15 de dezembro de 2014

Papa Francisco, o Xico-Esperto



Com a época natalícia que se aproxima, acho de bom tom falar sobre a Igreja Católica e o seu representante máximo, não estou a falar do Roberto Leal, mas sim do Papa Francisco. Primeiro que tudo, este texto não pretende ser uma discussão sobre religião, já que discutir religião com um crente é o mesmo que um skinhead explicar a um cego porque é que é racista. Ou um homem explicar a uma mulher que ela já tem malas e sapatos a mais. São discussões inúteis, tamanha é a distância racional das premissas em que as duas pessoas se encontram. Quem é ateu não consegue aceitar nenhum argumento que não seja fundamentado racionalmente, e quem crê numa entidade superior não pode fundamentar a sua fé apoiada em alicerces que façam parte desse espectro da razão. A fé é tudo menos racional e não estou a dizer isto no mau sentido. Não estou a dizer que quem é crente não é racional, mas sim que essa crença é em si irracional. É fundamentada com um sentimento interior de acreditar em algo sem a mínima prova, o que por um lado mostra a capacidade criativa fantástica do cérebro humano. Nem todos os ateus são inteligentes, nem todos os católicos são burros. Eu adorava ser crente, adorava acreditar que quando morrer não é o fim, que vou rever os meus entes queridos e ficar à espera dos que ainda cá ficaram. Adorava acreditar que vou reencontrar o meu cão, já que agora o Papa Francisco veio dizer que os animais também vão para o céu. Espero que vendam lá biscoitos daqueles que ele gostava, ou que tenham maças, que ele adorava e que eu lhas possa dar sem ser pecado. Infelizmente não nasci com essa capacidade de ter um amigo imaginário depois da idade normal de o ter. Não estou a ser irónico, era uma capacidade que eu gostava de não ter perdido com a idade.

Se eu ficar esquizofrénico e tiver um amigo imaginário, pelo sim pelo não, vou chamar-lhe Jesus em vez de Cajó, que assim não me mandam internar e com sorte ainda edito uns livros

Sim, era uma boca à Alexandra Solnado. Eu não fui educado de forma religiosa, não sou sequer baptizado, sou portanto um filho do demónio que vai arder no inferno e, já que assim é, vou fazer os possíveis para ir para a zona VIP. Posto isto, quero dizer que gosto do Papa Francisco. Acho que é bom que a Igreja Católica tenha um líder que recusa a ostentação que era prática comum até aqui. O outro dava palestras contra o consumismo sentado numa poltrona em talha dourada e com uns sapatinhos Versace. Aposto que até tinha dois diamantes incrustados nos testículos jurássicos. Este Papa é um xico-esperto e digo isto com o maior respeito pelo xico-espertismo, essa maneira de ser tão portuguesa. Digo que é xico-esperto porque apareceu na altura certa e com o carisma e diálogo certo para aproximar os mais jovens da Igreja e fazer com que os que não se revêem nela não a odeiem assim tanto. Também convenhamos, depois do Ratzinger qualquer um ia cair em boas graças, era o equivalente a depois de um Hitler a governar aparecer um Salazar, até ele pareceria uma excelente pessoa. Neste momento algumas pessoas estão a perguntar "Então mas o Salazar não era boa pessoa?", mostrando que gostar-se de Salazar está de mãos dadas com a falta de inteligência para interpretar figuras de estilo. O que mais me surpreende no Papa Francisco e no facto de ele parecer uma boa pessoa e inteligente, não é o facto de ser um Papa Católico, mas sim o facto de já ter sido porteiro de discoteca nos seus tempos de juventude. Toda a gente sabe que a esmagadora maioria dos porteiros da noite, perderiam a competição de separar o lixo contra o Gervásio. O Francisco, ao contrário deles, parece genuinamente um gajo porreiro, um avó fixe que todos gostaríamos de ter. Acredito que o seja mesmo, mas acredito também que tenha um departamento de marketing muito bom por trás, que percebeu o que era preciso na Igreja Católica nesta fase. Não se iludam, a Igreja Católica é acima de tudo um negócio, que tal como todos os negócios quer é gerar dinheiro e guia-se por essa linha, ficando as convicções morais para segundo plano.

Abriu as portas aos gays, não vamos estar aqui a fazer piadas sobre o facto de serem ou não as portas das traseiras, e fê-lo tanto pelo ponto de vista humano como por saber que os gays não poupam despesas na altura de festejar. 

Haver casamentos gays na Igreja representa um aumento de receitas substanciais em velas em forma de pilas, em purpurinas santas e em cocktails de água benta com Baileys 

Para não falar das sombrinhas com a imagem de Nossa Senhora que se iam vender à bruta. Abriu também a porta aos divorciados, esses monstros que tudo o que fizeram foi querer ser felizes sem ter que aturar uma pessoa ao lado com a qual já não querem compartilhar a vida. Mais uma vez, se os divorciados se puderem voltar a casar pela Igreja isto representa um aumento nas receitas. No entanto, o Papa Francisco não conseguiu convencer os bispos ou lá quem vota nessas merdas, que chumbaram a lei ou lá que merda se chama a coisa pela qual eles se regem. Foi um bom passo, foi bonito mas ficou tudo na mesma para já. Juntou-se e rezou com líderes de outras igrejas, num gesto de paz único, mas o mundo continua a rebentar-se todos os dias em nome de Deus, Alá ou outro qualquer. O hábito não faz o monge e o Papa não faz uma Igreja, mas pode ajudar na mudança. Este Papa tira selfies minha gente, selfies! Este papa andava de mota! O Xico, se não fosse Papa, era aquele tio excêntrico que se embebeda nas festas de família e pergunta aos sobrinhos ainda com 14 anos "Então e gajas? Já andas a papar gajas ou és maricas ali como o teu primo Alfredo?". Ganhou-se um bom Papa mas perdeu-se um excelente anfitrião de Natais e festas de anos da pequenada.

