26 de julho de 2018

Coninhas 101: Manual de indignação para as redes sociais



Estar constantemente indignado das redes sociais não tão fácil como, à partida, se possa pensar. É necessário dedicação, energia e, acima de tudo, uma vida pouco preenchida de prazeres e com muito tempo livre. Antes de dar algumas dicas sobre como ser um bom coninhas das redes sociais, vou, primeiro, tentar dar uma boa definição do que é ser coninhas neste contexto:

Como nem sempre é trivial identificar um coninhas através da definição que vem no dicionário, deixo um fluxograma para que a identificação desta espécie abundante seja mais fácil:
Pelo ponto 3. da definição e pelo fluxograma, chegamos à conclusão que ser coninhas não é apenas não gostar de uma determinada piada, isso é normal. Coninhas não é apenas ficar ofendido, isso também é normal. Coninhas é achar que o nosso limite para o humor deve ser o dos outros e só ficar ofendido com algumas coisas e decidir expressar essa indignação como se a nossa opinião devesse ser tida em conta. Ser coninhas é ficar mais indignado com piadas do que com os verdadeiros problemas da sociedade, mas escolher os humoristas porque são alvos mais fáceis e que dão mais visibilidade à indignação. Por vezes, há casos especiais, que têm de ser analisados em mais detalhe e, para isso, criei este questionário - adaptado de um inglês que encontrei na Internet - que deve ser preenchido sempre que houver indícios de conice para percebermos o que pode estar a causar o problema e, para efeitos estatísticos e científicos, melhor catalogar os coninhas.
Agora, que estabelecemos, de forma precisa, o que é um/a coninhas neste contexto, posso passar a dar algumas sugestões de comentários que devem fazer se quiserem ser um coninhas encartado. Para se ser coninhas não se pode ser muito original e, por isso, os comentários seguintes englobam mais de 90% dos coninhas digitais.

«Com coisas sérias não se brinca.»
O comentário essencial para terem no vosso leque de indignação enconada. Já riram de piadas com o holocausto, mas não se pode brincar com vegans, por exemplo, porque esse assunto vos é próximo. Usem este comentário para mostrar que são um coninhas defensor da moral e dos bons costumes e que a vossa definição de assunto sério devia ser a de toda a gente.

«Too soon!»
Este comentário deve ser utilizado quando se pretende ser um coninhas hipócrita. Com este comentário demonstram que a vossa empatia por uma tragédia tem prazo de validade e que agora vos faz impressão rir, mas que se for daqui uns tempos já é na boa, porque já se esqueceram e já não se importam com as pessoas que realmente viveram a tragédia.

«Já perdes-te a piada toda.»
Devem usar este comentário sempre que quiserem expressar a vossa admiração e descontentamento ao mesmo tempo. Este comentário faz de vocês um coninhas ingrato que, pelo comentário, dá a entender que houve tempos em que gostava da pessoa em questão. Usando este comentário mostram que são ingratos e que, à primeira piada que acham que não tem graça, esquecem tudo o resto que já gostaram. Para se ser um coninhas devem exigir que todas as piadas sejam boas e, acima de tudo, ao vosso gosto. E erro no tempo verbal é essencial para conseguirem chegar ao cinturão negro dos coninhas.

«Vou deixar de te seguir.»
Devem usar este comentário se quiserem ser o coninhas que se acha importante. Devem avisar sempre que vão deixar de seguir uma página porque, no fundo, se não o fizerem, sabem que ninguém vai dar pela vossa falta. Podiam deixar de seguir sem dizer nada, o que seria inteligente, mas não seria digno de um coninhas que precisa de atenção e de achar que a sua opinião é relevante para alguém.

«Havia de ser alguém da tua família a ver se também fazias piadas sobre isso.»
Este argumento deve ser utilizado se querem ser um coninhas nível paladino master shit. Com este comentário demonstram a vossa indignação e, ao mesmo tempo, deixam no ar uma espécie de desejo kármico porque vocês são tão boas pessoas que acham que quem faz uma piada com uma doença devia passar por ela como vingança. Podem rematar com um «Só espero que um dia tenhas cancro.», embora ache que devam utilizar uma doença mais mortal e mais rara como o Ébola. Desejar cancro a alguém, nos dias de hoje, é como apostar que um dos três grandes vai ganhar a liga de futebol. Vamos todos ter, provavelmente, por isso mais vale apostar num SARS ou assim, que se calha a acontecer ficam a pensar que têm os poderes da bruxa da tusa.

«Já sigo à mais de um ano e só escreves merda.»
Com este comentário, não só demonstram que são um coninhas, como são masoquistas e têm demasiado tempo livre. A maioria das pessoas nem tem tempo para seguir tudo aquilo de que gosta, mas um coninhas tem tempo para seguir até o que não gosta, religiosamente. A má utilização do verbo haver é opcional, mas dá pontos extra na taxa de conice no sangue.

«Quando te encontrar na rua vou partir-te a boca toda.»
Quando querem ser um coninhas alfa, devem, para além de mostrar descontentamento, ameaçar de porrada e, se possível, de morte. Assim, mostram que não só são muito machos como acreditam no destino e deixam a cargo do acaso a sessão de porrada. Podiam marcar um sítio para partir a boca, mas preferem que seja o universo a juntar-vos.

Deixo uma dica final que podem sempre utilizar com arma de arremesso quando ficam indignados:
  • Se a piada tiver muitos likes: neste caso devem dizer algo do género «Tens muitos likes porque as pessoas são burras e a qualidade não se mede pelos seguidores porque também o Hitler tinha muitos.»
  • Se a piada tiver poucos likes: neste caso, podem dizer «É por isso que nem tens likes nesta piada o que prova que é má!».
Assim, nunca se comprometem. É um bocado incoerente? Sim, mas um coninhas para ser coninhas tem de ser incoerente e hipócrita, caso contrário não tem direito ao diploma. Por falar nisso, fica aqui o Diploma do Coninhas que podem usar com orgulho na vosso foto de perfil ou atribuir a alguém que vejam a espalhar conice pelas redes sociais.
Muito obrigado a todos os coninhas deste mundo digital que nos alegram os dias e me dão material de comédia, contribuindo assim para o problema que identificaram e não para a solução.



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