26 de agosto de 2015

Aventura em Marrocos (2/4): Marraquexe



Para quem não leu, a aventura marroquina começou em Chefchaouen, onde, depois de pernoitarmos, seguimos viagem em direcção a Marraquexe. Foram cerca de 700 quilómetros, duzentos dos quais feitos em estradas secundárias, com dezenas de operações STOP à entrada e saída de todas as terriolas por onde fomos passando. Para nossa desilusão, nunca nos mandaram parar nem olharam duas vezes para o nosso carro. Matrícula portuguesa deve ser sinal de falta de dinheiro para pagar multas inventadas. Ainda dizem que a crise não tem vantagens. A viagem foi demorada mas fez-se bem. Passámos pelo centro de Rabat, a capital marroquina, onde conduzimos por entre um serpentear caótico de carros e motas. A cada segundo havia uma contra-ordenação grave e pessoas a atravessar vias rápidas a pé, numa pressa que contrastava com a cidade que parecia ter parado no tempo há vários anos. Mais uma vez, as ruas iam tendo as faixas que dessem jeito e facilmente uma estrada com duas faixas, se transformava numa autobahn de seis para cada sentido.

Chegámos a Marraquexe já o sol se tinha escondido há muito. Já passava um pouco da meia-noite e tal como na primeira paragem, o riad ficava já dentro da Medina nas estradas onde apenas passam burros anorécticos. Percorremos os labirintos castanhos da cidade quase deserta, depois de um dia intenso de comércio. Estacionámos o carro ao ver um sinal de passagem proibida e quando o GPS nos dizia que só faltavam mais 300 metros que tinham que ser feitos a pé. 

Deixámos ali o carro, num beco que convidava ao assalto e ao amor feito no rabo sem consentimento.

Fomos apressados mais confiantes nas reviews do TripAdvisor que diziam que Marraquexe era mais segura que a Buraca. De malas aos ombros e trolleys pelo chão, fazendo um barulho no asfalto que fazia as poucas cabeças acordadas virarem-se para ver o que se passava, lá fomos. Chegámos a um cruzamento e ao esperarmos que o GPS actualizasse a posição, veio um grupo de rapazes ter connosco a perguntar qual era o riad que estávamos à procura. Dissemos o nome, ele disse que era já ali e que ia connosco. Nós fomos.

- Spanish? - pergunta ele.
- No, portuguese. - respondo eu.
- So you speak spanish.
- Yes, but in Portugal we speak portuguese.
- Similar to brazilian?
- In Brazil they speak portuguese as well, but a diferent accent.
- Ok. Me gusta mucho Cristiano Ronaldo.
- Vale.

Entramos por becos quase sem luz, sem ninguém, com esse rapaz mais velho ao meu lado e dois mais novos atrás a ver se também pingavam uns dirhams para eles. O André pergunta-me se estamos a ir na direcção certa, como quem já tem um pinguinho na cueca. Eu não tinha a certeza mas disse que sim na mesma. Nisto, apagam-se as luzes. Toda a cidade fica às escuras! Passou-me logo pela cabeça que poderia ser um plano elaborado para nos assaltarem, mas depois pensei que era parvo já que os marroquinos, que eu saiba, não vêem no escuro como os gatos. O rapaz acendeu a lanterna do telemóvel e continuou a guiar-nos. Passámos por um túnel onde se vislumbravam sombras de várias pessoas, construídas apenas pela luz da lua que ia alta. Passámos no meio deles, cheios de confiança de que talvez fossemos ser assaltados. Não fomos. Chegámos ao riad, demos cerca de dois euros ao rapaz, como havíamos feito com os outros na cidade anterior, e ele diz que é pouco. Pede mais e nós damos outros três. Ele queria ainda mais, mas recusámos. Ele agradeceu, foi-se embora e nós entrámos pela porta que separava as casas degradadas, do riad luxuoso que em Portugal custaria duzentos euros a noite, pelo qual apenas pagámos 20€ cada um. Deixámos as malas e fomos até ao terraço apreciar o céu estrelado que a falha de electricidade na cidade destapou. Ficámos ali algum tempo na conversa e depois fomos dormir.

