10 de novembro de 2014

O dia em que limpei o rabo ao Fernando Pessoa



O tempo era já de primavera mas o cheiro no ar era o do metal das carruagens e o chilrear dos pássaros não se ouvia com o chiar das rodas nos carris. Estava eu na estação de comboios de Coimbra, à espera do comboio para Lisboa. Parecia apenas uma viagem normal, sem se vislumbrar que seria um dos momentos de maior adrenalina deste vosso, que na altura tinha 17 anos e pouca barba. Faltavam cerca de 20 minutos para chegar o meu comboio e subitamente, por entre os passos apressados de quem está atrasado, entre abraços de famílias que chegam e beijos chorados de enamorados que partem, deu-me uma daquelas cólicas que uma pessoa sabe logo, mas logo, que vem aí um tsunami de cocó. Tentei aguentar, pensando que poderiam ser apenas gases, mas com aquele receio de os soltar e trazerem consigo algo mais. Vinte minutos podia ser pouco para procurar uma casa de banho, e certamente que as do alfa seriam melhores que as da estação, nem que fosse pelo ar fresco que entra por baixo e nos acaricia os glúteos, quase que parecendo que estamos nos Pirenéus a deixar a nossa marca. 

Entretanto outra cólica, qual contracção de quem está prestes a dar à luz uma lontra bebé.
Era evidente que não podia esperar

De mala grande pela mão e mochila às costas, comecei à procura de placas que me indicassem o caminho, a andar todo torto, que parecia um deficiente ou alguém a fazer a marcha, com as nádegas contraídas, qual barragem do Foz Côa, com medo de fazer pinturas rupestres nas cuecas. Dei voltas, subi e desci escadas e por fim, lá encontrei os lavabos. Era tudo aquilo que eu tinha sonhado e muito mais, não fosse o chão, todo ele com uma fina camada de urina, papeis sujos no chão, urinóis em tons de amarelo e roxo esverdeado e aquela média luz que qualquer WC público de um filme de terror tem que ter. Havia três portas para as sanitas, de madeira escura e velha, com as habituais inscrições de amor. Duas delas fechadas, mas a do meio aberta e desimpedida. Finalmente Deus nosso senhor da defecação dava-me um sinal da sua existência. Tentei entrar com a mala grande, a arrastar naquele chão mais sujo que os passeios do Cais de Sodré depois de uma noite de Sábado. Tentei, tentei e voltei a tentar, mala ao alto, mala na horizontal, mas era impossível conseguir entrar com ela e fechar a porta. Tive que tomar a difícil decisão de deixar a mala cá fora, sujeito ao risco de pensarem que era uma bomba e a tentarem desarmadilhar enquanto eu soltava a bomba prestes a explodir dentro de mim. Comecei a imaginar o susto que iria provocar a toda a equipa de contraterrorismo da zona de Coimbra, fazendo soar um alerta máximo de guerra química e culminando com a honra de aparecer na primeira página do Correio da Manhã do dia seguinte. Era um risco necessário.

Lá tranquei a porta, baixei as calças e os boxers, sentei-me e cá vai disto ó Evaristo. Um alívio maior do que finalmente conseguir espremer aquela borbulha nas costas que está ali a meio que não lhe conseguimos chegar por cima nem por baixo. Um alívio maior que um falso positivo num teste de HIV. Um alívio maior que a amante grávida, que ameaçava contar tudo à mulher amanhã, morrer hoje num acidente de carro. Faço o que tenho a fazer, sabendo que o tempo era escasso e não havia tempo para ficar à espera da segunda vaga. Vou para me limpar e o terror instalou-se. Não havia papel higiénico! Nada, nem uma última folhinha meio rasgada e agarrada ao rolo, porque nem esse rolo de cartão havia. De repente, todo aquele alívio tinha ido pelo cano abaixo e parecia que estava um relógio em contagem decrescente na minha mente. Tive que me armar em Macgyver da retrete e ponderar as possibilidades. Sair com as calças nos tornozelos e procurar papel? Perigoso. Gritar por ajuda, na esperança que alguém me passasse um rolo? Perigoso. Tirar os boxers, limpar-me aos boxers e ir o resto da viagem em modo comando? Muito perigoso, os boxers podiam não chegar e só iria ficar numa situação ainda mais precária. Como devem imaginar não era daqueles cocós que parece que saem embrulhados, com lacinho e tudo e que não deixam nada para trás. Uma pessoa passa o papel e parece que não passou por ali nada, qual assassino profissional que não deixa pistas. 

Este cocó tinha todas as características para ser daqueles que parece que temos uma lápis de cera a sair do rabo 

Limpa-se, limpa-se, limpa-se e volta-se a limpar e vem sempre qualquer coisa, às vezes sem dar sinais que está a ficar melhor, parecendo até pior entre cada limpadela. Tinha a mochila comigo mas sabia à partida que não tinha lenços, não tenho alergias, não estava constipado, não costumo chorar do nada e mesmo que chore tenho mangas para limpar. Mas lá procurei e a única coisa que poderia servir para o propósito era um teste de Língua Portuguesa que tinha recebido no dia anterior. Era sobre Fernando Pessoa e era a melhor opção. Tinha tido 19 valores e era um ultraje para o nosso maior poeta, mas creio que ele teria feito o mesmo se se visse naquela situação. Teve que ser. A folha de enunciado arranhava um bocadinho, mas a folha de teste, dupla absorvente fez o trabalho sujo que era necessário. Fiquei com um excerto do poema "A Espantosa Realidade das Cousas" de Alberto Caeiro estampado na nalga direita e na esquerda lia-se: "O mais alto de nós não é mais que um conhecedor mais próximo do coco e do incerto de tudo.". Mas afinal o 'c' de 'coco' era um pelo colado, a palavra correcta era 'oco', que era como eu agora finalmente sentia o meu intestino. 

Posso-vos dizer que no fim, depois de limpar tudo com aquelas folhas, aquele teste de Português ficou com menos merda que um teste de 12º da Cátia Palhinha. Estou a brincar, é óbvio que a Cátia não fez mais que o 9º ano. Bem, puxei as calças para cima, recolhi a minha mala que continuava lá intacta, apanhei o comboio a tempo e cheguei a casa são e salvo. Felizmente o cheiro a cocó não se entranha na roupa e no cabelo como o cheiro a fritos, se não a viagem tinha sido uma merda.





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