19 de julho de 2015

Aborto, só é pena não ser legal há mais tempo



Acho que ainda nunca tinha escrito sobre o aborto, talvez por já ser um assunto fora de moda, especialmente, desde a altura em que passou a ser despenalizado. No entanto, acontecimentos da semana passada, de tão ridículos que são, fizeram-me querer falar um pouco sobre isto. "O que aconteceu?", perguntam vocês numa excitação de quem sabe que este texto vai ofender pessoas. Então, é simples, o que aconteceu foi que um grupo de alunos da Católica (coincidência ou não) fez uma espécie de protesto, ao género daquele que se fez sobre o sofrimento dos caracóis. Parecendo impossível, este ainda foi mais descabido. Vários alunos posaram como se pode ver na foto, segurando a fotografia de um feto e uma frase nojenta. 
Na página, onde foi partilhada esta iniciativa, podia ler-se o seguinte: "Porque a vida de um ser humano é muito mais importante que a de um caracol, não compreendemos como é que pode estar a correr uma campanha de sensibilização em relação ao molusco quando há tantas pessoas a serem assassinadas todos os dias."

Bem, vamos por partes. Não acho mal as pessoas protestarem pelo que acreditam e se acham que o aborto é errado, força aí nas vossas batalhas. O que acho ridículo é o sensacionalismo deste tipo de protestos. "Pessoas a serem assassinadas todos os dias"? Mas que grande bando de atrasados mentais.


Chamar assassina a uma mulher que decide abortar, muitas vezes porque não tem condições para ter uma criança, é do mais baixo que se pode chegar.

E se for fruto de uma violação? E se for uma menina de onze anos que engravidou de um tio que abusou dela, como aconteceu há pouco tempo? Também é assassinato decidir interromper a gravidez? Um feto de dez semanas não chega a ter três centímetros de comprimento, nem a ter um cérebro formado e um sistema nervoso central. Por muito que se queira dizer que o ser Humano é especial, não é diferente de esmagar uma barata. Não sou eu que estou a dizer, são médicos e neuro cientistas, especialistas na matéria. Por alguma razão se fixou o limite nas dez semanas e não é permitido que se faça com oito meses. Não vou pelo caminho fácil de dizer que todos os que participaram neste protesto têm cara de abortos mal conseguidos, até porque a culpa é mais dos pais do que deles. São um bando de betinhos que não sabe o que custa a vida e que não sabem o desespero de uma mãe que sabe que não vai ter condições para criar um filho. Sim, poderá haver quem abusa e quase que usa o aborto como método contraceptivo, mas será uma minoria. A maioria faz porque não tem condições e porque não teve as mesmas oportunidades para ter acesso a uma boa educação e informação.

Para feitos cómicos, vou colocar aqui mais uma foto do protesto, que prova que a consanguinidade é uma coisa tramada.



Neste grupo todo de mentecaptos, há apenas um que se safa. Já ouvi teorias de que foi a professora que influenciou os alunos a esta iniciativa e que até tentou obrigar alguns, como se pode ver pela seguinte fotografia.



Pela cara do rapaz, ou está com gases ou não está a concordar muito em participar nesta palermice. Quem está a segurar nas folhas é, provavelmente, o aborto mor deste processo todo.

Desde que foi legalizado, o número de abortos tem vindo a diminuir, dizem os mais recentes estudos. De ano para ano, há menos abortos, menos do que os que se estimam que se faziam de forma ilegal. Portanto, parece que está a funcionar. Quem está contra, no fundo, está a favor de que eles voltem a aumentar e que se façam de forma menos segura e higiénica e que provocava a morte a muitas mulheres. No fundo, é isso que estes palermas são a favor. Eu também não sou a favor do aborto, acho que ninguém é, sou é a favor da liberdade de escolha. De dar poder às mulheres de decidirem o que querem fazer com o seu corpo. Num mundo perfeito ninguém precisaria de fazer um aborto, mas, infelizmente, o mundo está longe de ser perfeito. Fazer um aborto, dois, três, ou os que forem precisos, devia ser a menor das preocupações desta gente que se "preocupa" tanto com o bem estar do ser Humano. 

Obviamente que estar contra o facto de uma mulher poder decidir abortar ou não, está intimamente ligado à religião. Dizer que um feto de dez semanas já é uma pessoa, que sente e fica aborrecida em ser esquartejado, só faz sentido se acreditarmos que a partir do momento da concepção, é reservada uma alma e enviada do céu para a barriga da progenitora. Claro que se isto fosse verdade era de muito mau tom e acredito que a alma ficasse amuada, como ficam alguns taxistas, especialmente no aeroporto, quando a viagem é curta e eles têm que voltar para o fim da fila na praça. Imaginem o que é serem uma alma e dizerem-vos "Alma número seis milhões e quinhentos, chegou a sua vez. Vamos enviá-la para a terra!". Vocês fazem as malas, vão todos excitados para dentro da barriga de alguém, estão ali no quentinho, no bem bom, e, passadas cinco ou seis semanas, sentem que algo não está bem. Começam a chegar os químicos, ou um cabide, e falecem. Voltam ao céu, têm que voltar a tirar a senha e vêem que têm milhões de almas à vossa frente. É chato e, realmente, não se faz. Nestes casos o melhor é racionalizar e pensar que foi melhor assim, já que podia dar-se o caso de nascerem filhos de uma mulher que engravidou porque o marido abusivo não quis usar preservativo, e que tem três empregos para conseguir um ordenado de 500€ e sustentar os três filhos que já tem e que sabe que alguns se vão perder para o mundo do crime. Há uma teoria, bastante aceite, que diz que 50% das razões que explicam o decréscimo do crime em Nova Iorque, nos últimos anos, foi devido à legalização do aborto. É uma teoria que me faz algum sentido.

Não tenho muito mais a dizer, este tipo de gente, que fala do que não sabe e está mais preocupada com a vida dos outros do que em perceber o cerne da questão, dá-me vontade de lhes esbofetear a cara com um bebé que morreu à fome porque a mãe não tinha condições para o alimentar. Aos rapazes, era implantar-lhes um feto de rinoceronte na barriga e obrigá-los a dar à luz pelo rabo e sem epidural. Às raparigas, era obrigá-las a adoptar dez crianças que foram abandonadas por pais negligentes que tiveram vergonha de fazer um aborto por questões religiosas. Para terminar, deixo-vos com uma frase do maior comediante/filósofo de sempre, na minha opinão, George Carlin:

"Why, why, why, why is it that most of the people who are against abortion are people you wouldn’t want to fuck in the first place, huh?"





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