8 de agosto de 2018

Acha que sabe incendiar? Novo reality show!



No ano passado, as televisões descobriram uma nova galinha dos ovos de ouro: os incêndiosNuma altura em que as audiências das televisões baixam devido ao crescendo da Internet - pior ainda na altura da silly season - os canais encontraram uma espécie de elixir da juventude que lhes rejuvenesce o rating. 

Há muitos que os noticiários se tornaram programas de entretenimento, mas por estes dias são uma espécie de espremedor da desgraça alheia e é muito discutível se o fazem em prol da informação ou de outra coisa. Sim, mostrar imagens chocantes pode servir para alertar e consciencializar as pessoas, mas, talvez seja um céptico que não acredita na humanidade, parece-me que não é aí que está o ganho.

Este paradigma acontece porque os directores de informação ouvem a expressão "Incendiar as redes sociais" e decidem usar o fogo para combater o fogo na luta pelas audiências e relevância.

Tomando como exemplo o incêndio de Monchique, eis como condensar toda a informação relevante e ocupar cerca de dois minutos de telejornal:

O incêndio em Monchique continua activo, temos mais de 21 mil hectares ardidos, 230 pessoas deslocadas das suas casas e 32 feridos, um com gravidade. Estão cerca de 1400 operacionais no terreno, com 446 viaturas e 9 meios aéreos. Pode ajudar os bombeiros através destas entidades e não mande beatas da janela do carro. É isto. Agora vamos ao desporto.

Em vez disto, são 24h de cobertura dos incêndios, com drones,  a melgar a população que tem mais do que fazer do que responder a perguntas "Então, este fogo é chato, não é?", ainda por cima quando a melhor resposta de sempre sobre a perigosidade dos incêndios já foi dada há uns anos por aquele senhor que tinha de abalar para uma consulta às 17h. Está feito, foi atingido o pináculo das respostas, não é preciso perder mais tempo pois nunca haverá melhor. São colocados enviados especiais no terreno com cadáveres em pano de fundo como já vimos o ano passado. Ouvimos comentadores - daqueles que são especialistas em tudo - a explanar as causas dos incêndios, as melhores formas de prevenção e, sobretudo, sobre quem tem mais culpa, já que cada canal tem o seu comentador de serviço que transforma a desgraça alheia em arma de arremesso na sua agenda política e que tem tanta credibilidade para falar de incêndios como eu para falar de renda de bilros.

Marcelo aparece a dar abraços; Costa aparece em fotografias encenadas; a população reza e deixa as suas orações. Lamento, mas em termos de extinguir incêndios, tudo isto tem menos efeito do que cuspir-lhes.

Os canais de televisão devem estar todos à espera das primeiras vítimas mortais para o clímax da audiência, já com as músicas tristes escolhidas para a montagem com imagens da devastação. Devem ligar, de cinco em cinco minutos, para os hospitais onde estão as vítimas a perguntar "Já morre... já tiveram alta?". Tendo tudo isto em conta, parece-me que as televisões ainda podiam aproveitar melhor este fenómeno, utilizando a temática dos incêndios em diferentes formatos que ainda não foram explorados. Deixo alguns exemplos:

Achas que sabes incendiar? - Um talent show dedicado a pirómanos para eleger o melhor entre os portugueses. Podia ser ao género do The Voice em que os jurados estão de cadeiras voltadas, mas em vez de escolherem o candidato através da audição, seria através do cheiro a queimado.

Na casa de um pirómano - Poderia ser feito com o vencedor do "Achas que sabes queimar?" e daria a conhecer o dia-a-dia de alguém que pega foto a matas como hobbie ou profissão, já em que em muitos dos casos é um negócio lucrativo. Como é a rotina? Qual a melhor hora para deitar fogo? Gasolina ou aguardente? Como é que um pirómano lida com o facto de os amigos nos ficarem sempre com os isqueiros que pedem emprestados?

Casa dos Incêndios ou Love on Fire - Os participantes tinham de pegar fogo à mata à volta da casa mais vigiada do país e o que conseguisse queimar mais hectares ganhava. Depois, iam fazer presenças para a ala de queimados do hospital.

Portugal got Lighter - Este concurso não se destinaria a pirómanos profissionais, mas sim a encontrar diamantes em bruto. Os concorrentes seriam desafiados a atear fotos das maneiras mais criativas, seja batendo duas pedras ou cuspindo fogo pelo rabo depois de um workshop no Chapitô. Quem tem churrasqueiras parte em vantagem, mas seria aberto a todos.

Todos estes programas teriam um número de valor acrescentado, ao género dos 760, em que as pessoas ligavam e apostavam em qual o Concelho que mais irá arder durante o verão. O número da sorte serviria para arriscar o número de mortos.

Se é para explorar os incêndios em benefício das audiências, então que se assuma e se inove. Já ninguém pode com notícias em loop que não acrescentam nada e com comentadores de algibeira. RTP, SIC e TVI, pensem nas minhas sugestões. À CM TV nem é preciso apelar que de certeza que já estão a ponderar algo do género. 



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