26 de outubro de 2016

Coisas que aprendi a morar com a minha namorada



Faz agora um ano desde que fui viver com a minha namorada. Sabes que morar junto não é assim uma coisa tão espectacular e feliz porque nunca falam disso nas comédias românticas. No entanto, é uma aprendizagem constante e aqui ficam algumas coisas que tenho aprendido.

Desde que o meu cão morreu que sempre quis ter outro e, desde que moro com a minha namorada, sinto que adoptei um galgo afegão arraçado de cão de água, tal é o tempo que ela demora no banho e a quantidade de cabelos deixados pela casa.

Sou obrigado a tomar banhos de imersão no poliban, já que o ralo está sempre entupido como se tivesse sido acabado de esfolar um gato persa na banheira.

Como é que ela não fica careca? Como é que a casa de banho está sempre alcatifada com cabelos e ela nem tem uma entrada? O chão do meu WC parece o de um cabeleireiro à porta do IPO. Ela deve ter o couro cabeludo arraçado de boca de tubarão em que por cada cabelo perdido está uma fileira de novos, prontos a entrar em acção. Nos meus tempos de solteiro, encontrar cabelos de mulher nos boxers e nas virilhas era sinal de uma noite bem passada. Hoje, é só sinal que saí do banho, pisei o chão do wc e, quando me vesti, trouxe um tufo de cabelo agarrado aos pés que ficaram presos nos boxers.

Tomar banho é todo um desafio. Entro para o chuveiro e dou por mim a tentar não pisar os trezentos e vinte frascos de champô para cabelos lisos, champô para cabelos encaracolados, champô para cabelos ondulados, condicionador, gel de banho, máscara para o cabelo, gel esfoliante, óleo hidratante para duche, gel de banho íntimo, creme depilatório, água micelar, entre muitos outros. Mas que merda é esta? Quem é que precisa disto tudo? Quem é que no final de um dia de trabalho cheira tanto a bedum e acumula tanto sarro que precisa desta panóplia de produtos de limpeza? Parece que vivo com um mineiro. 

Morar junto é partilhar as coisas boas e as más. É partilhar os momentos felizes e a vida, mas também é partilhar as contas e, sejamos sinceros, um gajo fica a perder. Seja em merdinhas para a casa que nós nunca compraríamos, seja no condicionador de marca cara que vai no meio do pão e dos cereais, etc. Perco muito dinheiro por mês nos doces que compramos. Sim, dividimos o custo, mas basta distrair-me por uns momentos e ela já enfardou uma tablete de chocolate sozinha. Ela tem um problema com os doces: gosta muito deles e não engorda por mais que os coma. Ontem, comprou uma caixinha com dez chocolates. Deu-me um. Quando fui buscar outro já não havia. «Então, comi dois a vir do Pingo Doce…» explica ela como um drogado explica que acabou a heroína porque o almoço foi feijoada e é preciso um digestivo.

Desde que vivo com a minha namorada que percebo a razão de alguns realizadores fazerem curtas metragens. Não é por questões de orçamento, mas sim para as namoradas conseguirem ver o filme completo. A minha tem o dom de adormecer quando ainda estamos no genérico e, pior, no dia seguinte quer que lhe conte a história porque diz «Oh, eu até estava a gostar.» Mas a gostar de quê? Do tipo de letra utilizado na introdução? Da música de entrada? Pior é quando são elas a escolher um filme que só elas querem ver e depois adormecem e ficamos nós, ali, a ver o «Diário da Nossa Paixão» enquanto elas abrilhantam a banda sonora romântica com o seu ressonar. Aliás, escolher um filme para ver é sempre uma luta que desafia todos os limites da relação:

- Vamos ver um filme? - pergunto.
- Sim, vamos. - responde ela.
- O que te apetece ver?
- Tanto me faz, escolhe tu.
- Terror?
- Não, terror não me tem apetecido.
- Drama?
- Não, depois fico deprimida.
- Comédia?
- Ainda ontem vimos um.
- Então escolhe tu...
- Já te disse que tanto me faz.

Nós, homens, somos parvos. Porque é que perguntamos? Ela vai adormecer! É escolhermos o que quisermos.