Acordámos cedo, tomámos o pequeno almoço e depressa saímos do riad para ir explorar a cidade. Íamos com alguma apreensão mas descansámos ao ver que o carro estava são e salvo, sem vidros partidos ou sinal de arrombamento. Desde logo fomos abordados por um marroquino que disse que não era guia mas que nos indicava o caminho para o centro. Insistiu para irmos ver o sítio onde trabalhavam as peles dos animais e impingiu-nos a outro marroquino que ia a passar, dizendo que ele ia para lá, pois era lá que trabalhava. Seguimo-lo, com ele sempre a dizer que não era guia, sinal que nós pensávamos ser a indicar que não queria dinheiro. Andámos atrás dele a passo apressado durante quinze minutos, em curva e contra curva, por entre ruas e ruelas apinhadas de gente, de motas e de carroças. Havia bancas a vender abacates ao lado de pilhas de lixo em todo o lado.

Havia pão e croissants que pareciam cobertos de chocolate mas que ao chegar mais perto se via ser um aglomerado de moscas. 

O cheiro na cidade também não é o melhor, é uma espécie de bedum, com terra e peixe deixado ao sol em banho-maria de urina. Lá chegamos a um local onde o nosso não-guia nos deixa e se apressa a ir embora. Pensámos "Epá sim senhor, um gajo que dá indicações sem querer dinheiro". Nesse momento, é-nos dado para a mão um ramo de menta a cada um e somos convidados a entrar no local onde as peles eram feitas. O ramo de menta era para contermos os vómitos devido ao cheiro de carne putrefacta. Cheirava a morte e a fim do mundo. Tentei respirar sem a menta perto do nariz durante uns segundos e só não chamei o tio Gregório porque ele não estava atento. O senhor que nos acompanhava, foi explicando o processo do tratamento da pele, do qual só retive que passava por tirar o pelo, mergulhar em caca de pombo e depois passar por cal. Os motards e as dominadoras vestidos de cabedal estão, portanto, cobertos de roupa que se faz com fezes de pombo. Depois de cinco minutos de visita guiada fomos deixados por ele, sem pedir nada em troca, numa loja de dois pisos cheia de artigos feitos com a pele que ali se tratava. Trabalhavam ali mais de quarenta famílias, numa espécie de favela improvisada e construída à volta daquele recinto nauseabundo. Fomos recebidos por um senhor já de meia idade, porte forte e com um sorriso rasgado.

- Bien venidos à nuestra cooperativa. Puedes ver e se te gusta puedes comprar. Si no, no hay problema.
- Gracias, vamos a ver.
- Portugueses son como los Marroquinos... tesos. Hahaha.

Acabámos por comprar uns cintos de pele, e, ao sairmos, aparece o primeiro marroquino que encontrámos à saída do riad, logo seguido pelo que nos fez a visita guiada pelas peles. Este último pediu-nos 5€ a cada um, que nós feitos parvos pagámos. Devíamos ter dado 5€ por todos e ele que fosse endrominar pessoas para outros lados, mas ainda estávamos verdes e cedemos à pressão, bem vistas as coisas era só o nosso terceiro dia em Marrocos. Nisto aparece também o outro não-guia que andou connosco mais tempo. No total, com os cintos, gastámos ali 60€, de onde comeu o senhor da loja e os três marroquinos simpáticos que diziam não ser guias. As mulheres andam de burca preta a mostrar os olhos, mas eles é que são ninjas da aldrabice.

Fomos ao centro e almoçámos no terraço de um restaurante, com uma vista fantástica para a azáfama da praça Jemaa El Fna e as suas tendas, encantadores de serpentes e bancas de sumo de laranja natural, que usavam copos de vidro embora não tivessem água para os lavar. A vitamina C mata o bicho, dirão eles. Pedimos vários pratos e todos eles estavam uma valente merda. Os couscous de frango que pedi eram suficientes para alimentar três pessoas mas estavam mal cozinhados e temperados. Não fiquei fã, mais uma vez, da comida marroquina. Fomos passear, comprámos Ray Ban contrafeitos e puseram-me uma cobra ao pescoço para tirar foto. Não tirei e disse que não havia dinheiro por me ter colocado um réptil sem autorização. Jantámos no hotel, uma tajine de galinha, a primeira refeição decente em terras de sua majestade marroquina. Foi a Rita, namorada do André, que pediu o jantar e disse ao senhor "It's a tajine kitchen".

