em três noites o que tinha poupado em 4 meses sem fumar. Quanto fumava por dia? Já estão a querer saber demais sobre a minha vida.

Cheguei ao hotel luxuoso, perdão, ao resort - estas coisas de rico têm de ter nomes em estrangeiro) - montado ao volante do meu carro: um Renault Clio de 2002, com 250 mil km e todo ele com aspecto de sucata. Vários empregados à porta do hotel não conseguiram não olhar para o meu carro, fascinados a pensar que era um clássico ou que tinha chegado o jardineiro. O meu carro não fazia sentido ali, era claramente o pior e naquele estacionamento era como a Maria Leal num desfile da Victoria's Secret. Lá saio do carro, a pausar o meu casaco da C&A e os meus ténis da Primark, e dirigimo-nos para a entrada onde estava um um senhor que abanava a mão perto do sensor para abrir a porta automática. Ser rico é isto: teres um senhor que te carrega em botões e activa sensores com o seu próprio corpo, numa espécie de escudo humano contra os infravermelhos.

Quando nos vêem aproximar, vem um empregado a correr para ajudar com as malas. Tanto eu como a minha namorada levávamos uma mala com rodinhas daquelas que conta como bagagem de mão, mesmo naquela companhia aérea mais merdosa. Ou seja, era pouca coisa. Aproxima-se e pergunta se pode ajudar, dizemos que não é preciso e afasta-se, desejando uma boa estadia. Nisto, vem o gajo da mãozinha a abanar que activa sensores e tenta levar-nos as malas, também. Digo que não é necessário, mas ele está determinado e dirige-se à minha namorada dizendo que insiste. Ela diz que não é preciso e ele agarra na mala e tenta tirá-la da mão dela quase à força. Nós voltamos a dizer que não é preciso e ele tira as mãos e faz uma cara do género "Esta gente é estranha!" que deve ser a mesma cara que ele faz quando vê alguém a comer peixe com faca da carne. Devem ter ficado a pensar "O que será que aqueles dois, que apareceram num carro de assaltar ourivesarias, levam naquelas mala para não nos deixarem transportar?". Nada de valioso ou perigoso, mas nenhum de nós é aleijadinho nem tem alma de nobre que precisa de um servo para lhe carregar coisas que ele pode carregar sem esforço.

Na recepção recebem-nos a falar em inglês - porque eu tenho todo um ar de inglês ou alemão - repondo em português, mas utilizando a palavra "check-in" só para os baralhar. Tudo giro, sim senhor, pedem cartão de crédito, não tenho, cartão virtual não dá porque os ricos não gostam de progresso, paguei com débito mesmo à rico que eles até se passaram. Ali a pagar por um hotel quase o que vale o carro que eles tinham visto chegar.

Quando nos viram chegar naquela máquina devem ter pensado que vinha aí um vale de experiências odisseia que alguém nos tinha oferecido no Natal. Chupem, preconceituosos.

Um dos empregados reconheceu-me e veio dizer que gostava do meu trabalho e eu fiquei a pensar se os empregados dos hotéis não deviam ter ordens para não fazer isto. Imaginem que eu estava com a minha amante? Era chato. Finalizámos o check-in e, mais uma vez, tentaram insistir para nos levarem as malas ao quarto, mas recusámos. A obsessão que esta gente tem com malas? Credo. Têm rodinhas e há elevador e nenhum de nós é coxo, maneta ou entrevado. Chill. Bem, chegámos ao quarto e era bom, deluxe que se é para brincar aos ricos é para ir para o segundo mais barato, grande e com uma cama ideal para quem tem mais do que uma mulher o que, infelizmente, não é o meu caso. Coisas más de não ser Mórmon nem Sunita. Quando um gajo brinca aos ricos, mal se chega ao quarto dá-se aquele espectáculo de ir deitar na cama a testar o colchão e abrir os armários todos a ver o que tem. Xiii, tem ferro! Como se algum de nós fosse usar. Xiii, tem chapéu de chuva. Uau! Um gajo vai à casa de banho e olha para os frascos de champô e gel de banho como quem diz "Shhh, já te venho cá buscar para ires passear". É fingir que se tomou dois banhos por dia que eles vão limpar e arrumar o quarto duas vezes por dia e repor tudo porque, pelo vistos, os ricos são uns furões badalhocos que sujam e desarrumam tudo a toda a hora.

