8 de janeiro de 2016

O dia em que a minha namorada conduziu pela 1ª vez



A minha namorada, apesar de já estar nos trinta como eu, só agora tirou a carta de condução. Sempre achou que não iria ter grande jeito para conduzir e, por medo, foi adiando. Sempre a incentivei e disse que era uma parvoíce ter medo e que de certeza iria ser uma exímia condutora. Falar é fácil, o que é certo é que há uns meses, depois dela ter tirado a carta, tive de provar o meu amor por ela e sentar-me no lugar do pendura no seu primeiro dia de encartada. Foi uma experiência inesquecível que me fez sentir vivo! Senti medo, minha gente. Muito medo. Foi uma experiência de quase-morte, qual diagnóstico errado de tumor cerebral. Saímos de minha casa para irmos para a dela e como um gajo não pode dar parte fraca, obviamente, perguntei-lhe, todo confiançudo: «Então, levas o carro?». Pergunta parva da minha parte, bem sei, à qual ela responde que sim. Engoli em seco e o que se segue não é aconselhável para os mais sensíveis e para pessoas com problemas cardíacos.

Entramos no carro, ela vê o espelho, ajusta o banco, mete o cinto e faz aquelas coisas todas que nos ensinam nas aulas mas que rápido deixamos de fazer. O carro estava estacionado em paralelo, com imenso espaço atrás para sair. Ela, mal começa a fazer marcha-atrás, começa a virar o volante e, caso eu não a impedisse, teríamos raspado o carro da esquerda de uma ponta à outra. Ela diz que não. Continua, ainda hoje, a dizer que não ia bater, mas lá no fundo sabe que eu tenho razão. Nisto, depois de o chegar atrás um pouco, prepara-se para meter primeira e continuar a manobra para a frente.

- Então?! - pergunto em tom incrédulo.
- Então o quê? - pergunta ela já na defensiva. 
- Vais bater... não tem espaço... tens de chegar mais para trás. - explico, calmamente. 
- Ah, então não passa bem? Eu acho que passa! - diz ela, confiante. 
- Pois, quando se acaba de tirar a carta convém não fazer manobras a achar que vai passar. É bom ter a certeza. Vá, recua mais um bocado com o volante direito.

Ela lá chegou o carro mais para trás e conseguiu, assim, fazer a manobra. Vocês não estão a perceber, não era uma daquelas que de vez em quando fazemos a pensar «se calhar dá» que até contraímos o ânus e cerramos os dentes. Da forma que ela ia fazer não ia dar com a quina no outro, ia dar-lhe mesmo no meio do parachoques. Nem uma mota etíope passava! Lá continuamos, em direcção à 2ª Circular, fez duas rotundas bem, com piscas e tudo, sempre com as mãos no sítio certo do volante e a olhar para a frente, qual Paulo Futre, toda ela concentrada mais do que uma garrafa de Sunquick. Estava ali tão focada que nem que passássemos por uma loja com um cartaz a dizer "SALDOS 100%" ela se ia distrair. Entramos na 2ª Circular e o que se segue foi a viagem mais longa de sempre que alguém já fez por aqueles poucos quilómetros de alcatrão. Se fosse a minha namorada a fazer os algoritmos do Google Maps, o percurso Buraca-Alvalade diria «10km, 55 minutos, sem trânsito.». Quase que aposto que na ciclovia ao lado iam septuagenários a ultrapassar-nos em corrida, mesmo os que têm tuberculose e vão a cuspir sangue. Entre os dez quilómetros hora, e, na loucura, os vinte, lá fomos a passo de paraplégico sem cadeira  de rodas.

Quando dizem que a velocidade mata, nunca pensei que fosse de velhice com o tempo que se demora a chegar ao destino. 

Eu digo-lhe para acelerar, pelo menos até aos cinquenta, já que ir àquela velocidade louca ainda é mais perigoso porque alguém nos bate por trás. Ela lá se convence e acelera um bocado e, nisto, vejo um carro parado em quatro piscas na faixa da direita e digo-lhe:

- Antes de te desviares daquele carro, tens de olhar a ver se não vem nenhum.
- Eu sei! - responde ela com uma confiança de quem já conduz à Schumacher antes do acidente.

