4 de junho de 2014

Páginas do livro que nunca escrevi



A noite cai agora mais cedo. Em Lisboa o Verão terminou e o vento, a chuva e o pôr do sol apressado tomam conta da cidade. A cidade que continua cheia de vida por entre cada uma das suas ruas entrelaçadas, entre estações de metro, avenidas largas, as artérias da cidade, mas também pelas suas ruelas e escadinhas apertadas, de Alfama, Mouraria ou da Bica, desses bairros carismáticos que só são lembrados quando o cheiro da sardinha assada e do pão andam no ar. O sol abrasador de Agosto já lá vai, e os raios de sol acutilantes dão agora lugar a uma brisa que acaricia o rosto e nos diz que para o ano há mais. Os calções começam a crescer e os casacos de meia estação já são uma constante. As noites estão mais frias e as manhãs também. As manhãs de sol de ouro que é reflectido no dourado das ruas cobertas pelas folhas de bronze dos plátanos que ornamentam o chão, espalhadas nos passeios, amontadas nas beiras das estradas e revestindo a relva ainda verde dos jardins.

Rostos desconhecidos e descontentes vagueiam nos transportes públicos, zombies de fato e gravata e de facto pouca vontade própria, escravos dos tempos modernos que acordam cedo, colocam o capacete de palas espelhadas e embarcam para mais um dia até que seja sábado. Mas por vezes, no meio de tantos rostos sem alegria há um que sorri, que está ali porque quer e não porque precisa, ou precisa ainda assim porque é estar ali que a faz feliz. Se calhar não o estar ali, mas para onde vai e enquanto não chega tenta aproveitar tudo o que o mundo tem para lhe dar. Hoje, ali, entre a Avenida e o Rossio, esse rosto era o de Maria, que se destacava na multidão envelhecida pelos sobrolhos franzidos e dentes cerrados. O sorriso estava-lhe nos olhos e no jeito como ajeitava o cabelo e se desviava para dar espaço para mais um revoltado no metro enlatado. No modo que pedia “com licença” e "desculpe" por cada encontrão que a carruagem ia incentivando. No olhar convidativo a um bom dia como ela olhava para todas as pessoas, desde ao rapaz de 20 e poucos anos de fato e gravata, vermelha, e barba feita à pressa, até ao senhor de higiene precária que empurrava toda a gente por onde passava. A vida ensinou-lhe a não descriminar, a que por trás de uma imagem há uma história e que essa imagem não desvenda as 1000 palavras que são precisas para a começar a contar.

Nos seus 22 anos de inocência, Maria tinha mais maturidade que a maioria das meninas-mulheres da sua idade. Nos seus olhos azuis esverdeados havia o espelho de um mundo risonho, de uma alegria destemida de agarrar cada dia como se fosse o primeiro ou o último. Acabada de se licenciar em Serviço Social com distinção, trabalhava agora na Associação Comunidade Vida e Paz onde fazia aquilo para que gostava e para que tinha vocação. Tentar fazer do mundo um sítio mais justo e melhor. Tentar que os que não tiveram sorte na vida, que foram abusados, por outros ou por si próprios, que erraram e não lhes foi dada a oportunidade de tentar de novo, pudessem ter algo mais que os agarrasse a esta vida tão efémera, e que para alguns, ainda bem que assim é. Maria gostava de todas as áreas que tinha estudado mas onde se sentia melhor era a trabalhar com os sem abrigo, ou como ela gostava de lhes chamar, os sem amigo, porque era isso que ela achava que eles realmente não tinham e lhes fazia mais falta. Era mais fácil encontrar uma esquina, uma ponte, uma arcada, uma árvore que os tapasse da chuva do que encontrar alguém com quem eles pudessem contar, abrir o coração e que lhes abrigassem as lágrimas. Não era aconselhável criar laços na sua profissão, podiam toldar-lhe o julgamento, diziam-lho, mas Maria não era assim, Maria criava laços com uma folha presa ao sapato no caminho para casa, quanto mais com um ser humano que ali estava, carente, desabrigado de calor emocional. Talvez mudasse com o passar dos anos, talvez isso a tornasse uma pessoa mais descrente no mundo e nas pessoas, consoante as histórias de vida se lhe amontoavam nos ombros juntamente com as Primaveras, sem que ela visse o mundo e as pessoas a mudarem à sua volta. Talvez fizesse com que ela vivesse os problemas dos outros mais do que vive os seus, mas ainda assim talvez fosse melhor. O que poderia ser fraqueza para muitos para ela era o tónico diário que a fazia erguer-se da cama ao primeiro fôlego de olhos abertos com a genica e alegria de quem tem tudo para fazer e o quer fazer por gosto. Há cerca de 1 ano, Maria tinha sido diagnosticada com um deformidade cardíaca aguda, uma herança genética de quem nunca lhe deu nada. Sabia que a qualquer momento o seu coração poderia calar-se-lhe no peito. Que podia deixar de ser quem é entre dois batimentos, numa música que fica a meio para sempre. O seu coração era grande de mais. Literalmente. Era maior do que uma rapariga do seu tamanho e estrutura devia ter e por isso tinha-se tornado fraco e insuficiente para manter o seu corpo a funcionar por um tempo que para os outros é considerado normal. Maria sabia que muito provavelmente iria morrer mais cedo, demasiado cedo e, por isso, queria viver todos os dias. Viver à séria. Viver! Não sobreviver como faz a maioria. Não queria passar um dia sem deixar algo de si a alguém que cá fica. Um sorriso, uma palavra carinhosa, um abraço com um “vai correr tudo bem”. Não tinha aquelas listas que as pessoas fazem quando sabem que vão morrer. Se vamos todos morrer porque será que só os que sabem que vão morrer antes do tempo querem fazem isso? Não quer dizer que ela não receasse a morte, apavorava-a pensar nisso e por isso, não pensava. Fugia-lhe do controlo e pensar nisso só lhe iria adoecer a vida que lhe restava.

