27 de fevereiro de 2017

Cronologia dos Oscars feita por quem sabe



Devo começar por dizer que não tinha visto nenhum dos filmes nomeados, à excepção do The Arrival. Portanto, senti-me como quem vai a um concerto em que vês toda a gente a cantar as músicas e tu não conheces nada, mas tentas acompanhar o refrão a meio da música e fazes aquela figura de começar a cantar e afinal era parte só instrumental. Ris-te e fazes aquela piada do «Ele enganou-se.».

00:00h - A cerimónia começou com o habitual desfile na passadeira vermelha, ou, como dizem os nossos VIPS que foram ver os Oscars pela televisão no Amoreiras, a passadeira encarnada. Pessoas vestidas com cortinados e tapetes de Arraiolos. Alguns foram vestidos por Chanel, Tom Ford ou Gucci e outros foram vestidos pela mãe daltónica. 

01:00h - Começa a entrega de prémios e pouco nos interessa quem vai ganhar, o que queremos ver são os discursos de aceitação, leia-se anti-Trump, e ver pessoas a fazer discursos sentidos sobre desigualdades com uma estatueta de ouro na mão e com vestidos que davam para alimentar uma família que goste de comer seda e brilhantes.

01:30h - O primeiro vencedor é logo uma entrada à bruta por trás nas políticas de Trump. Ganhou um preto muçulmano. Trump só não refilou porque foi o Oscar de actor secundário.

01:45h - Um dos comentadores da SIC diz «O Jimmy Kimmel tem sentido de humor.». Ya, e o Ronaldo sabe dar uns toques na bola, capitão óbvio.

01:50h - Percebemos que estamos na presença dos melhores actores do mundo quando conseguem bater palmas com convicção quando são anunciados os vencedores daquelas categorias que não interessam a ninguém.

01:55h - A minha namorada pergunta, pertinentemente, se nunca houve feministas de meia-tigela a indignar-se por as pessoas receberem um Oscar em vez de uma Oscarette. Eu digo que não, mas só porque a estatueta não tem pila e é, claramente, um transexual de cabelo curto.

02:10h - Um dos comentadores da SIC diz que aquela curta metragem que ganhou o prémio está disponível online para vermos gratuitamente. Ri-me. Todos os filmes estão disponíveis online para vermos gratuitamente. Burro.

02:20h - Um dos milhares de intervalos, nos quais há sempre um anúncio da Rolex, só para mostrar às pessoas que estão acordadas que é por não dormirem bem e não acordarem cedo para trabalhar que nunca vão ter um Rolex.

02:30h - Viola Davis ganha o prémio de melhor actriz secundária num papel principal. Este ano os Oscars são os 100 metros: os brancos ficam a vê-los passar.

02:35h - Nicole Kidman mostra que se está a transformar num dos robôs do filme Stepford Wives, mas que faltou ao update que tem a função que ensina a bater palmas. Parece que aprendeu na mesma escola do Balsemão. Isso não é bater palmas, Nicole, isso é um ritual de acasalamento de leões marinhos. Enfim, com tantas plásticas nem consegue encolher os dedos que ainda lhe saltam as unhas dos pés e descola a bacia.

02:45h - Aparece o actor mais bem pago do mundo: The Rock. Ya, é verdade. A cara dele faz-me lembrar manteiga de amendoim, não me perguntem porquê.

02:55h - Aparece uma senhora em cadeira de rodas. Ovação em pé, mesmo a gozar com ela.

03:00h - Pergunto-me porque é que nunca ninguém agradeceu aos pais que eram umas grandes bestas e que os obrigaram a fugir de casa aos 12 anos em busca de uma vida melhor em Hollywood. Ingratos.

03:10h - Há um gajo que não me lembro quem é que faz um discurso feminista e que diz que as mulheres são melhores do que os homens a fazer oposição sem ódio. Ri-me tanto. Sem violência física, sim, mas sem ódio? Este gajo não sabe nada do universo feminino.

03:15h - Jimmy Kimmel preparou uma partida e vai apanhar cerca de meia dúzia de pessoas que pensam que vão a um museu e vão entrar em directo do Dolby Theater. Uma ideia gira, mas Jimmy esqueceu-se que as pessoas são pategas. Para além de vermos as elites todas a bater palmas enquanto pensam «O quê? Vão deixar entrar pobres aqui?» e «Devia ter tomado o desparasitante.», vemos os incautos turistas a entrar e a protagonizar aquela vergonha alheia de antologia. Pessoas que em vez de aproveitarem o momento vêem tudo pelo ecrã do telemóvel enquanto filmam e tiram selfies, com e sem pau de. Onde é que está um daqueles Samsungs que explode quando um gajo precisa deles? Enfim, espero que naqueles novos planetas que a NASA descobriu haja vida inteligente.

03:30h - Aparece o carro do Regresso ao Futuro com o Seth Rogen e, quem é que vai a conduzir? Michael J. Fox. Grande perigo. As pessoas levantam-se e dão mais uma ovação em pé, mesmo a esfregar na cara do Michael «Olha nós que nos levantamos na boa e batemos palmas sem ser involuntário.». Falta de respeito.

03:40h - Apercebo-me que são três e tal da manhã e que ainda nem deu aquela montagem com o pessoal que morreu no ano passado. Isto é coisa para só acabar depois de almoço.

03:45h - Os comentadores da SIC tentam falar sobre política e quem já estava com sono acaba por adormecer. Ver realizadores e críticos de cinema a falar de política internacional é o mesmo que ver o Pedro Arroja falar de Darwin. Para além de que o problema na Síria não é bem culpa do Trump. Ele vai tornar a coisa pior, sim, mas não foi ele que fez aquela merda.

04:00h - Adormeci.

09:30h - Dá entrada na esquadra da polícia um grupo de brancos a dançar e a cantar «Senhores guardas! Tínhamos uma estatueta de ouro na mão e veio um grupo de negros roubar-nos aquilo! Agarra que é ladrão!». Acordei e percebei que, num twist épico, mas que foi plagiado ao Humberto Bernardo, afinal o vencedor não foi o La La Land. Uma troca de envelopes lançou o caos no palco e, afinal, o vencedor foi o Moonlight. Pareceu-me uma metáfora dual à política norte-americana: por um lado, La La Land tinha ganho o voto popular e era dado como vencedor em todas as sondagens, mas viu-lhe retirado o galardão ao cortar a meta; por outro, todos gostavam que viesse um senhor de envelope na mão a dizer «Esperem, afinal o Trump não ganhou. Foi engano.».

Pronto, e foi isto. Escusam de passar para trás na box. De nada.





Gostaste? Odiaste? Deixa o teu comentário: