1 de junho de 2020

Não somos todos iguais



Não se pode dizer que o verniz tenha estalado nos Estados Unidos da América, porque no que diz respeito a questões raciais, o verniz nunca deixou de estar todo gretado e remendado como as unhas da Kátia no fim de 15 dias de férias em Quarteira. Vamos por partes:

Tudo começou com um cidadão morto às mãos, ou ao joelho, de um polícia. Calhou o cidadão ser negro e o polícia ser branco. O problema é que nos EUA calha muitas vezes esta chave de prémio e é de um gajo começar a desconfiar que não é coincidência e que a máquina está viciada. Desta vez, pudemos todos assistir a vários minutos onde o civil implora por ar e o polícia lhe calca ainda mais o pescoço com o joelho até que ele acaba por morrer, estranhamente. Parece que o ar é um bem essencial à vida e ninguém sabia. Se o gajo dissesse que estava com falta de rede ou bateria no telemóvel, talvez o polícia percebesse a gravidade da situação e saísse de cima dele. 

A culpa é claramente do cidadão negro que andou a gastar dinheiro em ténis da Nike em vez de instalar um sistema de guelras ao fundo das costas por onde poderia respirar tranquilamente em caso de algum dia alguém usar o seu pescoço como joelhódromo da igreja. A autópsia do George Floyd diz que a causa da morte pode ter sido devido a condições de saúde não conhecidas e substâncias no organismo. Os negros não gostam muito de nadar, yo, já sabemos todos desde o tema dos Black Company em 1994 e deve ser por isso que o George não sabia fazer apneia durante 9 minutos. Se soubesse, se fosse saudável e fizesse desporto como o Michael Phelps, nada disto teria acontecido. Ainda se há de descobrir que o Floyd fumava e toda a gente sabe que o tabaco mata.

Bem, não é que interesse a alguém, mas apetece-em dar a minha opinião séria sobre o assunto. Ora, penso que se alguém diz que não consegue respirar, já está imobilizado, chega até a deixar de se mexer, e não tiras o joelho do pescoço, é homicídio. É uma pergunta de primeiro nível do Quem Quer Ser Milionário. Se é voluntário ou não, só o polícia o saberá e cabe a um juiz decidir. Sim, porque eu acho que o polícia merece aquilo que não deu ao Floyd: um julgamento justo e imparcial. Os polícias que estavam do lado são cúmplices e devem ser julgados também, mas pode haver atenuantes, até porque quando ensinas pessoas a não questionar a autoridade e a hierarquia, tens este resultado e o problema será mais do sistema do que dos indivíduos em si.

Eu para mim, os polícias são como os pretos: não são todos iguais. Até tiveram de ler duas vezes, não foi? Sou bué ninja.

Isto leva-nos aos acontecimentos seguintes que foram os protestos e manifestações pela igualdade e a favor que se faça justiça e que casos com o do George Floyd não voltem a acontecer. Agora vamos fazer um pequeno teste: quando eu disse "protestos e manifestações pela igualdade e justiça" em que é que pensaram? Se pensaram nos motins e vandalismo que também estão a acontecer, podemos ter aqui um problema. Significa que na vossa cabeça houve algo a associar "Pretos a protestar = motins e ténis da Nike roubados". A culpa até pode não ser vossa, pode ser dos media e das redes sociais que dão mais destaque à violência, mas temos um problema. Isso percebe-se facilmente num tweet que fiz em que referia o facto de "Milhares protestam pela igualdade" e tenho respostas como "Pilhar e roubar é protestar igualdade onde, seu esquerdolas de merda paneleiro do caralho?". Reparem que nesse tweet, tal  como no início deste parágrafo, nunca me referi a pilhagens, referi-me a protestos pela igualdade que realmente estão a acontecer, pacíficos, com milhares de pessoas. Nunca disse que tudo o que está a acontecer são protestos que eu considero pela igualdade, disse apenas que havia desses. Por isso, se a morte do George Floyd te passou ao lado e não viste o vídeo ou se viste não lhe deste muita atenção; se os protestos pacíficos e discursos emotivos te passaram ao lado e não lhes deste muita atenção; mas decidiste dar atenção aos motins e roubo a dizer "Não é assim que se combate o racismo", lamento, mas acho que não estás focado no que realmente interessa, nem estás do lado certo. Sim, porque aqui há um lado certo, aceitar racismo não é uma opinião, é ser um monte de merda.

Isto não quer dizer que não se possa discutir ou apontar o dedo à violência, claro, mas acho que primeiro é que é preciso perceber como funciona a acção e reacção. Não foi do nada que começaram os motins, não foi porque a Shakira ganhou o prémio de melhor rabo à Beyonce. Ao contrário do que muitos labregos pensam, perceber o que leva a esta escalada de violência não significa legitimá-la ou concordar com as pilhagens, como é óbvio, mas para perceber isso é preciso também ter algum tipo de inteligência e pensamento crítico e nem todos tivemos sorte quando Deus distribuiu neurónios sem defeito. 

Isto leva-nos a outro factor, para mim menos importante desta discussão (pelo menos para já) que são esses protestos violentos, os assaltos a lojas e as agressões. Um amigo meu que está lá no meio dos motins diz que está um caos tão grande que faz lembrar a corrida ao Pingo Doce de 2012. Claro que o racismo não se resolve assim, claro que a maioria do pessoal que entra pela loja da Nike a dentro nem sabe bem quem foi o Martin Luther King e só quer é uns ténis novos. Sabes que os motins não têm razões socio-económicas válidas porque ninguém está a roubar comida nem medicamentos para a avó. Claro que muitos nunca fizeram nada da vida e usam o racismo como desculpa para os seus fracassos. Agora, serão a maioria? Não me parece, com milhares e milhares nas ruas, a maioria dos protestos são pacíficos e ainda é preciso compreender que existem anos de protestos civilizados e nada tem mudado muito. Só nós portugueses que tivemos uma revolução calminha para achar que a violência não resolve nada. Mesmo que não resolva, às vezes ajuda, e, mais uma vez, não estou concordar com esta violência, mas se os lesados do BES tivessem invadido os bancos e partido tudo e aberto lenhos nas cabeças de uns banqueiros no caminho, teríamos condenado assim tanto? Se calhar não. Fossem todos os roubos de ténis e plasmas e o mundo teria muito menos desigualdades.

Por falar nisso, deve ser tramado para o pessoal que participou nas pilhagens, chegar a casa e perceber que com a pressa trouxe o número errado e os ténis não lhe servem. Duvido que as lojas façam trocas nesta altura, deve ser como nos saldos. Não me vejo a participar em pilhagens porque já me estou a ver a chegar a casa com uma televisão de quinhentas polegadas 16k e a minha namorada dizer-me "Foste ao motim roubar a FNAC e não passaste na Zara para roubar um vestido para mim? Só pensas em ti." Se isto acontecesse em Portugal em vez dos militares enviávamos os trabalhadores da Primark que já estão habituados à confusão.  Se as pilhagens fossem cá, já estou a ver o pessoal do Passadeira Vermelha a comentar os motins: "Esta situação é ridícula! Roubar Nike e Louis Vuitton? Não combina, que pindéricos.". Agora que penso no Passadeira Vermelha, com esta situação toda dos motins, a Joana Latino já tens imagens de sobra para ilustrar uma notícia sobre a pandemia de 2035. 

