15 de outubro de 2015

O cavalheirismo morreu com a igualdade



Deu-me para a nostalgia (e preguiça) e decidi reeditar o primeiro texto que escrevi neste humilde estabelecimento.

Acho que o cavalheirismo é uma palermice. Gosto da boa educação e respeito, quando se justificam, mas parece-me que o cavalheirismo é discriminatório. Não acreditam? Vamos por partes:

Pagar o jantar (especialmente se for primeiro encontro)
Nem sou muito forreta, mas acho descabida toda esta noção de que fica bem ao homem pagar o jantar, ou as bebidas, ou o motel. Até o posso fazer, mas porque sim e me apetece, e não porque fica bem e é esperado que o faça. Se uma mulher reparar que eu não paguei o jantar, então, provavelmente, não merece um segundo encontro. Esta tradição existe por duas razões: A primeira porque a mulher não era economicamente independente, então tinha de ser o homem a pagar. Mas isto acontecia, e acontece, para demonstrar poder sobre o sexo feminino, mostrando quem é que manda e mete comida na mesa. Nos dias de hoje, de igualdade, isso já não faz sentido e acho que é continuar a discriminar. A segunda razão nasceu pelo facto de o homem pensar que aumenta as suas possibilidades de praticar o coito pagando o jantar à donzela. O pior é que é capaz de ser verdade em muitas situações. Quanto maior for a conta, mais probabilidade há de se comer três pratos a seguir. Uma vez uma rapariga "esqueceu-se" da mala e da carteira quando fomos jantar fora. Duas vezes. Não houve terceiro encontro. Gostava de saber se já alguma mulher pagou, por iniciativa própria, a conta do jantar num primeiro encontro. Tenho sérias dúvidas.

Ceder o lugar a uma mulher
Se eu não estiver cansado e a mulher em questão vier carregada de sacos e com um ar de quem vai ter um AVC, obviamente que cedo o meu lugar sem qualquer problema. A questão é que também o faria se fosse um homem a estar nessa situação. Agora, privar-me do meu descanso só porque fica bem devido à noção antiquada de que as mulheres eram seres mais fracos, é algo que não me agrada. Não gosto de discriminar. Quem tem energia para andar dez horas num centro comercial, correr trinta lojas com 12 sacos na mão, tudo isto de saltos altos, tem, certamente, energia para aguentar uns minutos em pé. Já agora, em termos de prioridade, deixo-vos um enigma: estão dois amigos sentados numa carruagem do metro e entram quatro pessoas. Um velho de bengala com aquela tosse de quem já não vai aproveitar a vida muito mais tempo; uma velha a carregar uma grade de minis aos ombros; uma trintona com seios épicos e ar cansado de quem esteve a fazer uma maratona sexual mas que ainda lhe apetece mais; uma criança preta que pisou uma mina e ficou sem uma perna. A quem devem, os dois jovens, ceder os seus lugares?

Mulheres e crianças primeiro em caso de tragédia
Escandaloso! Crianças ainda vá que não vá, nem que seja para não as ter de aturar aos berros na fila de espera. De resto, mulheres e homens em pé de igualdade, se faz favor! É eu apanhar-me num naufrágio a ver se cedo o lugar na fila dos botes salva-vidas. Até passo à frente, se for preciso! Derrubo duas ou três velhas e mando uma grávida borda fora. Se só deixarem entrar mulheres e crianças num barco salva-vidas, depois quem é que se ia saber orientar e conduzir sem raspar nas rochas? Há que pensar nas coisas.

Proteger do frio
Ceder o casaco quando estão -4ºC ao Sol porque a mulher achou que não devia levar casaco, porque não tinha nenhum que ficasse bem com aquelas botas: Temos pena! As mulheres estão sempre a gabar-se que têm mais capacidade de sofrimento do que os homens e mais resistência à dor. Então, ora aí está uma boa maneira de provar tais afirmações. Até porque, depois, ficamos constipados e com febre e como nós somos mais mariquinhas vamos queixar-nos muito mais do que elas. Por isso não há o porquê de arriscar. Se eu tiver calor e ela frio cedo, educadamente e de forma protectora, o meu casaco. Mas, se depois começar a sentir um fresquinho peço-o de volta. O segredo é usarmos sempre um casaco da cor que ela mais odeia.

Abrir a porta para uma mulher passar primeiro
É uma questão de cortesia e boa educação que deve ser feito a qualquer pessoa, homem ou mulher. Muitas vezes, especialmente em elevadores, estou à espera e chega uma mulher toda lampeira e age como se fosse a minha obrigação deixá-la ir à frente. Nesses casos faço questão de passar primeiro e não segurar a porta. A não ser que a mulher em questão justifique deixá-la passar para poder observar melhor outros ângulos. De certeza que foi para observar glúteos que essa moda surgiu. Por exemplo, a subir escadas, faz-me todo o sentido deixar as mulheres de mini-saia irem à frente. Toda a gente sabe que aquilo prende a mobilidade e se caírem para trás, está lá quem lhes meta a mão.

Avisar o momento do clímax
Aquando do sexo oral, efectuado pela mulher ao homem, diz que é de cavalheiro avisar quando estiver a chegar o momento do lançamento da língua de camaleão. Quer dizer, um gajo chegar a casa com um ramo de flores ou uma caixa de chocolates de surpresa, tudo bem: «Ai amor, adoro quando me fazes surpresas». Quando é uma surpresa que vem cá de dentro, somos uns porcos e insensíveis à sensibilidade da epiglote da menina. Enfim, quem é que vai entender as mulheres?

Concluindo, prezo muito o romance, mas prezo ainda mais a igualdade. Acho que os princípios do cavalheirismo estão assentes no machismo e a verdadeira igualdade pressupõe a extinção de privilégios. Boa educação e cortesia, sim. Cavalheirismo obrigatório, não. Num casal gay ou lésbico, será que também se coloca este problema? Quem paga o jantar num primeiro encontro gay? Quem finge que percebe de vinhos e faz a prova? A quem vai o indiano vender rosas? São tantas as questões importantes que não vejo serem discutidas nas reuniões dos partidos. É por isto que Portugal está como está.





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