Da varanda via-se o campo de golf, razão pela qual, além dos carrinhos e roupas ridículas, também havia muitos senhores grisalhos com namoradas com mamas postiças. Apesar de ser um resort isolado não dão essa desculpa para não oferecer wi-fi "Ah, não temos internet para ser um retiro". Forretas é o que é. No entanto, quando te ligas ao wi-fi, fazendo login com o número do quarto, ele pergunta se queres fazer upgrade para teres mais velocidade por "apenas" 5€ por hora. Pior, levam-te ao engano para clicares em "continuar", a pensar que estás apenas a fazer login normal, mas se o fizeres começa logo a descontar. Sim senhor, boa forma de chular os ricos, mas eu não sou estúpido e a net "normal" dava para ver Netflix na boa, por isso a de "alta de velocidade" é só para os burros pagarem. Fui ver o mini bar, preços em lado nenhum o que é sinal que é tudo caro. Lá encontrei a lista numa gaveta e... palermice. Acham que este menino vai comer amendoins que custam 8€? Não, não era uma saca de 2kg, eram, talvez, 17 amendoins. É amendoim descascado com os pés por crianças do Tibete ou merda assim? Meia dúzia de gomas a 10€? Mas é goma feita com período de uma das espécies mais raras do mundo que é a virgem de Massamá? Tenham juízo. Um gajo faz o que tem de se fazer que é ir ao mini-mercado mais próximo e encher um saco com tudo o que é aperitivos e bolachas para o caso de dar a larica no quarto não ter de se pedir um crédito pessoal.

Bom, fomos trocar de roupa para rumar à piscina aquecida ou, como dizem os ricos, health club. Tinha sido a razão da estadia, a piscina interior, jacuzzi e sauna e essas coisas que as pessoas a entrar na meia-idade dos 35 anos precisam.  Chegando lá, tivemos de comprar duas toucas porque uma coisa é um gajo entrar com o cu cagado e mal lavado; com os genitais peçonhentos; com o corpo cheio de bedum de três dias e aquela parte de trás das orelhas a cheirar a roquefort; outra coisa é entrar sem touca na piscina.

Cinco euros por uma touca que vai para o lixo porque tem o nome do hotel estampado e não se vai usar noutro sítio que parece que se está a ostentar tanto como um gajo andar de mão dada com uma gaja no meio do Instituto Superior Técnico.

A minha vida nesses três dias foi muito estar ali, entre piscina e sauna, jacuzzi e banho turco, a julgar as pessoas à minha volta, especialmente as crianças que faziam barulho e não saíam do jacuzzi. Parecendo que não, as bolhas do jacuzzi são perfeitas para abafar os pedidos de socorro e camuflarem o último ar a sair dos pulmões de uma pessoa pequenina que guincha. Os jacuzzis têm sempre a informação "É clinicamente desaconselhado utilizar por mais de 15 minutos seguidos". O que eles têm de inventar para os hipocondríacos como eu não ficarem lá o dia todo.