Mas hoje era um daqueles dias em que Maria se lembrava que o seu coração era diferente. Tinha refeito alguns exames, já os sabia de cor e o resultado também. Tudo na mesma mas pior. Fora encaminhada para um médico especialista em transplantes cardíacos e coisas do coração, no sentido físico claro. Era dos mais conceituados e dos que lhe poderia dar o parecer mais profissional sobre o seu futuro, se é que havia, e sobre as alternativas todas e os riscos que lhes estavam associados. Era nestes dias, de 2 em 2 meses desde há 1 ano que Maria se sentia nervosa e ansiosa, optimista como era não podia deixar de sonhar com um milagre do corpo humano e que a sua doença se lhe desaparecesse. Mas acima de tudo era realista, sonhadora terrena sabia que isso não iria acontecer. Mas era tão bom pensar nisso e imaginar por momentos, mesmo que quando descesse das nuvens o solo lhe parecesse quente e áspero nos seus pés descalços de quem sonha acordada. Ela adorava viver, não tinha medo da morte tinha era pena de não poder viver o tempo que lhe tinha sido prometido quando era criança. Queria ter filhos e deixar cá um pouco do seu ADN, uma tábua rasa para ensinar e se orgulhar. Queria tudo isso e sabia que a probabilidade disso acontecer era reduzida mas que isso não reduzia a sua capacidade de sonhar e viver enquanto o sangue lhe bombeasse pelos vasos sanguíneos que lhe aqueciam o corpo.

Chegada ao metro do rossio, apressou-se a sair, vestindo o  seu pequeno casaco bege. Tinha 500 m para fazer até ao Hospital de S.José. Podia ter saído na estação do Martim Moniz mas preferia andar mais um pouco e fazer o percurso a pé. Subiu as escadas, 2 a duas como fazia sempre, com a pressa de quem não tem tempo a perder com um degrau de cada vez e surgiu por entre a calçada com o sol preguiçoso de Outono a iluminar-lhe o rosto. De cabelo escuro quase liso, caído sobre os ombros contrastando com os tons claros e quentes da sua roupa. Calças de ganga e ténis castanhos claros, que agora eram escuros, e top de alças rosa a esconder-se por entre o casaco desapertado que a protegia da brisa das 9 da manhã. Um sorriso rasgado a esconder a preocupação que ela se esquecia por momentos de ter. Como ela adorava aquela cidade. Sentia-se parte dela apesar de lhe conhecer os podres todos e talvez por isso, por ainda assim a preferir a todas as outras, sabia que era amor verdadeiro. Não havia nada que aquela cidade lhe pudesse fazer que ela a deixasse. Ali, ao lado da pastelaria Suíça olhou à volta, rodou sobre o seu eixo e respirou o ar da cidade num fôlego profundo. Ali estava ela no coração vivo e forte de Lisboa, onde a calçada conta histórias e as estátuas ouvem tudo o que se passa. As buzinadelas dos condutores apressados a contrastar com a calma das águas das fontes da praça do Rossio. O vento leve e cauteloso vinha do rio e trazia os cheiros e as memórias de um povo arrastando o fumo do Homem para longe dela. Aquela praça estava-lhe na alma. E estava a chegar a altura que ela gostava mais, onde o cheiro das castanhas assadas e dos pregões dos cauteleiros se misturava com as luzes de natal quando ainda faltava para abrir os presentes. Já ameaçavam algumas lojas neste início de Outubro a chegada do Natal, a quererem forçar o seu início para que o negócio se esquecesse dos tempos de crise e lhes pagasse as contas em atraso. Mas as ruas ainda estavam despidas de enfeites, ainda não havia presépios nem árvores ornamentadas mas já havia indianos a vender chapéus de pai natal misturados com as rosas e as coras de princesa. Era estranho ver que o Natal já espreitava pela porta entreaberta do Verão mas que as bancas de gelado continuavam ali e que os turistas que invadiam Lisboa não precisavam de mais que um par de calções e uma Tshirt para fazer conjunto com os chinelos de enfiar no dedo. Era uma cidade de contrastes mas com uma coerência na sua essência que a deixava rendida.

