12 de novembro de 2014

Mãe, fui assaltado outra vez esta semana



Como sabem eu moro nessa bela localidade que é a Buraca. Esse paraíso, não pelos bosques mágicos mas porque se aplicam as leis da selva. Já devem ter ouvido falar muitas vezes da Buraca e da Cova da Moura nas notícias, sempre pelas piores razões. A meu ver é uma fama injusta, crescer na Buraca tem as suas coisas boas, como o facto de ter feito de mim um ser humano muito mais generoso, já que viver paredes meias com pessoas que vivem de forma muito carenciada, ensinou-me que era importante dar sempre um pouco de mim aos outros. Até porque se não o fizesse provavelmente levava uma facada. Andei sempre nas escolas da Buraca e da Damaia, os meus pais sempre acharam que levar porradinha fazia bem ao carácter. E fez. 


Nas minhas escolas já havia arrastões, mas há 20 anos atrás davamos-lhes outro nome, eram os chamados intervalos

Havia também educação física duas vezes ao dia, já que ir para a escola e a voltar para casa eram uma espécie dos 2 km estafetas, onde quem nos alcançasse na corrida, recebia a estafeta que entregávamos de braço esticado. Para quem não percebeu a metáfora, a estafeta era a carteira. Dentro da escola os assaltos eram mais à comida, lembro-me de termos que comer o pão com chouriço que íamos comprar a meio da manhã ao bar, sempre à pressa e atrás de um pavilhão. Ainda assim a norma era só conseguirmos comer metade, não roubavam o pão todo, pediam um "coche", que normalmente era de um terço a metade do pão, que aquilo era gente que precisava de se alimentar. Como podem ver, a convivência com o crime, ainda que juvenil, era constante e as tentativas de assalto eram de frequência no mínimo semanal. Entre todas essas houve algumas que mais me marcaram.

Bolas de futebol
Eu ia para o ringue atrás de minha casa jogar futebol com alguns amigos quase diariamente. Lembro-me de o fazer desde que tínhamos 8 ou 9 anos. Éramos 4 ou 5 e lá íamos nós, sabendo que aquela bola de futebol bem que podia ser descartável, porque era muito provável que não a trouxéssemos de volta para casa. Sempre que aparecia um grupo e nos perguntavam "Olha, deixa-me dar uns toques", já sabíamos que estava o caldo entornado. Lá dizíamos que sim, e por norma eles davam realmente dois ou três toques, antes de se irem embora com a bola. Havia também a técnica de a chutarem para fora do campo e dizerem que a iam buscar. E iam, mas para a levar para casa.

Casaco
Um vez roubaram um casaco a um amigo meu. Íamos a sair do campo de futebol, eu e ele só, e aparece um rapaz bem maior e mais velho que nós e usa aquela técnica antiga que era estender-nos a mão e cumprimentar-nos. Depois pediu o casaco ao meu amigo, azul escuro com listas brancas e vermelhas da Umbro. As coisas que me ficam na memória, mesmo já tendo passado uns 20 anos. Eu ainda disse para ele ficar antes com a bola, já que, aparentemente, estava com frio podia dar uns toques para aquecer. Ele não quis. Nós esboçamos ainda uma reacção mas ele meteu ao mão ao bolso como quem vai buscar uma faca para cortar um queijo alentejano. Fomos embora, um de nós com menos roupa.

50 escudos
Muito antes de haver o 50 cent, havia um rapaz que nos abordava semanalmente à ida para a escola e que pedia sempre 50 escudos. Eu nunca andava com dinheiro mas tinha amigos que levavam de propósito 50 escudos para lhe dar, qual scut do gueto. Houve vezes que me revistou a mochila, outras que me meteu as mãos nos bolsos mas como eu andava sempre com um rolo de notas entaladas nas nalgas nunca encontrou nada para me roubar.