Ao final do dia, estamos no elevador para sair e um dos empregados pergunta "Vão jantar connosco, hoje?". Vais vais, pensei eu, vamos ali a um tasco em Alcabideche que isto aqui é para palatos e carteiras apuradas. Disse que não e ele perguntou se tínhamos o carro com eles. Disse que sim e ele diz que pode ir preparando tudo. Preparando tudo? pensei, mas achei que fosse pagar o parque ou assim, não sei. Ele pergunta qual o carro e eu digo que é um Clio e percebi logo pela cara dele que estava a tentar perceber se era o novo modelo da Porsche ou da Maserati. Ele perguntou "é aquele da chave fininha?" e eu comecei a desconfiar que a conversa não estava a fazer sentido. "Não, a chave é esta aqui" e mostro-lhe e ele "Ahhh, pensei que tivesse no nosso serviço de valet". Ri-me. O incrível que seria deixar o meu carro no serviço de valet e ver a cara deles quando tivessem de entrar no carro que está forrado a pelos de cão, que  cheira a um misto de hamster com Pringles e que parece o ecoponto amarelo e azul num só. Nota: o estacionamento era mesmo em frente à porta do hotel. Quem pede valet ali é quem gosta de chegar a sítios anunciado com cornetas ou quem tem carros caros e não os sabe estacionar sem raspar. Mulheres com maridos ricos, portanto. Piada fácil que tinha de ser feita, lidem com isso.

Quando voltámos do jantar estacionei mesmo em frente à porta para os hóspedes quando acordarem para ir jogar golf pensarem que havia uma exposição de carros antigos. Saímos do carro com sacos de plástico, confiantes, sabem lá eles se aquilo são Oreos e Doritos ou se é caviar e Cabernet Sauvignon. No dia seguinte, foi acordar cedinho que o pequeno-almoço estava pago. Pequeno-almoço daqueles que um gajo come até sentir que não vai precisar de almoçar. Ovos mexidos e bacon só porque sim que em casa nunca se come isso às dez da manhã; sumo de laranja natural aos litros para nos vingarmos de todos aqueles sumos em copo fininho e com gelo pelo qual pagámos três e quatro euros em cafés nessa vida fora. Sabes que estás a exagerar quando depois de comer tudo isso te levantas e dizes "Bem, agora a sobremesa".

Quando um pequeno-almoço tem sobremesa, estás a jogar na Champions da alarvidade. Lá fui eu buscar donuts e tartes e bolinhos que estas artérias não se vão entupir sozinhas.

Numa das noites decidimos ir jantar a um dos restaurantes do hotel. É tudo demasiado caro, mas um dia não são dias. Exceptuando uma vez em Londres, nunca tinha gasto mais do que 40€ por pessoa numa refeição e diria que o meu preço médio de jantares fora ronda os 20€, já com bebida incluída. Lá fomos a um que iria ficar pelos 60€ por pessoa, mas as reviews eram boas. Pouca gente a um sábado o que é logo de desconfiar; tudo muito à média luz para os casais que estão juntos por dinheiro não se sentirem mal-dispostos; e tudo muito silencioso. Os ricos não falam alto. Aliás, os ricos no restaurante pouco falam uns com os outros. Estão ali calados e, de vez em quando, sussurram um "O seu prato está bom?" e um "Este vinho é esplêndido, quer provar?". Sim, isto foi a conversa inteira durante o jantar de um casal na casa dos trinta que estava ao nosso lado. Já tinha visto a ementa na Internet, mas ao vivo tem outro impacto. 7€ uma coca-cola? Foda-se, andamos a brincar. Uma coisa é um prato ser caro. Pode ser dos ingredientes, da técnica usada, da experiência e nome do chefe, etc. Outra coisa é uma garrafa de água custar 5€ e uma coca-cola custar 7€. Quando vejo isso penso logo "Ah, então este prato também não vale 30€, está apenas inflacionado 3x como o resto do menu" Está bem, é o que é, lá pedi umas bochechas de porco. Estavam boas? Estavam, desfaziam-se na boca e bem temperadas. Já comi igual ou melhor numa tasca por 9€? Já. A carne da minha namorada, salvo seja, estava médio e estou a falar em termos de sabor e não médio de ponto de carne que isso significava que tinham acertado no que foi pedido e não tinha vindo demasiado passada e seca. Pá, por trinta euros é para acertarem no ponto da carne e ainda te fazerem uma massagem nas virilhas, mas enfim. A sobremesa era boa, mas se aquilo vale 13€ tenho de subir o meu cachet para o triplo. No fim, foram os tais 60 e poucos euros por pessoa e se tivessem sido 30€ tinha sido caro para o que foi. Não era mau, a refeição foi boa, mas quando se paga 60€ sem vinho nem nada, o mínimo que se espera é que seja melhor refeição do que qualquer outra que custe 20€ e, especialmente, que um gajo não consiga fazer melhor em casa.

