15 de outubro de 2017

O computador da minha mãe tem vida própria



A relação da minha mãe com os computadores sempre foi tensa. Tendo um filho que cedo se interessou por novas tecnologias fez com que tivesse sempre alguém para lhe resolver o problema sem ter de aprender a solucioná-lo. A minha mãe utiliza o computador como todas as mulheres utilizam a sua mala: sempre tudo desarrumado e como uma espécie de buraco negro onde demoram horas a encontrar o que procuram. Ser informático e ter uma mãe que não percebe de computadores é como trabalhar no apoio técnico de uma loja de informática onde estamos sempre a ouvir as perguntas mais descabidas como «Como é que guardo esta página de Internet no meu computador para a enviar para um colega por email?».

A minha mãe não gosta do progresso e está convencida que o computador novo que acabou de comprar devia ter entrada para disquetes.

A minha mãe não confia na tecnologia e acha que ter as fotografias guardadas no computador, na máquina e em dois discos externos é arriscado porque podem avariar-se todos ao mesmo tempo. Fotografias essas que são daquelas todas desfocadas e queimadas porque a minha progenitora nunca percebeu bem como funciona a máquina digital com mais de dois botões. Continua convencida que o problema é da máquina e que a que tinha há 15 anos, que tirava fotografias com 0,3 megapixéis, era bem melhor pois era só apontar e disparar, com as fotos eram tão pequenas que não se percebiam que não tinha definição nenhuma nem se vislumbravam as imperfeições da pele.

O pior quando me pede ajuda não é a dúvida em si ou o facto de já lhe ter ensinado a fazer aquilo dezenas de vezes, mas sim a sua dificuldade em assumir as culpas. Ao que parece, o computador da minha mãe tem vontade própria e age segundo o seu próprio livre-arbítrio. Exemplos? O Word muda o tipo de letra e a minha mãe diz que não fez nada; o computador fica sem som e a minha mãe diz que não mexeu em nada; o histórico está cheio de pornografia e o meu pai diz que não foi ele. Temo que o computador da minha mãe seja o epicentro de uma revolução das máquinas contra os humanos. Claramente, é um computador senciente que, em breve, rebelar-se-á contra quem o tenta controlar. No próximo filme do Terminator, a Skynet não terá origem no sector de defesa Norte Americano, mas sim no computador da dona Belmira que reside na Buraca. Será lá que surge a primeira máquina autoconsciente, mas que em vez de iniciar um holocausto nuclear para exterminar os humanos, tem um plano mais maquiavélico e apaga fotografias da pasta Maio 2016, movendo-as para o ambiente de trabalho sem avisar, criando o caos no mundo.

E explicar que o Ambiente de Trabalho é uma pasta como as outras? E explicar o conceito de partições do disco? E explicar que podes tirar a pen à vontade sem fazer ejectar que nunca na vida nenhuma se avariou ou ficou corrompida por causa disso? Explicar-lhe o que é a Cloud nem vale a pena, é como ensinar física quântica a um bebé. E quando manda bitaites a pensar que já percebe alguma coisa do assunto tal como a minha namorada dá indicações quando vou a conduzir? Temos de desligar o computador à bruta no botão e ela diz «Mas isso não estraga?» e tu reviras os olhos e dizes «Bem, mas quem é que percebe de computadores aqui?». O meu irmão tem uma estratégia diferente que é a de dizer que não sabe. Tem dois computadores e três consolas no quarto, mas, misteriosamente, "não sabe" fazer coisas como instalar o Office. Como usa Mac usa essa desculpa para tudo: «Fazer download de um anexo do email? Epá, não sei como é que se faz... no Mac é diferente.». E a minha mãe acredita nele, claro.

A minha mãe tem dificuldades com os computadores ao ponto de achar que os Termos e Condições de um programa são para ler. 

Sente-se mal ao clicar na caixinha a dizer que leu sem o ter feito. Em poucas semanas após comprar um computador, consegue coleccionar mil e quinhentas toolbars no browser e quando lhe perguntamos como aquilo aconteceu, mais uma vez, nunca foi ela que fez nada. Explicamos-lhe a causa, mostrando que não foi o computador que decidiu sozinho, e ela diz-nos que a culpa é nossa porque, e passo a citar: «Tu é que me disseste para clicar sempre "Next" e "OK"». Aliás, já perdi a conta das vezes que a minha mãe me chamou, apavorada, porque lhe apareceu uma caixa de mensagem do Windows e ela não percebia o que era; chego lá e é sempre uma caixa com apenas um botão de "OK". A dúvida! Comecei a tremer, que fazer? Epá, carrega no "OK", sei lá o que isso é, mas só tens o "OK" para carregar. A minha mãe é tão naba com os computadores que era capaz de comprar o WinRar com medo de que o período de teste expirasse. Estou a gozar, a minha mãe nem sabe o que é o WinRar.

Depois, temos ainda a famigerada situação de quando pondera comprar um computador novo: tal como toda a gente faz, pede opinião ao amigo informático que neste caso é o filho. O que acontece? Nós sugerimos um e depois acaba por comprar outro. Sempre. No caso da minha mãe já nem me dou ao trabalho e digo-lhe sempre «Para usar o Word e ir ao e-mail qualquer computador serve, é o mais barato e que achares mais bonito.». «Mas depois não fica lento?» pergunta-me. Claro que vai ficar, até um computador de 5 mil euros fica lento, passados dois meses, na mão de uma mãe ou de uma namorada. É um dom que elas têm. Antes que me chamem machista, deixem-me dizer-vos que o meu pai também faz das dele no tocante a novas tecnologias. Há uns anos, estava no quarto e oiço o meu pai chamar o meu nome da sala. Levantei-me apressado já que pelo tom parecia uma emergência, chego lá e dou com o meu pai, entusiasmado, que me pergunta apontando para um popup no ecrã: «Diz aqui que sou o utilizador 1 milhão e que ganhei um prémio se clicar... é verdade?». Não, pai, nunca é.

É por tudo isto que não quero ter filhos. Os nossos pais ensinaram-nos a andar em duas pernas e a fazer cocó na sanita e nós ficamos aborrecidos quando nos pedem ajuda para os ensinar a fazer uma tabela no Word. Somos uns ingratos. 





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