25 de agosto de 2015

Aventura em Marrocos (1/4): Chefchaouen



Parece que voltei de férias. Ainda estou naquela depressão e stress pós traumático de quem voltou ao trabalho e, por isso, com pouca criatividade para textos que exijam imaginação. Como tal, durante esta semana, vou contar-vos a minha viagem por Marrocos, dividida em quatro partes, que foram as cidades que visitei.

Sexta-feira, por volta das onze da noite, eu, a minha namorada, e um casal amigo, partimos da Buraca em direcção a África. 

Não estou a falar de atravessar a estrada em frente a minha casa para entrar na Cova da Moura.

Foi mesmo para o continente Africano. Arrancámos de carro em direcção a Algeciras, em Espanha, para apanharmos o barco até Tanger, de onde seguiríamos viagem até ao nosso primeiro destino, a cidade azul bebé, Chefchouen. A parte europeia do trajecto correu sem sobressaltos e chegámos a Algeciras por volta das 6.30h. Quando digo sem sobressaltos foi apenas porque o André se enganou a marcar o barco e marcou para as 8h em vez das 6h, como era suposto, caso contrário tínhamos ficado a ver navios, literalmente. Ele tem esse dom, uma vez enganou-se a apostar na Internet mas com a maior sorte do mundo o modesto Fátima ganhou ao Marítimo e ele ganhou quinhentos euros. Bem, lá esperámos pelo barco cerca de uma hora e meia, passámos pelos postos de controlo todos, onde mostrámos os passaportes uma e outra vez a polícias espanhóis pouco bem dispostos. Ninguém os pode julgar já que trabalhar a um sábado às sete e pouco da matina não é para quem quer levar a vida a sorrir. Lá entramos no barco, estacionamos o carro e subimos.

Contemplámos a paisagem iluminada pelo sol acabado de nascer e levamos com a brisa marinha no focinho ensonado. Fui ao WC fazer um xixizinho e desde logo me deparo com um acto atroz de terrorismo. Uma sanita cheia até ao cimo do que parecia ser o interior liquefeito de uma pessoa inteira. Uma amalgama épica de fezes, um autêntico Evereste de merda. Com uma directa em cima, com o balançar do barco e aquele cheiro a fim do mundo, confesso que tive que me conter para não regurgitar as bolachas de chocolate e batatas fritas que tinha comido na viagem. Em todo o barco havia um cheiro a vómito ressequido, pessoas mais fracas de estômago do que eu que haviam bolsado o seu interior algures num canto. Havia uma fila interminável para carimbar o passaporte, algo que era feito a bordo e após preenchimento de papelada. Claro que, à bom português, fomos os últimos a fazê-lo, já o barco estava atracado, sem termos estado a viagem toda à espera de, de pé, na fila. Os marroquinos têm jeito para o negócio mas nós temos as filas das lojas do cidadão  e da charcutaria do Pingo Doce que nos dão estaleca para este tipo de coisas.

Saímos do barco e cheiramos África pela primeira vez. Cheirava normal, normal, se ninguém me dissesse eu era capaz de jurar que apenas tinha apanhado o cacilheiro para a margem sul. Vamos pela direcção que sucessivos polícias nos vão indicando e passa por nós o primeiro veículo em sentido contrário, algo que veríamos mais à frente ser normal. Chegamos ao posto de controlo da fronteira onde somos mandados parar, juntamente com todos os outros carros. Uns dez polícias, todos em rodinha a conversar, não nos passam cartão nenhum e temos que ser nós a ir ter com eles a perguntar o que era preciso. Seguiu-se uma sucessão de papeis, carimbos, selos e declarações e aprovações. Foi aquele sketch dos Gato Fedorento do "Papel, qual papel", mas numa mistura de francês, espanhol e inglês. Revistam-nos o carro que é como quem diz que abriram a bagageira, olharam para as malas e perguntam "Alguma coisa a declarar?". Nós dizemos "não", eles acreditaram e seguimos viagem. Esperava-nos uma viagem de apenas duzentos quilómetros, mas por estradas onde até as cabras teriam entorses mesmo não usando saltos altos. Por entre vales e desfiladeiros, uma faixa para cada lado ou para o lado que desse mais jeito, já que as ultrapassagens nas curvas, com traço contínuo eram uma constante. Em Marrocos, as estradas têm as faixas que forem precisas. De vez em quando ia um carro no meio e os outros afastavam-se para a berma. Normal.

