18 de novembro de 2014

Circo com animais é uma palhaçada



Era uma vez um tigre branco, que vivia aprisionado numa jaula, sem saber o crime que tinha cometido. Diziam-lhe que estava ali porque era raro e precioso, que era dos poucos que ainda existia no mundo e que, por isso, tinha que estar ali seguro, atrás das barras de ferro. Ele acatara a decisão, submisso aos anos que já lhe pesavam no pelo. Não se lembrava da vida de outra forma. Tinham-lhe dito que tinha vindo de uma selva linda, mas que não podia voltar, que era perigoso para um tigre desabituado às leis dessa e das outras selvas. Diziam-lhe que o melhor era estar ali, onde a comida lhe era oferecida apenas em troca da sua subserviência, da sua acomodação àquele espaço fechado, da sua aceitação da ocasional chicotada para corrigir aquilo que não lhe era natural. Só era preciso aceitar isso tudo e aparecer no trabalho às horas marcadas. Sentar, deitar, saltar por entre aros de fogo incandescente e rugir. Mas rugir baixinho e só sob comando! Todos os anos a sua vontade de fugir se foi tornando mais fraca, tal como todo o seu corpo. O medo de não sobreviver lá fora era agora maior que o desejo de cheirar a brisa desnorteada e livre da selva mais uma vez. Só lhe restava estar ali, morrer de uma doença que não compensasse a cura, ou de ser solto algures quando já fosse velho demais para o que o tinham contratado à força. Certo dia, depois de um treino violento demais para a idade que ele já tinha, decidiu que ia mudar de vida. Num último brandir do chicote do seu mestre, para que entrasse na jaula, atirou-se a ele. Cravou-lhe os seus dentes afiados na garganta e sentiu-o morrer por entre os seus maxilares. Provou-lhe o sangue quente, como nunca tinha sentido e sentiu-lhe o último respirar no céu da boca enquanto os seus olhos perdiam a vida que lhe aprisionara a sua. Não tinha fome. Não era um mau tigre. Era apenas um tigre que já não tinha nada a perder. Fugiu com as forças que julgava já não ter e refugiou-se no primeiro bosque que encontrou e escondeu-se o mais que pode. Ouvia as sirenes ao longe, os megafones que gritavam que havia um animal perigoso à solta, que tinha morto alguém e que precisava de ser abatido. Viu um pássaro a chegar ao bosque agitado, chilreando apressado que um tigre branco andava à solta e que era perigoso. O pássaro enquanto voava viu a cauda do tigre que estava a indicar onde ele se escondia. Num voo picado foi ter com ele e disse-lhe "Tigre, ouviste o eu disse? Anda aí um tigre branco perigoso! Tu estás magro e com um ar cansado para lutares, esconde-te melhor ou foge!". O tigre disse num ar envergonhado "Eu não sou perigoso...". Ficou aquele silêncio estranho e o pássaro falou-lhe com sotaque Pires de Lima: "Não estou a falar de ti, és daltónico ou és burro? Estou a falar de um tigre BRANCO! Duuhhh!". O tigre, confuso, julgando ele que o pássaro era daltónico, apressou-se a ver o seu reflexo num charco que estava ali perto. Quando se vê ao espelho, percebeu que a cor outrora branca, era agora laranja e castanha. O tigre que era branco tinha deixado de o ser. Quando foi solto e cheirou a liberdade voltou a ter as cores alaranjadas que eram as suas originais. O branco com listas pretas eram a cor que ele ganhou por estar tantos anos preso. O seu pelo, tal como ele, tinha perdido a cor e a alegria. Os donos do circo ao vê-lo perder a cor pressentiram uma oportunidade de negócio e fizeram-no sentir que era especial para o manter preso. Afinal era apenas mais um, como eram todos. Morreu de fome, porque naquele bosque não havia comida para ele, mas morreu feliz, porque mais vale ser comum e livre do que ser especial e estar preso.

