29 de dezembro de 2016

Indignação do dia nas redes sociais



Estão prontos para a indignação do dia nas redes sociais? Vamos a isso. A indignação do momento é com o Solinca, uma cadeia de ginásios, ou de health clubs porque estrangeiro soa sempre melhor. Parece que têm uma campanha nova de muito mau gosto, para não falar que é altamente misógina e machista. Não acreditam? Atentem no vídeo da revolta:


Tal como muitas das pessoas que comentaram (ver aqui), também eu estou escandalizado, horrorizado com isto! Ainda por cima isto é uma calúnia! Toda a gente sabe que ninguém vai ao ginásio porque quer ficar bem para agradar aos outros. Ninguém! Ninguém se veste bem ou se arranja para que os outros gostem do que vêem. Ninguém! Nunca nenhuma mulher tem inveja de outra mais bonita ou mais jeitosa. Nunca!

Estou um bocado farto de falar do politicamente correcto e de virgens ofendidas 2.0. É um assunto do qual nem se devia falar, porque os bastiões da moral e dos bons costumes das redes sociais são como os trolls e alimentam-se da importância que se lhes dá. Acho bem que estas pessoas estejam motivadas a acabar com as desigualdades e com o preconceito. A sério que sim. Acho que fazem falta, mas o problema é que têm a mira desalinhada. Deviam ir para a página do PNR refilar, para a do Trump, visitar a Arábia Saudita só com uma minissaia e um caicai. Aliás, deviam deixar de comprar gasolina de marcas que importem petróleo de lá e deixar de comprar roupa a todas as marcas que pagam menos às mulheres do que aos homens pelo mesmo trabalho. «Ó Guilherme, mas isso dá mais trabalho e ainda alguém nos dá uma chapada na nuca.» Pois, é isso.

Se na génese desta indignação estivesse uma intenção real de acabar com estigmas e desigualdades, então faziam o seguinte: ignoravam.

Não davam importância e apresentavam queixas formais às marcas. Comentar publicamente e partilhar com mensagens de repúdio só tem um efeito: espalhar a mensagem e disseminar ainda mais algo que para essas pessoas é negativo. Por isso, das duas uma: ou são burras, ou fazem-no só porque querem atenção e que as outras pessoas vejam o quão moralmente superiores são. Reparem que disse "burras" porque estava a adjectivar o substantivo "pessoas", não fiquem já aí eriçados com a minha misoginia.

O estereótipo da competição e inveja entre a maioria das mulheres (reparem que maioria é diferente de totalidade e, por isso, podem sempre meter para o lado a carapuça) existe por uma razão: porque é verdade. Não sei se é bom ou mau e de quem é a culpa, mas é um facto. Por exemplo, a minha cadela não gosta de outras cadelas. «O quê? Estás a comparar as mulheres com cadelas?». Obviamente que não, a minha cadela é muito melhor pessoa do que a maioria dos humanos, homens ou mulheres, e seria uma ofensa para ela essa comparação. Sabem outro estereótipo que também existe? Aquele que diz que as mulheres não sabem brincar consigo próprias e têm menos sentido de humor do que os homens. Por isso, pseudo-feministas, não perpetuem esse estereótipo porque só estão a dar má imagem a todas as mulheres inteligentes que sabem olhar para um vídeo destes e pensar «Ah, tá giro.» ou «Meh, não gostei muito.» e depois vão à vida delas, arrumar a cozinha ou fazer depilação do buço para agradar ao maridão.

