10 de julho de 2017

Cortes de cabelo foleiros



Prefiro ir ao dentista do que ao cabeleireiro. Talvez seja um trauma de infância que ficou quando, no cabeleireiro no Centro Comercial Babilónia, na Amadora, uma cabeleireira me fez um corte na orelha que jorrou sangue. Por sorte, não fiquei com orelhas à Spock e ela ainda disse à minha mãe que a culpa foi minha por me ter mexido como se eu sofresse de ataques epilépticos. Erro crasso dizer isso à minha mãe que, tal como todas as mães, é a única pessoa no mundo que pode culpar os filhos por tudo e por nada. Ironicamente, esse centro comercial, nos dias de hoje, é um dos locais mais prováveis de levares uma facada. Outra razão que me faz sentir desconfortável no cabeleireiro é o facto de ter sempre achado estranho ser normal ter um estranho a lavar-me a cabeça e a massajar-me o escalpe.


No meu tempo havia duas opções de corte de cabelo para homem: curto ou comprido.

Era isto. Podia cortar-se o cabelo à máquina - com um pente todo por igual - usar o tamanho normal ou deixar crescer caso pertencesses a uma banda de metal ou quisesses vestir-te sempre de preto para que toda a gente soubesse que tinhas tido uma infância difícil. Há mais de 15 anos que digo sempre o mesmo quando vou cortar o cabelo: «Pente 4 atrás e dos lados e em cima à tesoura sem ser muito curto para não espetar. Ah, e não quero que se note a diferença de lado do pente para a tesoura!». É isto. Há 15 anos. Por vezes, rapo em casa à máquina zero, mas ter a cabeça rapada e viver na Buraca é arriscar dar origem a mal-entendidos e, por muito que eu goste de desafios, prefiro não jogar a vida em modo Survival Hard Shit Modafoca. Hoje, há mais tipos de corte de cabelo para homem do que para mulher. A sociedade é orgânica e tende a evoluir para melhor, mas enquanto as mulheres foram conseguindo o direito ao voto e a fazer o que querem com o próprio corpo, os homens foram, subtilmente, ficando com alguns dos privilégios das mulheres como o de cortarem e pentearem o cabelo como bem lhes apetecer sem serem julgados pela sociedade. Mentira. Eu julgo-os. Vejamos os principais penteados da moda.

Carrapito
O carrapito veio para ficar. Se antigamente se usava uma crista punk como forma de rebeldia e dar nas vistas, agora, tal como a sociedade, essa crista ficou murcha e flácida e precisa de um elástico para aguentar a erecção. É uma tentativa de se destacarem no galinheiro ao mostrarem que são os alfas devido à sua crista de peru gourmet. Mães, namoradas e amigos destes homens que acham que são os samurais da Margem Sul e da Linha de Sintra, peço-vos uma coisa: digam-lhes que ficam ridículos com aquela merda no cimo da cabeça! Bem sei que o herói da vossa juventude devia ser o cebolinha, mas assim ficam é com ar de Cascão que era o que não tomava banho. Sempre que um homem pergunta à namorada se tem um elástico do cabelo que lhe empreste, abre-se um buraco negro que suga uma foca bebé para um universo paralelo onde é morta à paulada com outra foca congelada.


Reality Shows
A grande maioria dos concorrentes de reality shows, seja da Casa dos Segredos ou do Love on Top, exibe um penteado semelhante: curto dos lados, num degradê mal disfarçado, e em cima uma juba volumosa toda penteada, muitas vezes para cima. Tal como as doenças venéreas que esses concorrentes coleccionam, também estes cortes de cabelo se espalharam mais rápido do que um surto de piolhos púbicos na casa da mãe mais conhecida do vale de Santarém. Por causa destes meninos, cada vez que vou cortar o cabelo, tenho de frisar bem a parte do «Máquina dos lados em em cima à tesoura MAS SEM SE NOTAR A DIFERENÇA!».


Gajo que vende louro prensado
É uma variante do anterior, com a diferença que de lado é completamente rapado e em cima é puxado para trás com o auxílio de vários litros de gel e banha de porco. Parece que tem uma espécie da alga pousada na cabeça, mas em vez de se comer com pauzinhos devia comer-se com tacos de basebol. No caso dos traficantes de louro prensado percebo que queiram ser identificados à distância para chamar os clientes, mas para quem tem um trabalho digno, este penteado devia ser proibido. E acaba por ser porque quem tem este cabelo é desempregado e diz não saber porquê.


Juventude Hitleriana
Curtinho dos lados e comprido em cima, mas todo penteado para um dos lados com o risco bem pronunciado. «Os nazis podem ter feito muita coisa má, mas tinham estilo. Aquelas fardas impecáveis e os cabelos sempre aprumadinhos, quem nunca sentiu vontade de lhes copiar o estilo?» Eu não. Só as mulheres é que podem utilizar o bigodinho à Hitler, se é que me faço entender.


Tuning
Puto, não és o Drake. Ter o cabelo com os padrões do naperon que a tua avô tricotava é de quem está desesperado por atenção. Bem sei que queres ter a cabeça a condizer com as unhas de gel da tua namorada que, por sua vez, condizem com os decalques que fizeste nas laterais do teu Fiat Uno, mas a coerência nem sempre é uma coisa boa. Esta gente devia fazer um padrão na nuca com um ferro em brasa para ser permanente e ficar mais barato a longo prazo.


Poupas
Parecendo que não, ainda há quem use este penteado. No meu tempo de escola era o penteado da moda na Buraca e na Damaia. Percebo: os brancos viam que o estilo estava todo do lado dos pretos, com os seus cabelos ornamentados e com o símbolo da Nike não patrocinado, e decidiram tentar, também, ter estilo. Então, o que pensaram foi «Se a gente pentear o cabelo com gel todo para a frente e depois levantar só a parte da frente, para além de ficarmos com estilo ainda servimos de pára-raios!». Esqueceram-se que os brancos não têm a mesma confiança para ter estilo com coisas excêntricas e não funcionou, mas há uns que pensam que sim. Parece que têm uma rampa de lançamento de piolhos na cabeça. 


Crista
Um estilo de cabelo que usei na minha juventude, devo confessar. Não aquela crista punk, mas a que era feita penteando o cabelo para o meio e para cima. Todos temos a nossa fase má. Para mim foi essa em que para fazer parelha com o meu cabelo do cenário ainda usava daquelas chapas militares ao pescoço. Graças a Deus que nunca usei a fita com as chaves do carro à mostra, mas também quem é que se ia gabar de ter um Renault 19 com 250 mil km? Felizmente, ainda só havia Hi5 e essas fotos já estão nas catacumbas perdidas da Internet. A crista é um estilo de cabelo que já só se vê em jogadores de futebol da distrital.


Cortinado
Um corte de cabelo em vias de extinção que tinha como embaixador o Tino de Rans. Já nem ele usa e apenas alguns bêbedos da aldeia mantêm viva a tradição de ter farripas no cabelo. O cabelo cortinado tem de ser obrigatoriamente acompanhado por bochechas rosadas e espuma nos cantos da boca.

Mais haverá, mas eu não sou blogger de moda e estes já servem para ver que sou um gajo preconceituoso relativamente a cortes de cabelo. Talvez seja inveja por estar a ficar careca, é possível. Ainda assim, qualquer um destes é melhor do que o conhecido cabelo à beto, estilo Playmobil, com a franja a tapar um olho. Esses era fazer-lhes um ninho de pintassilgos no cabelo e depois mandar-lhes duas gatas com o cio para cima.

***

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