Voltando ao caos dos Estados Desunidos da América, claro que quem agrediu violentamente outros nos protestos só porque estavam a defender a sua propriedade, deve ser julgado e condenado da mesma forma que se o tivesse feito numa segunda-feira normal. Mas esse não é o ponto em que escolho focar-me nesta altura. Escolho focar-me nos protestos pacíficos, até porque acredito que sejam muito difíceis de fazer no meio de tanta raiva acumulada; focar-me nos polícias que marcham com os manifestantes e estão do lado certo, mesmo desafiando a chefia e arriscando consequências profissionais num país liderado por Trump. Não quero fazer isto sobre o Trump porque isto já aconteceu com outros presidentes, mas ter um chefe de estado que ameaça a própria população com tiros dos militares, isso é a quebra de toda a democracia e da separação dos três poderes. Mas pronto, como já todos sabemos que ele é meio atrasado, parece que até nos passa ao lado a gravidade do discurso dele porque, coitado, é tolinho, diz tudo como os malucos.

Do outro lado, claro que há quem caia na mesma narrativa de generalizar os polícias e é óbvio que isso é estupidez também. Há cerca de 800 mil polícias nos EUA e em 2019 foram mortas 1009 pessoas por agentes da autoridade. Significa que cerca de 799 mil não mataram ninguém. Mesmo que consideremos que uns não mataram porque não acertaram bem e a pessoa ficou só meia vegetal, ainda devem sobrar muitos polícias que não matam pessoas, isto não contando que provavelmente mais de metade dessas pessoas que levaram um balázio até mereceram e teve mesmo que ser.

George Floyd tornou-se um símbolo. Imaginem agora descobrirem que ele tinha assediado mulheres. Bem, o mundo entrava num paradoxo de espaço tempo e explodia.

Acho que tudo isto, juntamente com a forma como o país está a lidar com a pandemia que estará intimamente ligada a este rebentar de emoções, só vem mostrar uma coisa que já era óbvia e que é o facto de os EUA serem um país de terceiro mundo que toma banho todos os dias e vai disfarçando. Aliás, domingo foi uma metáfora perfeita para o sonho americano: um imigrante tornou-se bilionário e lançou homens no espaço através da sua empresa, enquanto milhares estão nas ruas a reivindicar direitos básicos. A antítese económica e o pináculo da tecnologia e avanço da humanidade face ao que já deveria ter sido solucionado há muito. É outra realidade. Nós por cá andamos a discutir porque há muita gente na praia, lá discute-se porque há muita gente na rua a protestar e a partir tudo. Não estamos mal, aqui, apesar de muitos também quererem transpor o racismo que existe lá para cá, comparando o incomparável só para sinalizar virtude nas redes sociais. Racismo é sempre mau, pouco ou muito, atenção, mas comparar as duas realidades é como dizer que Salazar era igual ao Hitler e não era, porque o Hitler era um ditador muito mais organizado e mais focado, além de que mamou cianeto como gente grande, não foi cá cair da cadeira feito um labrego bêbedo na esplanada do café. Temos também outro tipo de aproveitamento como o que o André Ventura faz, não percebendo a diferença entre um polícia matar um civil e um civil matar outro civil numa discussão. É uma espécie de sinalizar virtude para os burros, tal como meter uma hashtag ou uma foto no perfil não é tomar uma posição, é só querer aparecer.

Ainda há outra questão que são os ANTIFA. Não falo de anti-fascistas a sério porque isso somos todos os que não são fascistas, falo dos que no escudo de que estão a combater o fascismo, estão apenas a tentar impor o seu fascismo de esquerda que também existe. Esses que vandalizam tudo por vários motivos entre os quais "Olhem para mim", são uma espécie de hienas que só atacam em grupo porque sozinhos levam na boca e que se aproveitam das carcaças e do caos para se sentirem melhor com a sua insignificância e irrelevância. Em todos os protestos válidos, muita vezes sobressaem os idiotas, mas não é por aí que não se deve protestar. No entanto, esse é o último dos focos que deve haver nesta questão, mas o facto de o Trump lhes ter dado mais atenção a eles do que aos protestos pacíficos, mostra bem de que lado ele está e da agenda que tem.

O racismo não é de esquerda, nem de direita. O racismo é humano, sempre houve e sempre haverá. Resta-nos saber lidar com ele da melhor maneira e isso é um trabalho de todos como são todos os direitos humanos. Isto não é política. Isto não é ser do Chega ou ser do Bloco de Esquerda, isto é ser uma pessoa decente ou um monte de merda. Eu tento escolher a primeira sempre que consigo, mas às vezes também dou por mim a ter pensamentos racistas e a pensar que a raça humana é uma merda e fico do lado da pandemia.
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27 de abril de 2020

Review detalhada aos concorrentes do Big Brother



Começou uma nova edição do Big Brother. Pior altura de sempre para se concorrer a um reality show. Quando saírem de lá, como é que vão fazer presenças em discotecas e feiras de enchidos se vai estar tudo fechado? Só se for presenças na caixa do supermercado ou assim. Se calhar concorreram porque ouviram falar que podem ganhar imunidade e pensavam que era à COVID e não às nomeações. Bem, mas este Big Brother começa com os concorrentes cada um num apartamento, isolados e a cumprir quarentena, para depois fazerem dois testes à covid antes de entrarem para a casa onde vão estar todos juntos. Sorte a deles que é à covid e não à gonorreia e herpes, caso contrário metade ficaria pelo caminho. Dizem que é por questão de segurança, mas estão a isolá-los durante 14 dias que é para quando entrarem na casa estarem em modo putaria máxima.

Vamos, então, fazer uma review detalhada, a roçar o bullying, dos concorrentes do novo Big Brother.

O Rui é pastor e ou enganou-se no casting ou chumbou no do Quem Quer Casar com um Agricultor. Meter um pastor dentro do Big Brother é mesmo a pedir piadas básicas sobre estar habituado a lidar com vacas, piadas que não irei fazer, obviamente. Foi entregue para adopção pela mãe biológica e quando disse isso a TVI colocou em letras garrafais "Órfão" no ecrã. Devem pensar que isto é o The Voice em que a desgraça das pessoas conta mais do que a voz. Ele diz que quer aparecer na TV para cumprir o sonho de pagar um cruzeiro à mãe. Algo me diz que não gosta muito da mãe adoptiva, a julgar pelas notícias que dão conta que os cruzeiros são os piores sítios para se estar durante uma pandemia. O Rui diz que nunca viajou muito, mas que já foi a Zamora tocar bombos, mas nunca foi ao Algarve. Parece saído de um sketch dos Gato Fedorento.

A Iury, na sua apresentação, sobre a sua personalidade disse o seguinte: "Já participei em muitos concursos de misses". Disse que está a participar no Big Brother para ter mais notoriedade e para que em Portugal se valorizem mais os concursos de beleza e não ser só futebol. Concordo, sinto que é um dos grandes problemas de Portugal, é uma educação e um SNS debilitados e o facto de não haver mais concursos de beleza. Fez a apresentação toda vestida de miss com uma coroa na cabeça, deve ser por ser a rainha do reino da falta de noção. Diz que as coisas às vezes auto-apodrecem. Parece a minha mãe que dizia operações auto-stop o que não deixa de ser verdade, porque a polícia manda parar, mas quem carrega no travão somos nós.