Kitchen, chicken, soa tudo ao mesmo e pelos vistos sabe igual.

O segundo dia começou antes das oito da manhã, já que tínhamos marcado uma excursão às cascatas de Ouzoud, logo cedo. Fomos com mais dois casais que não conhecíamos, numa carrinha de nove lugares, conduzida por um marroquino com o demónio no corpo que deve ter tido aulas de condução com o instrutor de ski do Schumacher. Era suposto serem duas horas de viagem mas acabaram por ser três, mesmo com a condução psicopata do motorista de belzebu. A meio parámos uma loja de óleos que devia ser da prima dele, para ver se nós comprávamos alguma coisa. Nem entrámos, já fartos de que nos tentassem sempre impingir os negócios dos amigos e da família. Ao chegar as cascatas o senhor disse-nos que nos deixava ali e se quiséssemos para contratarmos um guia, algo que nos deixou a todos, os oito, estupefactos, pois pensávamos que o que tínhamos pago já tinha guia incluído. Parece que não. Eu refilei um bocado mas também não estava para me chatear. Se soubéssemos disso tínhamos ido com o nosso carro e teríamos poupado uns 60€. Apareceu logo um gajo com ar de jamaicano a vender-se como guia, disse que nos levava aos sítios menos turísticos e mais calmos e que cobrava apenas três euros por pessoa. Mais uma vez, cedemos e lá fomos com ele. Era um gajo simpático que foi sempre contando a história dos locais por onde passávamos, da forma de como as famílias ali viviam quase todas das oliveiras que se sucediam por entre as margens dos penhascos que embalavam as várias quedas de água paradisíacas que se deitavam de vários metros de altura.

- Down there, is where I live with my community. My family and friends. We are a nomad people, we stay in a place for a few years, then we go. We go and we never come back. - diz ele com um brilho nos olhos.
- How long do you live here? - pergunto.
- All my life. I'm 30 years old.
- Ok...
- I'm not arabic. I'm a free man. Me and my Bob Marley family.
- Great! - digo.
- When I say Bob Marley, I'm not saying we are going to buy and sell ganja. It's more about music and freedom.
- Yes, of course. Peace and love. - sorrio.
- Exactly my friend. - diz ele com a mão no meu ombro - Peace and love... and ganja.

Rimo-nos e lá fomos andando, descendo e subindo ravinas escorregadias mas onde havia os ramos das árvores para nos segurarmos, ou nos ampararem a queda. Vimos cascatas e bebemos um sumo de laranja feito com água da nascente, enquanto ele foi fumar uma ganza com os outros dois casais de turistas. Fomos ao banho, numa água castanha mas da argila e não de sujidade. Faz bem à pele, dizem eles. Mergulhámos, passámos por trás das quedas de água e ficámos ali, um pouco, naquele pedaço de paraíso num país que as únicas riquezas que tem são estas naturais. Secámos, encontrámos um casal de portugueses, os únicos em toda a nossa estadia em Marrocos, voltámos a subir, andámos de barco e vimos macacos selvagens de perto. Pagámos ao nosso guia e despedimos-nos dele. Enquanto comíamos algo à espera do motorista assistimos a uma cena de pancadaria entre dois locais que surgiu do nada à porta do restaurante. Não sabemos o motivo, mas vimos as mulheres todas aos gritos e a chorar, quais carpideiras do UFC. Reparei que eles não lutam ao soco, dão chapadas de mão aberta, talvez por todos viverem do trabalho feito com as mãos e ninguém querer arriscar um pulso ou dedos partidos. Isso, ou são todos umas Marias Amélias que não sabem andar à bulha. Não eram chapadas à Krav Maga nem à padrasto, eram chapadas de meninas da primária. Aquilo acalmou e fomos à nossa vida, em mais uma viagem de três horas, cheia de solavancos, buracos e perigos de morte.

Se o avião é o transporte mais seguro do mundo, aquela carrinha de nove lugares conduzida por aquele senhor era o menos seguro de sempre.

