7 de dezembro de 2016

Cara%$o! Fod%$-se! Put% que pariu!



A minha mãe não gosta que eu use palavrões nos meus textos. Parafraseia a mãe do Hérman José, ou o Diácono nela inspirado, e diz que não há necessidade, embora não diga que eu até sou um bom artista. Há muitas pessoas que acham que a asneira é sinal de falta de educação e que só lá vai com pimenta na língua, porque não há melhor forma de educar do que a censura. Apesar de não utilizar palavrões em casa ou no trabalho, sou gajo para me transformar num carroceiro quando estou no meu grupo de amigos.

Há uns tempos andava a rodar um estudo que dizia que quem dizia palavrões era mais honesto e de confiança, mas isso é porque o estudo não foi feito por um estrangeiro na praça de táxis do aeroporto de Lisboa. Acho que esses estudos valem o que valem: pouco. São como aqueles que diziam que o irmão mais velho era o mais bonito e/ou inteligente, que só servem para quem se identifica com eles partilhar porque não é todos os dias que recebem elogios, porque, na maioria das vezes, são feios. Ainda assim, menos feios que os irmãos mais novos, claro.

Acho que os palavrões são uma das melhores ferramentas para passar emoção, especialmente na forma escrita. A emoção que se passa com um «Foda-se» não é a mesma que se passa com um «Apre!». Nem sempre, mas às vezes as asneiras são as únicas palavras que fazem sentido.


Não me indigno com eufemismos. Não me revolto com paninhos quentes.

Já tive textos de duas mil palavras em que apenas uma era uma asneira e em que nos comentários houve gente a dizer «Aquela asneira é que estragou o texto que até estava muito bom.». Percebo a sensibilidade ao vernáculo, mas deixem-me dizer que essas pessoas são palermas e que se uma asneira lhes estraga algo «muito bom» então vão passar a vida a queixar-se de muita coisa e a não apreciar os bons momentos.

Para além de serem comboios de carga de emoções, os palavrões servem para dar realismo e imergir as pessoas na história. Voltando as taxistas, se eu estiver a escrever sobre aquela vez em que um taxista me tentou albalroar o carro, enquanto desceu o vidro e me gritou enraivecido com os olhos raiados de sangue: «Seu palerma! Vá dar uma curva! Bolas! Que maçada, meu malandro!», toda a gente sabe que é mentira. A versão real tem, pelo menos, cinco ou seis palavras daquelas muito feias que as pessoas bem-comportadas nunca podem dizer. Este pensamento é estranho, até porque o vernáculo sempre foi utilizado por muitos escritores de renome, muitos dos quais galardoados com Nobel, mas, ainda assim, continua a ter má reputação. Até Lobo Antunes que não tem por hábito desculpar-se diz «Foda-se. Perdoem esta palavra, mas é a única que me sai. Foda-se.», numa das suas crónicas, apesar de não ser, claramente, um pedido de desculpas sincero. Nem devia. Quem escreve como ele é dono das palavras e usa as que bem entender e como bem quiser.

No humor há muito a ideia de que o palavrão é o subterfúgio de quem quer uma gargalhada fácil. É um facto que em muitos dos casos, a asneira, por si só, traz risos, tal como quando em crianças, sempre que ouvíamos uma asneira dita por um adulto era motivo de risota. Talvez seja um bom sinal que a nossa criança interior ainda está viva, ao contrário da Maddie. A Maddie é outro tema para a gargalhada fácil, mas isso é pano para outra manga. Sim, a asneira gratuita é uma muleta, mas em tantos outros é apenas a gasolina. A faísca que gera o riso está noutra parte da piada. Por exemplo, no sketch dos Gatos Fedorento da agência publicitária de Chelas: tem palavrões, ainda que censurados, mas sem eles o sketch nunca iria ter a mesma piada. Porquê? Primeiro, porque não estávamos habituados a que eles utilizassem vernáculo. Se o tivessem feito em cinquenta sketches antes, este não teria o mesmo impacto e isso é a prova que as asneiras podem ser utilizadas de forma inteligente. Depois, porque o riso vem de situações caricatas e se uma agência publicitária com dois criativos mitras já é caricato o suficiente, a falta de noção deles (ou excesso de honestidade) ao achar que «Super-Sumo é do caralho!» é um bom slogan, só torna a situação mais ridícula em prol do humor. O que é certo é que eu mais depressa bebia um sumo de uma marca que arriscasse com esse slogan do que com um outro pseudo-inspiracional. Outro exemplo e puxando a brasa à minha sardinha:



