8 de janeiro de 2015

Gustavo Santos, o religiosamente correcto



O Gustavo Santos ontem resolveu armar-se em "Moral Coach" e dar uma lição de moral no seu Facebook, dando a entender que tem que haver limites no humor e que o atentado de Paris foi provocado por quem não respeita as "altas crenças" dos outros. E que quem morreu faltou ao respeito a essas pessoas e suas crenças. Falta de respeito a meu ver é ficar ofendido com piadas, insultar, ameaçar de morte, ou neste caso concretizar essas ameaças. Isso é que é uma falta de respeito.

Ficar ofendido com piadas sobre religião é um paradoxo interessante. Porque das duas uma: ou Deus não existe, ou a existir foi por vontade dele que essas piadas foram feitas.

Eu não tenho grandes problemas com o Gustavo Santos, até me parece bom moço. Dizem que era bom bailarino de hip-hop, participou num Big Brother "famosos", apresenta o Querido Mudei a Casa e é "Life Coach", mister-da-vida, como se diz na minha zona. Tem 5 ou 6 livros editados de auto-ajuda. É curioso que os livros se chamem de auto-ajuda mas que se tenham que comprar e dar dinheiro a outro que os escreveu. A única coisa que lhe invejo é o corpo, que gostava de ter. Não na minha cama, entenda-se. Mas isso se eu quiser muito e treinar no duro chego lá, já fazer crescer um cérebro é mais difícil, nem a jogar 1000 sudokus por dia e a resolver 2 cubos de rubik na retrete alguns lá chegam. Por todo o passado e presente do Gustavo, gabo-lhe a versatilidade, apesar de não lhe reconhecer talento nenhum especial. Mas até aqui estava tudo bem, sim achei ridículo os vídeos dele, o gesticular dele fazia lembrar o tradutor gestual do funeral do Mandela, o sotaque e a entoação dele fazem transparecer algumas temporadas no Brasil a tirar workshops na IURD, de onde para além da forma de falar trouxe muita da ideologia, embora sem a religião. As palavras que lhe saíam da boca, na minha opinião, não passam de palermices, ditados populares e coisas do senso comum decoradas com um palavreado bonito, que só os grandes vendedores de banha da cobra sabem usar. Reconheço-lhe esse talento, afinal. O de vender um produto que não vale nada, ou que vale apenas para quem está debilitado emocionalmente e precisa de ajuda e de um ombro.

Todas as piadas que se faziam sobre ele antes eram apenas e só isso, piadas sobre o quão ridículo os seus vídeos e o seu discurso era. Nada contra ele pessoalmente. Infelizmente, ontem as piadas transformaram-se em ofensas, a meu ver legítimas. Se calhar ele não queria dizer que o atentado foi merecido, acredito que não, mas foi o que pareceu. Infelizmente para ele, serviu de bode expiatório para todos os falsos moralistas que há por aí. Todos os que dizem "com coisas sérias não se brinca", ou "muito riso pouco siso". Todos que são muitos, porque vivemos num país que não sabe rir, ou não quer mostrar os dentes com medo que lhes vejam que lhes falta um, que por causa da crise não têm dinheiro para arranjar. A meu ver, falta de respeito é lucrar com as fragilidades das outras pessoas, com as depressões e as inseguranças, a vender ilusões em formato de livros, vídeos e palestras. Ajudam alguém? Talvez. Nunca se saberá se sem ele não tinham melhorado na mesma, pode ter sido só coincidência. As pessoas precisam deste tipo de motivador, compreendo que algumas sim, ainda assim não deixa de ser lucrar com as desgraças dos outros.  Li algures que o argumento do Gustavo em relação aos atentados era o mesmo que alguns homens (e mulheres) utilizam, dizendo que uma mulher que usa mini-saia e foi violada, tem culpa porque provocou. Sim, depois do que já aconteceu no passado, um jornal que faça caricaturas de Maomé habilita-se, mas queriam o quê? Que o medo e o terror vencessem a liberdade de expressão? Que uma mulher deixasse de se vestir como quer por medo? Que o politicamente ou religiosamente correcto imperasse e ninguém desafiasse as normas? Tomem juízo!

As caricaturas só foram feitas porque o extremismo religioso existe, não foi o contrário.

Ontem, para além das 12 vidas, perdeu-se um bocado da liberdade de expressão. Aquela que muitos lutaram pelo mundo todo, inclusivamente em Portugal, para que lhes fosse dada. A liberdade de dizer o que se pensa, seja no humor ou não, sem que lhes pusessem pimenta na língua. Ou a cortassem. Ontem perdemos todos, perdeu o mundo. Só o extremismo, religioso e político, ganharam.

Este texto ficou aquém do que devia, este assunto merecia mais, mas é tarde e amanhã acordo cedo, mas no fundo, tenho algo mais a dizer que resume tudo o que sinto: #GustavoVaiPoCaralho. O Gustavo Santos, mas principalmente todos os outros Gustavos que andam por aí.

PS: Já falei bastante de religião, para quem não leu aqui ficam alguns textos: Sandro Miguel o Jihadista Português, Papa Francisco o Xico-Esperto, Carta de Deus para o Homem





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