O Diogo tem ar e dicção daqueles gurus do marketing que nos aparecem num vídeo patrocinado no feed do Facebook a dizer que nos vão revelar um segredo que vai revolucionar o nosso negócio. O mais engraçado? É que ele faz mesmo esses vídeos. Diz-se um "beto-chunga" e passo a citar "Tive a sorte de ter estudado em colégios privados" como quem diz que se livrou de lidar com a ralé das escolas públicas. Já eu tive a sorte de estudar em escolas públicas e não ter tido o otário do Diogo como colega. 

A Sónia é vendedora ambulante e diz que é muito frontal e diz o que tem a dizer na cara e quem não gosta mete na borda do prato, características ubíquas aos concorrentes de reality shows. Tem um namorado com cabelo de cortinado e para o bem dele espero que seja surdo porque a Sónia tem uma voz esganiçada e muito irritante. A Sónia tem classe e disse coisas como "Vou ter de me depilar em frente às câmaras que não me tou-ma-imaginar aí com a pentelheira toda". Juntem a Sónia e a Bernardina numa unidade de cuidados intensivos e o pessoal em coma induzido levanta-se e vai para casa pelo próprio pé.

O Edmar é gay. Custa a acreditar, mas é verdade, é gay. Vem de Mirandela o que lhe deve ter valido já uma série de comentários sobre alheiras. Como é que eu sei que o Edmar é gay? Porque ele disse logo no início da sua apresentação. Precisava de ter tido? Claro, se não ninguém desconfiava. Não retive mais nada sobre ele, mas é o que dá achar que orientação sexual é traço de personalidade que automaticamente define alguém. 

O Daniel deve ter feito como eu e cortou o próprio cabelo em casa. Diz que é hipnoterapeuta, mas sou capaz de apostar que tirou apenas um workshop para isso e não psicologia. Aposto, também, que leu livros de programação neuro linguística e que é daqueles que diz que adora manipular, mas acaba a comprar 10 raspadinhas de seguida porque está com a sensação que o prémio está quase a sair.

A Ana Catharina é brasileira e vegan. Como é que eu sei? A primeira parte sei pelo sotaque, a segunda sei porque ela disse nos primeiros segundos da sua apresentação porque os vegans rebentam se não revelarem isso sempre que estão perante novas pessoas. Diz que já morou em 33 lugares diferentes. Ya… eu também já morei 15 dias em Portimão e 3 semanas numa colónia de férias em Ovar. Diz que já viveu com monges budistas... imagina viveres com monges budistas e acabares no Big Brother em Portugal? Que vida com plot twist do caralho. Diz que vem para o Big Brother divulgar o veganismo. Como se os vegans não tivessem já má fama que chegue. 

Sandrina, 21 anos, filha de pai cigano, mas que cedo rejeitou muitos dos costumes mais rígidos da etnia cigana. Esteve noiva aos 12 anos, a sortuda, eu com 12 ainda nem um beijo de língua tinha dado. Acho importante a presença da Sandrina para quebrar estereótipos e ela afirma que quer acabar com o preconceito contra os ciganos, mas não sei até que ponto ir para dentro de uma casa sem pagar renda não pode ser prejudicial. Diz que a sogra, quando descobriu que ela era cigana, a expulsou de casa, mas cá para mim foi porque descobriu que é cabeleireira. 

Estava a Sandrina a ganhar pontos depois de fazer um depoimento sobre a sua vida com música triste por trás enquanto o Cláudio Ramos ia fazendo perguntas, quando chega a Soraia e diz "Ah és filha de pai cigano, rejeitada pela família e sogra? I raise you um irmão autista e negro, mesmo a jogar a vida em hardcore shit mode". Nisto aparece a Ana Catharina e diz "Sim, mas eu não como carne." e toda a gente responde em uníssono "Vai para o caralho que ninguém te perguntou nada, ó vegana do capeta!". A Soraia era professora assistente de ensino especial e aposto que essa experiência vai ser útil na casa.

Daniel, bombeiro, militar, que já esteve no Kosovo e na República Centro Africana. Agora vai para onde? Para o Big Brother. Já o imagino com netos a dizer "Ó avô, não queremos ouvir as histórias de guerra do Kosovo, conta antes aquela vez em que pinaste a Soraia com um milhão de pessoas a ver." Diz que é uma pessoa de causas e que salvar vidas é a sua missão e deve ser por isso que em plena pandemia, como bombeiro decide participar num reality show, não vá algum dos concorrentes sentir-se mal. Diz que não gosta de pessoas falsas. Estranho, normalmente toda a gente adora pessoas falsas. "Sentido de humor, bom cu, falsa" são as características essenciais para uma mulher no meu entender.

Hélder, 39 anos, viciado em solário e ginásio e chato como o caralho. Esta última parte são palavras minhas não são dele nem da produção da TVI, mas aposto que bem que tinham metido na VT se pudessem. Tem a mania que é engraçado e fala demasiado. É daquelas pessoas que ninguém gosta, nem os próprios amigos. Como tem cara de saguim decidiu investir no corpo e no cabelo para ao longe parecer que até tem boa figura, mas depois percebemos que é parecido com o David Beckham se ele fosse filho de primos direitos. O Hélder era daqueles que usava (talvez ainda use) pólos com gola levantada. Garanto-vos. Ao menos há lá a professora de crianças deficientes para tratar do Hélder. Já escolhi em quem vou votar para apanhar covid. É assim que funciona este programa, não é?

O Fábio faz apostas desportivas e dá toques na bola. E assim uma pessoa consegue apresentar-se numa pequena frase curta que diz tudo sobre nós, não tivesse o cabelo à Raul Meireles sido suficiente para percebermos. Diz que adormece a ver o Inspector Max porque já sabe as falas de cor. Isto é das coisas mais deprimentes que já ouvi. Até o pessoal da Síria se encolheu. Já imagino:
- Em que estás a pensar amor?
- Estava a pensar naquela cena em que o Max salta de uma varanda e prende um assaltante e o Fernando Luís diz "Boa Max"
O Fábio diz que agora não trabalha porque as apostas desportivas estão todas paradas mas diz "Tenho uns projectos em mente.". Ter projectos, esse clássico de quem não faz nada da vida.

A Noélia perdeu o pai há dias, mas calma que não faleceu vítima de Covid-19, graças a deus. Faleceu ao 4º enfarte, o lambão. Quatro enfartes é o tipo de pessoa que leva o papel higiénico todo para casa e não deixa nada para os outros. Tem dois supermercados e como nesta altura são dos poucos negócios que estão a funcionar e a dar dinheiro, decidiu concorrer ao Big Brother. Faz sentido.

A Jéssica disse das coisas mais honestas que já se disseram num reality show "Nunca tive um pai presente então venho para o Big Brother." Não foi bem por estas palavras, mas foi esta a intenção. Não fosse participar no Big Brother um sinal de inteligência, a Jéssica veio da Suiça para Portugal em plena pandemia. Diz que "Sempre me apaixonei muito fácil" ou por outras palavras "Sempre fui um bocado putinha".