Neste sketch não havia asneiras no guião. Era suposto ter acabado antes do chorrilho de caralhadas proferidas por Deus. E, apesar do meu improviso, podia ter-se cortado na edição, mas percebemos que tinha mais piada assim. Tinha piada apenas e só pelas asneiras? Gosto de pensar que a piada ali não está na asneira, mas sim na situação de ser Deus a dizer asneiras a um ateu, da mesma forma que muitos religiosos fanáticos o fazem ao dizer que quem não acredita vai arder no inferno. Por isso, deixámos ficar e o que é certo é que as asneiras ali amplificam o riso. Também amplificam a quantidade de pessoas ofendidas com o sketch e não posso negar que também foi uma das razões para as manter.

As asneiras são das palavras mais inofensivas que existem até porque são ditas, na maioria das vezes, de cabeça quente e sem serem pesadas, o que as faz terem menos impacto em quem as recebe. Chamar «gordo da merda» a alguém ofende menos do que ser mais erudito e dizer que ele se assemelha a um leitão que costumava ter uma irmã siamesa, mas que depois a comeu quando ela estava prenha, criando uma espécie de matrioskas de leitões obesos. A segunda é mais pensada, é de alguém que quer mesmo aleijar o ego da outra pessoa.


A asneira é a irmã pobre da má intenção.

«Usar asneiras é recorrer ao que é fácil e de quem não tem vocabulário», diz-se amiúde. Não. A escrita, a meu ver, deve ser crua e fazer com que as pessoas se identifiquem com ela. Faz-me mais confusão quem vai ao Google procurar sinónimos caros para as suas palavras baratas só para ficar bem na fotografia e parecer eloquente. Por exemplo, ninguém diz «amiúde». Foi só para me armar.

O falecido George Carlin, humorista norte-americano, tem um momento de stand-up comedy famoso em que fala das sete palavras que não se podem dizer em televisão. Recentemente, também o Louis CK falou disso, quando diz que censurar parcialmente palavras é um acto cobarde, porque as palavras passam mensagens e, censuradas ou não, essa mensagem e significado é colocado na cabeça de quem as lê. Perceberam o título deste texto, mesmo censurado, certo? Então qual é a diferença? É como quando na Casa dos Segredos censuram com «pis» as asneiras. Até a palavra «cu» eles censuram! Bem sei que o canal às vezes tem missa e que há senhoras idosas que vêem religiosamente o canal 24h do reality show enquanto resmungam «Que disparate! Que gente malcriada.» em vez de mudarem de canal. Esta censura é uma hipocrisia puritana que me faz comichão no piiiii. Um programa que aborda a natureza humana, que tem peixeirada a toda a hora e sexo de vez em quando, para infelicidade da produção, ter palavrões censurados é uma palhaçada. Ainda se censurassem as respostas que os concorrentes dão a perguntas de cultura geral, percebia. É muito mais ofensivo ouvir que África é um país e que a capital é Nova Iorque do que qualquer palavrão no dicionário de calão. O mesmo nas rádios em que parece que o som está a falhar, especialmente se estivermos a ouvir hip hop. É dizer aos rappers «Sim, realmente é difícil rimar com trabalho, mas arranja lá outra palavra... talho não dava? Vai para o talho? O pessoal vai gostar na mesma.».

A asneira não discrimina. É para o rico e para o pobre. Para o preto e para o branco. Para o padre e para a prostituta, às vezes quando estão juntos na cama.

Todos, ou quase, as dizem. Só costumamos dizê-las entre amigos chegados. Os rapazes sabem que já são adultos quando o pai já não tem problemas em dizer asneiras à frente deles. A asneira é boa. Aproxima-nos. Com tanta atrocidade que se passa no mundo, desconfio da honestidade, ou da humanidade, de alguém que me disser que nunca, mas nunca, soltou uma caralhada de indignação ou revolta. Quem diz isso aposto que chama nomes ao gajo da EMEL, ou à sua mãe, que lhe multou o carro porque "só" estava em cima do passeio.

PS: Têm neste link outro sketch que se foca nas pessoas que só se riem com asneiras e a parte mais gira é que a minha mãe fez de figurante e teve de me ouvir, em vários takes, a cuspir vernáculo do bom e do melhor.





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