Estação da Damaia
Antes de ter carro andava sempre de comboio, para a faculdade principalmente. Na estação, estava sempre um rapaz que fazia do assalto um pedido fofinho. Estava sempre nas máquinas dos bilhetes e pedia o troco. Eu normalmente levava certo, mas quando me sobravam uns cêntimos dava-lhe e ele agradecia. Quando não tinha ele também não refilava muito, até um dia, tinha eu já uns 20 anos em que não lhe dei, apesar de ter dinheiro na carteira. Ele vem atrás de mim a refilar e nas escadas agarra-me e diz "Dá-me já dinheiro se não eu roubo-te a carteira". Eu meti-lhe a mão na garganta e espetei-lhe a cabeça no vidro e disse que lhe esmagava a traqueia. Ele esbugalhou os olhos de admiração e não sabendo o que era a traqueia colocou as mãos à frente da pila a pensar que era ali que o ia atacar. Agarrei-lhe no pulso e torci-lhe o corpo, preparando-me para o atirar das escadas abaixo, quando duas pessoas que iam a passar nos vieram separar. Um senhor, já de meia idade começou aos berros com ele a dizer que da próxima vez não ia evitar que alguém lhe batesse porque ele merecia. Largamo-nos, ele ajeitou o casaco e foi-se embora. Fiquei com o ego lá em cima, mas pelo sim pelo não, nunca mais fui por aquela entrada da estação.

Pão com cuspo
Talvez tenha sido o assalto mais humilhante que me fizeram. Estava ainda na escola primária, vem um rapaz, dentro da escola mas que não era de lá e pede-me um bocado do pão que eu estava a comer. Eu tirei metade e dei-lhe. Ele agarra nela, olha com ar de nojo, cospe na metade que lhe dei e atira para o chão. De seguida rouba-me a outra metade. Filho da puta. Eu dei-lhe do meu pão, na inocência de que ele tinha mesmo fome e o gajo faz aquilo. Esse menino foi mais tarde preso, e ainda estará, por matar um polícia. Boa gente portanto. O pior foi dizer à minha mãe que a sandes tinha ficado melhor com cuspo. Ficou passada a dizer que eu nunca valorizo o que ela faz.

Diablo
Este, juntamente com o último foi o que mais me traumatizou. Estávamos em pleno pico da febre dos diablos, toda a gente tinha um e eu tinha acabado de comprar o meu, para o qual tinha andado a poupar durante muito tempo. Tinha-me custado 5 contos e era dos bons, não era daqueles de plástico dos chineses. Tinha estado à espera dele mais de um mês porque estavam esgotados e só se vendiam ali numa loja no Babilónia. Comprei-o e da primeira vez que o levei para a rua já não o trouxe. Estava com um amigo e uma amiga, todos com os seus diablos e aparece uma enchente de gandins. Eram mais de 20 e limparam-nos os diablos aos três, entre ameaças para não gritarmos que se não nos enchiam de porrada. Fui para casa a chorar e destilar ódio no meu diário, sim eu tive um diário ali entre os 13 e os 14 anos. Passo a citar o que eu disse nesse dia:

"Filhos da puta dos pretos! Porque é que Hitler em vez de matar os judeus não matou antes os pretos todos?!"

Nossa... que biolência! Felizmente, pela educação dos meus pais e pela inteligência que julgo ter, cresci e percebi que não tem nada a ver com raça, mas com questões sociais, geográficas e económicas. Mas sobre isso e o que eu acho do racismo já aqui escrevi neste texto.

E pronto foi muito isto a minha infância. Tornei-me um especialista a detectar perigo à distância e a criar técnicas de evasão qual espião profissional. Para mim isto era normal, não conhecia outra realidade, fazia parte do meu dia-a-dia e não era mau, era o que era. Não fui à tropa mas crescer aqui foi o meu Vietname. 

PS: A única vez que fui assaltado com uma arma, foi com uma seringa, mas sobre essa história já escrevi antes, foi uma espécie de Stand Up Robbery, que podem rever aqui.





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