Se o Solinca tivesse tomates, aliás, se o Solinca tivesse ovários, que é para não estar aqui a ser machista, aproveitava a polémica para o seguinte: fazia um vídeo com uma mulher a fazer agachamentos na cozinha enquanto descasca batatas e pede a ajuda do marido para lhe abrir um frasco de compota, para lhe explicar porque é que o computador está lento, e para lhe fazer um mapa da cozinha para ela se conseguir orientar. Mas não tem. Não tem porque não podem. Porque sempre que uma marca tenta arriscar um bocadinho arrisca-se a perder negócio. Tenho o sonho de que um dia os intervalos serão compostos por anúncios com piada e que arriscam. Em que o intervalo é a melhor parte da programação numa série de sketches patrocinados, de seguida. Em que as marcas são honestas e não utópicas e eufemistas. Em que as marcas têm sentido de humor, até porque assim ainda era capaz de pingar qualquer coisa para mim. Há uns tempos foi a Control com uma iniciativa num festival. Antes, tinha sido a Pepsi com uma campanha com o Cristiano Ronaldo. Nesta última, também não achei piada e sabem o que fiz? Não bebo Pespi… excepto quando só têm Pepsi. Sabem porquê? Porque prefiro Coca-cola. O pessoal revolta-se contra este tipo de campanhas enquanto escreve comentários no seu smartphone cujas peças foram montadas com os dedos pequeninos de uma criança algures na Ásia a troco de uma tacinha de arroz malandrinho.

Muitos devem lembrar-se do anúncio da Royco Cup-a-Soup, com o falecido Nuno Melo, que ficou na memória de todos. Acham que esse anúncio veria a luz do dia, hoje? Acham que mesmo que passasse na autocensura das agências e das marcas não ia dar molho? Claro que sim. Perpetua o estereótipo que os pastores alentejanos são mandriões. É altamente alentejanófobo! Para além de que ofenderia os vegans devido à utilização de ovelhas reais. Também ofenderia outras pessoas por outros motivos. Todos os motivos e mais alguns.

Tenho um sonho muito parecido com o de Martin Luther King Jr: o da igualdade. Mas aquela igualdade que pressupõe não se ser crucificado ou censurado quando se brinca ou se faz alusão a estereótipos porque não é isso que os perpetua. O que os perpetua é varrê-los para baixo do tapete e dizer que com isso não se brinca.

Vamos só esclarecer uma coisa: há, ou não há, muita gente (a maioria?) que só vai ao ginásio para ficar bem para os outros? Há. Então, pronto, calem-se. Se a vossa razão para ir trabalhar o glúteo não é fazer salivar os homens e deixar as outras mulheres roídas de inveja, mas sim porque gostam de se sentar sem ter de usar almofada em cadeiras de pau, epá, tudo bem, bom para vocês. Eu cá admito que parte da razão que me leva a ter abdominais definidos é saber que as mulheres gostam e acham atraente e isso faz com que eu me sinta melhor. O problema é que a minha preguiça é maior do que a minha necessidade de aprovação. O nosso bem-estar físico e psicológico depende, também, da forma como os outros nos vêem e quem diz que não, está, muito provavelmente, a mentir. A inveja não é má. Foi a inveja que levou muita gente a melhorar-se e a ter mais ambições. A inveja e a inspiração só são, muitas vezes, diferenciáveis porque na primeira, as pessoas só se queixam e dizem mal, na segunda as pessoas agem e fazem por mudar ou melhorar.

Podem não gostar, podem até achar que o conceito é parvo e não faz sentido. Percebo isso tudo. Não querem renovar a anuidade no Solinca com essa desculpa quando, no fundo, foi porque pagaram um ano e só foram lá duas vezes? Tudo bem, acho que sim. Agora ficar ofendido, indignado, mortificado e dizer que devem apagar o vídeo e despedir quem o idealizou? Ironicamente, é discurso de um tempo de censura que já vivemos em que as mulheres, e os homens, tinham poucos ou nenhuns direitos. Vocês vão à Maria Helena que isso é bem capaz de ser o espírito de Salazar a querer fazer uma incorporação à bruta por trás. Se trabalharem bem os glúteos pode ser que consigam entalar o gajo. Ah… e os homens que se revoltam e comentam para que alguma fêmea veja o quão boas pessoas e defensores das mulheres eles são, na esperança de um pedido de amizade no Facebook que só aceitam se ela for gira e jeitosa? Cambada de xoninhas.

