4 de novembro de 2014

Ser Engenheiro Informático tem glamour



Quando me perguntam o que faço e eu digo que sou Engenheiro Informático e que agora comecei a fazer Stand Up Comedy, nunca ninguém diz "A sério? Isso de ser Engenheiro Informático deve ser muito giro!". A única coisa que dizem, para além do misto de nojo e pena que se vê na cara das pessoas, é "Pois isso dá dinheiro". Errado. Já deu em tempos, continua a dar a alguns, mas para a grande maioria é um trabalho mal pago. Há uma grande diferença entre ser mal pago e receber mal. Um cirurgião se receber 3 mil euros recebe bem, mas é mal pago para o trabalho que faz e toda a formação que teve para ali chegar. Com a Engenharia Informática é um bocado isso que acontece hoje em dia, ainda assim a empregabilidade é de 100% nos melhores cursos e o ordenado para primeiro emprego, é provavelmente o dobro quando comparado a muitas outras áreas. Ainda assim não é esta área que é bem paga, as outros é que são pagas miseravelmente.


"Tu que sabes de computadores..." é aquela frase que qualquer aspirante, estudante ou já Engenheiro Informático detesta ouvir

Esta é aquela frase que as tias e vizinhas utilizam quando precisam que alguém veja porque é que o seu computador está mais lento que um neurónio da Fanny. Peço desculpa, o neurónio, assim é que é. Também pode ter pontos positivos, como haver uma rapariga que nos dá o portátil para formatar e diz explicitamente "Olha guarda-me é só as fotografias que estão na pasta xpto" e, quando uma pessoa vai à procura da pasta, dá de cara com fotografias dela sozinha em poses de fazer corar a Jenna Jameson, com a data do dia anterior, como se ali tivessem sido plantadas estrategicamente para abrir o apetite. Óbvio que eu nem comentei isso, porque depois ainda era acusado de ser pervertido e bisbilhotar a vida pessoal dela. As mulheres são meio malucas por isso é preciso um gajo saber desviar-se das balas. Até porque, se o PC estava com aquela quantidade de vírus, imagino o resto.

As pessoas acham que ser Engenheiro Informático é saber montar cabos, limpar vírus e descobrir porque é que o sinal do wifi está fraco. Não é. São áreas diferentes, ambas de valor, mas diferentes. Ainda assim, as piores pessoas são as que se sabem mexer razoavelmente bem nas novas tecnologias, mas que porque eu "sei de computadores", me fazem perguntas básicas em vez de procurarem primeiro no google. Essas é que mereciam uma chapada na moleirinha. No outro dia quando fui comprar o meu carro, estava lá a fazer conversa com o senhor do stand, ou stander para alguns, e ele perguntou-me o que fazia, eu disse-lhe que era Engenheiro Informático e ele sai-se com um:

- Epá, então o senhor é que me podia dar aqui uma ajudinha, é que a fotocopiadora está avariada.

Isto era o mesmo que eu me virar para uma prostituta e perguntar se sabe identificar a vermelhidão que tenho no testículo esquerdo. Ou uma mulher virar-se para um ginecologista e perguntar se dá explicações ao marido. É quase como se agora dessem equivalência ao grau de mestre em Sociologia à Fanny, por ter participado na Casa dos Segredos. Sim, duas referências à Fanny no mesmo texto! Porquê? E porque não?

Por falar em prostitutas, eu tirei o curso na bela instituição de ensino que é o Instituto Superior Técnico, esse local que só de pronunciar o nome nos vem logo à memória a sensualidade das camisas de flanela por dentro das calças de bombazine. O IST foi o local onde a minha criança interior foi abusada sexualmente e deixada a morrer numa cave do departamento de informática. Sinto-me menos deprimido num cemitério do que a passar lá ao lado. Não deixa também de ser curioso, que um dos maiores pólos de prostituição em Lisboa seja à volta do campus do IST na Alameda. De certeza que o estudo de mercado dos chulos obedeceu ao seguinte critério "Onde é que há gajos que ganhem bem e que não consigam fazer sexo sem ser a pagar?". Instituto Superior Técnico foi a resposta mais votada, execuo com a Assembleia da República e a Diocese de Lisboa. Tiveram que desempatar.


Na Assembleia têm dinheiro para ir aos bares de alterne luxuosos e na Diocese preferem crianças, por isso o IST foi a escolha final. Estes chulos percebem imenso de segmentação de mercado

O estereotipo do Engenheiro Informático sempre foi e ainda continua a ser o rapaz de óculos, borbulhas que parece que a cara é uma pizza com extra pepperoni, de camisa abotoada até a cima e que vive na cave de casa dos pais, sem vida social e que os únicos pipis que viu na vida foi em sites da especialidade. Esse estereótipo foi 99% verdade durante muitos anos, mas parece-me que agora está a mudar, basta olhar para os CEOs bilionários, de calções e chinelos, que estão a mudar o mundo e são autênticas estrelas de rock. Ainda assim, se a conta bancária não estiver recheada não é profissão que seduza uma mulher, tal como o surf o faz, mesmo quando o surfista só tem dinheiro para comer latas de atum. Um estudo recente indica que passar mais de 8 horas por dia sentado aumenta em cerca de 40% o risco de morte prematura. As mulheres ficam malucas com os homens dos desportos radicais, que enfrentam o perigo de frente e tendo em conta esse estudo, deviam humedecer-se por informáticos como por nenhuma outra profissão.