O Pedro começou a falar e eu a pensar "este parece o mais normal" e ele sai-se com "Sou um bocadinho homofóbico". Pah, ou és homofóbico ou não és. Ser um "bocadinho" homofóbico é mesmo coisa de maricas. O Pedro só fala com o Cláudio Ramos porque é por vídeo chamada, caso contrário tinha medo de apanhar o homossexualismo. A cena não é ser homofóbico, é ser burro ao ponto de dizer isso sem ninguém lhe perguntar num vídeo de apresentação de um reality show. Eu acho que ela queria dizer que era um bocadinho homossexual e não que era um bocadinho homofóbico, mas isso já sou eu a levantar suspeitas.

A Angélica vem da Venuzuela e fala espanhol misturado com português que pareço eu bêbedo a pensar que sei hablar castelhano que é um mimo. Sim, clario, por supuestio. Diz que foi o marido que a incentivou a entrar no Big Brother e isso quer dizer que ou tem muita confiança nela, ou anda distraído ou tem uma amante cá fora. Depois de a ouvirmos falar com um débito de 5000 palavras por segundo com voz insuportável, percebemos o porquê de o marido a ter recambiado para o Big Brother em plena quarentena. 

Pedro Soá, o Chuck Norris da argumentação que diz que mete pessoas no chão só com argumentos. De repente, depois desta ave rara, até o Hélder ficou a parecer normal. O Pedro Soá é daquele tipo de pessoa que vai ao Shark Tank com um palito a dizer que revolucionou o mundo porque descobriu que também dá para palitar os dentes e não só para comer mini croquetes. Tem uma namorada muito acima do nível dele o que me leva a crer que realmente tem lábia ou, mais provavelmente, dinheiro. O Pedro Soá é daquelas pessoas que se se começam a dar com algum amigo teu, tu deixas de convidar esse teu amigo para o que quer que seja.

Slávia. Sim, Flávia com S. E desta é que vocês não estavam à espera, que a única beta do Big Brother, vinda de Cascais, não fosse loira nem branca. Imagino que algures na produção da TVI alguém pensou "E agora temos uma beta de Cascais que estudou direito na Católica... ah, fds, trocaram as candidaturas, esta deve ser a da Margem Sul". A Slávia, apesar do nome de doença venérea, é claramente a pessoa que sabe falar melhor neste Big Brother e que vem para quebrar o estereótipo de quem nem todas as pessoas como ela são burras. Falo das pessoas que estudaram na Católica, claro.


E é isto. Está completo o ramalhete. Temos betos, betos-chungas, chungas-chungas, pretos, gays, ciganos, labregos, desempregados, empreendedores, tudo. Está aqui um leque diverso e garanto-vos que no meio desta diversidade toda, a mais discriminada vai ser a vegana e, provavelmente, com razão. Já sei o que estão a pensar: ninguém de Rio Tinto? Verdade, é estranho, talvez já tenha acabado a matéria prima.


PS: Se forem daqueles que dizem "Tu vês essa merda? Eu nem tenho televisão!" todos armados em pseudo-intelectuais, podem ver o meu espectáculo de stand-up comedy que está no YouTube. O link é este.
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14 de abril de 2020

Só de Passagem - Espectáculo stand-up comedy no YouTube



Decidi disponibilizar o meu último espectáculo a solo de forma gratuita no YouTube. Ninguém pagou bem por ele, não pensem que sou boa pessoa. Espero que sirva para vos animar nem que seja um pouco nesta altura.

Espero que vejam o espectáculo inteiro que tem introdução estilo Black Mirror, bojardas, coninhas, raps e, espero eu, muitas gargalhadas.

Obrigado a todos os que fizeram parte desta passagem por mais de 20 cidades portuguesas e Londres e Barcelona também para as refugiados tugas no estrangeiro. Não sei se o enfermeiro Luís foi ver ou não, mas obrigado a ele na mesma.

Obrigado a toda a gente envolvida na produção por parte da H2N e ao Nuno Pires em especial por acreditar sempre mais do que eu devido ao facto de não perceber nada disto e acertar ao calhas por inconsciência.

Obrigado ao Pedro Bessa e à sua equipa pela gravação do espectáculo. Obrigado como quem diz que isto foi pago, mas está aqui um grande trabalho da parte deles.

PS: Só para acautelar, obrigado a Deus, se existir, mas sem beijinho na cruz que eu não sou parvo.


Vídeo em baixo se e não conseguirem ver, sigam este link.


Deixem o  vosso feedback se for positivo, se for para dizer mal podem ir chatear outro que não estou para vos ouvir e eu sei que isto está bom. Obrigado a todos por estarem desse lado.

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25 de março de 2020

Vai ficar tudo bem, mas só para alguns



Nos últimos dias, já alguma vez acordaram pela manhã, limparam a baba do canto da boca, tentaram abrir os olhos que se habituavam à luz e pensaram, passados alguns segundos: "Por momentos pensei que tivesse sido tudo um sonho"? Depois, lembraram-se que que tudo o que está a acontecer é real e que para a maioria de nós é a primeira vez que estamos a passar por algo que parece saído de um filme. Por um lado, isso faz de nós privilegiados e talvez seja por isso que nos vai custar ultrapassar isto.

Talvez seja a primeira vez que a minha geração está a fazer sacrifícios pelos outros. Talvez isso seja positivo se quisermos acreditar mesmo que é o altruísmo que está na base desta aparente abnegação em prol dos mais vulneráveis. Poderá ser alguma, em parte, mas não nos iludamos nem nos façamos heróis quando a principal razão de estarmos em casa é porque temos medo que nos toque a nós ou aos nossos. Não vamos estar aqui a fingir que agora é que nos preocupamos com a vizinha de 80 anos, da qual nem sabemos o nome porque apenas dizíamos bom dia de passagem enquanto acelerávamos o passo para não termos de fazer conversa chata de elevador.

Os únicos heróis aqui são mesmo os médicos, enfermeiros e auxiliares. Dizem que nem todos os heróis usam capa, mas neste caso todos usam máscara, pelo menos enquanto as houver.

São esses os heróis mascarados, os que estão ali na linha da frente a dar o corpo ao vírus e a mente à exaustão, que são aplaudidos agora, mas que daqui a um ou dois anos serão apupados quando decidirem fazer greve para lutar por melhores condições. Se a COVID tem o sintoma da tosse e febre, a HUMANIDADE tem o sintoma da falta de memória e ingratidão e, infelizmente, nunca é assintomática. Essa amnésia mais depressa esquecerá quem está nas caixas de supermercado e todos os outros que continuam a trabalhar para que não falta nada aos outros.

Li que este sentimento estranho que temos todos nesta altura é uma forma de luto antecipado. Que a razão pela qual está a ser complicado para muitos estar em casa sem fazer nada, algo que muitos desejaram no passado, é porque há este sentimento no ar, uma tensão cada vez que vamos à rua ou o telefone toca. Há medo e há luto antecipado porque dificilmente chegaremos ao final do ano sem termos faltado a um funeral porque não pode haver muitas pessoas juntas.

É uma tensão que vai saindo por onde a deixamos. Já me emocionei com os vídeos de cantorias à janela em Itália e Espanha; já me emocionei com as palmas de agradecimento aos profissionais de saúde; já me emocionei com fotografias do desespero dos médicos e enfermeiros; já me escorreram lágrimas, mas consegui contê-las e nem sei bem porquê e para quê. Dei-lhes ordem de isolamento, apenas com saídas para o indispensável. Acho que deve ser porque não quero quebrar já, porque sei que o pior ainda está para vir, quero guardar a tristeza para quando fizer mais sentido, para não ficar já imune ao que aí vem.