Chegámos e jantámos fora. hambúrguer de dromedário, só porque sim. Sabe a vaca porque provavelmente era vaca. Fomos até à praça central e ficámos admirados com a vida que ela tinha ganho desde a tarde do dia anterior. As pessoas eram dez vezes mais, as luzes dos candeeiros e velas à venda também. Havia fumo da comida que perfumava toda a praça e escondia os aromas menos convidativos às narinas europeias. O André tinha partido os óculos que tinha comprado e, por isso, quis ir ver de outros. A banca onde os tínhamos comprado já estava fechada e fomos a outra. Um senhor, musculado e sem ar de marroquino, antes com ar de quem esteve já preso por violar pessoas e animais, atendeu-nos com uma euforia desmedida de sermos portugueses. O André queria um modelo igual aos outros:

- I broke others and I want ones equals! - diz-lhe, mostrando que ele e a sua Rita, da tajine kitchen, foram feitos um para o outro.
- Equals? - questiona o vilão do James Bond, virando-se para outro a perguntar se ele tinha "equals" - No. Only Ray Ban, Dolce Gabbana, Gucci... - termina.
- No no! Ray Ban but equals! - insiste o André.
- Ray Ban equals? I don't have that model, sorry.

Rimo-nos que nem perdidos e reparámos que já não sabíamos o caminho de volta à praça. Vários locais tentaram-nos dar indicações e diziam-nos até que por onde estávamos a ir estava fechado e era perigoso. Tudo para nos enganar e irmos com eles e abrirmos a carteira. Ignorámo-los a todos e fomos dar ao sítio certo, claro. Aldrabões. Fomos ver de mais umas compras e chegámos a uma tenda onde o André e a Rita decidiram comprar um bule e copos de chá. As negociações foram mais intensas que as do Eurogrupo e mais acesas que as da minha mãe a discutir com o meu irmão para ele sair da cama às quatro da tarde. Já todos sentados no chão, a escrever vários valores numa folha para que não houvesse mal-entendidos. O vendedor era um fartote e genuíno, o riso foi constante e ele parecia ter ido com a nossa cara, mas pode ter sido como as strippers nos conseguem convencer que se sentem atraídas por nós, só para nos sacar dinheiro. Seja como for, eles compraram o bule e eu e a Xana comprámos um candeeiro que também foi alvo de muita especulação de mercado. Fiz um bluff a vir-me embora só porque ele não descia dois euros finais para dar conta certa. Deu resultado e ele cedeu porque claro que ainda estava a ganhar balúrdios naquele candeeiro de bronze com trabalho feito à mão por crianças marroquinas.

- Good luck to you my friends. - diz ele com um sorriso na cara.
- To you to.
- Don't forget, you have to marry and have children, so make good fuck tonight. Always good fuck.

Rimo-nos, apertámos a mão e saímos de lá com mais do que bujigangas para a casa, mas sim com uma experiência genuinamente marroquina e uma hora bem passada. Depois de mais umas voltas, decidimos ir de táxi para casa, outra experiência que se deve ter em Marrocos. Apesar de nas estradas vermos táxis com sete ou mais pessoas todas amarfanhadas no banco de trás, sempre que nós pedimos um disseram-nos que só levavam três pessoas e que, por isso, tinham que ser dois carros a levar-nos. Uma camaradagem taxista para que todos tenham mais serviço, obviamente. Os táxis são, invariavelmente, carros velhos, batidos e riscados, que vão desde Fiat Uno a Mercedes 200d do tempo em que o meu avó tinha idade para ir à tropa. Lá negociámos com um que concordou levar-nos aos quatro e baixámos o preço de 10€ para 6€. Não há taxa de activação para ninguém e o taxímetro existe mas está sempre desligado. Ele ia a conduzir e a falar ao telemóvel e passámos mesmo em frente ao posto da polícia, todos sem cinto. Uma terra sem lei, não muito diferente da Buraca onde toda a gente sabe que os sinais vermelhos são só para enfeitar. Chegámos ao riad, fomos dar cabo da segunda box de vinho que tínhamos levado de viagem, enquanto jogávamos à sueca, só para nos sentirmos mais na Europa. No dia seguinte, foi acordar, pagar e seguir viagem, rumo à próxima paragem, Meknès, a capital Berbere, mas isso ficará para a próxima parte.

Aqui ficam umas fotos a demonstrar, mais uma vez, as minhas capacidades artísticas ao nível de usar o telemóvel. Amanhã, a saga continua.











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