Um à parte, a Igreja Anglicana, uma das variações do Cristianismo, foi criada por Henrique VIII porque se queria separar da sua mulher e a Igreja Católica não lhe concedeu o divórcio. Quanto é que esta mulher lhe devia moer a cabeça? Têm noção do quão é preciso estar-se farto de alguém para se decidir criar uma nova religião só para nos vermos livre dessa pessoa? Sim, eu sei que era porque ela não lhe conseguia dar o filho herdeiro para o trono, mas é giro pensar que era porque ela estava sempre a perguntar-lhe em que é que ele estava a pensar, a perguntar quem era aquela amiga com ar de safada cuja foto do facebook ele fez like e ainda a refilar com ele diariamente por não baixar o tampo do trono real.

Voltando ao assunto deste texto. Sim o Papa Francisco parece melhor que a maioria dos que lá passaram, populista ou não, tem tomado medidas que tornam a Igreja menos má. No entanto, o que mais me faz confusão é a postura em relação ao aborto e ao uso do preservativo. Acho tudo o resto secundário em relação a estas duas questões. Se ele fosse a favor do aborto e contra o preservativo, ou a favor do preservativo e contra o aborto ainda vá que não vá, agora os dois ao mesmo tempo? Dava para contornar isto com o sexo anal, mas parece que também é pecado. O oral nem se fala, a boca é só para a homilia. Como é que se pode ser contra o uso do preservativo quando se sabe que há milhares de pessoas que morrem todos os anos infectadas com HIV porque, por convicção religiosa, não usam gabardina no trombinhas? Isto a meu ver é homicídio por negligência, algo que a Igreja Católica sempre foi perita. A Igreja tem uma alma voyer e uma fixação enorme sobre como e com quem é que as pessoas andam a fazer sexo.

Deixem as pessoas foder em paz e preocupem-se mais em não foder criancinhas

Isso é que era de valor, perceber se é a palhaçada do celibato, se é alguma coisa na água benta ou se é o departamento de Recursos Humanos que não consegue fazer o despiste a pedófilos. É que parece que é mais fácil a um pedófilo ser padre do que a uma stripper entrar na Casa dos Segredos. Acho que nos castings para Padre acontece algo deste género:

Frederico, chega à diocese de Braga para uma entrevista de emprego. À sua espera está o Padre Fábio, único padre com esse nome na região centro-Norte.

- Bom dia senhor padre.
- Bom dia meu filho. Estais preparado para a entrevista?
- Sim, senhor padre.
- Vamos só fazer aqui uns testes de despiste de pedofilia primeiro, Frederico.
- Não vinha preparado para isso, mas vamos a isso padre Fábio.
- Gostais de foder crianças, Frederico?
- Eu? Não, senhor padre.
- Desconfio. Para que quereis ser padre então?
- Senti o chamamento de Deus.
- Não seria o chamamento de foder crianças, Frederico? Pensa bem.
- Não, padre Fábio, acho que é mesmo de Deus.
- Juras?
- Juro.
- Pronto, está feito. Assina só aqui ao lado desta cruz. 

Perceberam o último trocadilho? Cruz que marca o sítio num documento para se assinar e cruz de Jesus Cristo pregado. Deus Nosso Senhor até largou uma pinguinha  de urina benta com esta piadola.

Eu não tenho nada contra as pessoas crentes, a maioria dos meus amigos são, tenho é muita coisa contra as instituições que lucram com as crenças das pessoas, com a miséria das pessoas, sim porque senão houvesse miséria havia muito menos Igreja e pouco ou nenhum dinheiro ganhava. Paguem impostos, afastem-se de todas as decisões políticas e de investigação científica e terão mais um bocadinho mais do meu respeito. Usem a fortuna toda que têm para pedir desculpas de joelhos por todas as atrocidades que fizeram e acabem com a fome no mundo. Não percebo como é possível haver um altar de ouro, uma igreja a custar milhões ou seja qual for o tipo de riqueza ostentada, enquanto houver apenas uma criança a morrer à fome. Não percebo como é que pode haver honra e orgulho numa merda dessas e dizer que é por um bem maior e porque o senhor de barbas lá de cima assim quis quando mandou cá o seu filho para morrer a pior das mortes. 

Estão a imaginar as meninas da AMI num peditório com um mealheiro de ouro, forrado a diamantes e rubis e a passar nas ruas de Ferraris, enquanto pediam 1€ aos transeuntes?

É mais ou menos isso que acontece com a Igreja Católica. Excepto a parte das meninas, que essas têm que estar fechadas em conventos. Não percebo. Juro que não consigo perceber esta hipocrisia. "Ah mas também faz coisas boas". Sim... e então? Que interessa isso? Isso era o mesmo que dizer que o Américo que bate na mulher e já a mandou para o hospital 11 vezes, de vez em quando também é meigo e lhe traz flores. Só não digo que a Igreja é a pior coisa do mundo, porque a pior coisa do mundo são as pessoas.

Bem, vou terminar por aqui, caso contrário estou aqui a noite toda a destilar ódio e isso não seria nada católico da minha parte, este texto foi muito coerente, que é para ter alguns pontos em comum com o assunto da religião. Gostava de terminar dizendo que, no dia que um Papa for a favor da liberalização do aborto, admitir que a sexualidade deve ser para ter prazer e não só para procriar e ainda tiver os tomates por debaixo da saia para admitir que provavelmente Deus não existe, aí sim, eu sou gajo para o aplaudir de pé, ou de joelhos até.





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