Não quero parecer derrotista nem pessimista, prefiro não mentir a mim mesmo. O vírus não vai embora por muito que fiquemos em casa e nenhum país aguenta a sua população toda em quarentena durante mais de um ano até haver vacina. Tudo indica que o vírus se torne parte do nosso dia-à-dia o que significa que depois deste isolamento e distanciamento, os com menor risco vão ter de começar a fazer a sua vida normal e arriscar que não lhes calhe a eles a pequena probabilidade de contraírem sintomas graves. Aos poucos, vamos começar a sair de casa, os bares e discotecas vão reabrir, e vamos fazendo a vida normal enquanto os mais vulneráveis serão aconselhados ou obrigados a ficar em casa para não colapsar o SNS e não morrerem todos de uma vez. O vírus não vai embora, não vai desaparecer nem se vai cansar de nos infectar porque ele não tem vontade própria, apenas é. Ficar em casa é a única coisa que podemos fazer agora e que poderá salvar vidas, mas nunca todas.

Talvez tenha uma visão fria porque não sou de romantismos e acho que isto não é uma lição para sermos menos consumistas e aproveitarmos melhor a vida e o contacto humano. Não, isto não é uma lição para tratarmos melhor o planeta ou sermos veganos ou mudarmos outro hábito qualquer.

Isto não é uma lição porque o vírus não nos quer ensinar nada, só quer fazer aquilo que os vírus fazem, sem pensar nas consequências, algo que nós deveríamos compreender muito bem, já dizia o Agent Smith.

Isto não é uma guerra, porque na guerra o inimigo tem um objectivo. A COVID não tem qualquer objectivo. Na guerra mandam-se os mais novos para morrer, aqui parece ser ao contrário, embora andem muitos desse na rua a pensar que isto é só uma gripe, como se uma gripe não pudesse matar 50 milhões em dois anos. Não é uma guerra porque ainda não vi ninguém a meter-se em jangadas e botes de borracha, arriscando a vida a tentar atravessar o mar para ir para outro país onde as suas hipóteses de sobrevivência sejam mais altas. Chamar a isto guerra será um exagero, mas também poderá ser um eufemismo, só vamos saber depois de fazermos as contas porque a tal gripe espanhola matou mais que a 1ª guerra mundial.

Sim, há pais e mães a passear com crianças no parque quando não o faziam há anos; há poluição humana que parece recuar; há coisas positivas nesta pandemia? Claro que há, tal como quando nos morre um amigo há o lado positivo de termos menos um aniversário para gastar dinheiro. Há sempre coisas positivas em qualquer tragédia, o problema é que infinito-1 dá infinito, segundo me lembro das aulas de análise matemática. À minha formação em engenharia, junta-se a minha hipocondria, o que faz de mim alguém que tem a mania irracional das doenças, mas que se tenta tranquilizar na lógica dos números. O problema é que se por um lado eu fico tranquilo quando vejo que alguém da minha idade e sem nenhuma doença de risco terá pouquíssima probabilidade de morrer com este vírus, por outro começo a pensar que posso ter alguma doença de risco que nunca me foi detectada. Ontem fiquei um bocado cansado a correr, será que tenho insuficiência cardíaca? Ando com o nariz entupido há muitos meses? Terei rinite alérgica? E a dor de cabeça que me dá de vez em quando? Um tumor? É nesse limbo entre a sanidade das estatísticas e o pânico silencioso da hipocondria que tenho vivido, bastante tranquilo, até. É como o meu medo de andar de avião, tem o seu pico até ao avião ligar o motor. Nessa altura, a minha mente descansa porque não há nada que eu possa fazer, ele está no ar e o que tiver de ser será, não no sentido metafísico, claro. Com este vírus já estou na fase de levantar voo, já sei que ele veio para ficar e que o irei contrair, muito provavelmente. Por mim, até seria agora, quando o SNS ainda tem capacidade e para ficar já imune e descontrair. Só não ando aí a lamber interruptores em Santa Maria ou botões de elevadores na Loja do Cidadão porque não quero ser um homicida por ricochete. Se a minha namorada apanha, vai para o lar de idosos onde trabalha e faz um full house e morrem os velhos todos. Ela ganha à comissão por cada velho e nesta altura será muito complicado fazer a reposição de stock. Sim, o príncipe Carlos está infectado e a Camila não, mas aquilo é gente que faz amor sem tocar, manda um empregado fazer por eles e eu não tenho dinheiro para isso.

Quantos de nós não vivem já em isolamento social e quase que ligados a um ventilador metafórico que nos dá apenas o ar necessário para sobreviver? Quantos têm a corda ao pescoço e há anos que não respiram fundo? De repente, idosos isolados em casa já não parece um problema assim tão grande, mas sim um conselho da DGS. Nas zonas mais pobres a vida continua mais igual. As senhoras que vivem na Cova da Moura não se podem dar ao luxo de não ir trabalhar e infelizmente, muitas das pessoas que dispensam as empregadas domésticas nesta altura, não lhes continuam a pagar o salário, mesmo que o seu não tenha sofrido cortes.

Na Cova da Moura tudo deve estar na mesma, com a diferença de que cada um fuma a sua própria ganza, já ninguém gira, e em vez de facas usam lenços com ranho.

Gostava de achar que isto vai mudar e que vamos finalmente exigir responsabilidades aos nossos governantes. Gostava de achar que alguns líderes mundiais vão ser julgados por crimes contra a humanidade por terem acordado tarde e ainda hoje estarem a desvalorizar a pandemia, sem qualquer preocupação com as pessoas pelas quais juraram proteger. Isto é como o terramoto que nos espera mais cedo ou mais tarde em Portugal. Será sempre mais caro reconstruir o país de um sismo devastador estilo 1755 do que tentar prevenir, proteger e melhorar as infraestruturas para que os estragos sejam menores e as vidas perdidas também. Todos os políticos sabem disso, mas empurram com a barriga para que alguém fique com a batata quente mais tarde. Com as pandemias é igual, isto estava mais que anunciado e previsto, houve várias desde a espanhola, esquivamo-nos de outras sem saber muito bem como. O que foi feito desde o surto de gripe suína do H1N1? Quase nada. Investem-se milhares de milhões em bancos e não temos uma reserva de máscaras e luvas e ventiladores para nos defendermos de uma pandemia que sabíamos que viria mais cedo ou mais tarde? Temos de andar em contrarrelógio a comprar a preço inflacionado? É quase criminoso. Por muito que achemos que o governo até agiu a tempo, a verdade é que agir a tempo teria sido agir antes de haver pandemia, há muitos anos e isso ninguém teve coragem de fazer. A culpa é nossa que os elegemos, queremos resultados imediatos, queremos o campeonato já este ano, não estamos dispostos a planear a dez anos, se perdermos no próximo jogo é para despedir o treinador já.

Vamos sair mais unidos disto tudo? Não acredito, o meu cinismo, subproduto do meu idealismo frustrado, não compra essa premissa. Talvez se o vírus fosse de outro planeta e tivesse uma vontade e um propósito assumido de nos aniquilar, talvez aí nos uníssemos na mesma luta. 

Vamos virar-nos, pouco a pouco, uns contra os outros. Já nos estamos a virar contra o Rodrigo Guedes de Carvalho que nem há uma semana era elogiado de todos os lados.