Passado uns tempos também nós já conduzíamos à taxista português depois de uma noite na casa da mãe Kikas.

Chegámos a Chefchouen por volta das três da tarde, com o sol a aquecer até aos 35ºC. As casas azuis escalavam as montanhas e recortavam o horizonte que emoldurava a cidade pitoresca de estradas apinhadas de gente, carros e burros. O GPS não apanhava a rua do Riad onde iríamos pernoitar e andámos uma meia hora às voltas. Ao passarmos pela segunda vez na mesma rua começámos a ser abordados por transeuntes a perguntarem se queríamos indicações. Como já sabíamos o que a casa gasta e que nenhuma das indicações era de borla, dissemos sempre que não. Eles são gajos insistentes e houve um que se meteu a correr atrás do carro numa subida. Passado um quilómetro ainda o conseguíamos ver pelo retrovisor a correr de braço no ar a gritar "Cristiano Ronaldo" e "Batatas fritas". Não me perguntem porquê, mas sempre que dizíamos que éramos portugueses diziam "Obrigado, sardinhas e batatas fritas". Eu a pensar que fish and chips era na Inglaterra... Entrámos por uma rua onde o carro quase não cabia e fintámos (qual CR7) o marroquino.

Subimos até uma rotunda que pelo mapa parecia ser perto do Riad. Uma curiosidade sobre rotundas marroquinas: são sempre antecedidas por um quilómetro de fila porque os gajos não as sabem usar. Há sempre um polícia em cada rotunda a controlar o trânsito porque com eles não há prioridades, faixas ou qualquer tipo de cortesia ao volante. É o caos e esta não era excepção. Carros estacionados a tapar caminho, as carrinhas ou automóveis maiores tinham que fazer a rotunda em sentido contrário para conseguirem passar. Cometemos o erro de parar para perguntar uma informação ao polícia e nisto aparecem logo dez marroquinos a "oferecer" ajuda. Já estávamos tão fartos de andar de carro que cedemos e estacionámos num parque improvisado por um deles, onde nos mandou parar o carro a tapar a saída a três ou quatro, mas que ele dizia não haver problema. O parque eram vinte dirham que são mais ou menos dois euros, pela noite. Pareceu-nos aceitável. Nisto apareceram mais dois marroquinos a dizer que nos levavam ao Riad e que era já ali. Um mais velho e outro mais miúdo com umas favolas de meter inveja aos outros marroquinos, muitos deles desdentados. Lá fomos atrás deles que levaram algumas das nossas malas aos ombros e nós sentimo-nos quais sultões da Pérsia com os seus escravos. Eles iam com passo acelerado e ao dobrar uma esquina a Xana, minha namorada, e a Rita, namorada do André, aceleram também o passo com medo que eles fossem fugir com as malas. São pessoas sem olho para detectar criminosos, algo que eu e o André, por vivermos na Buraca e Damaia, respectivamente, já sabemos fazer de olhos fechados. Era óbvio que eles, com menos de 60kg de massa pouco muscular, não iam fugir com malas de mulher com 30kg de roupa aos ombros. Até porque vestidos e calções curtos não se vendem bem naquelas zonas. O Riad era realmente logo ali e eles depois de nos deixarem ficaram a olhar para nós, como quem pede alguma coisa. Dissemos "Obrigado" e "Daqui não levas nada meu monhé, foste enganado na tua própria terra, és mesmo tonhó das ideias seu cafajeste!". Mentira, demos dois euros a cada um e agradecemos. Eles pareceram-nos contentes e cada um foi à sua vida.

