17 de julho de 2018

O dia em que fui expulso de uma discoteca



Começo por dizer que não me lembro bem dessa noite, como será normal nas noites em que se é expulso de uma discoteca. Talvez já tenha sido expulso outras vezes e não me lembre, mas penso que não. Na verdade, nem foi por nenhum desacato típico de bêbedo que fui expulso, mas sim por ter a mania que sou engraçado. Foi numa discoteca do Cais do Sodré, em Lisboa, e aconteceu há vários anos atrás, até porque ter acontecido há vários anos à frente seria complicado e poderia perturbar o contínuo espaço-tempo.

A noite começou como muitas outras: com a promessa de "Vou só beber um copo e depois bazo cedo para casa" que não é mais do que um bilhete para uma montanha russa cujo único caminho é a descer.

A promessa foi, como sempre, quebrada e o copo transformou-se em vários e o ir cedo para casa só seria verdade se nos regêssemos pelo fuso horário de guarda-nocturno.

Deve ter sido por volta das três da manhã, quando se decide, já com um copo a mais, que ir para uma discoteca é que é o que precisamos para a nossa vida naquela momento. Estava com um grupo de amigos e lá entrámos, depois de passar na temível vistoria do porteiro que só os homens compreendem, pois não possuindo vaginas, há sempre o risco de ele não nos deixar entrar para não comprometer o rácio dentro da discoteca e estragar o negócio. Deixámos os casacos no bengaleiro e fizemos o que todos os homens fazem quando entram numa discoteca: ir directo ao bar pedir uma das bebidas pelas quais já pagámos.

Estava alegre, naquele estado inebriado em que estou no meu canto, calminho e sem chatear ninguém, mas não demasiado bêbedo e prova disso é que reparava que estava a enrolar a língua e que dizer palavras como "solidariedade" seria uma tarefa impossível. Quando percebemos que estamos a enrolar a voz é sinal de que ainda estamos relativamente bem, caso contrário nem reparamos e dizemos "Eu, a enrolar a voz?! Estou perelefeitamente bem.". Lá estava na danceteria de jovens e fui ao WC; coloquei-me de frente para um dos urinóis que, felizmente, estavam livres. Sim, não gosto de urinar com desconhecidos ao lado. Tenho a bexiga tímida. Nisto, quando estou já a meio, com a cabeça encostada à parede - que, já agora, deveria ser almofadada em todos os urinóis - quando um rapaz ocupa o urinol do lado. Tranquilo, já estava a meio e, por isso, já não havia aquela pressão de ter de começar a fazer, mesmo com o constrangimento acrescido de o rapaz ser negro, o que causa sempre mais insegurança nos homens brancos que querem utilizar o urinol. Nisto, ele faz aquilo que nunca se deve fazer: inicia conversa comigo. Ora bem, dois homens com os pénis nas mãos só devem conversar se forem muito amigos ou muito gays. Nada contra, apenas a constatar factos no tocante à etiqueta da conversa com miudezas nas mãos. Eis a conversa que se seguiu:

- Gostas de rap? - pergunta-me, talvez a música nessa altura fosse rap, não sei, sei que se fosse ao contrário talvez fosse racismo.
- Gosto, sim. - respondo, sempre a olhar-lhe nos olhos para não correr o risco de olhar para baixo sem querer.
- E rap tuga, curtes?
- Sim, por caso oiço bastante. - algo que é verdade.
- E que rappers curtes?
- Eh pá, vários... Sam the Kid, Valete, Xeg, por aí.
- Fixe fixe, e curtes Sir Scratch?
- Ya, também curto, por acaso. - algo que também é verdade.
- A sério? - pergunta com um sorriso.
- Sim. - asseguro-lhe.

Ele fica a olhar para mim a sorrir, desvio o olhar, dou três sacudidelas no trombinhas e despeço-me com um "Vá, fica fixe". Lavei as mãos e quando saio do WC tive uma espécie de momento Eureka, uma epifania ao som de um qualquer banda de indie rock britânico que passava na altura: apercebi-me que o gajo era o Sir Scratch. Afinal aquilo não tinha sido o pior engate gay interracial da história das casas de banho de discoteca! Afinal o sorriso malandro dele e o ar incrédulo não era por eu conhecer Sir Scratch e ser a alma gémea dele, mas sim porque ele era o MC em questão. Na verdade, mesmo que tivesse desconfiado talvez não lhe perguntasse se ele era o Sir Scratch, já que, caso não fosse, seria uma pergunta potencialmente racista e ele ainda me respondia que não e me acusava de achar que os negros eram todos iguais.

Ri-me sozinho e fui buscar uma bebida. Estou, ali, a curtir o som como um homem branco curte o som na discoteca: balancear levemente os ombros, sem levantar os pés do chão, quando sinto um toque no ombro. Era um segurança que emergia por uma porta atrás de mim à qual, aparentemente, eu estava a bloquear a saída.

- Não pode estar aqui à frente! - diz-me com aquele tom simpático e cordial que a maioria dos seguranças de discoteca tem.
- Peço desculpa, não reparei - justifiquei, humildemente, como se deve sempre fazer com alguém que tem o dobro do nosso tamanho e que tem ar de quem tem por hobbies fazer crochet e partir canas do nariz com a testa.
- Afaste-se já daqui, não volto a avisar! - continuou, naquele tom meigo tão característico dos seguranças e dos ursos pardos.

Nisto, vejo que a porta tem daqueles sinais "Proibida a entrada a estranhos" e embora fosse anos antes de ser comediante, o bicho de dizer palermice sempre esteve aqui dentro e, com o álcool, tomei a decisão inconsciente e precipitada de dizer o que estava a pensar:

"Se aí diz que não podem entrar pessoas estranhas, como é que o senhor veio daí? Podem sair pessoas estranhas, mas não podem entrar? Os estranhos entram por outro sítio e saem por aqui, é isso?"

Há ali um momento de pausa onde me apercebo que ou ele era burro e a piada ainda estava em processamento ou que não tinha achado graça ao meu génio humorístico. Pareceu-me que a segunda hipótese seria a mais provável e tento aliviar a tensão, dando-lhe uma palmadinha no ombro e dizendo "Estou só a ser parvo, não se chateio comigo.". Curiosamente, não funcionou. Ele, sem dizer nada nem pestanejar, limita-se a agarrar-me por um braço e a levar-me lá para fora. "Que falta de sentido de humor", disse-lhe enquanto ele me escoltava até à porta. "Posso ir buscar o meu casaco", perguntei, ao que ele me responde grunhindo um "Não", entredentes.

- E agora o meu casaco? - perguntei, já cá fora.
- Venha cá noutro dia buscar. - gostei da educação de me tratar na terceira pessoa depois de me ter apertado o braço como se fosse feito do mesmo material das bolas anti-stress.
- A sério que não me vai deixar entrar para ir buscar o meu casaco?! - pergunto, incrédulo.

Virou-me as costas e não me respondeu, provavelmente por eu ter utilizado demasiadas palavras numa frase e ele ter ficado confuso. Comecei a chamar-lhe todos os nomes e a dizer que não sabia com quem se estava a meter. Isto na minha cabeça e já longe da discoteca, claro. Liguei aos meus amigos a contar o sucedido, eles saíram da discoteca e vieram ter comigo. Rimos, fomos comer e, milagre, chegamos relativamente cedo a casa.



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