14 de dezembro de 2017

Sou do tempo do MSN Messenger



Algures entre o mIRC e o Facebook, existiu o MSN Messenger. Os mais novos nem saberão o que isso é, mas para muito boa gente foi o primeiro grande sistema de conversação a ser usado por todos os nossos amigos. Ao contrário do mIRC, que vivia do contacto com estranhos e javardeira no canal, o MSN era para conversas a dois, embora muitas ao mesmo tempo, e só tendo o email da outra pessoa. Vamos a um momento de nostalgia e recordar o que todos fazíamos no MSN.

Meter indirecta no estado
No tempo do MSN não havia feed de notícias, mas já existia a necessidade de enviar indirectas a alguém. Utilizava-se o "estado" para tal efeito que aparecia à frente do nosso nome, ou nick. Muito antes da praga das indirectas no feed do Facebook, em forma de frases feitas ou citações manhosas, já havia quem usasse essa funcionalidade do MSN para enviar aquela boca pouco subtil. Quando alguém colocava "Me, myself and I" ou "As pessoas só me desiludem por isso é que cada vez mais gosto de animais" já sabíamos que alguém tinha ficado solteiro. Gostava de ter acesso ao histórico dos meus estados no MSN, só para sentir aquela vergonha e ir chorar para o banho em posição fetal.

Dar um toque
Enviavas uma mensagem para alguém e não obtinhas resposta? Não havia cá a mariquice de saber se a mensagem tinha ficado vista - como hoje existe no Facebook ou no WhatsApp - então o que fazias? Mandavas um toque que abanava e tocava uma campainha do outro lado do ecrã. Sabem aquelas pessoas que ao vivo te espetam o dedo na parte superior do braço e dizem «Olha, olha, estás a ouvir? Estás a ouvir?»? Era isso, mas versão digital. Usada por gente chata e insegura, a mesma que liga trinta vezes para o telemóvel quando não atendes à primeira.

Fechar a janela 
A certa altura, com alguns add-ons, dava para saber quando a outra pessoa fechava a janela de conversação. O MSN era uma porteira cusca que destruiu muita relações. Sabendo que a outra pessoa tinha essa funcionalidade activada, o que se fazia? Fechava-se a janela de propósito para a outra pessoa saber que não estávamos assim tão interessados, pois está claro. Era a nossa forma de nos fazermos de difíceis no mundo digital e ter a certeza que a outra pessoa percebia isso. O pior era quando a outra pessoa fechava a janela primeiro e perdíamos a oportunidade de lhe esfregarmos na cara.

Meter offline
«Adeus, vou dormir.», dizíamos àquela pessoa chata e a seguir colocávamos o estado como offline, mas continuávamos a falar com quem nos interessava. Quantas vezes fui dormir as 21h porque estava cansado, mas na verdade fiquei até às 4h da manhã a tentar ensinar a AninhasBlondie a ligar a webcam? Ah, bons tempos.

Logout e login várias vezes seguidas
Comportamento típico de todos os utilizadores do MSN. Para quê? Para termos a certeza que a nossa crush via a notificação de que tínhamos acabado de entrar, a ver se vinha falar connosco ou para a ex-namorada perceber que estávamos por lá, mas que não lhe falávamos. Imaginem isto na vida real: entram num café e vêem lá uma pessoa de interesse; passam pela mesa dela, saem do café e voltam a entrar e passar pela mesa dela, sem nunca olharem nem dirigirem a palavra. Desde os primórdios da Internet que as pessoas se comportam no mundo digital como nunca se comportariam na vida real, sob risco de serem internadas num manicómio.

O que ias dizer?
No mIRC e no ICQ não havia a funcionalidade de "Loukita69 está a escrever" que aparece agora em qualquer chat, em tempo real, enquanto a outra pessoa está a teclar. O MSN foi o primeiro a implementar isto que, mais uma vez e como tudo de bom que é inventado pelo ser humano, foi usado para fins pérfidos: carregar em teclas aleatórias e apagar só para dar nó na cabeça da outra pessoa e ela ficar a pensar no que iríamos escrever. Não íamos dizer nada, foi só para deixar a marinar na cabeça dela que tínhamos algo para dizer que não tivemos coragem, testando assim as águas a ver se nos estávamos a mandar para fora de pé ou não.

Será que estou bloqueado?
Já há muitas noites seguidas que não vislumbrávamos a LobitaKida e começávamos a pensar se estaríamos bloqueados. Ficar na dúvida para sempre? Não. Perguntar, subtilmente, a um amigo em comum se tal fulana estava online. Se a resposta fosse afirmativa, sabíamos que tínhamos sido bloqueados. Os stalkers de hoje eram os que iam a correr criar outra conta com outro email e adicionar a LobitaKida para pedir explicações, mostrando assim que ela fez bem bem bloqueá-los.

Editar tudo
O Facebook aprendeu com os erros dos outros. Dar possibilidade às pessoas de personalizarem os seus perfis é um erro que o MSN e o Hi5 cometeram. Parece giro, ao início, poder alterar o fundo das janelas de conversação, o tipo e cor da letra do chat, mas chegava-se a um ponto de não retorno que fazia o MSN parecer as unhas de gel de uma Jéssica da Brandoa. Tipos de letra desenhados e em tons de azul ou rosa, consoante o sexo, estados com mil emoticons - os antecessores dos emojis - e fundos com paisagens de mundos de fantasia. Mostra-me as tuas personalizações do MSN e dir-te-ei quem és, podia ser o ditado da altura. És foleiro como a merda, seria a resposta para todos nós.

Enviar uma música
A estratégia de engate mais antiga do MSN. A partir do momento que duas pessoas começavam a trocar músicas, era porque estava tudo encaminhado para haver festa rija. A diferença para hoje, é que enviar uma música demorava vinte vezes mais tempo do que o acto sexual em si, mesmo que fosse tântrico. Eram horas naquilo até, por volta dos 98%, crashar quando a nossa mãe pegava no telefone para ligar à nossa tia e mandava a Internet a baixo.


Aos poucos, fomos fazendo login e vendo que havia cada vez menos amigos online e que o MSN se estava a tornar numa espécie de cidade fantasma, com nicks e estados datados. Fomos resistindo até que tivemos de nos mudar para o Facebook e perceber «Ahhh, então é aqui que vocês andam!».



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