Começa a olhar para trás a ver se não vem ninguém e eu vejo que nos estamos a aproximar, perigosamente, do carro da frente. Cada vez mais próximos e ela ainda a olhar para trás. Tentei até à última para não ter de ser eu a desviar o carro e descer-lhe a autoestima, mas não deu. Mesmo em cima do outro carro parado tive de lançar a mão ao volante e desviar-nos dele. Resposta dela?

- Eu estava a ver! Não ia bater! - diz ela e eu acredito que ela tenha mesmo acreditado nisso, o que ainda me assustou mais.
- Pois não, amor, Claro que não, a esta velocidade íamos só encostar-nos a ele... nem era bater, era só mais ridículo. - digo eu e ela fica de trombas automáticas.
- Eu disse que não queria conduzir contigo ao lado! - refila.
- Estava a  brincar, estás a conduzir bem! É a tua primeira vez, é normal. - digo a tentá-la confortar porque se ela começava a chorar é que já não ia ver a estrada bem.
- Não estou nada.
- Vá, não sejas assim. Só ias raspando o carro todo a sair do estacionamento, depois ias batendo noutro e agora íamos chocar de frente contra um carro parado. Estamos vivos, por mim ainda estamos a ganhar.

Passada meia-hora, lá saímos da 2ª Circular, já a bater ali nos cinquenta quilómetros hora, qual carro de corrida dos Amish. Nessa saída, vai dar-se a uma estrada que temos de dar prioridade aos da esquerda que, muitas vezes, vêm lançados. Não disse nada, apenas vi que não vinha ninguém e deixei-a ir, qual mãe pintassilgo deixa as suas crias voarem pela primeira vez. Acham que ela olhou? Nada. Ali, focadíssima na frente só. Eu aviso-a e digo-lhe «Não é por o carro não andar para os lados que tens de ir sempre a olhar em frente. Tens de ir atenta aos lados, porque se vinha algum carro dali a 100 km/h, tinha-nos batido de lado e falecíamos aqui...». Ela olha para mim, com aquele olhar que as mulheres fazem, capazes de intimidar um serial killer em fim de carreira, e diz-me: «Não reparei!»

É justo. Já me estou a ver à entrada do Paraíso, com Deus a perguntar-me «Então, meu filho. De que morreste tu?» e eu a responder-lhe: «Muito simples, a minha namorada não reparou.».

O ponto positivo é que se batêssemos ali, como é ao pé do bairro dos ciganos, eles iam logo ajudar a desencarcerar-nos para poderem roubar o carro sem os corpos. Bem, lá continuámos, até chegar ao pé de casa dela, momento que ela mais receava devido a ter de estacionar. Passeamos pela praceta, em busca de um lugar do tamanho daqueles dos deficientes, e ela pára o carro ao lado de um lugar para estacionar em paralelo. «Acho que não cabe!», diz ela. Já a tinha ouvido dizer esta frase, mas noutro contexto. Respondi-lhe da mesma forma dessa vez: «Cabe um camião!». Para o que estava à espera até estacionou bem, mas só descansei quando ouvi o motor do carro a desligar, saí do carro, pisei terra firme e respirei o ar puro! Finalmente, sei o que se sentem os passageiros de um avião em chamas que consegue fazer uma aterragem de emergência, sem trem de aterragem, e sobrevivem! Já cá fora, abracei-a e confortei-a, dizendo-lhe ao ouvido «Estamos vivos!». Não houve sexo nessa noite. No dia seguinte ligou-me, toda chorosa, e diz-me: 

- Raspei com o carro na garagem do trabalho.
- Não sei por quê, mas não é uma grande surpresa. - respondo.
- Estúpido. E há outra coisa...
- Então?
- Não sei onde estou. Perdi-me...
- Vê lá se as placas estão escritas em castelhado, na volta já estás em Espanha.
- Não... acho que estou a ir para a Margem Sul.
- Ui, isso é que é pior.

Lá se orientou até casa, mesmo à homem, sem GPS nem perguntar a ninguém.

Como disse, isto já foi há uns dois meses e, por acaso, agora até conduz bastante bem e nunca mais teve nenhum percalço. Quem a viu e quem a vê. E, depois deste texto, vai ser mais uma noite calma.





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