Tanto no restaurante como no hotel o staff era todo muito simpático e prestável e não parecia aquela simpatia forçada de quem caça a gorjeta até porque é óbvio que quem tem o carro que eu tenho não dá gorjeta a ninguém a não ser que me façam algo que eu não estava mesmo à espera e fora das suas responsabilidades. Imaginem que peço se podem ir ajustar a temperatura do jacuzzi e a senhora o faz com um sorriso na cara e, por iniciativa própria, traz-me umas uvas e ainda me efectua um felácio sem mãos? Sim senhor, toma lá 5 euritos para comprares uma coisa bonita para ti. Por isso, todos eram genuinamente simpáticos. Menos o o gajo da mãozinha a abanar para activar o sensor, esse tinha pinta de otário.

Depois da azia do jantar, ceguei ao quarto e apetecia-me uma água da pedras que estava no mini bar, mas custava 4€. Não é que eu seja forreta, se fosse não estava ali a pernoitar, mas custa-me pagar coisas inflaccionadas só porque sim. Ora bem, sabem como fica uma água das pedras, depois de bebida, voltada a encher com água da torneira do lavatório e fechando bem a tampa? Ora bem, fica a parecer mesmo água das pedras nova e por abrir. Bebi duas. E uma água tónica.
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9 de janeiro de 2020

Cristina Ferreira: a próxima presidente da república?



A Cristina Ferreira, em entrevista à revista Visão, não descartou a hipótese de um dia se candidatar à Presidência da República. Se Cristina Ferreira chegasse a presidente seria a segunda estrela de televisão em Portugal a consegui-lo. Sim, o primeiro foi o Marcelo que andou anos em pré-campanha com o seu espaço de comentário, tanto que na altura de eleições nem precisou de campanha oficial. Aliás, entre Cristina e Marcelo há muitas semelhanças: Marcelo reúne com influencers, Cristina é influencer; ambos acreditam em nossa senhora de Fátima e ambos dizem representar o povo: o que eu sei é que um deles não veio do povo e o outro anda de Porsche.

Marcelo é sempre o primeiro a chegar a qualquer tragédia e temo que Cristina não conseguisse tal feito porque todos sabemos que ela demora a arranjar-se e tem de levar duas ou três mudas de roupa para qualquer evento. No entanto, teria uma vantagem face a Marcelo que apenas vai lá distribuir afecto e ajudar está quieto, já que a Cristina sabe espetar estacas no chão, devido ao seu tempo de feira, e podia ajudar a montar tendas de emergência e de abrigo em caso de incêndios com famílias desalojadas. 

Se a Cristina ficasse temporariamente impedida de exercer o cargo, quem seria o presidente interino? O Cláudio Ramos ou o José Figueiras?

Talvez fosse o Goucha, para o compensar de o ter abandonado no barco a afundar que é a TVI que nem a Maria Vieira o Mário Machado conseguem salvar.

Que outras coisas mudariam em Portugal se a princesa da Malveira fosse a Presidente de Portugal? Bem, desde logo o Diário da República seria extinto, já que todas as leis passariam a ser publicadas na revista Cristina, nas páginas centrais. Depois de ler uma boa entrevista a uma actriz de novela seminua ou de um jogador de futebol pelado na capa e de ver publicidade a bons cremes, ficaríamos a saber quais as alterações à lei portuguesa. Falar-se-ia de política no programa Passadeira Vermelha: "Agora, vamos ver o look que a presidente Cristina levou à cimeira da União Europeia. Preto com bordados? Linda! Chupa, Hillary.". Por muito mal vestida que a Cristina fosse à cimeira, todos no Passadeira iriam tecer rasgados elogios - como sempre - que eles são muito língua afiada, mas calma lá que não são burros e não sabemos se a Cristina depois da presidência não volta para a SIC.