Explorámos o quarto e o terraço, tomámos banho e fomos passear pela cidade. Andámos pela Medina e pelas ruas labirínticas coloridas a azul recém nascido, de onde brotavam pessoas e lojas de artesanato de todas as esquinas e ruelas. A cada passo, o cheiro a peixe misturava-se com o cheiro dos sumos de laranja acabados de fazer e com as especiarias expostas nas bancas de cada canto arredondado, por cada vão de escadinhas da mesma idade do azul que as pintava. A cidade era limpa e as casas tratadas. Apesar de vermos poucos turistas, pelo menos não locais, não havia muito assédio para nos venderem coisas ou nos darem indicações. De vez em quando, alguém nos perguntava se queríamos droga, mas ainda assim menos vezes do que as que me perguntam numa noite normal no Bairro Alto. Chefchaouen é conhecida por ser a cidade onde as pessoas se abastecem de droga e talvez por isso não fossem de estranhar as camisolas à venda, da selecção de Portugal, com o nome de Sara Norte em vez de Cristiano Ronaldo. 

Reza a lenda que ela, para além de levar bolotas no rabo, também conseguia lá transportar tapetes, narguilés e cajus com piripiri.

Notava-se que o comércio estava mais fraco desde que ela deixou de ser cliente. Passeámos, regateámos umas túnicas e umas outras vestimentas para irmos jantar trajados a rigor. Escolhemos um restaurante na praça central, que estava bem cotado no TripAdvisor, escolhemos quatro tipo diferentes de tajines, que é uma espécie de caçarola de barro onde eles fazem estufados com carnes e vegetais variados. Não eram más, mas estava à espera de melhor, aliás, a comida em Marrocos foi uma desilusão, mas sobre isso falaremos depois. No final da refeição bebemos o famoso chá de menta que vinha carregado de açúcar e sabia a pastilha elástica com recheio de pasta de dentes.

A noite caiu e demos mais uma volta pela cidade a apreciar a sua beleza única e a sensação de estarmos num país realmente diferente do que estamos habituados. Era outro planeta, saído da mente de George Lucas depois de fumar umas bolotas locais. Fomos para o quarto, direitos ao terraço, onde jogámos às cartas que haviam sido compradas numa espécie de papelaria que vendia tudo, e onde as regateámos de 2€ para 1€. Dois baralhos, uma pechincha. Jogámos umas horas, acompanhados de um vinho de box Ermelinda que viajou desde Portugal. Ouvimos os altifalantes com as rezas e o barulho na rua era constante, fazendo crer que a cidade não queria dormir mesmo sem ter bares, discotecas ou qualquer estabelecimento de diversão nocturna. Fomos nós dormir por ela, depois de estarmos mais de 36 horas sem dormir e de 16 horas de viagem. Acordámos restabelecidos e tomámos um pequeno almoço impecável, com direito a pão, queijo, manteiga, mel, ovos e outras coisas boas, servidas por um marroquino muito simpático e cheio de salamaleques. Pagámos e deixámos uma gorjeta aos empregados que foram realmente atenciosos e que se via serem boa gente. Eles agradeceram-nos com um passou-bem no qual, ao contrário do nosso, levam a mão ao peito antes do aperto de mão. Talvez um sinal de respeito ou, quem sabe, para limpar macacos do nariz que com o calor ficaram ressequidos nos dedos. Consigo estragar todos os momentos bonitos.

Fomos à nossa vida. O carro estava no parque, seguro e sem os carros que estavam atrás do nosso. Não sei como os tiraram de lá sem ser por peças ou a arrastarem o nosso com o auxílio de um boi-almiscarado. Sem desvendarmos esse mistério, partimos em em direcção à próxima cidade, Marraquexe, que seria o nosso poiso durante três noites e que tem muito para contar mas que deixarei para a próxima parte. Deixo-vos com umas fotografias para verem que eu sou muito artístico a capturar momentos em formato digital, e, amanhã a saga continua.











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