3 de julho de 2017

Andei à caça de uma velha que se perdeu



Eram onze da noite quando recebo um telefonema desesperado: «Meu puto, a minha avó fugiu de casa, se tiveres por perto e puderes ajudar a procurar que eu estou sem carro...» diz um amigo meu cuja avó colecciona Alzheimer e todos os outros cromos da caderneta das demências. Ao que parece, a senhora tinha saído de casa sozinha, aproveitando uma distracção da sua cuidadora, e ninguém sabia dela - é o que dá os velhos não terem uma coleira com GPS - e temia-se o pior já que a senhora não teria noção de onde estava ou para onde ia, podia ser atropelada e acontecer o pior porque não tinha seguro contra todos os riscos.

Era importante encontrá-la antes que se metesse num táxi para ir a uma danceteria roçar-se num velho sarado.

Como sou uma jóia de moço, despi o pijama, vesti a minha farda de detective e muni-me com os meus acessórios de caça à velha:
  • Um apito que em vez de simular o grasnar de um pato simula a voz da Cristina Ferreira para atrair velhos. Já sei que estão a pensar que entre a voz da Cristina e o grasnar de um pato não há grande diferença, mas acreditem que uma velha com o aparelho auditivo bem calibrado consegue detectar as pequenas nuances;
  • Dois frascos de Calcitrin para elaborar uma espécie de ratoeira para velhos;
  • Uma corda em laço que os cowboys usam para apanhar gado;
  • Uma revista da TV 7 Dias com a notícia de mais uma temporada da novela «A Única Mulher»;
  • Um papagaio de voar feito de cartões de Bingo com prémio.
Meti-me no carro e lá fui em busca da senhora. Sabia-se que tinha saído de casa há cerca de vinte minutos e desconfiava-se que não pudesse ir longe devido às dificuldades de locomoção e, também, por ter acabado de tomar um cocktail forte de medicamentos para dormir - a velha era das rijas. Comecei por dar algumas voltas aos quarteirões a menos de dez à hora, com os outros carros a darem-me sinais de luzes e a buzinar. Ironicamente, estava a conduzir à velha enquanto procurava por uma velha. Só me faltou esquecer-me de tirar o travão de mão e entrar em sentido contrário.

Nem sinal da velha nas ruas mais próximas. Tentei pensar como uma velha: vais em direcção às ruas mais movimentadas ou como estás na idade em que detestas barulho e confusão optas pelas zonas mais escuras e calmas? O que te leva a sair de casa com esta idade? Ir à missa ou ao Bingo? Senti-me um profiler do FBI a traçar o perfil de um serial killer. Já que de carro não estava a ter sucesso, estacionei e fui procurar nas arcadas dos prédios não fosse a senhora deitar-se no fresquinho do mármore a fazer uma sesta.

Senti-me a fazer algo que nunca tinha feito: jogar Pokémon Go.

Senti-me em busca de um daqueles mais raros que o GPS diz estar nas redondezas, mas que não o conseguimos vislumbrar. Subitamente, vejo, ao longe, o que poderia ser a avó do meu amigo, apressei-me a chegar até ela, mas afinal era outra senhora de idade. Em Alvalade iria haver muitos falsos alarmes. Era como tentar encontrar um beto num festival de Verão! Depois desta pequena desilusão, apenas comparada à de um jogador de Pokémon Go que pensava estar prestes a capturar um Dragonite e afinal era só um Rattata, pensei que estava na hora de tomar medidas drásticas: levar uma velha qualquer e esperar que ninguém desse pela diferença. Mais cabelo branco, menos cabelo branco, podia ser que só reparassem amanhã com a luz do dia e até lá eu ficava o herói da noite. Sim, porque aquilo tinha-se tornado num desafio e queria ser eu a encontrá-la! Dei por mim a pensar que ficaria um pouco triste se não fosse o primeiro. Podem pensar que sou uma má pessoa por transformar algo que podia ser grave num desafio para mim e para o meu ego, mas aposto que foi o meu cérebro, inundado de compaixão e humanidade, que decidiu incutir-me esse espírito de competitividade para que tivesse maior motivação para a encontrar. Ou então sou só um sociopata, seja como for, eu estava lá a ajudar e vocês não.

