2 de fevereiro de 2017

Eutanásia: estás a sofrer? Aguenta e não chora.



A despenalização da eutanásia vai ser debatida na Assembleia da República. Há partidos a favor, uns que estão abertos ao debate, e, depois, há o partido democrata cristão em que a religião se sobrepõe a liberdade individual. Por algum motivo é que o CDS é o único partido que nem quer discutir o tema ou dar liberdade de escolha aos seus deputados. As suas convicções são dogmáticas com base naquela palhaçada de que a vida é sagrada, mesmo que sejam só duas células a sair pelo pipi. Ainda se a eutanásia fosse feita com os doentes numa arena a levar com bandarilhas no lombo! Aí, sim, talvez fossem a favor: «O doente terminal em sofrimento é uma raça que se iria extinguir se a eutouranásia acabar!», argumentariam.

As pessoas que se manifestam contra a eutanásia são pessoas que tem pouco que fazer na vida. Faltam-lhes hobbies e, por isso, têm tempo livre para opinar sobre o que os outros devem ou não fazer com a sua vida ou morte. A decisão de morrer deve ser a decisão mais fácil de fazer, porque se alguém decide que já não quer mais esta vida, é porque o sofrimento deve ser tão grande que a decisão foi fácil ou, pelo menos, com vontade. No entanto, vêm estes palermas dizer «Oh, deixa lá isso. Aguente as dores e não seja mariquinhas.». Tenho um desejo mórbido que todos os que são veemente contra a eutanásia, em qualquer situação, um dia se vejam presos numa cama de hospital, com comichão nas costas o dia todo, e sem conseguirem mexer mais do que a pálpebra direita para comunicar em código Morse e tentar engatar enfermeiras com um piscar de olho subtil. Se acham que estou a ser demasiado radical, lembrem-se do «Olho por olho, dente por dente.» que vem naquele livro que essas pessoas tanto gostam e que até se ensina a crianças.

E ainda dizem que o do Valter Hugo Mãe é que é ofensivo e faz mal aos cérebros imberbes dos petizes.

Li num estudo (na Internet) que quem é contra a eutanásia é, por norma, crente num ser superior. O pessoal que inventou a religião tinha muitos defeitos, mas nenhum deles era ser burro. É preciso alguma esperteza para criar e manter um negócio bilionário com milhares de anos! Por isso, criaram aquela lei do suicídio que é para as pessoas que têm uma vida de merda não anteciparem a sua mudança para o condomínio celestial, à base do tiro na mioleira. A eutanásia cai nessa lei: quem se suicida é xoninhas, como se no céu só tivessem lugar as pessoas rijas para andar à porrada de tanga no meio das nuvens fofinhas. Para estas pessoas, Deus, para além de ter oferecido uma doença terminal a uma pessoa, com sofrimento incluído, ainda tem a postura de «A ver se aguentas. Se não aguentares vais ter com o senhor Belzebu que aqui em cima é só para os duros!». Se Deus, realmente, tem um muro na fronteira do paraíso para barrar a entrada a quem se suicida, então Deus é uma espécie de porteiro de discoteca burgesso que abusa do poder. No fundo, acho que as pessoas pensam é «Se ele está a sofrer é porque mereceu, por isso, nada de lhe apaziguar a alma que Deus leva a mal quando lhe interrompem a tortura.».

«Olhe... sabe aquela cena de ontem de termos eutanasiado o seu pai? Então não é que... isto realmente há cada coisa... encontramos a cura hoje? Estava ali numa gaveta. Se o seu pai tivesse esperado mais um dia, hoje já tinha alta. Pronto, acontece.» Às vezes uma pessoa também se esquece de jogar no euromilhões e é quando sai a chave com que jogamos sempre. É a vida. «E se houver um milagre ou a medicina avançar abruptamente e aquela pessoa, que se via sem cura, tiver uma salvação?», dizem alguns. É um facto que há casos inexplicáveis e que, por vezes, surgem tratamentos experimentais que podem resultar contra todas as probabilidades, mas, ainda assim, é a pessoa que tem de decidir se quer fazer all in ou fazer fold e ir ter com o criador ajustar contas. Pergunto agora: e mesmo quando não há sinais cerebrais para que é que se desliga a ficha da tomada? E se, por um milagre científico, aquela pessoa conseguir ser reanimada daqui a uns anos? É que o corpo está mortiço, mas a alma pode estar ali dentro ao reboliço ainda pronta para as curvas. É manter toda a gente numa cama de hospital porque nunca se sabe. Ou embalsamar e meter na entrada como cabideiro e porta jóias.