Para esta gente, a mensagem só podia ser algo do género: «Venha ao ginásio para cuidar do seu bem-estar e sentir-se bem consigo própria. Ou não venha, mantenha-se balofa porque todos os corpos são bonitos.»


Não são. Há corpos feios que até provocam náuseas.

Dizer que todos os corpos são bonitos é que é perpetuar coisas, a obesidade e a diabetes, por exemplo. Os vossos 40 quilogramas a mais não são bonitos. Não são. Mexam o cu e emagreçam. Principalmente por vocês e pela vossa saúde, mas também pelos outros. Para o vosso namorado ou namorada não arranjar outra pessoa e para eu não ter de olhar para as vossas banhas a sair das leggings ou por cima do cinto. Ou não façam nada. Não me interessa.

Atira-se com o adjectivo do machismo e da misoginia sem perceber bem o que eles significam. Acham mesmo que quem fez um anúncio destes acha que a mulher é um ser inferior e que merece menos direitos do que os homens? Se calhar até foi uma mulher que teve a ideia ou a aprovou. O machismo não pressupõe dizer-se às mulheres como é que elas devem pensar ou agir? Então, mas e se houve mulheres envolvidas neste conceito? E a modelo que aceitou participar? É ela também misógina? É todo um novelo de palermice que me deixa com comichão. E, parece-me, que quem se indigna fortemente com isto está a dizer a todas as mulheres que não se indignaram e que até acharam piada, que são burras por isso, certo? Ou são ingénuas? Ou são machistas e misóginas? Ou são oprimidas pela sociedade e pelos homens e nem sabem ver quando estão a ser discriminadas? É que tem de ser uma destas e qualquer uma delas atesta contra a sua inteligência e não há nada mais irónico do que ver uma pseudo-feminista a dizer às outras mulheres como é que elas devem pensar e agir. Por exemplo, a minha namorada não ficou ofendida. Burra. É tão tapadinha que nem consegue discernir quando estão a agredi-la moralmente. Aliás, ela até me disse, qual vítima de síndrome de Estocolmo «É verdade. Se havia coisa que me pudesse fazer ir ao ginásio era teres uma colega assim.». Mentira, se eu tivesse uma colega como a Ana, a única motivação que ela teria seria a de me chatear a cabeça de cada vez que eu tivesse de ficar até mais tarde no trabalho. Agora, devem estar várias colegas minhas a pensar «Ai a porca da tua namorada não tem inveja nem ciúmes de mim? Deixa-me ir para o ginásio que ela já vai ver!».

Também fizeram um vídeo com um homem, na mesma linha, embora com menos indignação (!?), mas que confesso ter-me ofendido por vários motivos:


Primeiro, o Jorge é um bimbo que vai para o ginásio em tronco nu e acho que isso é perpetuar o estigma que os homens sarados e que malham têm o QI inferior ao número que calçam. Gostava, por isso, que apagassem o vídeo que é para eu poder voltar ao ginásio sem que as pessoas pensem que eu sou um bimbo. Ah, e fiquei ofendido porque o Jorge nunca podia ser o meu jardineiro porque eu não tenho dinheiro para ter um jardineiro, nem para ter um jardim para jardinar. Depois, fiquei ofendido por insinuarem que ele pode ser colega de faculdade de alguém. Com aquela idade? Anda numa tuna? Só se for isso. Por fim, o gajo parece o Wolverine e eu gosto mais do Batman.

Moral da história: arranjem um hobbie para descarregar as frustrações. Ir ao ginásio diz que ajuda.

PS: O mínimo que o Solinca pode fazer agora é dar-me uma subscrição vitalícia com PT incluído. Pode ser a Ana, mas primeiro deixem-me falar com a minha namorada embora isso vá perpetuar o estigma de que são elas que mandam lá em casa.





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