30 de maio de 2013

O pintor cego


Um dia conheci um pintor cego, talvez um cego que pintava ou apenas um pintor. Não via com olhos, da maneira que todos nós vemos as coisas. Mas via de outra maneira, observava tudo ao pormenor, com um detalhe que à vista desarmada não conseguimos discernir. Contemplava a verdadeira essência das pessoas, a sua real beleza. Quem vê caras não vê corações, diz-se amiúde por ai. Leonardo (não sei se seria mesmo esse o seu nome) sem ver as caras sem saber como era um coração, sentia-os, quase que lhe palpitavam nas mãos. Pintava com uma única cor, não interessava qual era, não lhe fazia diferença, escolhia uma e com essa começava e terminava os seus desenhos, as suas pinturas, as suas fotografias mentais. Era mágico desfolhar as suas folhas soltas, as suas telas amontoadas e pensar como seria o mundo se fosse pintado às mãos de Leonardo. Para ele o mundo era assim, e era só seu. Nunca em todas as nossas conversas lhe tentei explicar que o que desenhava não era bem assim na realidade. Minto.. uma vez, da primeira, mas desisti. Era tão belo, tão utópico, que achei por bem não ter o direito de lhe deturpar a realidade tal como os meus olhos o fazem a mim. Os seus quadros eram repletos de sentimentos, nenhum deles mau. Havia diferença mas não racismo, havia sensualidade e beleza em todos os tipos de caras e corpos. Não havia repulsa. Formas abstractas de objectos que mesmo ao toque não conseguia discernir a sua forma exacta. Obras de arte da mente, formas fantasmagóricas belíssimas, luminosas, cheias de vida. Um mundo fantástico que não existia, só na sua cabeça e, por pequenos momentos na minha, quando me sentava com ele e conversávamos sobre as histórias por detrás de cada uma daqueles rascunhos, como ele gostava que lhes chamar. “Tudo é um rascunho, sujeito à mudança, a melhoramentos, dar por terminada uma coisa ou é desistir ou é arrogância”, disse-me ele uma vez. Não esqueci. Fez todo o sentido. Ainda faz.






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