Talvez sirva para percebermos que o que interessa é mesmo ter saúde. Talvez sirva para ajustarmos as nossas prioridades e pensarmos onde andamos a investir o dinheiro. Encomendas entregues por drones? Carros que conduzem sozinhos? Robôs que passeiam por Marte? Sondas que vão até ao espaço profundo e que expandem o conhecimento humano? De que serve tanta tecnologia e progresso se depois estamos quase impotentes a um bicho que nem conseguimos ver a olho nu? Tantas invenções para agora nos dizerem "Ora bem, é ficar em casa e lavar as mãos com água e sabão…" É isto que temos para oferecer enquanto humanidade. Temos o mundo nas nossas mãos, à distância de meia dúzia de touches, mas parece que é nas nossas mãos que temos o vírus e que agora convém o mínimo de touches em todas as superfícies. Os smartphones fazem tudo, menos desinfectarem-se sozinhos, talvez tenhamos isso só no próximo iPhone.

Não vai ficar tudo bem, lamento. Para alguns, esperemos que poucos, vai ficar tudo mal porque vão perder entes queridos. Para outros, muitos, ficará a incerteza do que a crise trará, uma dificuldade em respirar não do vírus, mas do nó na garganta do futuro. Muitos vão ficar no desemprego, alguns já estão. Talvez não seja uma crise económica tão profunda e duradoura como a última porque muitos dos países vão estar no mesmo barco e talvez haja mais ajudas e apoios, mas a verdade é que muitos vão perder, de uma só vez, a fonte de rendimento. Haverá sempre os negócios que surgem das crises e as pessoas que se reinventam, mas por cada história de sucesso há 100 de miséria que os bate punhos da vida escondem com a peneira. Os suicídios vão disparar, se não forem alimentados pela crise económica sê-lo-ão pela doença mental que resulta do confinamento e do distanciamento social, do medo e da paranóia. Sinto-me um privilegiado nesse aspecto, apesar de ir perder muito dinheiro com cancelamento de espectáculos, posso continuar a fazer muito do meu trabalho em casa e tenho dinheiro de parte para sobreviver, vantagens de ter um Renault Clio de 2002 em vez de um Porsche. Se tudo correr mal, posso sempre voltar para a informática cujo trabalho dá bem para fazer remotamente em casa, embora entre voltar a programar e ficar no Curry Cabral num ventilador, não sei o que será melhor.

Talvez seja positivo para darmos algum valor às coisas que dávamos como garantidas. Vejo muita gente que dizia que queria morrer e que a vida era uma merda, a lavar as mãos várias vezes ao dia com miúfa de falecer. Talvez isto nos acorde da dormência niilista em que muitos vamos vivendo sem dar conta. Não sei. Está tudo muito esperançado que isto nos mude e transforme a humanidade. Muitos estão com medo do que isso trará e dos cataclismos sempre associados a mudanças forçadas e repentinas. Eu estou no outro espectro: estou com medo que não mude nada e isto seja apenas uma passagem pela casa de partida para mais uma voltinha.

Peço desculpa pelas passagens lamechas que possam fazer lembrar o Pedro Chagas Freitas e o Gustavo Santos ou o Rodrigo Guedes de Carvalho. Prometo continuar a fazer-vos rir, mesmo que seja só aqui, sem receber dinheiro em troca. Depois ajustamos contas quando eu tiver os próximos espectáculos, seja lá isso quando isso for, quando tudo voltar mais ou menos ao normal, as salas de teatro voltarem a funcionar, e vocês tiverem dinheiro para comprar bilhetes. Se tudo correr bem, este será o único texto lamechas que vou fazer sobre este tema. De resto vou continuar a tentar entreter-vos, embora seja de uma arrogância tremenda achar que nesta fase os pequenos risos que vos possa causar conseguirão amenizar tudo isto. Vou fazê-lo também por mim, porque tenho de continuar a fazer a minha vida normal e porque os vossos risos sabem-me tão bem a mim como a vocês. Obrigado por estarem desse lado. Fiquem em casa e pensem que se tudo correr mal, foi melhor do que a maioria das vidas que já viveram desde o início da humanidade. Ficou um ambiente agora também demasiado tétrico, não é preciso, mas é só para puxar para baixo para ficarmos todos deprimidos e depois ser sempre a subir. Se alguém ficar demasiado abatido e se decidir suicidar depois deste texto, não tenho nada a ver com isso, mas sempre é menos uma pessoa para ser infectada e espalhar o vírus. Há sempre um lado positivo. Cuidem-se.
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25 de fevereiro de 2020

Preliminares - "Documentário" de stand-up comedy



Em 2018, depois de terminar a tour do meu primeiro espectáculo a solo (que podem ver no YouTube), decidi fazer uma tour em bares com vista a preparar e criar o meu segundo solo, Só de Passagem. Essa pequena tour por bares teve o nome de Preliminares e todo o processo foi filmado com foco nos bastidores e palermices que se iam dizendo.

Já lancei 8 episódios, nas próximas semanas sairão os três últimos. Podem ver os dois últimos aqui em baixo e todos os outros neste link.

Episódio 8, Guarda e Covilhã

Episódio 7, Bragança.

Obrigado a todos os que participaram, a todos os parceiros e, especialmente, ao público. Já agora, aproveito para anunciar que estou a preparar uma nova tour de Preliminares lá para Maio. Podem deixar sugestões de cidades, vilas ou aldeias para passar por lá.
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21 de fevereiro de 2020

João Moura gosta muito de animais



João Moura, cavaleiro tauromáquico, é suspeito de maus tratos animais. Sim, é difícil ler essa frase sem rir, mas ao contrário do que se possa pensar, não foi porque a polícia comprou bilhete para um dos seus espectáculos e percebeu "Espera lá? Isto afinal é que é tourada? Se calhar é maus tratos…". Não, foi porque tinha 18 galgos na sua herdade que estavam a morrer à fome. Há sites e páginas de apoio à tourada que dizem que o senhor João Moura está a ser alvo de uma campanha de fake news. Sim, foi um plano concertado por várias associações de defesa animal  e pela comunicação social que pegaram em cães magricelas e os atiraram de paraquedas para a herdade do senhor João Moura. Os cães foram resgatados e um já morreu, deve ter sido desgosto de ter sido retirado ao seu dono tão querido.

Em entrevista ao blogue tauromáquico Farpas, que aproveito para dizer, na qualidade de informático, que tem um layout e design horrível de fazer lembrar os primórdios da Internet, mas não sejamos muito duros com eles que já saberem mexer num computador já é bom para quem tem aquela condição, o senhor João Moura disse o seguinte:

"A tauromaquia não está a viver um momento fácil (…) e a verdade é que a imprensa tem os holofotes virados contra nós, daí o empolamento que desde ontem estão a dar a este caso."

Verdade até certo ponto, se fosse o Zé da Esquina a ter animais a morrer à fome não seria tão noticiado, da mesma forma que é mais noticiado um padre pedófilo do que um pedófilo não padre. É que ninguém estava à espera que alguém como o senhor João Moura, que diz adorar animais, que vive da sua relação com eles, fosse capaz de maltratar um touro, quanto mais cães. O senhor é conhecido, normal que seja notícia, mas acreditem que se fosse a Rita Pereira a ter os 18 cães em condições desumanas, com unhas de gel ou assim, seria ainda mais noticiado. Ele continua:

"É curioso que tenham aberto alguns telejornais com a notícia de que eu tinha sido detido... Se tivesse ganho um importante troféu em Espanha, como ganhei tantos, ninguém diria nada."