Para mim, uma pessoa até podia escolher morrer se a doença não fosse grave:

- Já saíram os resultados dos exames.
- E então, doutor?
- É resfriado. Vou receitar-lhe um antibiótico.
- Resfriado? Fogo... que treta, só de pensar que vou andar com a garganta toda a arranhada e pingo no nariz durante duas semanas. Em vez do antibiótico passe-me dois supositórios de cianeto, pode ser?
- Claro, o doente é que sabe. Pronto, aqui tem. Para tomar depois da refeição que se for antes isto faz gases e estraga o velório.

E pronto, a pessoa ia fazer a vida dela para o outro lado. É uma estupidez uma pessoa suicidar-se por causa de um resfriado? Talvez, mas isso é la com as pessoas estúpidas.

O direito à estupidez é uma coisa bonita da liberdade que muita gente anda a tentar com que acabe.

Sim, há casos complicados, como no caso de serem menores, ou de não terem a capacidade de expressar a vontade ipsis verbis e ter de caber à família decidir. Essas situações têm de ser debatidas individualmente e analisar o melhor em cada caso. À partida não haverá situações destas: «S'outor! O meu filho pisou três peças de lego e está a ganir que nem um leitão vivo no espeto! Posso, com toda a misericórdia, abatê-lo com duas caixas de xanax e um litro de vodka?» Apesar de eu acreditar pouco em pessoas, dou-lhes mais crédito e acredito que, na maioria das situações vão decidir bem. Se no processo morrer um ou outro só por causa da herança ou do seguro de saúde, é da maneira que as seguradoras também levam uma talhada que bem merecem. 

Como nunca passei por isso, a minha posição é a seguinte: se a pessoa quer morrer e deixar de ter sofrimento, a escolha é dela e eu sou o maior otário do mundo se, em vez de lhe dar essa escolha, lhe der uma palmadinha nas costas e lhe disser «Oh, deixa-te disso. Mais cedo ou mais tarde vais morrer, até lá aguenta o processo doloroso e a falta de dignidade e deixa de te queixar. Pensa nos teus familiares que vêm cá todos os dias ver-te contorcer com dores a pedir a morte enquanto cospes bocados de pulmão e cotão do umbigo. Já não deve faltar muito. Vá, aguenta e não chora.».

Já tive de abater um cão porque tinha marcado umas férias e não aceitavam animais.

Antes de me chamarem nomes, fiquem a saber que o hotel estava com 50% de desconto! Mentira, tive de o abater porque estava com uma doença terminal e num sofrimento diário. Pensei que a decisão ia ser difícil, mas foi fácil. Foi só deixar de ser egoísta e perceber que não sentir nada é melhor do que só sentir dor e angústia. Tenho a certeza que ele ficou agradecido. Como a vida do meu cão tinha mais valor para mim do que 99,9% das vidas humanas, para mim é fácil dizer: deixem as pessoas morrer à vontade. Vai haver menos trânsito e mais lugares para estacionar. «Um assunto tão sério e tu a tratá-lo com tanta ligeireza, meu patife!», pensam alguns. A questão é essa: para mim não é sério. Para além de umas dores no joelho quando está para chover e de apanhar velhas a pagar trinta contas no multibanco, não há nada que me faça querer pôr termo à vida. É sério apenas para quem está a sofrer de tal forma que quer escolher morrer. E, como é sério para essas pessoas e não para mim, eu tenho de lhes dar a escolha a elas.





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