Aprendi, também, que Einstein estava certo e que o tempo é, efectivamente, relativo. Por exemplo: o tempo de um jogo de futebol por semana é maior do que o tempo de três telenovelas por dia; as três horas que uma mulher se demora a arranjar é menor do que aqueles cinco minutos que ela ficou à espera uma vez para irmos fazer aquela coisa para a qual ela nos arrastou. Outra coisa que também é relativa é o desperdício: uma luz acesa da cozinha sai muito mais caro do que duas horas de água, gás e luz a tomar banho. No que depender da minha namorada, não haverá água potável daqui a dez anos no planeta e vamos todos estar a gozar um Verão de doze meses.

Viver com a namorada implica uma mudança de rotinas. Até os próprios laços familiares e de amizade sofrem alterações, já que passamos a estar menos tempo com algumas pessoas. Antes de morar com ela, tinha uma relação muito mais próxima com o meu pénis. Era gajo para lhe ligar várias vezes por semana para darmos dois ou cinco dedos de conversa. Hoje, nunca temos tempo a sós e nota-se que as afinidades já se perderam um pouco. Sim, estamos os três juntos muitas vezes, mas é diferente, às vezes precisamos de estar só com os amigos e ter conversas de homens.

Outra coisa que aprendi é que, afinal, um casal sem filhos precisa no mínimo de um T2. Porquê? Porque é preciso uma divisão para a mulher ter a sua roupa capaz de encher duas lojas da Zara. Vou descrever-vos o que se passa aqui em casa: temos uma divisão só para a roupa, não porque somos finos e temos um walk-in closet, mas porque o quarto é demasiado pequeno para ter um armário grande, quanto mais vários armários grandes amontoados para haver espaço para todos os outfits da minha amada. Há um armário só para aquela roupa que ela comprou e, no máximo, usou uma vez. Há outro armário para aquela roupa velha, ou seja, com dois ou três anos, mas que ainda pode voltar a ficar na moda. Depois, há outro armário para a roupa mais actual e várias gavetas e prateleiras com bugigangas que reluzem. Há, também, um armário para os sapatos com dez prateleiras em que apenas uma é minha. Por fim, há o meu armário, o mais pequeno de todos. Esse armário, de vez em quando, sofre manobras de ocupação por parte do inimigo e dou por ela a tentar reclamar uma pequena prateleira para alguma das suas roupas.

Aos poucos, pendura uns casacos nos meus cabides e já sei que vou dar por mim a ter de arrumar a minha roupa nas malas de viagem na arrecadação.

Outra coisa que aprendi é que, no tocante a decoração, o melhor é dizer sempre que sim. Sempre. Não vale a pena dizer que os cortinados que ela quer são caros, nem que não precisamos de mais um candeeiro. É dizer sim a tudo e quando ela disser, «Mas eu quero que a casa também fique ao teu gosto.», só temos de abraçá-la e sorrir. Sim, porque se eu morasse sozinho tinha vasos com flores e almofadas no sofá a condizer com o tapete. Sim, claro que sim. Não é que eu não goste da decoração, gosto, mas se morasse sozinho não havia cá papel de parede com risquinhas, obviamente. Se quiserem saber mais sobre esta luta podem ler o texto em que escrevi sobre os tormentos de ir ao IKEA com a namorada.

Desde que vim morar com ela que noto um padrão: ela não é uma pessoa agradável de manhã. Para a minha namorada, o sono é uma espécie de limão amargo que lhe espremem nos olhos enquanto lhe dizem que tem dois anos de vida. A sorte dela é que a conheci num jantar, já que se a tivesse conhecido num pequeno-almoço as coisas teriam sido diferentes. Só para verem o mau humor desta menina, ela trocou de sítio onde ia tomar café todas as manhãs porque, e passo a citar, «O empregado irritava-me… era demasiado simpático.». Já aprendi: de manhã não pode haver perguntas. Nem à noite se ela estiver com sono. Nem quando está com fome. Nem quando não come doces há duas horas. Não quero que fiquem com a ideia errada dela! Naqueles 10% do tempo em que não está de mau humor, ela é muito fixe.






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