Se fosse um troféu de cinema, de desporto ou assim, seria noticiado certamente, mas a maioria da sociedade já chegou à conclusão que espetar ferros em animais vivos para divertimento humano não é um feito importante e, como tal, os troféus que se ganham nessa área são equivalentes dos de futebol feminino: ninguém quer saber e a falar-se neles é só para parecer bem. O cavaleiro das ceroulas continua:

"Mas estou sereno e tranquilo e tenho a consciência muitíssimo tranquila. Quem me conhece sabe o quanto gosto de animais, de maus tratos jamais me poderão acusar."

Vamos por partes: tem a consciência tranquila? Claro que sim, disso não tenho dúvidas. Para estar intranquila é preciso achar que se fez algo de errado e o grande problema aqui é que o senhor João Moura não deve achar que matar cães à fome é fazer algo de errado. Um serial killer também tem a consciência tranquila. Quanto a gostar muito de animais e nunca o poderem acusar de maus tratos, só mesmo quem não souber a profissão dele, mas até posso ignorar a tourada, porque ele nasceu no meio e acha que o touro é um valente que até gosta de morrer na arena, mas acabou de lhe morrer um cão por negligência e ele está na boa? A teoria cai por terra, mas sim, ele gosta tanto de animais que numa entrevista à SIC há uns anos mostrou alguns dos seus troféus e, além das cabeças dos touros que matou penduradas na parede (há quem não goste de espelhos e então prefira ter animais cornudos pendurados, são gostos) tinha a cabeça de um cavalo seu e uma mesa cujas pernas eram as patas desse mesmo cavalo. No mínimo, estranho:

Quando tu gostas muito de um animal que tiveste, o que fazes quando ele morre? Cortas-lhe a cabeça, empalhas e metes na parede, óbvio. Mais, mandas esquartejar o bicho, cortar a cauda para um porta-chaves e as patas para fazer pernas de uma mesa. Aposto que deve ter a picha embalsamada a fazer de candeeiro de pé alto. Posso ser eu que não estou nesse mundo e não percebo, mas isto tem um leve aroma a psicopatia. Nem quero imaginar o que fará caso lhe morra a mulher. Um ancinho com as unhas, uma pandeireta com os dentes e as mamas e ainda aproveita para fazer um espanta-espíritos com os lábios da cona.

Por falar na família Moura, o seu filho, João Moura Jr (dar o próprio nome ao filho é mais um sinal de psicopatia narcisista) já tinha estado envolvido numa polémica em 2013 quando foram divulgadas umas fotografias que tinha no seu Facebook onde atiçava cães a touros, uma prática comum neste mundo tauromáquico, chamado bull bating, daí o "Bull" no nome de algumas raças de cães.

Quando houve gente indignada, vá-se lá saber porquê, ao ser apanhado disse o seguinte:

"Foi uma situação isolada quando os cães entraram inadvertidamente no recinto onde estava a vaca, não se tratando de nenhuma luta de animais".

Ah ah ah. Uma vez a minha cadela também entrou num galinheiro inadvertidamente e eu fui logo buscar a câmara fotográfica e tirei várias fotografias enquanto ela esfranganava as galinhas. Depois, selecionei as melhores e coloquei na minha página, sem me esquecer de colocar a minha assinatura no canto inferior direito para fazer publicidade. Burro. Bem, mas ao menos temos de perceber que a família Moura está a melhorar com as novas gerações: o pai deixa morrer cães à fome; o filho dá vacas vivas inteiras para os cães dele comerem; o ideal seria não continuar a linhagem, mas pode ser que o neto já venha normal sem taurossomia 21.

Podemos estar aqui a ser injustos com o senhor João Moura. Não querendo fazer fat shaming, o senhor está pesadote e todos sabemos que a obesidade é uma doença e que, muitas vezes, os gordinhos comem por impulso e não se controlam. Olham para donuts como o José Carlos Pereira olhava para uma garrafa de Absolut ou como o Cláudio Ramos olha para aquele objecto fálico que adora ter perto da boca, o microfone. O senhor João Moura pode ter adquirido um gosto especial por ração de cães. Há gostos para tudo, se há quem goste de peixe cru enrolado em alga e fique viciado de tal maneira que todas as semanas tem de ir ao sushi, haverá certamente quem fique viciado em ração de cão. Se calhar é como o sushi, tem de se provar várias vezes até gostar. Tal vício pode ter feito com que o senhor João Moura comesse a ração toda dos seus galgos deixando-os morrer à fome. Isso ou era parte de uma experiência a ver se os galgos conseguem voar. Seja como for, confesso que gostava de saber o segredo da dieta João Moura. A minha cadela está um bocado gorda e o verão está aí a chegar. Como é que ela vai publicar fotografias no seu Instagram se não tiver um dogkini body? Quando a minha cadela veio do canil é que estava boa, ali com as costelas a verem-se, pronta para uma passerelle, agora só se for para fazer de hipopótamo no Jumanji.

Quero terminar, dizendo que acho que a maioria das pessoas que gosta de touradas nunca seria capaz de maltratar animais noutro contexto, muito menos de deixar cães a morrer à fome. Não acho que gostar de tourada seja sinónimo de ser má pessoa, tal como não acho que ser vegan seja sinal de ser boa, embora aumente a probabilidade de se ser chato. Por isso, quem gosta de tourada e não se revê nestes maus tratos a animais é que devia estar indignado porque a mim não me surpreende nada.
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18 de fevereiro de 2020

Caso Marega: meteu-se a jeito



Se há 30 anos me perguntassem, se em 2020 ainda se iria falar tanto de racismo, sabem o que diria? Diria o seguinte: "Sei lá, caralho, tenho 5 anos, que pergunta de merda para se fazer a uma criança. Dêem-me um push pop, mas é."

Bem, mas já estamos todos a par da polémica com o jogador de futebol Marega, insultos racistas das bancadas, que deu origem a todo um pandemónio no desporto, nas redes sociais e na sociedade no geral. Quando há polémicas destas é preciso debater e, então, a TVI decidiu convidar o André Ventura para falar sobre o assunto porque nestas situações de racismo há que chamar os especialistas na prática. Na prática do racismo, entenda-se. Ele começou por afirmar que não é racista e até disse, e passo a citar, "Já festejei muitos golos de negros". 

O antigo "Não sou racista, até tenho um amigo pretoé assim substituído por "Não sou racista, até festejei o golo do Éder".

O André Ventura, não sendo racista, tem feito confusão em como se deve demonstrar isso. Em vez do típico "Não sou racista, até tenho amigos que são… pretos." ele acha que é o "Não sou racista, até tenho amigos que são… racistas", daí se explica que ele não se importe de apelar à falta de inteligência dos racistas para ter mais votos. Chamar o André Ventura para identificar racismo é como chamar um toureiro, ou o Miguel Sousa Tavares, para explicar se algo é abuso animal. É como um gajo saudável a dizer se a eutanásia deve ser legalizada ou não. É como chamar o Schumacher para o Dança com as Estrelas.