Agora num passo desapressado, sem degraus para subir aos pares, pôs-se a caminho, devagar, apreciando as ruas e as gentes. Tinha tempo, faltavam ainda quase 45 minutos para a consulta e o caminho, mesmo andando a passo despreocupado não demoraria mais de vinte. Passou pela ginginja do Rossio, à sua direita e já havia fila. Não era a sua bebida preferida, nada com álcool o era. Sabia que não podia beber, ou não devia, mas também tinha direito a saborear de vez em quando. Não gostava do sabor da ginja mas sempre que a provava sabia-lhe a Lisboa e o doce do fruto com o amargo do álcool sabiam-lhe a Portugal. Pensou em levar um garrafa para oferecer, já que o Natal está quase aí, mas decidiu que o faria à vinda, não queria andar a carregar com o saco nem que o seu médico novo a interpretasse mal ao ver com uma garrafa de álcool antes das 10 da manhã. Até se riu por dentro ao pensar nisso. Por entre as lojas abertas e os passos apressados de quem esteve no trânsito demasiado tempo e agora tem que compensar havia ali tanto trabalho para ela fazer. Pedintes e sem abrigos cresciam em Lisboa e ali era o pedaço da cidade que reclamavam para eles. Era ali que os turistas mais andavam e era ali que as pessoas tinham dinheiro para beber cafés de 2€ sentados em esplanadas viradas para o estômago guloso de Lisboa. Era ali que eles dormiam ao relento debaixo de arcadas de casas que ironicamente estavam abandonadas, deterioradas e a pertencer sabe-se lá a quem. Com caixotes do lixo pretos cheios de comida da família que pediu doses a mais com medo de ficar com fome e deixou no prato que foi deitado fora. De tanto lhes conhecer as histórias Maria já as fantasiava na sua cabeça ao ver um desses pobres indigentes rejeitados pela sociedade, ou que a rejeitaram em alguns casos, o que os tinha levado ali. Álcool e drogas eram os mais comuns antigamente, agora eram contas por pagar, créditos atados ao pescoço em nó de forca que lhes tirou a casa e com ela muitas vezes a família e a vontade de tentar de novo. Aquela desgraça misturada com os restaurantes gourmets e os carros de luxo que iam acelerando eram como a ginja, um contraste que lhe deixava a boca amarga.

Subiu pela Calçada do Garcia, por entre aquelas ruas apertadas e traçadas a régua e esquadro na mão de Dali de tão pouco rectas e aborrecidas que não eram. O comércio típico português ali já não viva, restaurantes indianos e chineses com lojas de conveniência a condizer em cada esquina e línguas que ela não percebia a ser entoadas por entre as janelas semi abertas dos rés-do-chão. E mais uma vez ela se sentia em casa. Aquela multiculturalidade de Lisboa, como de uma rua para a outra se passa da Europa para a África ou Ásia dava um aroma especial àquela metrópole que era muito mais do que o cheiro das especiarias no ar. Como Assistente Social ela sabia bem os problemas que havia tanto de quem tenta integrar todas as raças e credos em igualdade, como de quem é integrado numa sociedade que não é a sua enquanto tenta guardar a sua origem. Mas ainda assim, numa calma aparente, havia respeito e não imposição, havia uma convivência pacífica e saudável que contrastava com tantas outras cidades do mundo, muito mais racistas e xenófobas do que as nossas de Portugal. E isso fazia-a sentir contente, sabendo que a perfeição estava longe, muito longe, que apesar de tudo e nos tempos que se vivem a paz ainda era senhora da razão.