Na entrevista à Visão, Cristina diz que seria capaz de "Representar todos os portugueses.". Ora bem, representar todos os portugueses é estupidez. Há portugueses burros, racistas, homofóbicos, por exemplo. Ela vai representá-los também? Não faz sentido, até porque iria dar confusão porque o André Ventura também se deve candidatar à presidência e depois um asno desses vai votar em quem? Vai ficar ali, a tentar decidir, e acaba por morrer pois parecem ambos representá-lo de igual forma, tal como o Burro de Buridan, um paradoxo filosófico sobre o livre arbítrio. Foda-se, as merdas que eu sei.

Se o Trump é o presidente do Twitter, a Cristina seria a presidente do Instagram. As stories patrocinadas teriam de ser por concurso público para não haver corrupção e tráfico de influências com ajustes directos. Os comunicados à nação seriam feitos através de lives e a Cristina envolveria o povo nas suas decisões com publicações ao género: "Estou indecisa: devo vetar ou promulgar esta lei? Dá like para vetar e comenta para promulgar." Por falar nisso, sempre que ela promulgasse uma lei, bastava abrir uma janela do Palácio de Belém e gritar com a sua voz "Está CERTO!!!".

Agora, quem seria o primeiro damo? Pois, é que se saiba a Cristina está solteira porque as mulheres fortes e independentes afastam os homens que se sentem inferiorizados. Sim, será verdade em alguns casos, mas muitas vezes essas mulheres que se dizem fortes e independentes são só malucas e os homens não estão para as aturar porque são insuportáveis. A Cristina gosta tanto de desafios que era menina para juntar o cargo de mãe solteira ao de presidente solteira só para mostrar aos homens como se faz. Em Portugal, o Presidente da República é o Comandante Supremo das Forças Armadas o que significa que iríamos ter um exército com novas fardas feitas pela marca de roupa e calçado da Cristina Ferreira. Parece um bocado promiscuidade entre política e negócios, mas estamos em Portugal e isso é tradição.

Outra tradição é a dos indultos, especialmente no Natal. Cristina poderia exercer o seu poder de conceder indulto ou clemência, mas com a diferença de que os perdões dela seriam distribuídos em modo giveway. Para um condenado ficar habilitado a participar só tinha de taggar 3 amigos no Instagram, dar like e seguir a conta e comentar com o número de cartão de cidadão e número de contribuinte.

Admiro sempre alguém que veio do nada, de outro meio, e que se excedeu e ultrapassou todos os outros que tinham cunhas e as portas todas abertas. Mostra carácter e capacidade de trabalho, embora muitas vezes mostre sociopatia, dizem alguns estudos. Em Portugal, o Presidente da República é uma espécie de relações públicas e não vejo por que é que a Cristina não seria capaz de desempenhar bem esse papel, especialmente agora que já sabe falar tão bem inglês que até lançou, em 2018, um livro que ajuda a aprender inglês. Acham que o livro foi escrito por outra pessoa e ela só deu a cara porque foi paga pelo "Cambridge Assessment English"? Oh pá, vocês também são uns más línguas.

Se a Cristina comparou a sua mudança da TVI para a SIC com a morte da princesa Diana, qual seria a analogia caso fosse eleita presidente da república? Com algo ainda mais mediático e inesperado como o golo do Éder?

Talvez vejamos Cristina como presidente em 2026. Aposto que uma das primeiras coisas que irá fazer, depois de tomar posse, é ligar para o programa do professor Marcelo que, com os seus 77 anos, estará nas manhãs da SIC com um programa que mistura comentário político e gerontologia. Marcelo atende em directo e fica confuso, até porque já não sabe quem é a Cristina Ferreira, pois isto de dormir tão poucas horas por dia dá cabo do cérebro a longo prazo. Isto é que era um plot twist de fazer inveja ao Fight Club.
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7 de janeiro de 2020

E o prémio coninhas do ano 2019 é...


