11 de dezembro de 2017

No "ajudar" é que está o ganho



A pergunta «O que queres ser quando fores grande?», feita aos petizes, poderá começar a ter respostas inusitadas como «Quero ser presidente de uma Instituição de Solidariedade Social!». Tão querido, diremos, pensando que é com o intuito de ajudar os outros, mas não: é porque parece ser uma carreira estável e bem remunerada. Por exemplo, a minha namorada diz que gostava de trabalhar a ajudar os outros, mas que não o faz porque pagam mal. Pelos vistos estava errada. Refiro-me, claro, à reportagem da TVI sobre a gestão da "Raríssimas", uma Instituição de Solidariedade Social que visa ajudar pessoas com deficiências raras, onde, ao que parece, há utilização de dinheiros públicos e de donativos para fins pouco nobres.

Parece-me, desde já, que a reportagem é caluniosa e uma tentativa de denegrir a boa imagem da sua presidente, Paula Brito e Costa. Dizem que a senhora comprou 230€ em gambas com o dinheiro da empresa. Se agisse de má fé tinha comprado lagosta, obviamente. Assim se vê que a Paula é poupadinha. Acho inadmissível acusarem a senhora de esbanjadora e de má gestão de dinheiros públicos quando, em alguns dos vídeos, se vê a senhora a usar um leque nas reuniões. Ora, isso só poderá ser devido ao facto de ser tão mão de vaca que nem o ar condicionado liga, para que sobre dinheiro para ajudar os necessitados e/ou comprar roupa de marca. Qual é o mal?

Quem nunca disse que foi pela autoestrada e, afinal, foi pela nacional e meteu ao bolso o dinheiro da portagem? Quem nunca usou o carro da empresa para ir às meninas a Vigo?

Acusam-na de uma vida de luxo por comprar um vestido de 228€, coisa que não me parece um escândalo. Ainda no outro dia dei 200€ por um casaco, mas senti-me tão mal que a seguir fui comprar outro por 30€ na Primark que já usei várias vezes, ao contrário do primeiro que ainda está por estrear. A diferença é que o fiz com o dinheiro que me sobrou depois de pagar IRS e Segurança Social e não com donativos e subsídios públicos. Para mim, esta reportagem só prova três coisas:
  1. Que a presidente é palerma. Fazer os empregados levantarem-se de cada vez que ela passa? Andamos a brincar às princesas, está visto. Superior hierárquico meu que exigisse isso, era uma chapada à padrasto na hora. Andou um gajo com medo do serviço militar obrigatório para vir esta badameca exigir honras de nobreza e tratar os outros como súbditos de tempos feudais?
  2. Que quando ela diz que ajuda pessoas, não está a mentir! Ajuda, efectivamente, pessoas da sua família. Primeiro, o facto do marido estar lá empregado e ganhar bem para o cargo que ocupa e mesmo assim ela enviar emails a dizer que receber quase três mil euros, como responsável do armazém, é e passo a citar, "vergonhoso". Igual quando se refere ao seu filho - também empregado na instituição - como o «herdeiro da parada», demonstrando que pensa que ajudar os outros é hereditário e que a sua Instituição deve ser regida como uma monarquia o que leva a crer que está mais preocupada em manter a dinastia do que em assegurar o melhor para as pessoas que dependem da sua ajuda.
  3. Fica, também, provado que somos mesmo todos iguais e que as mulheres em cargos de poder conseguem ser tão corruptas quanto os homens.
Não acho que quem dedica a vida a ajudar os outros deva viver remediado. Acho, até, que o contrário é uma forma de atrair mais pessoas para cargos onde podem contribuir activamente para a sociedade. No entanto, há uma linha, difícil de traçar, que delimita a boa vontade da imoralidade. Tal como os ministros e deputados, será que ela precisa mesmo de um BMW que custa à empresa 900€ mensais e que está listado como carro pessoal apesar de ser usado e pago como se fosse da associação? Desculpam-se, dizendo que a presidente tem de ter boa imagem e apresentar-se em condições quando recebe gente importante, mas isso parece-me parvo tendo em conta o cargo que ocupa: um mendigo de fato e gravata, todo aprumadinho, não recebe esmola. Mesmo que eu tivesse um Ferrari, quando vou a reuniões com potenciais clientes, continuaria a levar o meu Clio de 2002 para verem que o dinheiro que peço é justo e não serve para pagar o meu estilo de vida caro. O Marcelo dá abraços e tira fotos indiscriminadamente, não é preciso a senhora estar arranjadinha para conseguir uma Marselfie.

Devo dizer que o que mais me chocou foi o número de pessoas que a Raríssimas ajuda. 800 mil? Mau. Sinto-me enganado! Raríssimas? 800 mil pessoas não é assim tão raro. Estou a ver que basta ser estrábico para conseguir uma ajudinha desta instituição. Não sei se isto é prova da boa vontade da senhora presidente ou se é mais um facto que suporta a tese da má gestão. Quem quer ajudar toda a gente não ajuda ninguém; tem de haver uma melhor triagem. Ter a condição rara de ter uma frondosa monocelha  não deveria dar direito a vales para ir à esteticista.

Se dou dinheiro a uma instituição destas conto estar a ajudar aquela criançada toda bilú mesmo a sério que não anda nem fala e que se baba toda!

Não vou estar a dar dinheiro para ajudar o senhor Belarmino que tem síndrome do lobisomem a depilar os nós dos dedos dos pés. Investigue-se que estou em crer que anda lá muita gente a mamar para além da presidente. Acho que estes casos recentes de fraudes e imoralidades em algumas instituições de solidariedade têm repercussões ainda mais graves que são as ondas de desconfiança que se replicam contra todas as outras que são bem geridas e que ajudam muita gente. Não sei quais são, mas ainda vou acreditando que as há. (Já que falamos disso, dia 16 de Janeiro, acontecerá um mega-evento de stand-up comedy «RIR Ajuda» em que a totalidade das receitas revertem a favor da Fundação do GIL. Mesmo que o dinheiro seja usado para comprar um carro de luxo, ao menos passaram uma boa noite de comédia no Altice Arena, comigo e mais 16 humoristas.)

Por fim, estamos perante um daqueles casos complicados de quem alegadamente anda a roubar, mas que ajuda outros. Tal como dizia o Dave Chappelle sobre o Bill Cosby «Ele violou, mas salvou muitas vidas, mais do que as que violou, mas provavelmente violou.». Coloca-nos numa posição complicada, a ponderar se há um cinzento entre o bem e o mal: «Será que mais valia deixar a senhora impune já que ajuda muitas pessoas? Será que essas pessoas ficam contentes se a senhora for punida, mas perderem a ajuda que têm recebido?». É dúbio. Só sei que quem voltou a eleger o Isaltino Morais não tem legitimidade para criticar a Paula Brito e Costa.


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Falta pouco para esgotar a nova data do meu espectáculo de stand up comedy em Lisboa, dia 5 de Janeiro. Agarrem os últimos bilhetes neste link.



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