30 de novembro de 2017

Grávida, velho ou deficiente: quem tem mais prioridade?



Ontem, estava na fila no Pingo Doce, logo após a notícia da morte do Belmiro de Azevedo, só para fazer pirraça e ver se o gajo dava uma última volta no tabuleiro da morgue, e uma senhora com um bebé ao colo perguntou-me se podia passar à frente. «Claro que sim.», respondi-lhe, e dei por mim a pensar na nova lei da prioridade nas filas dos supermercados e outros serviços. No ano passado, acabaram-se as filas prioritárias e em todas elas é obrigatório ceder passagem a grávidas, pessoas com crianças de colo, pessoas com deficiência e idosos com limitações visíveis. O facto de tudo isto ter de estar na lei diz muito de nós enquanto espécie humana. Seria natural que dar a prioridade a alguém que tem mais dificuldades do que nós fosse um impulso que não precisasse de ser legislado. No entanto, tenho algumas dúvidas, muitas delas parvas, mas sobre as quais me apetece filosofar um pouco. Como organizamos as prioridades dentro das pessoas com prioridade?

É tipo pedra, papel, tesoura? A grávida ganha ao deficiente e o deficiente ganha ao velho manco?

É preciso esclarecer as pessoas para que não haja equívocos. A meu ver, a grávida e o acompanhante de criança de colo deveriam ficar para último lugar. Porquê? Ter filhos, embora muita gente pense que não, é uma escolha. Não é uma obrigação e sendo que o aborto é legal, também não é um acidente. É uma escolha e as escolhas não deveriam ter prioridade. Não acho que as grávidas sejam assim tão especiais. Engravidar não é uma cena muito complicada, qualquer pessoa com QI de uma ameba consegue engravidar, infelizmente. Até acontece por acidente, não é preciso técnica, nem planeamento: é só serem irresponsáveis ou estarem com um gajo que não se controla e não tira a tempo. Podemos, até, dizer que ter filhos é um acto de vandalismo no mundo actual. Um gajo paga dez cêntimos por um saco de plástico, mas dão prioridade a quem está a gerar um ser que vai poluir o planeta? O meu maior feito de activismo será não me reproduzir e assim ajudar a acelerar a extinção da espécie humana. Quando morrer, quero na minha lápide o epitáfio «Sempre se preocupou com o planeta: comprava sacos de papel reciclado e não teve filhos.».

Se as grávidas estão sempre a tentar explicar que não estão doentes, então talvez fosse natural que uma pessoa enferma tivesse prioridade sobre elas, não? Cenário: estou com febre alta e tive de ir comprar um franguito daqueles manhosos do Pingo Doce porque não estava capaz de cozinhar, será que tenho direito a passar à frente? É que para ir comprar um frango daqueles é sinal que estou mesmo mal e a febre me está a causar demência! Quem devia ter prioridade? Eu, com febre, que fui comprar fraldas para a minha avó que está de diarreia ou uma grávida de quatro meses, com saltos altos, que foi comprar gelado de chocolate porque estava com desejos que é como quem diz que está a aproveitar a desculpa da gravidez para ficar um mamute com bócio? E tentar perceber se a senhora atrás de nós está mesmo grávida ou é só gorda? Na dúvida, prefiro passar por gajo que não cede o lugar proactivamente do que destruir o ego da senhora, embora lhe bastasse ter um espelho para perceber que o erro foi legítimo. Agora que já provoquei uma onda de revolta nas grávidas sem sentido de humor, vamos aos deficientes. Tem de haver uma hierarquia!

Por um lado, o gajo paraplégico devia ter prioridade sobre um gajo que é só coxo, mas, por outro, o primeiro fica na fila à espera sentadinho.

E os cegos? É tudo a enganá-los. «Até lhe dava a minha vez, mas estou grávida de nove meses.», diz o senhor Alfredo com voz fininha. No outro dia, atrás de mim, estava uma rapariga de muletas e ferros nas pernas, com uma máscara cirúrgica, e com um olho que tinha bazado para Marte sem bilhete de volta. Mal vi aquele combo de deficiência, perguntei-lhe «Quer passar à frente?» e ela responde-me, algo confusa, «Porquê?». Epá, parecia-me óbvio que não era porque me estava a fazer a ela devido aos seus bonitos olhos, olho, vá. Tinha ali pelo menos duas ou três razões para lhe dar, mas fiquei com receio que levasse a mal e então disse «Só tem esses dois artigos para pagar, eu tenho muitos.». Ela agradeceu e passou. Ufa.

Agora que está lançada a ira nos deficientes sem sentido de humor e sem uma ou outra parte do corpo, viremo-nos para os velhos. No Pingo Doce de Alvalade, a quantidade de idosos com dificuldades em manter-se vivo é absurda e pode acontecer (como já me aconteceu): estar apenas uma caixa aberta, chego lá para pagar as minha coisinhas e aparece uma velha com joenetes; deixo passar à frente; depois aparece um velho com marreca; deixo passar; depois aparece outra velha de muletas; deixo passar; depois uma mãe com um filho de quatro anos e pega-o ao colo e pede para passar; deixo passar a revirar os olhos; nisto, vêm mais duas velhas, pouso as minhas compras e vou-me embora. A única forma de ser atendido naquele dia seria esperar até ser velho ou procriar com alguém lá dentro e esperar nove meses para ter uma criança de colo e ser atendido. Sinto-me sempre constrangido quando vejo uma pessoa de idade atrás de mim e pondero ceder-lhe a vez: por um lado, lembro-me de todas as vezes que estive na caixa multibanco à espera que alguém de idade avançada pagasse as contas todas da vida desde 1934 e apetece-me vingança; por outro, sinto que posso ser ofensivo em perguntar se quer passar à frente. Uma vez, disse a um senhor para passar e levei um sermão do género: «Não estou velho! Tenho 82 anos, mas estou de muito boa saúde! Velhos são os trapos! Tenho mais energia do que quando andava a matar pretos em África... bons tempos.». As pessoas, por vezes, esquecem-se que também há velhos idiotas.

E os gordos? Ah pois, vou ter de dar prioridade aos gordalhões que andam naquelas scooters? Era o que faltava. Quanto mais tempo esperarem ali é menos tempo que estão em casa a comer donuts com banha de porco. No entanto, faz sentido darmos prioridade aos cachalotes de duas pernas que andam por aí, sendo que a obesidade é uma doença.

Enquanto sociedade, temos de nos decidir sobre um paradoxo: ou a obesidade é uma epidemia que deve ser combatida, ou as modelos XXL são um exemplo para a sociedade.

Não dá para ser os dois, minha gente. Modelo XXL é tipo irmos comprar uma casa e o vendedor dizer «Este aqui é o nosso andar modelo XXL.» e pensarmos que é por ser mais espaçoso, mas não: é porque está cheio de humidade e a precisar de obras.

Por fim, deixem-me repetir que nunca foi preciso haver lei para que cedesse o meu lugar a uma grávida, a um deficiente, a um idoso, ou a qualquer pessoa que me parecesse em maior dificuldade do que eu e/ou com muito menos compras para pagar. Todavia, o facto de no dia a dia ser boa pessoa, não me pode impedir de ser uma besta aqui. Sinto que ofendi muita gente com este texto. Estou feliz. Podem refilar nos comentários, que responderei dando prioridade aos que tiverem mais cara de coninhas.



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