Feliz ano novo a todos, acho que ainda se pode dizer. Sejam bem-vindos à entrega de prémios mais esperada do ano. Vocês votaram e decidiram quem seriam os vencedores nas diversas categorias. Vamos, sem mais demoras, revelar os vencedores.


E o vencedor na categoria MODA PARVA DO ANO é...
Sem muita surpresa, a Face App venceu nesta categoria de Moda Parva do ano. Não por ser a mais parva, mas por ter sido a mais viral. Para muitos, o "Ok, boomer" ainda é desconhecida, mas esperem para ver que este ano vai bater. Já os ténis e os fios são embirrações minhas.


E o vencedor na categoria INDIGNAÇÃO PALERMA DO ANO é...
A categoria mais renhida de todas, podia ter caído para qualquer lado, mas ganhou a indignação contra a Greta Thunberg. Calculo que alguns tenham votado a pensar que estavam a votar na indignação dela, mas estava na descrição e eu não tenho culpa por quem não lê tudo. O prémio está bem entregue, mas qualquer vencedor seria justo. Sobre a Greta falei no texto deste link.


E o vencedor na categoria BATALHA DO ANO é...
Uma vitória surpreendente, a meu ver, pensei que seria a Joacine vs Ventura ou o Ângelo vs Esteróides a ganhar, mas enganei-me redondamente. Vocês são levados da breca e imprevisíveis. 


E o vencedor na categoria TRAGÉDIA DO ANO é...
Vocês chega a uma altura das votações que vos pára o cérebro. Desde quando é que esta merda é para votar a sério? Os fogos na Amazónia são uma tragédia maior do que crocs com meias? Eh pá, tenham juízo. Se votassem a brincar era falta de respeito e Deus mandava esturricar mais uns koalas na Austrália, era? Às vezes, vocês desiludem-me.


E o vencedor na categoria ATRASO MENTAL DO ANO é...
Categoria muitas vezes confundida com "Atrasado mental" e não "Atraso Mental". Devo dizer que o meu voto teria ido para a Sacerdotisa do Tibete ou para a petição dos Evangélicos para censurar o Porta dos Fundos, mas também fica bem entregue assim que aquele sotaque brasileiro foi mesmo de quem estava a ter um AVC e a ficar atrasadinho da cabeça.


E o vencedor na categoria FAIL DO ANO é...
Não estava à espera deste vencedor até porque era a única opção que não foi em território português. Não deixa de ser um bom vencedor, mas eu teria ido para o Hugo Strada a mamar crianças da boca. Sobre a Marcha Hetero escrevi coisas que podem ler coisas neste link.


E o vencedor na categoria PERFORMANCE DO ANO é...
Outra surpresa para mim. Não estava à espera que ganhasse, muito menos com maioria absoluta, mas parece que ninguém esquece aquele riso de chico-esperto de Joe Berardo depois de andar a mamar à custa dos outros.


E o vencedor na categoria CONINHAS DO ANO é...
E o prémio mais aguardado da noite foi entregue ao juiz Neto de Moura que é assim eleito o maior coninhas de 2019. Também fico surpreso, pensava que ganharia a Greta ou o senhor da Saia, por ser mais recente e mais polarizador da opinião pública, mas parece que os votos foram pelo consenso de que o Neto de Moura é um coninhas. Já é preciso ser-se coninhas para culpar mulheres pela violência doméstica e citar a Bíblia em acórdãos, mais coninhas ainda para processar meio mundo porque as críticas e piadas fizeram dói dói no Netinho.


Está feito. Em relação ao sorteio para quem tinha votado, os vencedores foram contactados por e-mail. Vejam no SPAM e assim, mas se não receberam nada é porque não vos calhou a vocês. Acontece. As probabilidades também eram baixas que houve mais de 10 mil pessoas a votar. O prémio também não era grande coisa, deixem lá. Seja como for, obrigado a todos os que votaram e um excelente 2020 a todos.
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