3 de outubro de 2018

Trabalhar no atendimento ao público não deve ser fácil



As grandes mentiras do mundo são "Deus existe", "O tamanho não importa", "É só a pontinha." e "O cliente tem sempre razão". Não tem. Os clientes são pessoas e, como tal, a maioria é atrasada mental. Se juntarmos a isso o facto de os clientes pensarem que estão num patamar superior aos empregados de uma loja ou serviço, temos uma espécie de atraso mental ao quadrado.

Como escrevi há quatro anos, sim, há muita gente a atender ao público que tem a simpatia e a educação de uma banana madura, mas nem consigo imaginar o que será ter de lidar com clientes, igualmente antipáticos, o dia todo. Faz-me confusão pessoas que não dizem bom dia, se faz favor e obrigado. Para mim, são a santíssima trindade da boa educação e quem não tem essas palavras no vocabulário não pode ser boa pessoa, mas nem é disso que vou escrever: vou falar dos chico-espertos. Sim, tal como existe o empregado chico-esperto, eternizado num sketch dos Gato Fedorento, também existe o cliente chico-esperto que somos todos nós, pelo menos uma vez na vida. Apesar de ser cada vez mais raro, já que está tudo a tornar-se gourmet, fashion, trendy, do bairro, orgânico, biológico e gluten free, ainda é possível encontrar o fenómeno raro que abre um buraco no contínuo espaço-tempo que é quando, numa tasca, o empregado e o cliente são, ambos, chico-espertos. É vê-los ali, a degladiarem-se com comentários parvos a ver quem tem mais graça. É um avistamento bonito, mas quase tão raro como a aurora boreal no Feijó.


Vejamos alguns casos de chico-espertismo por parte de clientes:

Estava na fila do supermercado e o cliente da frente, ao ver que um produto não estava a passar no leitor de código de barras, arregaça as mangas e diz "Se não passa é porque deve ser de borla, ah ah ah.". A empregada riu-se e disse "Pois, se calhar é". Pela lentidão dela devia ser o primeiro dia ali e, talvez por isso, tenha achado piada ao comentário perspicaz do humorista de fila de supermercado. Daqui a um mês, quando tiver ouvido a mesma graçola quinhentas vezes, talvez revire os olhos e olhe para um colega em tom de cumplicidade como quem diz "Outro otário com a mania que é engraçado". Quando algum artigo não tem preço, também existe 90% de probabilidade de o cliente dizer "Se calhar é grátis!" como se fosse um génio da comédia de improviso lembrando-se de algo que nunca ninguém disse. São as mesmas pessoas que comentam no Facebook com "Mete mais tabaco" e "Troca-me isso por miúdos" sempre que vêem uma piada com pedofilia. Já vi com estes olhos que a terra há de comer o seguinte diálogo:

- Pode inserir o cartão - diz a rapariga da caixa.
- Posso inserir? eh eh eh - responde o cliente com uma piscadela de olho malandra.
- O cartão... - diz a rapariga com ar de poucos amigos.
- Ah, é pena, podia ser outra coisa.
- Podia se o senhor não fosse feio. Quer contribuinte na factura?

Fatality! Guardo com carinho nas minhas memórias a cara do palerma quando olha para mim, estupefacto e à espera de solidariedade masculina, e digo "Foi justo". Enfim, andaram a mudar a formação dos caixas de supermercado para dizer "inserir" em vez de "enfiar" e mesmo assim não surtiu efeito.

Outra chico-espertice: "Isto está muito caro.", frase que em 99% dos casos é dita por gordos que se queixam do preço das bolachas de chocolate com pepitas de chocolate e cobertura de chocolate e/ou por clientes que ganham mais do que o empregado que os está a atender. Sim, as coisas estão caras e toca a todos, mas se tens um iPhone XS não te podes queixar do preço do bife do lombo a uma pessoa que ganha pouco mais do que o ordenado mínimo e ainda por cima tem de te aturar.

Se nos supermercados e lojas o cliente chico-esperto é uma espécie bastante presente, é nos bares e discotecas que estão em maior abundância. Pensam que são os únicos a chegar ao pé do empregado, pedir uma caipirinha e dizer "Mas pode carregar na cachaça eh eh eh" ou pedir um qualquer licor e dizer "Bem servido, se faz favor". Se o empregado não acede ao pedido, o cliente chico-esperto atira sempre um "Vá, que o chefe não está a ver" e, muitas vezes, leva com a resposta "Ai está, está que sou eu" e fica um silêncio estranho. É por causa desta gente que tantos bares usam medidor e lixam todas as outras pessoas que sabem o momento certo para pedinchar. Só os empregados de bares e restaurantes é que sofrem com isto já que ninguém diz ao quase-extinto senhor da bomba "Essa gasolina bem servida, se faz favor!". Outra pergunta parva que muitos clientes fazem é aquando da anotação do pedido: "Isto é bom?", perguntam, como se o empregado fosse mesmo dizer que não é bom e assumir que o restaurante onde trabalha tem coisas no menu que não prestam.


É como perguntar se a mousse é caseira: toda a gente sabe que é sempre caseira, na medida em que o pacote de mousse instantânea foi preparado em casa.

"Não faz uma atenção?" Uso esta muitas vezes, mas apenas e só porque - raramente - funciona. Não o faço no Pingo Doce, claro, a pedir uma atenção quando vou comprar um pacote de preservativos, lixívia, papel de celofane e uma courgette, só para o empregado ficar baralhado. No entanto, em algumas lojas de roupa já saquei aquele desconto maroto de 5% só porque decidi armar-me em esperto, mas percebo que seja chato um empregado estar sempre a ouvir isto como se fosse ele o dono da loja e os preços fossem escolhidos aleatoriamente consoante o sorriso bonito do cliente. Nos bares, faz sentido, bebes cinco imperiais tens todo o direito de arriscar a oferta da meia dúzia e se o empregado for dos bons, no mínimo, oferece-te tremoços.

Por tudo isto, muito obrigado a toda a gente que atende ao publico por nos aturarem, mas tentem não ser antipáticos depois de levarem com estes chico-espertos porque quem vem a seguir não tem culpa.



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