Meia hora tinha passado e nada. Havia agora um dilema: teria a velha, com a adrenalina da fuga, ficado cheia de energia e andado trinta minutos sem parar ao ritmo de um gnu ferido? Nesse caso, poderia estar a mais de um ou dois quilómetros do ground zero da fuga e teríamos de alargar o raio da procura. Voltei a meter-me no carro e lembrei-me que encontrá-la poderia não significar uma vitória, já que a senhora não iria reconhecer-me e estava completamente desorientada e, pelo que me tinham dito, tornava-se agressiva com estranhos. Sendo assim, se a encontrasse o que faria? Ensaiei vários cenários na minha cabeça:
  • Sorrateiramente, aproximava-me por trás da velha e executaria um mata-leão até ela adormecer e, em seguida, colocá-la-ia na bagageira do carro. Corria o risco de ser parado numa operação stop:
    - Tem alguma coisa que o comprometa?
    - Hum... não.
    - Pode abrir a bagageira para vermos o triângulo?
    - Tem mesmo de ser...? É que a minha avó está lá a dormir...
  • Fingir que era um primo afastado e chegar ao pé da velha e dizer:
    - Olá Gertrudes! Como estás?
    - Quem és?
    - Sou o Jorge, primo da tia Clotilde lá de cima. Estás boa?
    - Sim.
    - Queres entrar aqui no carro para irmos visitar o Zé?
    - Quem é o Zé?
    - O tio avô do Renato. Aquele que tem um olho preguiçoso.
    - Ah, sim sim, vamos a isso, já não estou com ele há muito tempo.
  • Parar o carro ao lado dela e dizer:
    - Psst, psst, quer Calcitrin? Tenho aqui bom Calcitrin. Dois contos uma palete. Entre aqui, pode experimentar e só paga se gostar.
Qualquer um dos cenários me parecia indicado sendo que o ponto fulcral era evitar peixeirada no meio da rua. Ninguém quer ser visto a tentar enfiar uma velha num carro enquanto ela grita por socorro e que a estão a violar. Uma coisa é pensarem que maltratamos velhos, outra é ficarmos com fama de quasi-necrófilos. 

Já andava às voltas há mais de uma hora e nem sinal da velha. Se, ao menos, a velha cheirasse a gato, como a maioria das velhas, podia ter levado a minha cadela que detecta um gato a dois quilómetros de distância. A situação começava a ficar preocupante já que a noite estava fria e se a senhora ficasse a dormir na rua podia, facilmente, ir ter com o criador mais cedo, se bem que na idade dela já nunca é cedo. Restava-nos não desistir e esperar que se alguém a visse percebesse que não estava bem e precisava de ajuda e todos sabemos que depositar as esperanças na boa vontade de terceiros é o mesmo que esperar ficar rico a jogar o euromilhões.

Quem visse a senhora na rua mais depressa fugiria a pensar que o Apocalipse zombie tinha, finalmente, começado.

Primeiro, porque saiu de casa sem a placa; segundo, porque a senhora arrastava a perna devido a uma trombose que teve. O pior de tudo era se a senhora entrava num restaurante de rodízio brasileiro e ficava ali presa num ciclo infinito a comer maminha até rebentar tal como os sapos quando se lhes mete um cigarro na boca. 

Dizem que a esperança é a última a morrer, mas sendo que a senhora não se chamava Esperança, o caso começava a ficar complicado até que o telefone do meu amigo tocou. Era do hospital onde ela tinha dado entrada! Um taxista, no fim da viagem, depois da senhora ter adormecido e não dizer coisa com coisa depois de acordar, percebeu que ela não estava na posse de todas as suas faculdades mentais. A senhora estava bem fisicamente e psicologicamente, na medida dos possíveis. Fiquei feliz, por um lado, mas, por outro, fiquei triste por não ter sido eu a encontrá-la.





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