Serve esta bela e elaborada metáfora com a vida real para introduzir o tema do circo com animais. Quando eu era pequeno, fui ao circo 2 ou 3 vezes, não mais, não me lembro de gostar muito. Lembro-me de não gostar dos palhaços, de não lhes achar piada, e de achar que os números de trapézio eram apenas mais uns, apesar de dizerem sempre que era "a única pessoa no mundo a fazer um triplo mortal à retaguarda enquanto come uma sandes de torresmo e corta as unhas dos pés com os dentes". No entanto lembro-me de gostar de ver os animais, especialmente os tigres que eram os meus favoritos. Lembro-me também de gostar de ver uma equipa de futebol composta por cães em que as bolas eram balões de ar que rebentavam por entre as dentadas deles. 


Era fácil gostar daquilo, eram animais bem comportados e na altura ensinam-nos que quem é bem comportado e obediente é feliz

Por isso aqueles animais tinham que ser felizes, de tão obedientes que eram, mesmo os mais ferozes. Fui crescendo e continuei a não achar piada aos palhaços, a não me surpreender com os trapezistas e a ver que única coisa que eu gostava nos circos eram afinal a face mais nojenta, desumana e inconcebível que eles tinham.
Crescer é isto, é ter desilusões.


Não é a existência do circo com animais que me enoja, mas sim os moldes em que são feitos. As condições precárias em que mantém os animais, a forma de como os descartam quando são velhos, estão feridos ou doentes, tal como se fossem apenas e só adereços cénicos do espectáculo. E são, para eles são apenas isso. Deviam ser proibidos? Claro que sim. Os animais deviam ser retirados e colocados algures, não sei onde, mas estariam melhor em muitos outros locais. Agora como está a lei é dizer "Isto é mau, é terrível, não devia ser permitido, mas estes já que cá estão ficam até morrer e depois logo se vê". Como se não lhes fosse possível controlar esta situação de outra forma, a fiscalização em Portugal funciona mal em vários sectores, não me parece que seja no circo que seja impecável. Isto era o mesmo que ir a um lar que trata mal os seus idosos e dizer "Bem, quando estes morrerem não meta cá mais ninguém, ok? Estes pronto, até morrerem cá ficam".

aqui falei de touradas, que é um assunto semelhante a este, mas ainda assim apeteceu-me dissertar um bocado sobre o que os circos com animais representam numa sociedade que se diz civilizada. A tourada ainda assim parece-me mais genuína e com argumentos mais compreensíveis para que exista, do que o circo com animais. Quando digo que compreendo os argumentos é tendo em conta que há muita gente inculta e com falta de inteligência. O circo, nem dando esse desconto consigo compreender. Na tourada percebo mais os argumentos de quem vive dela e não do público. No circo é ao contrário, consigo perceber melhor quem vai ver algo que não é directamente sofrimento, mas que contribui para tal. Na tourada o público esta a ver o sofrimento em directo. Os touros sofrem mais dentro da arena, os tigres, leões e elefantes sofrem mais nos camarins de grades de ferro. Haverá quem diga que não há diferença para os jardins zoológicos e até certo ponto têm alguma razão. Um Zoo com boas condições não me choca, apesar de concordar que numa mundo perfeito não existiriam, mas ainda assim percebo o valor pedagógico que possam ter.

Os circo com animais existem pela nossa natureza perversa, de nos queremos sentir superior a todos os outros animais. Parece quase uma inveja da liberdade que eles têm e nós não. Queremos aprisioná-los em cubículos e obrigá-los a ir trabalhar às ordens de outros em troca da promessa de comida e uma vida remediada. Pode ser que um dia essa nossa faceta "Humana" mude. O Funchal foi agora a primeira cidade a proibir circos com animais. 


Acho estranho a primeira autarquia a tomar esta decisão ser uma que até está habituada a ver hipopótamos a sambar de cuecas no Carnaval 

Se me estou a referir a mulheres gordas e/ou ao Alberto João Jardim, fica agora para vossa interpretação que eu assim garanto que liga protectora dos hipopótamos não me processa. Querem circos com animais continuem a ver a Casa dos Segredos, que pelo menos esses estão lá por livre e espontânea vontade.





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