6 de agosto de 2014

O estado da música portuguesa



A música portuguesa vive um período estranho. Uma época em que para se editar um disco há apenas a condição de ter que ter participado na Casa dos Segredos. Em que não só não é preciso ter uma boa voz, como se pode ter a voz de um rouxinol autista que acabou de rasgar as cordas vocais a felaciar um pica pau. É também uma época em que quem enche Coliseus tem que ter Carreira no nome e uma época em que alguns desses Carreiras só têm uma carreira derivado ao nome que têm, em que são convidados para júris de programas musicais e quando cantam fazem pior figura que a maioria dos concorrentes. Uma época em que os outros que estão a ver batem palmas e fingem que gostam, quando no fundo devem detestar estar ali a dividir o palco com artistas claramente inferiores. Eu até admiro o Tony Carreira e as suas crias, parecem-me genuinamente boas pessoas e sabem trabalhar a sua marca pessoal como ninguém na indústria da música em Portugal. Portanto têm o seu valor, mas quando olhamos para as vozes e para as letras, faz confusão só se conseguir rimar em "ar", "er" e "ir", fora a quantidade abusiva de rimas com "coração", "paixão" e "dá-me a tua mão". Mas pronto, já há uns anos que se rimava "melão" com "coração" que é, provavelmente, bastante pior.


Sou do tempo em que o Quim Barreiros queria cheirar o bacalhau da Maria e em que o Nel Monteiro cantava "Puta, Vida, Merda e Cagalhões" 

Quem tem uma cassete com este nome tem de ter o seu valor. Sou do tempo em que o pimba era pimba e não havia mal nenhum nisso, em que os reis do pimba não transbordavam para o resto das áreas musicais. Não tenho problema nenhum com o pimba se for feito para animar arraiais e festas de terrinha, também faz parte da nossa cultura e identidade, mas como tudo o que se começa a levar demasiado a sério e a ser pretensioso, perde a piada.

Sou ainda do tempo em que se assistiu ao fenómeno das Boys e Girls bands, estas últimas com menos sucesso porque os homens não passam pela fase de pita histérica. Dos Excesso, dos Millenium, dos D'Arrasar, dos 7º Céu, dos Maxi e de todos os sucedâneos que foram aparecendo. Mas a culpa é como na droga, é de quem consome. Talvez eu esteja a ficar como os velhos do restelo que diziam que Hip Hop era música de drogados, mas faz-me confusão ver miúdas à porta de concertos do Justin Bieber e dos One Direction aos berros e a desmaiar, sem ninguém as abater e lhes acabar com o sofrimento. Faz-me ainda mais confusão a maioria, possivelmente (de certeza vá) nem fazer ideia de quem foi Zeca Afonso, ou pior, pensar que foi um ministro das finanças, já que do que se passa no país também não devem saber muito.

Há poucos apoios para a música portuguesa bem sabemos, há poucos apoios para tudo, mas o que me faz mais confusão é não se dar tempo de antena a música de qualidade. Se calhar passa música portuguesa na TV como há muito não passava, mas infelizmente é 99% péssima, ou sem qualidade e ainda temos que levar com o Nuno Eiró a apresentar. Já agora, se por acaso quiserem cantar num desses programas deixo aqui os requisitos mínimos:
  • Gel no cabelo no caso dos homens
  • Vestir-se de prostituta no caso das mulheres
  • Ter bailarinas que são strippers nas horas vagas e ainda assim o pai tem mais vergonha de dizer que a filha dança na banda do Cajó Oliveira
  • Não saber fazer playback
  • Achar que os anos 80 foram o pináculo da moda
  • Pensar que ser produtor é fazer play naquele ficheiro midi que é usado para marcar o ritmo de 90% das músicas
  • Ter pouco amor próprio
Apesar disto tudo começam a aparecer cada vez mais bandas de grande qualidade. Começa-se também a perder a mania de cantar em inglês. E digo felizmente porque na grande maioria dos casos é porque não sabem escrever em português. Porque é mais difícil e em inglês conseguem disfarçar melhor a inabilidade para a escrita. Também há quem cante em inglês com qualidade, como é o caso do David Fonseca, do Paulo Furtado ou dos The Gift antes da Sónia Tavares começar a dar nos ácidos.

Os gostos não se discutem, é certo, o mercado é moldado pela procura mas também pelo que se dá a conhecer às pessoas. E há casos onde a qualidade deve ser quase que imposta. Há cantores que deviam ser estudados de tanto que ajudaram a moldar-nos enquanto povo e do quanto marcaram a história. Os outros, que agora são idolatrados, no futuro não vão passar de mais uma entrevista dos Perdidos e Achados da SIC.


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PS1 - Quem quiser ler o que já escrevi sobre as atrocidades que se cantam por este nosso belo Portugal pode ler estes:
PS2 - Se quiserem saber quais as minhas bandas/cantores portugueses favoritos é clicar aqui. Se não quiserem, amigos como dantes.





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