Esse estereótipo que descrevi, era a norma durante muitos anos e acho que foi isso que prejudicou a profissão, especialmente na consultadoria. Os informáticos eram todos xoninhas, que não sabiam dizer que não ao trabalho extra, até porque o faziam por gosto, não tendo nada mais que fazer em casa. Isso fez com que fosse normal não precisar de luz solar e fazer o dito horário religioso, entrar religiosamente às 9h e sair quando Deus quiser. Eu fui consultor durante 2 anos e meio, depois despedi-me. Não me posso queixar dos meus horários que nunca se esticaram muito comigo, talvez por eu ser da Buraca. Ninguém quer um gajo da Buraca com um esgotamento nervoso. Não percebo como é que numa área onde não há dificuldade em encontrar emprego as pessoas se submetem a trabalhar 16 horas por dia a troco de mil e poucos euros. O pior é que quando alguém faz um horário normal são mais os colegas que olham de lado do que os chefes, que só se interessam se o trabalho está feito ou não. São comum as bocas, algumas a brincar, outras a atirar o barro à parede, de alguém ir a sair às 18.30h, já dando meia hora de borla à casa, e ouvir "Então, estás a part-time agora?" ou um "Vais lanchar?". O maior problema nem é ficar umas horas a mais quando é preciso, mas sim partirem do princípio que é essa a obrigação. Era ir lá a Inspecção Geral do Trabalho fazer uma vistoria a sério e as consultoras iam todas à falência pelas multas que tinham que pagar. Eu, mais uma vez e até porque chefes meus antigos podem estar a ler isto, não tive razão de queixa da chefia da consultora onde trabalhava. Fiz o meu horário relativamente tranquilo e fui mais valorizado que muitos que lá ficavam sempre, mais uma ou duas horas, a fazer cliques aleatórios no painel de controlo do windows, de sobrolho franzido e a suspirar, para dar a ideia que estavam a trabalhar arduamente. Onde me faltaram ao respeito foi num cliente onde estive que era um banco, mas isso meus amigos, é história para outro texto. Mas posso-vos dizer que mete líderes de equipa a chorar semanalmente, berros e despedimentos junto à máquina de café e quase agressões físicas. 


Nesse local ouvi um líder de equipa dizer a um colega meu "Subalternos aqui não piam!".
Só para dar um lamiré do respeito que havia pelas pessoas

Vai-me dar um prazer tremendo escrever esse texto, tenho só que consultar um advogado para ver se posso falar do nome do banco e das pessoas envolvidas sem me ser posto um processo em cima, que eu não sou parvo, aliás, em termos de ser prevenido sou do BEST.

Esta concepção que um informático não tem nem deve ter vida social vem logo da faculdade, lembro-me no dia que entrei no técnico, na apresentação que foi feita pelos presidentes do curso nos ter sido dito "Vocês são a nata da nata de Portugal e esperamos que sejam profissionais e que se dediquem ao curso pelo menos 12 horas por dia". Pelo meio diziam que mais que criar bons profissionais, queriam criar bons seres humanos. Nunca me chegaram foi a explicar como é que esperavam que se fizessem bons seres humanos, com tudo o que isso acarreta, a viver os melhores anos da nossa vida agarrados ao estudo 12 horas por dia. Eu fiz o curso com uma perna atrás das costas, ou seja, demorei a chegar à meta porque ia ao pé coxinho. Tinha 0% de motivação para 90% das cadeiras, era estudar no dia antes para o exame e rezar ao Santo Padroeiro dos Informáticos. Houve várias cadeiras que tive 19 no primeiro teste, mas sendo que fazia média com o segundo e não havia nota mínima em cada um deles, fiz as contas e percebi que se não fosse ao 2º, tinha 9,5 que arredondava para 10 e dava para passar. Tirar Engenharia é muito saber fazer este tipo de contas. Isto contrasta com uma história de um palerma que merecia duas chapadas à padrasto porque foi fazer melhoria de um exame onde tinha tido 19.

Até hoje nunca houve um daqueles casos de que um aluno desata aos tiros na faculdade ou numa empresa, como é comum em países evoluídos como os Estados Unidos da América. Aposto que se um dia isso acontecer por cá, vai ser numa consultora informática e há-de ser um gajo formado no IST. Nos tempos que eu lá andava havia um candidato muito forte a aparecer na capa do Correio da Manhã, que era um rapaz, todo ele estranho, desde o dedo, possivelmente encardido, do pé, até à ponta dos cabelos, que bem espremidos dava para fritar as batatas de um dia concorrido do Mc Donalds do Colombo. Devia ser primo afastado do mítico Koala Zombie. Estou eu à porta de uma sala, à espera de uma aula, e este sujeito dirige-se a mim e pergunta-me com o seu ar taciturno e voz arrastada:

- Só por curiosidade mórbida.......... que horas são?

Eu disse-lhe prontamente, são "10 para as 9". Ele agradeceu, mas na minha cabeça só ficou a pergunta de qual seria a hora em que se iria dar o massacre. Havia também um rapaz que sabia atalhos por entre as torres do técnico e que saía a correr de uma aula e chegava esbaforido a outra para ter lugar na primeira fila. Quando terminou o curso foi trabalhar para uma consultora de topo, a ganhar 3 mil euros. Passado um ano teve um esgotamento nervoso e depressão profunda que é para aprender a não ser esperto.

Moral da história, hoje tenho um trabalho ainda relacionado com a informática, menos programar, só às vezes, numa incubadora de ideias onde tenho outra liberdade criativa. Ganho menos do que quando era consultor, mas tenho mais tempo para mim e sou mais feliz. Só quando chega o fim do mês é que me arrependo um bocadinho, mas bebo Casal da Eira em vez de um Cartuxa e passa-me logo.





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