14 de março de 2018

Fui a um bar de hipsters e gente estranha



Fui sair à noite numa das novas zonas alternativas de Lisboa, o Intendente, outrora local de toxicodependência a céu aberto e agora zona in, mas ainda com muita droga. Pelas ruas vi pessoas que não percebi se eram artistas ou sobreviventes da epidemia da heroína que assolou aquela zona no passado recente. Uma ou duas cervejas e dei por mim num bar em que parecia estar numa realidade paralela: daqueles típicos bares que são uma casa, onde se sobe umas escadas de madeira como quem vai visitar a avó; composto por várias salas e espaços e, até aqui, nada de estranho. O que me chamou à atenção foi a fauna local. Parecia estar num filme antigo do Woody Allen, mas com menos orçamento para o guarda-roupa. Gente alternativa, hipsters, artistas e outros sinónimos que se usam para apelidar "gente estranha". Ali, o bigode está na moda, mais nos homens, mas também em algumas mulheres. Parecia uma after party da selecção de Portugal dos anos 80! Havia muitas boinas e daqueles barretes que parecem meias na cabeça; havia óculos de massa; havia camisas de flanela e blazers de bombazine. Nas mulheres destacava-se aquele penteado meio rapado ou de franja cortada com a mesma perícia que eu cortava o cabelo às Barbies da minha prima só para a irritar, fazendo com que se assemelhem a um caniche que foi tosquiado pelo Andrea Bocelli. Homens e mulheres, todos com aquele ar de quem passa duas horas em frente ao espelho a esforçar-se para ter aquele look de "estou-me a cagar para as modas porque sou bué único e singular", ficando iguais a todos os outros que pensaram o mesmo e foram a esse bar. 

Todos tinham aquele ar de quem diz "Agora estou aí com um projecto", sabem? 

Aliás, ouvi esta conversa:

- Ganda Mário, o que é que tens feito?
- Estou aí com um projecto, agora.
- Olha, também eu. De quê?
- Ainda não posso falar muito, mas digamos que vai revolucionar o paradigma.

Claro que vai, Mário. Claro que vais fazer uma disrupção no mercado com a tua nova cerveja artesanal que deixas a carbonatar dentro de uma garrafa de litro e meio acondicionada no rabo. Sim, é premium e exclusiva porque só lá cabem duas de cada vez. O Mário tinha um copo de vinho numa mão e uma cigarrilha na outra, claro. O outro amigo, que também tinha um projecto, provavelmente uma plantação de rúcula biológica, estava a enrolar um cigarro, tinha óculos redondos e vestia-se como se tivesse acabado de ir a um concerto do Zeca Afonso.

Ao ver toda esta gente, eu e os meus amigos criámos o jogo: Poeta, músico ou sem-abrigo? É mais complicado do que parece, garanto-vos. Casaco roto, boina e bigode? É poeta. Bigode, cabelo grande e uma camisa apertada até ao último botão? Teclista numa banda que faz música experimental. Roupa velha, meio encardida, dois números acima ou abaixo do tamanho ideal, com cabelo despenteado e a cheirar mal? Pode ser sem-abrigo ou qualquer um dos outros, nem contemplando os que deviam ser actores que estão em cena num teatro qualquer vazio com a sua peça surrealista. Havia um que tinha a roupa toda suja de tinta e que tanto podia ser sem-abrigo ou pintor, fosse de casas ou de telas artísticas numa garagem algures em Marvila. No meio de toda a aquela gente, os alternativos éramos nós. Nós e uma rapariga com ar de seca, com um vestido preto e justo, casaco cor-de-rosa e maquilhada, irrepreensivelmente, que ia olhando para o telemóvel como quem começava a perceber que tinha sido enganada e que, afinal, já não iam ao Urban.

Não interpretem a minha descrição como pejorativa, o bar era giro e gostei do ambiente até porque que os hipsters têm uma vantagem: quando bebem não ficam agressivos. Ficam a contemplar o universo e o sentido da vida, a ter conversa intelectuais ou no seu canto sossegados. Vi um gajo tão bêbedo, encostado a uma parede, com o copo na mão, baixando e levantando a cabeça em loop.

Fazia lembrar aquelas personagens de alguns jogos de computador com as quais temos de falar para desbloquear alguma coisa ou para entrar numa side quest.

Era daqueles tão hipster que nem se considera hipster porque os hipsters já são demasiado mainstream. Tenho pena de não ter uma foto para vos ilustrar, embora se uma imagem valesse mais de mil palavras, ninguém fazia legendas para os filmes, mas receio que a minha capacidade descritiva não faça justiça à realidade. Pensem em alguém acabado de sair de uma aula de palhaço no Chapitô a ser convidado para sair à noite e dizer «Vamos, mas tenho de ir a casa trocar de roupa.» e dizerem-lhe «Não é preciso, vamos ali a um bar no Intendente.». Imaginem o Stevie Wonder a entrar na Primark, tendo apenas dois minutos para escolher umas calças, camisola e casaco. Era muito isto. Vi um rapaz com um penacho na cabeça, tipo palmeira bonsai, com uma fita vermelha na testa e com as calças rasgadas de quem acabou de tentar roubar uma costeleta de novilho a um leão. A meio de uma conversa, diz:

- Acho que o abstraccionismo de Kandinsky é sobrevalorizado.

Ya, claro que é, Roberto que aluga um quarto na Mouraria e que passa as tardes a trabalhar/beber cervejas no hub criativo. Claro que o Kandinsky é sobrevalorizado. Aposto que os rabiscos que fazes numa folha de papel enquanto estás ao telefone a pedir uma pizza vegan são muito mais artísticos.

Outra característica deste bar é que os tempos de espera para pedir uma bebida ainda eram maiores do que o normal. Os artistas frequentadores deste estabelecimento nunca pedem uma cerveja directamente, pois, armados em connoisseurs, têm sempre de perguntar primeiro "Quais é que tem?"; "E vinho? Ao copo? Tem a carta?". Depois, perguntam por cocktails que ouviram uma vez alguém pedir num filme do Ingmar Bergman e, no fim, acabam por beber uma Super Bock ou Sagres, em copo de plástico, como o comum dos mortais. Estava tão absorvido por aquele mundo novo que nem me lembro da música que passava, sinceramente. Talvez fosse apenas silêncio e estática, segunda faixa do primeiro álbum de uma banda dinamarquesa que nunca ninguém ouviu falar e que é uma experiência auditiva com raízes no surrealismo abstracto. É possível que fosse algo desse género porque neste tipo de ambientes, tudo é arte e uma experiência. Até te podes masturbar num canto, a olhar fixamente as mulheres, que tens sempre a desculpa de que não é assédio nem atentado ao pudor, mas sim uma interpretação viva da instalação artística do russo Punhetovsky.





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