Os grafitis, ou os rabiscos feitos por rapazes rebeldes sujavam aquelas paredes, que já estariam sujas mesmo sem os traços de tinta das latas, de quem as usava como armas de revolta sem saber com o que se estavam a revoltar muitas vezes, davam carisma àqueles esquinas. Aquela zona da cidade era como um senhor de cara fechada e cicatrizes no corpo que não tem mais nenhum sorriso para oferecer. Já os deu todos em tempos e agora guarda-os para quem se mostrar digno. Um senhor que respeita quem o respeitar mas que acima de tudo deixa passar ao eu lado de forma indiferente, desde que não se lhe dê um encontrão no ombro.

Os andaimes amarrados aos prédios anunciavam mudanças numa cidade com medo de ser velha. Com medo de ser como as senhoras de idade à espreita nas janelas das ruas estreitas e os senhores de cabelo branco à porta dos cafés a galar as meninas que passam e que não faziam de Maria uma excepção. Sem ser exuberante fazia virar os pescoços no seu sentido, o seu jeito descontraído e alegre abria portas aos piropos e aos comentários, muitos deles inapropriados, mas de onde ela tirava apenas o humor que lhe estava inerente. Aos outros esquecia e nem os escutava. O seu sorriso, sempre rasgado a mostrar os dentes e o bom dia que ela dizia sempre que alguém a fitava nos olhos mais do que 2 segundos faziam com que a sua falta de feminilidade e sensualidade que a sociedade impõe a uma mulher, não interessassem a que ela fosse bela. E era. Todo o seu rosto parecia ter sido feito por algum dos pintores ou escultores renascentistas, com as proporções correctas e matemáticas que se atribuem aos rostos belos. Sem maquilhagem, sem unhas pintadas, cabelo não mais que escovado e um pouco penteado depois do banho, o seu rosto emanava mais que beleza ingénua, reflectia a energia e a beleza que ela via no mundo. Se algo era imperfeito na sua cara, só apenas o dente canino direito, da sua direita, que tinha crescido rebelde em relação aos seus irmãos. Tinha decidido dar um passo à frente para ser o primeiro a sentir a aragem quando ela sorria. Mas esse dente era talvez a cereja no topo da beleza de Maria, o que quebrava os seus traços aprimorados e lhe dava a rebeldia quente que ela tinha da não conformidade. Mas ela não se achava bonita e talvez por isso ainda o fosse mais.

Chegando ao fundo da Rua do Arco da Graça, por entre taipais envelhecidos de há tanto tempo que a cidade está a ser operada ao apêndice, por entre caixotes do lixo cheios até cima e partidos por baixo, de escadarias amareladas que espalhavam o cheiro da urina de ontem à noite, ou de tantas outras noites, as paredes de cimento e tijolo afastavam-se e a calçada abria-se. Em frente, o muro de cor salmão sujo com o arco em pedra branca trabalhada, de colunas gregas e figuras bíblicas no topo convidam a entrar. Mas só ali ia quem ali trabalhava e quem precisava. Era o hospital de S. José. Antigo e célebre Colégio de Santo Antão-o-Novo que após o terramoto de 1755 passou a abrigar os enfermos que ficaram sem local para ser tratados aquando da destruição da sua antiga casa, o Hospital de Todos-os-Santos. Este era de apenas um santo, S. José, o padroeiro das famílias, dos trabalhadores e o protector da Igreja Católica Romana. Reminiscências religiosas que ficam de uma época em que rezar a Deus era o mais eficaz dos remédios, nem que fosse porque quem o fazia acreditava nele. Agora era um dos monumentos mais importantes de Lisboa e um dos pólos da medicina moderna do país e era para ali que Maria tinha sido encaminhada por um amigo de sua mãe, com conhecimentos importantes e confiáveis na área. Maria encheu os pulmões de ar, sabendo que era o último fôlego de ar puro que ia respirar na próxima hora, preferindo o ar corrompido pelas máquinas do Homem que pairava nas ruas, do que o cheiro a éter e batas brancas desinfectadas dentro das paredes do hospital. Expirou e com um bom dia alegre ao segurança do portão ensonado entrou.





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