Mas bem, esta discussão do Marega é complicada porque temos de ver os dois lados. Sei de fonte segura que o Marega andou a provocar os racistas. Pelo que apurei, ele entrou em campo com pele escura e andou lá a ser preto de um lado para o outro, mesmo a provocar quem não gosta de pretos. Queriam o quê? Meus amigos, cada um colhe o que semeia, e o Marega não teve respeito pelos racistas. Aliás, o Marega foi o primeiro a ser racista porque escolheu ser preto. Porque é que o Marega não escolheu ser branco neste jogo? Pois, mesmo a provocar os racistas. Disto ninguém fala. Há sempre dois lados numa discussão e não existiria racismo se não houvesse as duas partes: os racistas e as pessoas que eles odeiam. Agora pensem. O Marega meteu-se a jeito, ora vejamos:
  • O Marega podia ter sido mais discreto, podia ter usado uma base para aclarar a pele ou assim, que ia saindo ao longo do jogo, para os racistas se irem habituando aos poucos. Uma espécie de homeopatia do racismo.
  • O Marega começa logo a provocar quando decide chamar-se Moussa. Moussa Marega. Os racistas odeiam nomes que não sabem escrever, daí odiarem quem se chama Helena porque não sabem se leva H ou c com cedilha.
  • Pior, o Marega tem de decidir se quer fazer parte do problema ou da solução. O que é que os racistas acham sobre os pretos? Que são preguiçosos e não gostam de trabalhar. O que é que o Marega fez? Saiu do jogo antes do fim. Isto é dar razão aos racistas, como toda a gente sabe.
  • Isto para não falar que o Marega provocou os racistas que tinham atirado uma cadeira das bancadas, colocando-a na cabeça. Ora, os racistas tinham atirado a cadeira para ele se sentar e ficar confortável e ele decidiu faltar ao respeito, gozando com essa oferta. O Daniel Alves, há uns anos, aceitou a oferenda dos racistas e comeu a banana que lhe foi enviada das bancadas. O Marega devia aprender com o Daniel Alves a não provocar os racistas. Na altura fomos todos macacos, embora isso não seja muito preciso cientificamente: somos é todos símios, mas uns são mais primatas do que outros.
Ao Marega, que tenha mais respeito pelos racistas numa próxima. Só faltou baixar os calções e exibir aquilo que os racistas mais odeiam porque é o segundo órgão que têm mais pequeno do que o normal. O primeiro é o cérebro, claro.

***

PS: Datas de stand-up comedy em breve:
  • 7 de Março, em Águeda, juntamente com o Hugo Sousa e o Renato Albani. Info e bilhetes neste link.
  • 24 de Abril, em Ponta Delgada, nos Açores, levo um convidado comigo. Info e bilhetes neste link.

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13 de fevereiro de 2020

Aborto vs pedofilia: venha o diabo e escolha



Um padre dos Estados Unidos da América, de 72 anos, disse algo como "a pedofilia não mata ninguém e isto mata". Quando ele diz "isto" está a referir-se ao aborto e não a lutas de bebés com espadas ou a touradas com bebés montados em caniches, pois isso é óbvio que mata até porque o caniche não é bicho para aguentar uma trancada de um touro. O bebé tem os ossos muito maleáveis e safa-se desde que não aterre de moleirinha no chão.

Comparar o aborto com pedofilia é a mesma coisa que comparar cortar as unhas com amputar a perna… de outra pessoa e sem o seu consentimento. Comparar aborto com pedofilia é a mesma coisa que comparar um serial killer com um médico que é a favor da eutanásia… pensando bem, deve ser essa a linha de raciocínio do padre. Eu investigaria este padre que aquela cara bolachuda e aqueles óculos já são um sinal e, depois, a falar de pedofilia como se fosse doutorado nela, hum, quem fala assim é quem tem experiência na óptica do utilizador.


"Ao menos a pedofilia não mata ninguém". Só faltou dizer que o que não nos mata torna-nos mais fortes e que é de pequenino que se torce o pepino. No entanto, temos de ser justos, o senhor padre tem razão numa coisa: a pedofilia em si não mata, a não ser que seja muito à bruta e mal feita. O pedófilo normalmente não quer matar a criança até porque de que lhe serve um cadáver de uma criança? Vai fazer sexo com o cadáver? Há limites. Um pedófilo tem valores e toda a gente sabe que gostam delas a dar luta.

A pedofilia só mata se a criança for malcomportada e não souber guardar segredo. A pedofilia pode não matar, mas o que não mata engorda e uma criança gordinha sofre bullying na escola e isso ainda é pior que ser abusado sexualmente.

Os padres são sempre muito parciais nesta questão do aborto porque é normal que sejam contra, já que mais abortos significam menos crianças e as crianças dão imenso jeito aos padres, seja para o coro, a catequese ou para aquela actividade lúdica que 10% dos padres fazem com a pila em crianças, mas que não é bem sexo porque eles fizeram um voto de castidade. É desporto, vá. É hobbie. São "só" 10%. Imaginem se 10% dos professores fossem pedófilos!? Estatisticamente, na escola primária era mais tranquilo, mas mal chegávamos ao 2º ciclo ano era quase certo que íamos levar no cu.

A julgar pelos esforços de grande parte da Igreja Católica, que se empenha mais em fazer campanhas anti-aborto do que em expor e resolver os inúmeros casos de pedofilia que tem enraizados até às mais altas instâncias da sua empresa, Deus aceita melhor a pedofilia do que o aborto. Porquê? Porque o aborto, às vezes, impede que uma criança nasça para ser vítima de pedofilia e isso estraga o plano de Deus que tinha seleccionado minuciosamente, à mão, aquela alminha para ser abusada e agora a alma vem para trás como se fosse um bife muito mal passado e que quando volta ao lume fica sempre mais rijo e menos suculento. Deus fica muito chateado se lhe baralharem a gestão de stock de almas que, parecendo que não, o aborto é uma espécie de devolução e aquilo tem de voltar a ser embalado para o cliente a seguir não perceber que a alma já foi usada. Cada aborto é um nascimento refurbished.

Mesmo para quem é contra o aborto, uma posição que eu até percebo em certa medida, acho que ninguém, a não ser muito radical, acha que são situações comparáveis. Se alguém acha que uma mulher que decide fazer um aborto é pior do que um pedófilo, lamento, mas essa pessoa é uma atrasada mental. O aborto é a interrupção voluntária da gravidez. A pedofilia é a interrupção involuntária da inocência. Dá para ter um aborto espontâneo. Não dá para fazer pedofilia espontânea. Quer dizer, muitos dirão que tiveram um impulso espontâneo e incontrolável e que não têm culpa.

Percebo que há dois tipos de pessoa que queira criminalizar o aborto: os muito religiosos e os pedófilos. Este padre tem cara de ser intersecção dentre os dois grupos.

Para alguém muito religioso, um aborto é a morte de uma vida. Para um pedófilo, um aborto é uma encomenda da Amazon que foi extraviada.

Para os padres, o aborto é pecado até ser uma beata que engravidou deles. Aí ou é aborto ou é filho de pai incógnito que Deus que é avó que cuide, crie e dê pensão de alimentos. A quantidade de filhos de padres não perfilhados e o facto de o Vaticano ter regras secretas para os padres que têm filhos, leva-me a crer que a Igreja é a favor do aborto teórico. É abortista não praticante. Por isso, sempre que virem um padre a conduzir um carro que diz "Bebé a bordo", não é alerta, é Uber Eats.
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