11 de setembro de 2017

Este país não é para portugueses



Portugal está nas bocas do mundo e apesar de isso ser bom, o risco de apanhar herpes ou mononucleose é elevado. Lisboa e Porto são cidades que lideram vários rankings de melhores destinos para visitar e o Algarve acabou de ser eleito como o melhor local do mundo para viver os anos de reforma. Sendo que a reforma média em Portugal é de pouco mais de 4000€ anuais, suponho que estivessem a falar de reformados ingleses ou alemães. Reformados esses que podem ser engatados pelas nossas viúvas e viúvos, ajudando assim a compensar o dinheiro que lhes foi roubado na reforma. Mesmo que isso não aconteça, é preciso ver o lado positivo de viver no melhor país para reformados com uma reforma miserável: toda a gente sabe que muitas doenças são psicológicas e psicossomáticas e quem tem de reforma menos de 400€ por mês não se pode dar ao luxo de as contrair, pois não teria dinheiro para os medicamentos.

É caso para dizer que este país não é para velhos... portugueses.

Portugal foi, também, eleito o melhor destino europeu de 2017 e os turistas chegam aos magotes, durante todo o ano, às principais cidades portuguesas. Se isto traz consigo a vantagem de vermos zonas outrora devolutas a serem reabilitadas, de haver mais dinheiro a entrar e de haver mais loiras pouco habituadas ao sol de portugal - facto que se reflecte nas roupas que usam - aos poucos, vamos percebendo que este Portugal não é para portugueses.

Os preços nos centros das principais cidades sobem a um ritmo impossível de acompanhar para a maioria dos portugueses. Basta pensar que com o salário mínimo português - 557€ - quem quiser morar no centro da capital, não consegue mais do que um T0, num quarto andar sem elevador e com a casa de banho ao lado, ou mesmo dentro, do frigorífico. O preço dos restaurantes também sobe em flecha à boleia do dinheiro de turistas e da moda do gourmet. Começa a ser complicado comer um bom bitoque por 6€ no centro das cidades. As tascas estão a morrer e a ser substituídas por comida pretensiosa que chegará o dia em que no menu só veremos escrito "Double Touch", por 15€, e em que só teremos bolo do caco para molhar no ovo e salada de rúcula em vez de batata frita a escorrer óleo. Temo pelo dia em que nas casas de fado se cantará os grandes clássicos «Oh people from my land», «People who wash on the river» e «In the house of the little gay». Não tarda, todo o Portugal será um grande Algarve de Agosto, em que se tem de saber falar inglês para pedir uma cerveja num bar. Viaje para fora cá dentro nunca fez tanto sentido. Não me estou a queixar, tenho pouco de nacionalismo dentro de mim, acho que o ar é de todos e é da maneira que se treina o inglês e se melhora o CV. Os portugueses já são conhecidos lá fora por serem bons de língua e a falar outros idiomas, também.

Portugal foi ainda escolhido como o quinto melhor país do mundo para viver e trabalhar, segundo um inquérito feito a expatriados, claro. Os portugueses teriam uma opinião diferente, talvez porque se queixam mais e valorizam menos o que têm. Sendo que à nossa frente ficaram países como o México e a Costa Rica, não sei como devemos encarar este troféu. Digo, há muito, que Portugal é o melhor país do mundo para se viver, mas dos piores para trabalhar, especialmente se compararmos com a Somália, onde cerca de 40% das crianças entre os 5 e os 14 anos já estão empregadas. Aos 18 anos terão um currículo melhor do que a maioria da minha geração, a tão falada Millennial. O nome Millennial vem do facto de ser a geração onde Mil euros é a expectativa máxima de salário para quem tem mestrado, boas notas e tirou um curso com boa empregabilidade, já que os outros, mesmo licenciados, podem dar-se por contentes com 500€ a recibos verdes. O meu pai sempre me disse que a melhor forma de saber gerir a minha mesada era se fosse pequena. Isto para não falar de que 25% dos jovens está no desemprego o que tem um impacto directo na forma como começamos a ver o núcleo familiar.

Sabem qual é a idade com que os filhos saem de casa dos pais? Três anos seria a resposta dos pais da Maddie, mas a média em Portugal é de 29 anos.

Ao contrário do que possa parecer, isto tem imensas vantagens como o facto de aproximar os netos dos avós já que vivem todos na mesma casa e, com os cortes nas reformas, há toda uma entreajuda entre pais e filhos para conseguirem pagar um T2 para seis pessoas nos arredores de Lisboa, ou seja, em Leiria. Sabem porque é que eu também acho que as rendas estão obscenas? Porque não tenho nenhuma casa para alugar em Lisboa. Se tivesse, acharia que estavam muito boas e que ainda havia margem para subir o preço e que só paga quem quer e pode. Esta exorbitância das rendas irá afastar muita gente das grandes cidades e trazer várias vantagens: diminuir o trânsito para os tuk-tuks poderem andar à vontade; reabilitar o interior e as aldeias, onde poderão ter a vossa horta biológica. Estou a brincar, essa aldeia que tinham em mente foi comprada e transformada num enorme turismo eco-agro-rural onde turistas ricos vêm brincar às quintas.

Sabes que o país está cada vez menos feito para os portugueses quando tens um salário médio mensal de 913€ - salário médio mais perto do salário mínimo de todos os países da União Europeia - e tens milionários e celebridades estrangeiras a escolher o nosso país para viver. Apesar de ser mais glamouroso ter a Madonna, Monica Bellucci ou o Éric Cantona a morar em Portugal, o que eu gostava era de ter gente pobre da Nicarágua a escolher Lisboa como a cidade onde iriam mudar de vida, pois era sinal de que o preço das coisas estava barato e que as oportunidades de trabalho eram boas. Estrangeiros famosos em Portugal é como ver vinagre balsâmico na borda de um prato de cozido à portuguesa: sabes que vais pagar mais, mas que o sabor é o mesmo. Isto de gente famosa vir cá para ficar é mau sinal. No Burundi, as pessoas gostam da Angelina Jolie porque ela vai lá passear, dá umas canetas e uns cadernos à malta e volta com umas crianças na mala que só iam dar despesa. Se ela fosse para lá permanentemente morar ninguém ia achar piada quando o café da esquina ao pé de casa dela começasse a cobrar o triplo por um café.

Durante anos ouvi toda a gente dizer - inclusivamente eu - naquelas conversas de café onde se arranjam soluções para todos os problemas do país, que Portugal deveria apostar mais no turismo. Todos eram da opinião que Portugal tem tanto ou mais para dar do que Espanha e do que França e que o turismo seria a chave que resolveria todos os problemas económicos do país. Ora bem, as nossas preces foram ouvidas e há cerca de dois anos que não oiço ninguém dizer que Portugal precisa é de mais turismo. Portugal seguiu os conselhos de todos nós e neste momento toda a gente se queixa que há turistas a mais em Lisboa. Os portugueses nunca estão satisfeitos, faz parte do nosso ADN dizer mal e responder «Cá se vai andando» em vez de «Epá, olha que até estou impecável!». Não é que estejamos impecáveis, mas pensar positivo é a única esperança dos pobres e precisamos de aceitar que este país já não é para portugueses. É para o mundo.





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