13 de agosto de 2014

Ser emigrante Português é ter SWAG




Vamos então falar sobre essa espécie migratória que é o Emigrante português. Uma espécie que no mês de Agosto retorna de países frios, para apanhar o sol deste nosso belo Portugal. Para apanhar sol e comer chouriça assada.

Um tio da minha mãe marcou-me com uma daquelas traduções típicas de emigrante que parecem tiradas do google translate: "Sabes quando estamos lá a trabalhar no ofas..." Ofas... Aquilo demorou até eu conseguir perceber que ele se referia ao escritório, office. Prova que me marcou, é que isso aconteceu há uns 15 anos e recentemente, quando aluguei um escritório com uns amigos, baptizei-o de Ofas. Ainda hoje todos dizemos "Então vais ao ofas?", "Ontem esqueci-me do carregador no ofas" e por aí em diante. Sonho com o dia em que depois de ganhar o Euromilhões, compro os direitos da série do Ricky Gervais e lhe passo a chamar The Ofas. Sou um gajo que sabe como empregar bem o dinheiro. Bem, mas voltando aos emigrantes.

"Jean Michelle Oliveira, vem já ici à mãe se non levas uma chapade tout de suite, que até arrotas a fromage"

Esta é das frases mais ouvidas nas nossas cidades quando chegam as manadas de Mercedes apinhadas de emigrantes, geleiras e bandeiras de Portugal encardidas. Os emigrantes são espécimes de trato fino e requintado. Os emigrantes são visionários, já tinham SWAG antes de ser moda. Os emigrantes pensam que uma t-shirt com mangas à cava, um boné com pala dobrada e uns óculos escuros espelhados, ainda estão a bater bué em Portugal. Eles sofrem do síndrome de Peter Pan, especialmente na forma como se vestem à menino gueto dos anos 80. Esse bom gosto reflecte-se também na forma de como alteram os carros, conseguindo tornar automóveis como Mercedes e BMW numa espécie de unhas de gel com berloques e quatro rodas. Ter um bom carro é sinal que a vida lá fora está a correr bem, mesmo que esse carro esteja ainda a ser pago e tenha sido comprado em 2ª mão. No caso das matrículas do Luxemburgo e da Suiça o Porsche já é uma constante, qualquer mulher a dias ganha mais que um Engenheiro por cá, mas nós dizemos que os burros são eles.

As emigrantes já nascidas no estrangeiro são um misto de Ana Malhoa com Ágata, também nos anos 80. Faltam-lhes alguns dentes e gostam mais de ouro que as ciganas. Os rapazes parecem saídos do laboratório que criou o Cristiano Ronaldo, parecem as versões iniciais que saíram todas deficientes e feias porque os geneticistas ainda não tinham acertado na medidas. O penteado à cortinado ou em crista são as únicas opções viáveis e o crucifixo branco mate que brilha no escuro é imprescindível, já que é sabido que Deus vê mal à média luz.

Poder-me-ia alongar muito mais a descrever os emigrantes e a forma como se comportam e como conduzem como quem está com vontade de fazer cocó, mas isso já foi feito tantas vezes, caricaturado tantas vezes que provavelmente eu não acrescentaria nada. Por isso digo apenas que os emigrantes são sobretudo portugueses. Portugueses que precisaram de ir embora e ainda assim, depois de serem expulsos por um país que não lhes deu oportunidades nem os tratou bem, continuam a tê-lo no coração. A fazer milhares de quilómetros para vir visitar os seus. 


Chegam com um sorriso no rosto desenhado pela saudade e partem com ele, mas com uma lágrima a antecipar o frio de Paris, Berlim e do vazio que fica dentro do peito

Vão de volta para as suas novas casas, os seus novos países, onde vão contar a toda a gente que conhecem por lá como foram as férias e como Portugal é o país mais bonito do mundo. Como a comida é divinal e como o fado é bonito, apesar de só ouvirem Tony Carreira. Nós gozamos com eles, porque a maioria é bimbo, tal como a maioria dos portugueses que temos cá são. Somos um países de bimbos e digo-o sem tom pejorativo. Mas eles tiveram os tomates no sítio, elas também metaforicamente, apesar de à primeira vista pelo bigode poder parecer que têm mesmo tomatada. Tiveram-nos no sítio para ir à procura de uma vida melhor e deixar tudo para trás, enquanto tantos outros passam o dia no café a dizer que a culpa é do Passos Coelho. E é. Mas é mais de quem votou nele.

Emigrar é uma boa solução, diz o nosso primeiro, e é, mas é quando não se vai com uma mão à frente e outra atrás, a sentir que se deixou cá mais que a roupa. Daqui a uns anos os emigrantes que nos vêm visitar vão ser diferentes dos de hoje em dia. Já não vamos gozar com eles porque vão saber falar bem, escrever, comportar-se e ter as maneiras de um doutor ou engenheiro, de uma enfermeira ou um advogado. No entanto são os mesmos, foram pelos mesmos motivos que todos vão, tiveram que partir porque Portugal continua a tratar mal os seus. Mas a culpa é nossa, que o tratamos pior que o Paco Bandeira tratava a mulher e o deixamos ao cuidado de uns filhos da puta, só porque pensamos que o fato e gravata é melhor que a camisa aberta e o fio de ouro.

Ser emigrante é ser português e ser português é ser um bocado bipolar no modo em como se começa um texto a gozar e se acaba em tom sério às 2 da manhã.





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